domingo, maio 31, 2026

Domingo, 31.

Diz José Luís Carneiro a propósito do terramoto no PS com a prisão e posterior liberdade condicionada dos quatro tubarões do partido que se enlamearam em dois milhões de euros com esquemas fraudulentos, os militantes “é bom que tenham consciência que quando desempenham funções em nome do PS estão a representar uma massa humana de muitos milhares de pessoas, são quase 100 mil militantes e estão a representar muitos simpatizantes por todo o país” referindo-se à operação Imergente da PJ. Compreendi. A moral e a ética só se aplicam aos militantes dentro do seu partido, fora enquanto conduta de todo o ser humano, não. 

         - Hoje tive a honra de assistir à missa directamente da Madeira. A celebrá-la o nosso profissional da fé, padre Tony. Entrou pela porta do fundo, muito engalanado, de cabeça erguida, sorriso feliz, relógio num pulso e no outro uma bracelete, a calvície lustrada, a palavra rendilhada, de peito feito e sedução q.b. O que um diocesano tem de ultrapassar para chegar a Deus! 

         - Ontem, tendo terminado os arranjos do texto nas 100 primeiras páginas do romance, comecei a imprimir as restantes. Acontece que há muito não pegava nele e já não me lembrava até onde ia a história de Ana Boavida. O tinteiro esgotou-se na 263. Vou ter um trabalho imenso para reler o conjunto de forma a reencontrar-me com a minha heroína. Um romance é uma prisão onde vivemos perdidos e atarantados.    

 

sábado, maio 30, 2026

 Sábado, 30.

A política portuguesa é fértil em cantilenas. Não há semana nenhuma que os senhores políticos não encontrem uma forma de fugir aos problemas que afligem o “nosso povo”, entretendo-se com fait-divers que lhes dão um tesão vertical (desculpem o vernáculo, saiu assim, assim ficará. Que, de resto, também tenho direito se tivermos em conta aquela de Passos Coelho “políticos prostitutos”.). Aí temos mais um. O recente eleito ministro da Administração Interna, Luís Neves, foi buscar o major-general Paulo Viegas Nunes para presidir ao SIRESP de má memória e pouco préstimo. Acontece que este senhor, tinha ocupado o cargo entre 2023-2024 quando António Pombeiro era secretário-geral adjunto do sistema e o acusa agora de graves irregularidades e António Costa (lá vem ele) de triste memória governava o país. António Pombeiro, que não havia gostado das falhas monumentais do readmitido major e, inclusive, aponta-lhe muita corrupção quando exerceu o cargo, demitiu-se em protesto acusando-o de manobras de toda a ordem expostas na praça pública. Acode Luís Neves dizendo estar consciente dos relatórios, documentos e acusações que envolvem a gestão do SIRESP ao tempo daquele que voltou, mas garante que nada se apurou que pudesse impedir a escolha de Viegas Nunes. Também José Luís Carneiro veio em seu auxílio afirmando que só tinha louvores para a honestidade e desempenho técnico do major-general quando ocupou o cargo hoje preenchido por Luís Neves. Pelo exposto, vamos ter lengalenga por semanas. Vivemos no Portugal dos pequeninos. Eu que nada tenho a ver com o assunto, inclino-me para dar razão a António Pombeiro. 

         - Contudo, todavia, a praga António Costa não nos larga. Na Operação Imergente empreendida há dois dias pela judiciária, há um sujeito de seu nome Duarte Moral (imagine-se com este apelido) veterano da máquina política do PS, assessor daquele que secretaria a Presidente da União Europeia e recuperado pelo actual secretário-geral do Partido Socialista para o núcleo duro do partido, foi detido por alegadas contratações por ajuste directo feitas à empresa de comunicação de que o actual assessor do PS é sócio, Diálogo Emergente (daí decerto o nome dado à operação policial). Ele e o autarca de Santa Maria Maior, um velhinho respeitável, estão no centro das pesquisas levadas a cabo por um grupo grande de inspectores. Estes dois homens, são testa de ferro do PS, pois há muitos anos que varrem todos os obstáculos que se abrem na frente socialista. As negociatas rondam os dois milhões de euros. Bem pode José Luís Carneiro dizer que o PS não está a ser acusado de nada, o facto é que ele está no centro do vulcão. Transcrevo o Observador: “No caso de Duarte Moral, o foco está nos contratos por ajuste direto ao assessor político, que tem décadas de ligação ao PS (na órbita do qual trabalhou grande parte da sua vida) e, por isso mesmo, contactos e conhecimento profundos na estrutura do partido. No de Miguel Coelho, a investigação centra-se na forma como exerceu poder autárquico em Santa Maria Maior e sobre decisões de contratação tomadas nesse cargo. Pelo meio, José Luís Carneiro, o líder socialista que escolheu Moral para o seu gabinete, viu Coelho ser um dos seus principais apoiantes internos e é agora obrigado a gerir politicamente o impacto de uma investigação que atinge em cheio o partido.” Mais uma vez se prova que os grandes desastres, os atrasos, a pobreza, a falta de ética, o retrocesso civilizacional, a corrupção que nos empobrece, a saúde que em vez de nos tratar mata-nos, são obra destes dois partidos que em conjunto têm (des)governado Portugal. 

         - Faleceu o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin com 104 anos. Devo-lhe muito. Durante a adolescência li-o sofregamente e nunca o deixei de acompanhar. Até ao fim da vida, conservou-se lúcido e ainda há pouco tempo a sua voz se ouviu acerca da guerra e das novas tecnologias. 

         - Voltei no serão de ontem a admirar a obra notável de Françoise Gilot. Como estamos neste Verão antecipado, aqui deixou esta janela voltada para o mar. 




quinta-feira, maio 28, 2026

 Quinta, 28.

Eu já tinha sido prevenido por um leitor que vinha aí uma chuva de buscas – e elas aí estão às autarquias e juntas de freguesias socialistas, inclusive, à sede do Partido Socialista, no Largo do Rato. É tudo a roubar e deste modo o dinheiro não chega onde o espera os desesperados da pobreza, da saúde, do ensino, de uma vida digna. Eu sempre disse que os socialistas adoram a riqueza, o penacho, a vidinha de frente para a ideologia e a outra na retaguarda bastante mais sedutora.  

         - Ontem, imprevistamente, sentei-me no sofá, pus um disco de José Afonso, depois outro e ainda um terceiro, enquanto folheava pela enésima vez a fabulosa monografia de Françoise Gilot que o meu saudoso amigo Francis me havia oferecido. Há muito tempo que não ouvia a voz do Zeca como era conhecido entre amigos. Voz soberba, melodiosa, temperada da doçura que envolve a melodia e o poema e fica a pairar por entre os assomos que se estendem pulsantes nos finais da poesia bem construída. Não fui seu amigo embora nos tivéssemos encontrado algumas vezes. Correndo o risco de me repetir, lembro o nosso primeiro encontro, em sua casa, aqui em Setúbal, numa noite de Verão, espojados no sofá da sala, em conversa amena sobre o que pretendiam os estudantes universitários nessa altura em luta contra o sistema. Zeca dizia-me não os compreender e eu respondia que não era preciso perceber, mas aceitar o inconformismo enquanto arma que repõe o movimento, empurra as ideias para a frente. A Zélia sua mulher, entrou com um tabuleiro de comes e bebes que ela e a Graciete haviam preparado na cozinha. Esta mais conhecida por Cétinha, era minha grande amiga e fora ela que me tinha convencido a pegar no carro e rumar à cidade sadina para um serão com o casal. Retornarmos noite alta, eu particularmente satisfeito por haver conhecido a Zélia, pessoa excelente, doce, clara de ideias, de quem se gosta ao primeiro aceno de cordialidade. Muito mais tarde, tornei a encontrar o Zeca no consultório do médico dentista, na Lapa, Dr. Eurico de Freitas. José Afonso já atacado pela doença que lhe paralisava os movimentos. Enquanto esperávamos para ser recebidos, conversámos sobre a situação política, observando eu a diferença entre o serão em sua casa e aquele momento que parecia vir de um mundo opaco de sombras. Muito mais tarde, vi-o no Coliseu dos Recreios, já com a doença muito avançada e pude constatar a mudança ideológica profunda que se produziu nele. A partir daí já não o segui por ele ter passado para as extremas das extremas do espectro político. É verdade que no tempo do fascismo, todos os que se lhe opusessem eram apelidados de comunistas. O 25 de Abril veio repor a situação e as sucessivas eleições acabaram por os reduzir a 3 por cento. 

         - “Vamos rebentar com eles” – linguagem de canalha utlizada por Trump ao referir-se ao ataque que quer levar a cabo no Irão. 

         - Voltei à piscina e depois desci à ribeira tecnológica para lavar alguma roupa. Não quero outra coisa. Não só porque é mais baralho em água e electricidade, como tudo vai tão depressa que mal bebo um café no pequeno bar do supermercado, logo a voz da lavadeira me chama para a recolha. 

         - Curioso. Há muito não me acontecia passar a semana inteira sem ir a Lisboa. Neste retiro religioso, tenho avançado com o romance parado há uma data de tempo, leituras e afazeres vários.


quarta-feira, maio 27, 2026

Quarta, 27.

O terno espalha brasas passou aí as primeiras horas da manhã. Para o receber, tive de acordar antes da sete de forma a evitar-lhe penosas horas ao sol. Bom. Veio lacrimoso, desabafando a sua tristeza pela morte de uma prima. Como não posso ver ninguém chorar, abracei-o dizendo-lhe que ela está melhor que nós e lhe rezasse pela alma. “Não sei rezar, a minha mãe dizia pra mim o Pai-Nosso.” Levou o tempo a carregar para debaixo do alpendre a lenha que nasceu do abate das árvores que tombaram quando da tempestade. Depois, pedi-lhe que arrancasse pela raiz os rebentos dos sobreiros que se multiplicaram por toda a quinta. É um trabalho que nunca mais finda com as despesas inerentes. E, contudo, isto é tão fascinante!  

         - Estive a observar Luís Montenegro quando falava no Norte sobre o seu Código do Trabalho. O homem, perdão, sua excelência, está muito diferente quando comparada com o primeiro ano de governação que eu tanto havia apreciado. Engordou, exibe já umas bochechas que lhe deformam o rosto, o sorriso tornou-se mais rígido, fala pelos cotovelos, numa ária em tudo idêntica ao PS de António Costa e ao Chega inchado de “principal partido da oposição”. Mas o que diz é básico, não há uma sustentação de pensamento, uma frase filosófica, um sentido de inteligência. É aquilo e ponto final.  

         - O país real, do lado da classe política, prossegue chafurdando na corrupção. A Polícia Judiciária tem mais um caso a acrescentar às centenas de outros. Anda tudo a roubar e daqui a nada, os milhões furtados por Sócrates, são trocos de pouca importância. Desta vez, foi a Águas de Gaia com suspeitas de uma enorme aranha económico-financeira, no valor de oito milhões. Estão em causa vários crimes, incluindo corrupção, branqueamento de capitais, abuso de poder, numa mixórdia entre dirigentes públicos e empresários. 

         - As parlapatices de Trump não têm fim. Numa hora crê que levou a palma sobre o Irão, noutra larga bombardeamento sobre o país dos aiatolas. Enquanto isso, diz que o cessar-fogo continua. Torna-se evidente que é o Irão dos revolucionários islâmicos que pratica a inteligência, a honorabilidade, e conhece a ciência política onde o Presidente dos EUA é ignorante. A mim o que me surpreende e faz pensar, é como uma democracia estabilizada ao longo de mais de um século, pode manter e dar poder absoluto a uma só pessoa que pôs de lado as instituições, as leis, a práxis política praticada por Cícero, profundamente pensada e elaborada pelo político-filósofo no seu refúgio de Túsculo.  

         - Por aqui as temperaturas andaram ontem a roçar os 40 graus. Saí para ir nadar e esse exercício, vá-se-lá-saber porquê, foi possante de força, alegria íntima, satisfação plena. Continuo sem dores nas costas, caminho com o pensamento e andar postos nos meus vinte anos, naquela atitude de quem não se lembra das dificuldades físicas e cresce ante o desafio dos dias na plenitude da vida. Amém. 

 

segunda-feira, maio 25, 2026

 Segunda, 25.

A moda das flotilhas de misericordiosos rumo à Palestina veio para ficar. Mas, desta vez, teve um grande mérito: abanar a hipócrita e ronceira União Europeia. Isto porque o básico governante ministro de Netanyahu, Ben Gvir, entendeu deleitar-se com os 430 activistas detidos, algemados, todos a monte, de cócoras com a cara no chão, e de tão divertido filmou a cena às gargalhadas com a bandeirinha israelita a acenar ao vento num gozo de troça nunca visto. Vai daí, a Itália, França e, imagine-se, até Portugal, formalizaram um pedido à UE para a discussão de sanções económicas a Israel. Até aqui, os 27 estados-membros, nunca tinham dado pelos horrores praticados em Gaza, no Líbano e mais não sei onde. Agora que pessoas da União Europeia se insurgiram e foram maltratadas e humilhadas, é que notaram que Israel com o corrupto primeiro-ministro à frente de um governo de ultras, matou 75 mil palestinianos e para cima de 3 mil libaneses sem falar na destruição criminosa de dois países independentes. O mais incisivo, ele que não tem conhecimentos corridos do que se passa para além da fronteira portuguesa, e tem tido uma presença obscura por onde nos representou, falo de Luís Montenegro, defendeu a suspensão parcial do acordo comercial com Israel! Eureca! Se uma tal proposta tivesse chegado da Espanha ou da França, vá que não vá. Agora de Portugal e ainda por cima do primeiro-ministro...   

         - A gente vê e ouve e de cada vez que vemos e ouvimos, é para registar que desta vez foi mais forte, houve mais mortes e destruição.  Refiro-me à guerra entre a Rússia e a Ucrânia. A noite passada, Putin, ordenou o uso de um míssil hiper-sónico que ao chegar a Kiev se divide em várias direcções, causando mortes e destruindo as zonas do impacto. A capital parece ter sido o alvo e já vão quatro anos de uma guerra que o ditador pensava terminar numa semana. 

         - Comecei as regas e ainda a quinta não saiu dos horrores deste Inverno. Glória à hortênsias que começam a exibir a sua beleza em cumprimento a quem se aproxima de casa. 


domingo, maio 24, 2026

 Domingo, 24.

Mais um atentado que visava Donald Trump ocorrido em frente à Casa Branca. Se ele não deixa um só dia o mundo sossegado, um ou outro habitante cheio de ódio, tentará liquidá-lo. Este parece ser o seu destino. 

         - De facto, o mundo parece estar à beira do abismo, num estado comatoso. Pela África já de si abastada de guerras, fome, migrações forçadas, pobreza extrema, chegou agora em força o Ébola. Nestes últimos dias morreram no Congo para cima de 175 pessoas e o vírus parece estar a propagar-se falando-se já em Angola e noutros países africanos. Com o Mundial de Futebol à porta, as equipas africanas vão estar sujeitas a isolamento à chegada aos EUA onde o acontecimento tem lugar. 

         - O PS aparenta estar à frente nas intenções de voto dos portugueses logo seguido do Chega. Ufa! Livramo-nos do Costa e se isto se confirma será que o iremos ter em dose dupla, sabendo que o Chega não existe enquanto partido estruturado, credível e honesto! Até porque não acredito que António Costa faça o segundo mandato como Presidente do Conselho Europeu. Para além de levar a pasta da Presidente da União Europeia, não lhe reconheço saber nem conhecimento que lhe permita continuar no posto. Salvo se, como aquilo é decidido entre eles, ele que diz ser um “político”, consiga baratinar os colegas – nisso ele é impecável.  

         - Estou sem televisão. Que beleza, que silêncio, que paz! Terei de mandar chamar um técnico, mas como me encontro tão bem assim, dia para dia deixo-me resvalar na doce ausência do barulho, da mediocridade, do fala-barato, dos tristes e abundantes comentadores, dos políticos no seu português de bairro de lata. 


sexta-feira, maio 22, 2026

 Sexta, 22.

Chegaram-me hoje os resultados dos exames efectuados no início da semana. Tal como eu previra, o meu cérebro continua aquela máquina de excelente forma e actividade. Idem para o coração e as análises são de um jovem em princípio de vida activa. O acidente que tive na Fnac, não passou de um desafio do estômago afogado de ar, oito dias de flatulência que encontrou no desmaio seguido de vómitos a sua libertação. Decerto é isto que me vão dizer os médicos Dra. Vera Martins e Octávio Simões que me assistem. Já suspendi a Aspirina do tamanho de uma mosca, que o Dr. Simões para prevenir algum acidente, me receitou. Resolvido este problema, vou atirar-me a conhecer a razão que me leva a fechar o olho direito quando há demasiada luz e quando leio. 

         - Os nossos políticos saem da mesma matriz como se tivessem sido feitos por vazos concomitantes. É o caso do actual Presidente da Assembleia que é igual a Luís Montenegro, igualíssimo a Leitão Amaro ou Rita Júdice. Todos tiveram uma vida airada no domínio dos negócios que, como se sabe, são por sua vez a cadeia de ligações fervorosas que nunca se perdem e constantemente se ajustam, daí que aqueles senhores lutem contra o excesso de transparência que dizem existir em Portugal. Basta ver a pregação de Aguiar-Branco no 25 de Abril e compará-la com o modus vivendi do senhor. A ele custou-lhe ter de registar os apartamentos que possui, ao ponto de se ter esquecido de o fazer conforme a obrigatoriedade de quem acede a funções públicas. 

         - Assim me parece. Vai pelo mundo uma onda de abandalhamento no que toca a honestidade e missão cívica daqueles que exercem cargos politico-governativos. A coisa vem de Trump que deslassou a ética, criou a mentira em cadeia, a sobranceria, a ideia de que o poder só a ele pertence. Chegados ao poder, tudo lhes é permitido, pouco ou nada lhes é impeditivo; agrupados em partido, o país está muitos degraus abaixo e por conseguinte, subjugado aos interesses ideológicos que não têm em conta o indivíduo, mas o colectivo, isto é, o rebanho. 

         - O Verão instalou-se. As temperaturas de súbito ultrapassaram os 30 graus. Ontem, no autocarro que me levou ao Chiado para cumprimentar os rapazes da Brasileira, o ar condicionado estava ao rubro a tal ponto que senti frio. A mudança foi tão brusca, que alterou sobremaneira a parecença dos citadinos. 


quarta-feira, maio 20, 2026

Quarta, 20.

Esta manhã deu-me para rever páginas de Un journaliste juif à Paris sous l´Occupation de Jacques Biélinky. Horror, horror! Durante a ocupação nazi, não foram só os judeus que sofreram toda a sorte de malvadezes, também os negros os alemães proibiram de servir às mesas nos cafés e restaurantes. A fome entre os judeus foi terrível, as senhas de racionamento nunca chegavam para o mínimo, as filas eram intermináveis, e um dia Biélinky esteve seis horas para obter um ovo. Isto remete-me para o que se passa na Palestina e no Líbano. Às vezes dou comigo a pensar se toda aquela barbaridade não é se não a vingança de um povo. 

         - Vou até muito para trás, em 1096, porque vejo hoje a continuação do que aconteceu no tempo de Godofredo de Bulhão, a primeira Cruzada, as multidões anárquicas das “cruzadas populares” que atacaram judeus e vários milhares foram massacrados ou convertidos à força. É um facto e basta ler o Antigo Testamento, para verificarmos que os judeus viveram sempre sob guerras, mortes, numa luta constante que me é estranha se tivermos em conta que temos o mesmo Deus e o mesmo Livro Sagrado como conduta e fraternidade. As fontes hebraicas designam a Cruzada que prosperou no século XII por “Gizérot de 4856”, e as crónicas apontam por “desvairados” os “marcados pela cruz” ou “incircuncisos”. Quando estive na Praga dos Habsburgos, pude constatar com os meus olhos, o que persiste de um passado de luta entre católicos e judeus. A estes devemos muito, assim como aos árabes cujas culturas persistem na ostentação do que somos como europeus e como ocidentais. Daí que, se me indigno com os 75 mil mortos palestinianos, também me insurjo contra os incêndios em sinagogas como recentemente no Reino Unido e em França. Há um episódio que é narrado por Jean-Claude Guillebaud e vale a pena transcrevê-lo porque faz de certo modo a ligação com o que vem acontecendo na nossa Europa civilizada. “Em Rabisbona, em 28 de Junho de 1096, quarto dia do Tamuz, no calendário hebraico, os bandos bárbaros e suábios do padre alemão Gottschalk, identificados pela cruz, perseguiram os judeus da cidade, mataram os que ofereciam resistência e atiraram os outros ao Danúbio à força.” Estamos um pouco nas mesmas circunstâncias e medra o ódio aos judeus e o anti-semitismo não pára de crescer. Há nove séculos, estas manifestações que deram origem à formação dos célebres “pogroms” conduzidos por monges e místicos cavaleiros salteadores que marcaram o despertar do anti judaísmo que perdura até aos nossos dias. Da rivalidade religiosa, chegou-se aos extremos de ódio e liquidação de um povo que não se revê estou certo, nuns quantos radicais que ostentam a mecha acendida no início da cristandade.  

         - Ontem fui surpreendido por um telefonema de um dos empregados da Brasileira a que se associaram outros colegas. Souberam pelo António o que me havia acontecido e, como lá não vou há mais de um mês, inquietaram-se com o que lhes contou o António Carmo. Tanta generosidade desfaz em mim a barreira que impede o impulso generoso do outro. Solitário por prazer e realização pessoal, tenho nestes gestos a surpresa que me enche da presença que me falta. 

 

terça-feira, maio 19, 2026

 Terça, 19.

Ontem não eram oito da manhã e já eu atravessava Lisboa ao encontro da clínica onde passei para cima de duas horas a fazer análises a isto e àquilo, tac, electrocardiograma e mais não sei o quê. Como tinha de estar em jejum, assim que me vi livre daquela trapalhada, voei para o outro lado da Avenida da Liberdade para abancar na pastelaria Maison Luce - L´esprit du Pain, onde nos anos Setenta encontrava sempre Bernardo Santareno. O escritor levantava os olhos do papel, olhava-me do fundo da libido em sururu, num desassossego ante a beleza que lhe escapava. Hoje, o lugar aburguesou-se, afrancesou-se, tornou-se num sítio de passagem, com boa doçaria (os croissants são deliciosos, comi dois e comprei outros tantos), mas onde o espírito do escritor levantou amarras. Nem uma lápide existe naquela triste melancolia de quem entra e sai na indiferença ou desconhecimento de um tempo histórico que ali reinou e foi lugar de grandes discussões do reviralho. 

         - Aquele funcionário da Fnac com quem estive à conversa uns instantes, tendo eu encomendado um inédito de Stefan Zweig, e depois, não sei a que propósito, falámos de autores portugueses, retorquiu: “Não leio nenhum autor português de hoje.” Ele, que me pareceu ser um livreiro doutros tempos, terá as suas razões. Eu seguindo-lhe os passos posso contar pelos dedos de uma mão os que me interessam. De resto, os leitores mais atentos, sabem bem de quem falo e quem leio. 

         - Fui à piscina. Nadei meia hora sem qualquer prazer, impelido (se falasse o péssimo português de hoje diria impactado) apenas pela necessidade de fazer exercício. 

         - Montenegro que disputou em 2024 e 2025 eleições sempre com promessas de garantia de médico e família para mais de 1,6 milhões de portugueses, foi forçado a reconhecer que isso não é possível e remete para 2027 esse objectivo, decerto com os olhos postos em nova recandidatura.  Quis o poder a todo o custo e agora veio a reconhecer que essa mentira, justamente por ser propaganda, não podia ser alcançada. Que dizer? É um político português, com certeza. 


domingo, maio 17, 2026

Domingo, 17.

Vou ser breve e elucido os meus leitores que as palavras que se seguem não são minhas, mas da lúcida e sempre livre e actualizada Teresa de Sousa. “Xi é um ditador que ambiciona figurar ao lado de Mao. Os mais elementares direitos são sistematicamente violados na China. A tecnologia é utilizada para controlar cada cidadão. As purgas fazem parte da vida quotidiana do Partido Comunista da China.” Foi à sombra desta ideologia que na altura era também a da URSS, que muitos dos nossos comunistas estudaram, viveram, aprenderam a ser quem o que ainda hoje são. Eles quiseram derrubar o fascismo para se instalarem no seu lugar; a todos os outros partidos e cidadãos era a democracia que queriam alojar e defender. 

 

sábado, maio 16, 2026

 Sábado, 16.

Num país onde o Presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro são proprietários de uma série de casas e apartamentos, temos o quadro que dispensa apresentações. Será? Chamo a esta página Swift: “Il n´y à qu´à voir la tête de ceux à qui Dieu a accordé de l´argent pour savoir le cas qu´il fait des richesses.” Esta afirmação encaixa perfeitamente no dono do Pingo Doce e nos políticos manhosos que se esquecem de nomear a sua fortuna vinda da especulação imobiliária. Acrescento que não há novo-rico que não vá a Fátima de vela acesa e devoção hipócrita. 

         - Está aí o senhor José Manuel, mais conhecido por espalha brasas. Que homem gentil, dedicado, trabalhador. Só é pena que comece um trabalho aqui para logo o deixar a meio e ir começar outro que acaba por não terminar. O homem anda sempre a saltar deixando pontas inacabadas por todo o lado. 

         - Fui atestar o depósito. Depois dos descontos do ACP e mais não sei o quê, despendi 78,54 euros. Longe vão os 30 euros mensais! 

         - Ando muito sensível. Comovem-me todos os gestos de amigos e desconhecidos que se aproximam para saber como estou. Por escrito ou pessoalmente, volta que não volta, sinto o toque no ombro que me consome de gratidão. Mas também há aqueles que telefonam a saber se estou bem e como se levassem a carta a Garcia, disparam: “Se precisares de alguma coisa, apita.” Apitarei quando chegar ao destino final. 

         - Pobres dos dez milhões de cubanos que Trump condenou à morte. Como é possível que ninguém trave este desmiolado armado em arcanjo do mundo. Presos na ilha, sem electricidade, combustíveis, a morrer à penúria, o povo aguarda pelo pior se as ameaças do ditador se cumprirem. Não lhes bastou a soma de ditadores que governaram a ilha, ainda têm de suportar outro louco em nome não se sabe de quê. 


sexta-feira, maio 15, 2026

 Sexta, 15.

Dizem as estatísticas que aumentou em cinco anos os filhos que agridem as mães ou pais. A APAV revela que a maioria das vítimas são mulheres com 65 ou mais anos. Os agressores 70% homens entre os 25 e 54 anos. A querida família e os queridos filhos tão trauteada pela publicidade e pela Santa Igreja são afinal esta miséria.

         - Nesta democracia tão louvada pela classe política que pouco ou nada faz para a defender, antes pelo contrário a enterra diante dos nossos olhos baixos e conformados, somos confrontados cada vez mais com o fosso entre ricos e pobres, entre empregadores e servos. A Jornal de Notícias, na edição de hoje, mostra-nos o estado abismal da riqueza dos presidentes das maiores empresas portuguesas e dos seus escravos trabalhadores. Aqueles ganham em média 53 vezes mais e as remunerações de líderes executivos chegaram a 23,4 milhões de euros o ano passado. Para não falar dos benefícios de toda a ordem. Aquele espécime, feio como os trovões, que dá pelo nome de Pedro Soares dos Santos, dono da Jerónimo Martins que possui o supermercado Pingo Doce, tem uma remuneração total a rondar os 5,25 milhões de euros! Eu já aqui desaconselhei aos meus leitores entrarem numa tal catedral de escravidão, e foi mais de uma vez que lhes enderecei e-mail acusando-os de escravizar os seus empregados. Uma funcionária de aqui, com um balcão que abarca comes e bebes, cafés, padaria, faz maratonas ao longo do balcão, atura os clientes impacientes, por um ordenado pouco mais que o salário mínimo. A nossa querida EDP, que nós mantemos com língua de fora, a excelência que a dirige, usufrui uma bagatela de 2 milhões de euros/ano. A estes ordenados à americana, acrescem carros privados com motoristas, custas para isto e aquilo, subsídios para a luz, combustíveis, e, bem entendido, reformas doiradas de pasmar o pobre português. E lembrar-me eu que há reformados que não chegam a ter 400 euros por mês! É esta a democracia que nos coube na rifa do 25 de Abril do ano 1975. 

         - Falemos agora do engenheiro com diploma tirado ao domingo. A criatura quer cobrar ao Estado português a módica quantia de 205 mil euros por demora do Ministério Público (quatro anos) a deduzir a acusação. De facto, eu também considero excessiva, mas isso por culpa do queixoso que, para escapar à sentença, foi trabalhando recursos de modo a sair ilibado por esgotamento de prazos processais. Esta é a Justiça que temos, ronceira, cheia de teias de aranha, pontos e virgulas que fazem a delícia dos nossos advogados e lhes dão ganhos milionários. 

         - É este o país que temos. Maravilhoso como se vê, onde é rei e senhor quem mais escraviza, explora, rouba, corrompe, falsifica, foge aos impostos, compra defesas, exibe-se de peito feito, contorna os tribunais e aparece como o maior inocente que Deus pôs no mundo. Temos fabulosos advogados que conseguem transformar o maior trafulha numa peça angélica de filigrana imaculada. Bastava os juízes pedirem à SIC uma cópia do documentário da estadia de José Sócrates em Paris, onde o ilustre ex-primeiro-ministro e filósofo de Portugal residiu para estudar francês e aprender a tocar piano, voltando tão culto que nos desconcertou ao chegar: "Fui muito feliz nestes dois anos, entregue ao que os filósofos chamam de vida contemplativa por oposição à vida activa." O homem tem lata para tudo. 


quinta-feira, maio 14, 2026

Quinta, 14.

Manhã cedo estava em Lisboa. Fui à clínica marcar o tac e eletrocardiograma assim como restantes análises. Como queria ser atendido pelo médico que me radiografou o cérebro há cinco anos, não estando este, fui remetido para segunda-feira. Bom. A pronta aceitação dos exames, prova que ainda há privados honestos e deontologicamente capazes de acudir às urgências dos pacientes. Vou pelo SNS quando já estava disposto a pagar do meu bolso toda a pesquisa para o que me aconteceu há três semanas. A minha médica dita de família, Dra. Vera Martins, decerto mordida do remorso de não me haver atendido logo a seguir ao acidente, telefonou-me a dizer que me ia mandar as receitas, como me marcou consulta para dia 1 do próximo mês. Bom. A manhã estava maravilhosa, fresca, brilhante, com pouco ruído na Avenida da Liberdade e eu sentia-me leve, sem dores, a perna que as meninas e os meninos tanto adoram fiel ao passado, quando de súbito, um cachão de recordações se veio acoitar no meu cérebro. Comecei a descer a pé (a empresa situa-se perto do Marquês de Pombal) por ali afora até ao Rossio. Não descia só, comigo caminhava o Alberto, ambos pelos nossos dezoitos anos sublimes. Tínhamos saído das nossas casas, sendo vizinhos na Rua do Salitre e mais tarde colegas na Radio Universidade, ele técnico de manutenção eu produtor radiofónico. Caminhávamos num fim de tarde soalheiro, os cabelos longos e desalinhados tocados por uma leve brisa, sorridentes e felizes a caminho do cinema Tivoli para um concerto de música clássica com a orquestra da Gulbenkian. Praticamente nunca nos largávamos, éramos íntimos na pureza de uma adolescência apesar de a minha natureza mais livre e a dele concentrada nas coisas que o apaixonavam sem perceber o que se passava a nossa volta. E portanto, éramos ambos belos, ele de cabelo escuro acetinado, eu aloirado e – o que não era menos displicente – coxinho, coitadinho. Regressávamos à nossa rua, quando a noite espreitava por entre os prédios da cidade, cheios da música dos grandes compositores, os nossos programas anotados, três cruzes para as peças que nos encantaram, duas ou uma para as restantes. Ele habitava dois prédios ao lado do meu. Durante anos, telefonava-me a convidar para uma bica num café à entrada da Pedro Alvares Cabral quem sobe do Rato. Ali ficávamos à cavaqueira até perto da meia-noite quando fechava e muitos eram ainda os serões no seu quarto a conversar e a ouvir música até às tantas. Nunca o perdi de vista, falo da vista interior que guarda todas as memórias felizes, aquelas que só acontecem e perduram na juventude. Mais tarde apaixonou-se por uma artista gráfica, viajou com ela para o Algarve e por lá ficou e foi professor de música em Faro. Sei que teve pelo menos um filho. Mesmo assim o tempo que nos coube viver decerto que faz parte dele como de mim. Há um mundo que todos transportamos da adolescência de tão precioso que suporta os murmúrios, os olhares perdidos no infinito, as dores cravadas no peito, os silêncios e segredos que não ousamos contar às horas e por assim dizer são parte de tudo o que carregamos connosco.

         - Copio o final do artigo de João Miguel Tavares hoje no Público: “A maior tragédia não é um país ir demasiado para a esquerda ou para a direita – é ir para lado nenhum, transmitindo a ideia de que o sistema está paralisado e que o nosso voto não conta para nada. É disso que devemos ter medo.”  Pois é. Talvez o problema resida neste princípio: à esquerda interessou a derrota do regime salazarista; aos outros a conquista da democracia.  

 

quarta-feira, maio 13, 2026

 Quarta, 13.

Às vezes dou comigo a pensar que a actividade dos políticos é falar, falar, falar transformando-os nuns fala-baratos. Nunca a gritaria foi tão ameaçadora, nunca o 25 de Abril foi tão gritado, tão imposto, tão obsessivo sobretudo na esquerda. Isto não é em vão. O “25 de Abril sempre” esconde o fracasso, o embuste em que mergulhou o país. Grita-se por essa data, para esconder as promessas nunca concretizadas, os programas falhados, a vida dos portugueses reduzida à pobreza, ao dia-a-dia, as mãos cheias de coisa nenhuma, as profundas desigualdades, as instituições falidas, a saúde pelas ruas da amargura, uma juventude agressiva, analfabeta, básica sem princípios morais, desumanizada, em conclusão uma tristeza. Quem muito fala, pouco acerta, diz o provérbio. 

         - Descobri que é excelente não nos fixarmos num médico exclusivo. Ignorado pelo SNS, outra saída não tive que procurar um clínico no sector privado. Foi ele que, mediante a toma de um comprimido por dia (eu intercalei dia sim, dia não) deixei de ter dores lombares e passei a coxear melhor. Sobretudo depois de meses e meses sofrendo, estar hoje intacto e apto para prosseguir caminho. Antes, o que me fora receitado, era encharcar-me de Bem-u-Rom. O curioso da situação é que, quando me queixei ao Dr. Simões das dores nas costas, ele respondeu: “Vou dar-lhe um medicamento que os ortopedistas dão a casos como o seu.” Ah, como é agradável voltar à coxearia dos meus tempos de rapaz que tanto atraía os olhares delicodoces que muitas vezes fecharam noites de sonho... 

         - Pobre Zelensky! Não lhe bastava o esforço de uma guerra que dura há quatro anos, como a ganância dos mais próximos chafurdando na nojeira da corrupção. Um seu directo e íntimo colaborador, está indiciado por embolsar milhões da reconstrução do país. 

         - Por muitas voltas que dê, não consigo compreender por que razão podem os EUA e outros países possuir a bomba nuclear, e negá-la ao Irão. Será que a sua é menos mortífera, espécie de lança flores perfumadas? 

         - O Chega de André Ventura tem andado muito agressivo a apregoar a baixa de anos para a reforma. Contestam todos os outros com o pretexto de que a Segurança Social não aguenta e vai à falência. Deve ser por isso, que a sociedade pós-25 de Abril, abriu tantas excepções não só para políticos como para juízes. Aqueles foram emendando a mão ante a fúria do povo, sem esquecer que todos usufruem ainda de outras reformas acumuladas com funções e negócios no privado. Oh, oh esta gente não se descuida!


terça-feira, maio 12, 2026

 Terça, 12.

Outro dia passei para cima de duas horas numa esplanada em Setúbal com o Fernando Dacosta em farta e ininterrupta cavaqueira. Há algum tempo que não estávamos juntos e por isso os temas atropelavam-se contrariando o seu habitual ritmo de ser e estar. Conheci-o quando entrei para o jornalismo pela porta larga do Primeiro de Janeiro, estando ele no Diário de Lisboa. Desde então nunca mais nos largámos, pese embora os sucessivos ajustes que fomos fazendo ao longo dos anos. Achei-o muito magro sem que o peso da idade o tenha modificado. Diz-me que é devido a diabetes e que tudo o mais corre dentro dos carris da vida que é hoje a sua. De resto, sempre o vi com o seu bloco de notas em pele e elogiei o estado do mesmo. Retorquiu-me que o havia mandado fazer expressamente porque hoje já não se encontra exemplares iguais em parte nenhuma. De política falámos pouco até porque percebi que estávamos em sintonia e a melhor forma de se viver é afastados dela. Mas não faltou a literatura com referências a este e àquele autor, este e aqueloutro livro, colega jornalista ou amigo. Para surpresa minha, diz-me que não apreciou o Diário Incontínuo de Mário Cláudio e pareceu-me estar de acordo de que Saramago não é a única alusão digna de estacionar nos manuais escolares. Quanto ao estado da cultura, da edição, dos novos editores que exigem aos autores paguem a publicação dos seus livros, aconselhou-me a não entrar nesse jogo pois para ele é certo que a literatura e os grandes escritores estarão de volta no futuro, correndo com a arraia miúda de oportunistas que se têm instalado sôfregos não tanto de lucro porque não vendem nada, mas de imagem e prestígio. 

Há, contudo, um facto que quero realçar e diz muito não só da sua personalidade, como do preconceito que todas as lutas não almejam acabar: a aceitação da relação entre pessoas do mesmo género. Eu desde que o conheço que conheço o seu companheiro Zé Manuel. Muitos anos passaram. O Zé veio viver aqui para Setúbal, eles separam-se, mas o vínculo de amizade nunca se quebrou. Mais tarde, recebi em minha casa o seu novo amigo, um colega jornalista como ele. Vim a saber agora que a mãe do António é a proprietária do apartamento onde viveu o Zé e que se prepara para o alugar de modo a ajudar na estadia do Zé na clínica em Azeitão onde larga 2 mil euros/mês - importância que a sua reforma não suporta. Zé já não reconhece ninguém, mas Fernando vai todas as semanas estar um pouco com o amigo de metade da sua vida. Uma tal generosidade, um tal louvor humano, uma tal dedicação à memória de um tempo decerto feliz, fecha o ciclo de uma vida que não desaparece com a morte. Pelo contrário, estende-se como campo de flores onde a Primavera refloresce dos fios intensos da luz das alvoradas, das memórias como sentinelas de hinos salmodiados ao amanhecer e ao entardecer da vida. 


segunda-feira, maio 11, 2026

 Segunda, 11.

Dizer que estou bem é um pleonasmo. Decerto vou ter que ultrapassar o meu centro de saúde para obter o Tac Crânio-Encefálico de que tanto necessito. Entretanto, uma farmacêutica amiga, ouvindo a minha versão do acidente de saúde, prescreveu-me 120 mil milhões de estripes macrobióticas, por forma a que a fauna e flora intestinal se restabeleçam. Foi este distúrbio que me provocou o desmaio e a mobilização para a guerra no Hospital de S. José.  

         - Estive no tanque tecnológico com um cesto de roupa como se tivesse meia dúzia de filhos. 

         - Álvaro Santos Pereira, assim que se viu governador do Banco de Portugal, desatou a comprar acções das grandes empresas, num investimento sôfrego como se o lugar que tinha ocupado fosse o trampolim para aventuras financeiras que fazem os ricaços dos nossos dias. O BCE obrigou-o a revender as acções que adquiriu quando já ocupava o cargo. Toma e embrulha. À portuguesa, seja na base como na pirâmide, a ganância é sempre a mesma e a mediocridade não têm posto.

         - Fiquei satisfeito com a decisão dos juízes que ilibaram Rui Pinto, dito pirata informático, de 241 crimes. Plasmaram na sentença que ele havia sido vítima da arbitrariedade do sistema judicial e da violação da sua dignidade enquanto pessoa. Os “inocentes” do processo Football Leaks vão ter que pagar as custas do tribunal do seu bolso.


domingo, maio 10, 2026

 Domingo, 10.

Não há dia nenhum em que não tenhamos as boçalidades de Trump para digerir. A última diz respeito à saída de 5 mil militares de Vilseck, pequena cidade bávara onde estão desde o fim da II Grande Guerra. Estive a ver outro dia no canal 2 francês o desastre que vai ser para a população local e para os soldados americanos e respectivas famílias que estão completamente integrados no espírito alemão e adoram ali viver. Relativamente à população, os contingentes destacados duplicam e todo o comércio e actividade económica gira em torno daquele mundo que se misturou e parece viver feliz. A decisão do todo poderoso, é uma raiva contra o chanceler Friedrich Merz que não aceitou a sua política relativamente à Europa e ao Irão que disse ser o digno represente da guerra no Golfo. 

        - A propósito. Nenhum dos acordos ditados por Trump parece duradouro. Horas depois, o Irão não só desdiz o louco, como investe abrindo fogo contra o cerco que ele montou no Estreito de Ormuz. Foi de um dos seus dirigentes que saiu esta condenação: “O único lugar para os EUA no Golfo, é no fundo do mar.

         - Saiu o número oficial de palestinianos mortos na guerra da Faixa de Gaza: 73 mil. A este número, não obstante o cessar-fogo à Trump, falecem diariamente mais uns quantos inocentes.  

         - Sexta-feira estive na Fnac a tentar recomeçar o meu trabalho, de seguida fui almoçar calmamente ao restaurante de cima do Corte Inglês, e regressei de metro ao autocarro que por sua vez me devolveu a casa. Numa estação, deparei com este subterfúgio no texto que corresponde melhor à choldra dos tempos presentes sem que deixe de ter graça... 




sábado, maio 09, 2026

Sábado, 9.

No seguimento do que ontem anotei, chamo por instantes a estas páginas, Gabriel Rolón. Diz o psicanalista argentino a propósito da solidão: “As pessoas têm medo da solidão e eu pergunto o que há na solidão para além de nós próprios? A pessoa que tanto teme a solidão tem isso porque não gosta de quem é ou porque tem medo de olhar para dentro e ver quem é. Não quer descobri-lo, e isso incomoda-a e perturba-a.” E conclui: “A solidão desfrutada e escolhida permite que nos façamos perguntas e tomemos decisões com mais calma:” (tradução de António Rodrigues)  

         - Trump o eterno louco, afirma que o cessar-fogo com o Irão continua válido, mas ao mesmo tempo ataca posições no Estreito de Ormuz e vangloria-se como uma criança demente: “Hoje provocaram-nos, nós arrasámo-los.” É um tirano à escala planetária, um facínora que quer impor a regra do pelotão de fuzilamento nos métodos de execução federais, como se o que existe – injecção letal, cadeiras eléctricas, electrocussão e gás azoto – não fossem suficientemente cruéis. 

         - Não posso aceitar a humilhação de que somos vítimas em fases críticas da nossa vida individual e colectiva. Refiro-me ao estado decadente do SNS. É ele que se devia deitar no bloco operatório para um tratamento de restauro geral a todo o seu tecido operacional. O que tenho experienciado no último mês, diz-me como a democracia falhou redondamente quando escraviza e humilha, desiste e incentiva a morte prematura de muitos dos nossos concidadãos. Homem de esperança e fé, vou recentrar a minha crença no convite que António José Seguro fez a Adalberto Campos Fernandes para elaborar um Pacto Estratégico para a Saúde, de modo a devolver o SNS aos portugueses, deixando definitivamente os jogos de poder, interesse e corrupção que nele se instalaram. Adalberto Fernandes é um homem sério, competente e afastado dos jogos políticos que tanto apodreceram o sistema de saúde. Assim os socialistas o deixem trabalhar. Eles que com o PSD nunca deixaram o poder desde o 25 de Abril e em conjunto têm arruinado o Serviço Nacional de Saúde. 

 

sexta-feira, maio 08, 2026

 Sexta, 8 de Maio. 

Como recomeçar? Aos desportistas aconselha-se paciência e persistência, confiança nas suas capacidades, heroicidade e olhar apontado ao futuro. Aos artistas que se recolham, povoem horizontes rasgados, mergulhem nos abismos e voltem à tona banhados da santificação que se concentra no mistério e no rosário de palavras salmodiadas nas horas de desespero e solidão. Como sempre frágeis, um sopro de vento os derruba, um pensamento os levanta, um pôr de sol os ilumina. E assim nos reencontramos comovido pelas palavras dos amigos e leitores anónimos durante esta ausência longa como um caminho crivado de espinhos.