Quinta, 16.
Decidi não deixar estes claustros hoje. Quando acordei a abri as janelas de cima, pus-me a admirar a quinta que adquiriu outra beleza com o trabalho do Luís Correia. Parece maior, e as poucas árvores que restam de várias dezenas, compõem com encanto o espaço trazendo-me à memória loucuras do passado quando aqui cheguei cheio de energia, criatividade e treslouquices de braço dado com o João seu anterior proprietário. Só a luz e o silêncio parecem os mesmos, uma e outro irmanados num estrondo de magia que se repercute no ar e afaga num ápice todos os temores e rumores da minha futura existência fora desta liberdade, deste recanto isolado, pouso de pássaros vadios, de cobras, de rãs, de todos os répteis que entram e saem sem pedir autorização. Tomado o pequeno almoço, fui vadiar por este hectare de terra a apalpar, a escutar a palpitação das figueiras, romãzeiras, pereiras, macieiras, marmeleiros colher o resto de pêssegos que a passarada não quis e uma tigela de amoras, enfim, parando demoradamente para reter este espaço sagrado, o convento recuado no tempo, o deslumbre de verde que compõe a pauta musical de uma canção que os pássaros e o cuco de vez em quando ecoam com suas vozes melodiosas, por onde esbanjam a juventude que a mim me vai faltando não obstante os exames que me dão na pré-adolescência...
- Ao que leio são já 12 mil as mortes em toda a Europa devido ao calor que não nos larga. Para cúmulo, em Fontainebleau, nos arredores de Paris, a célebre floresta que eu tantas vezes percorri e onde se passa tanta coisa pela noite dentro, está a arder. A França não estava habituada à canícula e agora vai ter que pensar nela, substituir os telhados de ardosa, instalar aparelhos de ar condicionado e por aí fora.
- Sinto especial encanto pelos fins de tarde sentado no pátio, um ligeiro vento fresco a cirandar em torno de mim, debruçado sobre os meus autores. Tento sempre reservar uma hora para me dedicar ao supremo prazer das leituras. Nesta altura o fim da Encíclica de Leão XIV e o Géneses, sem negligenciar a passagem pelos jornais, sobretudo o Público. O Black que é a paz em pessoa, adora esses momentos e aproveita-os para se deitar ao meu lado, bem colado a mim.
- Enquanto a gritaria campeia na Assembleia, eu registo o país real nestes dados: 615 inquéritos abertos por ofensas à integridade física em 2024 nas forças policiais; “quem me dá uma chapada na cara (diz um agente da autoridade), em função do meu serviço, vai ter que se embrulhar comigo até lhe meter as algemas. Se é homem para me bater, vai ser homem para levar”; “não posso bater (diz outro polícia), mas depois eu é que levo no focinho? Jesus Cristo veio à terra, deu uma face, deu a outra. Eu sou abençoado, mas não sou Jesus Cristo”; outro agente afirma “natural ou, às vezes normal, um agente da autoridade vir a “apertar”: berros e torturas. Algumas agressões vieram a acontecer, até alguns actos de tortura”. Quanto às célebres e sinistras acções da PSP no Largo do Rato e Bairro Alto, entre 2023 e 2025, alguns polícias foram acusados de falsificação de autos de notícia, suspeitos de tortura, abuso de poder, abuso sexual, ofensas à integridade física e roubo em mais de uma dezena abusos aos detidos naquelas esquadras.

