Sábado, 20.
Às vezes suspendo-me a admirar as paredes desta casa, as estantes a abarrotar de livros, os quadros suspensos de onde desce toda a amizade e simpatia dos artistas que admiro e com quem convivi, os móveis estrategicamente colocados para serem presença quase humana do meu viver, a atmosfera de sossego indispensável ao labor quotidiano, a mesa onde escrevo voltada para o campo de onde brotam as árvores, ternas amigas com quem dialogo e colho energias para esta solidão abençoada ramificada num lugar eterno onde elas e eu permaneceremos para a eternidade. O cheiro bafiento da riqueza nunca aqui entrou, só o conforto esteve presente desde o dia e ano em que deixei de viver em Lisboa e me revigorei no contacto com a natureza que desde logo me abençoou. Não foi fácil aqui chegar, duros foram os meses a acompanhar a construção deste refúgio, a lidar com os operários e, sobretudo, com os empreiteiros que me tentaram roubar obrigando-me a comprar tijolos, sacas de cimento, material que lhes serviria noutras edificações de casas, com lucro a dobrar. Investi sobre todos os desaires, só, montado no escudo invisível que não sinto no corpo, mas me asperge de coragem e motivação. Todo o interior não fora concebido pelo meu amigo arquitecto João Biancard que desenhou a casa durante os nossos jantares, mas sim por mim, passo a passo, à medida que ia vendo crescer estes muros, abrirem-se divisões, cantos e recantos. Aqui suprimi uma porta para levantar uma janela, acolá mandei fazer um sobrado para instalar parte da biblioteca, as casas de banho forradas a azulejo com pinturas assinadas pelo meu saudoso amigo Osório e realizadas nas oficinas de Sebastião Fortuna. Para as janelas e portas, andei com o mestre Fortuna semanas a fio, a correr seca e meca em busca de cantarias antigas que se ajustassem às suas dimensões. Quando o esqueleto da habitação ficou pronto e os pedreiros e os aldrabões dos construtores partiram, entrou o meu querido e pesaroso Fernando Fernandes com a sua equipa de deficientes de grau máximo, mandando eu vir do Brasil o soalho para o chão, portas, janelas e portadas que este excelente artista assentou, montou, afinou e que até hoje, já lá vão trinta anos, nada mexeu ou desajustou e se conserva inalterável em cor, fendas e brilho apesar do seu físico deformado, o pescoço que quase não mexia, as dores que propagavam durante o penoso ofício de carpinteiro. Na semana seguinte à cobertura das tábuas no chão do rés-chão e quartos no andar de cima, veio o envernizador, trazido por um sobrinho, em cadeira de rodas. Para o primeiro andar, o rapaz conduziu o tio nos braços e depois levava-lhe a cadeira e desse modo o trabalho maravilhoso que ele executou ainda hoje refulge no aprumo e rigor da sua assinatura. Quando Fernando Fernandes, deu por findo o trabalho e se preparava para se despedir, eu inventei outro afazer e ainda um terceiro e foi ele que me disse que tinha de abalar porque outros clientes esperavam por ele. No intervalo, andaram aí dois estucadores meio loucos, que num só dia despacharam as paredes da moradia. Entretanto, desde o começo desta aventura, tinham passado cinco meses. Surgia, então, um sítio só meu para habitar e um enorme espaço de campo selvagem, com vinha e árvores de fruto, que tive de deitar abaixo quando a nossa querida então CEE proibiu que se fizesse vinho fora dos circuitos comerciais e as oliveiras que me davam um azeite excelente, mandou fechar os lagares onde eu levava todos os anos a colheita das azeitonas. Quando um pintor meio doido acabou a pintura exterior e eu interiorizei que era aqui que viveria, fui tomado de um pavor indiscritível. Deixar o Príncipe real onde vivi uma grande parte da minha vida, era obra de um louco. Todavia, de cada vez que jantava com o João Biancard, ele repetia: “Quando começares a levar os teus livros para Palmela, depressa te instalarás.” Dito e feito. Com a ajuda preciosa dos Amados e dos seus empregados, que trouxeram na carrinha da empresa da qual eram sócios, estantes e móveis, e mais o auxílio dos meus sobrinhos e amigos deles, num ápice o interior ficou acolhedor e o seu proprietário recolhido no conforto que desde logo aqui reina. A seguir ao Verão instalou-se o Outono e eu fora agasalhado com uma manta de silêncio. No caminhar do tempo a casa, qual cofre inviolável, foi guardando delírios, serões de conversas sossegadas, loucuras, amores feitos e desfeitos, noites no respaldo de muitos cansaços engolidos pela opacidade das horas, pensamentos construídos no limiar de angústias, pedaços de palavras atiradas ao fogo que arde na lareira, e sobretudo, a pouco e pouco, ergueram-se novos alicerces que sustêm a memória, a recordação do que não morre, o sopro que alimenta a vida que me coube viver, plena no ser solitário e inteiro que sou, onde crepita nos momentos o desespero e renasce de recônditos lugares a esperança de dias plenos de luz. Adoro este espaço, os pássaros que me acordam, os ventos mansos e demoníacos, a fruta que me alimenta, a sombras das figueiras, a lonjura que me aproxima de quem de mim precisa, o silêncio que não pára de dialogar, o murmúrio dos segredos que nem às sombras se contam, aqui densos, límpidos, cheios da ternura que embala as horas, os dias, os meses, os anos. Serei eu de novo feliz na terra que me viveu nascer? Habitar uma padiola, circunscrever-me a um espaço restrito, sem vista que me abrace quando tanto anseio por me perder de mim, voar pelo espaço sideral, eclipsar-me num sítio onde reine a felicidade que as coisas simples impregnam de doçura...
- Vai por aí uma berraria medonha contra Ronaldo. O “maior jogador do mundo”, o “craque eterno”, o “português mais famoso”, que subiu da pobreza à luxúria pateta que o isola dos demais, porque o resultado do seu talento é-lhe roubado pelo peso dos anos que não poupa ricos nem pobres, todos irmanados na mesma condição. Neste infeliz país o futebol é uma espécie de pancada forte no toutiço de cada português; assim também eu fui obrigado a acompanhar o drama nacional. Acontece que normalmente vejo os noticiários da SIC. Esta, como todas as televisões, não falam de outra coisa senão do Mundial de Futebol e mais precisamente do resultado da partida Portugal vs RD Congo. Ao infeliz ricaço chamam-lhe tudo: avô, velhote, empecilho em campo, estorvo para os companheiros da Selecção, e outros vitupérios desagradáveis. Eu nunca fui seu fan, embora o tenha visto algumas vezes a atravessar a Largo do Chiado no seu automóvel vistoso, de música aos berros para que o mundo sentado na Brasileira o admirasse. Nunca apreciei o seu físico construído, pomadado, o ar provinciano que o dinheiro e o conhecimento de Donald Trump e dos príncipes das arábias não ousaram abrilhantar, é arrogante, vaidoso, e muito menos o sex-appeal que mulheres e alguns homens cobiçam. No entanto, o pobre madeirense, tem algumas características que aprecio: é trabalhador, apesar de já “velhinho” não se dá conta do ridículo daquele pendericalho que desce da orelha esquerda, não tatuou o corpo com amostras de tapetes chineses como os companheiros, chora quando se emociona, e decerto, interiormente, sofre por não ser mais o ídolo que o alcandorou ao lugar passageiro da fama. Dizem as mulheres que com ele se deitaram (penso na americana dona dos hotéis Hilton?), que foi uma decepção, mas isso deve ser ciúme de loucas varridas pelo vazio dos seus corpos saturados dos cheiros nauseabundos dos adónis masculinos...



