quarta-feira, junho 17, 2026

 Quarta, 17.

Em Castelo Branco um artesão que reparava todo o género de peças em madeira – velhas cabeceiras de cama, cadeiras de baloiço, molduras antigas... – foi notificado pelo novo proprietário do prédio que comprou uma enfiada de edifícios para os transformar em alojamento local, que devia sair da sua loja no centro da cidade. Logo uma multidão de albicastrenses se reuniu contra a especulação que permite pôr na rua o senhor Jorge Batista. A câmara vai analisar o assunto impulsionada pelo movimento “todos pela oficina do Batista”. Digam lá, caros leitores: então não é muitíssimo mais válido, curioso, humano, progressista até este acontecimento, que um ano inteiro de trabalho insano dos nossos moiros de cansaço deputados na Assembleia da República?

         - Luís Carneiro, além de lutar contra a corrupção que invade o PS, tem de enfrentar os pedronistas que imperam pelas federações do partido e defrontam as decisões do actual Secretário-Geral. Pedro Nuno Santos, dito de esquerda, não nos larga. A princípio pensei que ele tinha abandonado a política, mas depois como a falta de dinheiro é muita e a actividade de especulador imobiliário está a decair, voltou à Assembleia onde o ordenado é chorudo e as mordomias acompanham a vidinha airada de carros de marca, casas confortáveis e restaurante upa, upa. Bem prega frei Tomás: faz o que ele diz, não faças o que ele faz. Esta máxima, aplica-se a muitos militantes de esquerda que conheço: a ideologia só se aplica aos outros, eles mantêm a boa vida burguesa num claríssimo choque entre o que apregoam e o que fazem. 

         - Eu conheci quando entrei para o jornalismo, a maioria desta gente de esquerda que antes do 25 de Abril apoiei e andei de braço dado e estão de saída deste mundo. Todos pareciam pertencer secretamente ao PCP, quando na realidade, como mais tarde vim a constatar, eram democratas que queriam a democracia para o seu país. Hoje, são tratados de direita, porque os comunistas têm apenas dois lados de ver o mundo, a sociedade, a moral e os costumes: ou se é por eles ou contra eles. Endeusam o marxismo-leninismo que provou à saciedade o desprezo pelo proletariado, pese embora a ditadura que criaram em seu nome. Na nomenclatura (Nomenklatura) de Lenine, Trotsky, Estaline, Khrushchov, Brejnev e passo, nunca os trabalhadores tiveram acesso ou quando o tiveram foi fogo de vista. Eles gritaram por uma sociedade igual, sem ricos nem pobres, mas o que floresceu e floresce é precisamente o contrário e as sociedades capitalistas que eles combateram, acabaram por ser mais ajustadas aos sonhos dos trabalhadores e às suas lutas de progresso e bem-estar. Por uma e suprema razão: nos países comunistas, o cidadão de qualquer classe social, trabalhador, intelectual, proletário vive amordaçado e proibido de se manifestar. Aquilo Ribeiro, que andou (ou tinha fama disso) por aquelas águas ditas cristalinas, julgo que em O Malhadinhas, expõe-se desta forma: “Guarda-te de homem que não fala e de cão que não ladra, por isso eu sempre falei, falo e falarei franco até morrer, pois se nós temos pensamento, acautelá-lo da boca só por ronha ou cobardia.”

         - Está a decorrer o Mundial de Futebol. Que vergonha! Que engodo! Que tristeza! Que miséria! Aquilo de desporto não tem rigorosamente nada. O presidente da FIFA, rendeu-se ao lucro, ao fascínio do dinheiro, ao poder e aos triliões que lhe vão entrar por todos os lados. O conluio com os obsessivos capitalistas Trump à cabeça, que recebeu antecipadamente o troféu banhado a ouro com direito à transmissão da Casa Branca, e tem para sua glória o campeonato a realizar-se nos EUA, tudo aquilo tem cheiro nauseabundo a podridão, escravatura, subserviência, endeusamento de figuras insignificantes que andam atrás de uma bola convencidos que são os reis do mundo, quando não passam de pobres coitados que, embora bem pagos, são explorados por esquemas vergonhosos de indignidade humana. 

         - Por falar no louco. Donald Trump está em França em reuniões com os líderes europeus. Adora ser bajulado e quando tal acontece o discurso muda radicalmente. Chegou outro, dialogante, sorridente, próximo dos objectivos da Europa e até com um discurso humano ao afirmar não compreender o seu ex-amigo Netanyahu “quando para matar um tipo do Hezbolá, destrói um prédio e subjaz nos escombros várias pessoas”. Ele que nisso não pensou quando bombardeou uma escola no Irão e matou dezenas de crianças. Que maluqueira é a deste monstro a quem os americanos confiaram os destinos da América!

         - Nada escutei sobre o ataque à catedral de Kiev, cujo resultado foi este crime hediondo 

A catedral em chamas.
    
Uma das cúpulas no chão.









terça-feira, junho 16, 2026

Terça, 16.

Putin só conhece a lei da força. É tempo perdido andar a convocar reuniões, acordos, o fim da guerra. Ele só parará com a ofensiva, quando a Ucrânia o vencer. De contrário, é o que se vê. Anteontem fortes ataques a Kiev e outras localidades que destruíram o mosteiro histórico de Kiev-Pechersk e a catedral do século XI Património Mundial da Unesco sofreu grandes estragos. Além de pelo menos onze mortos e não sei quantos feridos. A UNESCO diz que a catedral é “obra prima da arte ucraniana”, que as suas grutas acolhem há vários séculos relíquias de diversos santos. Daí que o mosteiro ortodoxo seja também conhecido por Mosteiro das Grutas. Naquele dia os russos lançaram 70 mísseis e 611 drones. Vou citar De Gaulle. A guerra, dizia, “où l´homme rompt avec sont Créateur”. 

         - Estamos tramados. Com o mundo a ser dirigido por doidos de egos do tamanho da sua loucura – Putin, Trump, Netanyahu, Xi Jinping, o taralhouco da Coreia do Norte – assim como muitos outros em miniatura, mas nem por isso menos perigosos, tudo pode acontecer. Nem queria voltar à novela do Irão em cujo bolo de aniversário do prepotente pobre octogenário dos EUA, não coube no topo a assinatura dos dirigentes revolucionários iranianos, como ele tanto apregoou. Desta vez, ao contrário do que eu acho embora não tenha voz no assunto, parece que muitas nações entendem que dentro de oito dias o memorando de entendimento que ninguém conhece, vai apresentar as assinaturas que farão parar a guerra e abrir o Estreito de Ormuz. O curioso da mixórdia, que levou Trump e o corrupto Netanyahu a atacar o Irão – recorde-se a bomba nuclear – só vai ser assinado na segunda fase, isto é, daqui a dois meses! Entretanto, ao contrário da ordem dada pelo ex-amigo Trump a Netanyahu, este prossegue os ataques ao Líbano e Gaza situando-se, só no período de cessar-fogo, para cima de 4 mil mortos. 

         - Os suíços são um povo especial. A dita direita, propôs um referendo que limitasse a população a dez milhões de habitantes. Isto tendo em vista o número crescente de imigrantes que se instalam e por lá ficam. Contrariamente ao que o Partido Popular Suíço (SVP) ambicionava, os eleitores rejeitaram a sua ambição impositiva. 

         - Fui à natação. Estranhamente, à parte os velhinhos que dançavam na água ao som das canções de Carlos Paião, só eu me encontrava na piscina. 

 

domingo, junho 14, 2026

 Domingo, 14.

A semana que passou, foi levada em discussões, perdas de tempo, injúrias e hossanas na casa da balbúrdia em que se transformou o Parlamento. Nada daquilo contribuiu para que a vida dos portugueses se dignificasse, a democracia se fortalecesse, o futuro do país fosse mais promissor. Os nossos amargos políticos, formados não se sabe onde, levaram horas e horas uns a reivindicar bandeiras partidárias nos edifícios públicos, outros a arreá-las espezinhando-as no chão.  

         - Aquela coisa que dá pelo nome de Presidente dos Estados Unidos da América juntamente com o seu séquito mafioso, por celebrar hoje o seu octogenário aniversário, entende que o mundo deve estar de joelhos a agradecer-lhe tão divina vida. Assim, sem mais aquelas, exige ao Irão que comemore a data com a assinatura do acordo de paz que ponha fim à guerra que ele começou com o soldado raso Netanyahu. A pressão e tal, que até já se inventou uma resolução moderna, com assinatura electrónica e mais tarde a outra presencial. Mais honestas e credíveis, as autoridades iranianas não parecem convencidas e vão adiando o fim das hostilidades. A descrença em Trump é absoluta e ninguém parece interessado em confiar na sua palavra parlapatona.  

         - Temos sido muito mal governados e assim continuamos. Como podem os partidos quando são governo, exigir aos cidadãos que paguem a tempo e horas os seus impostos, coimas, serviços e passo, quando, como nos informa hoje o Público, eles devem 1,4 milhões em coimas!!! Sabemos porque o jornal deve ter os seus piões estrategos; de contrário nunca o saberíamos. Mais: as instituições competentes para denunciar o desaforo, escondem do povo quais os partidos e que importância cada um deve ao Estado, num claro desafio à falta de transparência exigida pela lei. Este país é uma choldra. Os políticos e os partidos estão claramente acima da lei. A réplica salazarenta está por todo o lado. 


sábado, junho 13, 2026

 Sábado, 13.

Aqui madruga-se. Desde logo para regar, depois para ir ao mercado dos pequenos agricultores em Pinhal Novo e depois para os pequenos trabalhos de dono de casa. E ainda bem que assim é. Porque com tantos afazeres a distâncias daqui, sou sacudido pelo acordar pesado dos tormentos que vêm da noite e se atiram inteiros ao começo do dia. Faz um calor medonho, estou de portadas cerradas, no lusco-fusco das salas, e assim o fresco espraia-se por todas as divisões. 

         - Ontem passei um dia agradável em Lisboa. Fui no autocarro com ar condicionado, regressei em idênticas condições. Almocei no C.I. um prato simples, mastigado sem pressas, os pensamentos volteando entre a mesa e o espaço quase vazio. Depois fui renovar o meu guarda-fatos há muito esquecido. Há anos que não compro roupa, preferindo esgotá-la até ser farrapo e notada por aquelas dondocas que adoram os farrapinhos e me alertam para as calças ou as camisas rotas. Porque o que visto tem duas épocas: a que levo a qualquer lado; a que fica até ser trapo e uso por aqui, casa e cafés, mercados e supermercados. Aconteceu um facto curioso. Andei em busca de camisas frescas e de meia-manga. Encontrei o que procurava e com duas peças dirigi-me à caixa para pagar. Qual o meu espanto quando a amável rapariga, de sorriso de orelha a orelha, me reclama 404 euros! Ia-me dando um fanico. Claro que recusei e só então me apercebo que o ricaço teve mais olhos que a conta bancária. 

         - Mais tarde, no pequeno café da Fnac, durante hora e meia, corrigi 15 páginas no romance. Momento sublime, suspenso do delírio da escrita que o tempo apagou de entusiasmos e ali se me apresentou no espontâneo do texto, como se aquilo que os meus olhos viam não me pertencesse. 

         - Nós tivemos vários Presidentes da República pós-25 de Abril de 1974. O primeiro cheio de militarizes agudas, depois o da austerize distante, a seguir o fanfarrão sedutor, depois o economicista azedo, pegado a este o trolaró simpático, e Seguro?  


quinta-feira, junho 11, 2026

Quinta, 11.

No caminho para o portão, tombou mais uma árvore bloqueando a saída. Não sei se ficara fragilizada quando da tempestade, se alguma ventania a tombou durante a noite. Não escutei vento que me pusesse de atalaia. Seja como for, acresce que o meu amigo espalha brasas está sem moto e vai ter que ser o filho a vir no fim da tarde desimpedir o percurso. Conclusão: eu que tinha um programa a cumprir em Lisboa, desmarquei tudo para ficar preso neste simpático convento. 

         - Leão XIV abençoou o sonho de Antoni Gaudí e a inebriante Basílica da Sagrada Família desprendeu-se em beleza ante os olhares deslumbrados dos espanhóis e turistas. O Papa tem sido acolhido com simpatia em todos os lugares aonde o leva a sua missão apostólica. Espanha, parece reconciliada com o Vaticano e Leão XIV não deixou publicamente de se indignar com os casos sexuais de membros da Igreja católica. Noto, todavia, que os usos canónicos vão mudando. Por exemplo. Onde é que dantes se via um Papa a ser abraçado por uma mulher no contacto físico que isso implica! 

           - Por aqui o espectáculo é o mesmo de todos os anos, só a beleza é sempre única.  


         

 


quarta-feira, junho 10, 2026

 Quarta, 10.

Optei por não deixar este monasterium. Aqui, como digo, há sempre muito para fazer e sou como que abraçado pelo silêncio que me preserva em movimento contra a minha vontade. Ser activo é não deixar morrer os instantes que sobrevoam os momentos que se liquefazem pela força da vontade ligada aos projectos que se inventam dentro e fora de nós. Por outro lado, a quietude, sendo irmã da consolação, carrega em si a soma de sensações, intuições, louvores que se irmanam entre si para fazer saltar as horas do cronónimo que as resguarda. No recolhimento somos ausência e presença, por dentro de nós perpassa um mundo que chega dos inícios da humanidade, paralisa-nos e incentiva-nos a descobrir o tortuoso caminho que juntos fizemos sem nunca nos desligarmos do que fomos somando em experiências - sofrimentos, dúvidas, silêncios, mortes e ressurreições. Fomos feitos para a contemplação, para a paisagem aberta que estende diante dos nossos olhos inquietos todas as interrogações que nos perturbam e dão sentido à movimentação da vida. Preenche-nos o que desconhecemos, o que almejamos e não encontramos na banalidade da vida solta, preenchida de pequenas coisas, enormes vazios, alienações e ousadias serôdias. Também fomos feitos para a felicidade, quando esta se aproxima no segredo das horas, ao lusco-fusco insinuante do horizonte, rasgadas as janelas de luz das madrugadas suspensas das alegrias virgens que povoam noites siderais e quedam o olhar perscrutando o fundo de nós mesmos – lugar onde só nós achamos os pontos cardiais. O vento, agita os ramos das árvores, sem paralelo com nenhum entusiasmo ou alvoroço humano. As árvores, dizia Hermann Hesse, são seres solitários e é nessa condição que partilham connosco as sombras protectoras, os silêncios habitados de histórias, os pensamentos desenvolvidos debaixo das suas frondosas copas, os sonos recuperadores para abraçarmos os dias de esperança. Isolados, somos impelidos a reinventar o melhor de nós, a pensar no supremo privilégio de havermos nascido para glória do tempo a provir. Devemos desconfiar dos que se agitam, dos que levantam a voz, dos que prometem o que sabem de antemão nunca poderão dar, porque simplesmente não conquistaram para si a solidariedade, não pararam para olhar o próximo, escravos da ganância de poder e serventuários da riqueza, egoístas e suspensos do fio tangencial como apregoam a felicidade. As palavras e os pensamentos, são o murmúrio ensurdecedor que enche as horas e o mar de silêncio que nos envolve na doce disciplina da solidão, da solidariedade que nos aproxima do outro – esse que se desdobra em nós e nos faz profundamente humanos.          

         - O PS está podre. Aos muitos casos de corrupção, junta-se agora o número três do partido, António Campos, acusando-o de múltiplas ilegalidades e compadrios.   

         - O Irão que Trump e Netanyahu dizem estar em falência de armamento, responde com soberba aos ataques que ambos lhe fazem. Voltou a acontecer ontem, quando bombardeado pelos EUA porque destruiu um helicóptero norte-americano no Estreito de Ormuz, responde com uma chuva de ataques a bases americanas no Bahrein e Jordânia. E ainda se deu ao luxo de prevenir os inimigos com uma “resposta severa”, caso prossigam as “agressões”. Quem assim fala, é a Guarda da Revolução. 


terça-feira, junho 09, 2026

 Terça, 9.

Ontem reabri o pátio para o Verão. Logo de seguida, mergulhei na leitura de Génesis. A dada altura, depois de Abraão se lamentar ao Senhor por a mulher Sara não lhe dar filhos, YHWH diz-lhe que os faça com a criada Hagar. Indo ele nos oitenta e seis anos, a criada deu à luz o seu filho Ismael. Algum tempo depois, o Senhor volta a aparecer ia Abraão em noventa e nove anos, e promete a Sarra dar-lhe filhos que acrescentem gerações e formem nações. Ela diz-lhe que dada a sua provecta idade, já não tem os desejos de então. Deus não se demove e o marido decide com o seu filho Ismael fazer circuncidar o seu prepúcio como o do rapaz. Muito do que a Bíblia nos inspira, foi posto de lado pelos positivistas para quem o conhecimento científico conta como exclusiva fonte de verdade. Mais recentemente a Ciência que recolhe da realidade o que vê, apalpa, suga. E nos nossos dias, o capital enquanto fonte de realização ou rejeição, poder e consumação do arbítrio sobre os demais. Contudo, o que há de fascinante é que os nossos antepassados acreditavam que Deus e só Ele, era capaz de tudo realizar. Como aconteceu com Sara que engravidou indo Abraão nos cem anos e deu à luz Isaac.   

         - Nos balneários da piscina, os velhotes nus e de sólidas barrigas de torresmos, discutiam a visita do Papa a Espanha. Um deles dizia: “O homem é americano, Trump, humm não me convence.” 

         - Voltei a pôr Seguro de quarentena. Ele está a comemorar o 10 de Junho na Terceira, Açores. Quando lhe perguntaram o que pensava sobre a Base das Lajes, descartou a pergunta, acrescentando que Portugal deve ter boas relações com a América e (para aliviar) com os países da NATO. Sim, o que Portugal necessita é de governantes fortes, como os de Espanha, França, Reino Unido e Alemanha. Há muito que devíamos ter deixado a subserviência, o temor, a falta de carácter. E lembrar-me eu que ele em campanha disse que devíamos pensar em renovar o acordo sobre a ocupação das Lajes. 

         - Verão curioso este, empurrado pelo vento forte e frio. Todas as manhãs, enquanto rego, estou enrolado num casacão de lã porque o frio assim o exige.