segunda-feira, agosto 24, 2026

 Segunda, 24.

O período por que passei, foi e é para mim uma grande reflexão sobre a minha vida e a dos outros. As confidências que a minha fragilidade e o meu choro por vezes provocaram, fizeram com que os meus visitantes abrissem o coração. A família esteve muitas vezes no centro do futuro. Grandes surpresas tive ao ouvir falar de filhas e filhos que julgava serem o centro da felicidade destes amigos. Um ou outro, disse-me que preparava a velhice longe deles, não só porque eram pessoas com cargos em Belém, ministérios públicos de referência, Banco de Portugal e União Europeia e, portanto, em primeiro lugar estavam as suas careiras e ambições, que não se coadunam com a miséria que acompanha a vetustez, como não esperavam nada deles. Estavam tão sós como eu, com a desvantagem da desilusão e dos anos de vida em comum, pelos vistos pouco recomendáveis e que agora não servem para coisa nenhuma. Que grande fantasia é a vida da maioria das pessoas!

         - Não se pense que as organizações LGBTQ + (o extra não sei o que é) criaram esta imagem que com certeza aprovam; eu, em miúdo, via na televisão estas beijocas rechonchudas, boca a boca, dos dirigentes russos com os camaradas presidentes de países associados. Confesso que me fazia impressão por... inusitado.  




domingo, agosto 23, 2026

 Domingo, 23.

Enfim, ao cabo de cinco semanas a lavar-me como o Black me ensinou, pude retirar o penso e deixar correr a água sobre o meu corpo que a recebeu como uma bênção do céu. Ainda não me sinto a cem por cento, mas a pouco e pouco rejuvenesço das profundezas do sofrimento. 

         - A Carta das Nações Unidas, elaborada depois da Segunda Grande Guerra, tem no seu preambulo “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra”, contudo, poucos ou nenhuns são os países que nela estabelecem essa primazia. Basta olhar para o mundo, e contar com os dedos das duas mãos, a quantidade de países que estão em guerra. Muitas destas, possuem a mão do tresloucado Trump, impelido pelo seco e desumano Netanyahu com quem a UE mantém associação com Israel. Sem falar nos países africanos, acossados pela fome, bandos de criminosos de assalto ao poder, cartéis de droga que possuem hoje tanta força e armamento como muitas nações. No centro desta desordem, a Ucrânia com um conflito que passou o quarto ano. A instabilidade é geral e o factor económico conta tanto ou mais que os mísseis disparados a milhares de quilómetros – é disso exemplo a guerra que os EUA, através do seu presidente, impõem ao Irão. Perdeu-se a conta aos milhares de mortos que se foram às mãos de governantes assassinos nos últimos dez anos. Dito isto, não quero dizer que concorde com o regime iraniano, a “democracia” de Israel, o HAMAS e todas aquelas organizações terroristas que alimentam ódios e fome. 

         - Fr. Hélcio telefonou há dias de Madrid onde estava na companhia do marido espanhol. Assim que me ouviu a voz, prontamente se colocou para no regresso me levar para o apartamento de ambos paralelo à Avenida de Roma. Felizmente, não estando bem, já encontrei a liberdade mínima que me permite a independência. Quarta-feira vou ao Dr. Octávio Simões para ver o que ele pode fazer para reequilibrar a cabeça e o entusiasmo que um mês deixou a apodrecer no vale das dores. Já consegui engordar um quilo. 

         - Chove. O tempo arrefeceu e as árvores sorriem à leveza da chuva descendo sobre seus ramos frágeis. Vejo o espaço através da janela baixa onde escrevo – há um grito de alegria e alívio que é contagiante e me põe de novo no caminho da vida. 


sábado, agosto 22, 2026

Sábado, 22.

Os fogos não nos largam. Luís Montenegro, para defender o seu ministro atulhado de casos como ele esteve e conseguiu eliminá-los com o poder que neste momento tem, veio dizer que a área ardida este ano foi menor que a do ano passado, como se isso se devesse à competência do seu ministro Luís Neves. Este chegou ao poder no andor dos media, era vedeta diária nos primeiros meses e tido por honesto, incorrupto, competente, com as costas protegidas pelo anterior cargo na Polícia Judiciária. E vai-se a ver tem a vida atravancada de esquemas como o seu mestre primeiro-ministro. Os fogos por essa Europa fora, mataram 30 mil pessoas. Um horror! 

         - Está cá o espalha-brasas (no sentido em que começa aqui um trabalho, larga-o e vai deitar mãos a outro), sem que nenhum fique terminado. No entanto, este universo com o seu proprietário incluído, agiganta-se em ternura, bondade e paz com a sua presença. Fui, amparo ao Sr. José Manuel, pela primeira vez, colher figos às figueiras por aí dispersas. Todavia, fazer compota, está fora de questão este ano. 

         - A minha beata de estimação, largado o indispensável para que eu não morresse à fome, desapareceu. Por favor, caros leitores, afastem para longe tudo o que for gente de missas diárias, rosários, invocação do santo nome de Deus em vão; prefiram o vosso pior inimigo pela surpresa de reconhecerem nele um anjo. Onde estarei eu no próximo ano? 


sexta-feira, agosto 21, 2026

Sexta, 21.

Para descer a cortina do palco, agora que a vida retoma no ponto onde fora suspensa, devo confessar que o faço já com uma certa indecisão, posto que muitos ensinamentos colhi da natureza humana, da dita solidariedade e dos afectos que perpassam num ápice a fidedigna face do comediante. Sim, deitado e coberto de dores, levava os dias a tentar aligeirar a situação com espreitadelas aos diferentes canais televisivos. O que vi era simplesmente assustador, medíocre, pacóvio, pobrezinho. Apanhei, dia 12, o eclipse do Sol que foi uma perfeita exposição do que somos. Sobretudo do jornalismo que temos e dos jornalistas que as universidades debitam às centenas todos os anos para os escassos meios de comunicação. A linguagem era esta: “foi, senhores espectadores, simplesmente impactante o que aconteceu há três dias atrás” ou esta quando havia fogos, diante de uma senhora apavorada, perguntava a jornalista: “O que é que está a sentir?” O chorrilho de parvoeira e indecências, alinhava perfeitamente com as palavras do atrasado mental Trump, ao lançar mais esta boutade: o Estreito de Ormuz passaria a pertencer aos EUA. Contudo, quem me fez grande e encorajante companhia, foi os Campeonatos da Europa de desportos aquáticos e atletismo. Um prazer imenso assistir a tudo, não só pelo conúbio, como pela ausência daqueles programas da manhã, orientados por pessoas que decerto vão morrer diante dos nossos olhos, velhos e relhos, a produzir coisas horrendas, sorrisinhos idiotas, convencidos de terem o rei na barriga. Pelo caminho, aconteceu aquela tragédia dos milhares de africanos de diversos países e marroquinos em barda no assalto a Ceuta. A esse propósito, foi lamentável ver Luís Montenegro aproveitar-se da tristeza para recordar o seu programa sobre imigração. Pela boca dele e de muitas outras personagens sinistras, ouvi martelar a frase: “é o mercado e a democracia a funcionar”, onde no fim de contas nada funciona. E ainda esta, escutada no Parlamento: “Aqui não se fazem acórdãos.” O homem que quer o país a funcionar à Ronaldo, precisa de encontrar uma “famila” de analfabetos que o acompanhe.  Nunca lamentei tanto a ausência dos canais estrangeiros que o temporal siderou e eu ainda não encontrei quem subisse ao telhado para reparar a antena parabólica.  

 

quinta-feira, agosto 20, 2026

 Quinta, 20.

Aqui fiquei mais de um mês refém das dores, de alguma fome, sem poder conduzir, à mercê da caridade de vizinhos e amigos quase todos de férias. Quem surgiu do céu, foi Jacquis e a mulher que prontamente se dispuseram a ir ao supermercado comprar o necessário, assim como, ele, se prestou a levar o meu carro à inspecção, depois de eu dias antes do acidente ter ido ao ACP renovar a respectiva carta de condução. Habitando em França, tinham chegado para vender a casa paterna e um terreno, operações realizadas em dez dias, tal o interesse por tudo quanto está a venda nesta zona. Depois, pela forma mais expedita, começaram a brotar os telefonemas, as promessas, a deixas de “se precisares de alguma coisa, apita”, “olha, estou longe, de contrário iria aí ajudar no que precisasses”, “espero que recuperes rápido”, e, por fim, aquela do Corregedor antes de partir para férias, Caminha, para a tal “casa de campo com piscina”, contactou, condoído, conhecidos comuns para que não deixassem de me telefonar. Esta trágico-comédia, ficou em cena cinco semanas e a personagem principal ia decorando - conforme lhe permitia o pouco juízo que lhe restava - , os tons magoados que lhe chegavam aos ouvidos e ecoavam na solidão imensa que se tinha aberto em seu torno, enquanto na prática, apenas contou com os franceses, o Sr. Gaspar e, quase no fim, a Maria José regressada de Salamanca com três ovos, um pudim flan e uma caixa de figos tendo eu as figueiras a abarrotar... Teria a cortina do proscénio desci aí? 

         Quem iluminou este espaço, encheu a casa de alegria, movimento, simpatia, entrega e no pouco tempo que aí estiveram melhoraram visivelmente o paciente-impaciente, foram os meus sobrinhos: Gi e Nuno. Que surpresa encantadora! Eles não pararam, regaram as árvores, o moribundo jardim, levaram-me ao super, cozinharam deliciosos pratos que foram arquivados no congelador e ainda hoje me alimentam, levaram toneladas de roupa às máquinas malucas do Continente, refizeram-me a cama, varreram todo o rés-do-chão, encheram os serões de conversa ora solta, ora teclada no piano doce da ternura familiar que é sempre para mim estupefacção e surpresa. Quando eles me viram à chegada, ficaram impressionados com o aspecto do tio bizarro e solitário – magro, olheiras fundas, rosto fechado de sofrimento. Que fora feito daquele tio airoso, belo, sem idade, sempre divertido e afável, questionavam-se. Quando eles partiram depois de um almoço lá fora, caiu aqui um medonho silêncio, a casa fechou-se sobre si própria e o portão que sempre esteve aberto dia e noite, oscilou na espessura das horas que a solidão abraça e toma conta de tudo. 

         Todavia, senti amparo nos telefonemas diários da Alice (Caldas da Rainha), do Alexandre que vive lá para Oeiras, na atitude do meu querido vigilante Filipe que um dia, tendo eu ido ao curativo a Lisboa e deixado para trás o telemóvel, assustado, telefonou para a minha vizinha da frente, uma senhora africana com quem falei uma só vez, e tem negócio de casamentos e batizados que o Filipe contratou para celebrar o seu casamento com a mulher com quem vive há anos e têm dois filhos. Ela falou-me à noite e in petto queria cá vir trazer-me uma sopa acabada de fazer... 

         Eu que sempre vivi só e adorei esta dádiva dos céus, oscilei e repensei a vida a partir de um acidente que, em verdade, não seria diferente se vivesse num tabuleiro em Lisboa ou Paris. A humanidade, hoje, vive franzida de afectos, de solidariedade, de humanidade. A hipocrisia tomou conta de tudo e a estupidez serve-se em doses compactas nos ecrãs das televisões. A (des)cultura com que os programas embriagam as pessoas e exibem propagandistas ignorantes, é, com efeito, imoral e vazia de tudo. Ao tema voltarei, até porque não podendo ler ou escrever, estando a maior parte do tempo deitado, percorri todos os canais e descobri coisas que não imaginava possível num país civilizado.  


quarta-feira, agosto 19, 2026

 Quarta, 19.

... trágico porque ao chegar ao quarto, depois do esforço de subir as escadas de pedra em caracol, tremendo da cabeça aos pés, caí redondo no soalho. Levei para cima de quinze minutos para me atirar à cama, a transpirar, num desespero e esforço hércules para me erguer. Pensei passar a noite no chão, mas o candeeiro aceso não era boa companhia. Arrastei-me para entrar pelos pés da cama, mas fui duas vezes cuspido. À terceira fui capaz de chegar aos lençóis e arrastei o corpo para a cabeça do leito, exausto. Tomei então um comprimido para dormir e adormeci num tremor estúpido que não me largava. Bref. Acordei no dia seguinte completamente num traste: doía-me o corpo, qualquer gesto me anunciava a morte. Quando pus os pés no chão, olhei o pé e a perna marota e vi manchas negras por todo o lado: veios vermelhos que subiam até ao joelho, o tornozelo como uma batata, a anca negra, os cotovelos dos braços escuros. Mesmo assim não me rendi. Ir ao hospital estava fora de questão depois da última experiência no S. José. Acontece que daí a dois dias tinha consulta com a minha médica de família para lhe apresentar o exame às caróticas e, não obstante o extremo sofrimento, continuei a conduzir e na tarde aprazada estava na frente da boa doutora. Quando ela viu o meu membro inferior, estarreceu e num protesto quis saber por que não fui às urgências. Depois chamou uma enfermeira e esta prontamente começou a extrair com uma seringa o muito pus da perna e pé. Os que vinham de outros gabinetes, emitiam um ai de espanto – de facto eu estava numa miséria, as alpargatas de quarto ensopadas do líquido que parecia vir de todo o lado, dores insuportáveis. A Dra. Vera disse-me que o que via só um antibiótico podia curar, a enfermeira de acordo com ela acrescentou que eu tinha ali para um mês. O bom do Sr. Gaspar que me tem socorrido sempre, amparou-me da saída ao táxi. Chegados a Palmela, fomos à farmácia aviar o veneno e mais um outro para as dores e um terceiro para os possíveis desarranjos de estômago. Aqui estive cinco semanas, com duas idas ao centro de saúde, terças e sextas-feiras, dores insuportáveis, sempre deitado porque nem um ovo podia estrelar de pé. No frigorífico não havia mantimentos para mais de três dias. E esse foi o drama que me levou a ter dias em que quase não comia – emagreci cinco quilos. Mas foi também um tempo de aprendizagem, de conhecimento humano, de teste aos ditos amigos, de confronto com a realidade e recrudescimento dos valores que me têm orientado ao longo da vida. Eu já tinha poucas ilusões, estas eclipsaram-se, é tempo de encarar o futuro sob outros auspícios. Assim Deus me ajude. Quanto ao período imobilizado, aos “amigos” e amigos, falarei mais tarde. Seja como for, o dia é para mim hoje de regozijo – pela primeira vez peguei no carro e fui ao supermercado e passei uma boa meia-hora no café a meditar.  


terça-feira, agosto 18, 2026

 Terça, 18.

... Depois, quando uma tarde cheguei a casa após consulta oftalmológica no Pulido Valente e sentia o estômago num rebulício, não propriamente com dores, mas um mal-estar que antes de me deitar decidi acalmar com meio copo de Água das Pedras. A causa não fora o almoço no Corte Inglês, de resto muito simples (arroz com peito de frango), que me causara o incómodo. O que sei, logo que a água entrou no meu corpo, desatei a tremer como se estivesse nos invernos frios do Alasca. Subi a procurar uma camisola grossa, desci com ela vestida, e sentei-me no sofá do salão em tremuras bizarras. Daí a um tempo, voltei ao meu quarto, pus um cobertor sobre o lençol, tomei um comprimido para dormir e daí a bocado adormecia. Senti-me bem no dia seguinte, tinha descansado o suficiente, estava restabelecido. Mas da cabeça não me saía a garrafa da água que dizem fazer milagres nos problemas gástricos. Antes de me deitar, fui à cozinha testar o produto. Mal tinha engolido um pouco do seu conteúdo, desatei num tremor medonho, idêntico ao da noite anterior – a causa estava encontrada, o que se seguiu foi trágico... (suspendido para dizer que acabei de chegar de Lisboa aonde fora para o curativo, ao todo já dez viagens).