quarta-feira, setembro 02, 2026

Quarta, 2 de Setembro. 

Ontem fui de experiência à capital, depois de mais de um mês sem atravessar os lugares da minha juventude. Fui, naturalmente, de autocarro e admirei como se fosse a primeira vez o Tejo, Lisboa no recorte do horizonte, a luz limpa de uma manhã sem mácula. Queria saber até onde aguentava o meu pé cuja doçura dos olhares de mulheres feitas e raparigas airosas tanto cobiçam. Almocei no C.I. agora de preços alçados, um bacalhau à Gomes de Sá apetitoso e fiquei por um tempo a deliciar-me com a paisagem, os poucos clientes, o sururu que me envolvia. Lisboa, vista do alto, parecia queda, sonhadora, indiferente a quem a olha com sobranceria e saudade. Fiz de seguida algumas compras, li o Público diante de uma chávena de café, visitei a livraria e comecei a sentir dores advindas de muito caminhar. Disse “por hoje chega”. Regressei pelo mesmo modo, satisfeito por haver tentado a rotina dos dias, dividido entre o lugar onde nasci e o de adopção. 

         - A tragédia no Nepal-Tibete não pára de nos surpreender. Muitas equipas (enfim o país aceitou ajuda estrangeira) desafiam o imprevisto para tentar encontrar sobreviventes. Mas o número de mortos monta já a mais de mil e os desaparecidos a 4 mil. São impressionantes as imagens que nos chegam, túneis esmagados pelo peso da montanha, lama e resíduos, desolação e dor. 

         - O Ministro da Administração Interna, aproveitou uma missão de serviço à Madeira para responder, diante da tropa fardada e em sentinela, a André Ventura e a todos quantos o acusam de falcatruas e mentiras. Cobardia. Não é numa cerimónia oficial, que se esgrimem razões e se impõe o poder. 

         - Quando o meu orçamento fraqueja, faço como o Corregedor e digo ao Sr. José Manuel para não vir porque estou cheio de reuniões. Na próxima, invoco os muitos emails oficiais para despachar, como faz o sobrinho de Urbano Tavares Rodrigues que nunca lhe conheci uma ocupação. Que presunção!  

 

segunda-feira, agosto 31, 2026

 Segunda, 31.

Afinal de contas o que me retém aqui? Não é só o silêncio sagrado, nem o ar limpo que se respira, nem tão-pouco o isolamento, mas também e ainda as descobertas humanas que desaguam de quando em vez à minha porta. A última das quais o conhecimento do ser humano extraordinário que é o senhor José Manuel. Faz tudo para me agradar, para me proteger. Como hoje, não eram sete da manhã, quando chegou com o filho ao volante de uma camioneta e descarregou esta relíquia do século XIX que a foto mostra e eu cuidava votada à sucata. Depois de grandes constipações, carradas de óleo, carícias e falas mansas, eis que sua excelência decide mostrar o ar de sua graça. E aí funcionou toda a manhã, dividindo os troncos pesados e grandes tornando-os maneirinhos de forma a serem levados para as chaminés da casa. Tenho lenha para dar e vender. 


         - No sábado, ele apareceu com uma máquina sopradora e reconstituiu os arredores da casa ao espelho do tempo quando a Piedade se ocupava da limpeza exterior e interior. De súbito, uma ternura imensa por este refrigério de verdura e silêncio tomou conta de mim, devolvendo-me as emoções que experimentei quando aqui cheguei pela primeira vez com o João. Toda a beleza natural se exprimiu nas recordações e nos momentos felizes de outros tempos, quando a descoberta da paz que aqui dormia se me introduziu para nunca mais me largar. Para aonde quer que vá terminar os meus dias, nunca daqui sairei ou comigo levarei a doçura dos tempos que nesta planície me pertenceram. 

         - O que é este diário se não o registo do seu autor e a narrativa de um tempo que lhe coube viver. O verdadeiro quotidiano é preenchido até à minudência das circunstâncias que aconteceram embrulhadas dos efeitos sem importância aparentemente nenhuma.

         - E de repente, recomeçaram os ataques dos EUA ao Irão e deste às bases americanas na Jordânia e Emiratos Árabes. Cada nova ofensiva de Trump, é a constatação de que o Irão está preparado para uma guerra duradoura e bastante mais inteligente no confronto com a arrogância e o poder do senhor que pensa ser o todo poderoso que subordina o mundo inteiro.  

         - Luís Montenegro tem uma noção curiosa da democracia. Segundo ele, todos os disparates são consentidos porque é “a democracia a funcionar”. Quando o vejo aparecer no ecrã, desligo ou salto para outro canal – já não suporto tanta desfaçatez e hipocrisia. E lembrai-me eu que acreditei nele nos primeiros tempos, antes do aparecimento de uma vida de esquemas!


domingo, agosto 30, 2026

 Domingo, 30.

Os nossos políticos, na sucessão de alternância do poder, injectaram-nos de demagogias, mentiras, incompetência, partidarites, blá-blá-blá de que são mestres. A verdade, porém, é que em 50 anos de democracia, as vergonhas sociais estão expostas à verdade nua e crua. Vou chamar a esta página o senhor João Dias Ferreira, investigador do Centro de Estudos Internacionais do Iscte que escreveu outro dia no Público: “Os números são reveladores. Em 2023 apenas 1,7% dos portugueses com 65 ou mais anos recebiam cuidados de longa duração, face a uma média de 11,5% nos países da OCDE. Mais chocante ainda: apenas 34% desses cuidados eram prestados no domicílio, quando a média europeia é de 72% e em Espanha chega a 83%. Não é uma diferença – é um abismo”, conclui. 

         - Dona Fátima Campos Ferreira outro dia em entrevista ao grande senhor que é o ex-Ministro da Educação e do Planeamento Valente de Oliveira: “Os portugueses são ciclo-químicos.” 

         - Faleceu Narana Coissoró. Conheci-o há muitos anos apresentado pela minha amiga Maria Alice. Almocei com ele e a mulher, no restaurante que ambos possuíam a dois passos da sua residência, perto de Caldas da Rainha. A sua casa era um oásis pela sua vasta biblioteca e conversar com ele um prazer que apetecia eternizar. Ofereci-lhe, numa das vezes que o visitei, um livro sobre Goa de onde julgo ser originário. Era um verdadeiro gentleman não só no aspecto, sobretudo na vasta cultura. 


sábado, agosto 29, 2026

 Sábado, 29.

É típico da idade fechar as portas que ficaram entreabertas, isolar-se no silêncio pesado dos dias, esperar por alguém que nunca chega. Era nisto que pensava ontem quando, mexendo no telemóvel, verifiquei que o Robert desde a morte da Annie nunca mais telefonou a saber de mim e, pelo contrário, lá estavam registados os inúmeros telefonemas que eu lhe fiz, entretanto. Com isto quero dizer duas coisas: as amizades ou são recíprocas ou são coisa nenhuma. Daí que não me surpreenda o que aconteceu entre ele e o irmão que vive nos arredores de Estrasburgo. Da última vez que estive na cidade há três anos, Robert pediu-me que falasse com o irmão e tentasse marcar um encontro. Assim fiz, porém sem sucesso: ele alegou que Robert há mais de dez anos não lhe falava e não via qualquer interesse em o fazer agora. Penso que é o que se passa hoje. Isolado na grande casa de S. Denis, Robert alimenta-se da solidão que nunca havia provado, recusando qualquer gesto simples que o reaproxima das pessoas. Dito isto, quem crê nunca está só. 

         - Antes que me esqueça, quero registar, ipso facto, o que disse um senhor que foi surpreendido pela jornalista da SIC a atestar o depósito do carro e indignado com o preço da gasolina, disparou: “Quando o Estado vive acima das nossas possibilidades”, está tudo dito. Assino de cruz. 

         - Esteve cá o senhor José Manuel, dito espalha-brasas – e o universo inteiro uniu-se num imenso afecto.  

         - O número de vítimas mortais no Nepal aumentou para mais de 600 e 2426 pessoas estão desaparecidas. É incrível a prontidão da China a remediar os prejuízos e a retomar o quotidiano. O Nepal, orgulhosamente, dispensou ajudas estrangeiras, embora com menos recursos que a vizinha China. 

         - O taralhouco que dirige os EUA, com o seu marcador, rubricou a mudança de o Lago Ontário no Canadá, para Lago América. Muitos são os países, para além do visado, por exemplo, a Alemanha, que rejeitam a alteração. A pesporrência do homem ofende a dignidade de todos e da cada um. Que tipo foleiro e ordinário! Como é possível que uma tal criatura dirija o maior país do mundo! 

         - Retomei a leitura de Génesis (volume VI de Bíblia na tradução de Frederico Lourenço) e O século dos imbecis de Valter Hugo Mãe. 


sexta-feira, agosto 28, 2026

 Sexta, 28.

Ainda não retomei o ritmo, mas vou-me afeiçoando à vida tal qual a vivia quando os dias se abriam esfuziantes de pequenos nadas, restos de recordações, olhares perdidos na imensidão do passado, circuitos de luz, sombras rastejantes, silêncios espessos, horizontes suspensos que me abraçavam e me comoviam e me sideravam e me isolavam na eternidade do silêncio ondulante. Ir como ontem fui ao centro comercial Alegro, em Setúbal, é experimentar despir a capa do solitário que os deuses protegem e a vida desempena dos pensamentos aziagos ou abancar no Retiro Azul para alinhar estas linhas, é chamar os dias largos de antes da tragédia e encaixá-los por força da vontade inquebrantável de quem ama profundamente a vida. 

         - Não há ainda um número de vítimas da avalanche de gelo e água no Nepal. Há, contudo, um registo provisório de 400 mortos e 1500 desaparecidos. Julga-se que a maioria de uns e outros, são turistas. Todas estas catástrofes sucedem-se um pouco por todo o lado, como se a terra berrasse: “parem de me agredir”. 

         - Como eu previra quando há um ano se deu o aparatoso desastre no elevador da Glória, ainda não se conhece o desfecho de um acidente que matou 16 pessoas. Os conluios importam mais que a verdade. Foram, todavia, constituídos arguidos o ex-director de manutenção da Carris e o sócio-gerente da empresa externa que assegurava a manutenção dos elevadores de Lisboa. Bom, não sendo nada, é para a justiça deste pobre país, qualquer coisa. 


quinta-feira, agosto 27, 2026

 Quinta, 27.

Que disse o Dr. Octávio Simões para além da surpresa de tudo o que lhe contei? Não encontrou resposta para o efeito da Água das Pedras que eu confirmei no dia seguinte com o desastre narrado. Acrescentou, contudo, que é verdade ser ela bastante salinizada e daí a recusa do organismo. Quanto ao mais o motivo que me levou ao seu consultório, disse aperceber-se do meu estado psicológico resultante de cinco semanas de reclusão, inacção e sofrimento, e entusiasmou-me a tomar um medicamento específico para o cérebro, afirmando: “quero-o a escrever e a ler em breve”. O resto estava equilibrado. Tensão a 13,2 - 6,7. 

         - O país das polémicas que somos, umas a seguir a outras, foi mais uma vez inserida a escassez de dadores de sangue. Acontece que (julgo já aqui ter trazido o tema) em tempos fiz parte de um núcleo que pensava o modo mais eficaz de atrair benévolos para a causa. Nesse tempo, ainda os portugueses eram aliciados pela humana e cívica razão do próximo em necessidade dessa fonte de vida. Hoje, quase se desvaneceu o auxílio desinteressado do outro, um enorme egoísmo parece ter tomado as novas gerações, cada um por si e Deus por todos. Ora, já nessa altura, eu havia levantado a hipótese de cada dador ser agraciado pelo Estado com alívio de impostos - se bem alvitrei naquela então, mais o reforço hoje. 

         - Por todo o lado, crescem os desastres atribuídos ao aquecimento geral do Planeta. Desta vez, o que assistimos pelas televisões, é o horror na sua expressão mais sinistra na divisão entre o Nepal e o Tibete. De súbito, uma forte enxurrada que provocou um deslizamento de terras, desceu das montanhas a uma velocidade medonha, arrasando tudo o que encontrava e o número de vítimas é incalculável, os prejuízos medonhos. Há centenas de turistas e nepaleses mortos ou desaparecidos. Parece haver pontos onde os sedimentos atingiram 1,5 metros de espessura; as terras abruptas com desníveis superiores a três mil metros.  Horror! Horror! 

         - O Couto, meu fiel leitor, esteve privado deste alinhamento de palavras quotidianas por complicação e troca do seu computador. Telefonou ontem à noite e estivemos à conversa por quase meia-hora. Querido amigo de longa data, grande afecto tenho por ele. Ele não imagina o conforto (quando do desmaio foi igual) que me trouxe, movido pela fraternidade dos anos e aquele íntimo olhar que pousa no sítio certo onde as dores se escondem ou disfarçam num breve abraço de ternura.  

         - Por cá o Outono empurrou para o lado o Verão. Ontem e anteontem choveu se Deus a dava. Uma bênção para estas terras e árvores que tanta sede tinham devido a eu não puder tratá-las. Os meus sobrinhos condoeram-se e por pouco não as embeberam; depois veio o calor sufocante e metia dó escutar a aflição de cada folha, tronco ou braço implorando uma gota de água.


quarta-feira, agosto 26, 2026

 Quarta, 26.

O jogo favorito dos nossos políticos é o ping-pong. Eu não conheço ou não me dou conta que um tal desporto seja praticado tão assiduamente noutro país europeu. No centro do campeonato, já se apresentou várias vezes a Segurança Social e as reformas. Voltou agora com o PSD quando já esteve com o PS e rodou sempre que necessário, ora para um, ora para outro, meter medo aos velhinhos, coitadinhos, já pobrezinhos por destino e condição. Todavia, nunca li nas diferentes alterações ao computo das pensões, nada que restabelecesse o escândalo dos que auferem várias reformas, por morte do seu cônjuge, por acumulação de cargos e acabam velhos ricaços enquanto a seu lado milhares e milhares de seres humanos vivem o resto dos seus dias cavando com as unhas dos pés e mãos a sepultura. A única constatação que se tira, é que debaixo da terra somos todos iguais – espécie de vingança do destino, igualar todos numa mesma língua de chão. 

         - Quando escrevo (não falo do romance, embora ele seja o centro dos meus pensamentos), é como se a vida voltasse em força a correr nas minhas veias. Vem do fundo de mim um ímpeto de graça, uma hossana que se repercute e me remete para o centro de mim, uma força adormecida que julgava abatida para sempre. As palavras reencontram-se na arena da página em branco e são em si a ululação a que todo o meu ser se irmana na conjugação dos verbos viver e ser. 

         - A ver vamos que reacções terá o mundo civilizado à última investida prepotente de Donald Trump na rixa com o Irão. O senhor todo poderoso, que encara o mundo como se fosse o seu campo de batalha, se apropria dele pela força como se estivesse no tempo das conquistas feudais, não tem a noção do ridículo na forma como expõe e usa um grande país com uma democracia archi estabilizada. 

         - Vou fazendo a vida prática. Ontem, fui ao tanque tecnológico lavar o cobertor de papa que durante anos serviu de tapete no meu quarto e de caminho efectuar pequenas compras em falta na cozinha. Conduzir já não me custa, embora o pé maroto esteja um pouco inchado. Vejamos que me diz esta tarde o Dr. Octávio Simões.