terça-feira, fevereiro 10, 2026

 Terça, 10.

Dizem-nos que as receitas fiscais do Estado cresceram mais do que a economia. A isto chamo eu uma economia parasitária. Vivemos continuamente de esmolas, o dinheiro sai e entra dos cofres estatais, mas este movimento não se chama progresso, desenvolvimento, emprego pleno, projectos para o futuro. 

         - Tive uma grande satisfação em saber que o meu amigo de um longo tempo das nossas vidas, apesar dos seus 87 anos, está vivo e continua a fazer longas metragens como director de luz e fotografia em filmes que ficaram para a história: Acácio de Almeida. Privámos muito, almoçávamos com regularidade, e, embora ele não falasse bastante e fosse extremamente discreto, um sorriso pairando sempre no seu rosto sereno, falava eu pelos dois, horas a fio, num ronrom interminável. A vida separou-nos, penso que ele já não vive em Lisboa, mas guardo recordações felizes de um período solto e vivo irmanados pela arte e a amizade. A entrevista que Acácio deu ao Público na edição de domingo, devolveu-me temas e personagens, luares e situações que eu bem conheço. 

         - O affaire Jeffrey Epstein na sequência de milhares de documentos, conversas, fotografias divulgadas pela justiça americana, não chamusca somente Donald Trump, mas todos os grandes vigaristas e pedófilos do mundo moderno. O socialista francês, presidente do Instituto do Mundo Árabe que eu frequento sempre que estou em Paris, Jack Land, apresentou a demissão quando o seu nome engrossou a lista de inúmeros outros, da monarquia inglesa, a Elon Musk, passando por Bill Clinton, Bill Gates, até David Copperfield como o antigo primeiro-ministro de Israel Ehud Barak. A lista é infinda, tudo boa gente, que soube aproveitar-se da fortuna do criminoso em festas galantes, onde o sexo era servido em doses adolescentes.  Como tudo isto vai terminar? Tendo em conta o criminoso máximo, Donald Trump, findará na gaveta funda da história dos tempos presentes. 

         - É curioso analisar as acções dos governantes e como elas os transformam em pessoas diametralmente opostas àquilo que eram quando chegaram ao poder. Dois exemplos: Pedro Sanchéz e Emmanuel Macron. O primeiro não é estimado pelos seus concidadãos; o segundo idem. Os dois têm em comum uma boa imagem do mundo, com diretivas certas sobre os principais assuntos que atormentam o planeta. No caso de Presidente francês, no tocante a Trump, não desarma. As últimas: a Europa não pode “baixar a guarda” face a Donald Trump, que tem uma estratégia “abertamente anti-europeia” e gera “instabilidade permanente”.

         - Dia de uma tristeza sombria. Não pus o nariz de fora, mergulhado na escrita e na leitura, um fundo de música de Vivaldi para alegrar o ambiente, um olhar perdido no destino que me trouxe até aqui. 


segunda-feira, fevereiro 09, 2026

 Segunda, 9.

Como se esperava António José Seguro foi eleito Presidente de Portugal com folga bastante para calar Ventura e poder exercer o cargo com autoridade democrática que os portugueses lhe outorgaram. Foi uma vitória contra a maluqueira do homem do Chega, contra os senis capitães do PS e contra António Costa que o ultrapassou pela esquerda e deixou o país numa rebaldaria. A abstenção e os votos nulos, são inquietantes porque rondam o desinteresse de metade dos portugueses que deixaram de acreditar na democracia. 

         - Esta manhã, continuando sem água, indaguei do Mr. Johnson se havia por aqui uma loja com máquinas automáticas de lavar roupa. O homem sabe tudo e tudo parece corresponder ao que falta a tanta gente. Assim, esta manhã, pelas oito, vi-me numa cena da Aldeia da Roupa Suja na versão tempos modernos. Quando cheguei, observei um punhado de mulheres à roda de umas seis máquinas de lavar e secar, em discussão amena, as vidinhas expostas ao sabor dos sentimentos. Apenas um homem, um rapaz de uns trinta anos, já com pouco cabelo, pró-gordo, olhar vivo, um leve sorriso tímido, também com o seu saco de roupa em fila para vaga de uma máquina. As mulheres falavam pelos cotovelos. O curioso é que eu não entendia nada do que diziam, embora parecessem estar de acordo umas com as outras enquanto o tambor da máquina rodava a bom ritmo. No ecrã ia correndo o tempo, cerca de 30 minutos para lavar e quinze minutos para secar. Eu coloquei-me atrás dele e dele me servi quando chegou a minha veze para tomar contacto com aquela pedra dura dos tempos presentes. Admiro sempre as novas tecnologias que, com efeito, nos facilitam a vida. Os monstros aceitam tudo: cartão bancário, notas, moedas. Nesse entretanto, fomos trocando conhecimento, eu fui tomar café (sem esquecer o registo do tempo no meu telemóvel), ele ficou de vigia aos sacos de roupa e ao términus da lavagem. Como tinha menos roupa, fiquei na máquina mais pequena e mais rápida, coordenada com o peso da roupa que ia lavar. Foi ele mais tarde que me ajudou passar as peças lavadas para a tombola gigante que as ia secar. E deste modo, sob chuva que não parou um segundo, regressei a casa outro solitário mais glorioso de o ser, quando vem em nossa ajuda estas coisas medonhas, modernas e simpáticas que nos emolduram a existência.

         - “Je m´aperçois qu´à mesure que j´avance et que le passé grandit, grandit aussi l´avenir, qui est l´éternité.” Julien Green, pág. 781. Não posso estar mais de acordo.  


domingo, fevereiro 08, 2026

 Domingo, 8.

Dia passajado de luz. Manhã muito cedo enfiei-me no autocarro (ai, este transporte que tanto me encanta!) e fui votar a Lisboa. Passei antes na Brasileira para um café e logo depois meti-me num táxi para o Liceu Passos Manuel, saí directamente para o Corte Inglês onde almocei tranquilo no último andar. Depois sentei-me no pequeno bistrot do primeiro andar para ler os interessantes artigos de Fr. Bentes Domingues e Tereza de Sousa. À meia-tarde regressei a casa.  

         - Quando cheguei à minha zona de voto, às 11 horas, surpreendi-me por não ver ninguém, literalmente ninguém na rua ou nas imediações do velho convento. Assim que franqueei a entrada, tinha apenas no átrio dois dos funcionários que habitualmente encaminham os mais velhos ou os indecisos para as mesas de voto. Fui por ali adentro até à sala onde costumo exercer o meu direito democrático. Como naquela e nas outras assembleias não havia ninguém, entrei de rompante, depositei a minha escolha e zarpei. Pensei: “que raio de eleições são estas! O dia parece ter acordado brilhante de sol, num convite à responsabilidade de cada um, e pouca ou nenhuma pessoa se vê na rua”. 

         - Este pensamento desceu comigo o Chiado, miraculosamente devolvido aos lisboetas como antigamente antes da invasão selvagem do turismo que tanto jeito deu a António Costa mas que dele sua excelência pouco soube beneficiar.  À minha frente, ia um casal de meia-idade, de mão dada, os dois homens feitos, com pinta de portugueses de província, semeando à sua passagem olhares risonhos, palavras cochichadas, pensamentos livres ou prisioneiros de voos que nem todos conseguem alcançar, mas já depositados na lengalenga da vida em comum, onde faltam diálogos e sobra em abundância a monotonia. 

         - Eu não tenho à mão uma mola para o nariz, porque se a tivesse, registaria a história fedorenta que me contou esta manhã o motorista brasileiro da Carris que me depositou na gare do Oriente. Viver como eu vivo desde que deixei a minha ex-vida de contactos amaneirados, bajulando medíocres em lugares corrompidos, lutando contra mim mesmo por mor de outros que tinha a meu cargo, existir desta forma invisível hoje, traz-me uma força criadora de indizível resumo. Ando de baldão com os demais, sou parte desta imensa massa humana que faz crescer os dias e diminuir as noites, que possui uma liberdade que lhes escapa, é senhor absoluto das horas, do rumo dos sentimentos, da verdade que não está à venda nem do lucro que não se expatria para os cofres-fortes nos alçapões do fim do mundo. Este que hoje sou, igual em tudo a todos os outros, carrega a maior liberdade – a que só existe para testemunhar o que o coração não pode guardar e a justiça não logra dispensar. 


sábado, fevereiro 07, 2026

 Sábado, 7.

Foi-se o Leonardo, veio a Marta. Esta ideia de dar nomes aos mafarricos, seria engraçada não fossem as tragédias que esta humanização da desgraça nos causa. Fui há pouco dar uma volta por estas paragens campestres e verifiquei os muitos estragos que a intempérie fez. Há por aqui, talvez porque as pessoas não saem de casa, uma desolação, uma tristeza infinda, o vento forte a impor-se na paisagem que chora as dores de dias e noites deixadas à mercê da tempestade. O meu vizinho também tem árvores tombadas e um portão no chão. O dia hoje até se portou bem, sobretudo depois do almoço com o sol a chegar e a deter-se por toda a tarde. Só o vento com rajas fortes assusta. Contudo, nada a ver com o que nos cercou a mando do Kristin. A boa nova foi o retorno do Black que durante dois dias julgava ter perdido o meu querido amigo. Está mais magro, mas fartou-se de cantar miadas quando me encontrou. 

         - Faz pena, todavia, ver o abandono a que foram votadas populações inteiras, deixadas para trás, no meio de vilas e aldeias cercadas de água, sem comunicações, sem comer, sem energia, sem uma alma que lhes fosse dizer que não estão sós, volvida mais de uma semana da catástrofe. Marcelo foi correto, tanto pela presença como pelos avisos que mandou ao Governo. Os candidatos a Belém, mais ou menos disfarçados de compaixões, trataram da sua vidinha; como fez Luís Montenegro, com aquele seu ar de nariz empinado, rosto ensimesmado, sorrisinho por vezes sardónico que esconde a incapacidade de abarcar os problemas humanos fora do deve e do haver que lhe é exigido. Aliás, todos os membros do seu Governo, mostraram que não estão preparados para as tarefas que se exige deles. Só a propaganda, mais ou menos velada, aflorou.  

         - Ontem, quando cheguei a casa, num espaço que detesto ver: árvores caídas, poças de água, a rede que o cerca tombada, o portão abalroado, os montes de dejectos para queimar, encontro presa nas barras do portão um saco de plástico. Com dificuldade o desembaraço do ferro e quando o abro, encontro uma folha que prontamente leio – um casal belga que me dizia gostar imenso do charme desta casa e pergunta se estaria interessado em a vender. No topo da folha está uma fotografia de dois jovens com uma rapariga que eles no texto dizem ser sua filha de quatro anos e o sonho de poderem vir a viver em Palmela que dizem adorar.


sexta-feira, fevereiro 06, 2026

 Sexta, 6.

Escrevo estas linhas na Fnac. Estive na Brasileira a levar um pouco de conforto moral ao João que atravessa um período de doença que espero seja passageiro. Manhã serena, matizada por luz baixa e um não sei quê que me devolveu para outros tempos quando o Chiado era local de cultura e resistência. Vim no meu sereno autocarro da Carris, atravessando campos onde era visível o horror que sacudiu o país. Tanta desolação por todo o lado, como se tivéssemos sido atacados por uma guerra - tal a imagem de dor e espanto onde os nossos olhos pousam. 

         ~ Os óculos de António Seguro, se for verdade o que me contou um farmacêutico, custaram 5 mil euros! Eu não dava dez reis de mel coado. Que coisa tão horrível e inestética! Domingo vou votar nele, embora não acredite que possa mudar o clientelismo, a corrupção, a falta de honestidade e incompetência da Administra Pública. 

         - Um exemplo. Anteontem andei a saltar de metro em metro e em todas as estações por onde passei as escadas rolantes e elevadores não funcionavam e assim estão há uma data de meses. Todo o funcionalismo público segue este miserável exemplo. Estão protegidos pela imposição dos sindicatos que seguem a ortodoxia salazarenta. O povo que se resigne, o reinado é deles. Que se lixem as mães de bebés nos braços, os velhos trôpegos, os coxinhos coitadinhos, e toda essa gama de reumáticos pouco habituados ao ginásio em que se transformaram hoje as estações do Metro de Lisboa. 


quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Quinta, 5.

Desta vez sobrou para mim. Acordei pelas cinco e meia da manhã com um barulho estranho de qualquer coisa que se havia soltado debaixo da minha janela. Logo pensei que seria o telhado a desabar. Soube quando me levantei às oito, que havia sido um prato grande alentejano que eu tinha na parede, e tinha deslizado por ela abaixo até se enfiar nas almofadas do canapé sem uma beliscadura. O pior veio depois. Quando quis sair com o carro, tinha o caminho até ao portão todo juncado de braços enormes que se tinham rasgado dos cedros gigantes e dos sobreiros que vão desde a casa ao fundo da quinta. Mais ou menos a meio, um grande buraco de onde tinha saído a raiz imensa de um cedro e com ela o cano que leva a água a casa, rebentado. Mais: três ou quatro barrotes de cimento que sustentam a rede que circunda o terreno, tombaram. A maior parte das árvores, caíram para o terreno do meu vizinho e com ele vou ter de me entender. Por agora, o único que se mostrou disponível foi o meu generoso Sr. José Manuel que vem acudir à tragédia depois do almoço. Tenho para várias centenas de euros. O vento não pára; parece mesmo mais agreste. 

         - Ontem, depois de muitas hesitações, fui a Lisboa. Não quis render-me às indecisões da idade, aos obstáculos da intempérie, ao pavor de uma capital paralisada pela chuva forte e constante. Tinha um programa em mente e fui destemidamente realizá-lo. Viajei no meu querido autocarro com meia dúzia de passageiros, sob vento e chuva, o Tejo de barriga cheia, mas em Alcabideche, corajosos homens apanhavam bivalves, indiferentes ao que se passava em terra. Em pára arranca, chegámos a Oriente. Como tinha em mente ir almoçar ao 1800, o meu saudoso restaurante do Largo do Rato, fui dali no metro ao Saldanha, tomei depois a linha azul, e por volta da uma da tarde estava sentado à mesa. Posteriormente fui ver de um fisioterapeuta ao Centro de Saúde, num táxi para o C.I. e a seguir a umas compras, noutro para o oculista onde tinha à minha espera o acerto da lente esquerda dos últimos óculos. Tomei novo táxi que me levou de regresso à estação de metro S. Sebastião para me enfiar no transporte que me levou ao ponto de chegada para voltar a entrar no autocarro de regresso a casa. As horas deste vai-e-vem pela cidade, foram de guarda-chuva aberto, rajadas por vezes fortes de vento, e a imagem de ruas e avenidas lamentavelmente abandonadas ao temporal. Fica-me do dia um estranho e acolhedor sentimento de intimidade com algo, que embora vindo da espessura do tempo, me paralisou nele como memória perene de um fluxo de luz e quietude. 

         - Não vou poder narrar o que me contou um dos motoristas de táxi que ficará para o texto em livro (se publicação houver), mas direi uma parte da nossa conversa. No percurso entre o Campo Pequeno e o Corte Inglês, o homem, não sei a que propósito, perguntou-me onde eu morava. Quando ouviu falar em Palmela, disse-me que não havia muitos dias que tinha transportado um ilustre senhor (nomeia-o) a uma quinta em Quinta do Anjo. Digo-lhe que conheço a personagem e que ela, inclusivamente, em tempos tentou escapar aos impostos quando da compra de uma herdade aqui perto. A conversa avançado calculo que ali havia algum engano. O motorista, então, conta como encontrou o cliente em Lisboa. “Ele entrou aqui no carro e disse-me que o levasse a Azeitão... – Então não é Quinta do Anjo porque essa povoação é que fica encostada a Palmela, digo-lhe eu. – Sim. Sim, é em Azeitão porque ele a dada altura diz-me que ficava mesmo em frente do (o nome do actor seguido do dichote que não vou dizer). Chegados ao portão, o ilustre socialista e homem milionário de negócios, dá-se conta que não tinha as chaves para entrar na mansão. O condutor oferece-se para saltar o muro e chamar o casal de empregados que o cliente lhe diz viver ali com ele e mais dois cães. Aberto o portão, o motorista tem ainda uma subida para a serra, numa imensa propriedade de muitos hectares, com um palácio imenso lá no cimo. Bref. Aberta a porta da vasta residência (aqui entra a parte interessante do socialista em causa), ele diz-lhe que jante com ele e logo se dirige à cozinha e destapa tachos (um com arroz, outro com carne) de maneira a agradecer a proeza do seu condutor. Este recusa ante a insistência do proprietário. Bah! Socialistas destes, gosto...

         - Já não aprecio tanto aqueloutro, de seu nome Conde Rodrigues, amigalhaço de Sócrates, que recebeu 25 mil euros por mês a troco de aconselhamentos blablá. O homem safou-se porque foi secretário de Estado da Cultura, da Administração Interna e da Justiça. Arre! Que competência! Rico homem, sim senhor! Ah, a sumidade trabalhou também para a empresa de Carlos Santos Silva, arguido na Operação Marquês.   

         - O meu salvador andou aí para cima de uma hora e deixou o caminho limpo. Agora já posso sair sem problemas. Virá cá um dia destes (trabalho não lhe falta nesta altura) para cortar as árvores que tombaram para o lado do meu vizinho. Dou comigo a pensar que o que vou gastar com ele, economizo na compra de lenha para o Inverno que vem. 


terça-feira, fevereiro 03, 2026

 Terça, 3.

A quem tiver acesso ao quarto volume do Diário de Julien Green, Toute Ma Vie (Ed. Bouquins), recomendo a leitura das páginas 720 a 725. São trechos dilacerantes do enorme sofrimento do escritor face ao equilíbrio que ele achava imprescindível para viver segundo os mandamentos de Jesus Cristo por um lado e por outro a obsessão pelo corpo de Eros (Éric) que era para ele o demónio transformado no prazer que ambos usufruíam e sem o qual todo o desequilíbrio se instalava. Penso que este sofrimento foi em grande parte o respaldo da sua educação protestante, de uma mãe austera, de um mundo familiar crente ao ponto de se impregnar dos valores tão caros a São Paulo. A noção do pecado carnal hoje praticamente posta de parte pela Igreja, foi no séc. XIX e início do século passado devido às teorias jansenistas de Port Royal, séc. XVII, cujos ecos chegaram até Pascal e outros mais, o mandamento de todos o mais imposto, combatido, explorado e sofrido. Ao longo dos milhares de páginas deste diário pos-mortem, assistimos à luta hercúlea do autor pelo retorno à inocência, pela desistência do corpo e dos sentidos, por um regresso à pureza como se esta já não estivesse impregnada da sua condição humana e, por com seguinte, sob o descontrolo do indivíduo enquanto obra do Criador. O pecado sexual (digamos assim) é parte intrínseca dos impulsos do corpo, algo que durante muito tempo tem difícil controlo e na juventude toma a forma de crescimento a par de todos os outros desenvolvimentos. É uma manifestação (ouso dizer) de liberdade, de grito, de algo que não se confina à moral como não se restringe aos valores sociais e éticos. É o maravilhoso encontro com o outro, consentido para que os dois dele saiam leves e felizes da morada secreta que os juntou. É a natureza tout court libertada para a realização humana. Respeito os clérigos que fazem votos de castidade, e são capazes de ao longo da vida honrar essa decisão, mas penso que Deus deu essa maravilhosa realização humana e, como alguns sacerdotes dizem, estou a pensar em S. Tomás, o chamado pecado da natureza é de todos o que menos ofende a Deus. 

         - Ouvi há pouco um homem simples dar uma grande lição aos políticos e a todos nós: “A mim a política não me governa, só a cultura e o trabalho.”