Quinta, 19.
Quando descia o Chiado, encontrei o Filipe como sempre surpreendente na forma de vestir e ser. Estava acompanhado por uma colega do gabinete de informação e imagem da Câmara de Lisboa onde trabalha. Disse-me que tem vivido num desassossego devido à Judiciária que irrompeu pelo edifício em busca de provas de mais um cambalacho de milhares levado a cabo pelo secretário-geral da autarquia, um tipo do CDS e mais três funcionários, todos da área das iluminações natalícias, que embolsaram milhares em contratos sem concurso. É nisto que estamos há pelo menos duas décadas. Políticos, autarcas, gestores públicos e privados, funcionários administrativos, enfim, este escol de gente sem ambição nem honestidade, dá aos tribunais e judiciária um trabalhão a mais que nem aluvião de vadios, ladrões e salteadores de casas, dariam. À sua conta o número de funcionários da justiça quintuplicou. Só para o gatuno José Sócrates, contem quantos advogados foram até hoje precisos. Assim, é certo e sabido, que ele vai ser absolvido pela caducidade dos prazos – e mantém bem aferrolhados os milhões dos nossos impostos.
- Ontem, deu-me para ir almoçar pacatamente ao restaurante do alto do Corte Inglês. Não é tanto a refeição que me apaixona, mas aquele estar ausente, o olhar perdido nos comensais devoradores e conversadores, aquele pequeno e modesto mundo de gente que toma alguma importância quando se senta à mesa e o empregado fardado se aproxima para saber o que escolhem suas excelências do menu que ele lhes estende. É como se ingressasse num universo outro, onde figuras de negro vestidas fossem sombras voláteis onde as moscas teriam medo de pousar. O brouhaha que varre o espaço, hipnotiza, anestesia os sentidos, leva-me a sobrevoar com o olhar a teia de gente que parece feliz tocada pelo álcool e pelos prazeres da mesa, da importância que a importância confere a quem dela nunca se afasta mesmo quando pela idade, a solidão da velhice, o desconforto da saúde e o abandono dos mais chegados alvejados por outras fantasias que em catadupa a sociedade lhes oferece. Ao fundo, junto à grande vidraça que dá para a cidade submersa no vazio das horas, estava uma senhora recolhida em si, que mastigava sem pressa, o olhar perdido algures no centro do seu mundo misterioso e digno, espécie de lugar povoado dos pensamentos que o tempo deixou para trás e naquele momento se apresentavam para o derradeiro aceno, antes de o tule de sombras cobrir num vislumbre de realidade ou de eterna recordação o passado, o presente e o futuro. Ela, só, carregava consigo o destino da sala inteira, autoridade que o tempo consagra a quem se atreve a atravessá-lo hirto, sobranceiro, senhor dos dias contados pelo filamento frágil das horas. A eternidade é um sítio algures onde se perdura em errância.
- Tendo terminado o Diário de Green há dias, nem por isso o largo disposto na mesa de apoio junto à lareira. Abro ao acaso uma página, folheio o espesso livro e observo as minhas anotações, os meus sublinhados e surpreendo-me sempre com o que leio. Julien foi à sua maneira um místico, um homem dilacerado pelos prazeres carnais, em luta constante entre o divino e a sua condição humana frágil e comovente. Em 15 de Agosto de 1958 ele está de férias na Áustria com o seu amor Robert e a irmã Anne. Acorda a meio da noite sacudido por uma voz envolta numa luz que ordena faça as suas orações. Ele responde: “À cette heure, Seigneur? – Oui, je le veux, il faut obèir.” São inúmeras as passagens que o Senhor intervém na vida do escritor e que ele não hesita em as narrar.
- Dia de uma tristeza infinda, sombrio, cinzento, a chuva ora forte, ora miúda a mistura com o frio, salpicando as horas que pareciam incomensuráveis. As árvores agitaram-se por favor, em sintonia com o resto, o todo enfiado numa massa mole, adstringente. Os pingos que batiam nas vidraças, pareciam toques de salteador precavido; a luz coada pelas nuvens chegava envolta num segredo de baixo teor de certeza. Tudo aqui mergulhara num silêncio espesso, ninguém passou no caminho que atravessa o campo solitário. Mergulhado na escrita e na leitura, enchi as horas no remanso eterno de quem desconfia do que se passa fora de porta.
- Sonho já com o autocarro amarelo. Felizmente as bombas dos dois desmiolados que semeiam a morte e a desordem, a miséria e a incerteza, não furam o silêncio religioso que aqui se alonga. Atravessar o rio, olhá-lo com os olhos recuados da alma, remoer pensamentos, chamar ao instante amigos e momentos de felicidade, todo um mundo de recordações que a viagem me proporciona antes de alcançar Lisboa e ter escondido no fundo do Tejo a presença dos eternos ausentes.