Quinta, 5.
Desta vez sobrou para mim. Acordei pelas cinco e meia da manhã com um barulho estranho de qualquer coisa que se havia soltado debaixo da minha janela. Logo pensei que seria o telhado a desabar. Soube quando me levantei às oito, que havia sido um prato grande alentejano que eu tinha na parede, e tinha deslizado por ela abaixo até se enfiar nas almofadas do canapé sem uma beliscadura. O pior veio depois. Quando quis sair com o carro, tinha o caminho até ao portão todo juncado de braços enormes que se tinham rasgado dos cedros gigantes e dos sobreiros que vão desde a casa ao fundo da quinta. Mais ou menos a meio, um grande buraco de onde tinha saído a raiz imensa de um cedro e com ela o cano que leva a água a casa, rebentado. Mais: três ou quatro barrotes de cimento que sustentam a rede que circunda o terreno, tombaram. A maior parte das árvores, caíram para o terreno do meu vizinho e com ele vou ter de me entender. Por agora, o único que se mostrou disponível foi o meu generoso Sr. José Manuel que vem acudir à tragédia depois do almoço. Tenho para várias centenas de euros. O vento não pára; parece mesmo mais agreste.
- Ontem, depois de muitas hesitações, fui a Lisboa. Não quis render-me às indecisões da idade, aos obstáculos da intempérie, ao pavor de uma capital paralisada pela chuva forte e constante. Tinha um programa em mente e fui destemidamente realizá-lo. Viajei no meu querido autocarro com meia dúzia de passageiros, sob vento e chuva, o Tejo de barriga cheia, mas em Alcabideche, corajosos homens apanhavam bivalves, indiferentes ao que se passava em terra. Em pára arranca, chegámos a Oriente. Como tinha em mente ir almoçar ao 1800, o meu saudoso restaurante do Largo do Rato, fui dali no metro ao Saldanha, tomei depois a linha azul, e por volta da uma da tarde estava sentado à mesa. Posteriormente fui ver de um fisioterapeuta ao Centro de Saúde, num táxi para o C.I. e a seguir a umas compras, noutro para o oculista onde tinha à minha espera o acerto da lente esquerda dos últimos óculos. Tomei novo táxi que me levou de regresso à estação de metro S. Sebastião para me enfiar no transporte que me levou ao ponto de chegada para voltar a entrar no autocarro de regresso a casa. As horas deste vai-e-vem pela cidade, foram de guarda-chuva aberto, rajadas por vezes fortes de vento, e a imagem de ruas e avenidas lamentavelmente abandonadas ao temporal. Fica-me do dia um estranho e acolhedor sentimento de intimidade com algo, que embora vindo da espessura do tempo, me paralisou nele como memória perene de um fluxo de luz e quietude.
- Não vou poder narrar o que me contou um dos motoristas de táxi que ficará para o texto em livro (se publicação houver), mas direi uma parte da nossa conversa. No percurso entre o Campo Pequeno e o Corte Inglês, o homem, não sei a que propósito, perguntou-me onde eu morava. Quando ouviu falar em Palmela, disse-me que não havia muitos dias que tinha transportado um ilustre senhor (nomeia-o) a uma quinta em Quinta do Anjo. Digo-lhe que conheço a personagem e que ela, inclusivamente, em tempos tentou escapar aos impostos quando da compra de uma herdade aqui perto. A conversa avançado calculo que ali havia algum engano. O motorista, então, conta como encontrou o cliente em Lisboa. “Ele entrou aqui no carro e disse-me que o levasse a Azeitão... – Então não é Quinta do Anjo porque essa povoação é que fica encostada a Palmela, digo-lhe eu. – Sim. Sim, é em Azeitão porque ele a dada altura diz-me que ficava mesmo em frente do (o nome do actor seguido do dichote que não vou dizer). Chegados ao portão, o ilustre socialista e homem milionário de negócios, dá-se conta que não tinha as chaves para entrar na mansão. O condutor oferece-se para saltar o muro e chamar o casal de empregados que o cliente lhe diz viver ali com ele e mais dois cães. Aberto o portão, o motorista tem ainda uma subida para a serra, numa imensa propriedade de muitos hectares, com um palácio imenso lá no cimo. Bref. Aberta a porta da vasta residência (aqui entra a parte interessante do socialista em causa), ele diz-lhe que jante com ele e logo se dirige à cozinha e destapa tachos (um com arroz, outro com carne) de maneira a agradecer a proeza do seu condutor. Este recusa ante a insistência do proprietário. Bah! Socialistas destes, gosto...
- Já não aprecio tanto aqueloutro, de seu nome Conde Rodrigues, amigalhaço de Sócrates, que recebeu 25 mil euros por mês a troco de aconselhamentos blablá. O homem safou-se porque foi secretário de Estado da Cultura, da Administração Interna e da Justiça. Arre! Que competência! Rico homem, sim senhor! Ah, a sumidade trabalhou também para a empresa de Carlos Santos Silva, arguido na Operação Marquês.
- O meu salvador andou aí para cima de uma hora e deixou o caminho limpo. Agora já posso sair sem problemas. Virá cá um dia destes (trabalho não lhe falta nesta altura) para cortar as árvores que tombaram para o lado do meu vizinho. Dou comigo a pensar que o que vou gastar com ele, economizo na compra de lenha para o Inverno que vem.