sexta-feira, fevereiro 13, 2026

 Sexta, 13.

O Palácio Nacional de Mafra, recentemente intervencionado com milhões do PRR, oferece ao visitante a imagem que a foto documenta. A pergunta que devemos fazer é esta: é aceitável que o monumento sofra estes estragos na sequência da intempérie ou a sua protecção foi umas simples cócegas que nos custaram os olhos da cara? Ao que dizem os jornais, a água escorre pelas paredes, o vento abana janelas e portas, o estuque cai das paredes e tectos. Este é mais um retrato de como está a fiscalização pública onde ninguém é responsável por coisa nenhuma e onde os barões bem pagos se coçam para dentro e cúmplices de muita falcatrua cospem para o lado. 

         - E todavia, a ladainha das rádios, das televisões, dos jornais, dos políticos, dos autarcas, de toda esta gentalha que nos tem governado, passado o perigo logo retorna ao mesmo rame-rame, aos sorrisos cínicos, aos negócios públicos e privados, remetendo para os ouvintes e espectadores as fórmulas precisas e eficazes da governação, como se estes fossem alguém com as suas ideias e comentários na conjuntura nacional. Recorde-se os incêndios, as muitas propostas para os evitar, e como o ano passado voltaram em força provando que nada foi deito. 

         - Disse-me esta manhã o João que é uma espécie de guarda nocturno, que choveu toda a noite em Lisboa. Eu não ouvi nada, dormindo como durmo. Quando acordei e desci, o aspeto que a quinta tinha, a chuva a cair abundante, abria o quadro do que fora a noite. Nunca o país que eu me lembre, sofrera tão prolongada e triste situação. Praticamente, com especial cuidado para a zona centro e a minha insigne Coimbra, os desastres são muitos e vão precisar de assaz de tempo para serem corrigidos. Tempo e dinheiro, sofrimento e revolta das populações, dos portugueses em geral que vêem o seu país a ficar para trás e as suas vidas reduzidas à pobreza da época de Salazar. Mas os ricos, nunca foram tantos e tão prósperos; a corrupção nunca esteve tão assanhada; a impunidade nunca bateu os recordes de hoje. Grande democracia que trouxeste mais horror e desigualdades, fazes vergonha e puseste no horizonte de atalaia a ditadura que espreita pacientemente o momento para se reinstalar. 

         - Porque falei no João, vou contar o que me disse o motorista da Carris Metropolitana. Cito antes a parábola do João que sabe do que fala, porque enquanto deputado em várias legislaturas, percorreu o país de Norte a Sul, de Este a Oeste. “Caro Helder: os portugueses são maus e invejosos.” Eu não posso afirmar que actos como este sejam frequentes, embora o funcionário me tivesse dito que eu não imaginava o que se passa nos transportes públicos. E o que ele me narrou (peço ao leitor que tape o nariz) foi que naquele mesmo carro que ele conduzia e eu ia entrar, não havia duas semanas, um/a utente, despejou os intestinos no banco traseiro corrido e com cortinados nas costas. No dia seguinte, os passageiros que entravam, denunciavam um cheiro horrível, mas ninguém identificou logo a origem nem o local. Só mais tarde um dos motoristas mandou retirar a posta, mas os protestos dos viajantes prosseguiram. Até que entrou um casal que se foi sentar nos últimos lugares e deu com os cortinados sujos que o/a selvagem tinha usado como papel higiénico. Que fizeram eles, arrancaram-nos e atiraram-nos auto-ónibus fora. As meninas do BE, estou certo, defenderiam os energúmenos, com a máxima de que eles não eram culpados, mas sim a sociedade que não os soube educar.


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

 Quarta, 11.

Demitiu-se Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna, por se sentir incapaz de fazer face à fúria da intempérie e às desgraças que aconteceram por todo o lado. Todavia, é de todo o direito dizer, que ela foi honesta quando falou que estamos todos a fazer um processo de “aprendizagem colectiva”. Os oportunistas, os que querem o poder e a fama a todo o custo, interpretaram à sua maneira algo que a ministra disse com humildade e sapiência, ante um fenómeno natural nunca visto que nos dá a todos a oportunidade de  aprender. 

A verdade, porém, é esta: são culpados do que está a acontecer os que nos governaram nos últimos vinte anos. O país esteve entregue à dupla PS/PSD   que só avançou quando os portugueses se manifestaram nas ruas exigindo trabalho, competência e espírito criativo aos sucessivos governos. A vidinha ronceira, um toque aqui outro acolá, a propaganda ideológica, a corrupção, o compadrio, a falta de fiscalização, o enriquecimento ilícito, as falcatruas disseminaram-se por todo o lado, o poder era exercido quando a população pressionava, os vencimentos muito acima da maioria da população, caíam redondos e chorudos nas suas contas bancárias, a vida estava para quem lhe saísse a grande lotaria do poder. Fazia-se (faz-se) tudo o que as companhias com poder e dinheiro queriam: edifícios sem controlo técnico, postos de alta-tensão junto a propriedades, a pinheiros e a toda a sorte de árvores, gruas cresciam no meio do casario, estradas eram abertas sem nenhuma fiscalização, etc., etc., etc.  Os ministros formam-se nos gabinetes ministeriais, a rua é para o povão. Nas desgraças os lucros crescem, os arruaceiros enriquecem, os políticos demitem-se, a oposição em bicos de pés aproveita as dores e as tristezas para lamber as lágrimas dos infelizes. 

         - Noto que depois de há dois meses ter sofrido dores insuportáveis nas costas que quase me paralisaram, passei a coxear melhor. Daí que, por exemplo, hoje no metro e no autocarro e noutros dias nos mesmos transportes públicos, gente nova me dá o lugar, quer ajudar-me a entrar aqui e acolá. 


terça-feira, fevereiro 10, 2026

 Terça, 10.

Dizem-nos que as receitas fiscais do Estado cresceram mais do que a economia. A isto chamo eu uma economia parasitária. Vivemos continuamente de esmolas, o dinheiro sai e entra dos cofres estatais, mas este movimento não se chama progresso, desenvolvimento, emprego pleno, projectos para o futuro. 

         - Tive uma grande satisfação em saber que o meu amigo de um longo tempo das nossas vidas, apesar dos seus 87 anos, está vivo e continua a fazer longas metragens como director de luz e fotografia em filmes que ficaram para a história: Acácio de Almeida. Privámos muito, almoçávamos com regularidade, e, embora ele não falasse bastante e fosse extremamente discreto, um sorriso pairando sempre no seu rosto sereno, falava eu pelos dois, horas a fio, num ronrom interminável. A vida separou-nos, penso que ele já não vive em Lisboa, mas guardo recordações felizes de um período solto e vivo irmanados pela arte e a amizade. A entrevista que Acácio deu ao Público na edição de domingo, devolveu-me temas e personagens, luares e situações que eu bem conheço. 

         - O affaire Jeffrey Epstein na sequência de milhões de documentos, conversas, fotografias divulgadas pela justiça americana, não chamusca somente Donald Trump, mas todos os grandes vigaristas e pedófilos do mundo moderno. O socialista francês, presidente do Instituto do Mundo Árabe que eu frequento sempre que estou em Paris, Jack Land, apresentou a demissão quando o seu nome engrossou a lista de inúmeros outros, da monarquia inglesa, a Elon Musk, passando por Bill Clinton, Bill Gates, até David Copperfield como o antigo primeiro-ministro de Israel Ehud Barak. A lista é infinda, tudo boa gente, que soube aproveitar-se da fortuna do criminoso em festas galantes, onde o sexo era servido em doses adolescentes.  Como tudo isto vai terminar? Tendo em conta o criminoso máximo, Donald Trump, findará na gaveta funda da história dos tempos presentes. 

         - É curioso analisar as acções dos governantes e como elas os transformam em pessoas diametralmente opostas àquilo que eram quando chegaram ao poder. Dois exemplos: Pedro Sanchéz e Emmanuel Macron. O primeiro não é estimado pelos seus concidadãos; o segundo idem. Os dois têm em comum uma boa imagem do mundo, com diretivas certas sobre os principais assuntos que atormentam o planeta. No caso de Presidente francês, no tocante a Trump, não desarma. As últimas: a Europa não pode “baixar a guarda” face a Donald Trump, que tem uma estratégia “abertamente anti-europeia” e gera “instabilidade permanente”.

         - Dia de uma tristeza sombria. Não pus o nariz de fora, mergulhado na escrita e na leitura, um fundo de música de Vivaldi para alegrar o ambiente, um olhar perdido no destino que me trouxe até aqui. 


segunda-feira, fevereiro 09, 2026

 Segunda, 9.

Como se esperava António José Seguro foi eleito Presidente de Portugal com folga bastante para calar Ventura e poder exercer o cargo com autoridade democrática que os portugueses lhe outorgaram. Foi uma vitória contra a maluqueira do homem do Chega, contra os senis capitães do PS e contra António Costa que o ultrapassou pela esquerda e deixou o país numa rebaldaria. A abstenção e os votos nulos, são inquietantes porque rondam o desinteresse de metade dos portugueses que deixaram de acreditar na democracia. 

         - Esta manhã, continuando sem água, indaguei do Mr. Johnson se havia por aqui uma loja com máquinas automáticas de lavar roupa. O homem sabe tudo e tudo parece corresponder ao que falta a tanta gente. Assim, esta manhã, pelas oito, vi-me numa cena da Aldeia da Roupa Suja na versão tempos modernos. Quando cheguei, observei um punhado de mulheres à roda de umas seis máquinas de lavar e secar, em discussão amena, as vidinhas expostas ao sabor dos sentimentos. Apenas um homem, um rapaz de uns trinta anos, já com pouco cabelo, pró-gordo, olhar vivo, um leve sorriso tímido, também com o seu saco de roupa em fila para vaga de uma máquina. As mulheres falavam pelos cotovelos. O curioso é que eu não entendia nada do que diziam, embora parecessem estar de acordo umas com as outras enquanto o tambor da máquina rodava a bom ritmo. No ecrã ia correndo o tempo, cerca de 30 minutos para lavar e quinze minutos para secar. Eu coloquei-me atrás dele e dele me servi quando chegou a minha veze para tomar contacto com aquela pedra dura dos tempos presentes. Admiro sempre as novas tecnologias que, com efeito, nos facilitam a vida. Os monstros aceitam tudo: cartão bancário, notas, moedas. Nesse entretanto, fomos trocando conhecimento, eu fui tomar café (sem esquecer o registo do tempo no meu telemóvel), ele ficou de vigia aos sacos de roupa e ao términus da lavagem. Como tinha menos roupa, fiquei na máquina mais pequena e mais rápida, coordenada com o peso da roupa que ia lavar. Foi ele mais tarde que me ajudou passar as peças lavadas para a tombola gigante que as ia secar. E deste modo, sob chuva que não parou um segundo, regressei a casa outro solitário mais glorioso de o ser, quando vem em nossa ajuda estas coisas medonhas, modernas e simpáticas que nos emolduram a existência.

         - “Je m´aperçois qu´à mesure que j´avance et que le passé grandit, grandit aussi l´avenir, qui est l´éternité.” Julien Green, pág. 781. Não posso estar mais de acordo.  


domingo, fevereiro 08, 2026

 Domingo, 8.

Dia passajado de luz. Manhã muito cedo enfiei-me no autocarro (ai, este transporte que tanto me encanta!) e fui votar a Lisboa. Passei antes na Brasileira para um café e logo depois meti-me num táxi para o Liceu Passos Manuel, saí directamente para o Corte Inglês onde almocei tranquilo no último andar. Depois sentei-me no pequeno bistrot do primeiro andar para ler os interessantes artigos de Fr. Bentes Domingues e Tereza de Sousa. À meia-tarde regressei a casa.  

         - Quando cheguei à minha zona de voto, às 11 horas, surpreendi-me por não ver ninguém, literalmente ninguém na rua ou nas imediações do velho convento. Assim que franqueei a entrada, tinha apenas no átrio dois dos funcionários que habitualmente encaminham os mais velhos ou os indecisos para as mesas de voto. Fui por ali adentro até à sala onde costumo exercer o meu direito democrático. Como naquela e nas outras assembleias não havia ninguém, entrei de rompante, depositei a minha escolha e zarpei. Pensei: “que raio de eleições são estas! O dia parece ter acordado brilhante de sol, num convite à responsabilidade de cada um, e pouca ou nenhuma pessoa se vê na rua”. 

         - Este pensamento desceu comigo o Chiado, miraculosamente devolvido aos lisboetas como antigamente antes da invasão selvagem do turismo que tanto jeito deu a António Costa mas que dele sua excelência pouco soube beneficiar.  À minha frente, ia um casal de meia-idade, de mão dada, os dois homens feitos, com pinta de portugueses de província, semeando à sua passagem olhares risonhos, palavras cochichadas, pensamentos livres ou prisioneiros de voos que nem todos conseguem alcançar, mas já depositados na lengalenga da vida em comum, onde faltam diálogos e sobra em abundância a monotonia. 

         - Eu não tenho à mão uma mola para o nariz, porque se a tivesse, registaria a história fedorenta que me contou esta manhã o motorista brasileiro da Carris que me depositou na gare do Oriente. Viver como eu vivo desde que deixei a minha ex-vida de contactos amaneirados, bajulando medíocres em lugares corrompidos, lutando contra mim mesmo por mor de outros que tinha a meu cargo, existir desta forma invisível hoje, traz-me uma força criadora de indizível resumo. Ando de baldão com os demais, sou parte desta imensa massa humana que faz crescer os dias e diminuir as noites, que possui uma liberdade que lhes escapa, é senhor absoluto das horas, do rumo dos sentimentos, da verdade que não está à venda nem do lucro que não se expatria para os cofres-fortes nos alçapões do fim do mundo. Este que hoje sou, igual em tudo a todos os outros, carrega a maior liberdade – a que só existe para testemunhar o que o coração não pode guardar e a justiça não logra dispensar. 


sábado, fevereiro 07, 2026

 Sábado, 7.

Foi-se o Leonardo, veio a Marta. Esta ideia de dar nomes aos mafarricos, seria engraçada não fossem as tragédias que esta humanização da desgraça nos causa. Fui há pouco dar uma volta por estas paragens campestres e verifiquei os muitos estragos que a intempérie fez. Há por aqui, talvez porque as pessoas não saem de casa, uma desolação, uma tristeza infinda, o vento forte a impor-se na paisagem que chora as dores de dias e noites deixadas à mercê da tempestade. O meu vizinho também tem árvores tombadas e um portão no chão. O dia hoje até se portou bem, sobretudo depois do almoço com o sol a chegar e a deter-se por toda a tarde. Só o vento com rajas fortes assusta. Contudo, nada a ver com o que nos cercou a mando do Kristin. A boa nova foi o retorno do Black que durante dois dias julgava ter perdido o meu querido amigo. Está mais magro, mas fartou-se de cantar miadas quando me encontrou. 

         - Faz pena, todavia, ver o abandono a que foram votadas populações inteiras, deixadas para trás, no meio de vilas e aldeias cercadas de água, sem comunicações, sem comer, sem energia, sem uma alma que lhes fosse dizer que não estão sós, volvida mais de uma semana da catástrofe. Marcelo foi correto, tanto pela presença como pelos avisos que mandou ao Governo. Os candidatos a Belém, mais ou menos disfarçados de compaixões, trataram da sua vidinha; como fez Luís Montenegro, com aquele seu ar de nariz empinado, rosto ensimesmado, sorrisinho por vezes sardónico que esconde a incapacidade de abarcar os problemas humanos fora do deve e do haver que lhe é exigido. Aliás, todos os membros do seu Governo, mostraram que não estão preparados para as tarefas que se exige deles. Só a propaganda, mais ou menos velada, aflorou.  

         - Ontem, quando cheguei a casa, num espaço que detesto ver: árvores caídas, poças de água, a rede que o cerca tombada, o portão abalroado, os montes de dejectos para queimar, encontro presa nas barras do portão um saco de plástico. Com dificuldade o desembaraço do ferro e quando o abro, encontro uma folha que prontamente leio – um casal belga que me dizia gostar imenso do charme desta casa e pergunta se estaria interessado em a vender. No topo da folha está uma fotografia de dois jovens com uma rapariga que eles no texto dizem ser sua filha de quatro anos e o sonho de poderem vir a viver em Palmela que dizem adorar.


sexta-feira, fevereiro 06, 2026

 Sexta, 6.

Escrevo estas linhas na Fnac. Estive na Brasileira a levar um pouco de conforto moral ao João que atravessa um período de doença que espero seja passageiro. Manhã serena, matizada por luz baixa e um não sei quê que me devolveu para outros tempos quando o Chiado era local de cultura e resistência. Vim no meu sereno autocarro da Carris, atravessando campos onde era visível o horror que sacudiu o país. Tanta desolação por todo o lado, como se tivéssemos sido atacados por uma guerra - tal a imagem de dor e espanto onde os nossos olhos pousam. 

         ~ Os óculos de António Seguro, se for verdade o que me contou um farmacêutico, custaram 5 mil euros! Eu não dava dez reis de mel coado. Que coisa tão horrível e inestética! Domingo vou votar nele, embora não acredite que possa mudar o clientelismo, a corrupção, a falta de honestidade e incompetência da Administra Pública. 

         - Um exemplo. Anteontem andei a saltar de metro em metro e em todas as estações por onde passei as escadas rolantes e elevadores não funcionavam e assim estão há uma data de meses. Todo o funcionalismo público segue este miserável exemplo. Estão protegidos pela imposição dos sindicatos que seguem a ortodoxia salazarenta. O povo que se resigne, o reinado é deles. Que se lixem as mães de bebés nos braços, os velhos trôpegos, os coxinhos coitadinhos, e toda essa gama de reumáticos pouco habituados ao ginásio em que se transformaram hoje as estações do Metro de Lisboa.