terça-feira, março 31, 2026

Terça, 31.

Sinais (perigosos) dos tempos. Não gosto de generalizar, mas que me apetece fazê-lo, lá isso.... Outro dia vi na Internet uma proposta com a sigla da Shtil, que pela módica quantia de pouco mais de cem euros, podia adquirir uma tesoura de poda, uma serra eléctrica, uma vara de corte em altura e ainda a generosa oferta de uma máquina para afiar motosserras. Disse que só pagava por multibanco e esperei uma semana pelo brinde de Páscoa. Que chegou ontem, montado numa instituição que já teve melhores dias, os CTT. Ao portão entrou uma carrinha branca, amachucada, e de dentro saiu uma brasileira escura, cabelo cortado à escovinha, pintado de amarelo, cara redonda e gestos decididos, para me estender um embrulho com pouco mais de 60x30cm, mais leve que um pacote de amêndoas. Perguntei se podia verificar o que continha, respondeu a célere rapariga que não. Insisti: acha que aí está (nomeei o que acima descrevi), ela balbuciou que não tinha nada a ver com a operação, facto que eu sabia. Rodopiou a estafeta sobre os calcanhares da viatura e fui à Net verificar tudo de novo. Procurei a marca e obtive o número de telefone para confirmar o que me parecia óbvio: “Estamos com uma promoção, mas nas nossas lojas”, com o remate: “Essas aldrabices são constantes, meu caro senhor.” Curioso como sou, ainda agora me penalizo por não ter aceitado o volume e certificar-me o que continha. Mas dar 100 euros por um par de botas velhas...  

         - Os criminosos da extrema-direita israelita, com o chefe corrupto e assassino à cabeça, senhor Benjamim Netanyahu, defensores dos primórdios da religião, cuspindo o fel que lhes entope as gargantas, aprovaram no Knesset a pena de morte para os palestinianos que enfrentaram os invasores e agressores na sua pátria soberana. Não contentes com a mortandade que fizeram, com a destruição de um país eternamente subjugado à supremacia de uma raça e religião, enxotados como lixo para fora das portas de Israel, não obstante toda esta desumanidade e tirania, ainda se querem vingar de inocentes que apenas se defenderam de assassinos sem consciência, nem legalidade moral e impedidos de tais actos ao abrigo do direito internacional. 

         - Mais uma vez, glória a Pedro Sánchez. É ele que se distingue da chusma de dirigentes de pacotilha que vegetam pela nossa moribunda e medíocre Europa. Ele e Zelensky. Ao contrário dos nossos governantes humildes, bajuladores e reconhecidos a Trump, oferecendo-lhe de bandeja a base das lajes para prosseguir a guerra sangrenta e incongruente contra o Irão; a Espanha de Sánchez, altiva e civilizada, recusou categoricamente, com voz firme e clara: “Negámos aos EUA o uso das lajes de Rota e Móron para esta guerra ilegal (sic). Todos os planos de voo que contemplem acções relacionadas com a operação do Irão foram rejeitados. Todos incluindo os aviões de reabastecimento.” 

         - Preciso tanto de tempo para me consagrar ao romance. Escolhi viver neste isolamento apenas porque escrever exige tempo e silêncio. Enganei-me. Nunca o trabalho sob vários ângulos nesta quinta deixou de me desafiar. Não tenho tempo para nada e mesmo estes gatafunhos que aqui alinho, levam-me três horas surripiadas ao romance. Que fazer quando isto está a resultar numa obsessão? Vender e fechar-me num apartamento em Lisboa? Esta manhã, na meia hora a passar na piscina, enquanto nadava, não pensei noutra coisa. Por vezes, só para fazer avançar a história de Ana Boavida, vou com o croché sentar-me num café em Lisboa. Que contradição, santo Deus!


segunda-feira, março 30, 2026

 Segunda, 30.

Daqui a duas semanas a Hungria vai a votos. Esperemos que vença Péter Magyar fartos como estamos da prepotência e conluio de Viktor Orbán e do seu partido Fidesz com o nepotista Vladimir Putin. Ao que parece, a interferência do ditador russo está por todo o lado, manobrando a província paupérrima com esmolas, comida e assim. A Hungria! E lembrar-me eu que estive nas vésperas de o visitar, quando a entrada de turistas foi proibida devido à Covid-19! Ainda hoje estou à espera que a nossa bandeira, tão querida da esquerda, me devolva o dinheiro da viagem.  

         - Quem é que acredita nesta gente hipócrita e cínica! Refiro-me à reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros do G7 realizada na sexta-feira passada em França, da qual saiu o pedido imediato dos ataques contra civis e infra-estruturas civis no Irão. Sabem quem estava presente? O Secretário de Estado norte-americano (entre nós ministro dos Negócios Estrageiros), senhor Marco Rubio! Irão onde já morreram 1900 pessoas e 20 mil ficaram feridas, segundo a Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. 

         - Entretanto, Israel prossegue a invasão do Sul do Líbano. António Guterres e Pedro Sánchez, alertam para a possibilidade dessa ocupação redundar no mesmo destino do enclave palestiniano. Netanyahu e seus apaniguados, não se resignam ao seu pequeno território (do tamanho do Alentejo) e pretendem estendê-lo no sentido da Faixa de Gaza e para o Líbano, fazem-no protegidos pelo louco da América danadinho por ir a banhos na Riviera palestina. Tudo isto seria cómico, não fora os crimes hediondos praticados por ambos. 

         - Dito isto, também não aprovo de maneira nenhuma, os actos terroristas contra os israelitas que um documentário da SIC, sexta-feira, nos mostrou. Aquilo é horror impossível de aceitar, de uma crueldade assustadora. No entanto, pergunto-me como foi possível o HAMAS crescer daquele modo, sem que os serviços secretos do Estado, reputados como um dos mais eficazes do mundo, soubessem. Frente a frente com Netanyahu, perguntar-lhe-ia. Um povo que durante quase um século sofreu humilhações e torturas sob a pata dos vizinhos déspotas e militarmente abastecidos, tratados como lixo, sem forças anímicas para repudiar o HAMAS, que se permitiu fazer tuneis e preparar-se para enfrentar o pior. 

         - “A pior e mais bestial atrocidade cometida pelos seus exploradores foi a seguinte: penduraram nuas as mulheres mais nobres e distintas e depois cortaram-lhes os seios e coseram-lhos na boca, para parecer que as vítimas os estavam a comer; de seguida, empalaram-nas em paus afiados. E fizeram tudo isto no meio de sacríficos, banquetes e crueldades.” Este acontecimento é narrado por Dião Cássio, em História de Roma e se o trago aqui, é para comparar com as crueldades de Netanyahu, Putin e Trump – estes são tão cruéis como os bretões conduzidos pela rainha Boadiceia, mas não observam, in loco, as barbaridades que cometem. Como em Nagasaki e Hiroxima.


domingo, março 29, 2026

 Domingo, 29.

A guerra dos dois tresloucados déspotas, alastra por todo o Médio Oriente. Os houthis do Iémen acabam de entrar no conflito ao lado do Irão, lançando o primeiro míssil sobre o sul de Israel. Trump, contudo, vendo escapar-se-lhe o Nobel da Paz, encosta-se um pouco mais aos homens judeus dos negócios americanos e ao seu camarada Putin que parece ser o único que tem beneficiado com a desgraça que ainda vai no adro. A propósito, se me permitem, transcrevo este naco de boa prosa e melhor análise de Fr. Bento Domingues há uma semana no jornal Público, servindo-se do texto de Rafael Rabona,. “As guerras de Putin, Trump e Netanyahu não são guerras justas, que não existem. São guerras inspiradas pela antiga mentalidade colonial, segundo a qual é legítimo saquear a riqueza alheia. Por trás de todas as guerras em curso, existe apenas um desejo obsceno de controlar petróleo, gás, minerais e rotas comerciais.”  

         - Portugal parece alheado de tudo isto. Os socialistas fazem o seu congresso pós-José Luís Carneiro, mapeado dos anteriores, tentando “furar a bolha”, mostrando que pouco aprenderam com o passado, ignorando a sensibilidade dos portugueses, a vida apertada que levam, a descrença nos políticos, detendo-se nos pequenos-nadas como a identidade de género, o susto do Chega, o folclore da esquerda do partido liderada por um tal Ricardo Gonçalves encostado ao defunto Pedro Nuno Santos, enfim, a política à portuguesa. Bom entretenimento, sim senhor. 

         - Enquanto isto, como se fossem alheios ao destino dos seus concidadãos, não reparam como são vãs as palavras, os actos e omissões que os democratas imprimiram ao longo dos 50 anos de democracia. As últimas estatísticas, dizem que estamos como estávamos em 1995, a pobreza continua a proliferar e o emprego é cada vez mais mal remunerado e sem estabilidade. Para não falar no reinado de António Costa que tenho atravessado na garganta pelo que foi de ilusório, rastejante, ideologicamente fracassado, a par da desordem, dos gritos de uns e outros nos órgãos de comunicação social, do abandono do investimento na saúde, na habitação, na valorização dos jovens, mesmo quando a “geringonça” que a esquerda laureou e continua a laurear, apesar da desgraça que ainda hoje rasteja pelas ruas da amargura nacional ter sido varrida. Os que nos (des)governam, como antes os socialistas com as suas “contas certas”, ufanam-se com a ilusória riqueza do “excedente histórico de 0,7%” mas, em simultâneo, os velhos vadiam pelas ruas da amargura, os jovens fogem do país, os prejudicados pelo temporal ainda não foram compensados, os sucessivos governos desprezam esta massa humana de dez milhões de almas entregues à sua sorte. A imperial governação de uns e outros, trabalha para a pobreza e indiferença do povo cordeiro sofredor, pondo em primeiro as ideologias aqueles, os cifrões estes. Macaca sorte a nossa. 

         - Fim de semana brilhante. Não só pelos dias ajoujados de sol, como pela placidez das horas preenchidas pelo trabalho intelectual e laboral. 


sexta-feira, março 27, 2026

 Sexta, 27.

O drama do Francis atinge a epopeia de romance. Ontem o Robert disse-me que no hospital correu a notícia de suicídio. Na véspera os médicos tinham-no informado de que iriam amputar-lhe a perna. Depois do pé, talvez o pobre Francis não tivesse suportado tamanha infelicidade e viver naquelas condições não era viver. Seja como for, o facto é que ele continua na câmara fria e não se sabe quem paga a diária pois os três dias gratuitos já findaram. Amigos para que vos quero! Um homem que conhecia meio mundo, cultíssimo, bom carácter, generoso, com quem dava gosto e prazer conviver, falece e não há ninguém que leve uma flor à sua campa. Eu sei que isso pouco importa para aquele que deixa este mundo, mas a recordação dos próximos rubrica a amizade que perdura na lembrança dos dias felizes. Aqui em casa, são muitas as memórias que dele perduram. Francis oferecia tudo aos seus amigos, por vezes surpreendia-me o seu desapego aos objectos que estavam lacrados com a presença de homens e mulheres que deixaram obra colectiva. Como se dava com todo o mundo político e artístico, dele recebia lembranças e considerações. Um dia foi Václav Havel, estadista, poeta, dramaturgo e dissidente tcheco, que veio a ser o primeiro presidente democraticamente eleito da República Tcheca após a queda do comunismo, que lhe ofereceu um serviço de café em cristal e que eu guardo comigo sem nunca o ter usado como recordação; outra vez foi a grande monografia da pintora Françoise Gilot, dedicada, sua grande amiga, companheira de Picasso do qual teve dois filhos, Claude e Paloma; mais tarde, abandonado Picasso, casou com o pintor Luc Simon, em 1970, separada deste, viria a unir-se ao Dr. D´Salk pioneiro da vacina contra a poliomielite. Pelo que constatei, eles eram, de facto, muito ligados pois a cumplicidade era grande e a liberdade ainda maior. Poderia continuar, porquanto as suas ofertas eram constantes, pessoalmente ou pelo correio. Detenho-me, por agora, na expectativa que o esforço do seu amigo de adolescência possa encontrar o notário que esclareça o mistério do ou dos seus herdeiros ou simplesmente diga que morreu na pobreza. Assim sendo, junta-se a Mozart, que foi enterrado na vala comum. Não te importes, querido Francis – estás em muito boa companhia. Os mausóleos são para os ditadores de esquerda e direita, os arrogantes, os charlatães. Paz à tua alma.  


quinta-feira, março 26, 2026

 Quinta, 26.

Francis continua na arca frigorífica do hospital. Os três primeiros dias são gratuitos, depois alguém terá de pagar. Se tal não acontecer, será despejado na vala comum. Esta é a regra dos tempos modernos, a norma das democracias, da Igreja e dos negócios. Há, todavia, um grande amigo que vem dos tempos da sua adolescência e que se está a ocupar desta horrível situação. Eu lancei achas para a fogueira ao dizer o que sei sobre a sua riqueza e a sua relação amorosa com o “petit oiseau”, um rapaz que se formou há dois anos em advocacia e foi convidado por uma grande empresa do Barein onde vive e foi prevenido da morte do companheiro. Contra sua vontade, o rapaz não pode despedir-se do amigo, impedido pela guerra no Médio Oriente, onde os aviões não descolam como antes. Eu informei que há dois anos o Francis comunicou-me que tinha vendido o apartamento sobranceiro ao canal Saint-Martin onde vivia ao “petit oiseau”, e por proposta deste, ambos iriam habitar um outro no centro de Paris que o namorado havia adquirido há pouco tempo. Também disse que sei de uma casa (dizem-me que está em ruínas) perto de Bruxelas, de outra a Norte de Paris, da sua colecção de arte africana que os americanos cortejavam, de obras de arte e dos direitos de autor de toda a obra cinematográfica de Marcel Carné com quem viveu até à sua morte, em 1996, e lhe rendia somas simpáticas anuais. Tudo isto, o seu amigo sabia e o seu trabalho centra-se agora em visitar notários de modo a certificar-se quem é o seu ou seus herdeiros. Que história, hein! Que infelicidade para o pobre Francis, homem de uma cultura infindável (ao ponto de possuir um camarote ininterrupto oferecido pela Comédie Française e onde me levou uma e outra vez), generoso, divertido, amante da liberdade e cultor da amizade. 

Francis comigo na Comédie Française há três anos. 

         - Nas bocas do mundo invejoso e dos pobres, pobrezinhos que inundam este miserável país de futebol e festivais, está Mário Centeno, dito de uma maneira mais assertiva, o Portugal imperial dos funcionários públicos de alto coturno. Álvaro Santos Pereira, o novo governador do Banco de Portugal, fala do acordo que fez com o seu antecessor, e esclarece "estamos a falar em poupanças que chegam a 2,2 milhões de euros se ele ficasse, como tinha direito, até aos 70 anos." O que me acode dizer é que se trata de um roubo aos pobres, aos reformados, aos milhões de portugueses que são a mola essencial da actividade económica, aos pequenos e médios empresários, que sobrevivem à rasca, enquanto estas nobres e aristocratas criaturas vivem como príncipes e ainda usufruem de carro, motorista, reformas para cima de 10 mil euros, fundos de pensões, assistência médica e não sei mais o quê porque a revolta já me tolda o cérebro. Dizem de cabeça levantada que “têm direito” como se este “direito” estivesse inscrito na Constituição e não fosse um escândalo num país pobre e aqui se ganhasse tanto como em França, Inglaterra e por aí fora. Abro um parêntesis para o orçamento da Presidência da República que é mais elevado que o da casa real espanhola! Sirvo-me de Mário Centeno porque é ele que está na berlinda. Nada tenho contra a sua pessoa que sempre considerei um técnico eficaz, competente e lúcido.  

         - O mesmo não direi de Isaltino Morais, o Presidente da Câmara de Oeiras. O homem gasta em refeições para si e seus apaniguados, a módica quantia de 150 mil euros em almoços, lanches e jantares, tabaco incluído). Em que país vivemos! Somos pobres, mas a classe política é rica mesmo riquíssima. Daí a corrida aos cargos públicos. Qualquer bicho careto, com ambições conhece o percurso: fazer-se sócio de um partido político, bajular os seus dirigentes, ser humilde e patriota, conseguir um lugar de comentador na TV e esperar pacientemente que o cargo se projecte na figura. Sai figurão? Decerto. 

         - Dia animado. Andou aí o Sr. José Manuel, que por sua vez chamou o empregado dos Venâncios que se aproximou com o tractor e daí a meia hora o patrão. Foi uma reinação de gente que se conhece há muitos anos, trabalhadores da Adega Venâncio da Quinta do Anjo. A parte do desastre que deita para o lado meu vizinho ficou pronta e desimpedida. Na próxima vez, vou-me ocupar do muito que sobrou à minha porta. 


quarta-feira, março 25, 2026

 Quarta, 25.

Neste mundo governado por doidos varridos, o Irão respondeu ontem a Trump que insiste estar a negociar com o Exército iraniano: "Não chames acordo à tua derrota. A era das tuas promessas chegou ao fim"  

         - A propósito, ontem na SIC, o senhor Rogeiro, que sabe tudo sobre tudo inclusive sobre armas militares, não vai ter nunca mais por espectador este que aqui escreve. Prefiro mil vezes Milhazes. Parece mais honesto e independente. O homem jamais me convenceu e é para mim como aquele humorista que no mesmo canal, embora não dizendo ao que vem, está tudo estampado nas suas crónicas. Rogeiro de tão fanático dos EUA, passa a ideia de ter negócios com os gananciosos e incultos que se apoderaram do país e desorganizaram o mundo. Brurrrrrr, aquela sapiência deito-a ao lixo.

         - De resto, como qualquer pessoa equilibrada e humana, elejo os três assassinos que fomentam a morte e a destruição por todo o Planeta: Putin, Netanyahu e Trump. Não há nenhuma razão credível para tão horríveis crimes. No que toca a Trump, parece-me mesmo que o homem sofre de uma qualquer doença mental, não só pela obsessão egoísta de ficar na história, como por se ter deixado manipular pelo corrupto primeiro-ministro israelita 

         - Aconteceu mais um parto em ambulância. Se me fosse possível dar um conselho à Ministra da Saúde, seria este: crie salas de parto ambulantes. Assim como assim, era mais barato e os bebés teriam desde logo o prazer de serem embalados em viagem. 

         - Num só dia tive dois quiproquós com africanos. Só não acontece a quem, como as meninas do BE e outros sobas que utilizam o carro do Estado pago por todos nós, não viajam nos transportes públicos. O primeiro com um rapaz de uns vinte anos, camisola amarela, uma agitação inquietante, que me ordenou me levantasse de um lugar prioritário; o segundo no supermercado, um homem de uns quarenta anos, a tossir que nem um desalmado sem protecção. O primeiro de uma arrogância imperial; o segundo ouviu o pedido que lhe fiz para que pusesse o braço ao tossir e pediu-me desculpa. “Tem razão, não me lembrei.” Fui direito a ele e pedi-lhe eu desculpa, acrescentando que os bons gestos favorecem toda a gente. Que nobreza a daquele negro! Simpatizei intimamente com ele. 

         - Contudo, o problema dos africanos é este: os que aqui nasceram e saem de manhã rumo à Europa para estudar ou trabalhar, regressam a África ao fim do dia. É esta salada de cultura que deve ser difícil de assimilar, porque a mentalidade e a civilização são diferentes e muitas vezes antagónicas. Como costumo dizer, não é a cor da pele que me desgosta, é a falta de educação, de cultura, de adaptação a uma realidade onde escolheram viver. Todavia, como se viu, não convém generalizar.

         - Alinho estas linhas na Fnac. Ontem não abandonei o meu convento inebriado pelo dia senão para ir nadar. As ideias floriram, os falhanços eclipsaram-se, as certezas suplantaram as dúvidas. De facto, diante do campo tomado pela força que o revigora, as árvores que se vestem quotidianamente de um verde frágil, sob o céu de um azul pálido, o silêncio misturado com o todo numa harmonia que parece etérea, eu, minúsculo ser no meio deste cosmo agigantado pela protecção divina e a sombra em fulgurações que caía do Céu, perguntei-me se seria merecedor de tamanha graça.


terça-feira, março 24, 2026

Terça, 24.

Anne dizia ao irmão no dia 17 de Novembro de 1958: “J ´ai à peut près autant de vie intérieure qu´une souris.” Anotação de Julien: “Estas palavras pronunciadas com profunda humildade como eu as invejo.” E remata o dia assim: “Il est 7 heures du soir.” É nesta simples frase que fecha o dia que o mistério se revela. Reside nela toda a beleza, o deslumbre da finitude, que contêm em si a dimensão secreta por desvendar. A noite cai, mas outra noite se levanta até ser de novo dia. Há uma espécie de paralisação do tempo, um fosso abismal que sustem o vislumbre, a queda, a tristeza, o súbito enigma que nos escapa e cresce diante dos nossos olhos cegos pela pulcritude da vida. 

         - Voltei à natação. De mansinho devido ao tempo de inação. Dia absolutamente deslumbrante. E sob todos os aspectos, pois qualquer coisa de hossana se levantou dos despojos onde estive nestes últimos tempos. Houve como que um impulso, um puxar para cima, que me alcandorou de súbito ao patamar onde o tempo e os anos me haviam despojado. 

 

segunda-feira, março 23, 2026

Segunda, 23.

A vida, isto é, a morte surpreende-nos (no dizer da Bíblia) como um ladrão. Passei mais de um mês a tentar falar com o Francis sem conseguir. Sabia (por ele) que dera entrada no mesmo hospital onde faleceu Annie e da cama do mesmo após amputação de um pé, falámos algumas vezes ao telefone. Parecia melhor, dizia-me, inclusive, que se estava a adaptar bem à prótese. Seguiu-se um longo silêncio e eu preocupado, falei ao Robert pedindo-lhe que o procurasse. Assim aconteceu. Foi achá-lo, engolindo as recordações da estada recente da mulher na mesma unidade hospitalar. Soube então que recusara o telemóvel e, dizia-me Robert, não o tinha achado nada bem. Anteontem, telefona-me o meu amigo, a dar-me a notícia da sua morte. Mais: “il avait de grosses daites, il pourrait être à la fosse commune!” Retive a respiração ao ouvir estas terríveis palavras, uma tristeza imensa tomou conta de mim. Minutos depois, refeito, liguei ao Robert pedindo-lhe que telefonasse à Câmara de Paris, à de Saint-Denis, a este e àquele que eu sabia serem seus amigos para que lhe arranjassem uma morte digna. Francis Von Overbeque que havia sido secretário de Charles De Gaulle e conhecia meio mundo, não devia morrer daquele modo, só, sem uma alma que viesse em seu auxílio e ainda por cima atirado para a vala comum. Uma vez ele mostrou-me a sua agenda e deixou-me babaca. Conhecia meio mundo, reis, princesas, chefes de Estado, possuía os seus números de telefone e moradas, e era convidado pela Rainha de Inglaterra, Isabel II, para o jantar anual no Palácio de Buckingham. Afinal, ele como o filho de Thomas Mann, Klaus que se dava com um mundo vasto de gente, acabou encontrado morto sem uma única pessoa ao seu lado, no Sul de França. 

         - Depois de muito matutar, encontrei a razão para este desassossego íntimo: a entrada na Primavera. Toda a minha vida sofri com uma estação que devia ser para mim e para todos nós, uma espécie de aleluia, de graça e explosão de vida. Todavia, a minha sensibilidade, não suporta a chegada desta donzela irrequieta que distribui o que tem e o que não tem. 

         - Trump diz que tem tido conversas produtivas com o Irão, este apressa-se a negar qualquer contacto. Eis o mundo maluco em que vivemos. 

         - A estratégia da Fesinap é sempre a mesma e está traçada há muito a papel químico: convocar greves. Assim, alto e bom som, o seu secretário-geral, veio anunciar a adesão de 80% sobretudo nos sectores da saúde e educação. É nisto que estamos. A guerra que cerca a Europa, não nos incomoda. Viva o futebol, as greves, o fado e a gritaria dos concertos que se anunciam. 


domingo, março 22, 2026

Domingo, 22.

Outro dia, no encontro com o Filipe em Lisboa, descendo o Chiado, não sei a que propósito, falou-se dos jovens de hoje. Atrevido como sou, logo disparei que a malta “só lá vai com quatro cervejas” e acrescentei “é o que ouço dizer às feministas”. Na sequência desta constatação, não sei porque carga de água, o Filipe disse à colega que o acompanhava: “Este senhor, foi o meu primeiro director”, estupefacção dela no olhar incrédulo que me devolveu. 

         - Sousa Tavares no Expresso: “Trump é incrivelmente inculto, não sei se terá lido um livro sem ser de autoajuda e é altamente ignorante” O que é que se espera de um especulador imobiliário?! 

         - Passa de 80 por cento o número de portugueses descontentes com o Governo. Eu sou um deles. A poupo e pouco deixei de confiar numa pessoa que arrasta consigo todo um fadário de esquemas, de alguma incompetência e ziguezagues sem fim. 

         - Ontem almocei com o João. Não é meu hábito ir a Lisboa ao sábado, mas achei-o muito desmoralizado e fui levar-lhe um pouco de conforto. O homem detesta estar doente, e se lhe digo do meu espanto com a frequência com que adoece, ouço invariavelmente a mesma resposta: “Mas eu há anos que não estou doente.” 

         - Passei vários meses de um sono de bebé Nestlé. Chegava a dormir dez horas seguidas e a cama era para mim o maior e mais eficiente antídoto para tudo. Agora, há coisa de uma semana, sem saber porquê, um volte-face. Se tomo uma porcaria dita natural, durmo entre os lençóis e por todo o lado. Ando bêbado o dia inteiro, eu que não bebo uma gota de vinho há anos.


sexta-feira, março 20, 2026

 Sexta, 20.

Começo a pensar que não sou estupido de todo. Ontem, embalado pela chuva, cheio de paciência, consegui realizar uma série de peripécias que este novo computador exigia. Fui tacteando como uma criança que aprende os primeiros passos e ao fim de mais de uma hora, tinha reconstituído tudo aquilo que fazia falta ao meu trabalho diário. Ufa! De futuro, não peças ajuda, arrisca e verás todo o potencial de recursos que existe em ti. 

         - Ainda bem que temos de volta à TSF um cronista de excepção: Fernando Alves. Na sua crónica de hoje, ei-lo oportuno a chamar os bois pelos seus nomes e a orientar o pensamento crítico para o lugar onde ele devia estar inteiro: o Parlamento. Este retrato do todo: “Deixai correr o olhar pelas bancadas. Ei-los, impantes, o cabelo engomado mais do que penteado, a farda oficial de gato pingado muito assertoada. Não há um assessor que os despenteie? Não há um repórter mais atrevido que, na roda mediática, lhes peça, inesperadamente, o título do romance que lhes sacode os dias?” Mais adiante: “Ao longo da vida sempre cuidei de orientar o sentido do meu voto no favorecimento de um pressuposto: não confio politicamente em quem não estime em voz alta a língua portuguesa ou em quem me possa transmitir a suspeita de um desdém ou de um desapego pelos livros.” Para concluir: “O que me fez puxar este fio amargo? Uma entrevista de José Carlos Vasconcelos à jornalista Filipa Lino no excelente suplemento de fim de semana do Jornal de Negócios. A conversa percorre a longa vida de um lutador sereno, "poeta na clandestinidade" como se designa, que defendeu presos políticos durante a ditadura, foi deputado e dirigiu durante 45 anos o desaparecido Jornal de Letras. E convoca a memória das lutas e dos amigos, os dias de Coimbra, os grandes combates da democracia.” Acrescento como nota de simpatia, que ainda guardo as folhas que José Carlos Vasconcelos me enviou com dois ou três poemas para a Rádio Universidade, dirigidos ao meu programa Nova Musa

         - Alinho estas palavras no pequeno café da Fnac. Vou deixar que a minha mente se estenda até ao horizonte de livros, distendo as pernas, assim ficarei até sentir o cérebro voar sobre o infinito espaço de alheamento e beleza, ao encontro da galáxia invisível do meu ser. 


quinta-feira, março 19, 2026

Quinta, 19.

Quando descia o Chiado, encontrei o Filipe como sempre surpreendente na forma de vestir e ser. Estava acompanhado por uma colega do gabinete de informação e imagem da Câmara de Lisboa onde trabalha. Disse-me que tem vivido num desassossego devido à Judiciária que irrompeu pelo edifício em busca de provas de mais um cambalacho de milhares levado a cabo pelo secretário-geral da autarquia, um tipo do CDS e mais três funcionários, todos da área das iluminações natalícias, que embolsaram milhares em contratos sem concurso. É nisto que estamos há pelo menos duas décadas. Políticos, autarcas, gestores públicos e privados, funcionários administrativos, enfim, este escol de gente sem ambição nem honestidade, dá aos tribunais e judiciária um trabalhão a mais que nem aluvião de vadios, ladrões e salteadores de casas, dariam. À sua conta o número de funcionários da justiça quintuplicou. Só para o gatuno José Sócrates, contem quantos advogados foram até hoje precisos. Assim, é certo e sabido, que ele vai ser absolvido pela caducidade dos prazos – e mantém bem aferrolhados os milhões dos nossos impostos. 

         - Ontem, deu-me para ir almoçar pacatamente ao restaurante do alto do Corte Inglês. Não é tanto a refeição que me apaixona, mas aquele estar ausente, o olhar perdido nos comensais devoradores e conversadores, aquele pequeno e modesto mundo de gente que toma alguma importância quando se senta à mesa e o empregado fardado se aproxima para saber o que escolhem suas excelências do menu que ele lhes estende. É como se ingressasse num universo outro, onde figuras de negro vestidas fossem sombras voláteis onde as moscas teriam medo de pousar. O brouhaha que varre o espaço, hipnotiza, anestesia os sentidos, leva-me a sobrevoar com o olhar a teia de gente que parece feliz tocada pelo álcool e pelos prazeres da mesa, da importância que a importância confere a quem dela nunca se afasta mesmo quando pela idade, a solidão da velhice, o desconforto da saúde e o abandono dos mais chegados alvejados por outras fantasias que em catadupa a sociedade lhes oferece. Ao fundo, junto à grande vidraça que dá para a cidade submersa no vazio das horas, estava uma senhora recolhida em si, que mastigava sem pressa, o olhar perdido algures no centro do seu mundo misterioso e digno, espécie de lugar povoado dos pensamentos que o tempo deixou para trás e naquele momento se apresentavam para o derradeiro aceno, antes de o tule de sombras cobrir num vislumbre de realidade ou de eterna recordação o passado, o presente e o futuro. Ela, só, carregava consigo o destino da sala inteira, autoridade que o tempo consagra a quem se atreve a atravessá-lo hirto, sobranceiro, senhor dos dias contados pelo filamento frágil das horas. A eternidade é um sítio algures onde se perdura em errância. 

         - Tendo terminado o Diário de Green há dias, nem por isso o largo disposto na mesa de apoio junto à lareira. Abro ao acaso uma página, folheio o espesso livro e observo as minhas anotações, os meus sublinhados e surpreendo-me sempre com o que leio. Julien foi à sua maneira um místico, um homem dilacerado pelos prazeres carnais, em luta constante entre o divino e a sua condição humana frágil e comovente. Em 15 de Agosto de 1958 ele está de férias na Áustria com o seu amor Robert e a irmã Anne. Acorda a meio da noite sacudido por uma voz envolta numa luz que ordena faça as suas orações. Ele responde: “À cette heure, Seigneur? – Oui, je le veux, il faut obèir.” São inúmeras as passagens que o Senhor intervém na vida do escritor e que ele não hesita em as narrar.  

         - Dia de uma tristeza infinda, sombrio, cinzento, a chuva ora forte, ora miúda a mistura com o frio, salpicando as horas que pareciam incomensuráveis. As árvores agitaram-se por favor, em sintonia com o resto, o todo enfiado numa massa mole, adstringente. Os pingos que batiam nas vidraças, pareciam toques de salteador precavido; a luz coada pelas nuvens chegava envolta num segredo de baixo teor de certeza. Tudo aqui mergulhara num silêncio espesso, ninguém passou no caminho que atravessa o campo solitário. Mergulhado na escrita e na leitura, enchi as horas no remanso eterno de quem desconfia do que se passa fora de porta. 

         - Sonho já com o autocarro amarelo. Felizmente as bombas dos dois desmiolados que semeiam a morte e a desordem, a miséria e a incerteza, não furam o silêncio religioso que aqui se alonga. Atravessar o rio, olhá-lo com os olhos recuados da alma, remoer pensamentos, chamar ao instante amigos e momentos de felicidade, todo um mundo de recordações que a viagem me proporciona antes de alcançar Lisboa e ter escondido no fundo do Tejo a presença dos eternos ausentes.    


quarta-feira, março 18, 2026

Quarta, 18.

Eu já sabia da proeza que ontem vinha escarrapachada no Público. O facto é que com Donald Trump tudo é possível e nada nos espanta. Ou, talvez, sim. Esta. Nas reuniões na Casa Branca, o líder supremo, sentado no seu trono com os seus súbditos em volta, para descansar a mente de tanto magicar como invadir este ou aquele país, o estudo do que pode surripiar explicado num caderno escuro que nunca larga, pousou o olhar nos pés dos presentes e estremeceu: “hum... pés pequenos, zizis diminutos” pensou. Então teve uma ideia. Mandou perguntar ao seu grupo de entendidos em direito internacional, bombas de larga potência, secretários e ministros, chefes militares e agentes do FBI quanto mediam os seus delicados pezinhos. Ninguém estranhou tal pergunta e todos responderam sem questionarem a curiosidade do mais poderoso. Uma semana depois, Trump tinha um par de sapatos Florsheim, com dois números acima da medida de cada um. Logo foi como se, no momento em que calçaram os sapatos ao preço de 120 euros cada (nem acho caro, pois há muito que eu pago pelos meus da Massimo Dutti este valor) e em boa verdade também é irrisório para um homem com 20 cm entre as pernas que queira duplicar a sua masculinidade ficando com à altura do abastado octogenário que muito o utilizou a desflorar crianças com o seu amigo Jeffrey Epstein. Enfim, os EUA podem multiplicar as reuniões de Estado assim abastadas de conteúdo e dimensão sem que com isso o país perca a sua virgindade.  

         - Voltando à Améria, desta vez para falar de coisas sérias. Trump, o dono do mundo, pediu ajuda à Europa e a outros países para abrir o Estreito de Ormuz à circulação dos combustíveis, hoje e sempre controlado por Teerão. Teerão que parece invencível. Não obstante as bombas assassinas de Israel e Estados Unidos, o que se vai vendo é que o país estava há muito preparado para a guerra. A obsessão e ódio de Netanyahu em eliminar os seus dirigentes, de tão obcecado está, que nem pensa que por cada figura da república teocrática islâmica que mate, logo outra se ergue com o mesmo dinamismo e revolta de vingança. O controlo daquela mancha de água é tal, que Teerão dá-se ao luxo de deixar passar quem entenda e seja dos seus interesses. Quanto a Trump, naquele infantil modo de governar, logo veio dizer que não precisava do Ocidente nem da NATO. Ele e o corrupto e tirânico israelita, bastam para pôr ordem no mundo. O Presidente, na sua idiota maneira de governar, deixou-se enredar na rede criminosa de Netanyahu e seus fanáticos religiosos, servindo-se de mais uma mentira (como aconteceu no Iraque) que o país dos yatolis tinham para breve a bomba nuclear. Graças a estes dois loucos e fanáticos, o desarranjo mundial aí está a ameaçar-nos a todos para o terceiro conflito mundial.    

         - Ontem foi um dia em pleno. De manhã fui ao lavadouro tecnológico e de tarde tive aqui o senhor José Manuel e um vizinho com um tractor, ambos aplicados em pôr a quinta civilizada. Isto sob a urgência do anúncio da chuva para as 17 horas que, como um relógio suíço, começou a cair tal como os nossos meteorologistas previram. 



A chegada do tractor para levar o taralhoco do cepo para queimar. 


José Manuel, do alto dos seus 75 anos, a dar uma lição a todos os preguiçosos de hoje agarrados aos telemóveis como manjedouras caseiras. 

 
O lume sagrado que ficou pela noite dentro.




segunda-feira, março 16, 2026

 Segunda, 16.

Ambos adoram fazer a guerra: americanos e israelitas. No caso destes últimos, depois de dois anos infernais a reduzir a cinzas a Faixa de Gaza e a dizimar para cima de 72 mil palestinianos, retornaram ao Líbano para destruir e matar mais de mil pessoas. O seu escudo protector que diziam ser inviolável, meteu água e muitos são já os mísseis e drones que despejaram por todo o país o fogo fazendo em pedaços sólidos edifícios e matando muitos israelitas. Todos os dias, contra a expectativa do Governo de Netanyahu confiante na protecção do território, caiem mísseis disparados de Teerão não só em direcção a Telavive, como a muitos países do Médio Oriente. É evidente que temos guerra para muito tempo, contrariamente ao que Trump afirmara e desejava que fosse breve. Aqui como em Ucrânia, os ditadores fazem contas que são ratadas pela sua tirania e ódios de estimação. O curioso desta guerra, é o facto de os países árabes nunca terem ripostado - isto devia ser matéria para Israel e sobretudo pra a América meditar. 

         - De uma assentada saíram mais de 200 euros. Domingo para atestar o depósito do carro a 2,11 euros o litro; hoje duas botijas de gás (a grande 124 euros, a pequena 37 euros). Dizem-nos que estes preços chorudos vão directos aos bolsos dos risonhos empresários que se banham de petróleo e a Putin que se enrola de gozo, todos sob a batuta do camarada Trump e do seu influencer Netanyahu. 

         - Não sei quem, chamou-me a atenção para a presença na SIC do humorista Vasco Pereira Coutinho, frente a frente com Daniel Oliveira no programa Alta Definição. Tenho de ser franco, nunca tinha ouvido falar no seu nome e muito menos conhecia o que fazia. Foi, portanto, uma revelação para mim o tempo que estive diante do computador a ver a conversa entre os dois. Vasco Coutinho talvez não saiba quem foi Julien Green, nem tão pouco conhece a sua obra literária, mas ele é um discípulo do escritor francês, na forma como se entrega a Deus e na sua disponibilidade para se aceitar de um modo sadio e consciente de que não nos podemos opor à nossa natureza. Aos 37 anos deixou para trás uma vida absolutamente luminosa no sentido da sua entrega aos outros e da fé que o leva a dizer bem alto que quer “ir para o Céu”. Trabalhou quando jovem no bairro da lata em Chelas, foi seminarista em Roma, em Itália deu ajuda numa cooperativa de pessoas com deficiências profundas, enfim, viveu consigo, macerando uma condição que ainda hoje não é fácil de levar, pese embora a bandeira das esquerdas que se servem mais do que fazem pela sua defesa e aceitação. 


sábado, março 14, 2026

 Sábado, 14.

Ontem estive na Brasileira à conversa com o António e a mulher. Gosto dos dois e aprecio particularmente ela, pelo sacrifício de aturar um hipocondríaco. Não dissemos nada de importante que ficasse nos anais do célebre café, mas o falecido Guilherme Parente veio à baila e António voltou a criticá-lo pela sua excessiva actividade de pintor com um marketing apurado junto dos ricos. Como se isso tirasse mérito à sua obra artística de um fulgor imérito. Acontece que eu tinha dormido mal e à força de um soporífero natural que acabei por tomar pela meia-noite e me acompanhou o dia todo, para além de não pensar, queria dormir em todos os lugares. A pancada foi tão forte (decerto falta de hábito), que entrei no C.I., desci às catacumbas e recostei-me num daqueles sofás confortáveis e entreguei por quase meia hora a alma ao criador. Para dizer que, contrário ao que me sustém, não ofereci remoque aos comentários invejosos do meu amigo. O resto do tempo, foi consumido com vulgaridades que o pintor tanto aprecia. 

         - Morreu o escritor Mário Zambujal. Ficou nos circuitos conhecido com o romance Crónica dos Bons Malandros. Conheci-o sem, contudo, o conhecer. Eu conto. O Francisco Vicente, pessoa cultíssima e gestor da Bertrand e Difel, propôs-me um dia apresentasse o romance que havia acabado de escrever à primeira editora. Acontece que Zambujal fazia parte do corpo editorial e lera o meu trabalho. Quando chegaram os votos, ele votou contra e escreveu na resposta que era “um romance demasiado romance”.  Estupefacção geral. O que é que isso queria dizer? Mistério. 

         - Justamente. Este mês de Março é para mim medonho, tantos queridos amigos partiram. Estive a ver na minha agenda para lhes rezar um Pai-Nosso: dia 9 partiu a minha saudosa irmã; a 11 o ti Luís que aqui trabalhou até aos 93 anos; a 16 o Manuel Cargaleiro de que tantas vezes recordo e imensa saudade me deixou; a 17 o Angusto Tejo que transportava o sol consigo e era de uma ternura inexcedível. 

         - Há mais de uma semana que durmo fora do meu quarto. O frio voltou e a casa toda sofre com isso, a lareira está acesa, na cozinha tornei a ligar o ar condicionado. O desconforto parece mais evidente depois de nos últimos dias termos tido a visita da Primavera. A quinta, agasalhou-se com o manto espesso do Inverno e tudo ficou sob o ar triste que a desordem da tempestade do mês passado implementou. 


quinta-feira, março 12, 2026

Quinta, 12.

Há um atrasado mental, de nome Tiago Grila, que atropelou na Amadora uma rapariga numa passagem de peões deixando-a muito afetada e pondo-se em fuga. Os anos passaram, a polícia em busca do criminoso, até que o sujeito, com fama de influencer, contou num podcast como o acidente se tinha dado, contorcendo-se de riso e contentíssimo do feito operado. Os agentes da autoridade, confrontaram os factos, deram-no por autor do atropelamento e vão levá-lo a julgamento. Mas o país actual é isto: milhares de seguidores, correm atrás desta gentalha que ninguém sabe de onde veio, acreditam nas suas histórias e seguem-nos como cordeiros. Que o país é esta geração básica, sem cultura, capaz de tudo fazer para ter uma vida fácil, sem trabalho nem conhecimentos, já todos sabemos e de nada serve impingirem-nos o grau de escolaridade que a democracia trouxe relativamente ao fascismo, porque a vida se encarrega de nos trazer de volta a medonha e assustadora verdade de uma génese. Estes influenciadores, só influenciam os idiotas.     

         - Respigo dos jornais de hoje: Guerra Israel–Gaza libertou mais de 30 milhões de toneladas de CO2 num só ano. É decerto verdade. Contudo, aflige-me mais o número incrível de 72 mil palestinianos mortos e mais várias centenas de líbios nestas duas últimas semanas. 

         - Estou a arrastar o términus do diário de Julien Green. As poucas páginas que me faltam ler, quero saboreá-las, ler e reler, porque são preciosas e devem ficar na mesa de apoio em frente à lareira para serem espreitadas nas horas e minutos que abrangem os próximos meses. 

         - Não há palavras para descrever o dia de hoje. Fiquei aqui (ontem aconteceu o mesmo) extasiado a olhar a paisagem que se enche de luz, flores, brotos juvenis, silêncio, contemplação, e uma luz que pensava perdida e cobre agora o campo de florescências de muitas cores. Voltaram os sangões, os pássaros, as borboletas, cobiçando os prados de florinhas amarelas, saltitando de pétala em pétala, depois de colherem o pólen que carecem. São infinitas as tardes solarengas, o olhar perdido entre a leitura e o horizonte onde um ligeiro tecido acinzentado bruxuleia na poeira do sol. Mas o mais surpreendente, é o silêncio que parece comungar com o todo da natureza, dançando ao toque sublime das horas, distribuindo paz e sossego, rumor surdo e o peso constante que afaga o coração e ilumina o olhar. 

Os malmequeres sorriem por todo o lado e são mensagem de bemequeres. 


 

quarta-feira, março 11, 2026

 Quarta, 11.

O assassino americano influenciado por outro seu igual israelita, diz que os bombardeamentos sobre o Irão, com destruição, mortes, inclusive 150 crianças de uma escola, a vida de um país voltada do avesso, não passa de uma “excursão” que ele ordenou ao seu exército fizesse para seu deleite e força. Parece que o recém-eleito líder supremo Mojtaba Khamenei, foi ferido em ataques levados a cabo por Telavive. Mas basta ouvir aquela equipa de gente sem competência nem humanidade que cerca o grande paxá exprimir-se sobre as mortes e a destruição de um país, num tom vulgar como se vidas humanas não tivessem valor algum, espécie de fait-divers com que as elites do capital se entretêm, para se compreender o destino de um país que exibe a força como virtude, entregue a um louco varrido, a um especulador imobiliário que se acha o supremo deus do mundo.   

         - Marcelo deu o lugar a Seguro. Na hora da despedida, à boa maneira portuguesa, muitos são os comentadores que vomitam pareceres sobre o seu reinado. Talvez o resumo que dele fez Miguel Tavares, seja o mais certeiro: “Ele é um político traquinas nas coisas populares e excessivamente medroso nas coisas grandes.” Seja como for, ele despiu a sobranceria do cargo, introduzindo no seu exercício a Democracia, naquilo que ela tem de mais frágil, mais próxima do povo e contra os arrogantes que têm passado por Belém – e foi mais do que um...  

         - Ainda não deixei de acender a lareira. Estes últimos dias, à noite, o frio instala-se. Logo que acaba o espectáculo das notícias, fecho o aparelho da TV, e mergulho no silêncio profundo que tudo reconforta e lanço-me nas leituras, um ténue fio de música em fundo. Momentos indizíveis de serenidade, de largo tempo em diálogo com o fogo, pequenos-grandes-nadas que fazem a grandeza da vida como, por exemplo, o trajecto no autocarro para e de volta a Lisboa, as tardes lá fora ao sol lendo Green, o trabalho no romance passando os acertos do manuscrito para o computador, aqui ou na Fnac, seja lá onde for consigo abstrair-me de tudo, o interior desta casa, construído a pouco e pouco, com todo um mundo abstracto que se tornou com os anos algo de substancialmente real a tal ponto que é hoje a identidade do seu proprietário. 


terça-feira, março 10, 2026

 Terça, 10.

Esta manhã cruzei-me no Rossio com o Luís, velho amigo dos teatros. Aceitei tomarmos um café no Nicola para pormos a vida em dia, depois de anos sem nos vermos. Foi casado, tem dois filhos, separou-se da mulher para casar (casar mesmo, com diploma e tudo) com um homem que vi no mostrador do seu telemóvel, figura espadaúda, depilada, ao gosto amaneirado dos tempos presentes. Falámos, falei. Para lhe dizer quanto lamento a escolha de vida à moda dos heterossexuais, monótona, fingida, trancados na família enquanto instituição católica tão do agrado das instituições - ainda que Jesus Cristo não tivesse optado por tal sorte -, egoísta e toda centrada nos filhinhos queridos, nos netos delicodoces, a televisão a preencher os dias, os passeios eternos pelos supermercados e centros comerciais, os restaurantes em moda, a ronceirice terna a encher o tempo que lhes resta para viver, quando antes, os homossexuais eram figuras de proa de um viver solto, criativo, apaixonante, onde o acaso tinha lugar e a liberdade caía em pleno no centro dos dias e sobretudo das noites, alagando as suas existências de impulsos criativos, amores desencontrados, escolhas entregues à sorte, desilusões, sofrimento, o todo num incitamento à descoberta, à aventura. Aquilo que mais reprovo à organização que impera entre nós, e que os concursos, a televisão, as empresas são forças da sua estrutura social ao mesmo tempo que dela dependem, é a ideia de que a família existe, é a força do Estado alicerce civilizacional de um padrão que tem nela o centro de um mundo que sendo largo deve permanecer limitado ao núcleo restrito de cada agregado. Se me permitem, este egoísmo mais evidente, teve o seu climax durante o SARS-COV-2, quando elas assaltaram os supermercados em busca do armazenamento de papel higiénico. Pode parecer ridícula esta observação, mas estou certo que recentra como nenhuma outra, a incapacidade de a dita família ver para além das quatro paredes da sua casa. De todos os meus amigos, quase todos casados, só um ainda por cima com mulher (perdão) esposa e três filhos, está sempre disponível para os outros, honra lhe seja feita: João Corregedor.  

         - Aquela cena ridícula, com Trump rodeado dos seus seguidores, em oração, ligados ao chefe, olhos fechados a orar não percebi a quem!   


segunda-feira, março 09, 2026

 Segunda, 9.

Andou toda a manhã aí o espalha-brasas do Sr. José Manuel. Quando chega, como sempre com o sistema nervoso acelerado, tenho de o acalmar. Sobretudo hoje, quando havia que retirar o fio elétrico que ficou preso às raízes de uma das árvores tombadas. Labor difícil, cauteloso, que o ocupou das 9 às 13 horas, comigo em sentinela não fosse ele deixar o trabalho para começar outro e assim sucessivamente ficando como é seu hábito tudo por terminar. 

         - Já não devia ter idade para a noite de ontem, semeada de sonhos provocadores, recordações vindas em catadupa a forçar-me a acalmar através dos hábitos da adolescência. Tanto tumulto tinha acontecido já a semana passada, como se eu fosse arrastado para excitações que julgava mortas e enterradas, delírios e desvarios, uns e outros em doses repetidas impedindo-me de dormir, corpos belíssimos ali a meu lado, suspiros risonhos amortecidos por recordações felizes que a madrugada me trouxe inopinadamente. Estranhos e belos instantes que o tempo havia enterrado e num fluxo de luz tinham retornado na forma misteriosa de um momento tangível e imaculado – os vinte anos teimam em não se afastar de mim. Oh, céus! O corpo envelhece, mas o coração é sempre jovem. 

         - Como se previa, o sucessor de Ali Khamenei é o filho de 56 anos. Netanyahu, apressou-se a dizer que o vai abater. Entretanto, o camarada Trump, diz que está próxima a invasão de Cuba. Há mais de um mês que lhe cortou o combustível que chegava preferencialmente da Venezuela. 

         - Por cá há um quadro sinistro da Polícia. Dois agentes da esquadra do Rato, estão presos por maltratarem e sodomizarem com o cabo de vassoura imigrantes e sem-abrigos e depois atiravam-nos para a rua. O filme dos horrores, foi dado a conhecer a outros colegas através de circuito restrito na Internet. Ao todo são uma dúzia de agentes que só não denunciaram o crime, como gozaram com a triste e desumana condição dos infelizes. Do Sr. Ventura, nem uma palavra. 


domingo, março 08, 2026

 Domingo, 8.

Assisti à eucaristia de domingo transmitida pela televisão do Porto. A concelebrá-la dois padres de certa idade, apoiados um no outro, numa espécie de representação da beleza que nos espera no fim da vida. São Paulo foi citado numa carta aos romanos. E logo me lembrei do evangelista, numa outra carta aos coríntios (6:9) e fui acercar-me da Bíblia traduzida por Frederico Lourenço, onde o santo homem reduz a cinzas uma boa parte da humanidade, sobretudo esta dos tempos modernos permanentemente alimentada pela pouca vergonha da liberdade sexual. “Ou não sabais que injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem bêbados, nem caluniadores, nem rapaces herdarão o reino de Deus.” Pergunta-se quantos de nós seremos chamados ao Seu reino. E se não há neste formulado um exagero imenso que nos leva a acreditar que, não havendo hoje santos na terra, quem procura Deus entre esta escumalha de gente que o substituiu pelo poder, a subjugação, a riqueza, o vazio de um tempo onde nada dura mais que uns quantos minutos, com a única realidade a que ninguém escapa: mortos, somos todos iguais - o sentimento fraterno da vida traduzido no que partilhámos e não no que possuímos. É aqui que existe a diferença e será decerto por aqui que seremos escolhidos. A verdadeira vida, começa depois da morte. Pessoalmente, estou curioso em espreitar pela memória e a permanente interrogação, a ressurreição a que somos chamados pela via estreita à Eternidade.        


sábado, março 07, 2026

 Sábado, 7.

A guerra continua. Todos os dias alvos bélicos cruzam os céus de Israel e da América na direcção do Irão e destes para Telavive levando a destruição. Teerão vinga-se, reenviando carradas de drones e mísseis para países vizinhos ou onde os americanos têm abrigos estratégicos. Netanyahu mantém duas guerras: contra o Irã e o Líbano. Por ora, a Europa está na defensiva. A mim o que me inquieta, é observar que uma democracia como a americana, pôs à frente do país um homem louco, obsessivo, descontrolado, manipulado por um rebanho de gente inumana para quem os negócios contam mais que as leis, as pessoas, a solidez do mundo, os direitos humanos, a Constituição e os valores morais. Neste concerne, o líder americano e o israelita, são irmãos gémeos que espero um dia possam ser julgados por criminosos e condenados. 

         - Portugal está afastado disto tudo. A classe política parece desconhecer em que estado está o mundo. As questões entre nós são mesquinhas, de lavadeiras à moda antiga, toda enredada num conluio secreto cujo desmame só eles conhecem. Montenegro que eu cuidava ser outra coisa, revela-se um homem enrodilhado em esquemas pessoais que vai desenrolando peça a peça, como num striptease de pouco interesse e nenhuma excitação. Como não há jornalismo entre nós, são as minudências que enchem páginas dos jornais, abrem telejornais, imiscuem-se no quotidiano como algo de supremo interesse. Deixando de lado o futebol, o presente é a história esquecida do mandato de Marcelo. Nesta como noutras circunstâncias, os comentadores têm lembrança curta. Mas que fazer, se é necessário imprimir jornais, abrir televisões, trazer para casa dos portugueses a lengalenga beata de um Portugal crente e temente a Deus e “especial” no contexto da Europa. Luís Montenegro, sendo do Norte, e não tendo esquecido aquela forma de terminar as palavras, leva ao seu condiscípulo da Casa Branca o apoio que outros países lhe recusam: “Portugal está ao lado dos EUA” A ética de outros ministros da UE ou Canadá, não se encaixa na originalidade do homem de Espinho e do interior do seu prédio tão ao gosto do desgosto de não ter havido sinceridade na sua construção, não brota nenhuma ideia perene para a construção do direito internacional e da dignidade humana.  

         - Há muito que não vivia uns momentos assim. Refiro-me ao gesto de puxar o canapé para o Sol e acercar-me do jornal e de um livro (no caso de Julien Green) e deixar-me ir por um mundo onde se cruzam os dramas, as dúvidas, mas também as esperanças dos homens. Em redor, vivas de verde e floridas, as árvores. E o silêncio da tarde quente, onde desaguaram outros instantes semelhantes, mas onde persenti que o seu recetor já não se assemelha àqueloutro que ficou para trás e não ousa reconstituir a magia perdida.


quinta-feira, março 05, 2026

 Quinta, 5.

Emmanuel Macron decidiu enviar o porta-aviões Charles de Gaulle para o mar Mediterrâneo e a fragata Languedoc para o largo do Chipre (o país que integra a UE) e fora atacado há dois dias, bem como o destacamento adicional de meios de defesa antiaérea. A França reforçou igualmente a sua presença no Médio Oriente com caças Rafale e outros meios aéreos projetados nas últimas horas. 

         - O Jonhson voltou aí e esteve a falar-me sobre a concorrente da IA denominada Grok. Parece que o bicho é mais assustador. 

         - Israel não pára. Não satisfeita com a morte de 72 mil palestinianos na Faixa de Gaza, enfiou-se uma vez mais pelo Líbano onde nas últimas horas morreram umas dezenas de pessoas. Que mundo este! 

         - Bela obra de Vhils que sustenta os 10 anos de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. No retrato está inteiro o homem nas suas múltiplas imagens que integram a verdadeira que só o artista captou.  

         - Faleceu António Lobo Antunes. Conheci-o no Hotel Altis quando do lançamento do seu primeiro romance Os Cus de Judas. Eu tinha acabado de publicar A Ruptura. Tornei-me a encontrar com ele numa sessão de autógrafos na Feira do livro (por sinal muito animada), onde ficámos lado a lado e era uma simpatia, no oposto ao que por vezes reflectia o seu temperamento. Os seus romances não me atraíam por os achar demasiados marcados pela obsessão ideológica e correrem, como direi, sempre em torno dos mesmos temas. Morreu sem obter o Nobel. Paz à sua alma. 


quarta-feira, março 04, 2026

 Quarta, 4.

São de registar as palavras de Pedro Sánchez que redimensionam a sua singular e lúcida posição sobre a selvajaria de Trump aliado a Netanyahu e vice-versa, para justificar a recusa de utilização pelos americanos das bases militares em Espanha. Donald Trump, como é seu hábito e não só dele como de todos os ordinários sem educação nem princípios, chamou os piores nomes a Espanha e ao seu líder, ameaçando cortar todo o comércio com o país vizinho. Em sua defesa, chegou o chanceler alemão, afirmando que a Espanha faz parte da UE e todos acordos comerciais têm de passar por Bruxelas. Contudo, é de realçar e enobrecer os princípios que Sánchez evocou e fazem parte da sua ética pessoal e do cumprimento das leis internacionais que não deixam o mundo cair no lodaçal americano-israeliano: “Não vamos mudar por medo de represálias”, e acrescentou: “a invasão do Iraque de 2003 criou um mundo mais inseguro e uma guerra no Irão não criará uma ordem internacional mais justa, um ambiente mais saudável ou uma vida melhor para as pessoas comuns” e sem papas na língua, “os governos não devem jogar à roleta russa com o destino de milhões" de pessoas. Ouviu, senhor Luís Montenegro?

O Irão a ferro e fogo, espectáculo de horror tão ao gosto americano-israelita 

         - Outra magnificação ao Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, ao dizer aquilo que eu próprio penso, a saber, que a guerra levada a cabo por americanos e israelitas, desencadeia em todas as nações o incremento do arsenal nuclear. 

         - Como explicar o que me aconteceu hoje. A noite passada, rente à madrugada, sonhei que tinha entrado para tomar a bica no café antigo aqui da vila. O filho dos donos, um rapaz alto, esguio, com um friso dos dentes alvos, um pouco tímido, bem parecido, quando se aproximou da minha mesa para nela depositar a bebida, estendeu-me a mão para um cumprimento, disse-lhe: “Tenho direito a um aperto de mão?” Ele sorriu e foi ocupar o seu lugar ao balcão. Daí a momentos acordei. Acontece que esta manhã, enquanto esperava que o lavadouro tecnológico terminasse as operações, entrei no Continente para fazer tempo e tomar um expresso e ler o jornal. De repente, quem é que vejo na minha frente? O rapaz em pessoa com quem havia sonhado. Cumprimentámo-nos e eu contei-lhe o que acabei de descrever, ele: “Curioso. O que é que isto quer dizer? Eu acredito que coisas assim não são por acaso, até porque não tenho o hábito de vir aqui e só entrei porque vou comprar uma máquina na Vorten. Que quer dizer isto?” disse convidando-me a tomar café no seu restaurante, mas “é meu convidado”. “O sei, mas não digo”, respondi.

         - A queda que eu dei no início da semana ao entrar na cozinha, tem-me provocado dores intensas. Penso que não danifiquei a anca, mas a mancha negra na bolacha da nalga, é grande. Ontem, fui, enfim, à farmácia comprar Hirudoid. 

         - Trabalho no café da Fnac antes de ir ao oculista colocar a lente esquerda (sem riscos). Cheguei à página 50 da correcção no romance. A Primavera espreita. 


terça-feira, março 03, 2026

 Terça, 3.

O mundo conduzido por dois criminosos, Trump e Netanyahu, parece estar a ensaiar a terceira guerra mundial. Praticamente todo o Médio Oriente foi implicado no desastre com a resposta do Irã a atacar as bases militares americanas e agora as embaixadas, facto absolutamente natural como réplica à selvajaria dos dois prepotentes. A França acabou de anunciar o fomento de ogivas nucleares e a construção de novo porta-aviões para substituir o Charles De Gaulle, ao mesmo tempo que se posiciona no terreno em defesa dos seus aliados. O mundo assiste atónito ao desenrolar de uma guerra que não se percebe o sentido nem o fim. Milhões e milhões de pessoas vão sofrer as consequências, as suas vidas vão ficar encostadas, a economia parada, o desenvolvimento esquecido, o sofrimento por todo o lado, a morte a traçar o destino antecipado de muitos países. A destacar-se da mediocridade geral, o Reino Unido e a Espanha. A primeira pela forma como adjudicou as suas bases militares; a segunda por ter recusado a Trump usá-las. A economia em geral vai ressentir-se deste pesadelo, tendo em conta a necessidade de petróleo e gás de que aquela parte do mundo tem em abundância. A célebre Make America Great Again vai afogar-se num mar de sangue – inutilmente. Assim, como se previa e devia ter sido pensado por Donald Trump se fosse inteligente e conhecedor e apto para o cargo, o Governo que se esboça no Irão continua o programa de Ali Khamenei.  


domingo, março 01, 2026

 Domingo, 1 de Março. 

A psicopatologia dos tempos modernos. Há uma semana que vinha a sofrer de dores nas costas quando estava deitado. Pensei que era o colchão que devia ser virado ou algo semelhante. Nesse entretanto, passei a dormir num dos chambres des amis e ontem, enchendo os pulmões, fui tentar volver o pesado colchão. Terminada a tarefa, mudados os lençóis, senti uma sensação de conforto a invadir-me e com essa sensação, chegada a hora, subi para dormir. Pessimamente. Quando acordei, tinha as costas doridas e assim que pus os pés no soalho e me sentei na borda da cama, o colchão vacilou e fui atacado de súbitos espirros que só pararam quando cheguei à cozinha. Estranho, algo não estava certo. Então, abri o computador que pertence à última geração de máquinas inteligentes associadas à  IA logo presente quando o ligo. Perguntei à rapariga robustecida de todas as fantasias, das humanas às sobrenaturais, o que se estava a passar. Esperei uns segundos e ela vomitou a sentença que me surpreendeu: teria de adquirir outro colchão porque este manifestamente estava no fim, ao disparar aqueles acidentes próprios de criatura senil. Pensei que deveria ter comprado este colchão há pelo menos trinta anos e conclui: “Helder, vai dormir noutro quarto e rapidamente despende o necessário para um novo.”  

         - A mortandade que tanto regozijo causou a Netanyahu e a Trump, ceifou alguns dos principais dirigentes da geração dos ayatollahs, incluindo o chefe supremo Ali Khamenei. Que ganhou a América com este acto terrorista, sabendo nós que as existências de bombas nucleares não existem e que o objectivo era acabar com o sistema político substituindo-o outra vez pela monarquia dos Reza Pahlavi. Com um doido varrido à frente dos EUA, para quem o mundo inteiro terá se curvar ante a sua força bélica e económica, armado em zelador do bem e das multidões sob tiranias políticas, pergunta-se qual será o próximo país a ser destruído, sendo certo que as ditaduras russas, chinesas, vietnamitas ou norte coreana nunca ele se habilitará a atingir, pela simples razão que o podem destruir a ele? A bomba atómica, dá aos países que a possuem, um poder de dissuasão que querem conservar só para si, como forma de escravidão dos demais. Um dia, qualquer destes malucos fanáticos das riquezas alheias, abrirá mão da sua liquidação total. 

         - Onde está a Europa dirigida pelo casal von der Leyen e António Costa? Não existe. Perdão, é real na sua desordem, no seu atraso básico, no seu olhar torcido da realidade, nas suas hesitações, nos seus longos e luxuosos retiros de onde não sai nada, zero, silêncio total, nos seus passeios a Kiev para enaltecer quem pelo trabalho e a honra não precisa de palavras simpáticas e protocolares. Esta paralisia foi útil a Trump e ao seu amigo Putin, mas nada boa para a Europa. 

         - Neste triste país fala-se que se desunha. Tantos comentadores, de todas as idades e bochechas, comentam a inacção de Luís Montenegro com a base das Lages de onde partem os assassinos voadores que matam e destroem os países caídos em desgraça pelo Pentágono. Pergunto: se o Governo português se opusesse, teria o espalha brasas Presidente dos EUA mandado retirar os aviões? Ou não seria ainda mais um vexame para Portugal ver-se desrespeitado no seu próprio território? 

         - Triste de me sentir perdido ao aproximar-me do final de Toute Ma Vie - quarto volume do diário de Julien Green.