Quarta, 9.
Fui ver o filme de que tanto se fala: A Odisseia de Christopher Nolan. Que dizer quando tudo já foi dito? Ainda assim, atrevo-me a lançar a minha própria visão da obra de Homero que li em 2014, na tradução de Frederico Lourenço e que é preferível à interpretação de que dela faz o realizador. Aquilo é espectáculo puro, com toda a panóplia de efeitos técnicos, som e luz, transformações humanas e guerras, muitas guerras, a Guerra de Troia no centro e o regresso de Ulisses a Ítaca, tendo por protagonista o actor Malton Damon que se desembaraça bem no papel principal. O filme não me prendeu no início, desconfiado de mais uma “americanice”, sabendo eu a pouca cultura greco-latina do povo que elegeu Trump. Porém, a dada altura, começo a recordar-me da narrativa romanesca de Homero, os nomes que me eram familiares a aparecer no ecrã, as batalhas, as personagens mitológicas, os deuses adorados por homens e mulheres há quase três mil anos, todo aquele ambiente que salta nas páginas vivas de Odisseia, na sua génese textos orais. Julgo que é Frederico Lourenço que diz que Homero foi o criador da narrativa romanesca. Com efeito, são de tal modo empolgantes as imagens, que nos esquecemos de tudo para indagar que pretende o realizador com aquela proeza. Em verdade, salvo a exploração dramática levada ao cume, Ulisses está sempre presente do princípio ao fim. Talvez o retorno a Ítaca, ao lar e a Penélope que, contrariamente a todos os que a cotejam, acreditava que o marido estava vivo; seja uma espécie de transfere para algo tão comezinho como a busca de paz, silêncio e o conforto do lar após anos de guerras, perda de amigos e combatentes que lhe eram fiéis, enfim, a inutilidade da morte por objectivos que escapam à verdadeira essência da vida. Há momentos no filme que são de antologia como, por exemplo, a cena de terror de Ciclope ou o nascimento de Telémaco (Tom Holland). Ulisses um homem febril, corajoso, vaidoso, desafia monstros, mares, crenças e paradigmas, velho e gasto, desiludido e cansado, chega a casa onde o espera Penélope farta dos jogos de sedução e poder dos muitos pretendentes. Apesar da idade avançada, dos anos de guerra, de privações de toda a ordem, Ulisses ainda tem de eliminar os seus adversários que se apropriaram da casa e da mulher. Só então no regresso se interroga, no fundo de si mesmo, da utilidade das batalhas, da violência, da privação e da morte, da aventura humana levada ao extremo. Outro Ulisses transborda de inquietação sobre a sua verdadeira natureza, utilidade de tantos mortos, destruído por fantasmas, frágil e absorto ante a sua verídica natureza – a que nos revela a nós próprios quem somos. Não resisto a transpor para aqui o primeiro canto de Odisseia.
