Quinta, 27.
Que disse o Dr. Octávio Simões para além da surpresa de tudo o que lhe contei? Não encontrou resposta para o efeito da Água das Pedras que eu confirmei no dia seguinte com o desastre narrado. Acrescentou, contudo, que é verdade ser ela bastante salinizada e daí a recusa do organismo. Quanto ao mais o motivo que me levou ao seu consultório, disse aperceber-se do meu estado psicológico resultante de cinco semanas de reclusão, inacção e sofrimento, e entusiasmou-me a tomar um medicamento específico para o cérebro, afirmando: “quero-o a escrever e a ler em breve”. O resto estava equilibrado. Tensão a 13,2 - 6,7.
- O país das polémicas que somos, umas a seguir a outras, foi mais uma vez inserida a escassez de dadores de sangue. Acontece que (julgo já aqui ter trazido o tema) em tempos fiz parte de um núcleo que pensava o modo mais eficaz de atrair benévolos para a causa. Nesse tempo, ainda os portugueses eram aliciados pela humana e cívica razão do próximo em necessidade dessa fonte de vida. Hoje, quase se desvaneceu o auxílio desinteressado do outro, um enorme egoísmo parece ter tomado as novas gerações, cada um por si e Deus por todos. Ora, já nessa altura, eu havia levantado a hipótese de cada dador ser agraciado pelo Estado com alívio de impostos - se bem alvitrei naquela então, mais o reforço hoje.
- Por todo o lado, crescem os desastres atribuídos ao aquecimento geral do Planeta. Desta vez, o que assistimos pelas televisões, é o horror na sua expressão mais sinistra na divisão entre o Nepal e o Tibete. De súbito, uma forte enxurrada que provocou um deslizamento de terras, desceu das montanhas a uma velocidade medonha, arrasando tudo o que encontrava e o número de vítimas é incalculável, os prejuízos medonhos. Há centenas de turistas e nepaleses mortos ou desaparecidos. Parece haver pontos onde os sedimentos atingiram 1,5 metros de espessura; as terras abruptas com desníveis superiores a três mil metros. Horror! Horror!
- O Couto, meu fiel leitor, esteve privado deste alinhamento de palavras quotidianas por complicação e troca do seu computador. Telefonou ontem à noite e estivemos à conversa por quase meia-hora. Querido amigo de longa data, grande afecto tenho por ele. Ele não imagina o conforto (quando do desmaio foi igual) que me trouxe, movido pela fraternidade dos anos e aquele íntimo olhar que pousa no sítio certo onde as dores se escondem ou disfarçam num breve abraço de ternura.
- Por cá o Outono empurrou para o lado o Verão. Ontem e anteontem choveu se Deus a dava. Uma bênção para estas terras e árvores que tanta sede tinham devido a eu não puder tratá-las. Os meus sobrinhos condoeram-se e por pouco não as embeberam; depois veio o calor sufocante e metia dó escutar a aflição de cada folha, tronco ou braço implorando uma gota de água.
