quinta-feira, março 12, 2026

Quinta, 12.

Há um atrasado mental, de nome Tiago Grila, que atropelou na Amadora uma rapariga numa passagem de peões deixando-a muito afetada e pondo-se em fuga. Os anos passaram, a polícia em busca do criminoso, até que o sujeito, com fama de influencer, contou num podcast como o acidente se tinha dado, contorcendo-se de riso e contentíssimo do feito operado. Os agentes da autoridade, confrontaram os factos, deram-no por autor do atropelamento e vão levá-lo a julgamento. Mas o país actual é isto: milhares de seguidores, correm atrás desta gentalha que ninguém sabe de onde veio, acreditam nas suas histórias e seguem-nos como cordeiros. Que o país é esta geração básica, sem cultura, capaz de tudo fazer para ter uma vida fácil, sem trabalho nem conhecimentos, já todos sabemos e de nada serve impingirem-nos o grau de escolaridade que a democracia trouxe relativamente ao fascismo, porque a vida se encarrega de nos trazer de volta a medonha e assustadora verdade de uma génese. Estes influenciadores, só influenciam os idiotas.     

         - Respigo dos jornais de hoje: Guerra Israel–Gaza libertou mais de 30 milhões de toneladas de CO2 num só ano. É decerto verdade. Contudo, aflige-me mais o número incrível de 72 mil palestinianos mortos e mais várias centenas de líbios nestas duas últimas semanas. 

         - Estou a arrastar o términus do diário de Julien Green. As poucas páginas que me faltam ler, quero saboreá-las, ler e reler, porque são preciosas e devem ficar na mesa de apoio em frente à lareira para serem espreitadas nas horas e minutos que abrangem os próximos meses. 

         - Não há palavras para descrever o dia de hoje. Fiquei aqui (ontem aconteceu o mesmo) extasiado a olhar a paisagem que se enche de luz, flores, brotos juvenis, silêncio, contemplação, e uma luz que pensava perdida e cobre agora o campo de florescências de muitas cores. Voltaram os sangões, os pássaros, as borboletas, cobiçando os prados de florinhas amarelas, saltitando de pétala em pétala, depois de colherem o pólen que carecem. São infinitas as tardes solarengas, o olhar perdido entre a leitura e o horizonte onde um ligeiro tecido acinzentado bruxuleia na poeira do sol. Mas o mais surpreendente, é o silêncio que parece comungar com o todo da natureza, dançando ao toque sublime das horas, distribuindo paz e sossego, rumor surdo e o peso constante que afaga o coração e ilumina o olhar. 

Os malmequeres sorriem por todo o lado e são mensagem de bemequeres. 


 

quarta-feira, março 11, 2026

 Quarta, 11.

O assassino americano influenciado por outro seu igual israelita, diz que os bombardeamentos sobre o Irão, com destruição, mortes, inclusive 150 crianças de uma escola, a vida de um país voltada do avesso, não passa de uma “excursão” que ele ordenou ao seu exército fizesse para seu deleite e força. Parece que o recém-eleito líder supremo Mojtaba Khamenei, foi ferido em ataques levados a cabo por Telavive. Mas basta ouvir aquela equipa de gente sem competência nem humanidade que cerca o grande paxá exprimir-se sobre as mortes e a destruição de um país, num tom vulgar como se vidas humanas não tivessem valor algum, espécie de fait-divers com que as elites do capital se entretêm, para se compreender o destino de um país que exibe a força como virtude, entregue a um louco varrido, a um especulador imobiliário que se acha o supremo deus do mundo.   

         - Marcelo deu o lugar a Seguro. Na hora da despedida, à boa maneira portuguesa, muitos são os comentadores que vomitam pareceres sobre o seu reinado. Talvez o resumo que dele fez Miguel Tavares, seja o mais certeiro: “Ele é um político traquinas nas coisas populares e excessivamente medroso nas coisas grandes.” Seja como for, ele despiu a sobranceria do cargo, introduzindo no seu exercício a Democracia, naquilo que ela tem de mais frágil, mais próxima do povo e contra os arrogantes que têm passado por Belém – e foi mais do que um...  

         - Ainda não deixei de acender a lareira. Estes últimos dias, à noite, o frio instala-se. Logo que acaba o espectáculo das notícias, fecho o aparelho da TV, e mergulho no silêncio profundo que tudo reconforta e lanço-me nas leituras, um ténue fio de música em fundo. Momentos indizíveis de serenidade, de largo tempo em diálogo com o fogo, pequenos-grandes-nadas que fazem a grandeza da vida como, por exemplo, o trajecto no autocarro para e de volta a Lisboa, as tardes lá fora ao sol lendo Green, o trabalho no romance passando os acertos do manuscrito para o computador, aqui ou na Fnac, seja lá onde for consigo abstrair-me de tudo, o interior desta casa, construído a pouco e pouco, com todo um mundo abstracto que se tornou com os anos algo de substancialmente real a tal ponto que é hoje a identidade do seu proprietário. 


terça-feira, março 10, 2026

 Terça, 10.

Esta manhã cruzei-me no Rossio com o Luís, velho amigo dos teatros. Aceitei tomarmos um café no Nicola para pormos a vida em dia, depois de anos sem nos vermos. Foi casado, tem dois filhos, separou-se da mulher para casar (casar mesmo, com diploma e tudo) com um homem que vi no mostrador do seu telemóvel, figura espadaúda, depilada, ao gosto amaneirado dos tempos presentes. Falámos, falei. Para lhe dizer quanto lamento a escolha de vida à moda dos heterossexuais, monótona, fingida, trancados na família enquanto instituição católica tão do agrado das instituições - ainda que Jesus Cristo não tivesse optado por tal sorte -, egoísta e toda centrada nos filhinhos queridos, nos netos delicodoces, a televisão a preencher os dias, os passeios eternos pelos supermercados e centros comerciais, os restaurantes em moda, a ronceirice terna a encher o tempo que lhes resta para viver, quando antes, os homossexuais eram figuras de proa de um viver solto, criativo, apaixonante, onde o acaso tinha lugar e a liberdade caía em pleno no centro dos dias e sobretudo das noites, alagando as suas existências de impulsos criativos, amores desencontrados, escolhas entregues à sorte, desilusões, sofrimento, o todo num incitamento à descoberta, à aventura. Aquilo que mais reprovo à organização que impera entre nós, e que os concursos, a televisão, as empresas são forças da sua estrutura social ao mesmo tempo que dela dependem, é a ideia de que a família existe, é a força do Estado alicerce civilizacional de um padrão que tem nela o centro de um mundo que sendo largo deve permanecer limitado ao núcleo restrito de cada agregado. Se me permitem, este egoísmo mais evidente, teve o seu climax durante o SARS-COV-2, quando elas assaltaram os supermercados em busca do armazenamento de papel higiénico. Pode parecer ridícula esta observação, mas estou certo que recentra como nenhuma outra, a incapacidade de a dita família ver para além das quatro paredes da sua casa. De todos os meus amigos, quase todos casados, só um ainda por cima com mulher (perdão) esposa e três filhos, está sempre disponível para os outros, honra lhe seja feita: João Corregedor.  

         - Aquela cena ridícula, com Trump rodeado dos seus seguidores, em oração, ligados ao chefe, olhos fechados a orar não percebi a quem!   


segunda-feira, março 09, 2026

 Segunda, 9.

Andou toda a manhã aí o espalha-brasas do Sr. José Manuel. Quando chega, como sempre com o sistema nervoso acelerado, tenho de o acalmar. Sobretudo hoje, quando havia que retirar o fio elétrico que ficou preso às raízes de uma das árvores tombadas. Labor difícil, cauteloso, que o ocupou das 9 às 13 horas, comigo em sentinela não fosse ele deixar o trabalho para começar outro e assim sucessivamente ficando como é seu hábito tudo por terminar. 

         - Já não devia ter idade para a noite de ontem, semeada de sonhos provocadores, recordações vindas em catadupa a forçar-me a acalmar através dos hábitos da adolescência. Tanto tumulto tinha acontecido já a semana passada, como se eu fosse arrastado para excitações que julgava mortas e enterradas, delírios e desvarios, uns e outros em doses repetidas impedindo-me de dormir, corpos belíssimos ali a meu lado, suspiros risonhos amortecidos por recordações felizes que a madrugada me trouxe inopinadamente. Estranhos e belos instantes que o tempo havia enterrado e num fluxo de luz tinham retornado na forma misteriosa de um momento tangível e imaculado – os vinte anos teimam em não se afastar de mim. Oh, céus! O corpo envelhece, mas o coração é sempre jovem. 

         - Como se previa, o sucessor de Ali Khamenei é o filho de 56 anos. Netanyahu, apressou-se a dizer que o vai abater. Entretanto, o camarada Trump, diz que está próxima a invasão de Cuba. Há mais de um mês que lhe cortou o combustível que chegava preferencialmente da Venezuela. 

         - Por cá há um quadro sinistro da Polícia. Dois agentes da esquadra do Rato, estão presos por maltratarem e sodomizarem com o cabo de vassoura imigrantes e sem-abrigos e depois atiravam-nos para a rua. O filme dos horrores, foi dado a conhecer a outros colegas através de circuito restrito na Internet. Ao todo são uma dúzia de agentes que só não denunciaram o crime, como gozaram com a triste e desumana condição dos infelizes. Do Sr. Ventura, nem uma palavra. 


domingo, março 08, 2026

 Domingo, 8.

Assisti à eucaristia de domingo transmitida pela televisão do Porto. A concelebrá-la dois padres de certa idade, apoiados um no outro, numa espécie de representação da beleza que nos espera no fim da vida. São Paulo foi citado numa carta aos romanos. E logo me lembrei do evangelista, numa outra carta aos coríntios (6:9) e fui acercar-me da Bíblia traduzida por Frederico Lourenço, onde o santo homem reduz a cinzas uma boa parte da humanidade, sobretudo esta dos tempos modernos permanentemente alimentada pela pouca vergonha da liberdade sexual. “Ou não sabais que injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem bêbados, nem caluniadores, nem rapaces herdarão o reino de Deus.” Pergunta-se quantos de nós seremos chamados ao Seu reino. E se não há neste formulado um exagero imenso que nos leva a acreditar que, não havendo hoje santos na terra, quem procura Deus entre esta escumalha de gente que o substituiu pelo poder, a subjugação, a riqueza, o vazio de um tempo onde nada dura mais que uns quantos minutos, com a única realidade a que ninguém escapa: mortos, somos todos iguais - o sentimento fraterno da vida traduzido no que partilhámos e não no que possuímos. É aqui que existe a diferença e será decerto por aqui que seremos escolhidos. A verdadeira vida, começa depois da morte. Pessoalmente, estou curioso em espreitar pela memória e a permanente interrogação, a ressurreição a que somos chamados pela via estreita à Eternidade.        


sábado, março 07, 2026

 Sábado, 7.

A guerra continua. Todos os dias alvos bélicos cruzam os céus de Israel e da América na direcção do Irão e destes para Telavive levando a destruição. Teerão vinga-se, reenviando carradas de drones e mísseis para países vizinhos ou onde os americanos têm abrigos estratégicos. Netanyahu mantém duas guerras: contra o Irã e o Líbano. Por ora, a Europa está na defensiva. A mim o que me inquieta, é observar que uma democracia como a americana, pôs à frente do país um homem louco, obsessivo, descontrolado, manipulado por um rebanho de gente inumana para quem os negócios contam mais que as leis, as pessoas, a solidez do mundo, os direitos humanos, a Constituição e os valores morais. Neste concerne, o líder americano e o israelita, são irmãos gémeos que espero um dia possam ser julgados por criminosos e condenados. 

         - Portugal está afastado disto tudo. A classe política parece desconhecer em que estado está o mundo. As questões entre nós são mesquinhas, de lavadeiras à moda antiga, toda enredada num conluio secreto cujo desmame só eles conhecem. Montenegro que eu cuidava ser outra coisa, revela-se um homem enrodilhado em esquemas pessoais que vai desenrolando peça a peça, como num striptease de pouco interesse e nenhuma excitação. Como não há jornalismo entre nós, são as minudências que enchem páginas dos jornais, abrem telejornais, imiscuem-se no quotidiano como algo de supremo interesse. Deixando de lado o futebol, o presente é a história esquecida do mandato de Marcelo. Nesta como noutras circunstâncias, os comentadores têm lembrança curta. Mas que fazer, se é necessário imprimir jornais, abrir televisões, trazer para casa dos portugueses a lengalenga beata de um Portugal crente e temente a Deus e “especial” no contexto da Europa. Luís Montenegro, sendo do Norte, e não tendo esquecido aquela forma de terminar as palavras, leva ao seu condiscípulo da Casa Branca o apoio que outros países lhe recusam: “Portugal está ao lado dos EUA” A ética de outros ministros da UE ou Canadá, não se encaixa na originalidade do homem de Espinho e do interior do seu prédio tão ao gosto do desgosto de não ter havido sinceridade na sua construção, não brota nenhuma ideia perene para a construção do direito internacional e da dignidade humana.  

         - Há muito que não vivia uns momentos assim. Refiro-me ao gesto de puxar o canapé para o Sol e acercar-me do jornal e de um livro (no caso de Julien Green) e deixar-me ir por um mundo onde se cruzam os dramas, as dúvidas, mas também as esperanças dos homens. Em redor, vivas de verde e floridas, as árvores. E o silêncio da tarde quente, onde desaguaram outros instantes semelhantes, mas onde persenti que o seu recetor já não se assemelha àqueloutro que ficou para trás e não ousa reconstituir a magia perdida.


quinta-feira, março 05, 2026

 Quinta, 5.

Emmanuel Macron decidiu enviar o porta-aviões Charles de Gaulle para o mar Mediterrâneo e a fragata Languedoc para o largo do Chipre (o país que integra a UE) e fora atacado há dois dias, bem como o destacamento adicional de meios de defesa antiaérea. A França reforçou igualmente a sua presença no Médio Oriente com caças Rafale e outros meios aéreos projetados nas últimas horas. 

         - O Jonhson voltou aí e esteve a falar-me sobre a concorrente da IA denominada Grok. Parece que o bicho é mais assustador. 

         - Israel não pára. Não satisfeita com a morte de 72 mil palestinianos na Faixa de Gaza, enfiou-se uma vez mais pelo Líbano onde nas últimas horas morreram umas dezenas de pessoas. Que mundo este! 

         - Bela obra de Vhils que sustenta os 10 anos de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. No retrato está inteiro o homem nas suas múltiplas imagens que integram a verdadeira que só o artista captou.  

         - Faleceu António Lobo Antunes. Conheci-o no Hotel Altis quando do lançamento do seu primeiro romance Os Cus de Judas. Eu tinha acabado de publicar A Ruptura. Tornei-me a encontrar com ele numa sessão de autógrafos na Feira do livro (por sinal muito animada), onde ficámos lado a lado e era uma simpatia, no oposto ao que por vezes reflectia o seu temperamento. Os seus romances não me atraíam por os achar demasiados marcados pela obsessão ideológica e correrem, como direi, sempre em torno dos mesmos temas. Morreu sem obter o Nobel. Paz à sua alma.