quarta-feira, maio 27, 2026

Quarta, 27.

O terno espalha brasas passou aí as primeiras horas da manhã. Para o receber, tive de acordar antes da sete de forma a evitar-lhe penosas horas ao sol. Bom. Veio lacrimoso, desabafando a sua tristeza pela morte de uma prima. Como não posso ver ninguém chorar, abracei-o dizendo-lhe que ela está melhor que nós e lhe rezasse pela alma. “Não sei rezar, a minha mãe dizia pra mim o Pai-Nosso.” Levou o tempo a carregar para debaixo do alpendre a lenha que nasceu do abate das árvores que tombaram quando da tempestade. Depois, pedi-lhe que arrancasse pela raiz os rebentos dos sobreiros que se multiplicaram por toda a quinta. É um trabalho que nunca mais finda com as despesas inerentes. E, contudo, isto é tão fascinante!  

         - Estive a observar Luís Montenegro quando falava no Norte sobre o seu Código do Trabalho. O homem, perdão, sua excelência, está muito diferente quando comparada com o primeiro ano de governação que eu tanto havia apreciado. Engordou, exibe já umas bochechas que lhe deformam o rosto, o sorriso tornou-se mais rígido, fala pelos cotovelos, numa ária em tudo idêntica ao PS de António Costa e ao Chega inchado de “principal partido da oposição”. Mas o que diz é básico, não há uma sustentação de pensamento, uma frase filosófica, um sentido de inteligência. É aquilo e ponto final.  

         - O país real, do lado da classe política, prossegue chafurdando na corrupção. A Polícia Judiciária tem mais um caso a acrescentar às centenas de outros. Anda tudo a roubar e daqui a nada, os milhões furtados por Sócrates, são trocos de pouca importância. Desta vez, foi a Águas de Gaia com suspeitas de uma enorme aranha económico-financeira, no valor de oito milhões. Estão em causa vários crimes, incluindo corrupção, branqueamento de capitais, abuso de poder, numa mixórdia entre dirigentes públicos e empresários. 

         - As parlapatices de Trump não têm fim. Numa hora crê que levou a palma sobre o Irão, noutra larga bombardeamento sobre o país dos aiatolas. Enquanto isso, diz que o cessar-fogo continua. Torna-se evidente que é o Irão dos revolucionários islâmicos que pratica a inteligência, a honorabilidade, e conhece a ciência política onde o Presidente dos EUA é ignorante. A mim o que me surpreende e faz pensar, é como uma democracia estabilizada ao longo de mais de um século, pode manter e dar poder absoluto a uma só pessoa que pôs de lado as instituições, as leis, a práxis política praticada por Cícero, profundamente pensada e elaborada pelo político-filósofo no seu refúgio de Túsculo.  

         - Por aqui as temperaturas andaram ontem a roçar os 40 graus. Saí para ir nadar e esse exercício, vá-se-lá-saber porquê, foi possante de força, alegria íntima, satisfação plena. Continuo sem dores nas costas, caminho com o pensamento e andar postos nos meus vinte anos, naquela atitude de quem não se lembra das dificuldades físicas e cresce ante o desafio dos dias na plenitude da vida. Amém. 

 

segunda-feira, maio 25, 2026

 Segunda, 25.

A moda das flotilhas de misericordiosos rumo à Palestina veio para ficar. Mas, desta vez, teve um grande mérito: abanar a hipócrita e ronceira União Europeia. Isto porque o básico governante ministro de Netanyahu, Ben Gvir, entendeu deleitar-se com os 430 activistas detidos, algemados, todos a monte, de cócoras com a cara no chão, e de tão divertido filmou a cena às gargalhadas com a bandeirinha israelita a acenar ao vento num gozo de troça nunca visto. Vai daí, a Itália, França e, imagine-se, até Portugal, formalizaram um pedido à UE para a discussão de sanções económicas a Israel. Até aqui, os 27 estados-membros, nunca tinham dado pelos horrores praticados em Gaza, no Líbano e mais não sei onde. Agora que pessoas da União Europeia se insurgiram e foram maltratadas e humilhadas, é que notaram que Israel com o corrupto primeiro-ministro à frente de um governo de ultras, matou 75 mil palestinianos e para cima de 3 mil libaneses sem falar na destruição criminosa de dois países independentes. O mais incisivo, ele que não tem conhecimentos corridos do que se passa para além da fronteira portuguesa, e tem tido uma presença obscura por onde nos representou, falo de Luís Montenegro, defendeu a suspensão parcial do acordo comercial com Israel! Eureca! Se uma tal proposta tivesse chegado da Espanha ou da França, vá que não vá. Agora de Portugal e ainda por cima do primeiro-ministro...   

         - A gente vê e ouve e de cada vez que vemos e ouvimos, é para registar que desta vez foi mais forte, houve mais mortes e destruição.  Refiro-me à guerra entre a Rússia e a Ucrânia. A noite passada, Putin, ordenou o uso de um míssil hiper-sónico que ao chegar a Kiev se divide em várias direcções, causando mortes e destruindo as zonas do impacto. A capital parece ter sido o alvo e já vão quatro anos de uma guerra que o ditador pensava terminar numa semana. 

         - Comecei as regas e ainda a quinta não saiu dos horrores deste Inverno. Glória à hortênsias que começam a exibir a sua beleza em cumprimento a quem se aproxima de casa. 


domingo, maio 24, 2026

 Domingo, 24.

Mais um atentado que visava Donald Trump ocorrido em frente à Casa Branca. Se ele não deixa um só dia o mundo sossegado, um ou outro habitante cheio de ódio, tentará liquidá-lo. Este parece ser o seu destino. 

         - De facto, o mundo parece estar à beira do abismo, num estado comatoso. Pela África já de si abastada de guerras, fome, migrações forçadas, pobreza extrema, chegou agora em força o Ébola. Nestes últimos dias morreram no Congo para cima de 175 pessoas e o vírus parece estar a propagar-se falando-se já em Angola e noutros países africanos. Com o Mundial de Futebol à porta, as equipas africanas vão estar sujeitas a isolamento à chegada aos EUA onde o acontecimento tem lugar. 

         - O PS aparenta estar à frente nas intenções de voto dos portugueses logo seguido do Chega. Ufa! Livramo-nos do Costa e se isto se confirma será que o iremos ter em dose dupla, sabendo que o Chega não existe enquanto partido estruturado, credível e honesto! Até porque não acredito que António Costa faça o segundo mandato como Presidente do Conselho Europeu. Para além de levar a pasta da Presidente da União Europeia, não lhe reconheço saber nem conhecimento que lhe permita continuar no posto. Salvo se, como aquilo é decidido entre eles, ele que diz ser um “político”, consiga baratinar os colegas – nisso ele é impecável.  

         - Estou sem televisão. Que beleza, que silêncio, que paz! Terei de mandar chamar um técnico, mas como me encontro tão bem assim, dia para dia deixo-me resvalar na doce ausência do barulho, da mediocridade, do fala-barato, dos tristes e abundantes comentadores, dos políticos no seu português de bairro de lata. 


sexta-feira, maio 22, 2026

 Sexta, 22.

Chegaram-me hoje os resultados dos exames efectuados no início da semana. Tal como eu previra, o meu cérebro continua aquela máquina de excelente forma e actividade. Idem para o coração e as análises são de um jovem em princípio de vida activa. O acidente que tive na Fnac, não passou de um desafio do estômago afogado de ar, oito dias de flatulência que encontrou no desmaio seguido de vómitos a sua libertação. Decerto é isto que me vão dizer os médicos Dra. Vera Martins e Octávio Simões que me assistem. Já suspendi a Aspirina do tamanho de uma mosca, que o Dr. Simões para prevenir algum acidente, me receitou. Resolvido este problema, vou atirar-me a conhecer a razão que me leva a fechar o olho direito quando há demasiada luz e quando leio. 

         - Os nossos políticos saem da mesma matriz como se tivessem sido feitos por vazos concomitantes. É o caso do actual Presidente da Assembleia que é igual a Luís Montenegro, igualíssimo a Leitão Amaro ou Rita Júdice. Todos tiveram uma vida airada no domínio dos negócios que, como se sabe, são por sua vez a cadeia de ligações fervorosas que nunca se perdem e constantemente se ajustam, daí que aqueles senhores lutem contra o excesso de transparência que dizem existir em Portugal. Basta ver a pregação de Aguiar-Branco no 25 de Abril e compará-la com o modus vivendi do senhor. A ele custou-lhe ter de registar os apartamentos que possui, ao ponto de se ter esquecido de o fazer conforme a obrigatoriedade de quem acede a funções públicas. 

         - Assim me parece. Vai pelo mundo uma onda de abandalhamento no que toca a honestidade e missão cívica daqueles que exercem cargos politico-governativos. A coisa vem de Trump que deslassou a ética, criou a mentira em cadeia, a sobranceria, a ideia de que o poder só a ele pertence. Chegados ao poder, tudo lhes é permitido, pouco ou nada lhes é impeditivo; agrupados em partido, o país está muitos degraus abaixo e por conseguinte, subjugado aos interesses ideológicos que não têm em conta o indivíduo, mas o colectivo, isto é, o rebanho. 

         - O Verão instalou-se. As temperaturas de súbito ultrapassaram os 30 graus. Ontem, no autocarro que me levou ao Chiado para cumprimentar os rapazes da Brasileira, o ar condicionado estava ao rubro a tal ponto que senti frio. A mudança foi tão brusca, que alterou sobremaneira a parecença dos citadinos. 


quarta-feira, maio 20, 2026

Quarta, 20.

Esta manhã deu-me para rever páginas de Un journaliste juif à Paris sous l´Occupation de Jacques Biélinky. Horror, horror! Durante a ocupação nazi, não foram só os judeus que sofreram toda a sorte de malvadezes, também os negros os alemães proibiram de servir às mesas nos cafés e restaurantes. A fome entre os judeus foi terrível, as senhas de racionamento nunca chegavam para o mínimo, as filas eram intermináveis, e um dia Biélinky esteve seis horas para obter um ovo. Isto remete-me para o que se passa na Palestina e no Líbano. Às vezes dou comigo a pensar se toda aquela barbaridade não é se não a vingança de um povo. 

         - Vou até muito para trás, em 1096, porque vejo hoje a continuação do que aconteceu no tempo de Godofredo de Bulhão, a primeira Cruzada, as multidões anárquicas das “cruzadas populares” que atacaram judeus e vários milhares foram massacrados ou convertidos à força. É um facto e basta ler o Antigo Testamento, para verificarmos que os judeus viveram sempre sob guerras, mortes, numa luta constante que me é estranha se tivermos em conta que temos o mesmo Deus e o mesmo Livro Sagrado como conduta e fraternidade. As fontes hebraicas designam a Cruzada que prosperou no século XII por “Gizérot de 4856”, e as crónicas apontam por “desvairados” os “marcados pela cruz” ou “incircuncisos”. Quando estive na Praga dos Habsburgos, pude constatar com os meus olhos, o que persiste de um passado de luta entre católicos e judeus. A estes devemos muito, assim como aos árabes cujas culturas persistem na ostentação do que somos como europeus e como ocidentais. Daí que, se me indigno com os 75 mil mortos palestinianos, também me insurjo contra os incêndios em sinagogas como recentemente no Reino Unido e em França. Há um episódio que é narrado por Jean-Claude Guillebaud e vale a pena transcrevê-lo porque faz de certo modo a ligação com o que vem acontecendo na nossa Europa civilizada. “Em Rabisbona, em 28 de Junho de 1096, quarto dia do Tamuz, no calendário hebraico, os bandos bárbaros e suábios do padre alemão Gottschalk, identificados pela cruz, perseguiram os judeus da cidade, mataram os que ofereciam resistência e atiraram os outros ao Danúbio à força.” Estamos um pouco nas mesmas circunstâncias e medra o ódio aos judeus e o anti-semitismo não pára de crescer. Há nove séculos, estas manifestações que deram origem à formação dos célebres “pogroms” conduzidos por monges e místicos cavaleiros salteadores que marcaram o despertar do anti judaísmo que perdura até aos nossos dias. Da rivalidade religiosa, chegou-se aos extremos de ódio e liquidação de um povo que não se revê estou certo, nuns quantos radicais que ostentam a mecha acendida no início da cristandade.  

         - Ontem fui surpreendido por um telefonema de um dos empregados da Brasileira a que se associaram outros colegas. Souberam pelo António o que me havia acontecido e, como lá não vou há mais de um mês, inquietaram-se com o que lhes contou o António Carmo. Tanta generosidade desfaz em mim a barreira que impede o impulso generoso do outro. Solitário por prazer e realização pessoal, tenho nestes gestos a surpresa que me enche da presença que me falta. 

 

terça-feira, maio 19, 2026

 Terça, 19.

Ontem não eram oito da manhã e já eu atravessava Lisboa ao encontro da clínica onde passei para cima de duas horas a fazer análises a isto e àquilo, tac, electrocardiograma e mais não sei o quê. Como tinha de estar em jejum, assim que me vi livre daquela trapalhada, voei para o outro lado da Avenida da Liberdade para abancar na pastelaria Maison Luce - L´esprit du Pain, onde nos anos Setenta encontrava sempre Bernardo Santareno. O escritor levantava os olhos do papel, olhava-me do fundo da libido em sururu, num desassossego ante a beleza que lhe escapava. Hoje, o lugar aburguesou-se, afrancesou-se, tornou-se num sítio de passagem, com boa doçaria (os croissants são deliciosos, comi dois e comprei outros tantos), mas onde o espírito do escritor levantou amarras. Nem uma lápide existe naquela triste melancolia de quem entra e sai na indiferença ou desconhecimento de um tempo histórico que ali reinou e foi lugar de grandes discussões do reviralho. 

         - Aquele funcionário da Fnac com quem estive à conversa uns instantes, tendo eu encomendado um inédito de Stefan Zweig, e depois, não sei a que propósito, falámos de autores portugueses, retorquiu: “Não leio nenhum autor português de hoje.” Ele, que me pareceu ser um livreiro doutros tempos, terá as suas razões. Eu seguindo-lhe os passos posso contar pelos dedos de uma mão os que me interessam. De resto, os leitores mais atentos, sabem bem de quem falo e quem leio. 

         - Fui à piscina. Nadei meia hora sem qualquer prazer, impelido (se falasse o péssimo português de hoje diria impactado) apenas pela necessidade de fazer exercício. 

         - Montenegro que disputou em 2024 e 2025 eleições sempre com promessas de garantia de médico e família para mais de 1,6 milhões de portugueses, foi forçado a reconhecer que isso não é possível e remete para 2027 esse objectivo, decerto com os olhos postos em nova recandidatura.  Quis o poder a todo o custo e agora veio a reconhecer que essa mentira, justamente por ser propaganda, não podia ser alcançada. Que dizer? É um político português, com certeza. 


domingo, maio 17, 2026

Domingo, 17.

Vou ser breve e elucido os meus leitores que as palavras que se seguem não são minhas, mas da lúcida e sempre livre e actualizada Teresa de Sousa. “Xi é um ditador que ambiciona figurar ao lado de Mao. Os mais elementares direitos são sistematicamente violados na China. A tecnologia é utilizada para controlar cada cidadão. As purgas fazem parte da vida quotidiana do Partido Comunista da China.” Foi à sombra desta ideologia que na altura era também a da URSS, que muitos dos nossos comunistas estudaram, viveram, aprenderam a ser quem o que ainda hoje são. Eles quiseram derrubar o fascismo para se instalarem no seu lugar; a todos os outros partidos e cidadãos era a democracia que queriam alojar e defender.