quinta-feira, outubro 16, 2025

Quinta, 16. 

Aquelas imagens terríveis em que o HAMAS liquida palestinianos que diziam ter sido cúmplices dos israelitas durante dois anos de guerra, são de uma violência sem igual. Pura selvajaria, puro desprezo pela condição humana, pura barbárie. O país está de novo sob o seu exército assassino, depois de os outros criminosos terem-se afastado para as margens concebidas no Acordo de Paz. Na realidade, bem vistas as coisas, estão as duas tropas frente a frente, aguardando recomeçar a guerra suspensa por alguns dias. Eu sempre desconfiei dos acordos de Trump, tudo organizado à pressa, na mira do Nobel que acabou por lhe escapar e agora os seus adjuntos e propagandistas querem seja alcançado no próximo ano. 

         - Ontem vieram aí os amigos almoçar. A mesa foi montada lá fora e em torno dela discutiu-se tudo e mais alguma coisa. Carlos surgiu muito diminuído o que me fez grande pena. Ele é a imagem do que nos vai acontecer: trôpego de pernas, curvado, surdo, com um fio de cabeça que ainda articula aquilo que tão bem aprendeu sobre os séculos XVII e XVIII no domínio da arte. Todos já ultrapassaram os oitenta, a Marília os noventa, e todo este quadro me alertou para o futuro... se futuro tiver. 


         - “Eu só não cortei, para mim passar depois com a motosserra.” Modo de falar do Sr. José Manuel que andou aí a aparar o relvado em torno da piscina. Prazer de ter ainda algum dinheiro para despejar nas mãos deste respeitável homem. 

         - Estou a ler um livro interessante de Marie Darrieussecq, traduzido por Diogo Paiva, Não dormir. Trata-se de um ensaio sobre a insónia e nele entram dezenas e dezenas de insones como ela, que levam as noites num desassossego onde o tempo se consome nas lutas pelo descanso, a matança dos demónios, as toneladas de narcóticos e técnicas de sortilégios, rituais, álcool, overdoses de soporíferos, corte das pálpebras como Marco Abílio Régulo, para dormir. Nele passam os grandes escritores, poucos escapam a esta tortura que desgasta e leva à morte tanta gente. Eu que sempre fui um privilegiado neste concerne, por ciclos curtos e não me tendo aproximado do seu nível de perdição, também me achego aos meus muitos fantasmas que por vezes me visitam pelas madrugadas. 


segunda-feira, outubro 13, 2025

Segunda, 13.

Entrei na sala onde estavam reunidos os escrutinadores: duas mulheres, um homem com um nome estrangeiro, uma rapariga e um rapaz. Uma das criaturas olhou-me assim que entrei, acompanhou-me com o olhar até à cabine secreta, e quando voltei para depositar os três votos onde estava selecionado João Ferreira, ela não tirava os olhos da minha pessoa. “Está a reconhecer-me de qualquer lado?” Ela acenou com a cabeça que sim. E eu: “Não sabe quem eu sou, mas também não lhe vou dizer.” “Tenho a impressão que o leio com frequência”, respondeu já nas minhas costas quando eu apressadamente saía da sala. 

         - O PSD parece que ganhou em todas as frentes. Ainda bem que Luís Montenegro corrigiu a boutade segundo a qual 2.300 euros é uma renda demasiado alta ao contrário do que havia dito e escrito. Salvou-se do trambolhão. Assim, durante algum tempo, fui acompanhando as apostas dos portugueses e os comentários dos comentadores. Aquilo parecia que estava tudo bêbado. Todos falavam do Chega, da sua implementação em todo o território, dos perigos que daí viriam; mas o que os quadros que íamos vendo no ecrã nos mostravam, era a não existência de votos no partido de Ventura. Com efeito, o próprio se auto-flagelou, ao admitir que os sonhos e as loucuras não se concretizaram e até havia recuado para terceira força autárquica. A primeira é agora o PSD, os socialista, coitados, ainda estão a sofrer da conduta de António Costa e do seu sucessor esquerdista, Sr. Nuno Santos. Não se levantarão tão depressa. Os pequenos resquícios partidários que se juntaram ao PS, foram literalmente liquidados. E penso que até foi por isso que o Partido Socialista sofreu a debandada de eleitores. Quem é que confia numa ninhada de tontos que tomam a actividade política por algo chique, à moda dos anos Sessenta, como se Salazar ainda estivesse em S. Bento. Todavia, para mim, uma vez mais o que me inquieta é a abstenção: 40,7%. 

         - Fui votar, mas antes comprimi um maço de algodão nos ouvidos para que não chegassem de novo as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa que nos incentivou a votar a pensar nos 36 mil milhões que aí vêem de Bruxelas. Que idiotice!  


sábado, outubro 11, 2025

Sábado, 11.

Ontem fui encontrar-me com o Paulo Santos. Durante um certo tempo estive a ler no telemóvel, o seu próximo livro dedicado ao pintor Pedroza cuja obra, magnífica, é consagrada ao mar e à paisagem marítima. Faço votos para que a Câmara de Oeiras não saia das mãos de Isaltino Moraes, pois é ele que costeará a edição. Fiquei contente com o prémio que a Marinha Francesa atribuiu ao seu livro anterior, publicado o ano passado, sobre a obra de Claude-Joseph Vernet. Ainda bem que Paulo Santos mandou às urtigas a vida política para se consagrar a construir obra artística de grande qualidade. Deixa-te ficar do nosso lado, querido amigo. 

         . Vejo todo o mundo satisfeito pelo fim da guerra na Faixa de Gaza. Também gostava de acreditar no acordo alcançado por Donald Trump, mas tudo o que leio é demasiado propagandístico para me convencer. Comigo estará muita gente, inclusive o Comité Nobel que não lhe deu o tão cobiçado e manobrado Prémio Nobel da Paz que foi para uma grande senhora da Venezuela, Maria Corina Machado, que não abandonou o país e nele continuou a enfrentar Nicolas Maduro enquanto o candidato à Presidência senhor Edmundo Urrutia, se refugiou em Espanha. Trump é tão bélico por natureza e egocentrismo, que está nos antípodas do humanismo que conduz o mundo à união e à paz. Com ele, antes e depois da paz, estão os negócios. O seu amigo Netanyahu deve começar a temer pelo cargo e a prisão. 

         - O modus operandi de Macron em política, permiti-lhe tudo e o seu contrário. Depois de ter aceitado a resignação de Sébastian Lecornu, voltou a nomeá-lo primeiro-ministro. E quanto a mim muito bem. Outro dia, estive a ouvir do princípio ao fim a longa entrevista que ele deu ao canal francês 2, e fiquei babaca. O homem é inteligente, digno, sério, seguro, capaz de compreender num relâmpago a situação. O panorama que traçou da França de hoje, é correcto e traduz alguém com cabeça, frieza e capacidade de endireitar as coisas.  

         - Amanhã vou ao Passos Manuel votar em João Ferreira. Eu não voto em partidos, comentadores, militares – voto em pessoas. De todos os autarcas que ouvi, só ele me convenceu pela integridade, o conhecimento, as causas e os valores sociais e colectivos. O PCP onde ele está filiado, fez muito bem em não se juntar àquela turbamulta que mete de tudo: “revolucionários”, gentalha de esquerda olé olé, oportunistas e grupos insignificantes que pretendem lugares onde ganhem algum e ocupem o tempo.  


quinta-feira, outubro 09, 2025

Quinta, 9.

Rogério Ribeiro com quem me cruzei muitas vezes, é figura de topo no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. Dois andares oferecem ao visitante uma mostra do muito que fez no domínio da pintura, desenho, azulejaria.  O artista, militante do PCP (julgo que para o fim da vida se desvinculou), trabalhou segundo o princípio que “todo o homem é político”, depois alargado a “tudo é política”, mesmo a forma como nos sentamos na sanita todas as manhãs... Bref. O que eu reprovo aos neo-realistas é a falta de liberdade, o sentimento de pertença a uma geração que em grande medida se anulou para seguir os evangelhos comunistas, numa espécie de padronização artística que ficou condicionada a expressões caritativas que realçam a supremacia dos líderes sobre o analfabetismo do povo português e da população em geral. A temática não varia muito e as personagens confundem-se com a paisagem envolvente, que denuncia o esforço humano, as condições de vida, a ignorância e a pobreza, enfim, a realidade social do país. É uma arte formal, cinzentona, repetitiva. Rogério Ribeiro como tantos outros da sua geração, faz da arte um meio de denúncia onde o povo se reconheça e a sua vida seja recordada por gerações futuras. Se compararmos, por exemplo, os desenhos de Álvaro Cunhal que, portanto, desenhava muito bem, identificamos logo o período, a época, as preocupações socais comuns a um grupo de neo-realistas que saiu das fráguas do Partido: pintores, escultores, escritores, ceramistas. As personagens são quase sempre homens e mulheres do povo, “do nosso povo” como ainda hoje gostam de dizer os líderes políticos. São seres estáticos, vergados ao peso do trabalho no campo, no mar, nas vastas zonas de cearas. E daqui não arredam os nossos neo-realistas, presos como ficaram a uma realidade que não avança, que não progride, como não se expande (e a escrita já agora) dos nossos simpáticos artistas. Há como que uma mortalha que desceu sobre a sua obra, amortalhando o gesto, a cor, o movimento, luz e a densidade que permite à arte galgar os limites de ideologia. O Neo-realismo não tem horizontes, não se abre à dúvida, à interrogação que permite aquilo e o seu contrário, são meros retratos que registam sob o labor monocórdico a monótona vida que só pertence a Portugal e daqui não se alarga em discussões e interpretações estéticas por detrás das quais se descobre a magia da arte. Mesmo quando na parte final da sua vida o pintor entra pelo expressionismo, é com o olhar do neo-realismo. Aqui vai lá longe, nos espaços vastos da sua memória, trazer à tela os mesmos retratos, as mesmas paisagens,  o mesmo olhar que tolhe o desenvolvimento pictórico. E todavia, esconde-se dos nossos olhos o outro artista, a magia que enche a tela, aquele que laboriosamente trabalha a tinta da china, esse labor meticuloso, essa intimidade com a arte ao milímetro, densa, abstracta, que as horas eternas da união com o objecto criado, fazem por magia ressuscitar a tela, enquanto objecto de arte e presença dos valores intrínsecos à sua natureza, o que não ousávamos ser possível e nos interpela e nos esmaga e nos desperta para o mundo metafísico de onde tanta coisa brota às vezes sem a consciência dos seus obreiros. Para não falar na cerâmica. Na exposição existem apenas duas peças. Contudo, elas desfecham uma perspectiva interessante sobre esse domínio artístico que pouco conheço de Rogério Ribeiro. Na primeira metade do século passado, quando o marxismo-leninista imperou como esperança e redenção do paraíso na terra, o realismo estalinista lançou os alicerces do neo-realismo que entre nós existiu por pouco tempo. Na URRS, o Comissariado para a Educação do Povo, não permitia aos artistas exprimirem o que lhes ia na alma e muitos foram os que viram as suas obras destruídas pelo fogo, com a simples e pateta ideia de que o povo não as compreendia, como aconteceu ao vanguardista ucraniano Kazimir Malevitch e a tantos outros, sem falar naqueles que inundaram igrejas e casas particulares com ícones de uma beleza sem igual. O próprio Lenine dizia:  “Não posso elogiar as obras dos expressionistas, futuristas, cubistas e outros “istas” como a máxima revelação do génio artístico. Não os entendo. Não me agradam”. É esta asserção que entre nós imperou, felizmente não com a brutalidade estalinista, mas como cópia franciscana do nosso pobre destino.  

Exemplos do que analisei




         - O SNS vai de mal a pior. O bebé que nasceu no chão do hospital no Norte é um exemplo de como se encontra a saúde. Não gostava de atribuir culpas à ministra, porque sei como anda a Administração Pública e a balda dos serviços, o atendimento aos cidadãos, a lotaria que vêm ganhando os médicos desde que passaram a tarefeiros. Muitas são as crianças que passaram a vir ao mundo dentro das ambulâncias que os bombeiros conduzem em busca do hospital que possa receber as parturientes. Um bombeiro aqui da Moita, outro dia, numa urgência a que teve de fazer de ginecologista, disse: “A vida não espera.” Aconselho o ministério a fazer desta frase o headline para todo o Serviço Nacional de Saúde.  

          - Amanhã o Comité Nobel vai atribuir o Nobel da Paz. Trump tudo tem feito para o merecer, invejoso por Barak Obama o ter ganhado em 2009. O seu plano de paz para a Faixa de Gaza não me parece credível. Pelo contrário, a ser posto em prática, vai gerar mais ódio e violência de parte a parte. Foi feito à pressa para estar pronto antes da reunião de Oslo. Assim vai o nosso mundo. Brrrrrrr! 


quarta-feira, outubro 08, 2025

Quarta, 8.

Ontem, tendo ido a Lisboa tratar de um assunto, desci em Entrecampos e fui ao centro comercial do Saldanha a pé. Lugar onde não entrava há muitos anos e o que vi horrorizou-me. Por todo o lado, instalou-se a vulgaridade, o salve-se-quem-puder, o mau gosto, a vida envolta na trapalhada do dia-a-dia. Talvez os mais novos não se dêem conta, crescidos neste marulhar sem sentido, empurrados pelas exigências do consumo, onde o rigor, a observação, o bom gosto não é recomendado. Um entre os demais, jamais um enquanto ser com primazia e sentido do valor fundamental da vida. 

         - Luís Montenegro apropriou-se da governação António Costa. Em poucos meses, pôs de lado o rigor, o equilíbrio, a sagesse. Ficou desonesto, do tipo banha-da-cobra, prometendo tudo num jogo de poder que se igualha a toda a mediocridade que nos tem governado. Lamento dizer isto, mas a sua pessoa e o modo como se tem apresentado ultimamente, equiparou-o a toda a ralé política que pretende representar-nos no imediato, para nos enjeitar no futuro.  

         - A “revolucionaria” que comanda as hostes esquerdistas do BE, regressada da grande aventura palestiniana, queimada do sol, cheia de orgulho pelo gesto inútil e infantil que empreendeu, pensava que seria eu e os portugueses que pagam os seus impostos com língua de fora, deviam pagar os custos da façanhice. Enganou-se. É ela e os seus afilhados, como lhes compete, que liquidarão os montantes da  propaganda que andou a fazer por lugares sagrados de tanto sofrimento. 

         - Ontem passaram dois anos e 67 mil mortes, sofrimento, dor e miséria para dois milhões e meio de palestinos. A guerra que Israel iniciou, transformou-se numa banalidade onde o ser humano foi reduzido a coisa nenhuma, um estorvo entre as ruínas em que a Faixa de Gaza se transformou. Não auguro nada de bom para a tratado de paz de Donald Trump. O cheiro a negócios paira sobre os túmulos dos que perderam a vida numa guerra onde os habitantes não possuíam armas e apenas lhes restava a fé em Alá. Como não esqueço as vítimas do HAMAS, a sua dignidade ao afirmarem que não querem nem nunca quiseram vingança, mas que Netanyahu para salvar a pele prosseguiu até à derrota final, aquela que não venceu nem vencerá e terá que se vergar a implorar a paz aos seus algozes. 

         - Tempo moche. Sem poder mergulhar, entreguei-me à leitura. Findei Pascal. O sexo e as suas implicações em Deus, nortearam o escritor até ao fim da vida. Libido, sentienti, libido sciendi, libido dominandi – eis a base da doutrina pascaliana: a carne, o espírito, a vontade que foram as preocupações também de S. Paulo. 


segunda-feira, outubro 06, 2025

Segunda, 6.

Regressaram frescos e combativos, os “revolucionários” compadecidos dos palestinianos. No aeroporto foram recebidos pelos seus adeptos assíduos, os mesmos que invadiram, domingo, a estação do Rossio e fizeram estragos e pelo menos um deles foi para o hospital por ter sido electrocutado num comboio. Dizem que foram muito maltratados, que não dormiram, passaram fome e assim. Mas a gente olha para eles e para os outros de outras nacionalidades que eu observei em estações de televisão internacionais, e não lhe vemos nenhuma marca de violência. A não ser que eles entendam que deviam ser recebidos na prisão com champanhe e palitos la raine

         - Estou a findar a releitura do livro Pascal com textos escolhidos e introdução de François Mauriac. Neste introito, quem se expõe é o autor de Le désert de l´amour. A dada altura diz ele: “Nous ne savons rien de Pascal amoureux, sinon qu´il parlait de l´amour comme quelqu´un qui en a souffert.” Quase me apetecia devolver estas palavras ao seu comentador... Quem conhece o antes e o pós-II Guerra, e conviveu com a plêiade de escritores que se conheciam e frequentavam – Jean Cocteau, Gide, Green, Mauriac, Jean Schlumberger, Robert de Saint-Jean, Gertrude Stein e passo -, sabe que espécie de convívio e sombras existia entre eles, uns mais às claras, outros resguardados pelos mandamentos da Santa Madre Igreja e dos códigos morais-sociais-pequeno-burgueses. O casamento era a fachada que lhes restituía uma certa dignidade moral, e encobria as traseiras onde a multiplicação de amores circunstanciais era o leit-motiv para toda a sorte de escapadelas e mordidelas no matrimónio. Pascal enferma da doutrina que S. Paulo largamente impôs, tendo por centro da vida humana o sexo ou o seu desvio dito natural. Jesus Cristo que nunca se pronunciou sobre o assunto, é para esta hipóstase existencial, o vingador, o que não permite ao homem os prazeres fora do contexto familiar abençoado pela Igreja. Como se todos nós perante Deus, fôssemos apenas a satisfação dos nossos instintos que nos desnorteiam e subjugam. Como se a exclusividade do amor, pudesse sobrepor-se ao desejo que a rua nos oferece e o nosso íntimo reclama. Tudo o que sai deste esquema simples, puro na sua essência desde que aceite no interior de cada um de nós, é ofensa a Deus, é pecado condenado à luz dos cânones religiosos. Depois, seguindo Blaise Pascal, naquela noite em que ele diz ter escutado a voz de Cristo e nos lega as Suas sublimes palavras: “Console-toi, tu ne me chercherais pas si tu ne m´avais trouvé. Je pensais à toi dans mon agonie, j´ai versé telle goutte de sang pour toi... Veux-tu qu´il me coûte toujours du sang de mon humanité sans que tu donnes des larmes?” Impressionante, não é? Contudo, para voltar a Mauriac, subsiste de que podridão de vida padeceu Pascal, que buscas pela satisfação dos instintos que, portanto, nos foram dados por Deus, foram as suas que não ousou revelar-nos, embora padecesse no corpo e na alma, levando-o à morte aos 39 anos de idade e a sua obra fundamental por acabar - Pensées. De duas uma: os “crimes” de Pascal foram cometidos com mulheres ou com homens. A moral e os bons costumes no século XVII, em Paris, não eram propriamente segredo para ninguém e a mulher francesa tanto se deitava com o rei Luís XIV, como com o jardineiro aperaltado e garboso que lhe tratava dos domínios. Restam os homens. Mauriac não ousa ir tão longe, mas deixa nas entrelinhas essa hipótese, pela insinuação da escrita, pela época, pela sua própria vida de que Green e Cocteau, sobretudo este, teriam muito a contar e, porque não dizê-lo, o último não se exibiu de narrar. É verdade que Pascal não centra os seus “pensamentos” somente na comezinha actividade humana da satisfação da sensualidade. Todavia, toda a obra reflecte essa obsessão que ainda hoje impera na Igreja, não obstante muitos dos seus padres, bispos e cardeais, empurrados pelos instintos (lá está) abjuraram dos seus mandamentos sem, contudo, imagino, perderem a fé. Pascal é muito pragmático na escolha dos temas, na exposição dos mesmos e no império religioso que subjaz em cada linha. Esta passagem: Ce n´est pas que mon intention soit de corriger un vice par un autre, et de ne faire nulles estime des anciens, parce que l´on en fait trop.” E vai mais longe: Je ne prétends pas banir leur autorité pour relever le raisonnement tout seule, quoique l´on veuille établir leur autorité seule au préjudice du raisonnement...” A isto chama-se autoridade, não só no tom como na perspectiva. 

         - Mantenhamo-nos em França, na de hoje, governada por Emmanuel Macron. O primeiro-ministro por ele nomeado há três semanas, acaba de apresentar a demissão. Sébastien Lecornu (citado quase sempre como S. Lecornu), disse na despedida que negociar em tão pouco tempo um orçamento, “é tarefa difícil, ainda mais neste momento” e bateu com a porta. A democracia resvala por todo o lado, destruída pela ambição dos partidos e o despudor dos confrontos frequentes nas ruas. É um regime maravilhoso que tende a acabar. Tornou-se demasiado frágil, exposto a todos os crimes, à corrupção que enxameia por todo o lado. Pela parte que me toca, só o refúgio em Deus me dá protecção. 


domingo, outubro 05, 2025

Domingo, 5.

Cada vez mais sinto que a Europa caminha para o desastre, que não é capaz nem tem políticos à altura deste momento que antecede uma guerra em larga escala. São tantas as experiências e ensaios que Putin tem feito e a Europa olha para o lado incapaz de lhe fazer frente (os pobres e alegretes portugueses satisfazem-se com futebol). Depois dos drones, os balões, as tentativas de abortar cabos submarinos, de interferir em eleições, chegou um certo cinismo de Moscovo, espécie de vitória antecipada. Antónia Costa, oh, ele!, convocou os dirigentes da UE para repensar o momento, mas as coisas não lhe saíram bem e quem acabou por se destacar foi a senhora Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, principal parceira na ajuda a Zelensky que afirmou o que poucos querem ver: “A União e a NATO já estão em guerra com a Rússia, (mas) uma guerra híbrida.” Putin pode agradecer ao seu amigo Trump. Os únicos que se têm vindo a destacar para além do maior Volodymyr Zelensky, é Macron e recentemente o chanceler alemão Josef Merz.

         - Estes números recentes e inquietantes da realidade nacional das famílias queridas:  35 mil agressões contra idosos, destas 35 por cento pelos filhinhos queridos. 

         - Apanhei uma cesta de marmelos; fiz compota de dióspiros com figos. A noite passada sonhei que Ana Boavida tinha morrido e eu a acompanhava ao cemitério. 


sábado, outubro 04, 2025

Sábado, 4.

O HAMAS parece estar de acordo com a proposta de Trump, mas... Com efeito, aquilo é uma planta de terraplanagem de uma vasta área que o senhor todo poderoso quer alterar, mas sem palestinianos lá dentro. Gaza e toda a Faixa, completamente destruída, não me lembro de ter visto, preto no branco, quem a vai edificar e como. Todo o projecto de paz está construído pensando nos interesses de Israel, como se os que há perto de cem anos lá vivem não contassem para coisa nenhuma. Com estes princípios não há paz que dure e dentro de pouco tempo o horror vai recomeçar.  

         - Nem a propósito, a senhorita Mortágua e seus muchachos, foram presos quando a (chamam-lhe “flotilha”) em que seguia arpoada em guerreira, foi interceptada e todos presos: ela, a menina Sofia, o menino Diogo e o menino Miguel. Nenhuma parte da missão “revolucionária” e “humanitária” foi realizada e eles sabiam perfeitamente que seria impossível a sua execução, portanto foi uma missão inútil, que eles pretendem política, mas que nem as pastilhas elásticas, os cremes, os medicamentos, as latas de atum, etc. chegaram aos destinatários. António Barreto, generoso, diz no Público que “o principal objectivo desta “missão” está alcançado: alertar a opinião pública do mundo inteiro (imagine-se como o mundo soletra o nome portentoso Mariana Mortágua) para a situação de calamidade que se vive em Gaza”. Oh, senhor historiador, com franqueza! Então o mundo ficou mais alerta e vai chorar lágrimas de crocodilo e atirar canhões por ventura desde que a senhorita portuguesa e os companheiros se fizeram ao mar e chegaram de mãos e pés atados os produtos atirados à água? Misteriosamente, de quem não se ouve falar, é da menina Thunberg - cabeça de cartaz da trupe revolucionária. Aqui há coisa... 

         - Ontem fui encontrar-me com o Corregedor na Brasileira. Fui porque lhe levei uma caixa de dióspiros para ele e para a Marília e porque lhe queria agradecer o almoço de ontem, completamente inopinado, em Vila Franca de Xira. Era já tarde quando deixámos o museu da sua eterna nostalgia e não víamos nenhum restaurante. Eis senão quando, avistamos uma pizaria. Entrámos de pé atrás. Que revelação! Éramos os únicos clientes e fomos atendidos por um indiano (o restaurante era todo ele indiano), rapaz ainda jovem com dois filhos e a viver entre nós há meia dúzia de anos. Que amabilidade! Que encanto e bom repasto aquilo que ele escolheu por nós e foi além de barato uma delícia. A tal ponto que, intimamente, venho dizendo que não tardará me meta no comboio e lá vá em passeio. Eis um imigrante que eu não posso dispensar. 

         - A semana finda hoje. Pois bem. Só quando fomos ao museu do Reo-Realismo não mergulhei. De resto, os dias de enfiada, meia hora preenchi eu a nadar e uma hora ao sol. Segundo as previsões, ainda devo poder aproveitar a piscina por toda a semana que vem, apesar de a água já não ter a temperatura do Verão.


quinta-feira, outubro 02, 2025

Quinta, 2 de Outubro.

Outro dia, ao entrar no cinema, encontrei a sala praticamente esgotada. Vi uma grande algazarra, e ao aproximar-me notei que se tratava de um homem, com bom aspecto, gordo, cabelos brancos, que berrava que dali não saía, que tinha pago o bilhete e, embora sendo idoso, não abria mãos dos seus direitos nem o polícia e o empregado o obrigariam a sair do lugar onde se encontrava. “Tenho 82 anos e vocês não fazem de mim o que querem” repetia sem descanso. Daí a um grande espaço de tempo, chegou outro policia fardado e o homem, nada temendo, prosseguia bramindo que com ele não brincavam. A sala na semi-escuridão, plena de espectadores que como eu não sabiam o que se passava, que razões assistiam ao heroico idoso, vendo a hora da sessão passar, esperavam pelo desfeito daquela cena bizarra. Quando aparece um autêntico batalhão de agentes fardados, dirigindo-se à cadeira do reticente espectador. O primeiro deles, o da frente, vinha já com o cassetete em punho, na direcção do pobre homem que não se intimidou e continuou a dizer que dali não saía. Entretanto, eu e muitíssimos mais (talvez mais de meia sala), vendo aquele aparato policial e a forma como encararam o pobre homem, desatámos a vociferar exigindo a saída da autoridade. Um longo período de negociações foi encetado, com a plateia onde alguns jovens se manifestavam contra o ancião dizendo que ele estava com “os miolos avariados”. Um desses estava perto de mim e eu aproveitei para lhe perguntar se era médico, ante a negativa disse alto e bom som: “Você deve pertencer à geração Trump”. Calou o bico. Já passara meia hora sobre o início da sessão, quando vejo quatro polícias a levarem o homem escada abaixo. Depois de súbito, sem que se percebesse porquê, o homem é deposto no chão e mesmo aí sempre a barafustar. Ali ficam todos em conferência uma data de tempo. Optam, então, por levantá-lo na direcção da saída. O ressuscitado  grita: “Ninguém bate palmas?” Com efeito, nenhum espectador o fez. Talvez porque se o fizesse, tivessem a aplaudir o desastroso serviço da polícia. Tantos valentes para um pobre senhor de 82 anos. 

Quando são precisos não parecem. Pois é. São fortes com os fracos e fracos com os fortes. 

         - O que será a Palestina governada por Donald Trump e o primeiro-ministro Tony Blair? 

         - Acabei de entrar de uma viagem a Vila Franca de Xira ao Museu do Neo-Realismo, empurrado pelo amigo do costume. Um dia deste voltarei ao assunto. 


terça-feira, setembro 30, 2025

Terça, 30.

Considero o acto do HAMAS em 7 de Outubro de 23 uma acção terrorista contra a qual estou em completo desacordo. Não esqueço, todavia, que a organização foi em grande medida protegida e tolerada por Netanyahu, pensando que desse modo teria mais sossego na sua governação e escaparia à sentença do tribunal onde vários crimes estavam a ser julgados. De outro modo não se compreende, tendo Israel o estatuto de país mais seguro, com exército e sistema de informação de topo, pudessem uns quantos terroristas entrado no seu território e praticado a morte e capturado centenas de israelitas. Seguiram-se três anos de guerra, contrariamente ao projecto do primeiro-ministro e sua clique, que pensavam dominar e exterminar todos os elementos do HAMAS em semanas. Enganaram-se e a guerra que mantêm é contra os palestinianos, crianças, velhos e cidadãos indefesos, uma guerra que até podia ser cómica se não fosse tão injusta com 67 mil palestinianos mortos, um país destruído, fome e miséria, tudo contra meia dúzia de homens entrincheirados ao longo da Faixa de Gaza. Esta é a verdadeira vergonha de Netanyahu e seus camaradas. Tanta destruição, tanta morte e o seu objectivo ao fim destes anos não foi alcançado, não obstante um Exército treinado, a maior carga de mísseis, drones, artilharia pesada para matar indefesos, enquanto os culpados resistem e é com eles que Netanyahu e seus cúmplices, finalmente vão ter de negociar a paz. Ironia do destino. 

Pois bem. Ontem Trump e Netanyahu, parece que assinaram um acordo de paz. Estive a ler os seus princípios que o HAMAS ainda não rubricou, mas não me parece serem suficientemente morais e sólidos para que o mundo dê o Prémio Nobel da Paz a Trump e Netanyahu possa escapar ileso dos tribunais que o acusam de corrupção. Ainda por cima com o senhor Tony Blair metido no assunto, um tipo que desde a anterior intervenção se mostrou incapaz, somente preocupado com a boa-vida, gozando e esbanjando o cargo que lhe foi confiado, espécie de teddy boy à moda antiga.  


segunda-feira, setembro 29, 2025

Segunda, 29.

Batalha atrás de Baralha o filme de Paul Thomas Anderson. Que dizer? Apetecia-me afirmar que é mais uma ameracanice, mas qualquer coisa vista ao pormenor leva-me a questioná-lo.  É verdade que está cheio de lugares comuns, de ideias feitas, e a própria narrativa é confusa e deve agradar à extrema-esquerda como à direita. Até porque Trump perpassa-o e é impossível não pensar no seu governo, sem um bafo de incredulidade. Apetecer-me-ia mesmo dizer que os imigrantes são o tapete que melhor convém ao realizador na sua batalha pelas novas tecnologias, o ruído infernal das armas, os ódios expostos ao vómito, o ritmo desenfreado dos planos, das passagens súbitas, do enredo que com dificuldade segue, o atropelo técnico. A sociedade num todo, está sujeita àquele comité reaccionário de extrema-direita que secretamente move os cordelinhos sociais e políticos e faz imperar a desordem como meio de se manter no poder. Contudo, a ideia que Anderson parece querer passar é infantil, descoordenada, longe da realidade palpável do mundo, espécie de retorno à infância com seus sonhos e quimeras protegidos pela inocência tendo por suporte o amor. É, julgo, para qualquer espectador o desfecho: fabulosas imagens do deserto, com a terrível perseguição de duas ou três personagens principais, com especial atenção ao trabalho de DiCaprio e da banda sonora e temas entoados ao longo das entediantes fugas de carros uns atrás dos outros, uns contra os outros – lanceiro que o espectador pouco dado a pensar aprecia. Mesmo assim, aconselho os meus leitores a irem ver o trabalho de Paul Thomas Anderson.  Há um certo humor infantil, por vezes deslocado, mas que nos faz sorrir. Pode estar ali o melhor da América. 

         - Ontem pude confirmar aquilo que aqui disse dos africanos, a saber: são eles que abrem os dias e fecham as noites. O fertagus, aos fins-de-semana, está por sua conta. Na ida é a desordem, os telefones em altos berros, as crianças que choram, fazem birras; na volta é o sossego, o cansaço, o olhar perdido na paisagem tão escura como os seus corações cansados, os seus rostos descaídos. Apesar disso, a meu lado, um rapaz negro lia Diário de um Ceu. 

         - Quer-me parecer que Luís Montenegro vai perder as autárquicas devido àquela lei estúpida  e selectiva da habitação. O homem está cada vez mais arrogante, contrário à imagem do início do seu mandato. O poder subiu à cabeça do industrial do imobiliário? 

         - Assim como a audição na Assembleia ao Presidente do Banco de Portugal. Mário Centeno, honesto e competente, bateu-se bem contra aquelas figuras insignificantes do CDS e PSD (Paulo Núncio e Alberto Fonseca), apontando os anos e teses que são precisos para fazer parte da equipa do Banco – coisa que os dois deputados da direita ignoravam, tendo feito carreira como cordeiros amamentados pelas cúpulas dos partidos. Queriam que ele deixasse o Banco, mas Centeno respondeu: “É evidente que eu vou ficar no Banco de Portugal (quando deixar o cargo de Presidente). Eu estou no Banco de Portugal há 35 anos.” Defendeu as colegas que eles atacavam afirmando o mérito delas, os estudos, ensaios económicos, e provas dadas ao longo de um caminho duro até chegar à principal instituição bancária do país. A verdade é esta: a mediocridade que tomou de assalto sindicatos, associações, Governo sabe que é por essas portas que alcançam o poder e uma vez instalados julgam-se todos poderosos. Pertencem à geração Trump os pobres desgraçados. 

         - O Verão meteu fim-de-semana e empurrou o Outono com uma carga de chuva. Hoje, inesperadamente, regressou com temperaturas de 30 graus e promete ficar até domingo que vem. Tenho a piscina impecável e espero mantê-la assim até ao fim destes dias quentes e cheios de sol. Dia encantatório, espécie de êxtase nas dobras da luz clara da manhã estatelada até o fim de tarde, ligeira brisa a fazer dançar os braços das árvores que começam a embelezar-se com os tons outonais. Apetece-me gritar de exultação.   


sexta-feira, setembro 26, 2025

Sexta, 26.

Estive a ler o plano do Governo para a habitação: um sonho dourado para especuladores imobiliários. O mal destes e dos outros governantes, é viverem num mundo que não toca minimamente o real. Portugal está condenado a ser um imenso espaço aberto para sem- abrigos. Até se compreende, o primeiro-ministro é dono de meia centena de prédios, casas, arrecadações, garagens e passo. Pobres portugueses que tão maus governantes têm. Desde a sinistra Cristas que os descamisados vêm sendo despejados para as ruas como entulho. Toda a classe política devia ser banida, está cheia de vícios, compadrios, arrogância, incompetência, falcatruas, corrupção. 

         - O vulgar Sarkosy foi condenado a cinco anos de prisão efectiva. Atrás das grades vai poder treinar os tiques que imprimem no seu rosto o desprezo pelos outros. Que a solidão e o castigo lhe dê densidade humana. 

         - Depois de ter deixado a Alzira, refugiei-me para ganhar o dia, na Fnac. A dada altura entra a mulher ainda jovem que costumo encontrar muitas vezes absorta no seu trabalho que pela primeira vez me cumprimenta. Não tarda saberemos ambos de que natureza somos feitos. 

         - Corrigi até à página cinquenta e de seguida parei absorto a pensar nas palavras da escritora Maria Ondina Braga. Nunca nos conhecemos pessoalmente, mas sabia por outros escritores e mulheres de cultura, que ela adorava os meus livros e dizia a quem queria ouvir que eles eram muito cerebrais e havia neles muita filosofia - justamente aquilo que me pareceu ao reler hoje as páginas escritas há dois anos. 


quinta-feira, setembro 25, 2025

Quinta, 25.

O lúcido discurso de Zelensky na Assembleia das Nações Unidas, devia ter sido motivo bastante para alertar o mundo para o estado periclitante em que se encontra. “Não é o direito internacional, não é a cooperação internacional – as armas decidem quem sobrevive” disse o Presidente da Ucrânia. Trump também esteve no mesmo fórum sempre imprevisível, sempre descompensado. Desta vez, foi ao ponto de desdizer tudo aquilo que anda a declarar desde que chegou ao poder. Para grande surpresa do mundo inteiro ali reunido enquanto nações, afirmou que Kiev tem condições para reconquistar todo o território actualmente ocupado pela Rússia. E disse mais, fora do Hemiciclo, quando os jornalistas lhe perguntaram se os países frequentemente sobrevoados por aviões russos deviam abatê-los, respondeu sem hesitar que sim.  Contudo, oh! contudo mais tarde, o seu secretário de Estado, Marco Rubio, reafirmou a necessidade de negociações imediatas entre a Ucrânia e a Rússia. A habitual patada no cravo e outra na ferradura. 

         - Os Açores fecharam-se em casa, correram as persianas, trancaram as portas, e tolhidos entre si, esperam a fúria do furacão que tem semeado desgraças e mortes por onde passou – o Gabrielle. Depois do Ragasa que ainda anda pela China, surge este, todos com nomes humanos, como para nos apaziguar assim como quem diz “desculpa lá qualquer coisinha”. 

         - Deu-se o caso de ter ido ao LIDL comprar um par de calções para trazer por aqui não sabendo onde guardei os que há anos me serviam. Chegado à caixa onde estava uma velha amiga sempre de sorriso e boa disposição, disse-lhe que tinha perdido as calças e daí ter adquirido as que trazia nas mãos. Pergunta-me ela: “Então não sabe onde perdeu as calças?” “Não.” Gargalhada forte da sua parte extensiva aos que estavam atrás de mim. Insistia ela muito admirada: “Essa agora! Então não sabe onde deixou as calças!” Ante o espectáculo que de súbito se gerou, com clientes a rirem com vontade e a empregada muito corada, informei: “Sabe, eu frequento muitas camas e decerto em alguma esqueci ou tive de fugir à pressa.” Agitação geral. Deixei o estabelecimento deixando para trás o coro dos clientes a rirem à desgarrada. 

         - Vou fazer meia hora de natação. Está um sol magnífico por aqui, quente sem magoar, céu limpo e virgem, silêncio alastrado ao interior do tempo que com tempo se arrasta para a eternidade...


quarta-feira, setembro 24, 2025

Quarta, 24.

O artigo do Publico de segunda-feira assinado entre outros por uma pessoa que estimo, Helena Roseta, fala do projecto Housing First para acudir as 13.128  pessoas em situação de sem-abrigo que actualmente dormem na rua, mas não explica cabalmente como funciona. Diz-se que foi aplicado com sucesso na Finlândia, Dinamarca e Áustria e oferece uma situação definitiva para os necessitados e ainda por cima mais barata que os modelos-tapa-buracos até aqui postos a funcionar. Como gosto de andar informado, fui à Internet e obtive a resposta: “O Housing First é um modelo de intervenção social para pessoas em situação de sem-abrigo, que consiste em dar acesso imediato a habitação individualizada e permanente no mercado comum, sem pré-condições, e um acompanhamento psicossocial voluntário para promover a autonomia e reintegração social.” Depois a sua aplicabilidade: “As casas do modelo Housing First vêm de um investimento público e privado no mercado de arrendamento, onde proprietários privados "contratam" as suas casas para serem usadas em projetos de habitação social, como o caso em Lisboa, que conta com 340 casas arrendadas da autarquia. O modelo nasceu em Nova Iorque na década de 90 e foi implementado em Portugal em 2009, sendo a casa vista como um direito humano básico.” Só um reparo: a parolice do nome estrangeiro. A nossa língua anda tão pobre, que até duas simples palavras não encontram tradução.   

         - Trump esteve no seu melhor (ou pior) quando praguejou na ONU contra tudo e contra todos, sobretudo contra a Organização que em tempos fez obras e não aceitou trabalhar com a sua empresa. 

         - Chamam-lhe supertufão Ragasa e à sua passagem por Taiwan rumo à China, fez pelo menos 14 mortos e abateu centenas de árvores, habitações e causou grossas inundações. Em Macau as rajadas de vento atingiram 148 quilómetros/hora. Toda a Ásia foi afectada e os prejuízos são incalculáveis. 

         - A personalidade vulcânica ao tempo ministro das Infra-Estruturas e ex-Secretário-geral do PS, está a ser desvendada através da bagunça que foi a cena do despedimento da presidente da TAP, senhora Christine Ourmières-Widene, e da ex-administradora Alexandra Reis e respectivas indemnizações, pelo hoje deputado do Partido Socialista cognominado Vasco Gonçalves.   

         - Entre nós, o bom tempo com temperaturas a subir e noites mais frescas, têm-me permitido largas braçadas na piscina. Apesar de a água estar já fria, não hesito em mergulhar e vou mantê-la própria até, pelo menos, o fim deste mês meados de Outubro.

         - O outro furacão de raça humana esteve aí hoje. Como nunca tinha encontrado ninguém com tanta garra, jamais me habilitei a limpar as largas árvores junto à casa. Estou a fazê-lo agora. Só que, o Sr. José Manuel, leva tudo a eito e o que vejo é o que almejava ver mas de forma atenuada. A razia foi tal, que expus a casa a quem no caminho lá em baixo passar – coisa que não me agrada. Para me serenar, diz-me o meu auxiliar, “isto na Primavera rebenta tudo”.   

Não se pense que se trata de raiz de árvore. Não. É de silva que tinha braços da grossura do meu pulso. 


terça-feira, setembro 23, 2025

Terça, 23.

À pressa, o Chega apresentou uma parte do seu governo-sombra. Aquilo parece uma matilha tresmalhada com um ou outro elemento respeitável que não se percebe porque aderiram ao projecto. O partido de André Ventura é apenas ele e aquelas personagens sinistras que o acompanham no Parlamento. Tudo aquilo é risível. 

         - Eu voto para as autarquias na minha cidade natal. E o meu voto vai para João Ferreira. É o homem mais sério e com ideias impecáveis e deve por direito pertencer à equipa que sair vitoriosa das eleições. 

         - Nas Nações Unidas Portugal reconheceu o Estado da Palestina. Com ele uma vasta camada de outros países impulsionados por Macron que tem a cabeça a prémio no seu país, mas levado a cabo acções muito importantes no domínio internacional. Pergunta-se que utilidade prática tem o movimento de nações do mundo (veja-se foto) sobre Israel, se o inclino da Casa Branca, reles especulador imobiliário, apoia assassinos e corruptos como Benjamim Netanyahu, dispostos a fazer da Faixa de Gaza o paraíso para americanos multimilionários. Por agora talvez pouco. Mas os tempos mudam e não há memória de aqueles que utilizaram o poder em seu proveito próprio, dizimaram povos, praticaram o genocídio, destruíram cidades inteiras, reduziram a condição humana à aniquilação, possam sobreviver ao castigo exemplar que os espera.   

         - Ontem, assim que cheguei de Lisboa, apanhei a primeira meia dúzia de dióspiros. A árvore está pesada de tanto fruto e daqui para a frente vai ser colher o fruto todos os dias. Não vejo hora de meter as mãos na massa e começar a encher frascos de compota. Francamente, um homem assim dotado, quem o levar, leva uma mina de ouro... 


sábado, setembro 20, 2025

Sábado, 20.

Ontem fui almoçar com o João ao Tascardoso o restaurante no Príncipe Real tão do seu agrado. Encontrámo-nos na Brasileira onde ficámos até à uma e meia à conversa. Na mesa ao lado, uma turista brasileira a viver há muitos anos na Noruega, mete conversa connosco. Trabalha no hospital central da capital e a dada altura, falando-se de religiões, o João atira: “Aqui o meu amigo é ultra-católico.” Pensei “que quererá o tipo dizer com isto?” para logo abandonar a preocupação, sabendo que o homem é todo política e que na enxurrada vai também Jesus Cristo.

         - Voltaram os incêndios no Norte: Viseu, Oliveira do Hospital, Coimbra. 

          - Mais um teste russo com dois caças a sobrevoarem a Estónia. Putin, esperto, aproveita o ego inchado de Trump para executar os ensaios necessários à investida da guerra. A Europa, como sempre, limita-se a condenar “a provocação perigosa”. Todos parecem ignorar a inquietação de von der Leyen: “A questão central é muito simples: A Europa tem estômago para este combate? Tem a unidade? O sentido de urgência? A vontade política e a capacidade de compromisso?” Respondo-lhe eu: NÃO. Acabaram de regressar de férias e estão muito cansados. Essas perguntas são demasiado complicadas e levam-nos a deixar a vidinha querida, as viagens pagas, as reuniões divertidas seguidas de almoços abundantes, os ordenados milionários e a jactância de que somos imbuídos. 

         - Como se previa, a jangada dos revolucionários rumo a Faixa de Gaza, correu para o torto. As crianças de vida confortável, que adoram praticar a caridade e empavonar a pobreza, embora vivam como médios-burgueses de consciência lixeira, em pleno mar, desentenderam-se. Resultado: a menina Thunberg deixou a sua decorativa embarcação e foi prosseguir caminho noutro barco. A revolucionaria dos três costados, menina Mariana Mortágua, ficou ao óculo do arrasto, triste, a vê-la desviar os holofotes mundiais da sua pessoa.  


quinta-feira, setembro 18, 2025

Quinta, 18.

A França sempre foi difícil de governar, mas hoje, apertada de dívidas, empurra para as grandes fortunas a sua liquidação. Como os sindicatos têm mais força que os partidos -  não obstante como se sabe serem a sua cabeça, corpo e membros -, despejaram nas ruas milhares de franceses a contestar as medidas do primeiro-ministro demissionário e contra o actual na série de governantes que em pouco tempo Macron pôs à frente do destino do país. Vai daí, prevenindo-se, o Governo atirou para as ruas das cidades do Norte ao Sul, 80 mil agentes da autoridade. No estado em que se encontram as democracias europeias, não auguro nada de bom para a querida liberdade tão ameaçada como nunca esteve.  

         - Londres ajoelhou-se ante Donald Trump numa visita dita de Estado. Aquilo é um espectáculo vergonhoso que nos entorpece os sentidos. Como é possível que uma  nação antiga, cheia de tradições e defensora da liberdade, se possa ajoujar diante de um especulador imobiliário! Felizmente que nas ruas os ingleses que não esquecem o passado e o presente do visitante e dizem alto e bom som aquilo que a hipócrita política não tem tomates para dizer (desculpem o tom, mas saiu assim, assim ficará). 

         - André Ventura cujo partido é ele e mais ninguém, ao ponto de nem sequer conseguir apresentar um governo-sombra como prometeu, abandonou a Assembleia onde se discutiam problemas que interessam aos portugueses, para falar à multidão de imigrantes que se juntou em frente do Parlamento pacificamente a pedir celeridade nos vistos de permanência no país. Eles repudiaram e bem a sua demagógica presença e disseram bem alto o desprezo que nutrem por ele.  A maneira de fazer política neste homem, é uma forma permanente de empurrar a ambição para onde os ventos sopram de feição. 

         - Dia intenso e belíssimo. Andou aí o diamante puro que é o Sr. José Manuel. A quinta está a ficar um espanto idêntico ao que o saudoso Roman conseguiu. Trabalhei desde as oito a seu lado, acartando a matéria que se ia acumulando dos cortes de árvores, arbustos, erva daninha, e arrumação e serragem de achas para o inverno. Olhando o resultado, logo conclui não haver precisão de comprar lenha – facto que me encanta devido ao muito que gastei este ano por aqui. 

         - E depois? Depois pergunto-me onde se escondem as dores do corpo que me atormentavam há ainda três meses. Desapareceram as escrófulas, esconderam-se decerto entre as vértebras as picadas, os tendões parecem ter deixado o meu corpo, os artelhos esticaram, os músculos alargaram, as pernas ficaram mais ágeis, mesma aquela que os homens maduros tanto invejam ou aqueloutra que as donzelas e os rapazinhos salivam ao admirar a originalidade, todo o meu corpo em uníssono canta a alegria de haver invertido o trote da velhice. Tudo isso graças aos trinta minutos de natação (ou “nadação” como diz em O Rés-do-Chão de Madame Juju a dita personagem). A piscina é para mim não um estatuto, mas o ginásio inteiro que desde tenra idade me declaravam nunca dever dispensar. Assim, entrei na rotina saudável de para além da sua prática, ficar uma hora ao sol para recolher a vitamina D indispensável ao sabor terno e doce do meu bem-estar. 

         - Ontem fui a Lisboa. Sem esquecer o tricot, depois do almoço, sentei-me na Fnac e avancei na correcção do romance. Vim logo a correr, sob calor sufocante, mergulhar. Não entendo como a água se preserva com índices de cloro e PH correctos. Continuo a achar que o skymer não funciona como antigamente, apesar do corte e costura do Nilton, mas já me estou nas tintas e só desejo que ela aguente até ao fim desta última dose de Verão. 


terça-feira, setembro 16, 2025

Terça, 16.

Vi e ouvi a primeira maratona de entrevistas aos candidatos autárquicos, com a vantagem de ter ficado esclarecido que não voltarei a ver outra que vier. Tanto a candidata à Câmara de Lisboa do PS como Carlos Moedas não me interessaram minimamente, sobrando as franjas ideológicas que me pareceram mais sólidas: João Ferreira do PCP e Bruno Mascarenhas do Chega. Sobretudo aquele, que mostrou mais conhecimento, mais consenso nos objectivos e mais equilíbrio social e político. A senhora foi francamente fracota, com a lição tirada dos manuais do bocejo. Um ausente se agigantou: António Costa. Durante o seu reinado e ainda por cima com maioria, nunca se ocupou da habitação e só o começou a fazer quando os jovens desceram às ruas reivindicando um tecto. A pagaille ainda vai no adro. 

         - Os avisos são cada vez mais explícitos. A Polónia não pára de interceptar drones e deteve dois bielorrussos. Os EUA atacaram navio venezuelano e mataram três pessoas. Israel destrói e intensifica bombardeamentos a Gaza. 

         - A situação do SNS é cada vez mais complicada e insustentável. Nisto misturam-se interesses privados e públicos e os médicos não são hoje o que foram os seus antecessores. Agora é o lucro que conta e quase nada a entrega aos doentes e à profissão. Tornaram-se funcionários públicos ou empregados dos sectores privados que inventaram um estratagema que os contrata enquanto médicos independentes que ganham à hora a preços elevadíssimos quando comparados com os que auferem os seus colegas efectivos nos hospitais públicos. São brigadas que chegam e partem, não pertencem a nenhum senhor, estão ao serviço de quem lhes der mais.  Aí não parece haver deontologia alguma, faltam quando lhes apetece e não se responsabilizam por equipas disponíveis nos hospitais públicos. Daí a angústia da ministra em criar equipas de médicos aptos a servir as populações, em particular as grávidas. Governar em democracia, está cada vez mais difícil. Portanto os povos tendem a encostar-se aos ditadores e oligarcas. Dito de outro modo, à extrema-direita ou extra-esquerda. 


segunda-feira, setembro 15, 2025

Segunda, 15.

Novo ataque de Israel ao Iémen. Que eu me lembre, Benjamin Netanyahu, já bombardeou uns quantos países soberanos – Irão, Qatar, Síria, Líbano, Iémen  para não falar da Faixa de Gaza, Cisjordânia e passo. A tudo se permite o homem que governa Israel, com as costas quentes de Trump e como ele com a mesma arrogância de senhor do Médio Oriente. Até quando? 

         - É preciso que se registe, que a morte do apoiante número um de Donald Trump, Charlie Kirk,  assassinado numa universidade americana, é fruto da liberdade que cada americano possui de usar armas de fogo e de que o actual chefe da Casa Branca é acérrimo defensor. 

         - A ONU aprovou a resolução que pede a solução de dois Estados para Israel e Palestina. Na sessão foi condenada de forma explicita o HAMAS e foi aprovada com 142 votos a favor, 10 contra e 12 abstenções. Contra votaram os EUA, Israel e Hungria, a República Chega absteve-se. De assinalar que todos os países europeus votaram a favor. 

         - No Nepal a nova primeira-ministra, Sushila Karki, foi aclamada pela dita Geração Z, aquela que quer ver o Governo invadido por miúdos da sua geração. 

         - A engenhoca que o Nilton montou no skymer, aparentemente resultou: a água deixou de verter e tem-se conservado em bom funcionamento. Quem se vai aproveitar sobretudo quando um novo Verão chegou, sei eu quem é. 

         - Bolsonaro parece que não escapa da cadeia por bons e fartos anos. O Nilton que o apoia sem reservas, ao saber da sentença, diz que o vai visitar logo que vá ao Brasil.


sábado, setembro 13, 2025

Sábado, 13.

Acabei com grande pena a leitura do livro de Carl Seelig. Numa das derradeiras caminhadas com o escritor Robert Walser, eles abordam a morte de Estaline ocorrida em 1953. O autor de Os Irmãos Tanner, diz: “Sempre me repugnou o incenso que mandava espalhar à sua volta. Rodeado de servilismo, acabou por converter-se num ídolo, incapaz de viver como uma pessoa normal. Talvez houvesse nele algo de genial, mas aos povos convém mais serem governados por naturezas medíocres. Um génio esconde quase sempre um lado maligno, que os povos acabam por ter de pagar com sofrimento, sangue e vergonha. “

         - Vivi esta tarde como se fosse um monge retido no convento. Durante horas preparei e confeccionei uns quantos frascos de compota de figo que a árvore me deu em derradeiro suspiro. 

         - Os tumultos no Nepal, tal como fizeram os manifestantes na Libéria, levaram os descontentes a incendiar o Parlamento e casas de governantes que acusam de corruptos e prédios na capital Katmandu. Dos incidentes resultaram mais de 34 mortos e 1.300 feridos. O primeiro-ministro demitiu-se e os manifestantes na maioria jovens, querem à frente do Governo um jovem como eles. Na confusão, centenas de reclusos evadiram-se de uma cadeia nepalesa. Assim vai o mundo. Por todo o lado, há todos os dias uma lavareda que se atiça. 

         - Voltou aí o Nilton. Os remendos que fez no skimer parece ter resultado e eu posso ter água conveniente até ao fim da época estival, isto é, lá para meados de Outubro. 


sexta-feira, setembro 12, 2025

Sexta, 12.

Depois de uma noite de pesadelos (aquela aflição já minha conhecida, indo eu a conduzir, eis que surge uma ladeira muito íngreme e, de súbito, o mar imenso) acordo numa aflição, no preciso momento em que vou a resvalar para o fundo das águas. Apesar disso, calças verdes e t-shirt rosa, diáfano, despacho-me para Lisboa onde tenho vários assuntos a tratar. Sem tempo para almoçar, desço à cave do Celeiro e engulo uma sopa de cenoura e gengibre, uma empada de atum e um doce de chocolate e ei-lo a correr a vários sítios até desaguar no meu querido café da Fnac. Comigo, claro, foi o croché. Em duas horas revi 20 páginas e, sentindo-me satisfeito, rumei ao meu poiso onde me esperava o Nilton agarrado à resolução do skymer remendado à sua maneira.  

         - No fertágus, dois negros na minha frente muito jovens. Ela ingressou no comboio uma estação antes dele e quando o rapaz entrou encontrou-a sentada nas cadeiras vermelhas dos prioritários que são para os pretos uma tentação. O moço abeirou-se e beijou-a na boca e deixou-se ficar perto dela, enlaçado pela cintura, o resto do corpo esguio projectado muito para cima da cabeça da rapariga. Esta de cara contra a barrida em beijos ao sexo do negrito que, olhando para todo o lado, não podia esconder o que vinha crescendo contra sua vontade. Ele bem metia a mão dentro das calças desportivas para acalmar o impaciente, mas ela não parava de assentar os lábios naquilo que decerto lhe parecia um gelado. À sua volta um misto de escândalo e abrenúncio. 

         - Vítor Escária, o homem dos 75 mil euros distribuídos por vários sítios no seu gabinete em São Bento, acaba de ser nomeado para director do Instituto Superior de Gestão. Antes foi assessor de José Sócrates e chefe do gabinete de António Costa. A isto chama-se Portugal sem vergonha nem ética. 

         - As greves no Metro voltaram. Decerto outras virão em breve em muitos outros sectores. Eu sou dos que insistem que é preciso mudar a lei da greve. Não é justo que “o nosso povo” seja sacrificado às mãos de sindicatos que se dizem seus representantes e carregam-no com sacrifícios, perdas de viagens nos passes, deslocações inúteis, esperas cansativas e brutais, diminuição de salários. Depois admiram-se que o Chega tenha nesta altura a maioria dos votos para as autarquias. Um partido sem gente ou com gente bizarra: gatunos, pirómanos, agressores sexuais, etc..  

         - O calor voltou em força e eu não vejo hora de continuar as minhas meias horas diárias de natação. 


quinta-feira, setembro 11, 2025

Quinta, 11.

Já aqui reflecti sobre aquilo a que os políticos chamam “responsabilidade política” e que eu por muitas voltas que dê à cabeça não consigo decifrar. O que me ocorre é zero. Porque acusar um político de responsabilidade, é encobri-lo dos desastres que eventualmente praticou quando em cargos públicos. Reparem. Quando um político é acusado de laxismo ou falta de competência para o cargo, o que lhe acontece é apenas ser demitido e vai à sua vidinha antiga, tranquilamente. Outro dia Marcelo Rebelo de Sousa tentou decifrar o que significa “responsabilidade política” nestes termos: “Responsabilidade política há... Quem quer que exerça um cargo político é politicamente responsável. Quem está à frente de uma instituição pública, está sujeito a um juízo político por aquilo que aconteça de menos bem nessa instituição, mesmo sem culpa nenhuma, mesmo que em intervenção nenhuma.” Perceberam? Eu patavina. Charabiá puro. 

         - Isto vem a propósito do acidente no elevador da Glória, como eu previ nunca saberemos a quem atribuir responsabilidades. A trapalhada é já tanta, que os tribunais não vão conseguir acusar ninguém. Porque a mentira tomou conta dos meandros terríveis que levaram à morte 16 pessoas. Continuo a pensar que todo o drama nacional nasce do laxismo público, dos cargos oferecidos aos camaradas dos partidos, das conivências, da corrupção que grassa por todo o lado. Não há quem tome conta desta malandragem, desta sofreguidão pelo poder, desta luta entre partidos que não têm nem nunca tiveram em conta o interesse nacional. Com uma administração pública encharcada de funcionários, dependentes do Orçamento de Estado, um exército de velhos submissos de subsídios, sem dignidade, apodrecendo ao sol triste do fim de vida, com uma pobreza solidamente estabelecida nos dois milhões e meio de indigentes, salários baixos e resignação é natural que aceitem por destinado o que os políticos matreiros lhes oferecem. 

         - Aqui como por todo o lado. Um exemplo. A moda dos “influencer” nem sempre acaba bem. Um activista que tentava influenciar a juventude trumpista, foi assassinado a tiro numa universidade dos EUA. Republicanos e democratas uniram-se na condenação. Pois, sim. 

          - Trago aí o Sr. José Manuel verdadeiro espalha-brasas. O homem, com 70 anos, não pára um momento e até a mim me dá fanicos. Voltou também o Nilton porque o skymer que ele havia reparo, abriu fenda. Eu desde a primeira hora que desconfiava. No mês de Agosto a coisa andou bem, o equilíbrio do cloro e PH foi satisfatório. Ele quer aplicar uma cola, mas eu já me vou preparando para o substituir.


quarta-feira, setembro 10, 2025

Quarta, 10.

A Netanyahu e seus muchachos tudo é permito. Desta vez, sobrevoou um país independente, o Qatar, e despejou uma série de bombas sobre o edifício onde era suposto estarem reunidos chefes militares e outros do HAMAS. Com as costas quentes daquele grupo de salteadores governados por Trump, nada teme tudo lhe é devido. Deste modo, ficou mais longe a possibilidade de um acordo de cessar fogo na Faixa de Gaza, sítio mártir para dois milhões e meio de palestinianos. Aquilo não são gente, são selvagens descrentes de Yahvé cuja doutrina não se assemelha em nada à sua prática quotidiana. 

         - A propósito. Há um grupo de “revolucionários” onde se inclui a senhorita do BE, que vai numa jangada libertadora dos pobres palestinos. Não devemos levar a sério tais iniciativas. Aquilo é uma festa de oportunistas incautos, que quer impor a si próprios um estatuto para o qual não têm estômago, nem capacidade política ou outra. Propaganda, propaganda para que te quero! 

         - As Forças Armadas da Polónia, abateram pelo menos uma dezena de drones que entraram no seu espaço aéreo, quando a Ucrânia estava uma vez mais a ser atacada por Moscovo. Foi a primeira vez que um Estado-membro da NATO disparou contra armamento bélico da Federação Russa. As ameaças da Europa surgiram na ladainha do costume. Putin já enviou demasiados avisos, fez muitos testes, um dia destes, quando menos se esperar, começa a guerra. Trump continua a dizer que vai retaliar com sanções económicas que não ralam de modo nenhum o ditador. O mundo está sobre um vulcão de pólvora. 

         - Aquelas cenas asquerosas de sul-coreanos, acorrentados de mãos e pés, a subir para as carrinhas que os devolverão ao seu destino natal, a mando do capaz que a tudo se impõe como deus omnipresente, são para além de inumanas, criminosas. 


segunda-feira, setembro 08, 2025

Segunda, 8.

Os franceses que têm a vida em oscilação incerta, 90 por cento disseram que não acreditam na classe política. Têm razão. É ela que nos traz de volta os regimes totalitários de esquerda ou direita. 

         - Tem sido para mim uma feliz descoberta a personalidade e a obra de Robert Walser. O amigo Carl Seelig, que o ia buscar ao sanatório onde o escritor passou os últimos trinta anos de vida num hospício em Herisau, Suíça, sofrendo de depressão e esquizofrenia, para o exercício de caminhadas através de bosques, lugares isolados, montes e vales em redor de Sankt Gallen. Desses passeios, nasceu o livro que vou lendo o mais lentamente possível, porque não me quero desfazer-me dele tão depressa. Estas spaziergangswissenschaft ou seja “Caminhologia”, termo criado pelo sociólogo suíço Lucios Burckhard, oferecem-nos a personalidade, a vida e obra de um autor que tudo fez para se ausentar da fama e do proveito que os seus livros lhe ofereciam. Ele próprio o diz: “Quero viver com o povo e desaparecer no seu seio. É o que mais se adequa ao meu modo de ser.” E esta a propósito de Paul Morand : “A vida social é um veneno para o artista. Retira-lhe densidade e leva-o a fazer compromissos.“ Que pensaria ele dos escritores dos nossos dias, grandes génios, mas cujas obras não passam do terceiro dia de publicação, embora ufanos em passagens televisivas, radiofónicas, presenças em escolas, simpósios, feiras, plenários, ufa, estou estafado.  

         - Vou citar uma frase deste autor, que define muito bem a intervenção daquele que nos desgovernou e veio agora do fundo da sua arrogância em defesa da que pelo seu partido se candidata à Câmara de Lisboa: “As pessoas que vivem na mó de baixo, e não vêem meio de satisfazer os seus desejos, aproveitam sempre a oportunidade para prejudicar quem está ainda mais abaixo. A sua alegria provém da infelicidade alheia, que é o meio de que dispõem para saciar a sua sede de vingança.” Todavia, ao Vasco Gonçalves do PS, aquele que à maneira de François Hollande atirou o seu partido para a valeta, respondeu muito acertadamente o actual autarca de Lisboa. Surpreendeu-me. 

         - Dia majestoso, abençoado, dependurado da vibrante presença de um ente superior que eu chamo divindade. Muito trabalho, mas em harmonia com a serenidade e uma certa ascese.   


domingo, setembro 07, 2025

Domingo, 7.

Os testes são cada vez mais evidentes e só Trump, talvez com um projecto ainda não completamente conhecido, não vê o evidente. O seu amigo Putin, acabou de atingir com um drone o gabinete ministerial da primeira-ministra ucraniana. Se é clara a estratégia do ditador russo, não é de todo conhecido o que vai na cabeça do Presidente dos EUA, que parece ir no impulso do dia, da disposição, do humor e da clientela que o cerca. 

         - É tão tonto o resultado da primeira inspecção ao que aconteceu no elevador da Glória. O cabo partiu e daí, parece ser a interrogação para os 16 mortos e feridos. 

         - Acordei a meio da noite para escutar por breves instantes a chuva que caía forte. Foi uma bênção neste dia que me esperava como é hábito umas horas duras a regar e a puxar mangueiras. Ontem ainda consegui a minha diária meia hora de natação. Hoje reservei-me para colher um cesto de alfazema em flor que fui distribuindo pelas jarras dispersas por toda a casa. 

         - Ontem Mai Hong perguntou-me se já estava a comer mais. Ela e o filho Minh Nam, surpreendiam-se com o pouco que ingeria todos os dias. De facto, tendo visto fotos que me mandaram de visitas que fizemos juntos, verifiquei que estava muito magro. Já comecei a engordar e esta manhã vi na balança que tinha mais 800 gramas. O problema é que detesto comer, faço-o apenas por sobrevivência. 


sábado, setembro 06, 2025

Sábado, 6.

Como se previa o festival de elogios mútuos, escondia a tradicional incompetência e laxismo da Administração Pública. Afinal parece que o desastre no elevador da Glória, não tinha gente competente à altura do projecto – facto que qualquer cidadão minimamente expedito detectou. Deixei-me louvar o candidato à Presidência da República pelo PCP, António Filipe, que ressurgiu da algaraviada com palavras justas, simples, e sem suplementos partidários sobre o terrível acontecimento. Resta esperar agora que o tempo e o silêncio que o acompanha, abafe os sentimentos hipócritas, as palavras cristãs de ocasião, os salamaleques de protocolo. Talvez para a próxima década, conheçamos (eu decerto já cá não devo estar) o motivo de tantos mortos e feridos. 

         - Mais uma vez me assalta o privilégio que é ser funcionário público em Portugal. Não pode ser despedido, ganha mais que no sector privado, é arrogante no atendimento, tem a reforma por inteiro (penso), e nada lhe acontece que faça acelerar a sua vidinha sincopada pelo relógio sucessivamente consultado para a saída das repartições. Querem um exemplo? Ontem, estando eu a aguardar o fertagus no regresso a casa pelas duas da tarde, ouço nos altifalantes: “O comboio para Faro tem um atraso de 54 minutos. Pedimos desculpa pelo incómodo.” Os barões da CP ganham acima da média nacional. 


quinta-feira, setembro 04, 2025

Quinta, 4.

Acabou de sair daqui o Sr. José Manuel. Que homem admirável, integro, sério no trabalho! Reservou a manhã para cortar árvores secas, serrar os troncos para a lareira, de modo a que não tenha de comprar este ano lenha. Conversámos um pouco, mas logo ele: “Se ficarmos aqui à conversa eu não faço o trabalho e vossemecê está a pagar-me.” 

         - Ontem, em Lisboa, um acidente nos elevadores da Glória matou até ao momento 16 pessoas entre nacionais e estrangeiros e feriu uma vintena. Parece que um dos cabos cedeu e os ascensores precipitaram-se por ali abaixo até aos Restauradores. Não se conhece o motivo, embora se saiba que os empregados da Carris vinham reclamando vistoria aos veículos. A moda de os organismos públicos entregarem aos privados os serviços que lhes compete manter, parece estar na origem do desastre. A semana passada andei por lá com os meus amigos. 

         - Todavia, à boa maneira portuguesa, os políticos, compungidos, deram um show de populismo, crendice e cinismo quando entre si e chamando a Judiciária, a Polícia, os bombeiros, os dirigentes da Carris, para não falar na troca de louvores e competências entre Governo e Presidente da Câmara de Lisboa, num rosário de agradecimentos e elogios profissionais, como se isso não fosse a obrigação de todos os que estão em cargos públicos. Resta apurar responsabilidades e aí é que a porca torce o rabo. Aquele documento, criado à ultima hora, afirmando que os elevadores tinham sido fiscalizados no dia mesmo do trágico acidente, a mim dar-me-ia vontade de rir não fosse a gravidade do caso. “Vão-se apurar responsabilidades”, proclamam o primeiro-ministro, o seu colega de partido autarca de Lisboa, e mais não sei quem. Sim, sim. Depois segue-se o julgamento dos culpados (se se encontrarem) que se eternizará como aconteceu com o processo BES, alguns crimes de José Sócrates e outros mais, por exemplo, o cartel da banca que ficou desobrigado de pagar coimas no valor de 225 milhões por... prescrição.  A Justiça está de rastos e com ela a democracia, os cidadãos, a ordem pública. Mas quem assim fala, é logo apelidado de reaccionário, de extra-direita e outros epítetos caros aos correligionários. Por mim, dou louvores à liberdade e à independência de ideias, ao olhar atento que não tropeça em ideologias e traça o caminho livre que tem o outro por objectivo e o colectivo por união. Quem do meu ponto de vista merece um louvor, são os médicos que em greve ou de férias, prontamente se apresentaram nos hospitais para acudir a quem necessitava.  


quarta-feira, setembro 03, 2025

Quarta, 3.

Ontem dei um salto a Lisboa para tratar de um assunto e na volta abanquei na Fnac. Lá encontrei os leitores do costume debruçados sobre os livros e os passantes apressados da bica ao balcão. Lembrei-me do Lionel quando uma manhã lhe tracei a visita à Baixa lisboeta e depois o encontro naquele lugar para o almoço. Posteriormente, estando nós aqui sós, ele a ler um ensaio sobre Vasco da Gama, eu a escrevinhar coisas que me ocorriam ao cérebro, ambos sentados lá fora sob o toldo, disparou: “Aquele café na Fnac é onde costumas escrever?” Perante a positiva, acrescentou: “Também me pareceu pelo número de intelectuais que lá vi. – Mas olha que lá não vou pela frequentação, mas pelo sossego. – Então e a Brasileira que disseste ser encontro de homens da cultura. –Isso foi no passado, no tempo da ditadura. – Por isso, sem te querer magoar, quando nos lá levastes achei aquilo impróprio para o debate de ideias devido ao movimento dos turistas. Até aqueles velhotes que me apontastes serem o que restam desse tempo, achei estarem ali abandonados.” 

         - Comecei o dia a colher figos e amoras. Obriguei-me a não arredar pé deste espaço de forma a cumprir uma série de projectos. Desde logo regas, de seguida, intercalando a escrita com a leitura, fui fazendo compota de figo – uma paixão que me enche de prazer. Eu se habitasse em França ou nos EUA, seria rico só com a transformação da fruta em um doce de comer e chorar por mais. No fim do dia, mergulhei para meia hora de natação. 

         - Nunca tal me aconteceu. Marquei consulta para a minha médica de família, e só obtive data para... 30 de Outubro! Antes, isto é, há meia dúzia de meses, ainda era possível conseguir em duas semanas. Isto prova a degradação da Saúde em Portugal. Não sei de quem é a culpa, a ideologia de esquerda quer o impossível, a de direita o cruzamento da doença com o enriquecimento de uns quantos. 

         - Aquele trio sinistro Vladimir Putin, Xi Jinping ping ping, Kim Jong-un, reunidos na capital da China com o propósito de assinalar o fim da Segunda Guerra Mundial, parece mais um ditame que antecipa o princípio da terceira guerra. Avisos não faltaram no discurso do ditador chinês diante de um exército autómato, espécie de gnomos emergindo do fundo dos tempos, com toda a caterva de material militar: miíseis supersónicos, navios, aviação, veículos blindados, de forma a pôr em sentido a Europa e os EUA. É esta a paz que estes tipos apregoam querer. 

Olha que três...

         - Já agora. Putin diz não se opor à entrada da Ucrânia na UE. Mas que tem ele a ver com isso e que importância tem o seu acordo, se o país é independente e capaz de preparar o seu futuro e o dos seus cidadãos! Que, de resto, antes da invasão russa se tinha manifestado aos milhares pela adesão à União Europeia. 

        - Há dias, forte tremor de terra, abalou o Afeganistão. Imagens impressionantes, pessoas despedaçadas de dor pelos familiares mortos e pelo futuro imediato numa terra governada por sectários em nome de deuses que sentenciam um destino de escravatura, humilhação e desprezo pela vida humana. 


segunda-feira, setembro 01, 2025

Segunda, 1 de Setembro. 

Estaremos nós em face de uma segunda edição de Trump à portuguesa? Fiquei muito admirado com o montante imobiliário do primeiro-ministro. Não é que ele não tenha direito a ser dono de casas, apartamentos, casinhas e terrenos, mas porque, devido à opção por esse meio de riqueza, tendo ele feito  carreira de deputado, me surpreendeu. Sinceramente, neste tocante, prefiro mil vezes Marcelo Rebelo de Sousa. Eu se abraçasse a carreira política, não teria a ideia de enriquecer por este meio ligado à especulação imobiliária. E depois, pobre homem! Então o Presidente da Assembleia, do mesmo partido, não se esqueceu de indicar na folha dos seus bens uns quantos apartamentos! E aquele rapaz do BE, e o antes do actual Secretário-Geral do PS, e... 

         - Entrámos numa espécie de adeus aos fogos. Ou melhor dizendo: Bye bye seus danados, até para o ano com repetições iguais ou piores, com estes ou outros políticos, a incompetência é sempre a mesma. 

         - Reintegrei o silêncio na vida e neste espaço. Ainda tenho muito para arrumar, mas o grosso foi feito ontem. A pouco e pouco vou comendo o que ficou no frigorífico, coisas que nunca tinham entrado nos meus hábitos alimentares, mas económico como sou, entendo não dever desperdiçar. Porcarias: chouriços, cremes, gelados gordurosos, sumos, fiambre, queijos de vaca, manteiga e compotas, cerveja, etc. O que mais me surpreendia neles, Mai Hong e Lionel, era o facto de ambos serem médicos no hospital de Estrasburgo e engolirem tanta imundície. Uma vez perguntei ao meu amigo quanto tinha de colesterol. Não sabia. E disse-me que em consulta, dizia aos seus pacientes para comerem e beberem de tudo. Insisti. Respondeu que vai para o hospital todos os dias de bicicleta (cerca de vinte minutos) e isso bastava para não se preocupar. Todavia, uma vez em casa dele, quando o vi a devorar um queijo enorme num ápice, levantei a questão, ele respondeu: “Olha, num país como nosso, com tanta coisa boa, centenas de queijos diferentes, é uma pena não aproveitar.” Hoje está com uma barriga de professor. Nu, o zizi desaparece. 

         - Vou nadar.


domingo, agosto 31, 2025

Domingo, 31.

Às quatro da manhã despedi-me dos meus amigos. Voltei ao vale dos lençóis para acordar pelas oito e escutar a casa mergulhada num silêncio sepulcral. Depois de uma semana envolvido num vendaval de vozes, movimento, desordem senti que o vazio se instalava com dificuldade. Uma parte da manhã foi dedicada a repor a ordem, a recolocar nos sítios aquilo que os objectos sem o exprimir acham ser os lugares que lhes pertencem. A seguir veio o começo da rotina, essa arma com dois bicos, que tanto nos serve como nos gruda ao bocejo. Cerca do meio-dia tinha voltado o silêncio e achava-me de retorno aos circuitos pedestres, automobilísticos, à azafama que enche as horas porque os circuitos sensíveis não podendo parar entregam-se a uma qualquer forma de quotidiano  que dê expressão e continuidade à vida. 

         - Enquanto isso, em Gaza a guerra não tem tréguas. Não há uma alma que suspenda o ódio e a vingança de Netanyahu e da sua equipa assassina que banalizou a morte e fez dela um negócio rentável. O líder dos houthis do Iémen foi morto com mais uns quantos ministros num ataque aéreo levado a cabo por Israel. Assim como, foi assassinado a tiro o presidente do Parlamento de ucraniano, Andrii Parubil. São os dois lados de um mundo que se vai preparando para o pior. Eu não temo por mim, mas por todos os jovens que serão envolvidos numa guerra sem vencedores nem vencidos. 

         - Na Libéria, após meses de tensão, os manifestantes pró-presidente do Parlamento acusado de corrupção, deitaram fogo ao edifício. Os tumultos duram há semanas e são a expressão de descontentamento que grassa por todo o lado. 

         - Não sei como, tenho a piscina belíssima, água limpa e cristalina, temperatura fabulosa. É para lá que vou, depois de apor estas linhas diante dos olhos dos meus leitores. 


sábado, agosto 30, 2025

Sábado, 30.

Esta manhã levei os meus amigos a visitar a Gulbenkian. Não passei da sempre admirável Paula Rego, considerando que quase tudo o resto pouco interesse tem para mim. Como continuo a considerar que o grande alpendre e a pala do arquitecto nipónico, estão ali completamente desvirtuados. Uma chinesice como diriam no séc. XV os chineses quando do envolvimento dos jesuítas por aquelas paragens. 

         - Em breve tornarei à minha santa rotina. Esta vida airada não faz o meu género, sobretudo quando arrastada por dois adolescentes em continuo agarrados aos telemóveis e por uma mulher vietnamita cujo pensamento, modo de reagir e filosofia de vida está nos antípodas da nossa forma de olhar o mundo e tudo o que nos rodeia. Sendo médica, é pelo dinheiro que escolheu a profissão. Pelos vistos, em França, a coisa rende.  

          - “A democracia não cai às mãos de assaltantes, começa por cair dentro de si. É o mau governo, a desigualdade, a corrupção, a indiferença social e a arrogância dos democratas e das esquerdas que são o viveiro das ditaduras, das aventuras da extrema-direita, de todos os populismos deste mundo.” António Barreto, Público de hoje. 


quinta-feira, agosto 28, 2025

Quinta, 28.

A vida desorganizada, vadia, sem horários para nada, nem refeições às horas estabelecidas, está quase a terminar. Aqui em casa tropeço em chinelos, sapatos, ténis por todo o lado: cozinha, à entrada do salão, no início das escadas que nos levam aos quartos, à porta destes, assim como mesas e bancas cheias de loiça, o frigorífico a abarrotar como nunca esteve. Esta desordem, é frequente quando as novas gerações são criadas no desleixo familiar que tudo faz para não contrariar os filhinhos queridos. A educação nas responsabilidades, no respeito pelos pais, na vida em comum dentro e fora do lar, não se faz porque não se deve contrariar meninos e meninas que mais tarde farão dos progenitores capacho para o chão quando não bode expiatório de todas as exigências que, uma vez contrariadas, logo acabam em agressão, abandono dos pais em lares manhosos, hospitais, quantas vezes na rua. O neto da Piedade, a semana passada, ameaçou matá-la. Ela veio aí chorar e dizer-me que nunca terá coragem para chamar a Polícia e nunca o porá na rua. A isto chamam amor maternal. 

         - Há uma vantagem nesta forma de vida: o desligamento da realidade. Desde a semana passada que não sei o que é feito do meu país, o que aconteceu no mundo, que guerras começaram, que crises terminaram, quantos palestinianos mais morreram e ucranianos e russos e... Este interregno foi-me salutar, mas ilusório. Foi decerto uma forma de egoísmo, talvez de cansaço ou desilusão, de fuga para a frente de modo a reconstituir o equilíbrio indispensável capaz de criar os anticorpos que nos permitem a abertura da visão clara sobre os outros e nós próprios. É bom estar de volta à realidade e deixar para trás as fantasias que a obscuram e transformam os factos numa indiferença criminosa.  

         - Marcelo sempre imprevisível, considera Donald Trump “um activo soviético ou russo”. 

         - A noite passada foi terrível para a Ucrânia. Kiev atacada com mísseis, duas dezenas de pessoas mortas, a sede a União Europeia atingida. Um aviso claro de Putin à Europa com o apoio de Trump. A guerra aproxima-se, o ditador russo vai paulatinamente testando os meios e as oportunidades de sair vencedor. A UE e os EUA fazem aquilo que sempre têm feito: ameaçam com medidas económicas que pouco ou nada têm afligido Vladimir Putin. Um déspota tem sempre a faca e o queijo na mão, queira ou não queira o povo. 


quarta-feira, agosto 27, 2025

Quarta, 27.

Do longo passeio que nos levou a Caldas da Rainha, Foz do Arelho e por fim Óbidos, ficou-me uma triste impressão de um Portugal que não reconheço como sendo meu. Encheram vilas e cidades de automóveis, de gente ao jeito de novos-ricos, pacóvia, inchada de valores superficiais que derretem mal chegam ao calcetado. Pergunta-se como vive, com que dinheiro, o português médio a quem os preços elevados não assustam, o desnorte da paisagem, as estradas entupidas, as cidades entregues ao turismo que tudo submete e destrói, nada disso os inquieta, os revolta, os faz rever as opções que os sucessivos governos tomaram em seu nome. Óbidos é disso o exemplo mais fragrante. Há anos que lá não ia e foi com espanto e revolta que arrastei os pés pelas suas ruas, levantei os olhos a fachadas, vi pelo menos uma igreja transformada em espaço comercial, o conjunto da velha fortificação transfigurada num verdadeiro centro comercial a céu aberto, com toda a espécie de porcarias, inutilidades, porta sim, porta sim, numa gigantesca pocilga que me obrigou a desistir e ficar à conversa com o Lionel num banco de pedra, enquanto os restantes amigos subiam e desciam ruas e becos seduzidos por insignificâncias que não dão sentido nenhum à vida antes a reduzem a necessidades frívolas. Se me fosse possível dar um conselho aos meus leitores, diria para não porem os pés num sítio desorganizado, pateta e destruidor dos valores do passado tão necessários ao impedimento oco e desleixado e corrupto dos nossos dias. Aquilo é também a prova provada da cultura saloia dos presidentes de câmara, gente sem formação, sem cultura, sem o mínimo de bom-gosto para quem o importante é desmontar o passado construindo o futuro sobre os alicerces da propaganda, da vaidade, da corrupção e da imagem untada do horror. 


terça-feira, agosto 26, 2025

Terça, 26. 

Outro dia, pelas 10 da noite, estando eu sentado num pequeno café no aeroporto a aguardar a chegada dos meus amigos, sou sacudido por uma velha personagem que reconhecendo-me se precipitou para mim pedindo-me um abraço. Era o filho mais novo de um casal simpático que tinha um restaurante na Quinta do Anjo onde eu ia com frequência quando cheguei a Palmela. Abraçou-me forte. “Você está na mesma, o físico igual, lembro-me das histórias que contava, você tinha sempre histórias para contar.” Despejado o saco, reconheci o sorriso do rapaz de então, hoje quase intocável não fora a simpatia de circunstância que me obrigou a oferecer-lhe os meus óculos para lobrigar a realidade. “Você continua a escrever?” “Quando me deixam, sim.” Depois convidou-me a visitá-lo na sua quinta no topo do monte sobranceiro a uma terriola chamada Cabanas. 

         - A propósito. Na meia hora que estive a aguardar a chegada dos meus amigos, em face das chegadas, àquela hora tardia, era impressionante as toneladas de gente que brotava da boca escancarada. A capital sofria uma invasão nocturna, a todos os minutos passavam para o lado de cá centenas e centenas de turistas e naturais. Aqueles quintuplicavam estes e perguntava-me como pode Lisboa receber tanta gente. Que mistério se desenrola que nos deixa atónitos, aflitos mesmo, ante a invasão descontrolada de mundos que mal tocam o nosso, reconhecida no Chiado onde hoje estive, imagem da desordem, da descaracterização, montada na euforia das pedras todas colocadas pelos Governos num só lado – o turismo. 

         - Lionel contou-me que na unidade que dirige no hospital de Estrasburgo, há um padre que lhe disse não acreditar na existência de Deus. Será possível?

         - Vou despachar-me porque vamos hoje a Caldas da Rainha ver Bordallo Pinheiro.


sexta-feira, agosto 22, 2025

Sexta, 22.

A ONU há mais de um ano que tem vindo a alertar para a fome na Faixa de Gaza. Ontem, declarou oficialmente em tom sonoro, que a fome é uma realidade.  Mais de meio milhão de pessoas vive com fome em Gaza e o número poderá vir a aumentar nas próximas semanas.  Como de costume, Israel rejeita a análise que diz ser propaganda do Hamas. A verdade é que mais de meio milhão de palestinianos vive com fome e o número não pára de crescer. Segundo as Nações Unidas “somando Khan Yunis (29,5%) e Deir el-Balah (16%), a situação de fome poderá abranger cerca de dois terços da área total da Faixa de Gaza, um território de 365 quilómetros quadrados onde vivem mais de dois milhões de palestinianos”. O ataque de 7 de outubro causou a morte de cerca de 1200 pessoas e 250 reféns em Israel. Por sua vez, a ofensiva israelita em grande escala provocou mais de 62.190 mortes em Gaza, a maioria civis, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza, considerados fiáveis pela ONU. Netanyahu, o mentiroso do regime, desmente e empurra para o HAMAS a culpa como se as modernas tecnologias não nos dessem a ver o iniludível.  

         - Como se o mundo estivesse bem e se recomendasse, eis que Trump abre nova frente de combate, desta vez ao narcotráfico. Mandou para a Venezuela três navios de guerra e 4500 soldados, Maduro mobilizou de imediato milhões de milicianos. Mais: duplicou para 43 milhões de euros a recompensa por informações que levem à captura do Presidente venezuelano, que acusou de ser um narcotraficante. 

         - No fundo, no fundo Trump pensa que pode comprar o Prémio Nobel da Paz. Meteu isso na cabeça e ninguém lhe tira a ambição por legítima. Os negócios para ele são uma forma de estabelecer a paz entre os povos. Ainda não se viu nada de construtivo, mas ele apregoa não sei quantos acordos de paz. O dois, Putin e ele, apoiam-se mutuamente. 

         - O tempo arrefeceu ligeiramente; os fogos continuam a reduzir a cinzas milhares de hectares de floresta. Há fogos que duram há semanas. Montenegro apresentou um plano para lhes fazer frente e de ajuda aos prejuízos. O senhor Brilhante do PS, passando por cima o desastroso serviço em 2017, contesta. O costume. O pós-fogos vai ser igualzinho a todos os outros na dupla PS/PSD que tem governado este pobre país.