quinta-feira, março 26, 2026

 Quinta, 26.

Francis continua na arca frigorífica do hospital. Os três primeiros dias são gratuitos, depois alguém terá de pagar. Se tal não acontecer, será despejado na vala comum. Esta é a regra dos tempos modernos, a norma das democracias, da Igreja e dos negócios. Há, todavia, um grande amigo que vem dos tempos da sua adolescência e que se está a ocupar desta horrível situação. Eu lancei achas para a fogueira ao dizer o que sei sobre a sua riqueza e a sua relação amorosa com o “petit oiseau”, um rapaz que se formou há dois anos em advocacia e foi convidado por uma grande empresa do Barein onde vive e foi prevenido da morte do companheiro. Contra sua vontade, o rapaz não pode despedir-se do amigo, impedido pela guerra no Médio Oriente, onde os aviões não descolam como antes. Eu informei que há dois anos o Francis comunicou-me que tinha vendido o apartamento sobranceiro ao canal Saint-Martin onde vivia ao “petit oiseau”, e por proposta deste, ambos iriam habitar um outro no centro de Paris que o namorado havia adquirido há pouco tempo. Também disse que sei de uma casa (dizem-me que está em ruínas) perto de Bruxelas, de outra a Norte de Paris, da sua colecção de arte africana que os americanos cortejavam, de obras de arte e dos direitos de autor de toda a obra cinematográfica de Marcel Carné com quem viveu até à sua morte, em 1996, e lhe rendia somas simpáticas anuais. Tudo isto, o seu amigo sabia e o seu trabalho centra-se agora em visitar notários de modo a certificar-se quem é o seu ou seus herdeiros. Que história, hein! Que infelicidade para o pobre Francis, homem de uma cultura infindável (ao ponto de possuir um camarote ininterrupto oferecido pela Comédie Française e onde me levou uma e outra vez), generoso, divertido, amante da liberdade e cultor da amizade. 

Francis comigo na Comédie Française há três anos. 

         - Nas bocas do mundo invejoso e dos pobres, pobrezinhos que inundam este miserável país de futebol e festivais, está Mário Centeno, dito de uma maneira mais assertiva, o Portugal imperial dos funcionários públicos de alto coturno. Álvaro Santos Pereira, o novo governador do Banco de Portugal, fala do acordo que fez com o seu antecessor, e esclarece "estamos a falar em poupanças que chegam a 2,2 milhões de euros se ele ficasse, como tinha direito, até aos 70 anos." O que me acode dizer é que se trata de um roubo aos pobres, aos reformados, aos milhões de portugueses que são a mola essencial da actividade económica, aos pequenos e médios empresários, que sobrevivem à rasca, enquanto estas nobres e aristocratas criaturas vivem como príncipes e ainda usufruem de carro, motorista, reformas para cima de 10 mil euros, fundos de pensões, assistência médica e não sei mais o quê porque a revolta já me tolda o cérebro. Dizem de cabeça levantada que “têm direito” como se este “direito” estivesse inscrito na Constituição e não fosse um escândalo num país pobre e aqui se ganhasse tanto como em França, Inglaterra e por aí fora. Abro um parêntesis para o orçamento da Presidência da República que é mais elevado que o da casa real espanhola! Sirvo-me de Mário Centeno porque é ele que está na berlinda. Nada tenho contra a sua pessoa que sempre considerei um técnico eficaz, competente e lúcido.  

         - O mesmo não direi de Isaltino Morais, o Presidente da Câmara de Oeiras. O homem gasta em refeições para si e seus apaniguados, a módica quantia de 150 mil euros em almoços, lanches e jantares, tabaco incluído). Em que país vivemos! Somos pobres, mas a classe política é rica mesmo riquíssima. Daí a corrida aos cargos públicos. Qualquer bicho careto, com ambições conhece o percurso: fazer-se sócio de um partido político, bajular os seus dirigentes, ser humilde e patriota, conseguir um lugar de comentador na TV e esperar pacientemente que o cargo se projecte na figura. Sai figurão? Decerto. 

         - Dia animado. Andou aí o Sr. José Manuel, que por sua vez chamou o empregado dos Venâncios que se aproximou com o tractor e daí a meia hora o patrão. Foi uma reinação de gente que se conhece há muitos anos, trabalhadores da Adega Venâncio da Quinta do Anjo. A parte do desastre que deita para o lado meu vizinho ficou pronta e desimpedida. Na próxima vez, vou-me ocupar do muito que sobrou à minha porta. 


quarta-feira, março 25, 2026

 Quarta, 25.

Neste mundo governado por doidos varridos, o Irão respondeu ontem a Trump que insiste estar a negociar com o Exército iraniano: "Não chames acordo à tua derrota. A era das tuas promessas chegou ao fim"  

         - A propósito, ontem na SIC, o senhor Rogeiro, que sabe tudo sobre tudo inclusive sobre armas militares, não vai ter nunca mais por espectador este que aqui escreve. Prefiro mil vezes Milhazes. Parece mais honesto e independente. O homem jamais me convenceu e é para mim como aquele humorista que no mesmo canal, embora não dizendo ao que vem, está tudo estampado nas suas crónicas. Rogeiro de tão fanático dos EUA, passa a ideia de ter negócios com os gananciosos e incultos que se apoderaram do país e desorganizaram o mundo. Brurrrrrr, aquela sapiência deito-a ao lixo.

         - De resto, como qualquer pessoa equilibrada e humana, elejo os três assassinos que fomentam a morte e a destruição por todo o Planeta: Putin, Netanyahu e Trump. Não há nenhuma razão credível para tão horríveis crimes. No que toca a Trump, parece-me mesmo que o homem sofre de uma qualquer doença mental, não só pela obsessão egoísta de ficar na história, como por se ter deixado manipular pelo corrupto primeiro-ministro israelita 

         - Aconteceu mais um parto em ambulância. Se me fosse possível dar um conselho à Ministra da Saúde, seria este: crie salas de parto ambulantes. Assim como assim, era mais barato e os bebés teriam desde logo o prazer de serem embalados em viagem. 

         - Num só dia tive dois quiproquós com africanos. Só não acontece a quem, como as meninas do BE e outros sobas que utilizam o carro do Estado pago por todos nós, não viajam nos transportes públicos. O primeiro com um rapaz de uns vinte anos, camisola amarela, uma agitação inquietante, que me ordenou me levantasse de um lugar prioritário; o segundo no supermercado, um homem de uns quarenta anos, a tossir que nem um desalmado sem protecção. O primeiro de uma arrogância imperial; o segundo ouviu o pedido que lhe fiz para que pusesse o braço ao tossir e pediu-me desculpa. “Tem razão, não me lembrei.” Fui direito a ele e pedi-lhe eu desculpa, acrescentando que os bons gestos favorecem toda a gente. Que nobreza a daquele negro! Simpatizei intimamente com ele. 

         - Contudo, o problema dos africanos é este: os que aqui nasceram e saem de manhã rumo à Europa para estudar ou trabalhar, regressam a África ao fim do dia. É esta salada de cultura que deve ser difícil de assimilar, porque a mentalidade e a civilização são diferentes e muitas vezes antagónicas. Como costumo dizer, não é a cor da pele que me desgosta, é a falta de educação, de cultura, de adaptação a uma realidade onde escolheram viver. Todavia, como se viu, não convém generalizar.

         - Alinho estas linhas na Fnac. Ontem não abandonei o meu convento inebriado pelo dia senão para ir nadar. As ideias floriram, os falhanços eclipsaram-se, as certezas suplantaram as dúvidas. De facto, diante do campo tomado pela força que o revigora, as árvores que se vestem quotidianamente de um verde frágil, sob o céu de um azul pálido, o silêncio misturado com o todo numa harmonia que parece etérea, eu, minúsculo ser no meio deste cosmo agigantado pela protecção divina e a sombra em fulgurações que caía do Céu, perguntei-me se seria merecedor de tamanha graça.


terça-feira, março 24, 2026

Terça, 24.

Anne dizia ao irmão no dia 17 de Novembro de 1958: “J ´ai à peut près autant de vie intérieure qu´une souris.” Anotação de Julien: “Estas palavras pronunciadas com profunda humildade como eu as invejo.” E remata o dia assim: “Il est 7 heures du soir.” É nesta simples frase que fecha o dia que o mistério se revela. Reside nela toda a beleza, o deslumbre da finitude, que contêm em si a dimensão secreta por desvendar. A noite cai, mas outra noite se levanta até ser de novo dia. Há uma espécie de paralisação do tempo, um fosso abismal que sustem o vislumbre, a queda, a tristeza, o súbito enigma que nos escapa e cresce diante dos nossos olhos cegos pela pulcritude da vida. 

         - Voltei à natação. De mansinho devido ao tempo de inação. Dia absolutamente deslumbrante. E sob todos os aspectos, pois qualquer coisa de hossana se levantou dos despojos onde estive nestes últimos tempos. Houve como que um impulso, um puxar para cima, que me alcandorou de súbito ao patamar onde o tempo e os anos me haviam despojado. 

 

segunda-feira, março 23, 2026

Segunda, 23.

A vida, isto é, a morte surpreende-nos (no dizer da Bíblia) como um ladrão. Passei mais de um mês a tentar falar com o Francis sem conseguir. Sabia (por ele) que dera entrada no mesmo hospital onde faleceu Annie e da cama do mesmo após amputação de um pé, falámos algumas vezes ao telefone. Parecia melhor, dizia-me, inclusive, que se estava a adaptar bem à prótese. Seguiu-se um longo silêncio e eu preocupado, falei ao Robert pedindo-lhe que o procurasse. Assim aconteceu. Foi achá-lo, engolindo as recordações da estada recente da mulher na mesma unidade hospitalar. Soube então que recusara o telemóvel e, dizia-me Robert, não o tinha achado nada bem. Anteontem, telefona-me o meu amigo, a dar-me a notícia da sua morte. Mais: “il avait de grosses daites, il pourrait être à la fosse commune!” Retive a respiração ao ouvir estas terríveis palavras, uma tristeza imensa tomou conta de mim. Minutos depois, refeito, liguei ao Robert pedindo-lhe que telefonasse à Câmara de Paris, à de Saint-Denis, a este e àquele que eu sabia serem seus amigos para que lhe arranjassem uma morte digna. Francis Von Overbeque que havia sido secretário de Charles De Gaulle e conhecia meio mundo, não devia morrer daquele modo, só, sem uma alma que viesse em seu auxílio e ainda por cima atirado para a vala comum. Uma vez ele mostrou-me a sua agenda e deixou-me babaca. Conhecia meio mundo, reis, princesas, chefes de Estado, possuía os seus números de telefone e moradas, e era convidado pela Rainha de Inglaterra, Isabel II, para o jantar anual no Palácio de Buckingham. Afinal, ele como o filho de Thomas Mann, Klaus que se dava com um mundo vasto de gente, acabou encontrado morto sem uma única pessoa ao seu lado, no Sul de França. 

         - Depois de muito matutar, encontrei a razão para este desassossego íntimo: a entrada na Primavera. Toda a minha vida sofri com uma estação que devia ser para mim e para todos nós, uma espécie de aleluia, de graça e explosão de vida. Todavia, a minha sensibilidade, não suporta a chegada desta donzela irrequieta que distribui o que tem e o que não tem. 

         - Trump diz que tem tido conversas produtivas com o Irão, este apressa-se a negar qualquer contacto. Eis o mundo maluco em que vivemos. 

         - A estratégia da Fesinap é sempre a mesma e está traçada há muito a papel químico: convocar greves. Assim, alto e bom som, o seu secretário-geral, veio anunciar a adesão de 80% sobretudo nos sectores da saúde e educação. É nisto que estamos. A guerra que cerca a Europa, não nos incomoda. Viva o futebol, as greves, o fado e a gritaria dos concertos que se anunciam. 


domingo, março 22, 2026

Domingo, 22.

Outro dia, no encontro com o Filipe em Lisboa, descendo o Chiado, não sei a que propósito, falou-se dos jovens de hoje. Atrevido como sou, logo disparei que a malta “só lá vai com quatro cervejas” e acrescentei “é o que ouço dizer às feministas”. Na sequência desta constatação, não sei porque carga de água, o Filipe disse à colega que o acompanhava: “Este senhor, foi o meu primeiro director”, estupefacção dela no olhar incrédulo que me devolveu. 

         - Sousa Tavares no Expresso: “Trump é incrivelmente inculto, não sei se terá lido um livro sem ser de autoajuda e é altamente ignorante” O que é que se espera de um especulador imobiliário?! 

         - Passa de 80 por cento o número de portugueses descontentes com o Governo. Eu sou um deles. A poupo e pouco deixei de confiar numa pessoa que arrasta consigo todo um fadário de esquemas, de alguma incompetência e ziguezagues sem fim. 

         - Ontem almocei com o João. Não é meu hábito ir a Lisboa ao sábado, mas achei-o muito desmoralizado e fui levar-lhe um pouco de conforto. O homem detesta estar doente, e se lhe digo do meu espanto com a frequência com que adoece, ouço invariavelmente a mesma resposta: “Mas eu há anos que não estou doente.” 

         - Passei vários meses de um sono de bebé Nestlé. Chegava a dormir dez horas seguidas e a cama era para mim o maior e mais eficiente antídoto para tudo. Agora, há coisa de uma semana, sem saber porquê, um volte-face. Se tomo uma porcaria dita natural, durmo entre os lençóis e por todo o lado. Ando bêbado o dia inteiro, eu que não bebo uma gota de vinho há anos.


sexta-feira, março 20, 2026

 Sexta, 20.

Começo a pensar que não sou estupido de todo. Ontem, embalado pela chuva, cheio de paciência, consegui realizar uma série de peripécias que este novo computador exigia. Fui tacteando como uma criança que aprende os primeiros passos e ao fim de mais de uma hora, tinha reconstituído tudo aquilo que fazia falta ao meu trabalho diário. Ufa! De futuro, não peças ajuda, arrisca e verás todo o potencial de recursos que existe em ti. 

         - Ainda bem que temos de volta à TSF um cronista de excepção: Fernando Alves. Na sua crónica de hoje, ei-lo oportuno a chamar os bois pelos seus nomes e a orientar o pensamento crítico para o lugar onde ele devia estar inteiro: o Parlamento. Este retrato do todo: “Deixai correr o olhar pelas bancadas. Ei-los, impantes, o cabelo engomado mais do que penteado, a farda oficial de gato pingado muito assertoada. Não há um assessor que os despenteie? Não há um repórter mais atrevido que, na roda mediática, lhes peça, inesperadamente, o título do romance que lhes sacode os dias?” Mais adiante: “Ao longo da vida sempre cuidei de orientar o sentido do meu voto no favorecimento de um pressuposto: não confio politicamente em quem não estime em voz alta a língua portuguesa ou em quem me possa transmitir a suspeita de um desdém ou de um desapego pelos livros.” Para concluir: “O que me fez puxar este fio amargo? Uma entrevista de José Carlos Vasconcelos à jornalista Filipa Lino no excelente suplemento de fim de semana do Jornal de Negócios. A conversa percorre a longa vida de um lutador sereno, "poeta na clandestinidade" como se designa, que defendeu presos políticos durante a ditadura, foi deputado e dirigiu durante 45 anos o desaparecido Jornal de Letras. E convoca a memória das lutas e dos amigos, os dias de Coimbra, os grandes combates da democracia.” Acrescento como nota de simpatia, que ainda guardo as folhas que José Carlos Vasconcelos me enviou com dois ou três poemas para a Rádio Universidade, dirigidos ao meu programa Nova Musa

         - Alinho estas palavras no pequeno café da Fnac. Vou deixar que a minha mente se estenda até ao horizonte de livros, distendo as pernas, assim ficarei até sentir o cérebro voar sobre o infinito espaço de alheamento e beleza, ao encontro da galáxia invisível do meu ser. 


quinta-feira, março 19, 2026

Quinta, 19.

Quando descia o Chiado, encontrei o Filipe como sempre surpreendente na forma de vestir e ser. Estava acompanhado por uma colega do gabinete de informação e imagem da Câmara de Lisboa onde trabalha. Disse-me que tem vivido num desassossego devido à Judiciária que irrompeu pelo edifício em busca de provas de mais um cambalacho de milhares levado a cabo pelo secretário-geral da autarquia, um tipo do CDS e mais três funcionários, todos da área das iluminações natalícias, que embolsaram milhares em contratos sem concurso. É nisto que estamos há pelo menos duas décadas. Políticos, autarcas, gestores públicos e privados, funcionários administrativos, enfim, este escol de gente sem ambição nem honestidade, dá aos tribunais e judiciária um trabalhão a mais que nem aluvião de vadios, ladrões e salteadores de casas, dariam. À sua conta o número de funcionários da justiça quintuplicou. Só para o gatuno José Sócrates, contem quantos advogados foram até hoje precisos. Assim, é certo e sabido, que ele vai ser absolvido pela caducidade dos prazos – e mantém bem aferrolhados os milhões dos nossos impostos. 

         - Ontem, deu-me para ir almoçar pacatamente ao restaurante do alto do Corte Inglês. Não é tanto a refeição que me apaixona, mas aquele estar ausente, o olhar perdido nos comensais devoradores e conversadores, aquele pequeno e modesto mundo de gente que toma alguma importância quando se senta à mesa e o empregado fardado se aproxima para saber o que escolhem suas excelências do menu que ele lhes estende. É como se ingressasse num universo outro, onde figuras de negro vestidas fossem sombras voláteis onde as moscas teriam medo de pousar. O brouhaha que varre o espaço, hipnotiza, anestesia os sentidos, leva-me a sobrevoar com o olhar a teia de gente que parece feliz tocada pelo álcool e pelos prazeres da mesa, da importância que a importância confere a quem dela nunca se afasta mesmo quando pela idade, a solidão da velhice, o desconforto da saúde e o abandono dos mais chegados alvejados por outras fantasias que em catadupa a sociedade lhes oferece. Ao fundo, junto à grande vidraça que dá para a cidade submersa no vazio das horas, estava uma senhora recolhida em si, que mastigava sem pressa, o olhar perdido algures no centro do seu mundo misterioso e digno, espécie de lugar povoado dos pensamentos que o tempo deixou para trás e naquele momento se apresentavam para o derradeiro aceno, antes de o tule de sombras cobrir num vislumbre de realidade ou de eterna recordação o passado, o presente e o futuro. Ela, só, carregava consigo o destino da sala inteira, autoridade que o tempo consagra a quem se atreve a atravessá-lo hirto, sobranceiro, senhor dos dias contados pelo filamento frágil das horas. A eternidade é um sítio algures onde se perdura em errância. 

         - Tendo terminado o Diário de Green há dias, nem por isso o largo disposto na mesa de apoio junto à lareira. Abro ao acaso uma página, folheio o espesso livro e observo as minhas anotações, os meus sublinhados e surpreendo-me sempre com o que leio. Julien foi à sua maneira um místico, um homem dilacerado pelos prazeres carnais, em luta constante entre o divino e a sua condição humana frágil e comovente. Em 15 de Agosto de 1958 ele está de férias na Áustria com o seu amor Robert e a irmã Anne. Acorda a meio da noite sacudido por uma voz envolta numa luz que ordena faça as suas orações. Ele responde: “À cette heure, Seigneur? – Oui, je le veux, il faut obèir.” São inúmeras as passagens que o Senhor intervém na vida do escritor e que ele não hesita em as narrar.  

         - Dia de uma tristeza infinda, sombrio, cinzento, a chuva ora forte, ora miúda a mistura com o frio, salpicando as horas que pareciam incomensuráveis. As árvores agitaram-se por favor, em sintonia com o resto, o todo enfiado numa massa mole, adstringente. Os pingos que batiam nas vidraças, pareciam toques de salteador precavido; a luz coada pelas nuvens chegava envolta num segredo de baixo teor de certeza. Tudo aqui mergulhara num silêncio espesso, ninguém passou no caminho que atravessa o campo solitário. Mergulhado na escrita e na leitura, enchi as horas no remanso eterno de quem desconfia do que se passa fora de porta. 

         - Sonho já com o autocarro amarelo. Felizmente as bombas dos dois desmiolados que semeiam a morte e a desordem, a miséria e a incerteza, não furam o silêncio religioso que aqui se alonga. Atravessar o rio, olhá-lo com os olhos recuados da alma, remoer pensamentos, chamar ao instante amigos e momentos de felicidade, todo um mundo de recordações que a viagem me proporciona antes de alcançar Lisboa e ter escondido no fundo do Tejo a presença dos eternos ausentes.