Sábado, 25.
Aqui fica o meu protesto neste dia significativo para a democracia. Do que ouvi e vi, foi igual ao que aconteceu há dez, vinte, trinta, quarenta anos – uma ladainha de palavras vãs, de intenções, de vazio.
História de Um Acidente de Saúde
Dia 21 p.p. fui acometido de um súbito mau-estar quando trabalhava no Chiado. Fechei o compuatador e disse a um senhor sentado perto de mim, que me sentia mal. Segundos depois fazia um desmaio seguido de vómitos que só vim a confrontar quando voltei a mim. Logo a equipa da livraria Fanc me rodeou e chamou o INEM que chegou cerca de 30 minutos depois. Amáveis, seguros, impecáveis mediram-me a tensão (6-5) e tudo fizeram para me acalmar e erguer do chão onde estive até à sua chegada. Num instante, chegámos ao hospital de S. José. Aqui tudo se complicou. Desde logo as exiguas salas onde me deixaram em maca, imagem de país pobre, salazarento, onde a dignidade humana não existe como vou provar.
O médico jovem que me recebeu, ordenou a um rapaz africano de tranças Nagô que fosse comigo ao wc mudar de roupa porque a que trazia estava, de facto, imprópria. Daí a minutos abalou dizendo « volto já » - nunca mais regressou. Ali estive à sua espera um bom tempo, enquanto senhoras abriam e fechavam a porta, aflitas, por não o poderem utilizar. Foi quando optei por ir saber do meu destino num hospital que parecia saído da II Guerra Mundial : muita gente em espaços minúsculos, funcionários ronceiros (felizmente nem todos), sem capacidade para responder aos muitos utentes, macas encostadas às paredes de corredores onde o movimento era constante, poucas cadeiras para a avalanche de gente, doentes impacientes, alguns disseram-me ali aguardar há 12 horas, outros há oito, nove e um rapaz que me pareceu indiano, há tantas horas que optou por dormir na sala de espera coberto com um lençol, quatro cadeiras unidas por colchão para não falar na imundice dos sanitários. Asseguro-vos que não vi um ministro, um deputado, um autarca.
De senha na mão (nº 253, tarja amarela) fui pedir explicações a uma funcionária, tinham passado já três horas. Esta diz-me que tivesse paciência, voltasse para a sala e aguardasse ser chamado pelo médico. Fui. Fechei os olhos, desviei o pensamento de forma a afastar-me deste país, desta miséria moral, deste murmúrio de reivindicações e promessas, desta tristeza e pobreza de SNS, que tem servido para tudo, menos para os cidadãos que o pagam com língua de fora. E pensei num dos seus fundadores, António Arnaut, nas muitas cambalhotas que ele tem dado no caixão por cada doente abandonado, humilhado, silenciado, desprezado, maltratado.
Pelas oito e tal da noite, levantei-me de novo e fui ao guiché pedir explicações para tamanha espera. Atrás do vidro, diante do computador, estava uma senhora muito produzida, de longos cabelos pretos de azeviche, que me respondeu : « Olhe, estou agora aqui a ver que o médico está a mexer na sua ficha, vá para a sala não tarda chamam-o. » Monstruosa mentira. Para lá retornei, e de lá saí exague, mais tarde, perdido, desiludido, humilhado, abandonado, triste pela inutilidade da democracia de um país que muito pouco tem feito pela nossa saúde – pilar fundamental da condição humana.
Helder de Sousa
#atonadovento
c.c. Ministério da Saúde e
Procurador de Justiça.