Terça, 14.
A comédia partidária nacional é um mundo diametralmente oposto ao do país, das pessoas, da realidade nacional. Aquela gente vive de fantasias, de recordações cívicas do tempo do fascismo, e em certo sentido nunca dele se apartaram e até gostariam de nele continuar para que as suas ideias e projectos tivessem absoluta concretização. Repare-se no Livre agora liberto do historiador, o simpático que assumiu o seu posto, proclama o poder como se este estivesse na ponta da bandeira ideológica que é idêntica ao do BE de má memória e à do PCP de histórica recordação. Uma utopia para quem nunca alcançou mais que quatro por cento de votos! O que eu vejo nestes congressos, é uma festa da juventude retardada, uma dinâmica de camaradas que se conhecem de longa data, comungam de um programa que andaram a beber nos intervalos das aulas, nas patuscadas nocturnas, e consideram ser seu direito proclamá-lo ao povo inocente, “escravo do capitalismo”, com perspectivas muito limitadas que não vão além da urgência de uma vida digna alicerçada no trabalho honesto. Mas para isto, eles têm uma ideologia e sem ela não é possível estruturar um país. Basta-lhes injectar doses massivas de futebol, concertos de Norte a Sul que outro dia o maestro Vitorino de Almeida nos dizia serem puro barulho, religião qb e concursos (muitos) e programas de entretenimento áridos, coscuvilhando a vida das ditas figuras públicas. Enfim, a TV ao serviço da mentecapta realidade nacional.
- Há, todavia, outra realidade que eles nunca compreenderão porque vivem naquilo a que Marx classificava de classe privilegiada. Por exemplo. A daqueles dois irmãos brasileiros, um deles que conheço bem, 22 anos, que se vê obrigado a trabalhar sete horas num café de dia, as noites num bar até às duas da madrugada. Tudo isto para pagar a renda de um apartamento em Benfica, água, luz, uma sobrevivência desgraçada que nunca os nossos políticos burgueses podem algum dia chegar a endireitar, porque isso implicaria pensar fora da caixa partidária, descer ao mundo sofredor daqueles que não vivem, sobrevivem e são aos milhões, uns de cara descoberta, a maioria de rosto escondido do destino que os fez nascer no Portugal de coração escancarado ao coitadinho, mas cheio de esquemas onde só vinga quem correr a alistar-se num qualquer partido (ia a dizer seita). Propus aos rapazes guarida cá em casa enquanto a vida não se organiza de outra forma. Sou extremamente sensível a quem trabalha honestamente e com o seu trabalho não almeja a felicidade de uma vida digna e equilibrada.
- Anda aí o senhor Luís a gradar a terra. O terreno mesmo em frente que é maior do que este, está à venda. A pouco e pouco, o mundo que conheci quando aqui cheguei há quase quarenta anos, está a desaparecer. Vão uns, instalam-se outros, mas nada se assemelha àquele universo de sombras e dias florescentes, espaços abertos, manhãs desanuviadas, dias claros e frios, fumo a sair das chaminés, duas ou três famílias, caminhos de terra batida onde só passava o meu carro e os tractores do meu vizinho. Só o silêncio me parece intacto e é nele que repouso a memória e me apetrecho do que há de mais valioso na vida: a presença divina que na vastidão do silêncio desenroupa a resplandecência das horas e dos dias.
- Fui à piscina. Também hoje tive uma faixa só para mim. A um canto, contudo, um feixe de mulheres enormes, grandes rabos, coxas gordas, mamas que chegam aos joelhos, quase não se moviam pese embora os gritos da técnica. Como será aquele pagode todo nu nos balneários?! Um pesadelo, um divertimento ou um susto? Não quero saber.
