Sexta, 13.
O Palácio Nacional de Mafra, recentemente intervencionado com milhões do PRR, oferece ao visitante a imagem que a foto documenta. A pergunta que devemos fazer é esta: é aceitável que o monumento sofra estes estragos na sequência da intempérie ou a sua protecção foi umas simples cócegas que nos custaram os olhos da cara? Ao que dizem os jornais, a água escorre pelas paredes, o vento abana janelas e portas, o estuque cai das paredes e tectos. Este é mais um retrato de como está a fiscalização pública onde ninguém é responsável por coisa nenhuma e onde os barões bem pagos se coçam para dentro e cúmplices de muita falcatrua cospem para o lado.
- E todavia, a ladainha das rádios, das televisões, dos jornais, dos políticos, dos autarcas, de toda esta gentalha que nos tem governado, passado o perigo logo retorna ao mesmo rame-rame, aos sorrisos cínicos, aos negócios públicos e privados, remetendo para os ouvintes e espectadores as fórmulas precisas e eficazes da governação, como se estes fossem alguém com as suas ideias e comentários na conjuntura nacional. Recorde-se os incêndios, as muitas propostas para os evitar, e como o ano passado voltaram em força provando que nada foi deito.
- Disse-me esta manhã o João que é uma espécie de guarda nocturno, que choveu toda a noite em Lisboa. Eu não ouvi nada, dormindo como durmo. Quando acordei e desci, o aspeto que a quinta tinha, a chuva a cair abundante, abria o quadro do que fora a noite. Nunca o país que eu me lembre, sofrera tão prolongada e triste situação. Praticamente, com especial cuidado para a zona centro e a minha insigne Coimbra, os desastres são muitos e vão precisar de assaz de tempo para serem corrigidos. Tempo e dinheiro, sofrimento e revolta das populações, dos portugueses em geral que vêem o seu país a ficar para trás e as suas vidas reduzidas à pobreza da época de Salazar. Mas os ricos, nunca foram tantos e tão prósperos; a corrupção nunca esteve tão assanhada; a impunidade nunca bateu os recordes de hoje. Grande democracia que trouxeste mais horror e desigualdades, fazes vergonha e puseste no horizonte de atalaia a ditadura que espreita pacientemente o momento para se reinstalar.
- Porque falei no João, vou contar o que me disse o motorista da Carris Metropolitana. Cito antes a parábola do João que sabe do que fala, porque enquanto deputado em várias legislaturas, percorreu o país de Norte a Sul, de Este a Oeste. “Caro Helder: os portugueses são maus e invejosos.” Eu não posso afirmar que actos como este sejam frequentes, embora o funcionário me tivesse dito que eu não imaginava o que se passa nos transportes públicos. E o que ele me narrou (peço ao leitor que tape o nariz) foi que naquele mesmo carro que ele conduzia e eu ia entrar, não havia duas semanas, um/a utente, despejou os intestinos no banco traseiro corrido e com cortinados nas costas. No dia seguinte, os passageiros que entravam, denunciavam um cheiro horrível, mas ninguém identificou logo a origem nem o local. Só mais tarde um dos motoristas mandou retirar a posta, mas os protestos dos viajantes prosseguiram. Até que entrou um casal que se foi sentar nos últimos lugares e deu com os cortinados sujos que o/a selvagem tinha usado como papel higiénico. Que fizeram eles, arrancaram-nos e atiraram-nos auto-ónibus fora. As meninas do BE, estou certo, defenderiam os energúmenos, com a máxima de que eles não eram culpados, mas sim a sociedade que não os soube educar.
