quarta-feira, maio 20, 2026

Quarta, 20.

Esta manhã deu-me para rever páginas de Un journaliste juif à Paris sous l´Occupation de Jacques Biélinky. Horror, horror! Durante a ocupação nazi, não foram só os judeus que sofreram toda a sorte de malvadezes, também os negros os alemães proibiram de servir às mesas nos cafés e restaurantes. A fome entre os judeus foi terrível, as senhas de racionamento nunca chegavam para o mínimo, as filas eram intermináveis, e um dia Biélinky esteve seis horas para obter um ovo. Isto remete-me para o que se passa na Palestina e no Líbano. Às vezes dou comigo a pensar se toda aquela barbaridade não é se não a vingança de um povo. 

         - Vou até muito para trás, em 1096, porque vejo hoje a continuação do que aconteceu no tempo de Godofredo de Bulhão, a primeira Cruzada, as multidões anárquicas das “cruzadas populares” que atacaram judeus e vários milhares foram massacrados ou convertidos à força. É um facto e basta ler o Antigo Testamento, para verificarmos que os judeus viveram sempre sob guerras, mortes, numa luta constante que me é estranha se tivermos em conta que temos o mesmo Deus e o mesmo Livro Sagrado como conduta e fraternidade. As fontes hebraicas designam a Cruzada que prosperou no século XII por “Gizérot de 4856”, e as crónicas apontam por “desvairados” os “marcados pela cruz” ou “incircuncisos”. Quando estive na Praga dos Habsburgos, pude constatar com os meus olhos, o que persiste de um passado de luta entre católicos e judeus. A estes devemos muito, assim como aos árabes cujas culturas persistem na ostentação do que somos como europeus e como ocidentais. Daí que, se me indigno com os 75 mil mortos palestinianos, também me insurjo contra os incêndios em sinagogas como recentemente no Reino Unido e em França. Há um episódio que é narrado por Jean-Claude Guillebaud e vale a pena transcrevê-lo porque faz de certo modo a ligação com o que vem acontecendo na nossa Europa civilizada. “Em Rabisbona, em 28 de Junho de 1096, quarto dia do Tamuz, no calendário hebraico, os bandos bárbaros e suábios do padre alemão Gottschalk, identificados pela cruz, perseguiram os judeus da cidade, mataram os que ofereciam resistência e atiraram os outros ao Danúbio à força.” Estamos um pouco nas mesmas circunstâncias e medra o ódio aos judeus e o anti-semitismo não pára de crescer. Há nove séculos, estas manifestações que deram origem à formação dos célebres “pogroms” conduzidos por monges e místicos cavaleiros salteadores que marcaram o despertar do anti judaísmo que perdura até aos nossos dias. Da rivalidade religiosa, chegou-se aos extremos de ódio e liquidação de um povo que não se revê estou certo, nuns quantos radicais que ostentam a mecha acendida no início da cristandade.  

         - Ontem fui surpreendido por um telefonema de um dos empregados da Brasileira a que se associaram outros colegas. Souberam pelo António o que me havia acontecido e, como lá não vou há mais de um mês, inquietaram-se com o que lhes contou o António Carmo. Tanta generosidade desfaz em mim a barreira que impede o impulso generoso do outro. Solitário por prazer e realização pessoal, tenho nestes gestos a surpresa que me enche da presença que me falta.