sábado, abril 25, 2026

 Sábado, 25.

Aqui fica o meu protesto neste dia significativo para a democracia. Do que ouvi e vi, foi igual ao que aconteceu há dez, vinte, trinta, quarenta anos – uma ladainha de palavras vãs, de intenções, de vazio. 

História de Um Acidente de Saúde

Dia 21 p.p. fui acometido de um súbito mau-estar quando trabalhava no Chiado. Fechei o compuatador e disse a um senhor sentado perto de mim, que me sentia mal. Segundos depois fazia um desmaio seguido de vómitos que só vim a confrontar quando voltei a mim. Logo a equipa da livraria Fanc me rodeou e chamou o INEM que chegou cerca de 30 minutos depois. Amáveis, seguros, impecáveis mediram-me a tensão (6-5) e tudo fizeram para me acalmar e erguer do chão onde estive até à sua chegada. Num instante, chegámos ao hospital de S. José. Aqui tudo se complicou. Desde logo as exiguas salas onde me deixaram em maca, imagem de país pobre, salazarento, onde a dignidade humana não existe como vou provar. 

O médico jovem que me recebeu, ordenou a um rapaz africano de tranças Nagô que fosse comigo ao wc mudar de roupa porque a que trazia estava, de facto, imprópria. Daí a minutos abalou dizendo « volto já » - nunca mais regressou. Ali estive à sua espera um bom tempo, enquanto senhoras abriam e fechavam a porta, aflitas, por não o poderem utilizar. Foi quando optei por ir saber do meu destino num hospital que parecia saído da II Guerra Mundial : muita gente em espaços minúsculos, funcionários ronceiros (felizmente nem todos), sem capacidade para responder aos muitos utentes, macas encostadas às paredes de corredores onde o movimento era constante, poucas cadeiras para a avalanche de gente, doentes impacientes, alguns disseram-me ali aguardar há 12 horas, outros há oito, nove e um rapaz que me pareceu indiano, há tantas horas que optou por dormir na sala de espera coberto com um lençol, quatro cadeiras unidas por colchão para não falar na imundice dos sanitários. Asseguro-vos que não vi um ministro, um deputado, um autarca.

De senha na mão (nº 253, tarja amarela) fui pedir explicações a uma funcionária, tinham passado já três horas. Esta diz-me que tivesse paciência, voltasse para a sala e aguardasse ser chamado pelo médico. Fui. Fechei os olhos, desviei o pensamento de forma a afastar-me deste país, desta miséria moral, deste murmúrio de reivindicações e promessas, desta tristeza e pobreza de SNS, que tem servido para tudo, menos para os cidadãos que o pagam com língua de fora. E pensei num dos seus fundadores, António Arnaut, nas muitas cambalhotas que ele tem dado no caixão por cada doente abandonado, humilhado, silenciado, desprezado, maltratado. 

Pelas oito e tal da noite, levantei-me de novo e fui ao guiché pedir explicações para tamanha espera. Atrás do vidro, diante do computador, estava uma senhora muito produzida, de longos cabelos pretos de azeviche, que me respondeu : « Olhe, estou agora aqui a ver que o médico está a mexer na sua ficha, vá para a sala não tarda chamam-o. » Monstruosa mentira. Para lá retornei, e de lá saí exague, mais tarde, perdido, desiludido, humilhado, abandonado, triste pela inutilidade da democracia de um país que muito pouco tem feito pela nossa saúde – pilar fundamental da condição humana.  


Helder de Sousa

#atonadovento


c.c. Ministério da Saúde e

Procurador de Justiça. 


quinta-feira, abril 23, 2026

 Quinta, 23.

Estou vivo. Anteontem, julguei que tinha chegado a minha hora. Quando me sentei no pequeno café da Fnac, ao Chiado, pedi uma sande com fiambre e queijo e abanquei para duas horas de escrita. Enquanto comia o “almoço”, comecei a ter dificuldade em acabar, mas, obedecendo à Ordem franciscana, disse para mim mesmo que o bota-fora é pecado e fui até ao fim. Enquanto mastigava, ia teclando apondo palavra a palavra na página do computador. A dada altura, começo a sentir-me mal, o que chegava do cérebro à máquina não correspondia, a cabeça num delírio. Fecho o computador e toco no ombro de um senhor que estava perto: “Estou a sentir-me muito mal” – disse. O que se seguiu, não sei. Quando volto a mim, tenho uma roda de pessoas à minha volta, estou todo sujo do vómito que fiz quando desmaiei, com tonturas. Os seguranças do estabelecimento deitam-me no chão, de lado, e ali fico imobilizado à espera que o INEM chegue. Nada me parecia real, uma espécie de fantasia tinha tomado conta daquela gente, cada um com o seu prognóstico, um com um comprimido que me pôs debaixo da língua e foi objecto de critica pelos técnicos de saúde, no todo pessoas extremosas que tomaram conta de mim. Meia hora depois, chegou um casal de jovens que prontamente me assistiu, amáveis, amparando-me até à maca à entrada do edifício, eu que estava moribundo com 6-5 de tensão! Dentro da viatura, digo que não quero ir deitado, mas o jovem que me acompanhava “obrigou-me” a viajar naquela posição. Pela cidade fomos e em breve o abençoei, pois percorremo-la aos saltos até ao hospital de S. José. “As ruas de Lisboa, são buracos atrás de buracos.” Ali chegados, encostaram a maca a uma outra onde jazia um velhote que parecia abandonado à morte e ali ficámos os dois a magicar qual de nós tomava a dianteira para o fim. Ele saiu daí a pouco daquela divisão sórdida, exígua, pobre onde ficavam os que iam arribando. Quinze minutos depois, coube-me a mim a vez de ingressar numa outra sala, tão minúscula que só cabiam duas macas e estava um senhor (médico?) sentado numa cadeira baixa, um rapaz negro de longas tranças Nagô e um clínico em frente ao computador – não havia espaço para mais nada. O médico, vendo-me todo molhado e sujo do vomitado, disse ao rapaz que me acompanhasse ao wc para substituir a roupa por aquela azul usada nos hospitais. O rapaz, de porta fechada no wc, disse-me para me despir, respondi que só tirava a camisa, as calças seguiriam comigo mesmo sujas. Ele espantou-se e saiu com a informação “volto já”. Não voltou. Ali esperei uns vinte minutos, a porta a abrir-se de quando em vez por mulheres aflitas para os pipis urgentes. Voltei ao centro de todas as desgraças e murmúrios, isto é, à entrada dita das Urgências. Aí perguntei a um funcionário o que devia fazer, a senha de entrada na mão e o desespero a instalar-se. Ele, espreitando o computador, disse-me que aguardasse na sala de espera que seria chamado pelo meu nome. O espaço estava a abarrotar, mas um cavalheiro dos que quase já não há, levantou-se para me dar o lugar e eu ali fiquei a somar o tempo para a redenção dos meus pecados. Tinha entrado de maca às 14 horas, eram agora 15 horas e ali me encontrava a matutar no completo desastre que é o SNS. Havia de tudo: gente impaciente, velhos relhos, rapazes violentos, algazarra, idas e vindas às Informações, às máquinas de comes e bebes, suspiros impacientes, alguns estrangeiros, poucos negros, a maioria portugueses de gema que sabem na pele o que custa estar doente em Portugal. Naquelas divisões pequeníssimas, aglomeravam-se centenas de pessoas, cada qual com sua dor, seu tratamento, seu diagnóstico. Não vi um ministro, um deputado, um autarca. Pelas oito da noite, decidi, a senha na mão, perguntar nas Informações se estava perdido, se ainda existia nos ficheiros, que era feito de mim seis horas depois de ter entrado de maca. Uma mulher toda produzida, de longos cabelos negros de azeviche, consultou o computador e disparou: “Olhe, volte para a sala de espera porque o médico está neste momento a ver a sua ficha.” Aquela mentira decerto já pronta saída do caos, fez-me esperar até perto das nove da noite. Foi então que, caindo em mim, memorizei que estava em Portugal, que o SNS se tinha transformado num fosso de sofrimento, mentira, morte, fisga dos diferentes partidos, todos interessados em conluios, interesses ideológicos, financeiros, políticos, um biju de ouro que serve quantos almejam o poder e aí canonizam os seus egos do tamanho da sua ignorância, incompetência e farfalhice de toda a espécie. Quando fugi do hospital, encontrei a noite cerrada, as ruas desertas, e, pela primeira vez, desejei ter um quarto na cidade para descansar. Estava exausto, não tinha comido nem bebido nada depois do desastre. O motorista do táxi que me transportou à Gare do Oriente, insistiu comigo para que comesse qualquer coisa. Mas eu só me queria ver dentro do autocarro de regresso a casa. Com a protecção da divina Providência, um transporte aguardava-me. Entrei nele e atirei-me para o banco, esgotado. Viagem deslumbrante, o Tejo onde as luzes da cidade reflectiam, as sombras nas margens, o trabalhar do motor, o deslizar no asfalto, toda aquela imensidão de espaço aberto ante os meus olhos fascinados, o céu de estrelas cintilantes, o meu coração desfraldado numa furtiva lágrima de reconhecimento, apertado pelas emoções que tanto me dão vida, como me amortalham aos poucos, a existência jogada para trás das costas, a tristeza do mundo que me coube viver nesta fase, o meu país desfeito depois de tantas e tão profundas esperanças postas na democracia, hoje metamorfoseada num trambolho de interesse nenhum... E lembrar-me eu que a lei prevê para o meu caso (fita amarela) 60 minutos para exames. Esperei, ao todo, 8 horas largamente a passar!!!


segunda-feira, abril 20, 2026

 

Segunda, 20.
Pedro Sánchez vai pedir formalmente à UE que anule o acordo de associação com Israel. À Espanha junta-se a Eslovénia e Irlanda. Há muito que este acordo onde assentam as relações comerciais e financeiras com Israel, devia ter sido rasgado. Isto se a nossa querida União Europeia que tanto apregoa a moral em simultâneo com as ajudas a Netanyahu, tivesse vergonha e dignidade.  

         - O Papa está em Angola sempre acompanhado por um bando de multidão que o segue para todo o lado. Angola está no périplo por África – Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial – focado na paz e na concórdia entre os povos. O diálogo inter-religioso, não o furta a entradas de natureza política onde a exploração e a corrupção irrompem dos discursos e sermões. Leão XIV segue os passos de Francisco. 

         - Não há semana nenhuma que em qualquer parte do mundo não haja mortandade. Os motivos a maior parte das vezes não chegam a ser conhecidos porque o criminoso acaba morto pela polícia. Em França houve vários em escolas, nos EUA é quase normal haver ataques em centros comerciais e estabelecimentos de ensino, como ontem em Luisiana onde morreram oito crianças e o transgressor foi abatido pela polícia. Portugal também não escapa e ainda recentemente um rapaz matou a mãe sem qualquer ressentimento. Ou aqueloutros atentados a uma série de cientistas na América, entre os quais um português, que apareceram mortos sem razão aparente. Ou em Kiev há quatro dias, quando um homem sem cadastro abateu na rua seis pessoas. Este desvario, estou em querer, advém da situação mundial, directamente dos governantes sem humanidade, drogados pela riqueza, entronados pelo poder, ajeitando os ódios de estimação aos seus estados de alma onde não existe o mínimo de decência e compreensão do cargo que ocupam, humanidade e sagração da vida humana. 

         - Fortes dores nas costas. Resisto até onde posso aos medicamentos e o resultado foi uma noite infernal. Esta manhã, contrariado, tomei um Bem-u-Rom. Eu não devia queixar-me, pois levei toda a vida sem uma dor, a dormir como um gato feliz, sem o mínimo empecilho à vida plena. E ainda por cima, coxinho, coitadinho, a caminhar na originalidade que me conferia uma certa nobreza e o olhar compassivo que quase sempre escondia o desejo do envolvimento em fantasias secretas que aproveitei à exaustão... Portanto, caro de Sousa, não te queixes. 


domingo, abril 19, 2026

 Domingo, 19.

Que desordem reina no mundo! Desde que Trump chegou à Casa Branca que nunca mais houve descanso num vasto leque de nações, guerras instalaram-se, países foram invadidos, ninguém tem poder para o afastar. Governa pela força, sem inteligência, tacto, sabedoria, à merce das mentiras que brotam da sua boca ante a estupefacção dos jornalistas e do mundo inteiro. Há dias, anunciou que o Estreito de Ormuz ia reabrir sob o seu comando, ontem este voltou a fechar sob a autoridade do Irão que sempre negou o acordo por ele apregoado. De Washington ordenou ao feiticeiro Netanyahu que parasse imediatamente de bombardear o Líbano. Nos acordos que ninguém conhece, essa exigência estava impressa preto no branco. Estamos nisto. O mundo do capital e dos negócios cospe-lhe em cima, as segundas-feiras são um vómito ante a subida dos combustíveis.       

         - Nós por cá estamos serenos, democráticos, prosseguindo com os nossos ódios de estimação. O novo PS parece ignorar que quem nos (des)governou foi uma figura de estimação que anda perdida pelos salões de Bruxelas e por coincidência foi chefe do Governo, ainda por cima da segunda vez com maioria absoluta. Nem ele, nem o actual dirigente do partido, nem os outros dirigentes de outros partidos, todos com a boca cheia do 25 de Abril que aí vem, todos sem excepção, conseguiram trazer “ao nosso Povo” uma vida respeitável e uma saúde minimamente credível. Quando eu vejo as filas de gente simples, trabalhadora, honesta para um médico nos centros de saúde logo às quatro e meia da madrugada como tem acontecido no Cacém, não acredito num país governado por faladores, propagandistas, falsos democratas. Nunca se viu naquelas filas nenhum deputado, ministro ou autarca – eles aprendem cedo a coçar-se para dentro. 

          - “Este é o verdadeiro conto exemplar. Jesus Cristo é o clandestino da vida humana. Não damos por Ele, mas Ele anda sempre connosco.” Fr. Bento Domingues. 

         - A taralhoquice da idade surge quando menos se espera. Esta manhã, entrou pelo meu cérebro ao preparar o pequeno-almoço. Pus na cafeteira o saco de papel, despejei a água que devia descer, mas de café nem aroma. Notei então que havia feito tudo direito, menos o essencial - pôr o café moído no filtro respectivo. 


sexta-feira, abril 17, 2026

 Sexta, 17.

Mais uma vez a CGTP desarranjou a vida a milhares de portugueses, eles que se permitem fazê-lo com apenas um por cento de sindicalizados. Ainda por cima, naquela delícia de ter escolhido a sexta-feira com o grande fim de semana agarrado. Estão contra as alterações à lei laboral, como sempre estão contra tudo o que não nasça da inteligência do PCP e do amor ao “nosso povo”. Espero que a nova lei reveja o direito à greve que é de todos os direitos aquele que se transformou num abuso e na falta de respeito pelos milhares de trabalhadores que querem trabalhar. É muito fácil tudo exigir, quando se sabe que nunca serão eleitos para governar o país. 

         - A pouco e pouco, a democracia vai cedendo. Enquanto por todo o lado os financiamentos aos partidos são públicos e acessíveis a qualquer pessoa, entre nós há quem queira transformá-los em segredo de Estado. E desta vez, ao que parece, não é o senhor Ventura.

         - Eu já estou a fazer a minha parte. Aliás há muitos anos. Ando nos transportes públicos e desde que a taralhoquice de Trump começou, que tento não utilizar o carro dois dias por semana. O presidente da Agência Internacional de Energia, avisou que as reservas de jet fuel só dão para seis semanas. Muitos voos vão ser anulados e a actividade industrial severamente atingida. Tudo isto, devido ao desastre da trupe de Trump que, qual rei absoluto do mundo, se permite ocupar o Estreito de Ormuz com 10 mil tropas, não sei quantos aviões, torpedeiros, etc. Bem sei que o Irão e os seus dirigentes não são gente que se cheire, que o diga o casal Céline e Jacques recentemente libertado do horror das cadeias de Teerão, mas, se Trump fosse honesto, teria de avançar pela Rússia, China ou Coreia do Norte, como herói libertador do povo espezinhado. Para além de que para mim, como decerto para muita outra gente, não vejo que a bomba nuclear americana e daqueles países, seja menos destruidora do que aquela que os iranianos andavam a construir e têm o mesmo direito em possuir.   

         - Mudei de quarto. Desde a chegada do novo colchão que passei a dormir no meu quarto. Durmo é certo, mas com os sentidos no outro em frente. Fechei-me lá uns dois meses, mas foi como se reinventasse o sono, as sensações, os ruídos, os silêncios. Amputado desse mundo, não me encontro neste outro que desde a origem da casa foi o meu. Daí que esta noite não conseguindo adormecer com o pensamento no outro, levantei-me e mudei-me. A cama reconheceu-me, o quarto recebeu-me, os sons do silêncio que vinham de fora chegaram aos meus ouvidos como melodia vinda dos fundos da infância, e o sono desceu das alturas afagando-me docemente. 


quarta-feira, abril 15, 2026

 Quarta, 15.

Dos ignorantes governantes que servem Donald Trump, há um que se realça: J.D.Vance o seu vice-presidente. O homem que oportunamente se deslocou ao Vaticano, em 2025, para saudar o Papa Leão XIV, diz agora que sua santidade deve “ter cuidado quando fala de teologia e questões de moralidade.” Estes cretinos desbocados, a tudo se permitem. 

         - Li não sei onde que os cientistas estão capazes de reverter o sexo de qualquer pessoa. Fizeram a experiência com ratinhos mediante a inserção de uma mutação genética que incide numa região da actividade de um gene em particular, situado numa região do ADN que dá pelo nome de Enh13, que controla a funcionamento do gene Sox9. Daqui até ao desafio prepotente dos ditos machões para suspender o desejo de quem, não se sentindo bem na natureza com que nasceu, pretende mudar. Ou o ataque cerrado aos homossexuais que pela força vão ter que mudar de desejos por decreto ditatorial de uma qualquer aventesma, macho bem entendido, que decreta a masculinidade no seu reino. E lembrar-me eu que Hitler, não dispondo desta arma, pura e simplesmente, mandou assassinar todos homossexuais que pôde. Todavia, a realidade, era outra: nos quarteis – generais, capitães, altas patentes – reinava o regabofe com os mancebos, servindo-se da eugenia que tanto beneficiou Hitler no dito apuramento da raça. Seja como for, no cerne de tudo isto, está o ataque costumeiro à liberdade. 


terça-feira, abril 14, 2026

 Terça, 14.

Se o acordar se estendesse pelas manhãs e tardes, estava liquidado. Raros são os alvores dos dias que me consintam a alegria do despertar. Todas as catástrofes do mundo desaguam muito antes de abrir os olhos, uma teia de frustrações e desastres, medos e titubeias embrulham aqueles instantes que parecem uma eternidade. Levanto-me, hesitante, tateando o espaço e o tempo, à espera do que vem a seguir, perdido como me encontro à procura de me achar a mim mesmo. Quando abro as portadas e a natureza se estende com os primeiros raios de sol, os cantares da passarada, o caminho ao fundo onde não passa ninguém, mas de onde me chega o frémito de vida que me banha por inteiro e dura até ser noite, todos os fantasmas mergulham nas profundezas dos infernos e levanto a voz ao Criador num agradecimento ao dia resplandecente que tenho a graça de viver... 

         - Sim, foi estrondosa a vitória de Péter Magyar. Dos 106 círculos eleitorais na Hungria, 93 pertencem ao partido Tisza do primeiro-ministro eleito e uns modestos 13 ao Fidesz de Viktor Orbán. A União Europeia canta de contentamento porque vai poder desbloquear muitos milhões que o anterior governante travou e levou o país à miséria. Zelensky vai decerto entender-se melhor com a Hungria que deixou de andar a reboque de Putin. Mesmo assim, quanto a mim, é de realçar a atitude de Orbán ao aceitar a derrota e ao felicitar o seu sucessor. 

         - Fui à piscina não obstante a dor nas costas causada por trabalhos aqui. Nos chuveiros, vi um homem magro como uma tábua de passar a ferro, nu, de uns quarenta anos, careca embora peludo de corpo, com uma nuvem de cabelo que descia da zona occipital até meio das costas, personagem inquietante, lento de gestos, passeando pelos corredores naquele estado, e depois demorando-se horas a secar com o secador do estabelecimento, as franjas negras que lhe tocavam os rins. 

         - Assisti igualmente à chegada de uma gorda, gorda como não podia mais, aplaudida pelas companheiras que estavam na água às ordens de uma técnica ucraniana, naqueles exercícios ditos de hidroginástica, acompanhados com canções de Carlos Paião. Parei o meu exercício cheio de curiosidade de ver quantos litros de água saltavam para fora da piscina com a sua entrada triunfal. Mas a senhora desiludiu-me, com o corpo que construiu ao longo dos anos, necessitou de se apoiar no corrimão e nos braços de duas colegas. E logo me lembrou a Alice que frequenta a piscina em Caldas da rainha onde mora, quando me diz que pensa em mim ao chegar aos balneários e olha para as colegas gordas, de fartas mamas, rabos enormes, quando comento com ela o espectáculo de horror que tudo aquilo deve ser.