sexta-feira, março 27, 2026

 Sexta, 27.

O drama do Francis atinge a epopeia de romance. Ontem o Robert disse-me que no hospital correu a notícia de suicídio. Na véspera os médicos tinham-no informado de que iriam amputar-lhe a perna. Depois do pé, talvez o pobre Francis não tivesse suportado tamanha infelicidade e viver naquelas condições não era viver. Seja como for, o facto é que ele continua na câmara fria e não se sabe quem paga a diária pois os três dias gratuitos já findaram. Amigos para que vos quero! Um homem que conhecia meio mundo, cultíssimo, bom carácter, generoso, com quem dava gosto e prazer conviver, falece e não há ninguém que leve uma flor à sua campa. Eu sei que isso pouco importa para aquele que deixa este mundo, mas a recordação dos próximos rubrica a amizade que perdura na lembrança dos dias felizes. Aqui em casa, são muitas as memórias que dele perduram. Francis oferecia tudo aos seus amigos, por vezes surpreendia-me o seu desapego aos objectos que estavam lacrados com a presença de homens e mulheres que deixaram obra colectiva. Como se dava com todo o mundo político e artístico, dele recebia lembranças e considerações. Um dia foi Václav Havel, estadista, poeta, dramaturgo e dissidente tcheco, que veio a ser o primeiro presidente democraticamente eleito da República Tcheca após a queda do comunismo, que lhe ofereceu um serviço de café em cristal e que eu guardo comigo sem nunca o ter usado como recordação; outra vez foi a grande monografia da pintora Françoise Gilot, dedicada, sua grande amiga, companheira de Picasso do qual teve dois filhos, Claude e Paloma; mais tarde, abandonado Picasso, casou com o pintor Luc Simon, em 1970, separada deste, viria a unir-se ao Dr. D´Salk pioneiro da vacina contra a poliomielite. Pelo que constatei, eles eram, de facto, muito ligados pois a cumplicidade era grande e a liberdade ainda maior. Poderia continuar, porquanto as suas ofertas eram constantes, pessoalmente ou pelo correio. Detenho-me, por agora, na expectativa que o esforço do seu amigo de adolescência possa encontrar o notário que esclareça o mistério do ou dos seus herdeiros ou simplesmente diga que morreu na pobreza. Assim sendo, junta-se a Mozart, que foi enterrado na vala comum. Não te importes, querido Francis – estás em muito boa companhia. Os mausóleos são para os ditadores de esquerda e direita, os arrogantes os charlatães. Paz à tua alma.