domingo, outubro 18, 2026

 Domingo, 18.

Quando a CGTP aproveita o descontentamento natural dos que não conseguem ter uma vida digna, tudo se complica e desvia das causas aqueles que legitimamente reivindicam os seus direitos na rua. Vejamos, o que ouvi do dirigente da Intersindical, foram apoios aos cubanos e palestinianos que me coloca do seu lado, já não gosto de gente sectária, de tala nos olhos, que oculta deliberadamente as guerras que proliferam por todo o lado. O PCP que sustenta ideologicamente a Organização, nunca se pôs ao lado da Ucrânia e com isso passou para o mínimo de deputados na Assembleia. Quando eles proclamam o fim da guerra, fazem-no na generalidade, pergunto-me quem o não quer, nunca dizem frontalmente à Rússia que cesse de atacar a Ucrânia; quando pretendem que a Europa páre de investir em defesa, e nada dizem dois milhões de milhões que países como a China, Rússia, Coreia do Norte empregam em armamento bélico moderno, estão a contribuir para que os povos europeus fiquem à mercê das vitórias fáceis daqueles países e, portanto, por eles conquistados sob as ditaduras aí vigentes. Perguntou-me que tem a ver com o direito à habitação Cuba e Palestina. Por outro lado, se o futuro for uma guerra generalizada, quem esfrega as mãos de contentamento é Trump, Putin, Xi Jinping e alguns mais assassinos. 

         - Entretanto, Lisboa foi contaminada pelo Porto. No Rossio centenas de jovens gritaram por habitação e vida condignas, tendas foram montadas, pediram a anulação da nova lei de arrendamento, citaram e bem, os 55 imóveis do ricaço Luís Montenegro. Não houve distúrbios, nem aqui nem no Porto, a Polícia não foi enviada pelo ministro que continua na via pública por mais uns quantos desvios à lei e favorecimentos por pesquisar. Ninguém com dois dedos de testa, vai acreditar que uma pessoa que é proprietária deste império imobiliário, tenha em conta a vida rasteira dos jovens e da velhice marginalizada. Trump que se fez na corrupção e na especulação, não deve ter tantos rendimentos do sector como Montenegro...

         - Ontem, em uma hora, li o livro de Gunter Grass: Fazer de Estátua. Gosto muito do escritor, li alguns livros da sua imensa obra, foi Nobel um ano depois de Saramago, em 1999, e este trabalho é uma espécie de novela que o autor queria incluir na autobiografia Descascando a Cebola que devorei em 2017. (Abro parênteses para anotar o desabafo do escritor já feito, a propósito dos erros de ortografia, em carta de amor escrita aos 15 anos: “Ainda hoje me sinto periclitante em matéria de ortografia.”) Também eu tenho muita hesitação, sobretudo quando os computadores estão em sintonia com o AO que pretendeu aproximar o português do Brasil com o de Portugal. Esta autobiografia é uma fantasia que tem na base a figura de Uta de Naumburgo, a mulher mais bela da Idade Média. Grass nasce na Polónia, mas é na Alemanha que constrói a sua vida, tendo, inclusivamente, tido casa no Algarve. Qualquer dos seus livros são fascinantes.

         - O livro desceu da biblioteca de cima e ficou na mesa de apoio à mão de semear. Como não sou pessoa para ler em diagonal, todos os meus livros estão anotados, sublinhados, vividos. Por isso, se me permitem, transcrevo estes dois sublinhados: “São os leves começos que equilibram tudo aquilo de mais pesado vem depois (pág. 325); “Quem escreve desiste de si próprio. Só os serviços de finanças é que não querem reconhecer que a existência do autor é uma mera afirmação, por isso uma ficção e não tributável” (pág. 283).  

         - Para o que me deu esta tarde, como se não tivesse já trabalho bastante para a encher. Longe vão os anos em que a Zitó e o Couto vinham por aqui, colhiam os marmelos e um mês depois tinha umas quantas tijelas com a deliciosa marmelada feita pela minha talentosa amiga. Nunca esquecerei esses fins-de-semana encantadores e com base neles, atirei-me a fazer eu próprio o delicado doce. Nunca tinha feito a experiência e espero ter realizado o feito, não ao nível da confecção da Zitó, mas com o pensamento na nossa amizade de mais de quarenta anos. 


sábado, outubro 17, 2026

 Sábado, 17.

Ouvir aquela personagem líder parlamentar do Chega, ao estilo de quem come um porco todos os dias, a falar da lei e justiça a propósito das manifestações dos que dormem na rua ou em vãos de escada por não terem casa como aconteceu no Porto, é escutar o íntimo de um pequeno nazi prezo pelo beicinho ao seu chefe. Ele, Ventura, Montenegro, Pedro Duarte e o dos esquemas, Sr. Luís Neves, fizeram-me lembrar os tempos que antecederam os terríveis anos do nazismo. A resposta não se fez esperar e chegou no dia seguinte com cerca de 4000 mil pessoas ao lado dos infelizes que apenas reclamam aquilo que o 25 de Abril disse que iria realizar e até hoje, 50 anos passados, não só não concretizou como piorou, embora esculpido na Constituição – o direito a habitação condigna.  

         - Eu se fosse político tinha vergonha. Um recente relatório diz que a pobreza não só se mantém, como aumentou. Li e encolhi-me de dor e tristeza por ter um teto onde durmo descansado, quando 2,8 mil milhões de pessoas vivem em casebres a imitar casas, e destas 330 milhões não têm teto. Foi contra uma parte destes seres humanos que a Polícia, comandada por um homem pejado de esquemas, que deve conhecer os podres de uma centena de políticos e gestores, mandou atacar com palavras como fazer cumprir a lei e a ordem, ele que está manchado até ao tutano do incumprimento que reclama aos demais. Neste contexto, ponho de parte Luís Montenegro, que se permitiu pagar a pronto 800 mil euros por um duplex na Lapa, e ninguém o questiona como conseguiu ele tal riqueza pessoal, quando a sua vida foi sempre a de deputado. Claro é que uma personagem como esta, tem forçosamente de estar em sintonia com o homem das negociatas quando esteve à frente da Polícia Judiciária e agora do Ministério da Administração Interna. Não é por acaso que os elogios do primeiro-ministro ao seu ministro, são sempre os primeiros da lista dos que por timidez ou medo se abstêm. Montenegro, aprendeu rápido a magia da propaganda de António Costa, e apregoou cheio de lata que vivemos sólidos e com vida airada.  

         - A última de Donald Trump como presente ao seu amigo Vladimir Putin. Contra a aprovação pelo Congresso em Setembro e assinada por ele, foi adiado o pacote de sanções contra a Rússia. Motivo: “Os interesses nacionais dos Estados Unidos.” 

         - Zelensky parece ter sido abandonado por toda a gente, a começar por Trump que o detesta por fazer frente à aliança com Putin. Os homens de negócios são violentos, atiram a matar todos os que se lhes atravessam na frente, o dinheiro é o seu deus omnipresente e omnipotente. Quando se sente abandonado, volta a fazer um périplo pela Europa e ouve sempre as mesmas promessas, no caso de Costa, no seu inglês cómico e o tradicional sorriso feliz de quem soube endrominar meio mundo, devem diverti-lo. Mas, regressado a Kiev, é a morte e a destruição que preenchem os seus dias. Felizmente o povo ucraniano é inteligente e do nada nasce uma defesa que surpreende o mundo e acaba por ser exportada resultando daí os cifrões necessários à protecção do país. Zelensky é um herói, o único num Planeta de gananciosos e desumanos dirigentes, que tem de fazer frente a um ditador furibundo e uma Europa amedrontada, habituada à comodidade da vida indolente protegida por outros. 


quinta-feira, outubro 15, 2026

Quinta, 15.

Na trapalhada Trump, um tipo impreparado, inculto, um desastre para a humanidade, veio agora - dizem os entendidos para evitar a derrota humilhante nas eleições intercalares de Novembro -, a ideia de aceitar a proposta do ditador russo de utilizar os activos russos congelados nos Estados Unidos, avaliados em mil milhões de dólares, após acordo de paz com a Ucrânia, para reconstruir Palestina. Que idiotice! Os EUA que desde remota idade tinham a Rússia por inimiga, vê agora, de repente, uma aliada com quem se pode fazer todo o tipo de negócios.   

         - Eu tenho em conta a economia não só por educação, como por vantagem de dignidade que ela me proporciona. Hoje, utilizando o benefício que me dá o cartão do ACP, fui atestar o depósito. A última vez que o havia feito, foi em Julho (tendo em conta que no mês de Agosto não pude utilizar o veículo), mesmo assim posso-me felicitar. Só uso o carro quando por aqui me desloco e não sinto nenhuma ambição em fazer dele o trono de importância absolutamente ridícula que ele representa para certa classe de portugueses. 

         - A pressão dos meus sobrinhos para deixar este convento, é imensa. Todas as semanas ouço um chorrilho de argumentos, todos eles válidos e lúcidos, mas o silêncio que aqui reina, a luz que se espraie por entre as árvores, a quietude dos dias onde do firmamento desce o espanto divino do céu azul em permanência, percorrido por nuvens que desenham formas humanas e animais, o sibilar dos pássaros à desgarrada, o ténue manto que cobre a casa num mistério que se foi adensando com o correr dos anos, este sossego diria quase sobrenatural que me paralisa, me encanta, me absorve as horas, me deixa petrificado ante algo que não vejo, mas sinto em pleno em todo o meu ser, o rastejar das sombras a esgueirarem-se do dia, e quando este declina, a mancheia de perfumes que se impregna na minha pele, desliza no ar, estaca em pequenas manchas que os meus olhos identificam como presenças de algo que não ouso soletrar, talvez o anúncio da noite, fechadas as portadas e janelas, o interior habitado dos livros, companheiros seguros de uma vida, agrupados como sentinelas nas prateleiras, forrando as paredes de expectantes criaturas que sabendo tudo, ignoram o essencial que se desdobra das doutrinas e das filosofias, umas e outras, ultrapassadas pelos diálogos murmurados no fio tangível das madrugadas, na solidão edificante que cresce do chão, sobe os andares, e volta a sair pelas janelas abertas com o fim de refrescar as divisões seguido do murmúrio do vento lá fora, na noite estrelada de mil cintilações, que os meus olhos admiram, sempre originais, meses e anos, para meu gozo e interpenetração dos sentidos, sob a magia da Lua que me parece sorrir todas as noites quando antes de me deitar com ela travo uma oração de alegria e bem-estar, espécie de reconhecimento por habitar este lugar solitário, esta planície sonolenta, estes caminhos de terra batida onde raramente se afoita um carro, uma presença humana, uma sombra batida pelo segredo que reside na noite sossegada, antes das madrugadas abençoarem este espaço fresco, este momento sublime, traçado a esquadro para nele reinar omnipresente um bouquet de saudades, de vidas vividas, agasalhadas no amor vadio, colhido dos minutos amplos e em breve transformados em horas, dias, meses, anos, cerradas janelas e portas, sobre camas desfeitas, pensamentos eternos, imagens, sentimentos etéreos, tudo no chão enrolado numa eternidade cujo traço se perdeu em rolos de glória ou empecilhos de derrotas, porque por aqui tudo chegou no imprevisto das noites, das auroras, ou das tardes abafadas de recordações que não me largam e são o suporte de uma felicidade nua, crua, irrecusável, em cujos pilares assenta a casa, o seu proprietário, o silêncio, a magia de um não sei quê de algo que não ouso traduzir, mas encontro palavras para adiar ou recusar, ou suspender ou parar o tempo, imobilizá-lo algures dentro de mim, com este solo que cuidei, esta casa que levantei, este mundo que só eu sei abreviar num sentimento que os meus sobrinhos nunca perceberão, porque desconhecem o maravilhoso que há na persistência da solidão, do fecho para dentro de nós, como se a morte se harmonizasse com a vida que se lhe segue, onde, estou certo, encontrarei um naco de terra para voltar a erguer a arte de viver em consonância com a minha identidade, verticalidade, sentido vivido na irmandade sagrada, na consubstanciação da alegria, no lugar onde reina até ao infinito mil recordações...  

 

quarta-feira, outubro 14, 2026

 Quinta, 14.

Paris continua a ferro e fogo. Pelas imagens televisivas, reconheço os meus lugares de eleição, vejo a selvajaria que tudo destrói à boa maneira dos franceses, habituados a terem tudo e a serem os reis do mundo, como se ainda estivessem nos séculos XVIII e XIX. Por este caminhar, não obstante as razões que assistem aos estudantes, as ruas estão a empurrar o país para os braços dos extremistas de direita e esquerda. Macron devia dizer, preto no branco, que não há dinheiro para satisfazer tanta gente ao mesmo tempo. Por paradoxal que pareça, é a democracia que traz de volta toda a sorte de ditadores. Em breve contar-se-ão pelos dedos de uma mão, as nações sob o maravilhoso mundo da democracia e da liberdade. 

         - Restando em França. Ontem centenas de supermercados e sistemas de refrigeração em todo o país, foram alvo de um ciberataque. Julgo que é a primeira vez que tal acontece e esta deve ser mais uma das vigilâncias que devemos passar a ter como parte integrante do nosso viver. Toneladas de alimentos ficaram destruídos. Eu não me esqueço que Emmanuel Macron há um mês ordenou a implementação de medidas para as infra-estruturas francesas contra ataques híbridos da Rússia. Parece que a força do crime, também atingiu alguns supermercados em Portugal.  

         - Pinto Luz, o ministro dos comboios e do TGV, no seu modo de falar com 15 cafés no bucho, afirmou no encontro com os autarcas do Norte que não parecem estar de acordo com o traçado, que os comboios não podem andar mancos (foi qualquer coisa assim). Ora sua excelência fala do que não sabe, talvez por nunca tenha mancado. Aviso-o que não se meta com os coxinhos, coitadinhos. E também lhe digo, que não é em linha recta que se alcança o objectivo – é na (palavra tão ao gosto dos novos jornalistas e locutores) resiliência. Desiste mais facilmente vossa excelência das suas convicções, que um coxinho, coitadinho, habituado ao esforço de uma vida inteira a calcorrear ministros... 


terça-feira, outubro 13, 2026

 Terça 13.

Tenho muita pena que não tivesse conhecido a Bíblia pelos quinze anos, porque passaria o resto da vida a ler e a estudar o que nela hoje me surpreende e por vezes revolta. Não leria provavelmente nenhum outro livro e mesmo assim decerto chegaria ao fim sem solidificar o que hoje me inquieta e me afasta dela. Sobretudo todo o Pentateuco, em particular o Génese, que desenvolve a criação de Israel e as bases, práticas e teológicas, da religião cristã. As acções que são atribuídas a Deus, pesam tanto no contraste do que hoje pensamos de Ele, que dir-se-ia que a humanidade se aperfeiçoou não com os livros sagrados, mas com o humanismo, a cultura tout court, a filosofia, a sociologia, o Direito, a Matemática, a obrigação social da interacção dos valores do outro enquanto imagem e semelhança de Deus. O nosso Deus, este que veio até nós enriquecendo a nossa cultura humanista, está tão distante de Aquele outro que tomou Moisés como seu mensageiro nas coisas práticas da vida, da criação de uma religião com códigos e regras, minudências religiosas práticas, mas igualmente desumaníssimo ao ponto de arrasar multidões, destruir cidades, matar e reduzir a nada a Terra dos que no início dos inícios não O aceitaram. A ideia que nós hoje temos do Senhor, falo por mim, leva-me a descrer de um Deus tão bárbaro, tão obsessivo e tão desumano como o Deus que o Judaísmo toma como seu, um Deus de origem abraâmica, como dizer, étnica, que parece ter estabelecido uma aliança, um pacto e sendo monoteísta, também de base racial. Jesus Cristo veio de certo modo restabelecer o sagrado do Pai, modificando, inclusivamente, algumas raízes estabelecidas milhares de anos antes. A nós cristãos, que colhemos do Antigo Testamento e do Novo as bases do cristianismo é, todavia, no NT que melhor reconhecemos o Pai e o Filho, e com os dois numa mesma majestade divina, convivemos e nos irmanamos como irmãos. É muito bela esta imagem, este sentir colectivo, ao mesmo tempo fraterno, sem exclusividades, acolhendo com imensa liberdade outras religiões, porque não somos uma seita, somos de tempero cultural e humanista, uma grande nação de fiéis que acolhe o outro independentemente da religião, do sexo e das origens sociais. É por isso, que temos Deus no centro das nossas vidas. 

         - Mudemos de assunto que este é demasiado sério e não sei se consegui exprimir-me como gostava e devia. O Ministro da Administração Interna, que chegou sorridente, ajoujado de competências, honestidade e profissionalismo, que durante meses não saía dos ecrãs de televisão e das primeiras páginas dos jornais, perseguido pelo jornalismo indecente que hoje se pratica (eu era despedido por muitíssimo menos do que vejo e ouço, corrido pelo chefe de redacção a pontapé). Estes doutores da mula ruça, saídos das universidades onde aprendem o jornalismo de beicinho, sabichão, provocador, vazio, vedeta que os leva do elogio vibrante ao vexame ridículo, com o mesmo à vontade do grande senhor (nem falo das pobres senhoras) do pensamento e da notícia que incendeia razões, despacha políticos, cria intriga, encosta-se a facção partidária e triunfa do interior da massa amorfa dos portugueses interessados apenas no futebol. Quanto a Luís Neves, está de novo atulhado na porcaria da seriedade que esbanjou e agora o aprisiona. 

         - Bem dizia eu ontem: cala-te, boca suja. Os dois canalizadores acabaram esta manhã o trabalho. O mais velho saiu-se com esta: “Eu conheço-o há muitos anos.” Assim que ele falou no Sebastião Fortuna, e nomeou o seu próprio nome, luzes e luzes acenderam-se no meu cérebro e reconstrui logo um mundo feliz e fabuloso que ficou no passado. Ele esteve aqui com o Mestre para tentarem arranjar a bomba da piscina e nós vimo-nos vezes sem conta no vasto atelier do Fortuna. Quando lhe disse que tinha ido à piscina esta manhã, ele perguntou-me se não tinha visto a sua mulher “que tem o hábito de ir à hidro- ginástica”. Está tudo esclarecido? Talvez. 

         - Dia abençoado o de hoje. 


segunda-feira, outubro 12, 2026

 Segunda, 12.

O país vive “à Ronaldo” como deseja Luís Montenegro. Desse modo, nasceu OE visivelmente pensado nos mais favorecidos, deixando de lado a pobreza que se vem acentuando de ano para ano. Em 50 anos, foram sempre os mesmos a governar-nos salvo no período sinistro da “gerigonça” de tão saudosa memória para o PCP e Bloco de Esquerda, que consagrou António Costa como o homem que conseguiu aglutinar num mesmo Governo a esquerda, mas de olho pesquisando e estudando a personalidade da senhorita que preside à UE com quem acamaradou até ao cargo que hoje ocupa e para o qual não lhe vejo nenhuma aptidão ou conhecimentos. 

         - Não quero com isto chamar o Chega como faz Passos Coelho. Devia, em abono de Portugal, estar satisfeitíssimo por ver duas eminentes personalidades a disputarem-se para o cargo de chefe do governo: o antigo governante e o ex-governador do Banco de Portugal. Um e outro, quando instados, respondem que não têm ambição política alguma, senão a de ajudar o país a sair da eterna miséria. É o blá blá do costume. Passos Coelho que durante a troika esteve à altura dos acontecimentos, não percebeu ainda o partido Chega que, tal como o PCP, o Livre, os resquícios das senhoritas do BE, vive tão só do desconsolo do povo, das suas legítimas aspirações nunca realizadas, da revolta e do imediato, própria de partidos que tudo podem prometer porque sabem nunca serão poder. É o caso do Chega, vive do tumulto, do oportunismo, do descontentamento nas ruas, não possui programa, não tem dirigentes, técnicos, pessoas com carisma e força de liderança, sendo André Ventura o carismático dirigente de um partido onde só existe ele. Sem que com isto lhe retire valentia. De resto, é graças a pessoas como ele – Marine Le Pen, Jean-Luc Mélenchon – para só citar estes dois, que a direita de Ventura prolifera. Não é tanto por aquilo que apregoa, mas por aquilo que as esquerdas lhe oferecem em promoção gratuita. 

         - É inevitável falar da França onde a revolta não larga as ruas de Norte e Sul. Aqui como por lá, a governação é rotineira, sem criação, sem pesquisa social, sem pessoas que se lembrem que trabalham não para si, mas para toda a comunidade. Para isso é que há ministros e secretários de Estado, administração pública e gabinetes disto e daquilo, multidões de funcionários que se deviam ocupar das pessoas e da vida prática da nação. Digamos que o dinamismo é o motor impulsionador da vida moderna, impeditivo da ronceirice, da ocupação das horas sonolentas pelos ministérios, do deixa andar. A França é, por assim dizer, um país pobre. Os franceses não querem assumir esta pobreza, deslocam o olhar dos quase 121% de dívida pública em relação ao PIB. Não é ainda a miséria, mas para lá caminha. E isso sentem os cidadãos no dia-a-dia. Mas quando por ciclos a sociedade é sacudida, num ápice aparecem as soluções que todos necessitam. Pergunta-se por que não vieram antes. O Governo francês, de repente, diz que tem mais 3 mil professores em falta nas escolas e universidades, que possui uma verba astronómica para obras nos edifícios públicos, não vai haver mais frio ou calor dentro das salas de aulas, enfim, o paraíso terreal abrir-se-á para as gerações presentes e futuras. Que blá blá monstruoso. 

         - Somos governados por ditadores, doidos varridos, impotentes, arrogantes, aldrabões, complexadas criaturas que despejam a impotência sobre milhões de seres humanos. Parece que um fosso se abriu por todo o lado depois da chegada de Donald Trump e do fundo subiram à vez dezenas de tarados irmãos gémeos de Hitler. Perdeu-se a dignidade dos cargos públicos, a linguagem da rua subiu aos palácios presidenciais, aos parlamentos, às cadeias de televisão, a essa vala de lixo que é a Internet. Desde aquele pobre coitado, Peter Hegseth, outrora apresentador do canal de televisão Fox, hoje secretário de Defesa dos Estados Unidos, que se apresenta de peito nu, decorado com grandes tatuagens, ter dado permissão para que o fuzilamento do psiquiatra militar que matou 13 soldados numa base americana seja transmitido em directo, temos o regresso ao mundo das trevas, à Idade Média. A estes energúmenos que nos governam, tudo lhes é permitido em nome da “democracia” que convive bem com o poder absoluto de cada qual. 

         - Estão aí dois homens a arranjar o que o espalha-brasas escaqueirou. Entraram às oito e ao escavarem para encontrar o cano que foi cortado, descobriram outro de onde há muitos anos se evade água para as profundezas da terra. O mais novo andará pelos trinta e poucos anos, o outro pelos cinquenta. O primeiro é magro, corpo inteiro e limpo, um piercing em cada sobrancelha; o mais velho, cabelos brancos, delgado, alto, ambos flutuam num entendimento suave, numa bolha sensível, por onde se escapa um segredo que não ousam expor ao comum dos mortais. Cala-te boca halitosa, cabeça delirante


sábado, outubro 10, 2026

 Sábado, 10.

Ao ver a luta dos jovens e idosos por habitação condigna e a preços decentes (na sua origem a falecida Maricarmen), ocorre-me um pensamento sobre Julien Green que, octogenário, recebeu do proprietário do apartamento onde vivia, em Paris, ordem de expulsão. Se o recordo, é para dizer que a exploração e especulação imobiliária já vem de longe, pelo menos dos anos oitenta do século passado. Também não esqueço que o actual primeiro-ministro e o Presidente da Assembleia da República, são donos de vários apartamentos e vivendas, o primeiro abafou o que diziam os jornais sobre a capacidade financeira de um homem que fez a sua vida no salão redondo do Parlamento; o segundo não se sabe como conseguiu coleccionar tantas casas e ainda por cima esquecer-se de as mencionar na sua folha de bens obrigatória por lei. Enfim, somos isto. 

         - Ontem fui à Brasileira levar à senhora da limpeza (talvez devesse dizer técnica auxiliar...), uma mulher notável, culta, civilizada, não sei de que nação africana, um pequeno saco com romãs. Mal entrei, parecia que tinha chegado o rei de um qualquer país escondido atrás do mundo visível, pois o entusiasmo das raparigas e rapazes foi tal que me obrigou a cumprimentá-los de mão a todos e a cada um. Esperei uns segundos porque a encontrei a limpar os wc, por sinal sempre sujos devido aos turistas nojentos. Se fiz este gesto, foi porque o ano passado lhe ofereci uma romã que devia ter quase meio quilo e ela levou meses a glorificar-me pela oferta. A semana passada, ofereci-lhe uma caixa com dióspiros e então tive direito a dois beijos faciais – agora assim fazemos sempre que nos vemos. 

         - É visível há muito que Trump não é Presidente dos EUA, mas homem de negócios que tomou a nação americana como uma grande empresa. Não faz política, faz negociatas para si e para os seus cúmplices e amigos. Disso é prova o acordo que acaba de realizar com o seu amigo Vladimir Putin, comprando-lhe 300 mil toneladas de gasóleo de imediato, mais 500 mil em Novembro e por aí adiante, sem se importar com o jeito que essa venda vai dar à Rússia em guerra há quatro anos contra a Ucrânia. Ele imagina que deste modo terá do seu lado os votos dos americanos nas intercalares de Novembro.