sexta-feira, outubro 02, 2026

 Sexta, 2.

Ontem, depois de ter posto on-line o que me ocorreu, subi para tomar um duche. No quarto tenho um pequeno aparelho que está sempre conectado com a TSF. Eis se não quando, uma voz feminina, firme, incisiva que fala do que eu tinha escrito – a comentadora Margarida Davin. Que disse ela que me honrou por pensar como eu e dando-me a satisfação de não ser nenhum chico esperto original. Disse a jornalista: "É, no mínimo, bizarro que um primeiro-ministro, um chefe de Governo, perca o seu tempo a tentar interceder numa questão que poderá ser muito importante para quem gosta muito de futebol e para quem segue a seleção, mas que, para lhe chamarmos crise, só com muita boa vontade, porque, efetivamente, crise é aquilo que se vive quando não se tem acesso à habitação, quando não se tem acesso à saúde, quando há cada vez mais dificuldades no acesso à educação”, acrescentando: "só pode ser considerada normal num país em que, efetivamente, o futebol transforma-se num ativo político". E ao finalizar: "No gabinete do primeiro-ministro, já há muito tempo que se percebeu, até através das publicações nas redes sociais, que o futebol rende e que torna o primeiro-ministro alguém popular e simpático (...) preferia que Luís Montenegro gastasse energia noutros problemas: Isso, sim, são crises, quando tentamos fazer face ao custo de vida e cada vez o mês é mais longo do que o salário. Isto são as verdadeiras crises nas quais é suposto um Governo se concentrar, nas quais é suposto um primeiro-ministro gastar todas as suas energias e não propriamente acorrer a um pequeno drama na seleção, que é muito importante, lá está, para a Federação, para a Seleção e para todos os adeptos, mas que está muito longe de constituir uma crise nacional." Enfim. não estou. 

         - Cedendo aos apelos do João, fui hoje à Brasileira e encontrei-me com o Paulo Santos, Alexandre, Virgílio. Bons momentos, nada de politiquice, apenas a vida a estender-se ao correr da conversa. Recusei ir almoçar com eles. 

         - Paulo Santos, lê-me um pequeno fragmento do que enviou, em francês, para o editor. No livro ele decidiu citar-me numa nota que acima escrevi sobre a Saudade. A eternidade está-me garantida. Vergílio Ferreira cita-me no seu Diário, agora o Paulo eterniza-me no seu livro sobre Lisboa. 


quinta-feira, outubro 01, 2026

 Quinta, 1 de Outubro.

O país parece um território de moribundos a carpir desgostos de séculos. Tudo porque um tipo arrogante, convencido, deselegante decidiu deixar os campos de futebol, tomar o seu jacto particular e regressar ao leito materno. Fica-me de tudo isto, a personalidade forte do homem que, sem o sacudir, pô-lo a andar. O primeiro-ministro de Portugal, telefonou às personagens a tentar remediar a pieguice do dito “maior jogador do mundo”, mas não me lembro do ver acercar-se dos que precisam de um lar, saúde, educação e uma vida digna. Que pobreza! Que ridículo! Que imagem de país do terceiro mundo!  

         - A habitação como tanta, tanta coisa não foi sendo resolvida ao longo de 50 anos de democracia, ao ponto de tantos seres humanos, dignos, trabalhadores, honestos e activos não terem uma casa para morar e, alguns, nem ganharem para um mísero quarto com uma cama. Na origem desta desgraça, está uma tal Assunção Cristas, decerto ela e os seus com apartamentos a necessitar de impulsos financeiros, que lançara a desordem, atirara para a rua velhos e novos, impulsionara o aumento desnorteado dos alugueres com ainda hoje apelidada de “lei Cristas”. A criatura, como ministra, era um desastre, uma espécie de pacóvia deslumbrada, que soprava horrorosos sermões que nunca me convenceram e só alimentaram a lei do mais forte, fosse ele governante ou fundo de investimento imobiliário. De seguida, veio António Costa e o seu amor aos pobrezinhos, aos deserdados da sorte, que nunca cuidou do direito à habitação plasmado na Constituição e deixou proliferar a moda AL prontamente apanhada pelos gananciosos de riqueza fácil e nenhum trabalho. Em desespero, milhares de jovens saíram à rua. Foi quando aquele que se governa junto dos corruptos em Bruxelas, acordou da longa letargia do poder e olhou, ainda que timidamente, para as novas gerações que dormiam ao relento ou em tendas nas ruas. Pobre país que tão insignificantes políticos possui comparado com a riqueza de povo digno e humilde que possui. 

         - Grande tristeza o falecimento da Piedade. Só não me derrotou, porque há mais de dois anos ela tinha deixado de cuidar desta casa e do seu residente. Grande amiga que a Annie era, quando cá vinha trazia sempre uma lembrança para a “que tão bem trata de ti”. Foram mais de trinta e cinco anos de amizade e respeito mútuos. Repousa em paz terna amiga, que Deus te compense pelo muito que sofrestes. 


quarta-feira, setembro 30, 2026

 Quarta, 30.

Eu sou dos que têm simpatia pelo povo espanhol. Ao contrário dos que dizem ser eu mais pró-francês, a verdade é que o país onde gostaria de viver era em Espanha. O modo de ser, de viver, a personalidade vincada do povo, o seu apego às tradições, o estar-se nas tintas para a moda americana ou outra, a sua atenção ao que colectivamente é importante, tudo isso mais o esplendor das cidades, do movimento das ruas e praças, da arquitectura e dos museus, fecham um entendimento humanista que me agrada especialmente. Veja-se o que aconteceu com a senhora Maricarmen, expulsa de sua casa aos oitenta e sete anos, com problemas motores, por um fundo de investimento imobiliário, para um hospital de Madrid. Logo se acenderam as fogueiras da revolta e as Portas do Sol onde eu estive com a minha saudosa Annie, foram inundadas de tendas e revolta. Não só ali, como em outras cidades, numa força tal que obrigou Pedro Sanchéz a convocar uma reunião do Governo para discutir o assunto e prontamente a amável senhora tornou ao seu lar sem aumento de renda. Não distante, em Paris, outras reivindicações aconteciam, mas os franceses, pouco civilizados, incendiaram o mobiliário urbano que encontraram no caminho. Às mulheres espanholas, bastou-lhes os gritos de revolta, a ocupação do espaço público e a razão que nunca esmorece quando do nosso lado temos a força das convicções e do direito sobre estas colunas de capitalistas que, apoiados em Trump, querem-nos reduzir a seus escravos. Se algum mérito tem a democracia, é este de em conjunto gritarmos por todo o ser humano frágil e com ele reforçarmos a democracia e o valor colectivo e humanista.  

         - De resto, a chungaria está por todo o lado. Lisboa é um óptimo retrato e quando viajo de metro ou passeio pelas ruas, tenho tendência a fechar-me em mim de modo a isolar-me do que vejo e ouço. O futebol, a grande alienação dos povos básicos, é disso um exemplo triste e miserável. Outro dia, à minha volta no metro, um punhado de homens gordos, maltrapilhos, gargalhando muito alto, a cerveja de boca em boca, deixavam uma impressão triste e moribunda à luz de séculos civilizacionais. Os energúmenos, vim a saber mais tarde, vieram do País de Gales assistir ao jogo com Portugal. Brrrrrr. 

         - Fez-se luz sobre o caso das gémeas brasileiras que vieram do Brasil a Portugal, empurradas pela rede de influências que persistentemente se mantém como herança do fascismo, usufruir de um tratamento que nos custou mais de dois milhões de euros, enquanto outras crianças portuguesas estavam tristemente à espera do mesmo medicamento. Quem aparece à cabeça desta miserável história, é o filho de Marcelo Rebelo de Sousa, o então chefe de Estado, secretário-geral de Estado, o socialista António Lacerda e Luís Pinheiro ao tempo director-clínico do Santa Maria. O Chega e mais uns quantos, tinham o alvo assestado em Marcelo, mas este, desde o começo, que se havia distanciado do filho deixando até de lhe falar por ter utilizado o seu nome sem autorização nem conhecimento. As raízes boas do ex-Chefe de Estado, vieram ao de cima em seu auxílio. Mas esta história, continua a reescrever a linha de coscuvilhice, comadrio, cunhas e corrupção que inunda as elites emporcalhadas da sociedade em que vivemos. 

         - Fui lá fora e respirei o ar outonal que se instalou. Deve ter chovido de noite e os  top-cat prometem-nos um dia lacrimejante. Hoje, a exemplo do que me impus para economizar gasóleo, a saber dois dias por semana em clausura, não conto deixar este convento. 

         - A Ucrânia e a Faixa de Gaza, duas nações mártires, às mãos de déspotas, um tout court, o outro disfarçado de democrata com o rabinho corrupto de fora. A União Europeia, leva anos de reuniões, fala barato, viagens, confidências inocentes, promessas vãs; enquanto o primeiro avança e ou segundo toma o território que não lhe pertence. Pelo meio, milhares de vidas ceifadas, cidades arrasadas, morte e caos.   


terça-feira, setembro 29, 2026

 Terça, 29. 

No Pentateuco, o Êxodo dos israelitas do Egipto onde eram um povo de escravos, mas ainda assim não tão mal como muitas vezes no-lo apresentam, onde ficaram entre o Egipto e Canaã quatrocentos trinta anos, foi uma disputa que durou imenso tempo entre YHWH (tetragrama do alfabeto hebraico) e o faraó apoiado pelos seus acólitos. Por essa altura ainda Deus não se tinha revelado em todo o seu esplendor a Moisés o eleito para levar o seu povo para a terra escolhida por YHWH. O que me impressiona, desde o primeiro capítulo até ao dezassete do Êxodo, é a violência que Deus impõe no confronto com o faraó utilizando métodos medonhos ao ponto de levar o povo egípcio à fome, à privação, às doenças e à morte. A saída dos hebreus para a longa viagem que os deixará na terra prometida, espécie de iniciação, onde Ele os fixará como seus filhos adoptidos, e aí começará a história judaica, faz-se à custa do suplício dos egípcios que morrem aos milhares com epidemias de toda a sorte, porque o faraó recusa-se a deixar partir um povo que lhe foi útil, trabalhador, e há séculos radicado no território dos faraós. Há muito que penso no assunto, porque a Deus, com o poder absoluto que era e é o Seu, podia num gesto, palavra ou aceno mudar o faraó e toda a sua entourage a Seu favor. (Voltarei a rever este texto que foi escrito no café da Fnac, portanto sem consulta aos dados disparados pelo meu cérebro.) Há, contudo, uma frase que YHWH ao revelar-se Deus, deixando por assim dizer o tetragrama divino, quando Moisés antes de partir com o seu povo, lhe pergunta: que direi quando me perguntarem quem és? Deus respondeu: “Eu sou O que está sendo.” Esta resposta, desde que a li no Pentateuco, nunca mais me largou. Penso imensas vezes nela e preciso de desabafar para acalmar. Assim farei quando estiver preparado para tal. Quanto filhos de Israel, a história diz-nos que estiveram em todo o lado e em lado nenhum – até 1948. 

         - O Papa Leão XIV na sua última jornada de três dias em França. Por onde passou, falou de paz porque tanto ele como todos nós, persentimos que a guerra se aproxima a passos apressados. Putin sente as costas quentes com o seu camarada Trump a protegê-lo e atrás dele a Coreia do Norte, China, e outros pequenos satélites-ilhas no apoio à trama tremenda que se prepara como ficou demonstrado nestas últimas semanas de investidas “hibridas” ao nosso continente, a derradeira das quais há três dias em Inglaterra. Portugal está completamente alheado de tudo, como se este canto do mundo não estivesse aliado aos seus vizinhos e não fizesse parte daquilo que o ditador pretende destruir – a União Europeia. Luís Montenegro, sem ideias, preparação ou acuidade, continua a afirmar que é melhor o diálogo. Macron também assim pensava, depressa percebeu que os ditadores impõem, não escutam. 

         - Insistem os nossos queridos governantes em forçar os automobilistas a andar a pé, falam-lhes ao ouvido que deixem o carrinho em casa e passem a usar os transportes públicos. Pois é. Eu instalei-me aqui em 1998, ia todos os dias a Lisboa de carro, para passar a ponte já nessa altura precisava de uma hora. Por fim cansei-me, pensei nos gastos, no Planeta, e optei pelo Fertagus. Aqui me encontro desde então e contam-se pelos dedos de uma mão, as vezes que peguei no popó para ir à capital. Sou um português comum, nunca vi um deputado, ministro, secretário de Estado nos transportes públicos. Suas altezas não se rebaixam a deixar o trono rolante. Que bicheza! 


sábado, setembro 26, 2026

Sábado, 26.

Nunca tinha tido uma consulta tão caótica como a de anteontem, a tal ponto que hesito em fazer o exame ortóptico prescrito pelo oftalmologista directamente para a sua colega do Hospital CUF Tejo, que terminou com esta observação: “Nós depois temos de conversar, porque há cada vez mais exames destes.” Para bom entendedor... Acontece que eu estou sempre muito atento à medicina-negócio que hoje impera por todo o lado e fujo dela como o diabo da cruz. Nestas circunstâncias, a técnica é esta: envolver o paciente numa roda-viva de exames cada um mais caro que o outro. Por agora foram 85 euros, na CUf talvez o mesmo valor, de retorno ao início outros 85 euros e a procissão ainda vai no adro. A sensação que tive, foi que o clínico detectou o meu problema que, de resto, o Lionel que é médico no Hospital de Estrasburgo, me deu de conselho: “Faz como eu: usa óculos para ler e para ver ao longe.”  

         - Que tristeza! Estou transformado num diarista em desprimor do romancista que há pelo menos três meses não molha a tristeza nas páginas do romance e perdeu de vista Ana Boavida que tanto tinha para lhe contar, não obstante as duzentas e muitas páginas de memórias inexistentes que o trabalho de quase três anos metamorfosearam em realidade. 

         - O mundo está confrontado neste momento com o vozeiro de Trump e a serenidade de Leão XIV. 

         - Pobre país, ou antes pobres portugueses. Não fomos feitos para o protesto porque durante 50 anos Salazar obrigou-nos a amochar. E todavia, à parte os primeiros governos constitucionais, todos os outros só trabalharam, só fizeram o esforço de compreender a razão que assiste aos seus concidadãos, só acudiram às necessidades pungentes da sociedade, quando os portugueses entraram em protesto, saíram à rua, cercaram a Assembleia da República, desfilaram nas avenidas, obstruíram estradas, criaram o desnorte na via pública. Então eles deixaram os gabinetes confortáveis onde se acantonaram, olharam através das janelas dos palácios do Estado e reparam no teor da protestação que atravessava o espaço público e tremeram pelos seus postos, pela vida airada de um Estado rico, que esbanja em mordomias, em fidalguias, em luxo e prazeres aquilo que tanta falta faz aos seus compatriotas. O coro de gente com suprema razão, é mais forte e fê-los tremer de temor de perderem o poder ou de este cair podre nas ruas. O trabalho quotidiano, o estudo dos problemas, a antevisão das tragédias e do futuro, a preocupação com os pobres que não cessam de crescer, com o SNS, a justiça, a cultura, a habitação, a velhice, a planificação geral própria de governos vigilantes, foi sempre passageira, empurrada pelo desespero das populações quando lutam proclamando justiça, equidade e um Portugal mais justo e equilibrado. Desta vez, foi a voz potente dos camionistas que são empurrados para o fecho das empresas por não suportarem o preço dos combustíveis. Os últimos vinte anos de governação PS e PSD habituaram-se a falar muito, fascinados pelas televisões, e a trabalhar pouco no sessego do estudo aturado e persistente. Governam através dos ecrãs. Sou dos que acham que somos o único país europeu com telejornais de duas horas preenchidos com histórias de lana-caprina, vaidades pequeninas, gente sem nível que se põe em bicos de pés por não ter onde cair morto e, bem entendido, o festival de políticos, especialistas e comentadores. É um forrobodó. 

         - Esteve aí o espalha-brasas. Chega sempre com imensas histórias de cortar o coração. Tenho de o acalmar, conversar um pouco com ele e quando sai vai mais ligeiro aligeirado das penas deste e daquele, dos filhos e netos, da saúde e da última morte de alguém do seu mundo. Levou também uma carrada de marmelos e dióspiros. 

 

quinta-feira, setembro 24, 2026

 Quinta, 24.

Às oito da manhã tomava o autocarro para chegar ao consultório do oftalmologista, no Chiado, onde tinha hora marcada às onze em ponto, viagem que se faz em pouco mais de trinta minutos. Um habitual acidente na Ponte Vasco da Gama, foi a causa. No caminho, olhos postos no rio, pensava naquela da excelente Ministra do Ambiente, segundo a qual os portugueses devem habituar-se a poupar combustível. A estimada Senhora não conhece os seus contemporâneos. Podem passar fome, não ter dinheiro para a saúde, para livros, para viver condignamente, mas para o popó, qual trono ambulante, ele tem que aparecer. Porque o automóvel é tudo aquilo que esconde à luz dos outros tristezas e desgraças do dia-a-dia; ao volante irmanam-se na máquina e solicitam-lhe o estatuto que brilha como arma de arremesso contra as desigualdades. Portanto, senhora ministra que suba o litro da gasolina, o português da classe média nunca abandonará a sua imagem resplandecente. 

         - A actual Ministra da Cultura, saiu-se com esta: Jorge Palma é um “cantautor”. A palavra está correcta, mas o novo-riquismo aflora por imposição fora do contexto. 

         - Os portugueses, se olharem de frente o presente, o passado e o futuro, vêem um monte de excremento que nunca foi varrido da sociedade – a corrupção. 

         - As ameaças não param, os avisos também não. A CIA alertou a Europa de possíveis ataques com drones contra a França, Espanha e Itália por parte do ditador russo. Que mundo! 


quarta-feira, setembro 23, 2026

Quarta, 23. 

Faleceu Jorge Palma. Cruzei-me com ele em duas ou três ocasiões, mas foi no Casino Estoril onde actou algumas vezes e eu tinha mesa no então chamado salão Preto e Prata, oferecida por Joaquim Couto, director, que restou daquele mundo empresarial, até hoje meu amigo, malgrado o tempo imenso que passávamos a esgrimir os textos que eu criava não só para o Casino como para outras unidades da empresa Estoril-Sol. Recordo-me de uma noite, Jorge Palma, acabado o espectáculo, os espectadores que enchiam a sala a debandar apressados para casa, as luzes a apagarem-se e o artista, só, sentado ao piano, prosseguia o show como se não soubesse onde estava, mergulhado num mundo estranho para nós, mas poderoso para ele, onde sons e emoções se misturavam para dar vida à personagem frágil, talvez um pouco tocada pelo álcool, que se esquecera que a madrugada não tardava e a música não conhecia dias nem noites, luz que vagueia por lugares que a imaginação impõe e a melodia persegue. Foi necessário que a dada altura, os funcionários o viessem retirar do piano, literalmente, e o levassem para os bastidores onde decerto ele ainda balbuciava uma canção e os poucos espectadores que com ele ficaram, eu entre eles, o aplaudissem até que desapareceu ao fundo do palco, figura magra vestida de escuro, provavelmente perdida algures entre o sonho e a realidade, a fantasia e a magia da música que só ele tinha o dom de criar, que só ele reinventava fundindo-a com a vida. O que mais apreciava nele, a par da sua música simples e complexa, que como um retrato permanece, era a voragem da liberdade, o ser de uma humanidade sem mácula, vivendo longe da mediocridade dos “artistas” de galinheiro que hoje proliferam como os “especialistas”, os “comentadores”, os porta-vozes deste e daquele partido.  

         - Hoje no metro, a dada altura, entra uma negra de largas ancas e mamas equilibradas, bem feitas, rijas e senta-se dois lugares adiante daquele onde eu vou instalado. Traz consigo uma bolsa e quando se ajusta ao banco, pendura-a ao ombro esquerdo enquanto com a mão direita fala ao telemóvel. Naquele movimento, não dá por mama onde assenta a mala, saltar do exíguo decote. Os mirones em volta, de sorrisinho maroto, não tiravam o olho... da mala. 

         - O Outono chegou, mas o Verão impôs-se com temperaturas que nalguns sítios chegaram aos 37 graus centígrados.