domingo, outubro 25, 2026

 Domingo, 25.

Ontem houve uma enorme manifestação em Lisboa e Porto. Ao Rossio voltaram as tendas e os jovens que lutam por eles e por outra metade da população que são os velhos. Estão ambos no mesmo barco que ameaça afundar-se se os políticos manhosos nada fizerem. E nada farão a não ser atiçar os agentes da polícia contra os que na rua imploram justiça e equilíbrio. O Bugalhito, veio de Bruxelas onde ninguém sabe quem a criatura é, para defender, como diz, a integridade física da Polícia, ele que arreava nas mulheres infelizes que gostaram do espécime. Às ordens de Montenegro e de Luís Neves, os polícias carregaram forte sobre os manifestantes indefesos, alguns tiveram de receber tratamento no Santa Maria. 

         - Terminei Êxodos. Deve ser talvez o livro mais fascinante dentro do Pentateuco. YHWH, é minucioso no programa que dita a Moisés, indo ao ponto de indicar as medidas para os objectos de culto, exige tudo feito em ouro e prata, madeiras sem bicho, dá a dimensão do sacrário, quer material de primeira, hoje diríamos estilista na maneira como indica o corte e confecção das peças eclesiásticas, é exigentíssimo, impõe, ameaça, e, embora Moisés lhe pedisse “revela-Te a mim” (33-13), Ele responde: “Ninguém verá a Minha cara e viverá (33-20). A Minha cara não te aparecerá.”(33-23) São 39 capítulos onde Deus encaminha os filhos israelitas para a terra de destino e pelo caminho, através de nuvens abertas nas montanhas, faz subir o Profeta que anotará ao pormenor as bases judaicas, pensamento e acção. Ao ler o Êxodo, compreendi melhor a mentalidade dos judeus – muito do que eles são hoje, já desde a sua saída do Egipto está traçado. Jesus e os seus Evangelhos, contrariam muito do que ali está constituído, disso me ocuparei quando entrar em Levítico. 


sábado, outubro 24, 2026

 Sábado, 24.

A Europa da União Europeia parece moribunda, afogada nas suas contradições e incapacidade de sobreviver às frustrações populares sem cair num regime totalitário. As novas gerações estão fartas de ficar para trás, de ver avançar uma classe de oportunistas, de gente a quem não interessa o bem comum, antes os esquemas partidários, as lutas ideológicas, os arranjos pessoais, o compadrio e o panache de uma vida de luxo paga pelos impostos dos cidadãos cada vez mais pesados. Uma reviravolta anuncia-se com a juventude a tomar a dianteira em manifestações de descontentamento: Portugal, França, Espanha, Itália, Grécia, Bélgica e passo. Alguns dirigentes, em desespero para enfrentarem as mais que justas reivindicações, ensaiam atitudes drásticas próximas de regimes onde a ditadura impera. O jogo poderoso do capital como meio único de desenvolvimento, nas mãos de gente gananciosa e desumana que só vê cifrões e tem manietado os países em seu proveito próprio, a pouco e pouco, erigiu pequenos impérios de influência, ginástica financeira, poder e redução de milhões a tarefeiros pagos como escravos, sem que os Estados pouco possam fazer. A dimensão ética da política está manietada por grupos económicos que governam o mundo e minam os dispositivos institucionais, os governos, e fazem tiro ao alvo a este ou aquele governante corrupto que se deixa arrastar por somas astronómicas. Esta Europa tem os dias contados, os extremos vão devorá-la e os povos traídos estão já a sofrer por destinados. 

         - “A perspectiva mais assustadora é saber aquilo que perdemos quando perdemos a leitura. Perdemos muito mais que este livro ou aquele, perdemos uma dimensão do pensamento e de relação com a própria linguagem.” O dono deste texto é Miguel Serras Pereira e foi nele que pensei quando ontem, no Corte Inglês, peguei no último volume do diário publicado há dias de Marcelo Mathias. Depois, quando subi para dormir, peguei no Dom Quixote por ele traduzido e levei-o comigo para o quarto demorando-me a reler passagens e, sobretudo, a deliciar-me com as notas de rodapé do ilustre tradutor, não fora os meus olhinhos e iria pela noite adentro embalado por Cervantes. O Miguel Serras Pereira encontrei-o eu no jornal A Capital e sempre apreciei a sua notável capacidade de trabalho e inteligência. Perdi-o de vista quando deixou o jornalismo para se dedicar à tradução e à poesia. Um dia, em Lisboa, dou de caras com a Cetinha e, ou me engano, ou ela disse-me que estava a viver em Leiria com ele. Como não sei onde meti o número de telefone que ela me deu... 


sexta-feira, outubro 23, 2026

 Sexta, 23.

Putin e Trump, por interposto especulador imobiliário seu assessor, trocaram salamaleques de humanismo, disputando qual deles seria o mais humano. Isto aconteceu nos salões de ouro do Kremlin pela tarde; à noite o primeiro despejou uns quantos mísseis sobre Kiev matando crianças, destruindo edifícios, semeando a destruição. Quanto ao segundo, cogitando com Netanyahu, preparam ambos uma ofensiva que o louco varrido promete ser definitiva. É o humanismo da guerra. 

         - O nosso Bugalhito, ficou excluído de vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Popular Europeu por uma mulher na troca de cadeiras entre machos e fêmeas. É a vingança delas contra um tipo que arreia a eito nas indefesas criaturas que caiam pelo beicinho aos seus pés. O pequerrucho, ao jeito do seu congénere Jordan Bardella, muito apinocado à moda antiga, hirto, um sorriso de vitória que aprendeu em Santarém quando catrapiscava o miudame à saída da escola, e depois utilizou nas suas homilias televisivas, muito antes da definitiva e hipnótica mirada a Luís Montenegro, tem vindo a segurar-se pelos fios mágicos da partidarite como aconteceu a José Sócrates com António Guterres. O final só conheceremos se virmos o filme até ao fim. 

         - Os epopeicos miúdos levantaram as tendas onde dormiam, no Rossio. O tempo mudou, as noites são mais frias, húmidas e dentro de uma tenda difíceis de suportar. O pior é que não temos gente com competência para mudar o país e fazer as reformas que os dois partidos, ronceiros e cúmplices, nunca conseguiram. Um porque deposita na iniciativa privada toda a dinâmica; o outro porque malbarata o tesouro público em ajudas imediatas aos pobrezinhos que tanto jeito dão às ideologias, mas não equilibram as contas públicas, nem criam riqueza. 

         - Voltando ao louco americano de seu nome Donald Trump (os italianos dizem Donald Trampa, terão as suas razões). Há uma parte de loucura no homem que até podia animar o mundo, porque o desarrumo do apuro presidencial é tal, que seria útil ao contrabalanço da hipocrisia e importância da maioria das excelências dos nossos dirigentes. Outro dia, a criatura, depois de ter versado sobre a dimensão dos pés dos seus acólitos em ligação com o que cada um tem entre as pernas, falou agora do traseiro de um dos seus próximos na Presidência. Acha-o demasiado grande e isso desagradou-o ao ponto de falar do assunto mais do que uma vez. Certa imprenssa americana dúvida que com a idade não espreite ali a homossexualidade. 


quarta-feira, outubro 21, 2026

Quarta, 21.

Em França muitas cidades, incluindo Paris, estão sob recolher obrigatório a partir de certa hora. Foi a fórmula encontrada pelo Governo para conter a intromissão da extrema-esquerda que tomou conta das arrudas estudantis e deixou o país num caos. Entre nós temos a sorte de ter um ministro do calibre de Luís Neves que tem às suas ordens não só a Polícia como o seu subalterno primeiro-ministro. 

         - Entretanto, está a crescer por todo o lado, a luta dos deserdados ao direito a habitação condigna. Porto, Lisboa, Évora, Algarve, estão nas ruas a chocalhar a vidinha cambapé dos nossos políticos que só trabalham quando se vêem confrontados pelo povo nas praças e ruas. A tragédia a que se chegou com o aumento de casas contentores marítimos, tendas, automóveis transformados em habitação, caravanas, quartos miseráveis alugados ao preço de uma casa com três divisões, é obra exclusiva dos partidos que desde o 25 de Abril tiveram o poder. A mediocridade raramente andou afastada do poder, os esquemas foram trampolim para chegar a empresas públicas, cargos criados a pedido, cunhas, estratégicas partidárias, enriquecimento indevido, ideologias ultrapassadas sem qualquer ligação com a realidade actual, para não esquecer a napa de corrupção que se instalou como uma aranha gigante.

         - Assim, Luís Neves, manda a polícia atacar os infelizes da sorte obrigando-os, como diz, a cumprir a lei; ele que fintou a mesma lei que os outros são forçados a observar. Fê-lo para proteger antes de mais o seu subordinado, chefe do Governo, mas igualmente para sobressair como ministro com autoridade e poder. Não apreciei as palavras que utilizou para se afirmar, arrogantes, mandonas, autoritárias, que não utilizou quando os polícias montaram quartel em frente à Assembleia da República, e noutras ocasiões por outros lados. É forte com os fracos, é cínico com todos quantos desprezam o seu poder. A verdade é, contudo, esta: se os jovens se revoltam, é porque a montante ninguém se importou com eles como seria sua obrigação. Quem deveria ser julgado, era a catrefa de homens e mulheres que ocuparam S. Bento durante os últimos 30 anos de democracia. Estas kafkianas criaturas que nos governam, têm apenas um fito: fazer crescer as fortunas dos que as têm não se sabe como e reduzir milhões a assalariados mal pagos à pobreza extrema. Depois daquela sujeita de nome Cristas, nenhum inquilino teve mais sossego, como não temos na saúde, na educação, na vida do dia-a-dia transformada numa luta permanente pela nossa dignidade e sobrevivência.  

 

terça-feira, outubro 20, 2026

Terça, 20.

Podem os jovens reivindicar o justíssimo direito à habitação, a Polícia carregar sobre eles, os partidos escaparem às responsabilidades do que está a acontecer, o custo de vida ficar insuportável, as escolas estarem enxameadas de bullying, a pobreza continuar a crescer, os velhos definharem de solidão e tristeza, que nada me entristece mais, nada me revolta tanto, indigna, deprime até às lágrimas que ver o maior dos portugueses, até o maior do mundo, que Montenegro venera e quer transformar cada português à sua imagem e semelhança, ser multado em 255 euros por se ter eclipsado no seu jacto privado das responsabilidades nacionais a que estava obrigado e deste modo cair na indigência. Isto não se faz à nossa bandeira nacional. 



segunda-feira, outubro 19, 2026

 Segunda, 19.

Faleceu Joaquim Letria. Conheci-o bem, gostava muito dele e encontrávamo-nos com regularidade. Quando eu entrei para o jornalismo, trabalhava ele no Diário de Lisboa e durante um tempo, fizemos um acordo fornecendo-lhe eu as notícias que saíam das vigílias no Hospital da Cruz Vermelha onde, caloiro no metier, “dormia” à espera da morte de Salazar ao serviço do Primeiro de Janeiro. A par do jornal, ele trabalhava para Associated Press - era daí que vinham os escudos que me faziam muito jeito. Cada vez que nos víamos, discutíamos tudo, sem regra nem travões, sempre com um sorriso conivente alicerçado na amizade que recordo como momentos de afecto e cumplicidade. Ele vivia aqui para estas bandas e hoje lamento nunca o ter procurado. Repousa em paz, afectuoso amigo. Um dia darás tu a notícia da minha chegada ao paraíso onde te encontras.

         - Repito: nunca vi a França como hoje a vemos, nem no Maio de 68 os saques, a destruição de edifícios camarários e históricos, a pilhagem, os incêndios, a desordem e as prisões (fala-se em mais de duas mil detenções), têm comparação. Macron mostra-se incapaz de pôr ordem no país, a esquerda e a direita, estando por detrás de grupos anarcas, disputam nos confrontos o poder. A habitual selvajaria dos franceses, da juventude aos mais velhos, exibe nas ruas de Paris, Marselha, Lille, os horrores que fragilizam a democracia sem solucionar os problemas que justamente os estudantes trouxeram para a ribalta política. 

         - Por cá, prosseguem as manifestações contra as políticas de Luís Montenegro, que eu digo serem do PSD e do PS, partidos que, para o bem e para o mal, têm governado o nosso triste país. Entrou tanto dinheiro da UE e Portugal mantém o mesmo nível de pobreza, de insatisfacção, de desequilíbrio e desenvolvimento. Não se vê, não se sentem as mudanças, os milhões eclipsaram-se, as empresas continuam periclitantes, a vida quotidiana marca passo, rente aos tostões que se contam para isto e para aquilo, só a desfaçatez de primeiro-ministro fala em progresso, em pleno emprego, indo ao ponto de achar normal rendas de 2.500 euros (gostava de saber quanto pagam os seus inquilinos). O “nosso povo”, pelo menos uma ínfima parte, acredita ainda no slogan “o povo é quem mais ordena” quando esta fantasia nunca teve relação com a realidade, nem nunca fizeram uso dela. 

         - Vou deixar a escrita para me dedicar à doçaria. A experiência de ontem aí está e leva-me a dizer, como fazem na TSF os banhas da cobra dos empresários - não há marmelada branca melhor que a minha. 



domingo, outubro 18, 2026

 Domingo, 18.

Quando a CGTP aproveita o descontentamento natural dos que não conseguem ter uma vida digna, tudo se complica e desvia das causas aqueles que legitimamente reivindicam os seus direitos na rua. Vejamos, o que ouvi do dirigente da Intersindical, foram apoios aos cubanos e palestinianos que me coloca do seu lado, já não gosto de gente sectária, de tala nos olhos, que oculta deliberadamente as guerras que proliferam por todo o lado. O PCP que sustenta ideologicamente a Organização, nunca se pôs ao lado da Ucrânia e com isso passou para o mínimo de deputados na Assembleia. Quando eles proclamam o fim da guerra, fazem-no na generalidade, pergunto-me quem o não quer, nunca dizem frontalmente à Rússia que cesse de atacar a Ucrânia; quando pretendem que a Europa páre de investir em defesa, e nada dizem dois milhões de milhões que países como a China, Rússia, Coreia do Norte empregam em armamento bélico moderno, estão a contribuir para que os povos europeus fiquem à mercê das vitórias fáceis daqueles países e, portanto, por eles conquistados sob as ditaduras aí vigentes. Perguntou-me que tem a ver com o direito à habitação Cuba e Palestina. Por outro lado, se o futuro for uma guerra generalizada, quem esfrega as mãos de contentamento é Trump, Putin, Xi Jinping e alguns mais assassinos. 

         - Entretanto, Lisboa foi contaminada pelo Porto. No Rossio centenas de jovens gritaram por habitação e vida condignas, tendas foram montadas, pediram a anulação da nova lei de arrendamento, citaram e bem, os 55 imóveis do ricaço Luís Montenegro. Não houve distúrbios, nem aqui nem no Porto, a Polícia não foi enviada pelo ministro que continua na via pública por mais uns quantos desvios à lei e favorecimentos por pesquisar. Ninguém com dois dedos de testa, vai acreditar que uma pessoa que é proprietária deste império imobiliário, tenha em conta a vida rasteira dos jovens e da velhice marginalizada. Trump que se fez na corrupção e na especulação, não deve ter tantos rendimentos do sector como Montenegro...

         - Ontem, em uma hora, li o livro de Gunter Grass: Fazer de Estátua. Gosto muito do escritor, li alguns livros da sua imensa obra, foi Nobel um ano depois de Saramago, em 1999, e este trabalho é uma espécie de novela que o autor queria incluir na autobiografia Descascando a Cebola que devorei em 2017. (Abro parênteses para anotar o desabafo do escritor já feito, a propósito dos erros de ortografia, em carta de amor escrita aos 15 anos: “Ainda hoje me sinto periclitante em matéria de ortografia.”) Também eu tenho muita hesitação, sobretudo quando os computadores estão em sintonia com o AO que pretendeu aproximar o português do Brasil com o de Portugal. Esta autobiografia é uma fantasia que tem na base a figura de Uta de Naumburgo, a mulher mais bela da Idade Média. Grass nasce na Polónia, mas é na Alemanha que constrói a sua vida, tendo, inclusivamente, tido casa no Algarve. Qualquer dos seus livros são fascinantes.

         - O livro desceu da biblioteca de cima e ficou na mesa de apoio à mão de semear. Como não sou pessoa para ler em diagonal, todos os meus livros estão anotados, sublinhados, vividos. Por isso, se me permitem, transcrevo estes dois sublinhados: “São os leves começos que equilibram tudo aquilo de mais pesado vem depois (pág. 325); “Quem escreve desiste de si próprio. Só os serviços de finanças é que não querem reconhecer que a existência do autor é uma mera afirmação, por isso uma ficção e não tributável” (pág. 283).  

         - Para o que me deu esta tarde, como se não tivesse já trabalho bastante para a encher. Longe vão os anos em que a Zitó e o Couto vinham por aqui, colhiam os marmelos e um mês depois tinha umas quantas tijelas com a deliciosa marmelada feita pela minha talentosa amiga. Nunca esquecerei esses fins-de-semana encantadores e com base neles, atirei-me a fazer eu próprio o delicado doce. Nunca tinha feito a experiência e espero ter realizado o feito, não ao nível da confecção da Zitó, mas com o pensamento na nossa amizade de mais de quarenta anos.