terça-feira, maio 19, 2026

 Terça, 19.

Ontem não eram oito da manhã e já eu atravessava Lisboa ao encontro da clínica onde passei para cima de duas horas a fazer análises a isto e àquilo, tac, electrocardiograma e mais não sei o quê. Como tinha de estar em jejum, assim que me vi livre daquela trapalhada, voei para o outro lado da Avenida da Liberdade para abancar na pastelaria Maison Luce - L´esprit du Pain, onde nos anos Setenta encontrava sempre Bernardo Santareno. O escritor levantava os olhos do papel, olhava-me do fundo da libido em sururu, num desassossego ante a beleza que lhe escapava. Hoje, o lugar aburguesou-se, afrancesou-se, tornou-se num sítio de passagem, com boa doçaria (os croissants são deliciosos, comi dois e comprei outros tantos), mas onde o espírito do escritor levantou amarras. Nem uma lápide existe naquela triste melancolia de quem entra e sai na indiferença ou desconhecimento de um tempo histórico que ali reinou e foi lugar de grandes discussões do reviralho. 

         - Aquele funcionário da Fnac com quem estive à conversa uns instantes, tendo eu encomendado um inédito de Stefan Zweig, e depois, não sei a que propósito, falámos de autores portugueses, retorquiu: “Não leio nenhum autor português de hoje.” Ele, que me pareceu ser um livreiro doutros tempos, terá as suas razões. Eu seguindo-lhe os passos posso contar pelos dedos de uma mão os que me interessam. De resto, os leitores mais atentos, sabem bem de quem falo e quem leio. 

         - Fui à piscina. Nadei meia hora sem qualquer prazer, impelido (se falasse o péssimo português de hoje diria impactado) apenas pela necessidade de fazer exercício. 

         - Montenegro que disputou em 2024 e 2025 eleições sempre com promessas de garantia de médico e família para mais de 1,6 milhões de portugueses, foi forçado a reconhecer que isso não é possível e remete para 2027 esse objectivo, decerto com os olhos postos em nova recandidatura.  Quis o poder a todo o custo e agora veio a reconhecer que essa mentira, justamente por ser propaganda, não podia ser alcançada. Que dizer? É um político português, com certeza.