sábado, março 14, 2026

 Sábado, 14.

Ontem estive na Brasileira à conversa com o António e a mulher. Gosto dos dois e aprecio particularmente ela, pelo sacrifício de aturar um hipocondríaco. Não dissemos nada de importante que ficasse nos anais do célebre café, mas o falecido Guilherme Parente veio à baila e António voltou a criticá-lo pela sua excessiva actividade de pintor com um marketing apurado junto dos ricos. Como se isso tirasse mérito à sua obra artística de um fulgor imérito. Acontece que eu tinha dormido mal e à força de um soporífero natural que acabei por tomar pela meia-noite e me acompanhou o dia todo, para além de não pensar, queria dormir em todos os lugares. A pancada foi tão forte (decerto falta de hábito), que entrei no C.I., desci às catacumbas e recostei-me num daqueles sofás confortáveis e entreguei por quase meia hora a alma ao criador. Para dizer que, contrário ao que me sustém, não ofereci remoque aos comentários invejosos do meu amigo. O resto do tempo, foi consumido com vulgaridades que o pintor tanto aprecia. 

         - Morreu o escritor Mário Zambujal. Ficou nos circuitos conhecido com o romance Crónica dos Bons Malandros. Conheci-o sem, contudo, o conhecer. Eu conto. O Francisco Vicente, pessoa cultíssima e gestor da Bertrand e Difel, propôs-me um dia apresentasse o romance que havia acabado de escrever à primeira editora. Acontece que Zambujal fazia parte do corpo editorial e lera o meu trabalho. Quando chegaram os votos, ele votou contra e escreveu na resposta que era “um romance demasiado romance”.  Estupefacção geral. O que é que isso queria dizer? Mistério. 

         - Justamente. Este mês de Março é para mim medonho, tantos queridos amigos partiram. Estive a ver na minha agenda para lhes rezar um Pai-Nosso: dia 9 partiu a minha saudosa irmã; a 11 o ti Luís que aqui trabalhou até aos 93 anos; a 16 o Manuel Cargaleiro de que tantas vezes recordo e imensa saudade me deixou; a 17 o Angusto Tejo que transportava o sol consigo e era de uma ternura inexcedível. 

         - Há mais de uma semana que durmo fora do meu quarto. O frio voltou e a casa toda sofre com isso, a lareira está acesa, na cozinha tornei a ligar o ar condicionado. O desconforto parece mais evidente depois de nos últimos dias termos tido a visita da Primavera. A quinta, agasalhou-se com o manto espesso do Inverno e tudo ficou sob o ar triste que a desordem da tempestade do mês passado implementou.