Segunda, 31.
Afinal de contas o que me retém aqui? Não é só o silêncio sagrado, nem o ar limpo que se respira, nem tão-pouco o isolamento, mas também e ainda as descobertas humanas que desaguam de quando em vez à minha porta. A última das quais o conhecimento do ser humano extraordinário que é o senhor José Manuel. Faz tudo para me agradar, para me proteger. Como hoje, não eram sete da manhã, quando chegou com o filho ao volante de uma camioneta e descarregou esta relíquia do século XIX que a foto mostra e eu cuidava votada à sucata. Depois de grandes constipações, carradas de óleo, carícias e falas mansas, eis que sua excelência decide mostrar o ar de sua graça. E aí funcionou toda a manhã, dividindo os troncos pesados e grandes tornando-os maneirinhos de forma a serem levados para as chaminés da casa. Tenho lenha para dar e vender.
- No sábado, ele apareceu com uma máquina sopradora e reconstituiu os arredores da casa ao espelho do tempo quando a Piedade se ocupava da limpeza exterior e interior. De súbito, uma ternura imensa por este refrigério de verdura e silêncio tomou conta de mim, devolvendo-me as emoções que experimentei quando aqui cheguei pela primeira vez com o João. Toda a beleza natural se exprimiu nas recordações e nos momentos felizes de outros tempos, quando a descoberta da paz que aqui dormia se me introduziu para nunca mais me largar. Para aonde quer que vá terminar os meus dias, nunca daqui sairei ou comigo levarei a doçura dos tempos que nesta planície me pertenceram.
- O que é este diário se não o registo do seu autor e a narrativa de um tempo que lhe coube viver. O verdadeiro quotidiano é preenchido até à minudência das circunstâncias que aconteceram embrulhadas dos efeitos sem importância aparentemente nenhuma.
- E de repente, recomeçaram os ataques dos EUA ao Irão e deste às bases americanas na Jordânia e Emiratos Árabes. Cada nova ofensiva de Trump, é a constatação de que o Irão está preparado para uma guerra duradoura e bastante mais inteligente no confronto com a arrogância e o poder do senhor que pensa ser o todo poderoso que subordina o mundo inteiro.
- Luís Montenegro tem uma noção curiosa da democracia. Segundo ele, todos os disparates são consentidos porque é “a democracia a funcionar”. Quando o vejo aparecer no ecrã, desligo ou salto para outro canal – já não suporto tanta desfaçatez e hipocrisia. E lembrai-me eu que acreditei nele nos primeiros tempos, antes do aparecimento de uma vida de esquemas!
