Quinta, 26.
Francis continua na arca frigorífica do hospital. Os três primeiros dias são gratuitos, depois alguém terá de pagar. Se tal não acontecer, será despejado na vala comum. Esta é a regra dos tempos modernos, a norma das democracias, da Igreja e dos negócios. Há, todavia, um grande amigo que vem dos tempos da sua adolescência e que se está a ocupar desta horrível situação. Eu lancei achas para a fogueira ao dizer o que sei sobre a sua riqueza e a sua relação amorosa com o “petit oiseau”, um rapaz que se formou há dois anos em advocacia e foi convidado por uma grande empresa do Barein onde vive e foi prevenido da morte do companheiro. Contra sua vontade, o rapaz não pode despedir-se do amigo, impedido pela guerra no Médio Oriente, onde os aviões não descolam como antes. Eu informei que há dois anos o Francis comunicou-me que tinha vendido o apartamento sobranceiro ao canal Saint-Martin onde vivia ao “petit oiseau”, e por proposta deste, ambos iriam habitar um outro no centro de Paris que o namorado havia adquirido há pouco tempo. Também disse que sei de uma casa (dizem-me que está em ruínas) perto de Bruxelas, de outra a Norte de Paris, da sua colecção de arte africana que os americanos cortejavam, de obras de arte e dos direitos de autor de toda a obra cinematográfica de Marcel Carné com quem viveu até à sua morte, em 1996, e lhe rendia somas simpáticas anuais. Tudo isto, o seu amigo sabia e o seu trabalho centra-se agora em visitar notários de modo a certificar-se quem é o seu ou seus herdeiros. Que história, hein! Que infelicidade para o pobre Francis, homem de uma cultura infindável (ao ponto de possuir um camarote ininterrupto oferecido pela Comédie Française e onde me levou uma e outra vez), generoso, divertido, amante da liberdade e cultor da amizade.
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| Francis comigo na Comédie Française há três anos. |
- Nas bocas do mundo invejoso e dos pobres, pobrezinhos que inundam este miserável país de futebol e festivais, está Mário Centeno, dito de uma maneira mais assertiva, o Portugal imperial dos funcionários públicos de alto coturno. Álvaro Santos Pereira, o novo governador do Banco de Portugal, fala do acordo que fez com o seu antecessor, e esclarece "estamos a falar em poupanças que chegam a 2,2 milhões de euros se ele ficasse, como tinha direito, até aos 70 anos." O que me acode dizer é que se trata de um roubo aos pobres, aos reformados, aos milhões de portugueses que são a mola essencial da actividade económica, aos pequenos e médios empresários, que sobrevivem à rasca, enquanto estas nobres e aristocratas criaturas vivem como príncipes e ainda usufruem de carro, motorista, reformas para cima de 10 mil euros, fundos de pensões, assistência médica e não sei mais o quê porque a revolta já me tolda o cérebro. Dizem de cabeça levantada que “têm direito” como se este “direito” estivesse inscrito na Constituição e não fosse um escândalo num país pobre e aqui se ganhasse tanto como em França, Inglaterra e por aí fora. Abro um parêntesis para o orçamento da Presidência da República que é mais elevado que o da casa real espanhola! Sirvo-me de Mário Centeno porque é ele que está na berlinda. Nada tenho contra a sua pessoa que sempre considerei um técnico eficaz, competente e lúcido.
- O mesmo não direi de Isaltino Morais, o Presidente da Câmara de Oeiras. O homem gasta em refeições para si e seus apaniguados, a módica quantia de 150 mil euros em almoços, lanches e jantares, tabaco incluído). Em que país vivemos! Somos pobres, mas a classe política é rica mesmo riquíssima. Daí a corrida aos cargos públicos. Qualquer bicho careto, com ambições conhece o percurso: fazer-se sócio de um partido político, bajular os seus dirigentes, ser humilde e patriota, conseguir um lugar de comentador na TV e esperar pacientemente que o cargo se projecte na figura. Sai figurão? Decerto.
- Dia animado. Andou aí o Sr. José Manuel, que por sua vez chamou o empregado dos Venâncios que se aproximou com o tractor e daí a meia hora o patrão. Foi uma reinação de gente que se conhece há muitos anos, trabalhadores da Adega Venâncio da Quinta do Anjo. A parte do desastre que deita para o lado meu vizinho ficou pronta e desimpedida. Na próxima vez, vou-me ocupar do muito que sobrou à minha porta.
