Terça, 3.
A quem tiver acesso ao quarto volume do Diário de Julien Green, Toute Ma Vie (Ed. Bouquins), recomendo a leitura das páginas 720 a 725. São trechos dilacerantes do enorme sofrimento do escritor face ao equilíbrio que ele achava imprescindível para viver segundo os mandamentos de Jesus Cristo por um lado e por outro a obsessão pelo corpo de Eros (Éric) que era para ele o demónio transformado no prazer que ambos usufruíam e sem o qual todo o desequilíbrio se instalava. Penso que este sofrimento foi em grande parte o respaldo da sua educação protestante, de uma mãe austera, de um mundo familiar crente ao ponto de se impregnar dos valores tão caros a São Paulo. A noção do pecado carnal hoje praticamente posta de parte pela Igreja, foi no séc. XIX e início do século passado devido às teorias jansenistas de Port Royal, séc. XVII, cujos ecos chegaram até Pascal e outros mais, o mandamento de todos o mais imposto, combatido, explorado e sofrido. Ao longo dos milhares de páginas deste diário pos-mortem, assistimos à luta hercúlea do autor pelo retorno à inocência, pela desistência do corpo e dos sentidos, por um regresso à pureza como se esta já não estivesse impregnada da sua condição humana e, por com seguinte, sob o descontrolo do indivíduo enquanto obra do Criador. O pecado sexual (digamos assim) é parte intrínseca dos impulsos do corpo, algo que durante muito tempo tem difícil controlo e na juventude toma a forma de crescimento a par de todos os outros desenvolvimentos. É uma manifestação (ouso dizer) de liberdade, de grito, de algo que não se confina à moral como não se restringe aos valores sociais e éticos. É o maravilhoso encontro com o outro, consentido para que os dois dele saiam leves e felizes da morada secreta que os juntou. É a natureza tout court libertada para a realização humana. Respeito os clérigos que fazem votos de castidade, e são capazes de ao longo da vida honrar essa decisão, mas penso que Deus deu essa maravilhosa realização humana e, como alguns sacerdotes dizem, estou a pensar em S. Tomás, o chamado pecado da natureza é de todos o que menos ofende a Deus.
- Ouvi há pouco um homem simples dar uma grande lição aos políticos e a todos nós: “A mim a política não me governa, só a cultura e o trabalho.”