Quarta, 29.
A semana passada, tendo sido surpreendido pelo desastre súbito de saúde do qual ainda não estou recuperado, tinha agendados três ou quatro almoços que não pude cumprir. Acontece que ontem, sob a minha constante curiosidade, andei a investigar no computador pedaços de utilização que não tinha pesquisado. Conclusão: foi-se toda a organização no tratamento de texto que estava estabilizada e constituía ferramenta de trabalho diário. Daí ter de me enfiar no autocarro e ir ao Vasco da Gama encontrar quem pudesse devolver-me a formatação e os documentos que tinham tomado outra paginação. Encontrei a solução na Fnac. Primeiro através de um rapazito que de tratamento de texto e do Offic não entendia peva; depois com o seu chefe que fazia toda a diferença na competência e saber, almejei um sorriso de reconhecimento que quis pagar e ele não aceitou. Ainda há disto, haja Deus!
- Bref. Quando atravessava o segundo piso do centro comercial, dou de caras com o Zé, nortenho de gema, que não via há muito tempo. Logo ali nos convidámos para almoçar. Durante o repasto, de resto muito divertido sendo ele betacismo, telefona a Alice. Hesito em atender devido à algazarra que nos cerca. Faço-o, todavia, para remeter a conversa para mais tarde. O facto é que me sentia tão bem, não só por rever o amigo de outras paragens, como por saborear o regresso à escrita para mim tão necessária como pão para a boca. Até porque, enquanto escrevo, desaparecem as dores lombares e o mundo reconstitui-se ao largo de todas as bênçãos celestiais.
- O Relatório da Garantia para a infância, registou que mais de 3036 crianças ou jovens foram identificados como sem-abrigo, em 2024. Dormem em tendas, barracas, casas degradadas em condições “insalubres”. Que têm a dizer os sucessivos Governos, que medidas foram tomadas? Nada ou quase nada. Patuá não falta – é dele que se mantêm os políticos com ambição ao poder. Este país desigual, pobre, atrasado não faz parte da propaganda ou a gente que nos governa vive em palácios encantados.
- Montenegro vive de fantasias. Com aquele sorrisinho de desdém, montou o palco no Pavilhão de Portugal, Parque das Nações, com encenação privilegiada para as televisões e apresentação de mais uma catrefa de intenções a que chama (PTRR) Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (resiliência, senhor primeiro-ministro?! ai esse português), no montante que o fez abrir o sorriso, de 22,5 mil milhões de euros. Estive a ler atentamente o teor da proposta e a primeira coisa que me saltou à ideia, é que ela não difere de tantas outras promessas e planos, apresentados com pompa e circunstância, mas que nunca passaram do papel e simpáticas intensões. Contudo, há nele decisões futuras que me parecem interessantes e urgentes. Por exemplo, o reforço das redes de energia, água e floresta ou os fundos para catástrofes naturais ou a assistência a idosos e pessoas vulneráveis ou a reforma da emergência médica de que sofri recentemente as consequências. Tudo é muito bonito e saudável, só que um plano de trabalho desta envergadura, devia ter sido alicerçado com a oposição civilizada, que abrange uma larga faixa da população – essa que representa na verdade a vontade do povo. Tenho tendência a dar razão à oposição quando afirma que “aquilo” não passa de uma cópia já apresentada.
- À margem deste plano, veio à liça uma imposição régia que pretende obrigar os proprietários de casa própria, a um seguro de catástrofes ou coisa que o valha. Como assim? Só os déspotas se colocam do lado dos prepotentes, fazendo coro com ordens e decretos, na clara intenção de desfavorecer uns e favorecer outros, no caso as companhias de seguros. Eu sei de que falo. A casa de Lisboa estava segurada numa das maiores seguradoras assim como esta. A da capital foi assaltada duas vezes, a companhia veio espreitar e declarou que já não me queria como segurado. Nessa altura desisti de seguros e assumi as possíveis desgraças. Ao contrário da obrigatoriedade do seguro automóvel justa porque prejudica terceiros, a que pretende o primeiro-ministro impor, é descabida e claramente estudada para alimentar e multiplicar as seguradoras. Os inúmeros hospitais privados que se ergueram nos últimos dez anos, são um no paralelo para a saúde.

