segunda-feira, novembro 02, 2026

 Segunda, 2 de Novembro.

Portugal é um país sui generis e nesta altura fervilha de originalidade. André Ventura ufana-se por ter sido eleito presidente do Chega com 98 por cento dos votos! Pudera! Ele é o único a concorrer e a encher o partido não havendo, como se sabe, mais ninguém. Os que o aplaudem são figuras de cera, espécie de sombras por onde espreitam as câmaras de televisão à procura de equipas, técnicos, políticos e povo. 

         - O ministro da Administração Interna, Sr. Neves, ordenou mais uma sessão de violência contra os manifestantes no Rossio e depois apareceu nas televisões, compungido, a lamentar as agressões. Já sabíamos que o homem é moral e eticamente repugnável, agora sabemos que é cínico e hipócrita. 

         - Nunca imaginei concordar com a senhorita Catarina Martins, a solitária deputada do BE em Bruxelas, que chamou à equipa policial que investiu sobre os jovens indefesos no Rossio, sob as ordens do Sr. Neves, “um bando de rufias”.  

         - Ainda sob o efeito do país singular que somos, esta comparação: Espanha, vai a partir de amanhã começar a indemnizar as vítimas da tragédia dos comboios de alta velocidade; por cá o caso do elevador da Glória ainda a procissão vai no adro. É tão patriótico ser português! Temos os melhores políticos da Europa, excelentes e honestas companhias de seguros, leis que dignificam os cidadãos, justiça célere, gestores de suprema qualidade e vai-se a ver é tudo mentira, só subterfúgios, desculpas, passa-culpas e calo-me. 

         - Ontem pedi quatro horas à escrita para fazer dois kilos de marmelada vermelha. O que saiu, está lá fora ao sol e deu-me um prazer inolvidável. A vida, a autêntica, passou através das horas marcando-as indelevelmente de supremas. 


sábado, outubro 31, 2026

Sábado, 31.

António José Seguro em quem votei, continua a decepcionar-me. Chegou tarde às urgências impostas pelos que legitimamente reclamam mais acção ao Governo e menos propaganda barata. Chegou e disse aquilo que eu e milhares de portugueses vêm dizendo há décadas: que a “trica partidária” paralisa o país e apelou aos partidos para que se entendam e façam o país sair da “cepa torta”. Banalidades, palavras vãs de quem deixou a carta a Garcia e partiu aliviado.  

         - Começou a limpeza na Faixa de Gaza de certo com o consentimento de Netanyahu. Com o mesmo desprezo pela vida humana com que liquidaram para cima de 75 mil palestinianos, os soldados retiram o entulho e escondem os corpos e os crimes praticados durante o holocausto na Palestina. Vai tudo para a fossa comum, as famílias não têm direito à dignidade de sepultarem os seus entes queridos. Resta-lhes o grande sofrimento e as lágrimas secas que são a marca de dor nos seus rostos inexpressivos. 

         - Ontem fui ao encontro do Couto. Há algum tempo que não nos víamos e a velhice entrou nele como em todos nós. Todavia, a vetustez, cercou-o de uma áurea nobre, de uma fragilidade suave que interlaça as emoções na forma como fala e olha à sua volta. Quem o viu em acção na Estoril Sol, no esplendor dos seus quarenta anos, noites a seguir a noites sem dormir, sempre de pé como uma rocha, um cigarro e uma chávena de café a desafiar o futuro sem tempo para o tempo de uma pausa. A seu lado, André o filho e dois netos: Xavier com dois anos e uma menina nascida há dois meses. Olhei aquele pequeno cosmos que me é tão familiar, e as recordações saltavam no meu coração como cintilações de um mundo que parecia ter sido inventado. Depois, de súbito, tudo ficara obscurecido ante a energia delirante do pequeno Xavier, que é a essência pura da vida, e pensei no futuro que lhe reservam os ronaldos deste país onde Montenegro se encaixa, relhos e velhos, ávidos de riqueza e poder, indiferentes à doçura dos dias, ao prazer da simplicidade feliz que todas as manhãs inundam o querido menino, não só o seu pequeno mundo, como todo o Universo suspenso do riso feliz de uma criança encantadora. 

         - A lata que tipos como Flávio Bolsonaro esbanjam, é comum a tantos outros sectários e deuses da mentira e do desprezo humano. Depois das falcatruas financeiras, de gente que até morreu pela imagem de virtude e patriotismo que ele vendeu, é da tribuna sólida oferecida pelo taralhouco Trump, que põe em cheque a dignidade do seu opositor à Presidência da República e o acto eleitoral.   

 

sexta-feira, outubro 30, 2026

 Sexta, 30.

Avanço no livro Levítico controverso pela temática e como o anterior de uma precisão quanto aos rituais na casa de Deus. Observador, Frederico Lourenço, previu-nos para o que aí vem. Por exemplo, a validação e conceito do pecado como manipulação do povo em relação aos sacerdotes e dependência na vida de Israel. A matéria que acompanha cada holocausto, é levada ao ínfimo pormenor, tanto pela escolha do animal, como pela sua medida e espécime em ligação à expiação do pecado cometido. Mesmo tratando-se de pecados conscientes e inconscientes, o código de aplicação é imposto com uma rigidez que revolta, como se o povo perdesse a noção da sua identidade em favor de normas de uma implacabilidade e, portanto, facilmente conduzidas pelos sacerdotes. Como o que se passou com a Igreja entre nós no tempo do fascismo, inundando o espaço público de temor a Deus, as consciências temerosas de tudo o que não viesse da Igreja, Deus lançado aos quatro ventos como um tirano que nos queria a todos subordinados, humilhados e vencidos. Contudo, acima Dele estava a Igreja omnipresente e omnipotente, encarreirando a seu belo prazer o povo humilde, analfabeto, temeroso a Deus. No que toca a Israel, como se vê na guerra que alastra todos os dias pelos territórios vizinhos, o poder religioso dos ortodoxos impõe-se, possuem mordomias acima do comum dos mortais como, por exemplo, não fazerem a guerra, viverem numa espécie de limbo, pressionando o Estado sob a conduta de valores que não andam muito distantes dos de Moisés, manobrando as consciências dos seus concidadãos. 

         - As estruturas da sociedade dos nossos dias, são por si organizações fragilizadas por uma teia social que reivindica em primeiro lugar a satisfacção do poder dos sindicatos. Há uma inter-ligação que predispõe os trabalhadores à reivindicação, à lenta detioração do espírito critico, sabendo de antemão que o sindicato os defende seja qual for o desastre ou a falta dos seus actos. Foi o que tudo indica aconteceu com o acidente de anteontem com dois comboios de alta velocidade, em Espanha, onde morreram até agora 80 pessoas e quase uma centena ficou ferida. Chocaram de frente, entre 160 a 200 km hora. Tudo indica que o controlador à distância, deu ordens aos maquinistas atirando para a morte tantos passageiros e enlutando tantas famílias. No final, tal como aconteceu entre nós com o elevador da Glória, a culpa foi do azar. Pior: esta é a segunda tragédia do género este ano. 

         - No Parlamento arménio, a sessão de ontem, fechou a murro entre deputados empregando a melhor técnica do boxe. Para quando idêntica festa na nossa Assembleia Nacional – a coisa já esteve por pouco. 

         - A última sondagem parece que dá o PS em primeiro para formar governo. Os portugueses estão fartos daquele sorrisinho (não tão pateta como o do Durão Barroso) de Luís Montenegro. O pior é que, estando lá o PSD ou PS, o Livre ou o Iniciativa Liberal, a essência dos nossos governantes é muito baixa em cultura cívica, moral, ética e conhecimentos gerais. Sem falar na sofreguidão do poder onde todos são mestres e a cultura é um estorvo. 

         - Alinho estas palavras na Fnac do Chiado. Daqui a pouco irei ao encontro do Couto ao CI para lhe deixar uma tijela da minha marmelada para a Zitó – ela que fez quilos para mim durante anos. O Sol bate-me, tímido, nas costas vindo do fundo da rua lá em baixo onde o desassossego é muito. Não faz frio nem calor, uma temperatura perigosa vai-se insinuando como uma espécie de aviso para o pior. Estou no centro do meu mundo, mas um apelo distante vem ao meu encontro traduzido numa mágoa de hesitação, renuncia, dúvida. Nesta etapa da vida, encontrar ainda forças para tudo recomeçar, não é obra para qualquer um. A certeza é que não estou só – os anjos e os arcanjos estão comigo e sobre as suas asas voarei até aonde me levar a aventura, o sonho ou de novo o silêncio...


quarta-feira, outubro 28, 2026

 Quarta, 28,

Ainda a propósito do que disse ontem sobre o meu romance O Vazadouro dos Deuses, como se tudo voltasse à estaca zero, não resisto a transcrever a nota de apresentação do meu (mais um, céus!) saudoso amigo Alexandre Ribeirinho, que possuía uma imensa cultura, não só teatral, como em muitos outros domínios artísticos. “Quando me canso de escritores que sobram em erudição o que lhes falta em invenção – e eu sempre me canso – recordo a autores como o Helder de Sousa. Que regalo: ele inventa tudo! E tão bem, que as suas narrativas de pessoas, coisas e situações, têm a feição da realidade. Realidade pungente, quase marginal, aonde se chega através de um sorriso, tantas vezes. Todo este contorno foi para chegar a O Vazadouro dos Deuses. Quanto ao valor da obra em si, a Crítica se prenunciará. Agora quanto a Gabriel, que dizer?! Este seu “Primeiro Caderno” respeita apenas – e não poderia ser de outro modo – aos seus primeiros passos a caminho do seu pequeno Góngota de feição profana, a maneira de “estações”. Anjo exterminador ou anjo caído? Ou pelo contrário, anjo-passa-culpas ou anjo que em vez de cair, faz cair quem tropece no fascínio do seu encanto... Ocorre-me perguntar: serei eu o Fagulhas? Será você, leitor, o Zé Cerejas? Ou vice-versa? É que de Fagulhas e Zé Cerejas temos todos um pouco: é apenas questão de procurarmos bem dentro de nós, com discernimento, com inteligência. Onde iremos ser vazados?! O autor no-lo dirá, com extrema originalidade. Para tanto, os deuses estão com ele.” Alexandre, como todas as pessoas inteligentes, tinha um humor refinado. Quando eu escrevia O Rés-do-Chão de Madame Juju e ele me visitava no apartamento de uma vida ao Príncipe Real, assim que entrava, disparava: “A Madame Juju já recebe senhores de posição?”

         - Voltando ao meu encontro com o Simão e à pergunta que me faço com frequência: onde estarei eu daqui a meio ano? Simão aconselha-me a não deixar Lisboa por ali ter nascido e poder continuar a jardinar pelos locais da minha vida e a frequentar os amigos que não estiveram quando deles precisei. Depois, a Conceição que teve uma péssima impressão da Remax que lhe cobrou cinco por cento do valor que atribuíram ao seu andar na Graça, e logo desapareceram deixando-a com tantos problemas que ainda hoje vai a tribunal saber o veredicto do juiz; Simão propôs-se ir comigo e um amigo que aí habita, visitar a zona ao correr do Tejo, entre a Praça do Comércio e a Expo, onde cresce um ambiente urbano simpático e civilizado, na maioria habitada por estrangeiros, Marvila, em tempos terra a evitar. Por outro lado, sensível ao que os meus sobrinhos fizeram por mim em Agosto, tenho tendência a escutá-los quando me dizem que é melhor ficar perto deles. Que fazer? Espero com tempo e calma, poder optar pelo melhor: apoio familiar com regresso à Foz do Douro ou sentimentalismos de uma cidade que em nada se assemelha ao que fora na minha juventude. Simão acaba de me telefonar - o amigo que lá vive quer agendar visita na próxima semana. Ao que parece possui dois apartamentos e quer desfazer-se de um. 

         - Luís Montenegro é uma espécie de Trump na sua obsessão pelo progresso económico, mas em pobre, em miserável. 

         - Flávio Bolsonaro, que pertence à clique da nova geração de políticos que têm em Trump o modelo, logo que soube que perdeu as eleições, não obstante terem-lhe confiscados os passaportes – o dele e o diplomático – pôs pés ao caminho, quero dizer alugou um avião e desceu sobre os EUA onde o Presidente o acolheu de braços abertos. É a política nojenta da mentira e do abalroamento da dignidade, dos valores e dos que votaram nele.  

         - Israel foi às urnas. Ao que tudo indica, o corrupto trumpista Netanyahu, embora o seu partido Likud tenha a maioria de votos, vai ser difícil voltar a ser primeiro-ministro devido ao número de votos das outras forças políticas, incluindo a árabe, que estão em posição para formar Governo.  Assim vai este mundo abandonado por Deus. 


terça-feira, outubro 27, 2026

Terça, 27.

A luta dos jovens pelo direito a habitação condigna, não sai da actualidade. O chefão da Polícia, senhor Luís Neves, diz que só viu – provavelmente via televisão – uma cacetada de um polícia sobre um manifestante, mas a verdade é que mais de uma dezena foram receber tratamento ao hospital e um está mesmo em dificuldade. Neste entretanto, nem o Presidente da República nem o primeiro-ministro, se dignaram vir a terreiro encarar os rapazes e raparigas que não largam o Rossio. Estão dois afónicos. Um porque lhe estragam os dias e as noites calmas; o outro dependente do seu homem forte que o tem na mão, a ele e a uns quantos mais, não ousa infringir as directivas por Neves traçadas. Curiosamente, os polícias marcaram protesto em frente à Assembleia Nacional, pensando-se que desta vez sem tendas nem sacos-cama. Que país burlesco este. 

         - “Nós não temos delegados mandatados e revogáveis, temos representantes inamovíveis durante quatro anos, e eles próprios são manietados por uma série de dispositivos institucionais.” É deste modo que alude Miguel Serras Pereira, referindo-se aos representantes do povo, perdão dos partidos, no Parlamento, e com prazer volto a citar. São eles que deviam inscrever na ordem do dia, os protestos da juventude de sacos-cama e quartos a preço de aluguer de um apartamento. Não o fazem porque esta tragédia é culpa deles, dos dois partidos que tão mal têm governado Portugal e chamados à responsabilidade, atiram com estatísticas que ninguém conhece nem podem ser confrontadas. 

         - Os brasileiros foram às urnas e votaram contra Trump. Lula da Silva ganhou o quarto mandato aos 81 anos provando que essa história da idade é um pretexto para correr com os velhos. É facto que os nossos fraternos irmãos não tinham grandes alternativas, entre um e outro o diabo que escolha. Mesmo assim, nesta circunstância, foram inteligentes e deram a maioria ao menos dependente de Donald Trump, e em simultâneo defendem com o seu acto a Europa do perigo da extrema-direita em Espanha, Alemanha, França, com eleições para breve. 

         - Ontem fui a Lisboa para estar com o Simão. Ele acabou de deixar o hospital onde fora operado a hidrocele testicular. Abancámos no Celeiro, ele que sempre conheci com imensos cuidados alimentares. Ali estivemos uma hora à conversa, lamentando-se ele de não ter sabido da minha desgraça em Agosto de contrário viria em meu auxílio. Falámos muito de literatura e de autores, tendo ele reduzido a zero a maioria dos que se ufanam e agitam a carteira profissional de escritores. Mesmo Valter Hugo Mãe que eu tinha trazido à conversa por haver lido o seu último romance, “esse pertence ao sistema”. Do que eu não estava à espera, era de ser endeusado acima da maioria dos autores de hoje, isto porque lhe disse que recentemente, mexendo nos milhares de livros que esta casa alberga, me deparei com um de um modesto autor chamado Helder de Sousa. Eu conto. Nuns quantos que desloquei, veio o meu primeiro volume dos Cadernos de Gabriel, O Vazadouro dos Deuses que eu tinha dedicado ao ilustrador da capa, e me apareceria de repente nas mãos, muitos anos depois de o ter publicado. Sentei-me no salão, e li estupefacto as páginas finais do romance. Disse para mim mesmo: “Possa, isto é muito bom, profundo, misterioso e bem escrito.” Mas quem assim falava não era eu, era um tipo que tinha o meu nome, pois tantos anos depois li aquilo com os olhos de um leitor qualquer a quem ofereceram o exemplar. Contei o que acabo de narrar ao Simão e ele “tu és muito melhor que toda essa carrada de gente que se intitula escritor”, e depois por outras palavras, espera, deixa o tempo passar...  

         - Quando a minha saudosa Annie era viva, por esta altura, eu acabava de chegar de Paris. A casa estava fria, bem cheirosa da cera que a Piedade na minha ausência tinha dado nas madeiras do chão, havia no seu interior uma espécie de expectativa, de alguém que se detinha à minha espera, um sopro de murmúrio que se despegava dos livros, espécie de personagens pacientes que aguardavam pelo seu proprietário, um silêncio que se expandia em boas-vindas que estralejavam no ar enchendo a pacatez do interior. À noite inaugurava a lareira e a casa, a pouco e pouco, criava a atmosfera de intimidade que me é cara. Hoje, apesar de sentir as divisões frias, não ouso acender a lareira para não trazer o sofrimento da saudade da Annie, como da Piedade, ambas abrigadas no manto largo de luz do bom Deus, para o meu coração. 

 

domingo, outubro 25, 2026

 Domingo, 25.

Ontem houve uma enorme manifestação em Lisboa e Porto. Ao Rossio voltaram as tendas e os jovens que lutam por eles e por outra metade da população que são os velhos. Estão ambos no mesmo barco que ameaça afundar-se se os políticos manhosos nada fizerem. E nada farão a não ser atiçar os agentes da polícia contra os que na rua imploram justiça e equilíbrio. O Bugalhito, veio de Bruxelas onde ninguém sabe quem a criatura é, para defender, como diz, a integridade física da Polícia, ele que arreava nas mulheres infelizes que gostaram do espécime. Às ordens de Montenegro e de Luís Neves, os polícias carregaram forte sobre os manifestantes indefesos, alguns tiveram de receber tratamento no Santa Maria. 

         - Terminei Êxodos. Deve ser talvez o livro mais fascinante dentro do Pentateuco. YHWH, é minucioso no programa que dita a Moisés, indo ao ponto de indicar as medidas para os objectos de culto, exige tudo feito em ouro e prata, madeiras sem bicho, dá a dimensão do sacrário, quer material de primeira, hoje diríamos estilista na maneira como indica o corte e confecção das peças eclesiásticas, é exigentíssimo, impõe, ameaça, e, embora Moisés lhe pedisse “revela-Te a mim” (33-13), Ele responde: “Ninguém verá a Minha cara e viverá (33-20). A Minha cara não te aparecerá.”(33-23) São 39 capítulos onde Deus encaminha os filhos israelitas para a terra de destino e pelo caminho, através de nuvens abertas nas montanhas, faz subir o Profeta que anotará ao pormenor as bases judaicas, pensamento e acção. Ao ler o Êxodo, compreendi melhor a mentalidade dos judeus – muito do que eles são hoje, já desde a sua saída do Egipto está traçado. Jesus e os seus Evangelhos, contrariam muito do que ali está constituído, disso me ocuparei quando entrar em Levítico. 


sábado, outubro 24, 2026

 Sábado, 24.

A Europa da União Europeia parece moribunda, afogada nas suas contradições e incapacidade de sobreviver às frustrações populares sem cair num regime totalitário. As novas gerações estão fartas de ficar para trás, de ver avançar uma classe de oportunistas, de gente a quem não interessa o bem comum, antes os esquemas partidários, as lutas ideológicas, os arranjos pessoais, o compadrio e o panache de uma vida de luxo paga pelos impostos dos cidadãos cada vez mais pesados. Uma reviravolta anuncia-se com a juventude a tomar a dianteira em manifestações de descontentamento: Portugal, França, Espanha, Itália, Grécia, Bélgica e passo. Alguns dirigentes, em desespero para enfrentarem as mais que justas reivindicações, ensaiam atitudes drásticas próximas de regimes onde a ditadura impera. O jogo poderoso do capital como meio único de desenvolvimento, nas mãos de gente gananciosa e desumana que só vê cifrões e tem manietado os países em seu proveito próprio, a pouco e pouco, erigiu pequenos impérios de influência, ginástica financeira, poder e redução de milhões a tarefeiros pagos como escravos, sem que os Estados pouco possam fazer. A dimensão ética da política está manietada por grupos económicos que governam o mundo e minam os dispositivos institucionais, os governos, e fazem tiro ao alvo a este ou aquele governante corrupto que se deixa arrastar por somas astronómicas. Esta Europa tem os dias contados, os extremos vão devorá-la e os povos traídos estão já a sofrer por destinados. 

         - “A perspectiva mais assustadora é saber aquilo que perdemos quando perdemos a leitura. Perdemos muito mais que este livro ou aquele, perdemos uma dimensão do pensamento e de relação com a própria linguagem.” O dono deste texto é Miguel Serras Pereira e foi nele que pensei quando ontem, no Corte Inglês, peguei no último volume do diário publicado há dias de Marcelo Mathias. Depois, quando subi para dormir, peguei no Dom Quixote por ele traduzido e levei-o comigo para o quarto demorando-me a reler passagens e, sobretudo, a deliciar-me com as notas de rodapé do ilustre tradutor, não fora os meus olhinhos e iria pela noite adentro embalado por Cervantes. O Miguel Serras Pereira encontrei-o eu no jornal A Capital e sempre apreciei a sua notável capacidade de trabalho e inteligência. Perdi-o de vista quando deixou o jornalismo para se dedicar à tradução e à poesia. Um dia, em Lisboa, dou de caras com a Cetinha e, ou me engano, ou ela disse-me que estava a viver em Leiria com ele. Como não sei onde meti o número de telefone que ela me deu...