sexta-feira, julho 10, 2026

Sexta, 10.

O ministro da Administração Interna não governa a partir do gabinete, fá-lo diante das câmaras de televisão. Temo-lo todos os dias, de manhã à noite. Não será socialista, mas adquiriu maravilhosamente a táctica dos discípulos de António Costa. 

         - Vai por aí uma celeuma a propósito dos resultados dos exames. Não sigo a questão porque não me interessa. Se outro fosse que estivesse à frente do Ministério da Educação, faria semelhante ou como no passado ainda pior. As oposições reclamam uma palavra do primeiro-ministro, mas este anda desvairado num vaivém aos EUA e ao Mundial de Futebol. O seu adjunto, líder parlamentar do PSD, em defesa do silêncio e das constantes idas do chefe ao Mundial, saiu-se com esta que demonstra o provincianismo e o ridículo populista que invade o governo de Luís Montenegro: “Somos povo.” Como quem diz, o povo ama o futebol e até se encontrou lá com o seu orgulhoso primeiro-ministro. 

         - Voltou tudo à estaca zero, isto é, os bombardeamentos ao Estreito de Ormuz e dos iranianos a interesses americanos nos países vizinhos. Que corja de malucos governam o mundo! Os combustíveis, durante a curta fase de sossego, não baixaram; agora vão de novo galopar. E lembrar-me eu do contentamento de Macron e do homem que está à frente da NATO quando o tarado do Trump assinou o pseudo-acordo de paz! 

         - A vida de hoje é uma complicação. É falso que as novas tecnologias e a IA que a pouco e pouco se instala, nos trouxeram simplicidade de métodos, facilidade de resolução dos problemas e por aí adiante. Pelo contrário, como se assiste em nossos dias, o diálogo, o confronto salutar, a informação que olhos nos olhos nos aproxima, nos humaniza, nos devolve a doce presença do outro, praticamente desapareceu entregue ao contacto distante, sobranceiro, ao desleixo das repartições públicas e privadas, à frieza de um e-mail, ao toque de um algoritmo, que virou o ditador à distância e altivo que tudo impõe, recusa contestação, e é por todos temido, respeitado, arrogante. Ainda por cima, quem pela idade, falta de formação, desprezo pela tecnologia, odeia “esta uniformidade que anula as diferenças” como diz na encíclica Magnifica Humanitas o Papa Leão XIV, recusa a imposição do diálogo de sombras, está votado ao ostracismo, ao abandono, à solidão absoluta. Esta observação, ocorreu-me hoje de manhã quando tive de pagar o iuc forçosamente pela Internet. Que mundo bizarro, metálico, uniforme, estudado para obter maiores lucros, dispensando a multidão de empregados e mangas de alpaca que os negócios desprezam cada vez mais satisfeitos com o futuro que a máquina lhes oferece. 

         - Estive a falar com amigos que vivem em Almada onde a água desapareceu por encanto devido à incompetência e desprezo pelos cidadãos da socialista presidente de câmara. Há mais de uma semana que os habitantes deixaram de ver correr nas torneiras o bem essencial à vida. Nestes dias de temperaturas elevadas, imagino a angústia dos que vivem sem poderem tratar da sua higiene, alimentação, cuidar dos filhos e idosos como se de súbito o tempo das cavernas tivesse surgido atirando-os para a estrumeira das ruas e dos dias enxameados de desespero.    

         - Uma grande catástrofe ocorreu no Sul de Espanha, na região de Almeria. A queda de uma linha eléctrica está na origem de um fogo assustador que, devido ao calor, se estendeu por uma vasta área residencial. Até ao momento estão contabilizados 11 mortos e pelo menos 23 desaparecidos. As autoridades receiam que o número de mortos possa vir a crescer. 

 

quinta-feira, julho 09, 2026

 Quinta, 9.

Ontem lá fui fazer o Eco-Doppler das carótidas e vertebrais. Nunca tinha feito um tal esplendor e foi preciso começar a avançar na idade para conhecer tanta coisa que se esconde no nosso corpo e o faz funcionar na maravilha. Foi a minha excelente médica Dra. Vera Martins, que quis juntar aos exames prescritos pelo Dr. Octávio Simões na sequência do desmaio de Abril passado que me aconselhou. Deitado na marquesa, durante pelo menos uns vinte minutos, a médica muito jovem, utilizando um aparelho de ultrassom, foi percorrendo o meu pescoço, primeiro do lado direito, depois do esquerdo. O que me chegava era maravilhoso e assustador, pois ouvia uma espécie de pistola ou jacto de sangue a disparar com força do coração para o cérebro. Quando a médica deixou a zona cervical direita, preocupado em lhe dizer o que pensava na essência que as vias estavam absolutamente desobstruídas, ela adiantou-se e disse da maravilha que encontrou nas artérias do meu pescoço. Estou à espera do relatório final, mas tenho quase a certeza que a idade ainda não fez estragos nesta parte do meu corpinho. Aterosclerose para que te quero! 

         - Depois fui almoçar ao Corte Inglês. Desci do restaurante para regressar a casa, sem que antes tenha entrado no supermercado. O que me aconteceu relatarei noutra altura, mas é a prova provada que no melhor pano cai a nódoa. 

         - Esta casa parece a casa de Ali Babá. Volta que não volta, sou surpreendido pelo meu passado revoluto, de cada gaveta pode sair a reconstituição do que fui, as memórias que se esconderam por vezes durante anos no fundo de um armário, a súbita revelação da vida passada enquanto motor da presente. Eis dois exemplos.  

O meu cartão de Produtor do programa "Nova Musa" que durou quatro anos, aos domingos. 

Não me lembro em que ano me foi atribuída a distinção de melhor programa. 


terça-feira, julho 07, 2026

 Terça, 7.

Estamos safos desta perseguição permanente. Portugal não conseguiu passar da segunda fase dos mundiais de futebol, a Espanha afastou-o. Ufa! O Planeta agradece e eu também porque a polição era medonha e expunha a nossa pequenez e mediocridade à usura da FIFA para quem o dinheiro nunca sacia. A verdadeira natureza do desporto onde estarás tu? O arrogante e egocentrista Cristiano Ronaldo que eu vi jogar nos espaços noticiosos da SIC, parecia, na realidade, o “avô 7” como dizem os aficcionados do futebol desiludidos com a insistência da vedeta em querer ter a última palavra quanto ao abandono dos relvados. Éramos os maiores, tínhamos os melhores jogadores do mundo, Portugal ia ser grande, iria à final e sairia vencedor, assim gritava o português comum, pobre tipo, para quem o futebol e os seus ídolos são a força única da nação. E mais uma vez, não passámos de uns coitados, sem saber nem cultura, eternos patetas alegretes que se satisfazem com uma mão cheia de coisa nenhuma.   

         - Ontem, no metro, o cheiro nauseabundo dos corpos, era medonho. 

         - Quem respondeu ao propagandista ministro da Administração Interna, foi o presidente da Liga dos Bombeiros, ante a catástrofe dos incêndios tão árdua e infelizmente igual ao que aconteceu no ano passado e nos anteriores. Diz o senhor dos bombeiros, que “Portugal continua sem estar totalmente preparado para cenários complexos” e acrescenta “que é preciso um comando nacional de bombeiros que dê mais autonomia dos profissionais”. Nos últimos cinco dias, arderam 15 mil hectares de floresta e terrenos agrícolas. 

         - Entre nós tudo se joga diante das câmaras de televisão. O Governo governa para as câmaras, os partidos disputam-se nos ecrãs, se um autoclismo deixou de funcionar numa escola ou no Parlamento, logo se cria uma notícia, matéria importante para derrubar o primeiro ministro. A guerra entre partidos é objecto de disputas diante dos espectadores acomodados em suas casas, risonhos e felizes, por assistir à “democracia a funcionar”. Digam-me se souberem: há alguma estação de televisão na Europa civilizada que dedique hora e meia a duas horas de noticiários todos os dias? Que eu saiba, não. 


domingo, julho 05, 2026

 Domingo, 5.

Os fins de semana são terríveis. Sobretudo quando o calor aperta e as árvores e flores sofrem tanto ou mais que nós com esta canícula que não nos larga. Aproveitando o quadro bi-horário, toca de regar com começo às seis da manhã. Durante hora e meia, andei a puxar a mangueira, correndo não só as flores que contornam a casa, como as árvores de fruto mais distantes. Nesse entretanto, todas as janelas da casa foram abertas de modo a arejar as divisões e a torná-las mais frescas. Depois, de bastão em punho, decidi dar uma volta pela quinta coisa que não acontecia há algum tempo. Que desilusão! Vou ter de falar com o senhor espalha brasas que adora trabalhar com máquinas porque é pago a dobrar, quando a machada e a tesoura fariam milagres na beleza do espaço. O resultado deste sufoco é bem visível no aspecto das hortênsias: estão todas com as pétalas sensíveis queimadas. É assim todos os anos. A partir de Julho o sol veste-as de um luto acastanhado.  

         - O Black sabe-se defender. Antes não parava no interior, agora aqui fica horas a fio a dormir. Normalmente na cozinha onde o aparelho de ar condicionado está ligado. Escolhe uma cadeira mesmo em frente do sopro frio e aí fica todo o santo dia, petiscando e dormindo, quase nunca precisando de ir ao wc público. 

         - Longa conversa com a Gi. Diz-me que quer cá vir com o Nuno passar uns dias. Falámos sobre o trabalho que a idade dá ao instalar-se sem demora nem aviso. Ela está como eu. Tanto um como outra, sonham com um modesto apartamento para fim de vida. Só que, por exemplo, a casa dela na Foz deverá valer seis milhões, esta a última oferta foi de dois milhões. Ainda nos divertimos a imaginar quanto será um milhão.  


sexta-feira, julho 03, 2026

Sexta, 3.

Os fogos estão por todo o lado. Segundo um aflito com o fogo à porta, “isto é igual ao ano passado, os bombeiros andam tontos, nada se alterou”. Com efeito, a nossa tragédia costumeira, está estampada nos telejornais daqui e de algumas televisões estrangeiras. Eu vi um fogo medonho a ser combatido apenas por três soldados da GNR. Os dias somam-se às noites e as populações não descansam e o calor é ainda mais insuportável. Isto quando muito cedo o actual ministro da Administração Interna, inundou as estações de televisão e os jornais com avisos, promessas de estratégias seguras, moralidade e segurança, toda a gente bem preparada com planos regionais, competência e aprumo para enfrentar as catástrofes, prontos por assim dizer “que venha ele que nos cá estamos para o enfrentar”. E vai-se a ver o homem das secretas andou em propaganda e nada de extraordinário se vê. Eu sou dos que intimamente confiei nele, mas depressa me desiludi. Bugalhito parece a derradeira chama de fantasia lançada por Luís Montenegro, todavia suficientemente convincente para pegar fogo aos que chegam ao governo. Toda esta gente que começou a governar com acção e poucas palavras, depressa ultrapassou os socialistas que na propaganda são mestres catedráticos. 

         - Não me saem da mente as imagens dos terramotos na Venezuela. Aquela pobre e infeliz Presidente de um país rico em petróleo, e aquele que indevidamente está preso nos EUA a mando do louco Trunp, mantinham um país rico nas piores condições sociais, sanitárias, hospitalares, económicas. Venezuela é para todos os efeitos um país pobre, sem capacidade para dar dignidade ao seu povo, saúde e instrução, uma vida decente. Esta calamidade veio na pior altura e os infelizes, os tais 11 mil feridos, não terão assistência de qualidade nem um futuro risonho. Aos perto de três mil mortos, 13 mil desalojados, o Governo dependente da América, resta-lhe renunciar ao essencial a favor dos milhões de hectolitros de petróleo que vão rumo ao capitalismo louco dos Estados Unidos. Trump e o seu gang, ainda vão lucrar com a reconstrução do país. Entretanto, como imagem que subjaz da imoralidade corrente, polícias foram apanhados a roubar o que o sismo deixou em pedaços.

 

quinta-feira, julho 02, 2026

Quinta, 2 de Julho.

Ontem acordei com tonturas. Mesmo assim, meti-me no autocarro, depois no metro e de seguida num táxi para chegar ao Amoreiras onde o ACP me havia marcado estar para renovação da carta de condução. Cheguei com tempo e pude almoçar por lá, a temperatura óptima, o ambiente muito igual ao que eu conheci quando o célebre arquitecto Taveira construiu o edifício e fez com ele moda e ponto obrigatório de meia Lisboa. Nos anos Setenta, Mário e eu, morando no Príncipe Real, tínhamos o hábito de lá ir fazer compras, almoçar ou simplesmente passear no vasto interior de uma criação original. Que bem me senti eu entre memórias felizes e o regresso ao tempo de todas as magias e cintilações! Apetecia-me dizer que até o almoço, no mesmo restaurante de então, servido pela mesma proprietária, o preço não oscilou em quarenta anos. Se bem me lembro, a última vez que lá estive, ainda Marcelo Rebelo de Sousa não era Presidente da República e quando entrei na livraria Bulhosa, ele topou-me e avançou para mim num cumprimento afectuoso. Carpe diem, Helder, carpe. 

         - Souto Moura foi condecorado em Barcelona com a medalha de ouro da União Internacional de Arquitetos. O Presidente da República António José Seguro esteve presente e a guarda de honra pertenceu aos célebres Mossos de Esquarda da Catalunha. Que delírio tal designação!... Bref. O discurso do Presidente, foi lido em inglês! Estas fraquezas, assim como o vestido vermelho da mulher, perdão esposa, no 25 de Abril, desculpam-se porque sua excelência está ainda a saborear o cargo... Voltemos ao nosso excelente arquitecto nortenho. Ele aproveitou e bem para fazer comparações entre a habitação acessível no tempo do Estado Novo, que disse não ter sido um estado social, com o regime que hoje temos, onde dinheiro não falta, pessoas necessitadas de abrigos condignos muito menos, espaço idem, quem estude, elabore projectos e faça construir temos tudo isso, só parece faltar vontade política. Ele desabafou: dispensava todas as honras para fazer avançar projectos de habitação social que tão necessários são. Eu, quando o voltar a ter a meu lado na Brasileira, preveni-lo-ei para não voltar a fazer tais comparações, porque será logo apelidado de direita ou, quando muito, de fazer o jogo da dita cuja. 

         - O ditador que está à frente da Federação Russa, expelindo raiva e ódio cheios de espuma, furioso contra Zelensky e o seu país onde abunda gente inteligente e patriótica, não pára de castigar a Ucrânia. A noite passada foi das mais ferozes, traduzidas em 17 mortos e para cima de 90 feridos em ataques a Kiev. 

         - Aqui os termómetros acusaram 42 graus. Não pus o nariz de fora depois de ter regado pelas sete da manhã. Black esteve todo o santo dia a dormir, com intervalos para ir à cozinha petiscar e beber água. 

 

terça-feira, junho 30, 2026

 Terça, 30.

José Sócrates a quem não falta dinheiro aos milhões, ele que disse que é pobre e vive do montante de 2200 euros de aposentação, não se sabe bem (ou sabe-se) onde vai arranjar tanto dinheiro para recursos, processos contra os tribunais que o julgam por gatuno e outros desvarios. Anda louco de contentamento porque o processo que interpôs contra o Estado por violação do segredo de justiça no processo Operação Marquês, deu-lhe razão.  Assim o Estado foi condenado a pagar-lhe 15 mil euros “por má administração da justiça”. Este homem é uma personagem romanesca num país de fadas, criado por ele, e que ele manobra a seu belo prazer. E dizer-se que este socialista de gema, foi primeiro-ministro deste pobre país com séculos de história! Dá para acreditar? 

         - Quem se agiganta e não me digam porque razão eu o agrego ao socialista Sócrates, é o nosso aperaltado Bugalhito. Luís Montenegro pediu-lhe que subisse mais uns quantos degraus, e o lustroso aí vai até aos píncaros de primeiro-ministro. Sem mulheres que o afrontem por medo dos enxovalhos físicos, com a palavra salmodiada na ponta da língua, a vaidade estampada no rosto duro, traçado a cremes e pomadas que dão brilho à pele, os memes aprendidos quando palestrou nas televisões, sem conteúdo cimentado, aí vai ele todo laricas. Bugalhito não tem ideias - tem pressupostos. 

         - Calor. Fui à piscina, estava vazia. Eu era o único nos 25 metros de betão, se tivermos em conta as madames medonhas que ocupavam com o seu peso uma outra parte, ninguém mais aproveitou para se refrescar e ginasticar. De facto, esteve uma brasa. Todavia, é em casa que estou bem, porque a construi com sabedoria e arte. Aqui está sempre fresco (no Inverno acolhedora), com as portadas encostadas, as janelas abertas quando acordo, todo este espaço é um oásis de bem-estar. Começa porque ergui em toda a moradia duas paredes paralelas, com uma caixa de ar de 6 cm, um produto isolante de baixo a cima, o que não permite deixar entrar o frio como a humidade, mantendo uma temperatura constante. É nesta semi-obscuridade abraçada ao silêncio igual quando há frio ou calor, que as horas deslizam nos braços eternos da felicidade. 

         - Vou ter de me acautelar, diminui de peso para 62 kg. O problema é que detesto comer e com calor tenho tendência a comer menos. Depois do desastre de Abril que o estômago esteve no centro, evito restaurantes, comida cozinhada a granel, acepipes, etc. Há só um lugar que o meu estômago não barafusta: o restaurante do Corte Inglês.