Sexta, 17.
Dia rico o de ontem. Cedendo ao convite do Paulo Santos para um almoço no Café no Chiado, encontrámo-nos na Brasileira onde eu não ia havia mais de quatro meses e aí encetámos uma viagem de memórias e factos recentes, celebrada em honra do convite que o meu amigo teve por parte de uma editora francesa para publicar um livro emocional sobre Lisboa. Foi o que ele fez de melhor e não deixo de o engrandecer por se ter libertado da Economia e do Parlamento europeu, ninho de corruptos e interesses rasteiros, perdas de tempo em conversas que não têm fim e não levam a parte alguma, e ter enveredado pela liberdade limpa dos salamaleques tão indispensáveis à classe política, yes obrigatório do partido e da ideologia que o sustem. Bref. Daí passámos ao restaurante, meu conhecido dos tempos de jornalista, na rua debaixo do teatro de S. Luís, onde tantas vezes estacionara o carro e passara em frente sem ousar entrar porque me parecia, visto de fora, de uma pobreza franciscana. Seria há trinta anos. Hoje é um espaço afrancesado, acolhedor, onde se come bem em doses restritas, de acordo com a austeridade que a pouco e pouco se vai instalando e corrige a voracidade e lobriguez de certos estômagos nacionais. Ficámos quase três horas abancados, porque o Paulo trazia o computador e requeria que eu lhe desse opinião sobre seus escritos (em francês). Lá fui lendo e opinando, com o meu amigo a anotar o que me parecia deslocado, em falta ou demasiado propagandístico. Lisboa, a cidade onde nasci e vivi (salvo uns anos em Coimbra na adolescência) é para mim uma intimidade, um modo de sentir através da sensibilidade que habita na saudade enquanto elemento identificador, aglutinador e único, que nos mergulha numa atmosfera que mantém presente e passado, desafia o futuro, história e sentimentos incluídos, num êxtase de amarguras e espaços de luz debruçados sobre a eternidade que abraça quem nela nasceu e viveu. Porque os editores insistiram (ou não fossem eles franceses) que o retrato escrito e fotografado, tivesse a assinatura dos sentimentos do seu autor, e não produzisse um mero roteiro de ruas e malha histórica, também eu reforcei esse cuidado e essa escolha, na forma e conteúdo, mais a mais porque Paulo Santos é suficientemente conhecedor e estudioso do mundo cultural da capital, e possui o gosto e a tradição que elimina o fácil, o delicodoce, aquilo que não tem a densidade que atrai e glorifica a exigência e o pormenor, profundidade e a magia, que acaba por envolver o leitor-viajante. Fico à espera das páginas que ele me enviará por mail, para que possa, modestamente, ajudá-lo a engrandecer o seu (julgo) quinto volume de uma obra originalíssima que envolve, escultores e pintores, escritores e historiadores, civilizações e modos de vida, e é testemunho do seu amor à Marinha, ao mar e às caravelas que trouxeram a riqueza e o desafio da descoberta de mundos hoje parte importante da Sociedade das Nações.
- Não há fome que não dê em fartura. Passamos por vezes muito tempo sem nos vermos, mas ontem, como a preencher esssa lacuna, Paulo quer que nos sentemos por mais uma hora numa esplanada. Escolhi o petit cafe da Fnac onde abancámos, convidando-me o Paulo para assistir no próximo ano a acontecimento que traz a Lisboa Stéphane Bern. “Tu és o único português que o conhece”, acrescentou. Com efeito. Conheço-lhe a obra escrita, os programas televisivos e o trabalho em prol da Cultura enquanto ministro. Depois, estou certo que nos cumprimentámos - na altura jovens quase imberbes -, quando Jean Lebrun nos apresentou, em Paris, num estúdio de televisão. Tudo isto está plasmado nas paginas deste Diário no período respectivo. Também falámos muito da Córsega de onde a mulher (julgo) ser natural e é um país que eu adorava visitar devido às suas muitas capelas góticas e românicas que se escondem nas encostas das montanhas. Separámo-nos pelas cinco da tarde.
- Já me libertei do comprimido noctâmbulo, esperando estar de volta aos meus sonos profundos, inteiros e céleres, que sempre me habitaram da infância à idade velhada.
- Para ser franco, não apreciei a rejeição de Aguiar-Banco ao Chega para inquérito à gestão de Luís Neves quando esteve à frente da Polícia Judiciária. O Presidente da Assembleia não é dono nem do Parlamento, nem da Democracia. Pode ser vigilante desta, nunca seu dono.