domingo, fevereiro 08, 2026

 Domingo, 8.

Dia passajado de luz. Manhã muito cedo enfiei-me no autocarro (ai, este transporte que tanto me encanta!) e fui votar a Lisboa. Passei antes na Brasileira para um café e logo depois meti-me num táxi para o Liceu Passos Manuel, saí directamente para o Corte Inglês onde almocei tranquilo no último andar. Depois sentei-me no pequeno bistrot do primeiro andar para ler os interessantes artigos de Fr. Bentes Domingues e Tereza de Sousa. À meia-tarde regressei a casa.  

         - Quando cheguei à minha zona de voto, às 11 horas, surpreendi-me por não ver ninguém, literalmente ninguém na rua ou nas imediações do velho convento. Assim que franqueei a entrada, tinha apenas no átrio dois dos funcionários que habitualmente encaminham os mais velhos ou os indecisos para as mesas de voto. Fui por ali adentro até à sala onde costumo exercer o meu direito democrático. Como naquela e nas outras assembleias não havia ninguém, entrei de rompante, depositei a minha escolha e zarpei. Pensei: “que raio de eleições são estas! O dia parece ter acordado brilhante de sol, num convite à responsabilidade de cada um, e pouca ou nenhuma pessoa se vê na rua”. 

         - Este pensamento desceu comigo o Chiado, miraculosamente devolvido aos lisboetas como antigamente antes da invasão selvagem do turismo que tanto jeito deu a António Costa mas que dele sua excelência pouco soube beneficiar.  À minha frente, ia um casal de meia-idade, de mão dada, os dois homens feitos, com pinta de portugueses de província, semeando à sua passagem olhares risonhos, palavras cochichadas, pensamentos livres ou prisioneiros de voos que nem todos conseguem alcançar, mas já depositados na lengalenga da vida em comum, onde faltam diálogos e sobra em abundância a monotonia. 

         - Eu não tenho à mão uma mola para o nariz, porque se a tivesse, registaria a história fedorenta que me contou esta manhã o motorista brasileiro da Carris que me depositou na gare do Oriente. Viver como eu vivo desde que deixei a minha ex-vida de contactos amaneirados, bajulando medíocres em lugares corrompidos, lutando contra mim mesmo por mor de outros que tinha a meu cargo, existir desta forma invisível hoje, traz-me uma força criadora de indizível resumo. Ando de baldão com os demais, sou parte desta imensa massa humana que faz crescer os dias e diminuir as noites, que possui uma liberdade que lhes escapa, é senhor absoluto das horas, do rumo dos sentimentos, da verdade que não está à venda nem do lucro que não se expatria para os cofres-fortes nos alçapões do fim do mundo. Este que hoje sou, igual em tudo a todos os outros, carrega a maior liberdade – a que só existe para testemunhar o que o coração não pode guardar e a justiça não logra dispensar. 


sábado, fevereiro 07, 2026

 Sábado, 7.

Foi-se o Leonardo, veio a Marta. Esta ideia de dar nomes aos mafarricos, seria engraçada não fossem as tragédias que esta humanização da desgraça nos causa. Fui há pouco dar uma volta por estas paragens campestres e verifiquei os muitos estragos que a intempérie fez. Há por aqui, talvez porque as pessoas não saem de casa, uma desolação, uma tristeza infinda, o vento forte a impor-se na paisagem que chora as dores de dias e noites deixadas à mercê da tempestade. O meu vizinho também tem árvores tombadas e um portão no chão. O dia hoje até se portou bem, sobretudo depois do almoço com o sol a chegar e a deter-se por toda a tarde. Só o vento com rajas fortes assusta. Contudo, nada a ver com o que nos cercou a mando do Kristin. A boa nova foi o retorno do Black que durante dois dias julgava ter perdido o meu querido amigo. Está mais magro, mas fartou-se de cantar miadas quando me encontrou. 

         - Faz pena, todavia, ver o abandono a que foram votadas populações inteiras, deixadas para trás, no meio de vilas e aldeias cercadas de água, sem comunicações, sem comer, sem energia, sem uma alma que lhes fosse dizer que não estão sós, volvida mais de uma semana da catástrofe. Marcelo foi correto, tanto pela presença como pelos avisos que mandou ao Governo. Os candidatos a Belém, mais ou menos disfarçados de compaixões, trataram da sua vidinha; como fez Luís Montenegro, com aquele seu ar de nariz empinado, rosto ensimesmado, sorrisinho por vezes sardónico que esconde a incapacidade de abarcar os problemas humanos fora do deve e do haver que lhe é exigido. Aliás, todos os membros do seu Governo, mostraram que não estão preparados para as tarefas que se exige deles. Só a propaganda, mais ou menos velada, aflorou.  

         - Ontem, quando cheguei a casa, num espaço que detesto ver: árvores caídas, poças de água, a rede que o cerca tombada, o portão abalroado, os montes de dejectos para queimar, encontro presa nas barras do portão um saco de plástico. Com dificuldade o desembaraço do ferro e quando o abro, encontro uma folha que prontamente leio – um casal belga que me dizia gostar imenso do charme desta casa e pergunta se estaria interessado em a vender. No topo da folha está uma fotografia de dois jovens com uma rapariga que eles no texto dizem ser sua filha de quatro anos e o sonho de poderem vir a viver em Palmela que dizem adorar.


sexta-feira, fevereiro 06, 2026

 Sexta, 6.

Escrevo estas linhas na Fnac. Estive na Brasileira a levar um pouco de conforto moral ao João que atravessa um período de doença que espero seja passageiro. Manhã serena, matizada por luz baixa e um não sei quê que me devolveu para outros tempos quando o Chiado era local de cultura e resistência. Vim no meu sereno autocarro da Carris, atravessando campos onde era visível o horror que sacudiu o país. Tanta desolação por todo o lado, como se tivéssemos sido atacados por uma guerra - tal a imagem de dor e espanto onde os nossos olhos pousam. 

         ~ Os óculos de António Seguro, se for verdade o que me contou um farmacêutico, custaram 5 mil euros! Eu não dava dez reis de mel coado. Que coisa tão horrível e inestética! Domingo vou votar nele, embora não acredite que possa mudar o clientelismo, a corrupção, a falta de honestidade e incompetência da Administra Pública. 

         - Um exemplo. Anteontem andei a saltar de metro em metro e em todas as estações por onde passei as escadas rolantes e elevadores não funcionavam e assim estão há uma data de meses. Todo o funcionalismo público segue este miserável exemplo. Estão protegidos pela imposição dos sindicatos que seguem a ortodoxia salazarenta. O povo que se resigne, o reinado é deles. Que se lixem as mães de bebés nos braços, os velhos trôpegos, os coxinhos coitadinhos, e toda essa gama de reumáticos pouco habituados ao ginásio em que se transformaram hoje as estações do Metro de Lisboa. 


quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Quinta, 5.

Desta vez sobrou para mim. Acordei pelas cinco e meia da manhã com um barulho estranho de qualquer coisa que se havia soltado debaixo da minha janela. Logo pensei que seria o telhado a desabar. Soube quando me levantei às oito, que havia sido um prato grande alentejano que eu tinha na parede, e tinha deslizado por ela abaixo até se enfiar nas almofadas do canapé sem uma beliscadura. O pior veio depois. Quando quis sair com o carro, tinha o caminho até ao portão todo juncado de braços enormes que se tinham rasgado dos cedros gigantes e dos sobreiros que vão desde a casa ao fundo da quinta. Mais ou menos a meio, um grande buraco de onde tinha saído a raiz imensa de um cedro e com ela o cano que leva a água a casa, rebentado. Mais: três ou quatro barrotes de cimento que sustentam a rede que circunda o terreno, tombaram. A maior parte das árvores, caíram para o terreno do meu vizinho e com ele vou ter de me entender. Por agora, o único que se mostrou disponível foi o meu generoso Sr. José Manuel que vem acudir à tragédia depois do almoço. Tenho para várias centenas de euros. O vento não pára; parece mesmo mais agreste. 

         - Ontem, depois de muitas hesitações, fui a Lisboa. Não quis render-me às indecisões da idade, aos obstáculos da intempérie, ao pavor de uma capital paralisada pela chuva forte e constante. Tinha um programa em mente e fui destemidamente realizá-lo. Viajei no meu querido autocarro com meia dúzia de passageiros, sob vento e chuva, o Tejo de barriga cheia, mas em Alcabideche, corajosos homens apanhavam bivalves, indiferentes ao que se passava em terra. Em pára arranca, chegámos a Oriente. Como tinha em mente ir almoçar ao 1800, o meu saudoso restaurante do Largo do Rato, fui dali no metro ao Saldanha, tomei depois a linha azul, e por volta da uma da tarde estava sentado à mesa. Posteriormente fui ver de um fisioterapeuta ao Centro de Saúde, num táxi para o C.I. e a seguir a umas compras, noutro para o oculista onde tinha à minha espera o acerto da lente esquerda dos últimos óculos. Tomei novo táxi que me levou de regresso à estação de metro S. Sebastião para me enfiar no transporte que me levou ao ponto de chegada para voltar a entrar no autocarro de regresso a casa. As horas deste vai-e-vem pela cidade, foram de guarda-chuva aberto, rajadas por vezes fortes de vento, e a imagem de ruas e avenidas lamentavelmente abandonadas ao temporal. Fica-me do dia um estranho e acolhedor sentimento de intimidade com algo, que embora vindo da espessura do tempo, me paralisou nele como memória perene de um fluxo de luz e quietude. 

         - Não vou poder narrar o que me contou um dos motoristas de táxi que ficará para o texto em livro (se publicação houver), mas direi uma parte da nossa conversa. No percurso entre o Campo Pequeno e o Corte Inglês, o homem, não sei a que propósito, perguntou-me onde eu morava. Quando ouviu falar em Palmela, disse-me que não havia muitos dias que tinha transportado um ilustre senhor (nomeia-o) a uma quinta em Quinta do Anjo. Digo-lhe que conheço a personagem e que ela, inclusivamente, em tempos tentou escapar aos impostos quando da compra de uma herdade aqui perto. A conversa avançado calculo que ali havia algum engano. O motorista, então, conta como encontrou o cliente em Lisboa. “Ele entrou aqui no carro e disse-me que o levasse a Azeitão... – Então não é Quinta do Anjo porque essa povoação é que fica encostada a Palmela, digo-lhe eu. – Sim. Sim, é em Azeitão porque ele a dada altura diz-me que ficava mesmo em frente do (o nome do actor seguido do dichote que não vou dizer). Chegados ao portão, o ilustre socialista e homem milionário de negócios, dá-se conta que não tinha as chaves para entrar na mansão. O condutor oferece-se para saltar o muro e chamar o casal de empregados que o cliente lhe diz viver ali com ele e mais dois cães. Aberto o portão, o motorista tem ainda uma subida para a serra, numa imensa propriedade de muitos hectares, com um palácio imenso lá no cimo. Bref. Aberta a porta da vasta residência (aqui entra a parte interessante do socialista em causa), ele diz-lhe que jante com ele e logo se dirige à cozinha e destapa tachos (um com arroz, outro com carne) de maneira a agradecer a proeza do seu condutor. Este recusa ante a insistência do proprietário. Bah! Socialistas destes, gosto...

         - Já não aprecio tanto aqueloutro, de seu nome Conde Rodrigues, amigalhaço de Sócrates, que recebeu 25 mil euros por mês a troco de aconselhamentos blablá. O homem safou-se porque foi secretário de Estado da Cultura, da Administração Interna e da Justiça. Arre! Que competência! Rico homem, sim senhor! Ah, a sumidade trabalhou também para a empresa de Carlos Santos Silva, arguido na Operação Marquês.   

         - O meu salvador andou aí para cima de uma hora e deixou o caminho limpo. Agora já posso sair sem problemas. Virá cá um dia destes (trabalho não lhe falta nesta altura) para cortar as árvores que tombaram para o lado do meu vizinho. Dou comigo a pensar que o que vou gastar com ele, economizo na compra de lenha para o Inverno que vem. 


terça-feira, fevereiro 03, 2026

 Terça, 3.

A quem tiver acesso ao quarto volume do Diário de Julien Green, Toute Ma Vie (Ed. Bouquins), recomendo a leitura das páginas 720 a 725. São trechos dilacerantes do enorme sofrimento do escritor face ao equilíbrio que ele achava imprescindível para viver segundo os mandamentos de Jesus Cristo por um lado e por outro a obsessão pelo corpo de Eros (Éric) que era para ele o demónio transformado no prazer que ambos usufruíam e sem o qual todo o desequilíbrio se instalava. Penso que este sofrimento foi em grande parte o respaldo da sua educação protestante, de uma mãe austera, de um mundo familiar crente ao ponto de se impregnar dos valores tão caros a São Paulo. A noção do pecado carnal hoje praticamente posta de parte pela Igreja, foi no séc. XIX e início do século passado devido às teorias jansenistas de Port Royal, séc. XVII, cujos ecos chegaram até Pascal e outros mais, o mandamento de todos o mais imposto, combatido, explorado e sofrido. Ao longo dos milhares de páginas deste diário pos-mortem, assistimos à luta hercúlea do autor pelo retorno à inocência, pela desistência do corpo e dos sentidos, por um regresso à pureza como se esta já não estivesse impregnada da sua condição humana e, por com seguinte, sob o descontrolo do indivíduo enquanto obra do Criador. O pecado sexual (digamos assim) é parte intrínseca dos impulsos do corpo, algo que durante muito tempo tem difícil controlo e na juventude toma a forma de crescimento a par de todos os outros desenvolvimentos. É uma manifestação (ouso dizer) de liberdade, de grito, de algo que não se confina à moral como não se restringe aos valores sociais e éticos. É o maravilhoso encontro com o outro, consentido para que os dois dele saiam leves e felizes da morada secreta que os juntou. É a natureza tout court libertada para a realização humana. Respeito os clérigos que fazem votos de castidade, e são capazes de ao longo da vida honrar essa decisão, mas penso que Deus deu essa maravilhosa realização humana e, como alguns sacerdotes dizem, estou a pensar em S. Tomás, o chamado pecado da natureza é de todos o que menos ofende a Deus. 

         - Ouvi há pouco um homem simples dar uma grande lição aos políticos e a todos nós: “A mim a política não me governa, só a cultura e o trabalho.” 


segunda-feira, fevereiro 02, 2026

 Segunda, 2.

As malfeitorias climáticas prosseguem. Continuamos com chuva por vezes forte acompanhada de vento veloz e perigoso. Dizem-nos que os rios vão galgar as margens e invadir vilas e cidades. Todo este cenário catastrófico, rima com aquele outro que nos trouxe o Kristin. Os dois candidatos a Belém cheios de piedade e competência, advogam decisões para outros invernos e desgraças a advir. 

         - O mundo está suspenso do que vai acontecer no Irão onde, diz a imprensa, os senhores todos poderosos, mataram para cima de 30 mil pessoas, a maioria jovens posto que o país é constituído de gente a rondar os trinta anos. Entretanto, Putin não desarma e antes de Trump terminar o mandato, terá por inteiro o território devolvido à Rússia. O ditador é feroz e não olha a meios para atingir os fins. As temperaturas deste Inverno rigoroso não param de subir, tendo atingido quase trinta graus negativos. Os ucranianos, sem energia destruída pelo verdugo, vivem momentos difíceis em tendas onde se aquecem e recarregam energias e telemóveis. Também em Gaza, os méritos de Trump para o Prémio Nobel estão claros nas mortes que não param e foram de mais de trinta almas às mãos dos invasores israelitas. O criminoso e corrupto Netanyahu, mantém-se no poder. Num mundo em transformação acelerada, a nossa estimada União Europeia está ausente. 

         - Green chega a ser compungente não só com Deus como para os seus leitores. Ao longo de páginas e páginas, num murmúrio ou ladainha sem fim, ele desarma a sua alma num clamor de preces e interpretações divinas que tarde ou cedo são abafadas pelos prazeres do corpo incendiado de desejos e frustrações sem fim. É certo que o objecto dos seus desejos se mantém firme em MM (Éric). Pensa ele, talvez, que essa obsessão meramente carnal é melhor que andar de rua em rua à procura do imprevisto. Mas, a pouco e pouco, no seu limitado seio de fragilidades e equilíbrios, cresce o ciúme de Robert (o amor da sua vida), e também a preocupação pelo facto de Éric não ter trabalho, nem gostar de trabalhar. Bref. Ele começou a imitar Julien Green e escreveu um romance que o célebre amante ajudou a publicar. (Abro um parêntese para dizer que li um ou outro livro de Éric Jourdan, mas achei-os sem interesse absolutamente nenhum, pese embora as opiniões do futuro pai adoptivo muito elogiosas. Aquilo é pornografia pura e dura onde a homossexualidade é contada de uma forma nojenta.) MM era viciado em sexo (e em dinheiro) e multiplicava as aventuras diariamente. No ano cinquenta e seis não tinha Éric trinta anos e Julien Green aproximava-se dos sessenta. Essa vida airada, não trouxe ao escritor nenhuma espécie de rivalidade muito menos serenidade por ser meramente carnal. A relação sincera e forte era com o seu amor de toda a vida Robert de Saint-Jean.  

         - Hoje daqui não saio, daqui ninguém me tira. Choveu toda a manhã, mas agora o campo encheu-se de sol fraco, luminoso. As folhas das árvores agitam-se numa dança frenética – é a festa que o vento seu parceiro ao bailar expande. 


domingo, fevereiro 01, 2026

Domingo, 1 de Fevereiro.

Dou comigo a magicar que o problema de Donald Trump é a doideira. O homem é maluco, foi corroído pela ganância, pelo seu excessivo ego. Depois, os que estão à sua volta aproveitam-se, oram em torno da imagem senil que se besunta de poder. Os americanos já se deram conta do desvairado que puseram à frente dos destinos do país, a sua impreparação, mas como a Constituição dos EUA dá ao Presidente todas as decisões possíveis e imaginárias ele, sendo Trump, temo-lo rei do universo, inclusive do subsolo das terras profundas onde os metais precisos o levam ao desvario. 

         - Esperemos ruidosos a observar o que vai rebentar no Irão. Trump ocupou praticamente todo o Golfo Pérsico com a tralha do porta-aviões Abraham Lincoln, robusteceu as bases militares americanas no Médio Oriente, colocou mísseis prontos a actuar, enviou centenas de militares e todo este arsenal bélico para quê? O Irão dos Ayatollahs, sendo o que é há 40 e tal anos, respondeu-lhe que experimentasse atacá-lo. Trump não percebe nada da concepção da morte e da vida para os povos persas e outros que por lá pululam. O sacrifício para esses povos é quase desejado enquanto projecção na outra vida em que acreditam fielmente ao contrário dos cristãos que deixaram de admitir que este mundo é apenas uma passagem. Depois existe o próprio regime, sustentado por uma milícia feroz, que protege até à morte o seu chefe nacional e religioso. Se a este governo centralizador e déspota, se juntar a potência que o país é, o seu material nuclear e devastador, eis o quadro que levará a América a deixar em solo estrangeiro os seus melhores filhos. 

         - Na realidade a fúria do Kristin deixou por todo o lado um rasto de morte e destruição. O centro do país está num montão de destroços e as populações sem água nem electricidade, comida e telecomunicações parecem abandonadas à sua sorte. Toda a gente da política usa a desgraça em seu proveito próprio e o Governo, com Luís Montenegro à frente, parece não ter consciência das responsabilidades que lhe compete assumir. Há tantos departamentos, tantos ministros e ministérios, tanta polícia e soldados, e ninguém possui conhecimentos para repor o mínimo de conforto às populações infelizes. Hoje como ontem, hoje como no passado, não sabemos organizar, prever, pensar o futuro. Somos uns tontos alegres ao sabor da vida. 

         - “L´homme scrute le silence, mais le silence scrute l´homme.” Max Picard anotado por Julien Green (pág. 707).