domingo, fevereiro 22, 2026

 Domingo, 22.

Belo dia de sol e um silêncio levíssimo a estender-se no campo agasalho das desgraças que o atingiram. Nada está solucionado, nada se abandonou à sua sorte. O Johnson esteve aí de manhã a ver e a dar pareceres sobre o muito que há a fazer para que este espaço volte a ter dignidade e beleza. Pela minha parte continuei a poda das hortênsias que terminei ao fim da tarde. Trabalho durantes anos feito pela pobre Piedade que está num estado horrível. A ver vamos se a arte do podador se iguala à dela. 

         - Cheguei à página 1000 do diário de Green. Muito haveria a dizer do que diz o escritor, sobretudo quando os campos entre o diarista, o seu “Robert, mon amour” e MM (Éric) se extremam. E por sobre a sua vida dividida entre o prazer, a escrita, o teatro e a presença de Deus a par do pecado como afastamento divino, Green, o espiritual sofre por não conseguir resistir ao sexo que ele considera (sob a moral da época) um pecado maior. Éric não quer trabalhar, vive sob a protecção do escritor que acaba por alimentar os amantes que o amante não cessa de acumular com as suas necessidades de sexo três vez ao dia. Robert sente ciúme e adverte o seu amor de uma vida, mas Julien diz-lhe que nada poderá dividi-los. A narrativa acaba por ser igualmente o diário deste trio que sendo tão desigual e, do lado do autor de Moira, tão profundamente perturbador quando no final de todos os seus dias está invariavelmente a pedir perdão a Deus para no dia seguinte tudo recomeçar. 


sexta-feira, fevereiro 20, 2026

 Sexta, 20.

Ontem, quando deixei a loja Lentes de Contacto, observado por um dos oftalmologistas associado, exultei de contentamento e segurança de que em breve não terei de trabalhar com apenas um dos olhos. O Dr. Bruno, detectou o erro devido ao facto de no Gama Pinto a coisa ser feita em cadeia de produção e não terem dado o tempo necessário à adaptação da cirurgia da catarata que é de dois meses. Conclusão: os exames posteriores no olho esquerdo deram 0,25 dioptrias quando ele, Dr. Bruno, disse ser de 1,45. A diferença é substancial e é nela que espero voltar a utilizar o olho esquerdo.  

          - Saí levitando, tomado por uma energia imprevista, a manhã linda ajudando, e caminhei por ali avante até à Gulbenkian não distante. Como eram horas de almoço, fui abancar no restaurante do lado chinês para uma refeição à maneira, quero dizer, sem olhar à despesa. Antes, porém, passei de raspão na exposição Xerazade por conhecer a maior parte do que ali estava exposto. Na minha frente tinha o esplendor na natureza toda emoldurada da frescura que pingava de cada ramo, de um verde intenso, como se a Primavera se tivesse adiantado somente para mim que extasiado a admirava sob o manto de paz e sossego que me trouxe a perspectiva de voltar a ver como antes. 

         - No carro, fui ouvindo o debate na Assembleia da República. O secretário-geral do PS falava num português de chinelo impróprio para um senhor doutor...

         - Alinho estas linhas na Fnac depois de ter deixado o João com quem estive esta manhã na Brasileira. Por vezes, um leitor ou amigo, inquieta-se como posso eu continuar a suportar ideias políticas diametralmente opostas às minhas, respondo que estimo a amizade antes das preferências ideológicas dos meus amigos. No caso do João, ele é duplo de Janus o deus da mitologia romana, com duas faces opostas. Ele professa uma coisa e vive outra. Pertence a uma geração que combateu ferozmente a ditadura de Salazar e posteriormente teve apoio e existência em todos aqueles que no seu tempo lutaram a seu lado. Daí não muda, as raízes adquiridas ficaram, a doutrina é imutável e soberana enquanto essência de uma filosofia completamente ultrapassada, mas que ele não tem liberdade para encaixar, prosseguindo um quotidiano quase isolado porque os da sua geração foram juncando o chão de imortais figuras do inconformismo. 


terça-feira, fevereiro 17, 2026

 Terça, 17. 

Há dias li um artigo de João Miguel Tavares que não apreciei mesmo nada, devido ao tom e ao conteúdo. Insurgia-se ele contra o novo reitor da Universidade Nova de Lisboa, Paulo Pereira, que deu um prazo de trinta dias para que todas as faculdades passassem a ter a designação em português. Esta medida, absolutamente de acordo com a lei, indignou o habitual rabinho liberal do articulista, que apresentou como exemplo de projecção internacional, a universidade Nova School of Business and Economics porque assim designada, trouxe alunos de várias partes do mundo e está cotada entre as melhores do universo universitário. Tavares segue o provincianismo que se instalou por todo o lado, o abandalhamento da nossa língua, e a abusiva introdução não da língua de William Shakespeare, mas a de Donald Trump ou se quisermos ser tipicamente portugueses e desenvoltos no inglês clássico, a de António Costa, na nossa. Não tivesse a universidade de carcavelos professores à altura, não seria a presunção em inglês que lhe daria os méritos de que usufrui. 

         - Eu não tenho uma opinião formada sobre José Luís Carneiro. Contudo, julgo que a “geringonça” não lhe teria agradado muito e, portanto, a sua postura em relação ao PCP e Bloco de Esquerda, que responsabilizou pela queda do Governo, em 2021. Daí ter-se batido para a criação de um “centro de político” que pudesse dar estabilidade ao país – projecto que a maioria dos portugueses aprovaria disso estou convencido. Acontece, que sábado passado, fui ao encontro do João à Brasileira e dali, sendo horas de almoço, ele perguntou-me onde ia almoçar. Respondi que passei a seguir a regra do falecido Sr. Castilho, segundo o qual o melhor é comer uma sandes que nos restaurantes sem fiscalização e de onde quase sempre se sai com problemas de estômago e algum hemorroidal. Eu sei que ele adora comer e coisas pesadas embora o negue. Disse-lhe que ia à FNAC mastigar uma sandes e meia de leite – “comer é em casa”. Fomos. Mal nos sentámos, assomou a política e a minha tradicional oposição a tudo o que ele dizia. Todavia, nesse entretanto, aparece um homem dos seus cinquenta anos, que o cumprimenta e se senta na mesa próxima. Não tardou ambos trocarem palavras, sempre em uníssono, sempre atadas num único raciocínio. Falou-se da Intersindical e João criticou a quantidade de sindicatos que a partir dela se formaram. Eu disse ainda bem, porque a Inter está subordinada ao PCP e, por isso, não é independente e os seus associados fartos de saberem isso, separaram-se. A discussão azedou um tanto. A dada altura, o estranho homem, levantou-se e trocou algumas palavras com o João que eu não detive. Quando nos despedimos, diz-me o João que ele é (ou fora) um dos elementos de direcção do sindicato dos trabalhadores. Esta conversa vem a propósito de quê? Ah, do Secretário-geral do PS. Os dois, por diversas vezes, quase o insultaram, dizendo terem pena que António Costa tenha deixado o Governo e lamentaram também o volte face de Pedro Nuno Santos que se afastou igualmente. 

         - Hoje aqui foi um dia em pleno. O meu vizinho veio ajudar com o tractor e ele e o Sr. José Manuel limparam o grosso que caiu para o seu lado. Admiro a valentia desta gente que já não é jovem, mas desafia os jovens com todo o rigor, competência e generosidade. Pelo que vejo e muito há ainda para cortar, tenho lenha para mais três invernos. O trabalho, porém, vai arrastar-se por muito tempo. 


segunda-feira, fevereiro 16, 2026

 Segunda, 16.

A América é uma no cravo, outra na taralhoquice. Em mais uma reunião sobre Segurança e NATO, Marco Rubio, o ministro dos Negócios Estrangeiros americano, disse em Munique que “os Estados Unidos são filhos da Europa”, e “foram feitos para viverem juntos”. Foi o suficiente para que a plateia se levantasse em louvores às palavras daquele que serve apenas Trump (embora me pareça o mais equilibrado do manicómio da Casa Branca). Depois da sua presença de charme, logo zarpou para uma visita à Hungria e outra à Eslováquia, dois países amigalhaços de Putin. A nossa frágil e humilde União Europeia, o que pretende e ambiciona é viver na paz dos anjos, continuar a não fazer peva, distribuir bênçãos à direita e à esquerda, falar, falar, falar até que o sono e as cordas vocais os levem ao sono da História. Depois, sim, podem gozar em pleno as reformas milionárias e o prestígio que eles pensam imortais. 

         - Se assim não fosse, atente-se naquela reunião tão ao gosto do nosso ex-primeiro-ministro, num belo castelo da Flandres, Bélgica, para parlapatar sobre as reformas necessárias à revitalização da economia europeia. Eu, sem querer ser do contra, acabado o curto descanso dos nossos infatigáveis políticos num fantástico castelo do séc. XVI a que Costa chamou “um retiro informal para discutir reformas económicas, competitividade contra EUA/China e inteligência artificial”, não ouvi uma só palavra dos felizardos que, talvez por se tratar de um retiro que por essência interdita o falatório, saíram sorridentes e felizes daquele descanso entre amigos. António Costa sempre gostou do aparato e de fazer política que os subordinados aplicariam. Assim vai o mundo, arrastado por esta sorte de gente que nos coube na rifa do destino. 

         - Entretanto, por entre as reuniões inúteis e viciadas, corridas em pescadinha, o comandante da corrupção em Israel, prossegue a matança em série. Ontem foram mais de uma dúzia de palestinianos mortos. Ao todo, se este número estiver correpto do que duvido, pereceram sob as bombas dos fanáticos judeus, 72 mil palestinianos.  

         - Volodymyr Zelensky passou na reunião da NATO e aliança com os EUA de Munique. O enérgico político, primus inter pares, voltou a apelar aos pobres pequeno-burgueses dirigentes da União Europeia, que o ajudassem na sua luta contra o ditador de Moscovo. Este, exibindo a cara onde se estatelou o ódio e o cinismo, prossegue as ofensivas a centrais eléctricas, num Inverno particularmente duro para além dos ataques a várias zonas da Ucrânia incluindo Kiev.  

         - A propósito do sinistro pequeno homem, “czar de pacotilha” como lhe chamava Navalny, que submete o povo russo e o esmaga com as suas botas stalinianas, foi descoberto a semana passada algo que ninguém duvidava: Putin mandara assassinar na prisão, para lá do Círculo Polar Ártico, a 16 de Fevereiro de 2024, o seu opositor Alexey Anatolievich  Navalny. Os cientistas europeus acusam o carrasco do Kremlin de ter matado o activista com veneno de rã, uma neurotoxina que dá pelo nome de epibatidina, mais forte que a morfina. Aliás o próprio Navalny previu a sua morte às mãos de tirano. Aconselho vivamente aos meus leitores a leitura das suas memórias (Ed. Porto Editora, colecção Ideias de Ler), onde o combatente pelos direitos humanos, diz que até ao momento em que assistiu ao nascimento do primeiro filho não acreditava em Deus; a partir daí, perante a beleza e o mistério daquele instante único, passou a ser crente. Assim se vê a sensibilidade do homem nascido sob um regime ditatorial feroz. E lembrar-me eu, que foi este regime que os comunistas portugueses defenderam. 


 

        - Voltei ao lavadouro tecnológico. 


domingo, fevereiro 15, 2026

 Domingo, 15.

O bom tempo regressou e logo os rostos dos portugueses aspergiram felicidade. Somos irmãos gémeos e não podemos apartar-nos. Eu, como muitos dos meus compatriotas que viveram algum tempo no estrangeiro, sabemos bem como o astro-rei faz parte do nosso ADN. Assim sendo, por Coimbra e concelhos limítrofes, as águas começaram a descer, as populações regressam às suas casas, a vida experimentou um ar de normalidade, embora a desolação continue por todo o lado. 

         - Por aqui, tendo ontem deixado a quinta a cargo do Sr. José Manuel, quando regressei já noite, encontrei uma certa ordem com os troncos das árvores cerrados, alguns detritos queimados e muita lenha que irá engrandecer o próximo Inverno. Pela minha parte, apesar das dores nas costas, no levantar e agachar, comecei a podar as hortênsias. Trabalho demorado pela sua especificidade e cuidado. Por sobre tanta tristeza, as amendoeiras sorriem em flor. 






sexta-feira, fevereiro 13, 2026

 Sexta, 13.

O Palácio Nacional de Mafra, recentemente intervencionado com milhões do PRR, oferece ao visitante a imagem que a foto documenta. A pergunta que devemos fazer é esta: é aceitável que o monumento sofra estes estragos na sequência da intempérie ou a sua protecção foi umas simples cócegas que nos custaram os olhos da cara? Ao que dizem os jornais, a água escorre pelas paredes, o vento abana janelas e portas, o estuque cai das paredes e tectos. Este é mais um retrato de como está a fiscalização pública onde ninguém é responsável por coisa nenhuma e onde os barões bem pagos se coçam para dentro e cúmplices de muita falcatrua cospem para o lado. 

         - E todavia, a ladainha das rádios, das televisões, dos jornais, dos políticos, dos autarcas, de toda esta gentalha que nos tem governado, passado o perigo logo retorna ao mesmo rame-rame, aos sorrisos cínicos, aos negócios públicos e privados, remetendo para os ouvintes e espectadores as fórmulas precisas e eficazes da governação, como se estes fossem alguém com as suas ideias e comentários na conjuntura nacional. Recorde-se os incêndios, as muitas propostas para os evitar, e como o ano passado voltaram em força provando que nada foi deito. 

         - Disse-me esta manhã o João que é uma espécie de guarda nocturno, que choveu toda a noite em Lisboa. Eu não ouvi nada, dormindo como durmo. Quando acordei e desci, o aspeto que a quinta tinha, a chuva a cair abundante, abria o quadro do que fora a noite. Nunca o país que eu me lembre, sofrera tão prolongada e triste situação. Praticamente, com especial cuidado para a zona centro e a minha insigne Coimbra, os desastres são muitos e vão precisar de assaz de tempo para serem corrigidos. Tempo e dinheiro, sofrimento e revolta das populações, dos portugueses em geral que vêem o seu país a ficar para trás e as suas vidas reduzidas à pobreza da época de Salazar. Mas os ricos, nunca foram tantos e tão prósperos; a corrupção nunca esteve tão assanhada; a impunidade nunca bateu os recordes de hoje. Grande democracia que trouxeste mais horror e desigualdades, fazes vergonha e puseste no horizonte de atalaia a ditadura que espreita pacientemente o momento para se reinstalar. 

         - Porque falei no João, vou contar o que me disse o motorista da Carris Metropolitana. Cito antes a parábola do João que sabe do que fala, porque enquanto deputado em várias legislaturas, percorreu o país de Norte a Sul, de Este a Oeste. “Caro Helder: os portugueses são maus e invejosos.” Eu não posso afirmar que actos como este sejam frequentes, embora o funcionário me tivesse dito que eu não imaginava o que se passa nos transportes públicos. E o que ele me narrou (peço ao leitor que tape o nariz) foi que naquele mesmo carro que ele conduzia e eu ia entrar, não havia duas semanas, um/a utente, despejou os intestinos no banco traseiro corrido e com cortinados nas costas. No dia seguinte, os passageiros que entravam, denunciavam um cheiro horrível, mas ninguém identificou logo a origem nem o local. Só mais tarde um dos motoristas mandou retirar a posta, mas os protestos dos viajantes prosseguiram. Até que entrou um casal que se foi sentar nos últimos lugares e deu com os cortinados sujos que o/a selvagem tinha usado como papel higiénico. Que fizeram eles, arrancaram-nos e atiraram-nos auto-ónibus fora. As meninas do BE, estou certo, defenderiam os energúmenos, com a máxima de que eles não eram culpados, mas sim a sociedade que não os soube educar.


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

 Quarta, 11.

Demitiu-se Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna, por se sentir incapaz de fazer face à fúria da intempérie e às desgraças que aconteceram por todo o lado. Todavia, é de todo o direito dizer, que ela foi honesta quando falou que estamos todos a fazer um processo de “aprendizagem colectiva”. Os oportunistas, os que querem o poder e a fama a todo o custo, interpretaram à sua maneira algo que a ministra disse com humildade e sapiência, ante um fenómeno natural nunca visto que nos dá a todos a oportunidade de  aprender. 

A verdade, porém, é esta: são culpados do que está a acontecer os que nos governaram nos últimos vinte anos. O país esteve entregue à dupla PS/PSD   que só avançou quando os portugueses se manifestaram nas ruas exigindo trabalho, competência e espírito criativo aos sucessivos governos. A vidinha ronceira, um toque aqui outro acolá, a propaganda ideológica, a corrupção, o compadrio, a falta de fiscalização, o enriquecimento ilícito, as falcatruas disseminaram-se por todo o lado, o poder era exercido quando a população pressionava, os vencimentos muito acima da maioria da população, caíam redondos e chorudos nas suas contas bancárias, a vida estava para quem lhe saísse a grande lotaria do poder. Fazia-se (faz-se) tudo o que as companhias com poder e dinheiro queriam: edifícios sem controlo técnico, postos de alta-tensão junto a propriedades, a pinheiros e a toda a sorte de árvores, gruas cresciam no meio do casario, estradas eram abertas sem nenhuma fiscalização, etc., etc., etc.  Os ministros formam-se nos gabinetes ministeriais, a rua é para o povão. Nas desgraças os lucros crescem, os arruaceiros enriquecem, os políticos demitem-se, a oposição em bicos de pés aproveita as dores e as tristezas para lamber as lágrimas dos infelizes. 

         - Noto que depois de há dois meses ter sofrido dores insuportáveis nas costas que quase me paralisaram, passei a coxear melhor. Daí que, por exemplo, hoje no metro e no autocarro e noutros dias nos mesmos transportes públicos, gente nova me dá o lugar, quer ajudar-me a entrar aqui e acolá.