sábado, agosto 29, 2026

 Sábado, 29.

É típico da idade fechar as portas que ficaram entreabertas, isolar-se no silêncio pesado dos dias, esperar por alguém que nunca chega. Era nisto que pensava ontem quando, mexendo no telemóvel, verifiquei que o Robert desde a morte da Annie nunca mais telefonou a saber de mim e, pelo contrário, lá estavam registados os inúmeros telefonemas que eu lhe fiz, entretanto. Com isto quero dizer duas coisas: as amizades ou são recíprocas ou são coisa nenhuma. Daí que não me surpreenda o que aconteceu entre ele e o irmão que vive nos arredores de Estrasburgo. Da última vez que estive na cidade há três anos, Robert pediu-me que falasse com o irmão e tentasse marcar um encontro. Assim fiz, porém sem sucesso: ele alegou que Robert há mais de dez anos não lhe falava e não via qualquer interesse em o fazer agora. Penso que é o que se passa hoje. Isolado na grande casa de S. Denis, Robert alimenta-se da solidão que nunca havia provado, recusando qualquer gesto simples que o reaproxima das pessoas. Dito isto, quem crê nunca está só. 

         - Antes que me esqueça, quero registar, ipso facto, o que disse um senhor que foi surpreendido pela jornalista da SIC a atestar o depósito do carro e indignado com o preço da gasolina, disparou: “Quando o Estado vive acima das nossas possibilidades”, está tudo dito. Assino de cruz. 

         - Esteve cá o senhor José Manuel, dito espalha-brasas – e o universo inteiro uniu-se num imenso afecto.  

         - O número de vítimas mortais no Nepal aumentou para mais de 600 e 2426 pessoas estão desaparecidas. É incrível a prontidão da China a remediar os prejuízos e a retomar o quotidiano. O Nepal, orgulhosamente, dispensou ajudas estrangeiras, embora com menos recursos que a vizinha China. 

         - O taralhouco que dirige os EUA, com o seu marcador, rubricou a mudança de o Lago Ontário no Canadá, para Lago América. Muitos são os países, para além do visado, por exemplo, a Alemanha, que rejeitam a alteração. A pesporrência do homem ofende a dignidade de todos e da cada um. Que tipo foleiro e ordinário! Como é possível que uma tal criatura dirija o maior país do mundo! 

         - Retomei a leitura de Génesis (volume VI de Bíblia na tradução de Frederico Lourenço) e O século dos imbecis de Valter Hugo Mãe. 


sexta-feira, agosto 28, 2026

 Sexta, 28.

Ainda não retomei o ritmo, mas vou-me afeiçoando à vida tal qual a vivia quando os dias se abriam esfuziantes de pequenos nadas, restos de recordações, olhares perdidos na imensidão do passado, circuitos de luz, sombras rastejantes, silêncios espessos, horizontes suspensos que me abraçavam e me comoviam e me sideravam e me isolavam na eternidade do silêncio ondulante. Ir como ontem fui ao centro comercial Alegro, em Setúbal, é experimentar despir a capa do solitário que os deuses protegem e a vida desempena dos pensamentos aziagos ou abancar no Retiro Azul para alinhar estas linhas, é chamar os dias largos de antes da tragédia e encaixá-los por força da vontade inquebrantável de quem ama profundamente a vida. 

         - Não há ainda um número de vítimas da avalanche de gelo e água no Nepal. Há, contudo, um registo provisório de 400 mortos e 1500 desaparecidos. Julga-se que a maioria de uns e outros, são turistas. Todas estas catástrofes sucedem-se um pouco por todo o lado, como se a terra berrasse: “parem de me agredir”. 

         - Como eu previra quando há um ano se deu o aparatoso desastre no elevador da Glória, ainda não se conhece o desfecho de um acidente que matou 16 pessoas. Os conluios importam mais que a verdade. Foram, todavia, constituídos arguidos o ex-director de manutenção da Carris e o sócio-gerente da empresa externa que assegurava a manutenção dos elevadores de Lisboa. Bom, não sendo nada, é para a justiça deste pobre país, qualquer coisa. 


quinta-feira, agosto 27, 2026

 Quinta, 27.

Que disse o Dr. Octávio Simões para além da surpresa de tudo o que lhe contei? Não encontrou resposta para o efeito da Água das Pedras que eu confirmei no dia seguinte com o desastre narrado. Acrescentou, contudo, que é verdade ser ela bastante salinizada e daí a recusa do organismo. Quanto ao mais o motivo que me levou ao seu consultório, disse aperceber-se do meu estado psicológico resultante de cinco semanas de reclusão, inacção e sofrimento, e entusiasmou-me a tomar um medicamento específico para o cérebro, afirmando: “quero-o a escrever e a ler em breve”. O resto estava equilibrado. Tensão a 13,2 - 6,7. 

         - O país das polémicas que somos, umas a seguir a outras, foi mais uma vez inserida a escassez de dadores de sangue. Acontece que (julgo já aqui ter trazido o tema) em tempos fiz parte de um núcleo que pensava o modo mais eficaz de atrair benévolos para a causa. Nesse tempo, ainda os portugueses eram aliciados pela humana e cívica razão do próximo em necessidade dessa fonte de vida. Hoje, quase se desvaneceu o auxílio desinteressado do outro, um enorme egoísmo parece ter tomado as novas gerações, cada um por si e Deus por todos. Ora, já nessa altura, eu havia levantado a hipótese de cada dador ser agraciado pelo Estado com alívio de impostos - se bem alvitrei naquela então, mais o reforço hoje. 

         - Por todo o lado, crescem os desastres atribuídos ao aquecimento geral do Planeta. Desta vez, o que assistimos pelas televisões, é o horror na sua expressão mais sinistra na divisão entre o Nepal e o Tibete. De súbito, uma forte enxurrada que provocou um deslizamento de terras, desceu das montanhas a uma velocidade medonha, arrasando tudo o que encontrava e o número de vítimas é incalculável, os prejuízos medonhos. Há centenas de turistas e nepaleses mortos ou desaparecidos. Parece haver pontos onde os sedimentos atingiram 1,5 metros de espessura; as terras abruptas com desníveis superiores a três mil metros.  Horror! Horror! 

         - O Couto, meu fiel leitor, esteve privado deste alinhamento de palavras quotidianas por complicação e troca do seu computador. Telefonou ontem à noite e estivemos à conversa por quase meia-hora. Querido amigo de longa data, grande afecto tenho por ele. Ele não imagina o conforto (quando do desmaio foi igual) que me trouxe, movido pela fraternidade dos anos e aquele íntimo olhar que pousa no sítio certo onde as dores se escondem ou disfarçam num breve abraço de ternura.  

         - Por cá o Outono empurrou para o lado o Verão. Ontem e anteontem choveu se Deus a dava. Uma bênção para estas terras e árvores que tanta sede tinham devido a eu não puder tratá-las. Os meus sobrinhos condoeram-se e por pouco não as embeberam; depois veio o calor sufocante e metia dó escutar a aflição de cada folha, tronco ou braço implorando uma gota de água.


quarta-feira, agosto 26, 2026

 Quarta, 26.

O jogo favorito dos nossos políticos é o ping-pong. Eu não conheço ou não me dou conta que um tal desporto seja praticado tão assiduamente noutro país europeu. No centro do campeonato, já se apresentou várias vezes a Segurança Social e as reformas. Voltou agora com o PSD quando já esteve com o PS e rodou sempre que necessário, ora para um, ora para outro, meter medo aos velhinhos, coitadinhos, já pobrezinhos por destino e condição. Todavia, nunca li nas diferentes alterações ao computo das pensões, nada que restabelecesse o escândalo dos que auferem várias reformas, por morte do seu cônjuge, por acumulação de cargos e acabam velhos ricaços enquanto a seu lado milhares e milhares de seres humanos vivem o resto dos seus dias cavando com as unhas dos pés e mãos a sepultura. A única constatação que se tira, é que debaixo da terra somos todos iguais – espécie de vingança do destino, igualar todos numa mesma língua de chão. 

         - Quando escrevo (não falo do romance, embora ele seja o centro dos meus pensamentos), é como se a vida voltasse em força a correr nas minhas veias. Vem do fundo de mim um ímpeto de graça, uma hossana que se repercute e me remete para o centro de mim, uma força adormecida que julgava abatida para sempre. As palavras reencontram-se na arena da página em branco e são em si a ululação a que todo o meu ser se irmana na conjugação dos verbos viver e ser. 

         - A ver vamos que reacções terá o mundo civilizado à última investida prepotente de Donald Trump na rixa com o Irão. O senhor todo poderoso, que encara o mundo como se fosse o seu campo de batalha, se apropria dele pela força como se estivesse no tempo das conquistas feudais, não tem a noção do ridículo na forma como expõe e usa um grande país com uma democracia archi estabilizada. 

         - Vou fazendo a vida prática. Ontem, fui ao tanque tecnológico lavar o cobertor de papa que durante anos serviu de tapete no meu quarto e de caminho efectuar pequenas compras em falta na cozinha. Conduzir já não me custa, embora o pé maroto esteja um pouco inchado. Vejamos que me diz esta tarde o Dr. Octávio Simões. 


segunda-feira, agosto 24, 2026

 Segunda, 24.

O período por que passei, foi e é para mim uma grande reflexão sobre a minha vida e a dos outros. As confidências que a minha fragilidade e o meu choro por vezes provocaram, fizeram com que os meus visitantes abrissem o coração. A família esteve muitas vezes no centro do futuro. Grandes surpresas tive ao ouvir falar de filhas e filhos que julgava serem o centro da felicidade destes amigos. Um ou outro, disse-me que preparava a velhice longe deles, não só porque eram pessoas com cargos em Belém, ministérios públicos de referência, Banco de Portugal e União Europeia e, portanto, em primeiro lugar estavam as suas careiras e ambições, que não se coadunam com a miséria que acompanha a vetustez, como não esperavam nada deles. Estavam tão sós como eu, com a desvantagem da desilusão e dos anos de vida em comum, pelos vistos pouco recomendáveis e que agora não servem para coisa nenhuma. Que grande fantasia é a vida da maioria das pessoas!

         - Não se pense que as organizações LGBTQ + (o extra não sei o que é) criaram esta imagem que com certeza aprovam; eu, em miúdo, via na televisão estas beijocas rechonchudas, boca a boca, dos dirigentes russos com os camaradas presidentes de países associados. Confesso que me fazia impressão por... inusitado.  




domingo, agosto 23, 2026

 Domingo, 23.

Enfim, ao cabo de cinco semanas a lavar-me como o Black me ensinou, pude retirar o penso e deixar correr a água sobre o meu corpo que a recebeu como uma bênção do céu. Ainda não me sinto a cem por cento, mas a pouco e pouco rejuvenesço das profundezas do sofrimento. 

         - A Carta das Nações Unidas, elaborada depois da Segunda Grande Guerra, tem no seu preambulo “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra”, contudo, poucos ou nenhuns são os países que nela estabelecem essa primazia. Basta olhar para o mundo, e contar com os dedos das duas mãos, a quantidade de países que estão em guerra. Muitas destas, possuem a mão do tresloucado Trump, impelido pelo seco e desumano Netanyahu com quem a UE mantém associação com Israel. Sem falar nos países africanos, acossados pela fome, bandos de criminosos de assalto ao poder, cartéis de droga que possuem hoje tanta força e armamento como muitas nações. No centro desta desordem, a Ucrânia com um conflito que passou o quarto ano. A instabilidade é geral e o factor económico conta tanto ou mais que os mísseis disparados a milhares de quilómetros – é disso exemplo a guerra que os EUA, através do seu presidente, impõem ao Irão. Perdeu-se a conta aos milhares de mortos que se foram às mãos de governantes assassinos nos últimos dez anos. Dito isto, não quero dizer que concorde com o regime iraniano, a “democracia” de Israel, o HAMAS e todas aquelas organizações terroristas que alimentam ódios e fome. 

         - Fr. Hélcio telefonou há dias de Madrid onde estava na companhia do marido espanhol. Assim que me ouviu a voz, prontamente se colocou para no regresso me levar para o apartamento de ambos paralelo à Avenida de Roma. Felizmente, não estando bem, já encontrei a liberdade mínima que me permite a independência. Quarta-feira vou ao Dr. Octávio Simões para ver o que ele pode fazer para reequilibrar a cabeça e o entusiasmo que um mês deixou a apodrecer no vale das dores. Já consegui engordar um quilo. 

         - Chove. O tempo arrefeceu e as árvores sorriem à leveza da chuva descendo sobre seus ramos frágeis. Vejo o espaço através da janela baixa onde escrevo – há um grito de alegria e alívio que é contagiante e me põe de novo no caminho da vida. 


sábado, agosto 22, 2026

Sábado, 22.

Os fogos não nos largam. Luís Montenegro, para defender o seu ministro atulhado de casos como ele esteve e conseguiu eliminá-los com o poder que neste momento tem, veio dizer que a área ardida este ano foi menor que a do ano passado, como se isso se devesse à competência do seu ministro Luís Neves. Este chegou ao poder no andor dos media, era vedeta diária nos primeiros meses e tido por honesto, incorrupto, competente, com as costas protegidas pelo anterior cargo na Polícia Judiciária. E vai-se a ver tem a vida atravancada de esquemas como o seu mestre primeiro-ministro. Os fogos por essa Europa fora, mataram 30 mil pessoas. Um horror! 

         - Está cá o espalha-brasas (no sentido em que começa aqui um trabalho, larga-o e vai deitar mãos a outro), sem que nenhum fique terminado. No entanto, este universo com o seu proprietário incluído, agiganta-se em ternura, bondade e paz com a sua presença. Fui, amparo ao Sr. José Manuel, pela primeira vez, colher figos às figueiras por aí dispersas. Todavia, fazer compota, está fora de questão este ano. 

         - A minha beata de estimação, largado o indispensável para que eu não morresse à fome, desapareceu. Por favor, caros leitores, afastem para longe tudo o que for gente de missas diárias, rosários, invocação do santo nome de Deus em vão; prefiram o vosso pior inimigo pela surpresa de reconhecerem nele um anjo. Onde estarei eu no próximo ano?