sexta-feira, março 20, 2026

 Sexta, 20.

Começo a pensar que não sou estupido de todo. Ontem, embalado pela chuva, cheio de paciência, consegui realizar uma série de peripécias que este novo computador exigia. Fui tacteando como uma criança que aprende os primeiros passos e ao fim de mais de uma hora, tinha reconstituído tudo aquilo que fazia falta ao meu trabalho diário. Ufa! De futuro, não peças ajuda, arrisca e verás todo o potencial de recursos que existe em ti. 

         - Ainda bem que temos de volta à TSF um cronista de excepção: Fernando Alves. Na sua crónica de hoje, ei-lo oportuno a chamar os bois pelos seus nomes e a orientar o pensamento crítico para o lugar onde ele devia estar inteiro: o Parlamento. Este retrato do todo: “Deixai correr o olhar pelas bancadas. Ei-los, impantes, o cabelo engomado mais do que penteado, a farda oficial de gato pingado muito assertoada. Não há um assessor que os despenteie? Não há um repórter mais atrevido que, na roda mediática, lhes peça, inesperadamente, o título do romance que lhes sacode os dias?” Mais adiante: “Ao longo da vida sempre cuidei de orientar o sentido do meu voto no favorecimento de um pressuposto: não confio politicamente em quem não estime em voz alta a língua portuguesa ou em quem me possa transmitir a suspeita de um desdém ou de um desapego pelos livros.” Para concluir: “O que me fez puxar este fio amargo? Uma entrevista de José Carlos Vasconcelos à jornalista Filipa Lino no excelente suplemento de fim de semana do Jornal de Negócios. A conversa percorre a longa vida de um lutador sereno, "poeta na clandestinidade" como se designa, que defendeu presos políticos durante a ditadura, foi deputado e dirigiu durante 45 anos o desaparecido Jornal de Letras. E convoca a memória das lutas e dos amigos, os dias de Coimbra, os grandes combates da democracia.” Acrescento como nota de simpatia, que ainda guardo as folhas que José Carlos Vasconcelos me enviou com dois ou três poemas para a Rádio Universidade, dirigidos ao meu programa Nova Musa

         - Alinho estas palavras no pequeno café da Fnac. Vou deixar que a minha mente se estenda até ao horizonte de livros, distendo as pernas, assim ficarei até sentir o cérebro voar sobre o infinito espaço de alheamento e beleza, ao encontro da galáxia invisível do meu ser. 


quinta-feira, março 19, 2026

Quinta, 19.

Quando descia o Chiado, encontrei o Filipe como sempre surpreendente na forma de vestir e ser. Estava acompanhado por uma colega do gabinete de informação e imagem da Câmara de Lisboa onde trabalha. Disse-me que tem vivido num desassossego devido à Judiciária que irrompeu pelo edifício em busca de provas de mais um cambalacho de milhares levado a cabo pelo secretário-geral da autarquia, um tipo do CDS e mais três funcionários, todos da área das iluminações natalícias, que embolsaram milhares em contratos sem concurso. É nisto que estamos há pelo menos duas décadas. Políticos, autarcas, gestores públicos e privados, funcionários administrativos, enfim, este escol de gente sem ambição nem honestidade, dá aos tribunais e judiciária um trabalhão a mais que nem aluvião de vadios, ladrões e salteadores de casas, dariam. À sua conta o número de funcionários da justiça quintuplicou. Só para o gatuno José Sócrates, contem quantos advogados foram até hoje precisos. Assim, é certo e sabido, que ele vai ser absolvido pela caducidade dos prazos – e mantém bem aferrolhados os milhões dos nossos impostos. 

         - Ontem, deu-me para ir almoçar pacatamente ao restaurante do alto do Corte Inglês. Não é tanto a refeição que me apaixona, mas aquele estar ausente, o olhar perdido nos comensais devoradores e conversadores, aquele pequeno e modesto mundo de gente que toma alguma importância quando se senta à mesa e o empregado fardado se aproxima para saber o que escolhem suas excelências do menu que ele lhes estende. É como se ingressasse num universo outro, onde figuras de negro vestidas fossem sombras voláteis onde as moscas teriam medo de pousar. O brouhaha que varre o espaço, hipnotiza, anestesia os sentidos, leva-me a sobrevoar com o olhar a teia de gente que parece feliz tocada pelo álcool e pelos prazeres da mesa, da importância que a importância confere a quem dela nunca se afasta mesmo quando pela idade, a solidão da velhice, o desconforto da saúde e o abandono dos mais chegados alvejados por outras fantasias que em catadupa a sociedade lhes oferece. Ao fundo, junto à grande vidraça que dá para a cidade submersa no vazio das horas, estava uma senhora recolhida em si, que mastigava sem pressa, o olhar perdido algures no centro do seu mundo misterioso e digno, espécie de lugar povoado dos pensamentos que o tempo deixou para trás e naquele momento se apresentavam para o derradeiro aceno, antes de o tule de sombras cobrir num vislumbre de realidade ou de eterna recordação o passado, o presente e o futuro. Ela, só, carregava consigo o destino da sala inteira, autoridade que o tempo consagra a quem se atreve a atravessá-lo hirto, sobranceiro, senhor dos dias contados pelo filamento frágil das horas. A eternidade é um sítio algures onde se perdura em errância. 

         - Tendo terminado o Diário de Green há dias, nem por isso o largo disposto na mesa de apoio junto à lareira. Abro ao acaso uma página, folheio o espesso livro e observo as minhas anotações, os meus sublinhados e surpreendo-me sempre com o que leio. Julien foi à sua maneira um místico, um homem dilacerado pelos prazeres carnais, em luta constante entre o divino e a sua condição humana frágil e comovente. Em 15 de Agosto de 1958 ele está de férias na Áustria com o seu amor Robert e a irmã Anne. Acorda a meio da noite sacudido por uma voz envolta numa luz que ordena faça as suas orações. Ele responde: “À cette heure, Seigneur? – Oui, je le veux, il faut obèir.” São inúmeras as passagens que o Senhor intervém na vida do escritor e que ele não hesita em as narrar.  

         - Dia de uma tristeza infinda, sombrio, cinzento, a chuva ora forte, ora miúda a mistura com o frio, salpicando as horas que pareciam incomensuráveis. As árvores agitaram-se por favor, em sintonia com o resto, o todo enfiado numa massa mole, adstringente. Os pingos que batiam nas vidraças, pareciam toques de salteador precavido; a luz coada pelas nuvens chegava envolta num segredo de baixo teor de certeza. Tudo aqui mergulhara num silêncio espesso, ninguém passou no caminho que atravessa o campo solitário. Mergulhado na escrita e na leitura, enchi as horas no remanso eterno de quem desconfia do que se passa fora de porta. 

         - Sonho já com o autocarro amarelo. Felizmente as bombas dos dois desmiolados que semeiam a morte e a desordem, a miséria e a incerteza, não furam o silêncio religioso que aqui se alonga. Atravessar o rio, olhá-lo com os olhos recuados da alma, remoer pensamentos, chamar ao instante amigos e momentos de felicidade, todo um mundo de recordações que a viagem me proporciona antes de alcançar Lisboa e ter escondido no fundo do Tejo a presença dos eternos ausentes.    


quarta-feira, março 18, 2026

Quarta, 18.

Eu já sabia da proeza que ontem vinha escarrapachada no Público. O facto é que com Donald Trump tudo é possível e nada nos espanta. Ou, talvez, sim. Esta. Nas reuniões na Casa Branca, o líder supremo, sentado no seu trono com os seus súbditos em volta, para descansar a mente de tanto magicar como invadir este ou aquele país, o estudo do que pode surripiar explicado num caderno escuro que nunca larga, pousou o olhar nos pés dos presentes e estremeceu: “hum... pés pequenos, zizis diminutos” pensou. Então teve uma ideia. Mandou perguntar ao seu grupo de entendidos em direito internacional, bombas de larga potência, secretários e ministros, chefes militares e agentes do FBI quanto mediam os seus delicados pezinhos. Ninguém estranhou tal pergunta e todos responderam sem questionarem a curiosidade do mais poderoso. Uma semana depois, Trump tinha um par de sapatos Florsheim, com dois números acima da medida de cada um. Logo foi como se, no momento em que calçaram os sapatos ao preço de 120 euros cada (nem acho caro, pois há muito que eu pago pelos meus da Massimo Dutti este valor) e em boa verdade também é irrisório para um homem com 20 cm entre as pernas que queira duplicar a sua masculinidade ficando com à altura do abastado octogenário que muito o utilizou a desflorar crianças com o seu amigo Jeffrey Epstein. Enfim, os EUA podem multiplicar as reuniões de Estado assim abastadas de conteúdo e dimensão sem que com isso o país perca a sua virgindade.  

         - Voltando à Améria, desta vez para falar de coisas sérias. Trump, o dono do mundo, pediu ajuda à Europa e a outros países para abrir o Estreito de Ormuz à circulação dos combustíveis, hoje e sempre controlado por Teerão. Teerão que parece invencível. Não obstante as bombas assassinas de Israel e Estados Unidos, o que se vai vendo é que o país estava há muito preparado para a guerra. A obsessão e ódio de Netanyahu em eliminar os seus dirigentes, de tão obcecado está, que nem pensa que por cada figura da república teocrática islâmica que mate, logo outra se ergue com o mesmo dinamismo e revolta de vingança. O controlo daquela mancha de água é tal, que Teerão dá-se ao luxo de deixar passar quem entenda e seja dos seus interesses. Quanto a Trump, naquele infantil modo de governar, logo veio dizer que não precisava do Ocidente nem da NATO. Ele e o corrupto e tirânico israelita, bastam para pôr ordem no mundo. O Presidente, na sua idiota maneira de governar, deixou-se enredar na rede criminosa de Netanyahu e seus fanáticos religiosos, servindo-se de mais uma mentira (como aconteceu no Iraque) que o país dos yatolis tinham para breve a bomba nuclear. Graças a estes dois loucos e fanáticos, o desarranjo mundial aí está a ameaçar-nos a todos para o terceiro conflito mundial.    

         - Ontem foi um dia em pleno. De manhã fui ao lavadouro tecnológico e de tarde tive aqui o senhor José Manuel e um vizinho com um tractor, ambos aplicados em pôr a quinta civilizada. Isto sob a urgência do anúncio da chuva para as 17 horas que, como um relógio suíço, começou a cair tal como os nossos meteorologistas previram. 



A chegada do tractor para levar o taralhoco do cepo para queimar. 


José Manuel, do alto dos seus 75 anos, a dar uma lição a todos os preguiçosos de hoje agarrados aos telemóveis como manjedouras caseiras. 

 
O lume sagrado que ficou pela noite dentro.




segunda-feira, março 16, 2026

 Segunda, 16.

Ambos adoram fazer a guerra: americanos e israelitas. No caso destes últimos, depois de dois anos infernais a reduzir a cinzas a Faixa de Gaza e a dizimar para cima de 72 mil palestinianos, retornaram ao Líbano para destruir e matar mais de mil pessoas. O seu escudo protector que diziam ser inviolável, meteu água e muitos são já os mísseis e drones que despejaram por todo o país o fogo fazendo em pedaços sólidos edifícios e matando muitos israelitas. Todos os dias, contra a expectativa do Governo de Netanyahu confiante na protecção do território, caiem mísseis disparados de Teerão não só em direcção a Telavive, como a muitos países do Médio Oriente. É evidente que temos guerra para muito tempo, contrariamente ao que Trump afirmara e desejava que fosse breve. Aqui como em Ucrânia, os ditadores fazem contas que são ratadas pela sua tirania e ódios de estimação. O curioso desta guerra, é o facto de os países árabes nunca terem ripostado - isto devia ser matéria para Israel e sobretudo pra a América meditar. 

         - De uma assentada saíram mais de 200 euros. Domingo para atestar o depósito do carro a 2,11 euros o litro; hoje duas botijas de gás (a grande 124 euros, a pequena 37 euros). Dizem-nos que estes preços chorudos vão directos aos bolsos dos risonhos empresários que se banham de petróleo e a Putin que se enrola de gozo, todos sob a batuta do camarada Trump e do seu influencer Netanyahu. 

         - Não sei quem, chamou-me a atenção para a presença na SIC do humorista Vasco Pereira Coutinho, frente a frente com Daniel Oliveira no programa Alta Definição. Tenho de ser franco, nunca tinha ouvido falar no seu nome e muito menos conhecia o que fazia. Foi, portanto, uma revelação para mim o tempo que estive diante do computador a ver a conversa entre os dois. Vasco Coutinho talvez não saiba quem foi Julien Green, nem tão pouco conhece a sua obra literária, mas ele é um discípulo do escritor francês, na forma como se entrega a Deus e na sua disponibilidade para se aceitar de um modo sadio e consciente de que não nos podemos opor à nossa natureza. Aos 37 anos deixou para trás uma vida absolutamente luminosa no sentido da sua entrega aos outros e da fé que o leva a dizer bem alto que quer “ir para o Céu”. Trabalhou quando jovem no bairro da lata em Chelas, foi seminarista em Roma, em Itália deu ajuda numa cooperativa de pessoas com deficiências profundas, enfim, viveu consigo, macerando uma condição que ainda hoje não é fácil de levar, pese embora a bandeira das esquerdas que se servem mais do que fazem pela sua defesa e aceitação. 


sábado, março 14, 2026

 Sábado, 14.

Ontem estive na Brasileira à conversa com o António e a mulher. Gosto dos dois e aprecio particularmente ela, pelo sacrifício de aturar um hipocondríaco. Não dissemos nada de importante que ficasse nos anais do célebre café, mas o falecido Guilherme Parente veio à baila e António voltou a criticá-lo pela sua excessiva actividade de pintor com um marketing apurado junto dos ricos. Como se isso tirasse mérito à sua obra artística de um fulgor imérito. Acontece que eu tinha dormido mal e à força de um soporífero natural que acabei por tomar pela meia-noite e me acompanhou o dia todo, para além de não pensar, queria dormir em todos os lugares. A pancada foi tão forte (decerto falta de hábito), que entrei no C.I., desci às catacumbas e recostei-me num daqueles sofás confortáveis e entreguei por quase meia hora a alma ao criador. Para dizer que, contrário ao que me sustém, não ofereci remoque aos comentários invejosos do meu amigo. O resto do tempo, foi consumido com vulgaridades que o pintor tanto aprecia. 

         - Morreu o escritor Mário Zambujal. Ficou nos circuitos conhecido com o romance Crónica dos Bons Malandros. Conheci-o sem, contudo, o conhecer. Eu conto. O Francisco Vicente, pessoa cultíssima e gestor da Bertrand e Difel, propôs-me um dia apresentasse o romance que havia acabado de escrever à primeira editora. Acontece que Zambujal fazia parte do corpo editorial e lera o meu trabalho. Quando chegaram os votos, ele votou contra e escreveu na resposta que era “um romance demasiado romance”.  Estupefacção geral. O que é que isso queria dizer? Mistério. 

         - Justamente. Este mês de Março é para mim medonho, tantos queridos amigos partiram. Estive a ver na minha agenda para lhes rezar um Pai-Nosso: dia 9 partiu a minha saudosa irmã; a 11 o ti Luís que aqui trabalhou até aos 93 anos; a 16 o Manuel Cargaleiro de que tantas vezes recordo e imensa saudade me deixou; a 17 o Angusto Tejo que transportava o sol consigo e era de uma ternura inexcedível. 

         - Há mais de uma semana que durmo fora do meu quarto. O frio voltou e a casa toda sofre com isso, a lareira está acesa, na cozinha tornei a ligar o ar condicionado. O desconforto parece mais evidente depois de nos últimos dias termos tido a visita da Primavera. A quinta, agasalhou-se com o manto espesso do Inverno e tudo ficou sob o ar triste que a desordem da tempestade do mês passado implementou. 


quinta-feira, março 12, 2026

Quinta, 12.

Há um atrasado mental, de nome Tiago Grila, que atropelou na Amadora uma rapariga numa passagem de peões deixando-a muito afetada e pondo-se em fuga. Os anos passaram, a polícia em busca do criminoso, até que o sujeito, com fama de influencer, contou num podcast como o acidente se tinha dado, contorcendo-se de riso e contentíssimo do feito operado. Os agentes da autoridade, confrontaram os factos, deram-no por autor do atropelamento e vão levá-lo a julgamento. Mas o país actual é isto: milhares de seguidores, correm atrás desta gentalha que ninguém sabe de onde veio, acreditam nas suas histórias e seguem-nos como cordeiros. Que o país é esta geração básica, sem cultura, capaz de tudo fazer para ter uma vida fácil, sem trabalho nem conhecimentos, já todos sabemos e de nada serve impingirem-nos o grau de escolaridade que a democracia trouxe relativamente ao fascismo, porque a vida se encarrega de nos trazer de volta a medonha e assustadora verdade de uma génese. Estes influenciadores, só influenciam os idiotas.     

         - Respigo dos jornais de hoje: Guerra Israel–Gaza libertou mais de 30 milhões de toneladas de CO2 num só ano. É decerto verdade. Contudo, aflige-me mais o número incrível de 72 mil palestinianos mortos e mais várias centenas de líbios nestas duas últimas semanas. 

         - Estou a arrastar o términus do diário de Julien Green. As poucas páginas que me faltam ler, quero saboreá-las, ler e reler, porque são preciosas e devem ficar na mesa de apoio em frente à lareira para serem espreitadas nas horas e minutos que abrangem os próximos meses. 

         - Não há palavras para descrever o dia de hoje. Fiquei aqui (ontem aconteceu o mesmo) extasiado a olhar a paisagem que se enche de luz, flores, brotos juvenis, silêncio, contemplação, e uma luz que pensava perdida e cobre agora o campo de florescências de muitas cores. Voltaram os sangões, os pássaros, as borboletas, cobiçando os prados de florinhas amarelas, saltitando de pétala em pétala, depois de colherem o pólen que carecem. São infinitas as tardes solarengas, o olhar perdido entre a leitura e o horizonte onde um ligeiro tecido acinzentado bruxuleia na poeira do sol. Mas o mais surpreendente, é o silêncio que parece comungar com o todo da natureza, dançando ao toque sublime das horas, distribuindo paz e sossego, rumor surdo e o peso constante que afaga o coração e ilumina o olhar. 

Os malmequeres sorriem por todo o lado e são mensagem de bemequeres. 


 

quarta-feira, março 11, 2026

 Quarta, 11.

O assassino americano influenciado por outro seu igual israelita, diz que os bombardeamentos sobre o Irão, com destruição, mortes, inclusive 150 crianças de uma escola, a vida de um país voltada do avesso, não passa de uma “excursão” que ele ordenou ao seu exército fizesse para seu deleite e força. Parece que o recém-eleito líder supremo Mojtaba Khamenei, foi ferido em ataques levados a cabo por Telavive. Mas basta ouvir aquela equipa de gente sem competência nem humanidade que cerca o grande paxá exprimir-se sobre as mortes e a destruição de um país, num tom vulgar como se vidas humanas não tivessem valor algum, espécie de fait-divers com que as elites do capital se entretêm, para se compreender o destino de um país que exibe a força como virtude, entregue a um louco varrido, a um especulador imobiliário que se acha o supremo deus do mundo.   

         - Marcelo deu o lugar a Seguro. Na hora da despedida, à boa maneira portuguesa, muitos são os comentadores que vomitam pareceres sobre o seu reinado. Talvez o resumo que dele fez Miguel Tavares, seja o mais certeiro: “Ele é um político traquinas nas coisas populares e excessivamente medroso nas coisas grandes.” Seja como for, ele despiu a sobranceria do cargo, introduzindo no seu exercício a Democracia, naquilo que ela tem de mais frágil, mais próxima do povo e contra os arrogantes que têm passado por Belém – e foi mais do que um...  

         - Ainda não deixei de acender a lareira. Estes últimos dias, à noite, o frio instala-se. Logo que acaba o espectáculo das notícias, fecho o aparelho da TV, e mergulho no silêncio profundo que tudo reconforta e lanço-me nas leituras, um ténue fio de música em fundo. Momentos indizíveis de serenidade, de largo tempo em diálogo com o fogo, pequenos-grandes-nadas que fazem a grandeza da vida como, por exemplo, o trajecto no autocarro para e de volta a Lisboa, as tardes lá fora ao sol lendo Green, o trabalho no romance passando os acertos do manuscrito para o computador, aqui ou na Fnac, seja lá onde for consigo abstrair-me de tudo, o interior desta casa, construído a pouco e pouco, com todo um mundo abstracto que se tornou com os anos algo de substancialmente real a tal ponto que é hoje a identidade do seu proprietário.