quarta-feira, junho 10, 2026

 Quarta, 10.

Optei por não deixar este monasterium. Aqui, como digo, há sempre muito para fazer e sou como que abraçado pelo silêncio que me preserva em movimento contra a minha vontade. Ser activo é não deixar morrer os instantes que sobrevoam os momentos que se liquefazem pela força da vontade ligada aos projectos que se inventam dentro e fora de nós. Por outro lado, a quietude, sendo irmã da consolação, carrega em si a soma de sensações, intuições, louvores que se irmanam entre si para fazer saltar as horas do cronónimo que as resguarda. No recolhimento somos ausência e presença, por dentro de nós perpassa um mundo que chega dos inícios da humanidade, paralisa-nos e incentiva-nos a descobrir o tortuoso caminho que juntos fizemos sem nunca nos desligarmos do que fomos somando em experiências - sofrimentos, dúvidas, silêncios, mortes e ressurreições. Fomos feitos para a contemplação, para a paisagem aberta que estende diante dos nossos olhos inquietos todas as interrogações que nos perturbam e dão sentido à movimentação da vida. Preenche-nos o que desconhecemos, o que almejamos e não encontramos na banalidade da vida solta, preenchida de pequenas coisas, enormes vazios, alienações e ousadias serôdias. Também fomos feitos para a felicidade, quando esta se aproxima no segredo das horas, ao lusco-fusco insinuante do horizonte, rasgadas as janelas de luz das madrugadas suspensas das alegrias virgens que povoam noites siderais e quedam o olhar perscrutando o fundo de nós mesmos – lugar onde só nós achamos os pontos cardiais. O vento, agita os ramos das árvores, sem paralelo com nenhum entusiasmo ou alvoroço humano. As árvores, dizia Hermann Hesse, são seres solitários e é nessa condição que partilham connosco as sombras protectoras, os silêncios habitados de histórias, os pensamentos desenvolvidos debaixo das suas frondosas copas, os sonos recuperadores para abraçarmos os dias de esperança. Isolados, somos impelidos a reinventar o melhor de nós, a pensar no supremo privilégio de havermos nascido para glória do tempo a provir. Devemos desconfiar dos que se agitam, dos que levantam a voz, dos que prometem o que sabem de antemão nunca poderão dar, porque simplesmente não conquistaram para si a solidariedade, não pararam para olhar o próximo, escravos da ganância de poder e serventuários da riqueza, egoístas e suspensos do fio tangencial como apregoam a felicidade. As palavras e os pensamentos, são o murmúrio ensurdecedor que enche as horas e o mar de silêncio que nos envolve na doce disciplina da solidão, da solidariedade que nos aproxima do outro – esse que se desdobra em nós e nos faz profundamente humanos.          

         - O PS está podre. Aos muitos casos de corrupção, junta-se agora o número três do partido, António Campos, acusando-o de múltiplas ilegalidades e compadrios.   

         - O Irão que Trump e Netanyahu dizem estar em falência de armamento, responde com soberba aos ataques que ambos lhe fazem. Voltou a acontecer ontem, quando bombardeado pelos EUA porque destruiu um helicóptero norte-americano no Estreito de Ormuz, responde com uma chuva de ataques a bases americanas no Bahrein e Jordânia. E ainda se deu ao luxo de prevenir os inimigos com uma “resposta severa”, caso prossigam as “agressões”. Quem assim fala, é a Guarda da Revolução. 


terça-feira, junho 09, 2026

 Terça, 9.

Ontem reabri o pátio para o Verão. Logo de seguida, mergulhei na leitura de Génesis. A dada altura, depois de Abraão se lamentar ao Senhor por a mulher Sara não lhe dar filhos, YHWH diz-lhe que os faça com a criada Hagar. Indo ele nos oitenta e seis anos, a criada deu à luz o seu filho Ismael. Algum tempo depois, o Senhor volta a aparecer ia Abraão em noventa e nove anos, e promete a Sarra dar-lhe filhos que acrescentem gerações e formem nações. Ela diz-lhe que dada a sua provecta idade, já não tem os desejos de então. Deus não se demove e o marido decide com o seu filho Ismael fazer circuncidar o seu prepúcio como o do rapaz. Muito do que a Bíblia nos inspira, foi posto de lado pelos positivistas para quem o conhecimento científico conta como exclusiva fonte de verdade. Mais recentemente a Ciência que recolhe da realidade o que vê, apalpa, suga. E nos nossos dias, o capital enquanto fonte de realização ou rejeição, poder e consumação do arbítrio sobre os demais. Contudo, o que há de fascinante é que os nossos antepassados acreditavam que Deus e só Ele, era capaz de tudo realizar. Como aconteceu com Sara que engravidou indo Abraão nos cem anos e deu à luz Isaac.   

         - Nos balneários da piscina, os velhotes nus e de sólidas barrigas de torresmos, discutiam a visita do Papa a Espanha. Um deles dizia: “O homem é americano, Trump, humm não me convence.” 

         - Voltei a pôr Seguro de quarentena. Ele está a comemorar o 10 de Junho na Terceira, Açores. Quando lhe perguntaram o que pensava sobre a Base das Lajes, descartou a pergunta, acrescentando que Portugal deve ter boas relações com a América e (para aliviar) com os países da NATO. Sim, o que Portugal necessita é de governantes fortes, como os de Espanha, França, Reino Unido e Alemanha. Há muito que devíamos ter deixado a subserviência, o temor, a falta de carácter. E lembrar-me eu que ele em campanha disse que devíamos pensar em renovar o acordo sobre a ocupação das Lajes. 

         - Verão curioso este, empurrado pelo vento forte e frio. Todas as manhãs, enquanto rego, estou enrolado num casacão de lã porque o frio assim o exige.  


segunda-feira, junho 08, 2026

 Segunda, 8.

Ainda não tenho opinião formada sobre António José Seguro enquanto Presidente da República. Contudo, aqui e acolá, surgem afirmações que começam a criar no meu espírito algo de consistente. Por exemplo. “As sociedades mais fortes se constroem (eu diria constroem-se) pela inclusão e pela capacidade de acolher.” 

          - No sábado fui convidado para um almoço. Acontece que pelas ruas de Lisboa havia arraial pelos direitos de LGBTI+. Nada contra ou antes pouco a favor. Gosto de festa, aceito o espectáculo de rua, mas não alinho muito com exibições deste tipo porque não acredito na sua eficácia conhecendo o que está na sua origem. São as mentalidades que há que mudar, a sociedade como um todo, e uma vez estabelecidos os direitos de cada um ser o que deseja ser, as leis serem cumpridas e admoestados os que as contrariam. Ponto final. De contrário, exposições como aquelas, são, no estado moral actual da sociedade, uma violência que contribui ainda mais para que as mentalidades não mudem. 

         - Está de novo incendiada a guerra entre Israel e o Irão. A noite passada violentas explosões em Telavive e Jerusalém, vindas de Teerão e dos seus aliados hiutis. São a resposta à política de Trump e aos bombardeamentos de Israel no Líbano. Os americanos deram o poder a um doido varrido e este pegou fogo em tão pouco tempo a uma boa parte do mundo. Para não falar nos danos económicos, artísticos, sociais que proliferam pelo Médio Oriente e se estendem ao resto do Planeta. 

         - Salva-nos o Papa Leão XIV. Em Madrid estendeu os braços a todos os infelizes que vivem ao deus-dará. O actor Antonio Banderas, foi ao seu encontro e disse-lhe: “Fui vítima do feitiço de Deus.”

         - De súbito, sabe-se lá porquê, sai da cartola dos resignados, uma voz que se ergue à proa da coragem e do bom senso: Francisco Guimarães. Ontem, no comentário da SIC que temos de gramar sobre o Mundial de Futebol, aquele comentador, afirmou sem pejo, que começa a ser hora de pôr Cristiano Ronaldo no armário, de modo a que a equipa como um todo possa libertar-se da vaidade daquele seu membro e vencer. 

         - A necessidade da escrita em mim, é tão emocionante como a existência de Deus. Esta, porém, fragiliza-me e fortalece-me ao mesmo tempo. A verdade é que, tudo o que diz respeito a Deus, deixa-me emocionalmente de rastos. 

         - Fui ao Chiado desfazer-me do que havia feito no sábado: trocar por um número acima calças e camisas. Não porque tenha engordado – mantenho os meus clássicos 64 quilos –, mas porque não gosto de roupa assertoada não vá os olhares indiscretos possuir o meu elegante corpinho... 


domingo, junho 07, 2026

 Domingo, 7.

Os temas acumulam-se no decorrer dos dias. Todavia, alguns há que ficam a martelar-me a mente por dias. É o caso da morte de Henry Nowak que morreu por assim dizer nas mãos dos polícias que o algemavam. O jovem tinha sofrido ferimentos nas pernas e um golpe no coração e gritava que tinha sido esfaqueado, mas os agentes londrinos não deram crédito ao que ouviam. Tratou-se um acto racista que ocorre cada vez mais por todo o Reino Unido. E não só em Inglaterra, também entre nós. Há duas semanas, no Porto, três meliantes pelos vinte anos, atacaram um marroquino deixando-o em estado comatoso. Cá como por este mundo fora, as novas gerações parecem mais violentas, desumanas e capazes de actos bárbaros inqualificáveis.  

         - O Papa Leão XIV chegou a Espanha em missão apostólica. Hoje, na Praça Cibelis, Madrid, rezou missa para mais de um milhão de fiéis. Dali irá celebrar idêntica cerimónia a Barcelona, à catedral do visionário Gaudí que está praticamente pronta segundo os desenhos que o artista deixou. Segue-se as Canárias. São oito dias em terras de Espanha, quinze anos depois de Bento XVI ali ter estado. As relações entre a Igreja e os espanhóis, durante este longo interregno, não têm sido muito cordiais. Estão na base os abusos sexuais que inundaram a Igreja e que os espanhóis, fervorosos crentes, não aceitaram. A Basílica da Sagrada Família, que eu visitei demoradamente com os Amados há uns anos e me deixou perplexo ante a loucura de um empreendimento que parecia impossível de realizar, terá a bênção do Sumo Pontifico, e do que vi na televisão, os espaços que percorri, as zonas então em duros trabalhos, oferecem pelas imagens um espaço cheio de luz, jorra luz do alto de todos os pontos da basílica e a nave central parece abraçar o cume com as suas torres em flecha. Terei eu a possibilidade de ver aquele Paraíso Terreal que a obstinação do artista levou muitas gerações a realizar?  

         - No país em que nos transformámos, ter resiliência ou ser resistente, na forma como são usados estes substantivos, denunciam uma única palavra: ignorância. 

         - Dizia eu ao Alexandre que tinha dado instruções ao Simão para me vender a quinta, e logo ele como anteriormente Filipe: “Voltar para Lisboa como ela está?!” 


sexta-feira, junho 05, 2026

 Sexta, 5.

Eu se tivesse que entrevistar Donald Trump, far-lhe-ia esta simples pergunta: por que razão não pode o Irão ter a bomba nuclear e os EUA podem? Decerto que a resposta viria na forma de um soco em cheio na minha ousadia. 

         - Uns quantos manifestantes da minoria trabalhadora que desceu à rua contra a reforma laboral, envolveu-se em agressões com a polícia. Não acredito que sejam adeptos da CGTP, mas tipos a soldo de outras organizações misteriosas. Seja como for, o que mais uma vez se viu foi que o PCP através do seu braço direito sindical, determinou a política ideológica e a propaganda sectária habitual. Se para nosso azar algum dia ele fosse governo, a maioria dos que desceram à rua anteontem, seriam obrigados a ficar em casa, amordaçados. 

         - O pobre do Sebastião Bugalho que vive em Estrasburgo à grande e à francesa como deputado europeu, queixou-se ao Observador “aqui ninguém me liga nenhuma”. Pudera! Que importância terá um deputado taxado por baixo como a maioria dos que ali estão em corpo presente? A importância que o sujeito pensa ter, só funciona num país pequeno, onde quem tem olho é rei. Aqui imperam os doutores analfabetos ou com o liceu tirado à tangente, os “comentadores” políticos falatando sem ganharem um tosto nas televisões (na rádio são mais os “especialistas”), assim como essa arraia miúda da recente leva de jornalistas. Não tem conta o número de vezes que estive em Estrasburgo, e nunca por um segundo tive curiosidade em ir visitar o Parlamento. Cruzes! Bastava presenciar os nossos deputados nas esplanadas e restaurantes da cidade, escutá-los nas conversas chulipas, com aquele ar provinciano de quem se sente acima dos demais.


quinta-feira, junho 04, 2026

 Quinta, 4.

O colunista do Público aqui tantas vezes citado, Sr. José Miguel Tavares, não deve ler-me e faz muito bem. (A propósito, ontem, em mais um documentário da SIC sobre as prestidigitações de José Sócrates e os milhões que nunca o largaram, embora nos queira baratinar que vive da reforma de 2.200 euros, menor que a do João Corregedor que apenas foi deputado, falou do figurão na sequência do livro que escreveu sobre a personagem romanesca. Há muito que não o via, e foi para mim uma surpresa observar como os anos lhe assentam bem, tornando-o menos feião e até o lábio superior se arredondou um pouco enquadrando um rosto com os óculos modernos que no-lo devolve airoso.) Bref. Ele acrescenta ao que eu aqui anotei ontem, uma série de dados que confirmam a minha visão da nossa vida partidária. Há muito que para mim a CGTP é contra-poder, que serve em primeira instância o PCP de onde emanam as ordens e a liderança da central sindical. Cita as numerosas greves gerais nos governos PSD, algumas no PS e nenhuma quando da “geringonça” de ma memória. Escreve: “A perda de força do eleitorado do PCP traduziu-se num agravamento da sua luta política através da CGTP.” E vai mais longe: “O sindicalismo no sector do Estado é o lugar que resta ao PCP para fazer prova de vida; um dos derradeiros resquícios das conquistas revolucionárias que perduram até aos dias de hoje.” Não podia estar mais em sintonia. 

         - Por falar  na peçonha. Acabei de pagar com língua de fora o “imposto Mortágua”. 

         - Recuso-me a trazer hoje para estas páginas os desaires do mundo, os loucos que o governam, as injustiças que se praticam, as guerras que proliferam, os mortos que não cessam de aumentar na Faixa de Gaza, Líbano, Ucrânia, Rússia, Irão, Sudão e passo. 

         - A surpresa, à mon âge, de acordar a meio da noite incendiado de desejos!


quarta-feira, junho 03, 2026

Quarta, 3.

Já passaram nove meses sobre o acidente no elevador da Glória. Como eu na altura previ, ainda não há culpados e o julgamento é uma quimera. Entretanto, as vítimas chegam-se à frente e pedem milhões de euros à Carris. Não é preciso ser-se entendido em nada de especial - basta observar a sociedade onde estamos inseridos. 

         - Viver até aos 150 anos! Os cientistas americanos andam a tratar disso. Dizem-nos que é possível e em boas condições de saúde. Nada que não tenha já sido norma. Se lermos o Génesis, encontramos as nossas origens com vidas mais do que centenárias. Por exemplo. Adão viveu duzentos e trinta anos, o seu filho Set duzentos e cinco anos, Abraão tinha cem anos quando lhe nasceu o seu filho Isaac. Toda esta geração na qual assenta a nossa, vivia centenária. Os americanos não estão interessados na universalidade, estão de olho nos poderosos endinheirados que já hoje despendem fabulosas fortunas em retoques, alimentação, arranjos físicos e assim. Vladimir Putin é um deles. Na realidade nota-se quando anda. Olhando-o de face, há nele uma espécie de múmia ambulante que não pode desafiar os instantes, antes movimentar-se na tibieza da vetustez que o espreita. 

         - O país paralisou? Talvez. Mas não foi decerto porque a maioria dos trabalhadores pararam por convicção. Parou porque os funcionários do Estado – professores, médicos e enfermeiros, pessoal dos transportes – impediram que os restantes saíssem ao encontro do quotidiano habitual. A CGTP (a UGT desta vez não aderiu) controla o funcionalismo público, faz o trabalho que o PCP já não consegue fazer por descrédito nas mesas de voto e, por conseguinte, no Parlamento. Que os portugueses ganham miseravelmente, é um facto que ninguém contesta e serve às mil maravilhas à esquerda como propaganda de ascensão. Mas se virmos como vivem os trabalhadores na Rússia, Coreia do Norte, Vietname ou China, temos a cópia do que seria entre nós se vivêssemos sob a sua alçada. Com este particular: teriam de baixar a cabeça ou seriam presos. Por outro lado, quem está na origem da pobreza e da humilhação de metade da população a viver nas condições que se sabe, é o PS e o PSD enquanto partidos que têm governado Portugal. São estas verdades que eu aqui, modestamente, não deixo de alertar. Exigir menos pobreza, mais cultura, saúde, habitação é uma questão humana que devia pertencer à dignidade que se exige e ao equilíbrio que devia imperar em qualquer país. Com esta ou aquela ideologia, com este ou aquele sistema político. Quando as esquerdas reivindicam estes princípios e com isso querem ganhar terreno, não é o ser humano em si que os impulsiona, são apenas os objectivos do poder, porque ali chegados, nada nos garante que seríamos mais humanos e solidários e equilibrados e democráticos. Muito pelo contrário. Uma pequena imagem tivemo-la com a “geringonça” de que hoje sofremos. 

         - Esta lindíssima foto que não resisto a publicar, é um pernilongo juvenil da autoria de Afonso Bernardino, capturado na Figueira da Foz e largamente premiado.