Quinta, 15.
Na trapalhada Trump, um tipo impreparado, inculto, um desastre para a humanidade, veio agora - dizem os entendidos para evitar a derrota humilhante nas eleições intercalares de Novembro -, a ideia de aceitar a proposta do ditador russo de utilizar os activos russos congelados nos Estados Unidos, avaliados em mil milhões de dólares, após acordo de paz com a Ucrânia, para reconstruir Palestina. Que idiotice! Os EUA que desde remota idade tinham a Rússia por inimiga, vê agora, de repente, uma aliada com quem se pode fazer todo o tipo de negócios.
- Eu tenho em conta a economia não só por educação, como por vantagem de dignidade que ela me proporciona. Hoje, utilizando o benefício que me dá o cartão do ACP, fui atestar o depósito. A última vez que o havia feito, foi em Julho (tendo em conta que no mês de Agosto não pude utilizar o veículo), mesmo assim posso-me felicitar. Só uso o carro quando por aqui me desloco e não sinto nenhuma ambição em fazer dele o trono de importância absolutamente ridícula que ele representa para certa classe de portugueses.
- A pressão dos meus sobrinhos para deixar este convento, é imensa. Todas as semanas ouço um chorrilho de argumentos, todos eles válidos e lúcidos, mas o silêncio que aqui reina, a luz que se espraie por entre as árvores, a quietude dos dias onde do firmamento desce o espanto divino do céu azul em permanência, percorrido por nuvens que desenham formas humanas e animais, o sibilar dos pássaros à desgarrada, o ténue manto que cobre a casa num mistério que se foi adensando com o correr dos anos, este sossego diria quase sobrenatural que me paralisa, me encanta, me absorve as horas, me deixa petrificado ante algo que não vejo, mas sinto em pleno em todo o meu ser, o rastejar das sombras a esgueirarem-se do dia, e quando este declina, a mancheia de perfumes que se impregna na minha pele, desliza no ar, estaca em pequenas manchas que os meus olhos identificam como presenças de algo que não ouso soletrar, talvez o anúncio da noite, fechadas as portadas e janelas, o interior habitado dos livros, companheiros seguros de uma vida, agrupados como sentinelas nas prateleiras, forrando as paredes de expectantes criaturas que sabendo tudo, ignoram o essencial que se desdobra das doutrinas e das filosofias, umas e outras, ultrapassadas pelos diálogos murmurados no fio tangível das madrugadas, na solidão edificante que cresce do chão, sobe os andares, e volta a sair pelas janelas abertas com o fim de refrescar as divisões seguido do murmúrio do vento lá fora, na noite estrelada de mil cintilações, que os meus olhos admiram, sempre originais, meses e anos, para meu gozo e interpenetração dos sentidos, sob a magia da Lua que me parece sorrir todas as noites quando antes de me deitar com ela travo uma oração de alegria e bem-estar, espécie de reconhecimento por habitar este lugar solitário, esta planície sonolenta, estes caminhos de terra batida onde raramente se afoita um carro, uma presença humana, uma sombra batida pelo segredo que reside na noite sossegada, antes das madrugadas abençoarem este espaço fresco, este momento sublime, traçado a esquadro para nele reinar omnipresente um bouquet de saudades, de vidas vividas, agasalhadas no amor vadio, colhido dos minutos amplos e em breve transformados em horas, dias, meses, anos, cerradas janelas e portas, sobre camas desfeitas, pensamentos eternos, imagens, sentimentos etéreos, tudo no chão enrolado numa eternidade cujo traço se perdeu em rolos de glória ou empecilhos de derrotas, porque por aqui tudo chegou no imprevisto das noites, das auroras, ou das tardes abafadas de recordações que não me largam e são o suporte de uma felicidade nua, crua, irrecusável, em cujos pilares assenta a casa, o seu proprietário, o silêncio, a magia de um não sei quê de algo que não ouso traduzir, mas encontro palavras para adiar ou recusar, ou suspender ou parar o tempo, imobilizá-lo algures dentro de mim, com este solo que cuidei, esta casa que levantei, este mundo que só eu sei abreviar num sentimento que os meus sobrinhos nunca perceberão, porque desconhecem o maravilhoso que há na persistência da solidão, do fecho para dentro de nós, como se a morte se harmonizasse com a vida que se lhe segue, onde, estou certo, encontrarei um naco de terra para voltar a erguer a arte de viver em consonância com a minha identidade, verticalidade, sentido vivido na irmandade sagrada, na consubstanciação da alegria, no lugar onde reina até ao infinito mil recordações...