terça-feira, maio 12, 2026

 Terça, 12.

Outro dia passei para cima de duas horas numa esplanada em Setúbal com o Fernando Dacosta em farta e ininterrupta cavaqueira. Há algum tempo que não estávamos juntos e por isso os temas atropelavam-se contrariando o seu habitual ritmo de ser e estar. Conheci-o quando entrei para o jornalismo pela porta larga do Primeiro de Janeiro, estando ele no Diário de Lisboa. Desde então nunca mais nos largámos, pese embora os sucessivos ajustes que fomos fazendo ao longo dos anos. Achei-o muito magro sem que o peso da idade o tenha modificado. Diz-me que é devido a diabetes e que tudo o mais corre dentro dos carris da vida que é hoje a sua. De resto, sempre o vi com o seu bloco de notas em pele e elogiei o estado do mesmo. Retorquiu-me que o havia mandado fazer expressamente porque hoje já não se encontra exemplares iguais em parte nenhuma. De política falámos pouco até porque percebi que estávamos em sintonia e a melhor forma de se viver é afastados dela. Mas não faltou a literatura com referências a este e àquele autor, este e aqueloutro livro, colega jornalista ou amigo. Para surpresa minha, diz-me que não apreciou o Diário Incontínuo de Mário Cláudio e pareceu-me estar de acordo de que Saramago não é a única alusão digna de estacionar nos manuais escolares. Quanto ao estado da cultura, da edição, dos novos editores que exigem aos autores paguem a publicação dos seus livros, aconselhou-me a não entrar nesse jogo pois para ele é certo que a literatura e os grandes escritores estarão de volta no futuro, correndo com a arraia miúda de oportunistas que se têm instalado sôfregos não tanto de lucro porque não vendem nada, mas de imagem e prestígio. 

Há, contudo, um facto que quero realçar e diz muito não só da sua personalidade, como do preconceito que todas as lutas não almejam acabar: a aceitação da relação entre pessoas do mesmo género. Eu desde que o conheço que conheço o seu companheiro Zé Manuel. Muitos anos passaram. O Zé veio viver aqui para Setúbal, eles separam-se, mas o vínculo de amizade nunca se quebrou. Mais tarde, recebi em minha casa o seu novo amigo, um colega jornalista como ele. Vim a saber agora que a mãe do António é a proprietária do apartamento onde viveu o Zé e que se prepara para o alugar de modo a ajudar na estadia do Zé na clínica em Azeitão onde larga 2 mil euros/mês - importância que a sua reforma não suporta. Zé já não reconhece ninguém, mas Fernando vai todas as semanas estar um pouco com o amigo de metade da sua vida. Uma tal generosidade, um tal louvor humano, uma tal dedicação à memória de um tempo decerto feliz, fecha o ciclo de uma vida que não desaparece com a morte. Pelo contrário, estende-se como campo de flores onde a Primavera refloresce dos fios intensos da luz das alvoradas, das memórias como sentinelas de hinos salmodiados ao amanhecer e ao entardecer da vida. 


segunda-feira, maio 11, 2026

 Segunda, 11.

Dizer que estou bem é um pleonasmo. Decerto vou ter que ultrapassar o meu centro de saúde para obter o Tac Crânio-Encefálico de que tanto necessito. Entretanto, uma farmacêutica amiga, ouvindo a minha versão do acidente de saúde, prescreveu-me 120 mil milhões de estripes macrobióticas, por forma a que a fauna e flora intestinal se restabeleçam. Foi este distúrbio que me provocou o desmaio e a mobilização para a guerra no Hospital de S. José.  

         - Estive no tanque tecnológico com um cesto de roupa como se tivesse meia dúzia de filhos. 

         - Álvaro Santos Pereira, assim que se viu governador do Banco de Portugal, desatou a comprar acções das grandes empresas, num investimento sôfrego como se o lugar que tinha ocupado fosse o trampolim para aventuras financeiras que fazem os ricaços dos nossos dias. O BCE obrigou-o a revender as acções que adquiriu quando já ocupava o cargo. Toma e embrulha. À portuguesa, seja na base como na pirâmide, a ganância é sempre a mesma e a mediocridade não têm posto.

         - Fiquei satisfeito com a decisão dos juízes que ilibaram Rui Pinto, dito pirata informático, de 241 crimes. Plasmaram na sentença que ele havia sido vítima da arbitrariedade do sistema judicial e da violação da sua dignidade enquanto pessoa. Os “inocentes” do processo Football Leaks vão ter que pagar as custas do tribunal do seu bolso.


domingo, maio 10, 2026

 Domingo, 10.

Não há dia nenhum em que não tenhamos as boçalidades de Trump para digerir. A última diz respeito à saída de 5 mil militares de Vilseck, pequena cidade bávara onde estão desde o fim da II Grande Guerra. Estive a ver outro dia no canal 2 francês o desastre que vai ser para a população local e para os soldados americanos e respectivas famílias que estão completamente integrados no espírito alemão e adoram ali viver. Relativamente à população, os contingentes destacados duplicam e todo o comércio e actividade económica gira em torno daquele mundo que se misturou e parece viver feliz. A decisão do todo poderoso, é uma raiva contra o chanceler Friedrich Merz que não aceitou a sua política relativamente à Europa e ao Irão que disse ser o digno represente da guerra no Golfo. 

        - A propósito. Nenhum dos acordos ditados por Trump parece duradouro. Horas depois, o Irão não só desdiz o louco, como investe abrindo fogo contra o cerco que ele montou no Estreito de Ormuz. Foi de um dos seus dirigentes que saiu esta condenação: “O único lugar para os EUA no Golfo, é no fundo do mar.

         - Saiu o número oficial de palestinianos mortos na guerra da Faixa de Gaza: 73 mil. A este número, não obstante o cessar-fogo à Trump, falecem diariamente mais uns quantos inocentes.  

         - Sexta-feira estive na Fnac a tentar recomeçar o meu trabalho, de seguida fui almoçar calmamente ao restaurante de cima do Corte Inglês, e regressei de metro ao autocarro que por sua vez me devolveu a casa. Numa estação, deparei com este subterfúgio no texto que corresponde melhor à choldra dos tempos presentes sem que deixe de ter graça... 




sábado, maio 09, 2026

Sábado, 9.

No seguimento do que ontem anotei, chamo por instantes a estas páginas, Gabriel Rolón. Diz o psicanalista argentino a propósito da solidão: “As pessoas têm medo da solidão e eu pergunto o que há na solidão para além de nós próprios? A pessoa que tanto teme a solidão tem isso porque não gosta de quem é ou porque tem medo de olhar para dentro e ver quem é. Não quer descobri-lo, e isso incomoda-a e perturba-a.” E conclui: “A solidão desfrutada e escolhida permite que nos façamos perguntas e tomemos decisões com mais calma:” (tradução de António Rodrigues)  

         - Trump o eterno louco, afirma que o cessar-fogo com o Irão continua válido, mas ao mesmo tempo ataca posições no Estreito de Ormuz e vangloria-se como uma criança demente: “Hoje provocaram-nos, nós arrasámo-los.” É um tirano à escala planetária, um facínora que quer impor a regra do pelotão de fuzilamento nos métodos de execução federais, como se o que existe – injecção letal, cadeiras eléctricas, electrocussão e gás azoto – não fossem suficientemente cruéis. 

         - Não posso aceitar a humilhação de que somos vítimas em fases críticas da nossa vida individual e colectiva. Refiro-me ao estado decadente do SNS. É ele que se devia deitar no bloco operatório para um tratamento de restauro geral a todo o seu tecido operacional. O que tenho experienciado no último mês, diz-me como a democracia falhou redondamente quando escraviza e humilha, desiste e incentiva a morte prematura de muitos dos nossos concidadãos. Homem de esperança e fé, vou recentrar a minha crença no convite que António José Seguro fez a Adalberto Campos Fernandes para elaborar um Pacto Estratégico para a Saúde, de modo a devolver o SNS aos portugueses, deixando definitivamente os jogos de poder, interesse e corrupção que nele se instalaram. Adalberto Fernandes é um homem sério, competente e afastado dos jogos políticos que tanto apodreceram o sistema de saúde. Assim os socialistas o deixem trabalhar. Eles que com o PSD nunca deixaram o poder desde o 25 de Abril e em conjunto têm arruinado o Serviço Nacional de Saúde. 

 

sexta-feira, maio 08, 2026

 Sexta, 8 de Maio. 

Como recomeçar? Aos desportistas aconselha-se paciência e persistência, confiança nas suas capacidades, heroicidade e olhar apontado ao futuro. Aos artistas que se recolham, povoem horizontes rasgados, mergulhem nos abismos e voltem à tona banhados da santificação que se concentra no mistério e no rosário de palavras salmodiadas nas horas de desespero e solidão. Como sempre frágeis, um sopro de vento os derruba, um pensamento os levanta, um pôr de sol os ilumina. E assim nos reencontramos comovido pelas palavras dos amigos e leitores anónimos durante esta ausência longa como um caminho crivado de espinhos.   


quarta-feira, abril 29, 2026

 Quarta, 29.

A semana passada, tendo sido surpreendido pelo desastre súbito de saúde do qual ainda não estou recuperado, tinha agendados três ou quatro almoços que não pude cumprir. Acontece que ontem, sob a minha constante curiosidade, andei a investigar no computador pedaços de utilização que não tinha pesquisado. Conclusão: foi-se toda a organização no tratamento de texto que estava estabilizada e constituía ferramenta de trabalho diário. Daí ter de me enfiar no autocarro e ir ao Vasco da Gama encontrar quem pudesse devolver-me a formatação e os documentos que tinham tomado outra paginação. Encontrei a solução na Fnac. Primeiro através de um rapazito que de tratamento de texto e do Offic não entendia peva; depois com o seu chefe que fazia toda a diferença na competência e saber, almejei um sorriso de reconhecimento que quis pagar e ele não aceitou. Ainda há disto, haja Deus!  

          - Bref. Quando atravessava o segundo piso do centro comercial, dou de caras com o Zé, nortenho de gema, que não via há muito tempo. Logo ali nos convidámos para almoçar. Durante o repasto, de resto muito divertido sendo ele betacismo, telefona a Alice. Hesito em atender devido à algazarra que nos cerca. Faço-o, todavia, para remeter a conversa para mais tarde. O facto é que me sentia tão bem, não só por rever o amigo de outras paragens, como por saborear o regresso à escrita para mim tão necessária como pão para a boca. Até porque, enquanto escrevo, desaparecem as dores lombares e o mundo reconstitui-se ao largo de todas as bênçãos celestiais. 

         - O Relatório da Garantia para a infância, registou que mais de 3036 crianças ou jovens foram identificados como sem-abrigo, em 2024. Dormem em tendas, barracas, casas degradadas em condições “insalubres”. Que têm a dizer os sucessivos Governos, que medidas foram tomadas? Nada ou quase nada. Patuá não falta – é dele que se mantêm os políticos com ambição ao poder. Este país desigual, pobre, atrasado não faz parte da propaganda ou a gente que nos governa vive em palácios encantados.  

         - Montenegro vive de fantasias. Com aquele sorrisinho de desdém, montou o palco no Pavilhão de Portugal, Parque das Nações, com encenação privilegiada para as televisões e apresentação de mais uma catrefa de intenções a que chama (PTRR) Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (resiliência, senhor primeiro-ministro?! ai esse português), no montante que o fez abrir o sorriso, de 22,5 mil milhões de euros. Estive a ler atentamente o teor da proposta e a primeira coisa que me saltou à ideia, é que ela não difere de tantas outras promessas e planos, apresentados com pompa e circunstância, mas que nunca passaram do papel e simpáticas intensões. Contudo, há nele decisões futuras que me parecem interessantes e urgentes. Por exemplo, o reforço das redes de energia, água e floresta ou os fundos para catástrofes naturais ou a assistência a idosos e pessoas vulneráveis ou a reforma da emergência médica de que sofri recentemente as consequências. Tudo é muito bonito e saudável, só que um plano de trabalho desta envergadura, devia ter sido alicerçado com a oposição civilizada, que abrange uma larga faixa da população – essa que representa na verdade a vontade do povo. Tenho tendência a dar razão à oposição quando afirma que “aquilo” não passa de uma cópia já apresentada. 

         - À margem deste plano, veio à liça uma imposição régia que pretende obrigar os proprietários de casa própria, a um seguro de catástrofes ou coisa que o valha. Como assim? Só os déspotas se colocam do lado dos prepotentes, fazendo coro com ordens e decretos, na clara intenção de desfavorecer uns e favorecer outros, no caso as companhias de seguros. Eu sei de que falo. A casa de Lisboa estava segurada numa das maiores seguradoras assim como esta. A da capital foi assaltada duas vezes, a companhia veio espreitar e declarou que já não me queria como segurado. Nessa altura desisti de seguros e assumi as possíveis desgraças. Ao contrário da obrigatoriedade do seguro automóvel justa porque prejudica terceiros, a que pretende o primeiro-ministro impor, é descabida e claramente estudada para alimentar e multiplicar as seguradoras. Os inúmeros hospitais privados que se ergueram nos últimos dez anos, são um no paralelo para a saúde.


segunda-feira, abril 27, 2026

 Segunda, 27.

Pequenos pormenores sem importância nenhuma: ainda não consigo ter opinião formada sobre Seguro Presidente, Luís Carneiro e acreditar no cómico Ricardo Araújo Pereira (é a primeira vez que cito o seu nome) quando afirma “Eu não ´uso´ o humor, o humor não é uma esfregona, não é uma coisa que se ´usa´.” Não acredito de todo. Brrrrrr!

       - Não sei se o povo eterniza no seu coração Mário Soares, mas Vhils com a escultura que a Câmara da Amadora lhe encomendou do político, decerto que o conseguirá, porque tem consigo a força e a magia do grande artista que é. 

         - Há cada vez mais pobres em Portugal. Quem o diz, com a autoridade que lhe confere a sua entrega ao outro, é Isabel Jonet Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome. Este escândalo, esta realidade que eu aqui não deixo de vociferar, não passa por ideologias hipócritas dos políticos. 50 anos depois do “25 de Abri sempre”, não conseguiram reduzir este nojento espelho, pelo simples motivo – quem tem fome não possui forças para protestar. A imagem de tristeza, abandono, degradação de todo o tecido social, está estampada no Serviço Nacional de Saúde. Com pobreza, cresce o desejo incomensurável da desistência, do silêncio, da morte. 

         - A velhice é purificação e plenitude.