quinta-feira, março 05, 2026

 Quinta, 5.

Emmanuel Macron decidiu enviar o porta-aviões Charles de Gaulle para o mar Mediterrâneo e a fragata Languedoc para o largo do Chipre (o país que integra a UE) e fora atacado há dois dias, bem como o destacamento adicional de meios de defesa antiaérea. A França reforçou igualmente a sua presença no Médio Oriente com caças Rafale e outros meios aéreos projetados nas últimas horas. 

         - O Jonhson voltou aí e esteve a falar-me sobre a concorrente da IA denominada Grok. Parece que o bicho é mais assustador. 

         - Israel não pára. Não satisfeita com a morte de 72 mil palestinianos na Faixa de Gaza, enfiou-se uma vez mais pelo Líbano onde nas últimas horas morreram umas dezenas de pessoas. Que mundo este! 

         - Bela obra de Vhils que sustenta os 10 anos de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. No retrato está inteiro o homem nas suas múltiplas imagens que integram a verdadeira que só o artista captou.  

         - Faleceu António Lobo Antunes. Conheci-o no Hotel Altis quando do lançamento do seu primeiro romance Os Cus de Judas. Eu tinha acabado de publicar A Ruptura. Tornei-me a encontrar com ele numa sessão de autógrafos na Feira do livro (por sinal muito animada), onde ficámos lado a lado e era uma simpatia, no oposto ao que por vezes reflectia o seu temperamento. Os seus romances não me atraíam por os achar demasiados marcados pela obsessão ideológica e correrem, como direi, sempre em torno dos mesmos temas. Morreu sem obter o Nobel. Paz à sua alma. 


quarta-feira, março 04, 2026

 Quarta, 4.

São de registar as palavras de Pedro Sánchez que redimensionam a sua singular e lúcida posição sobre a selvajaria de Trump aliado a Netanyahu e vice-versa, para justificar a recusa de utilização pelos americanos das bases militares em Espanha. Donald Trump, como é seu hábito e não só dele como de todos os ordinários sem educação nem princípios, chamou os piores nomes a Espanha e ao seu líder, ameaçando cortar todo o comércio com o país vizinho. Em sua defesa, chegou o chanceler alemão, afirmando que a Espanha faz parte da UE e todos acordos comerciais têm de passar por Bruxelas. Contudo, é de realçar e enobrecer os princípios que Sánchez evocou e fazem parte da sua ética pessoal e do cumprimento das leis internacionais que não deixam o mundo cair no lodaçal americano-israeliano: “Não vamos mudar por medo de represálias”, e acrescentou: “a invasão do Iraque de 2003 criou um mundo mais inseguro e uma guerra no Irão não criará uma ordem internacional mais justa, um ambiente mais saudável ou uma vida melhor para as pessoas comuns” e sem papas na língua, “os governos não devem jogar à roleta russa com o destino de milhões" de pessoas. Ouviu, senhor Luís Montenegro?

O Irão a ferro e fogo, espectáculo de horror tão ao gosto americano-israelita 

         - Outra magnificação ao Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, ao dizer aquilo que eu próprio penso, a saber, que a guerra levada a cabo por americanos e israelitas, desencadeia em todas as nações o incremento do arsenal nuclear. 

         - Como explicar o que me aconteceu hoje. A noite passada, rente à madrugada, sonhei que tinha entrado para tomar a bica no café antigo aqui da vila. O filho dos donos, um rapaz alto, esguio, com um friso dos dentes alvos, um pouco tímido, bem parecido, quando se aproximou da minha mesa para nela depositar a bebida, estendeu-me a mão para um cumprimento, disse-lhe: “Tenho direito a um aperto de mão?” Ele sorriu e foi ocupar o seu lugar ao balcão. Daí a momentos acordei. Acontece que esta manhã, enquanto esperava que o lavadouro tecnológico terminasse as operações, entrei no Continente para fazer tempo e tomar um expresso e ler o jornal. De repente, quem é que vejo na minha frente? O rapaz em pessoa com quem havia sonhado. Cumprimentámo-nos e eu contei-lhe o que acabei de descrever, ele: “Curioso. O que é que isto quer dizer? Eu acredito que coisas assim não são por acaso, até porque não tenho o hábito de vir aqui e só entrei porque vou comprar uma máquina na Vorten. Que quer dizer isto?” disse convidando-me a tomar café no seu restaurante, mas “é meu convidado”. “O sei, mas não digo”, respondi.

         - A queda que eu dei no início da semana ao entrar na cozinha, tem-me provocado dores intensas. Penso que não danifiquei a anca, mas a mancha negra na bolacha da nalga, é grande. Ontem, fui, enfim, à farmácia comprar Hirudoid. 

         - Trabalho no café da Fnac antes de ir ao oculista colocar a lente esquerda (sem riscos). Cheguei à página 50 da correcção no romance. A Primavera espreita. 


terça-feira, março 03, 2026

 Terça, 3.

O mundo conduzido por dois criminosos, Trump e Netanyahu, parece estar a ensaiar a terceira guerra mundial. Praticamente todo o Médio Oriente foi implicado no desastre com a resposta do Irã a atacar as bases militares americanas e agora as embaixadas, facto absolutamente natural como réplica à selvajaria dos dois prepotentes. A França acabou de anunciar o fomento de ogivas nucleares e a construção de novo porta-aviões para substituir o Charles De Gaulle, ao mesmo tempo que se posiciona no terreno em defesa dos seus aliados. O mundo assiste atónito ao desenrolar de uma guerra que não se percebe o sentido nem o fim. Milhões e milhões de pessoas vão sofrer as consequências, as suas vidas vão ficar encostadas, a economia parada, o desenvolvimento esquecido, o sofrimento por todo o lado, a morte a traçar o destino antecipado de muitos países. A destacar-se da mediocridade geral, o Reino Unido e a Espanha. A primeira pela forma como adjudicou as suas bases militares; a segunda por ter recusado a Trump usá-las. A economia em geral vai ressentir-se deste pesadelo, tendo em conta a necessidade de petróleo e gás de que aquela parte do mundo tem em abundância. A célebre Make America Great Again vai afogar-se num mar de sangue – inutilmente. Assim, como se previa e devia ter sido pensado por Donald Trump se fosse inteligente e conhecedor e apto para o cargo, o Governo que se esboça no Irão continua o programa de Ali Khamenei.  


domingo, março 01, 2026

 Domingo, 1 de Março. 

A psicopatologia dos tempos modernos. Há uma semana que vinha a sofrer de dores nas costas quando estava deitado. Pensei que era o colchão que devia ser virado ou algo semelhante. Nesse entretanto, passei a dormir num dos chambres des amis e ontem, enchendo os pulmões, fui tentar volver o pesado colchão. Terminada a tarefa, mudados os lençóis, senti uma sensação de conforto a invadir-me e com essa sensação, chegada a hora, subi para dormir. Pessimamente. Quando acordei, tinha as costas doridas e assim que pus os pés no soalho e me sentei na borda da cama, o colchão vacilou e fui atacado de súbitos espirros que só pararam quando cheguei à cozinha. Estranho, algo não estava certo. Então, abri o computador que pertence à última geração de máquinas inteligentes associadas à  IA logo presente quando o ligo. Perguntei à rapariga robustecida de todas as fantasias, das humanas às sobrenaturais, o que se estava a passar. Esperei uns segundos e ela vomitou a sentença que me surpreendeu: teria de adquirir outro colchão porque este manifestamente estava no fim, ao disparar aqueles acidentes próprios de criatura senil. Pensei que deveria ter comprado este colchão há pelo menos trinta anos e conclui: “Helder, vai dormir noutro quarto e rapidamente despende o necessário para um novo.”  

         - A mortandade que tanto regozijo causou a Netanyahu e a Trump, ceifou alguns dos principais dirigentes da geração dos ayatollahs, incluindo o chefe supremo Ali Khamenei. Que ganhou a América com este acto terrorista, sabendo nós que as existências de bombas nucleares não existem e que o objectivo era acabar com o sistema político substituindo-o outra vez pela monarquia dos Reza Pahlavi. Com um doido varrido à frente dos EUA, para quem o mundo inteiro terá se curvar ante a sua força bélica e económica, armado em zelador do bem e das multidões sob tiranias políticas, pergunta-se qual será o próximo país a ser destruído, sendo certo que as ditaduras russas, chinesas, vietnamitas ou norte coreana nunca ele se habilitará a atingir, pela simples razão que o podem destruir a ele? A bomba atómica, dá aos países que a possuem, um poder de dissuasão que querem conservar só para si, como forma de escravidão dos demais. Um dia, qualquer destes malucos fanáticos das riquezas alheias, abrirá mão da sua liquidação total. 

         - Onde está a Europa dirigida pelo casal von der Leyen e António Costa? Não existe. Perdão, é real na sua desordem, no seu atraso básico, no seu olhar torcido da realidade, nas suas hesitações, nos seus longos e luxuosos retiros de onde não sai nada, zero, silêncio total, nos seus passeios a Kiev para enaltecer quem pelo trabalho e a honra não precisa de palavras simpáticas e protocolares. Esta paralisia foi útil a Trump e ao seu amigo Putin, mas nada boa para a Europa. 

         - Neste triste país fala-se que se desunha. Tantos comentadores, de todas as idades e bochechas, comentam a inacção de Luís Montenegro com a base das Lages de onde partem os assassinos voadores que matam e destroem os países caídos em desgraça pelo Pentágono. Pergunto: se o Governo português se opusesse, teria o espalha brasas Presidente dos EUA mandado retirar os aviões? Ou não seria ainda mais um vexame para Portugal ver-se desrespeitado no seu próprio território? 

         - Triste de me sentir perdido ao aproximar-me do final de Toute Ma Vie - quarto volume do diário de Julien Green. 


sábado, fevereiro 28, 2026

 Sábado, 28.

Estourou a guerra no Médio Oriente às primeiras horas da manhã. Nada que o Irão e os países vizinhos não esperassem. Trump, calculoso, decidiu enfrentar os Xiitas através do seu inimigo figadal: Israel de Netanyahu. Foi este que, escudando-se com guerras sucessivas que lhe permitem escapar ao julgamento dos muitos crimes praticados no posto que ocupa há vários anos, disparou primeiro. O adversário, já preparado, retaliou cargas de mísseis por toda a redondeza onde os EUA têm bases militares: Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein, Jordânia, Iraque, Qatar, além de Israel onde as sirenes não param de se ouvir. Parece estar aberta uma guerra regional de difícil desfecho. Entretanto, o homem que ambiciona o Nobel da Paz, abriu diversas frentes de guerra e incentiva os iranianos a ir para a rua gritar pelo descendente de Xá da Pérsia Reza Pahlavi. Embora não concorde de maneira nenhuma com o regime que governa o país há mais de três décadas, não esqueço que este foi referendado pela população. Os americanos vão enterrar-se uma vez mais na sua ambição e cobiça, porque pode ser que lhes saia o tiro pela culatra e o povo admita para o lugar de Khamenei, outro muito pior de entre diferentes dirigentes. O país é fértil em etnias, facções religiosas e líderes impulsionadores do Islão. 

         - Assim foi, assim será. Acaba de rebentar outra guerra que julgo também teve a mão de Trump: o conflito entre o Afeganistão e o Paquistão. Este atacou os talibans que tomaram o país e o dominam depois vergonhosa deserção de Joe Biden. Aquilo é um verdadeiro campo de concentração, um inferno na terra. 

         - Ontem estive com a Dulce, Virgílio, Alexandre e João na esplanada da Brasileira. Manhã brilhante, cheia de odores primaveris, em conversa amena (salvo quando o João intervinha), o Chiado com pouco rebanho turístico tresmalhado. Sabia que a Dulce é professora e pelas ideologias próximas do João, também delegada sindical. Só não imaginava que era apaixonada por pintura que exerce pelo menos duas horas por dia. Ela parece temer o meu juízo artístico porque aos olhos daquela gente (salvo os do Virgílio) eu não sou bicho que se cheire, de tão crítico sou para eles e não só em pintura como em literatura, ideias gerais, política, etc. Por estranho que pareça, nunca me senti próximo dela talvez por a ver tão chegada ao João e às suas doutrinas marxistas. Todavia, ontem, pedi-lhe para ver os seus trabalhos e experimentei uma súbita simpatia por ela, o seu olhar risonho e terno, sem fugir ao meu parecer prometeu mostrar-me. Daí o grupo foi almoçar ao restaurante austríaco ao fundo da Rua Anchieta. Comoveu-me a insistência dela e dos outros para que os acompanhasse. Não aceitei não só porque iria gramar duas horas de política à moda do João, ainda porque os preços são elevados e aquela gente não almoça, banqueteia-se e ainda porque queria trabalhar no romance no sossego do petit-cafe da Fnac. 


quinta-feira, fevereiro 26, 2026

 Quinta, 26.

Ontem, depois de muitos meses, isolado na Fnac entreguei-me ao romance. As dificuldades visuais pouco ou nada melhoraram, e o esforço que tenho de fazer para ler é enorme e cansa-me. Mesmo assim, ali estive por três horas. Prontamente recompensadas pela viagem de volta, a luz de Lisboa desenhada no horizonte, a impressão de felicidade traduzida na paz e na harmonia do dia. Aqui chegado, foi como um banho de odores e silêncio, que limpou as impurezas das dúvidas e dos falhanços. O interior do salão, descobriu-se-me como nunca antes, tudo nele reflecte equilíbrio, vida transcorrida dos objectos, quadros e livros, nesta desordem serena que apetece sorver como algo palpável que traduz não só a natureza das coisas como a existência a ela associada. 

         - Levo meses de bem dormir. Sempre atribui grande importância ao sono e nesta fase tenho noites que durmo 10 horas. A alimentação e o descanso, são os amigos que nunca largo. Como por necessidade, durmo por prazer. A maioria dos portugueses não seria capaz de se alimentar como eu faço, considerando que isto é passar fome e é na comida que reside a felicidade. Não bebo, não como gorduras, gosto de doces, mas somente uma colher de sobremesa engulo com o café a meio da manhã. Esta pobreza franciscana, dá-me vigor, mantém o meu corpo como sempre foi, ajuda-me mentalmente a passar os momentos carregados de pensamentos aziagos, que descem dos abismos inacessíveis e se estatelam reduzindo-me a um monte de incertezas. 

         - MM, melhor dizendo, Éric, cuja vida de vícios e falta de interesse pelo trabalho tem o seu temperamento estampado em muitas páginas do diário de Green e o ciúme de Robert que o detesta, não por ser o amante do seu amor, mas pelos muitos problemas que causa ao nobilis escritor. São inúmeras as passagens como esta, que se fôssemos a traduzir para a nossa língua chã, diríamos tratar-se de um verdadeiro chulo. “Hier MM a été charmant, puis insupportable. Charmant quando il a besoin de quelque chose (en l´occurrence 5.000 francs pour son médecin) et insuportable quand il a obtenu ce qu´il voulait ai dit devant Pierre (o seu amante na altura) et il était furieux.”   

         - Pela segunda vez num curto espaço de tempo, caí à porta da cozinha. A saliência entre a rua e a entrada, desde tempos recuados, provocou o mesmo desastre a muitos amigos e familiares. Para entrar, desce-se um ligeiro degrau. Tempo magnífico. 


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

 Quarta, 25.

Com a idade estreitam-se não só as paixões como se restringe quase tudo o que nos maça. Ver o estado em que se encontra a quinta desgosta-me e apetecia-me chamar uma dessas empresas que num só dia abatem as árvores, serram os trocos para a lareira, queimam os ramos e arrumam a lenha. Por outro, assim pensando, tenho que tomar uma decisão drástica e cortar o mal pela raiz, isto é, vou ter que cortar pelo meio os cedros que cresceram em trinta anos uns vinte metros e são hoje uma ameaça à casa em caso de repetição do vendaval. Dito isto, ontem, ao fim do dia o Nilton restituiu-me a água de que tanto necessitava. Enfim, uma coisa resolvida por sessenta euros (toma e embrulha). 

         - Outro dia quando entrei na Versalhes, deparei-me com o homem do leme em que eu me recusara votar para as presidenciais e julgava que os portugueses, fartos dos políticos de meia-tigela, iriam entregar-lhe de mão beijada a direcção do país. O almirante estava estrategicamente sentado à escotilha de forma a que quem entrasse ou saísse o visse. Abancava com uma personagem sólida de corpo, olhar matreiro, vestido a rigor (fato completo, gravata, camisa impecável) e ambos cochichavam olhos nos olhos, sem que ao militar escapassem aos olhares que os clientes depositavam (talvez por estranheza) nele. Mantinha o mesmo sorriso enigmático, mas todo ele estava trajado da farpela idêntica à dos políticos que com ele concorreram a Belém. Muito cedo despiu a farda maculada da Marinha e afundou-se ao vestir a albarda, com a sua linguagem, o seu desprezo pela verdade, a sua ganância de poder, a sua incompetência, o espírito de manada, a falta de rigor, o desdém pelo indivíduo e tudo o mais que eles dizem ser a condicionalidade da democracia e não passa de lodaçal sujo da política. Foi esse estreitar de ombros com os demais, que o impediu de ser hoje aclamado Presidente da República.

         - É um insulto à democracia e aos portugueses aquele ar triunfante, acentuado por uma barriga proeminente, um caminhar seguro de quem sabe que não vai para o cadafalso, antes cada vez se encobre sob o guarda-chuva do cargo de primeiro-ministro com os muitos escudos que a função lhe deu e a corrupção solidificou. Falo do ladrão José Sócrates. 

         - A mim sempre me fez muita confusão e sempre me interroguei, que têm de bélico os mísseis nucleares do Irão ou de outros países quando comparados com os dos EUA, Federação Russa, China, Coreia do Norte, França, Inglaterra ou outros. Sobretudo porque se evoca, como no caso do Irão, o seu regime totalitário e repressivo. Bah! Mas afinal não foi o regime democrático americano o primeiro e até hoje o único que utilizou uma tal arma dizimadora da humanidade?!