domingo, março 01, 2026

 Domingo, 1 de Março. 

A psicopatologia dos tempos modernos. Há uma semana que vinha a sofrer de dores nas costas quando estava deitado. Pensei que era o colchão que devia ser virado ou algo semelhante. Nesse entretanto, passei a dormir num dos chambres des amis e ontem, enchendo os pulmões, fui tentar volver o pesado colchão. Terminada a tarefa, mudados os lençóis, senti uma sensação de conforto a invadir-me e com essa sensação, chegada a hora, subi para dormir. Pessimamente. Quando acordei, tinha as costas doridas e assim que pus os pés no soalho e me sentei na borda da cama, o colchão vacilou e fui atacado de súbitos espirros que só pararam quando cheguei à cozinha. Estranho, algo não estava certo. Então, abri o computador que pertence à última geração de máquinas inteligentes associadas à  IA logo presente quando o ligo. Perguntei à rapariga robustecida de todas as fantasias, das humanas às sobrenaturais, o que se estava a passar. Esperei uns segundos e ela vomitou a sentença que me surpreendeu: teria de adquirir outro colchão porque este manifestamente estava no fim, ao disparar aqueles acidentes próprios de criatura senil. Pensei que deveria ter comprado este colchão há pelo menos trinta anos e conclui: “Helder, vai dormir noutro quarto e rapidamente despende o necessário para um novo.”  

         - A mortandade que tanto regozijo causou a Netanyahu e a Trump, ceifou alguns dos principais dirigentes da geração dos ayatollahs, incluindo o chefe supremo Ali Khamenei. Que ganhou a América com este acto terrorista, sabendo nós que as existências de bombas nucleares não existem e que o objectivo era acabar com o sistema político substituindo-o outra vez pela monarquia dos Reza Pahlavi. Com um doido varrido à frente dos EUA, para quem o mundo inteiro terá se curvar ante a sua força bélica e económica, armado em zelador do bem e das multidões sob tiranias políticas, pergunta-se qual será o próximo país a ser destruído, sendo certo que as ditaduras russas, chinesas, vietnamitas ou norte coreana nunca ele se habilitará a atingir, pela simples razão que o podem destruir a ele? A bomba atómica, dá aos países que a possuem, um poder de dissuasão que querem conservar só para si, como forma de escravidão dos demais. Um dia, qualquer destes malucos fanáticos das riquezas alheias, abrirá mão da sua liquidação total. 

         - Onde está a Europa dirigida pelo casal von der Leyen e António Costa? Não existe. Perdão, é real na sua desordem, no seu atraso básico, no seu olhar torcido da realidade, nas suas hesitações, nos seus longos e luxuosos retiros de onde não sai nada, zero, silêncio total, nos seus passeios a Kiev para enaltecer quem pelo trabalho e a honra não precisa de palavras simpáticas e protocolares. Esta paralisia foi útil a Trump e ao seu amigo Putin, mas nada boa para a Europa. 

         - Neste triste país fala-se que se desunha. Tantos comentadores, de todas as idades e bochechas, comentam a inacção de Luís Montenegro com a base das Lages de onde partem os assassinos voadores que matam e destroem os países caídos em desgraça pelo Pentágono. Pergunto: se o Governo português se opusesse, teria o espalha brasas Presidente dos EUA mandado retirar os aviões? Ou não seria ainda mais um vexame para Portugal ver-se desrespeitado no seu próprio território? 

         - Triste de me sentir perdido ao aproximar-me do final de Toute Ma Vie - quarto volume do diário de Julien Green. 


sábado, fevereiro 28, 2026

 Sábado, 28.

Estourou a guerra no Médio Oriente às primeiras horas da manhã. Nada que o Irão e os países vizinhos não esperassem. Trump, calculoso, decidiu enfrentar os Xiitas através do seu inimigo figadal: Israel de Netanyahu. Foi este que, escudando-se com guerras sucessivas que lhe permitem escapar ao julgamento dos muitos crimes praticados no posto que ocupa há vários anos, disparou primeiro. O adversário, já preparado, retaliou cargas de mísseis por toda a redondeza onde os EUA têm bases militares: Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein, Jordânia, Iraque, Qatar, além de Israel onde as sirenes não param de se ouvir. Parece estar aberta uma guerra regional de difícil desfecho. Entretanto, o homem que ambiciona o Nobel da Paz, abriu diversas frentes de guerra e incentiva os iranianos a ir para a rua gritar pelo descendente de Xá da Pérsia Reza Pahlavi. Embora não concorde de maneira nenhuma com o regime que governa o país há mais de três décadas, não esqueço que este foi referendado pela população. Os americanos vão enterrar-se uma vez mais na sua ambição e cobiça, porque pode ser que lhes saia o tiro pela culatra e o povo admita para o lugar de Khamenei, outro muito pior de entre diferentes dirigentes. O país é fértil em etnias, facções religiosas e líderes impulsionadores do Islão. 

         - Assim foi, assim será. Acaba de rebentar outra guerra que julgo também teve a mão de Trump: o conflito entre o Afeganistão e o Paquistão. Este atacou os talibans que tomaram o país e o dominam depois vergonhosa deserção de Joe Biden. Aquilo é um verdadeiro campo de concentração, um inferno na terra. 

         - Ontem estive com a Dulce, Virgílio, Alexandre e João na esplanada da Brasileira. Manhã brilhante, cheia de odores primaveris, em conversa amena (salvo quando o João intervinha), o Chiado com pouco rebanho turístico tresmalhado. Sabia que a Dulce é professora e pelas ideologias próximas do João, também delegada sindical. Só não imaginava que era apaixonada por pintura que exerce pelo menos duas horas por dia. Ela parece temer o meu juízo artístico porque aos olhos daquela gente (salvo os do Virgílio) eu não sou bicho que se cheire, de tão crítico sou para eles e não só em pintura como em literatura, ideias gerais, política, etc. Por estranho que pareça, nunca me senti próximo dela talvez por a ver tão chegada ao João e às suas doutrinas marxistas. Todavia, ontem, pedi-lhe para ver os seus trabalhos e experimentei uma súbita simpatia por ela, o seu olhar risonho e terno, sem fugir ao meu parecer prometeu mostrar-me. Daí o grupo foi almoçar ao restaurante austríaco ao fundo da Rua Anchieta. Comoveu-me a insistência dela e dos outros para que os acompanhasse. Não aceitei não só porque iria gramar duas horas de política à moda do João, ainda porque os preços são elevados e aquela gente não almoça, banqueteia-se e ainda porque queria trabalhar no romance no sossego do petit-cafe da Fnac. 


quinta-feira, fevereiro 26, 2026

 Quinta, 26.

Ontem, depois de muitos meses, isolado na Fnac entreguei-me ao romance. As dificuldades visuais pouco ou nada melhoraram, e o esforço que tenho de fazer para ler é enorme e cansa-me. Mesmo assim, ali estive por três horas. Prontamente recompensadas pela viagem de volta, a luz de Lisboa desenhada no horizonte, a impressão de felicidade traduzida na paz e na harmonia do dia. Aqui chegado, foi como um banho de odores e silêncio, que limpou as impurezas das dúvidas e dos falhanços. O interior do salão, descobriu-se-me como nunca antes, tudo nele reflecte equilíbrio, vida transcorrida dos objectos, quadros e livros, nesta desordem serena que apetece sorver como algo palpável que traduz não só a natureza das coisas como a existência a ela associada. 

         - Levo meses de bem dormir. Sempre atribui grande importância ao sono e nesta fase tenho noites que durmo 10 horas. A alimentação e o descanso, são os amigos que nunca largo. Como por necessidade, durmo por prazer. A maioria dos portugueses não seria capaz de se alimentar como eu faço, considerando que isto é passar fome e é na comida que reside a felicidade. Não bebo, não como gorduras, gosto de doces, mas somente uma colher de sobremesa engulo com o café a meio da manhã. Esta pobreza franciscana, dá-me vigor, mantém o meu corpo como sempre foi, ajuda-me mentalmente a passar os momentos carregados de pensamentos aziagos, que descem dos abismos inacessíveis e se estatelam reduzindo-me a um monte de incertezas. 

         - MM, melhor dizendo, Éric, cuja vida de vícios e falta de interesse pelo trabalho tem o seu temperamento estampado em muitas páginas do diário de Green e o ciúme de Robert que o detesta, não por ser o amante do seu amor, mas pelos muitos problemas que causa ao nobilis escritor. São inúmeras as passagens como esta, que se fôssemos a traduzir para a nossa língua chã, diríamos tratar-se de um verdadeiro chulo. “Hier MM a été charmant, puis insupportable. Charmant quando il a besoin de quelque chose (en l´occurrence 5.000 francs pour son médecin) et insuportable quand il a obtenu ce qu´il voulait ai dit devant Pierre (o seu amante na altura) et il était furieux.”   

         - Pela segunda vez num curto espaço de tempo, caí à porta da cozinha. A saliência entre a rua e a entrada, desde tempos recuados, provocou o mesmo desastre a muitos amigos e familiares. Para entrar, desce-se um ligeiro degrau. Tempo magnífico. 


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

 Quarta, 25.

Com a idade estreitam-se não só as paixões como se restringe quase tudo o que nos maça. Ver o estado em que se encontra a quinta desgosta-me e apetecia-me chamar uma dessas empresas que num só dia abatem as árvores, serram os trocos para a lareira, queimam os ramos e arrumam a lenha. Por outro, assim pensando, tenho que tomar uma decisão drástica e cortar o mal pela raiz, isto é, vou ter que cortar pelo meio os cedros que cresceram em trinta anos uns vinte metros e são hoje uma ameaça à casa em caso de repetição do vendaval. Dito isto, ontem, ao fim do dia o Nilton restituiu-me a água de que tanto necessitava. Enfim, uma coisa resolvida por sessenta euros (toma e embrulha). 

         - Outro dia quando entrei na Versalhes, deparei-me com o homem do leme em que eu me recusara votar para as presidenciais e julgava que os portugueses, fartos dos políticos de meia-tigela, iriam entregar-lhe de mão beijada a direcção do país. O almirante estava estrategicamente sentado à escotilha de forma a que quem entrasse ou saísse o visse. Abancava com uma personagem sólida de corpo, olhar matreiro, vestido a rigor (fato completo, gravata, camisa impecável) e ambos cochichavam olhos nos olhos, sem que ao militar escapassem aos olhares que os clientes depositavam (talvez por estranheza) nele. Mantinha o mesmo sorriso enigmático, mas todo ele estava trajado da farpela idêntica à dos políticos que com ele concorreram a Belém. Muito cedo despiu a farda maculada da Marinha e afundou-se ao vestir a albarda, com a sua linguagem, o seu desprezo pela verdade, a sua ganância de poder, a sua incompetência, o espírito de manada, a falta de rigor, o desdém pelo indivíduo e tudo o mais que eles dizem ser a condicionalidade da democracia e não passa de lodaçal sujo da política. Foi esse estreitar de ombros com os demais, que o impediu de ser hoje aclamado Presidente da República.

         - É um insulto à democracia e aos portugueses aquele ar triunfante, acentuado por uma barriga proeminente, um caminhar seguro de quem sabe que não vai para o cadafalso, antes cada vez se encobre sob o guarda-chuva do cargo de primeiro-ministro com os muitos escudos que a função lhe deu e a corrupção solidificou. Falo do ladrão José Sócrates. 

         - A mim sempre me fez muita confusão e sempre me interroguei, que têm de bélico os mísseis nucleares do Irão ou de outros países quando comparados com os dos EUA, Federação Russa, China, Coreia do Norte, França, Inglaterra ou outros. Sobretudo porque se evoca, como no caso do Irão, o seu regime totalitário e repressivo. Bah! Mas afinal não foi o regime democrático americano o primeiro e até hoje o único que utilizou uma tal arma dizimadora da humanidade?! 


terça-feira, fevereiro 24, 2026

 Terça, 24.

Relendo o que para trás ficou, sublinhados e notas de rodapé, dou com este destaque, pág. 925, de Toute Ma Vie: "On n´échappe au cauchemar du temps qu´en vivant dans le présent éternel de Dieu qui dévore passé comme avenir.” Oh, cher Green! 

         - Ontem fui ao oftalmologista buscar os óculos que sofreram a melhoria que ele entendeu fazer. O Carlos que mo apresentou, compareceu na loja e os três fizemos a festa do milagre da boa visão. Outro dia, tocado pelo entusiasmo de ficar a ver como antes, disse ao médico que iria convidar o meu amigo para um almoço. Ele aconselhou-me a fazê-lo depois de ter a certeza que curei os estragos do Gama Pinto. Ri-me, rimo-nos. O facto, mesmo sem saber que tudo iria ficar nos conformes, lá fomos ao Corte Inglês almoçar no toutiço do edifício. Passámos umas horas agradáveis, em conversa amena e divertida, como é nosso hábito sempre que estamos juntos. Separámo-nos pelas cinco da tarde. Regressei ao presbitério de autocarro amarelo que é a cor de todas as minhas fantasias. O mestre Nilton tinha tirado o dia para me devolver a água de que careço há duas semanas. A coisa quase ficou nos conformes, não fora o facto de por aqui ele não ter encontrado o cano galvanizado para unir as duas partes separadas pela tempestade. Talvez hoje tudo fique em ordem. 

         - Por falar na víbora. O Rui, querido amigo com quem viajei pela Turquia, tendo-se separado da mulher, abandonado o banco onde tinha um alto posto bem remunerado, vendido a vivenda da Aroeira, na reviravolta que deu à vida, deixando tudo para trás, para se ir meter em Idanha-a-Nova onde começou por adquirir algumas casas abandonadas para as reconstruir, comprado de seguida uma quinta onde vive com a segunda mulher, contou-me dos enormes estragos que teve com o temporal e da saúde fragilizada que o levou a uma complicada operação à coluna que o deixou de cama dois meses e duas anestesias gerais. Recentemente, sem saber como, numa volta do corpo, caiu e fracturou a omoplata e de novo encontra-se deitado a contar as moscas que sobrevoam o quarto. Tinha muitos amigos e amigas quando ocupava o cargo bancário, mas apenas eu e mais dois se preocuparam em telefonar para saber se tinha tido muitos estragos e como ia a sua saúde. Da primeira mulher já nem o número de telefone possui, a filha vai aparecendo quando pode com a amiga com quem vive; o filho não pára de viajar estando a maior parte do tempo fora do país. Por sorte, a mulher com quem vive, tem sido inexcedível de cuidados e carinho. Haja Deus! 

         - Outro amigo a quem telefonei, o João Biancard. Ele vive numa quinta com vários hectares para os lados de Torres Vedras. Levei duas semanas a encontrá-lo convencido que teria falecido. Em casa não atendia, o portátil tinha-o perdido e foi preciso muita pertinácia da minha parte para o encontrar. Enfim, uma noite, ele respondeu ao telefone e ficámos que tempos a pôr a vida em dia. A quinta foi de tal modo atingida, que ele teve de ir viver para casa do irmão e por fim da irmã de onde me falava. A enorme mansão, tão grande que só a sala de jantar tem uma área duas vezes superior a esta onde vivo, felizmente, não sofreu nenhum abalo. Os problemas são nos acessos, serra acima, todos obstruídos por grandes árvores tombadas. Do alto dos seus 86 anos, João que teve sempre uma vida agitada na política ocupando vários cargos de grande responsabilidade vive de pé, hirto, disponível, com um humor corrosivo contra os falsos grandes deste pobre país de analfabetos e gentinha medíocre. Disse-me que temos de nos encontrar breve, disponibilizando-se a vir a Lisboa ao meu encontro. 

         - Faz hoje quatro anos que o ditador russo invadiu a Ucrânia convencido que aquilo era trabalho para três dias, o máximo uma semana. Glorioso país, glorioso Presidente que tem conseguido fazer face a um tipo corrupto, sem escrúpulos, egocêntrico, assassino, inumano. Ele e o alcoólico Medvedev. Na pág. 273 das suas Memórias, Alexei Navalny, já no primeiro mandato de Trump, explica o envolvimento de Putin na campanha do tresloucado. Através da conversa registada entre o oligarca Deripaska e Prikhodko (na altura vice-primeiro-ministro), referindo as relações entre a Rússia e os Estados Unidos, soube-se que Paul Manafort recebera milhões de dólares das mãos de Deripaska em troca de lhe contar o que ia acontecendo na campanha de Trump.  Hoje sabe-se bem mais, que desde o pai ao filho, a família Trump sempre teve negócios com Putin e daí a simpatia que os une e a pancada idiota de Trump ao querer subjugar Zelensky às exigências de Moscovo. Acrescento que o par de peregrinos, von der Leyen e António Costa, rumaram a Kiev. Olha que dois! 


domingo, fevereiro 22, 2026

 Domingo, 22.

Belo dia de sol e um silêncio levíssimo a estender-se no campo agasalho das desgraças que o atingiram. Nada está solucionado, nada se abandonou à sua sorte. O Johnson esteve aí de manhã a ver e a dar pareceres sobre o muito que há a fazer para que este espaço volte a ter dignidade e beleza. Pela minha parte continuei a poda das hortênsias que terminei ao fim da tarde. Trabalho durantes anos feito pela pobre Piedade que está num estado horrível. A ver vamos se a arte do podador se iguala à dela. 

         - Cheguei à página 1000 do diário de Green. Muito haveria a dizer do que diz o escritor, sobretudo quando os campos entre o diarista, o seu “Robert, mon amour” e MM (Éric) se extremam. E por sobre a sua vida dividida entre o prazer, a escrita, o teatro e a presença de Deus a par do pecado como afastamento divino, Green, o espiritual sofre por não conseguir resistir ao sexo que ele considera (sob a moral da época) um pecado maior. Éric não quer trabalhar, vive sob a protecção do escritor que acaba por alimentar os amantes que o amante não cessa de acumular com as suas necessidades de sexo três vez ao dia. Robert sente ciúme e adverte o seu amor de uma vida, mas Julien diz-lhe que nada poderá dividi-los. A narrativa acaba por ser igualmente o diário deste trio que sendo tão desigual e, do lado do autor de Moira, tão profundamente perturbador quando no final de todos os seus dias está invariavelmente a pedir perdão a Deus para no dia seguinte tudo recomeçar. 


sexta-feira, fevereiro 20, 2026

 Sexta, 20.

Ontem, quando deixei a loja Lentes de Contacto, observado por um dos oftalmologistas associado, exultei de contentamento e segurança de que em breve não terei de trabalhar com apenas um dos olhos. O Dr. Bruno, detectou o erro devido ao facto de no Gama Pinto a coisa ser feita em cadeia de produção e não terem dado o tempo necessário à adaptação da cirurgia da catarata que é de dois meses. Conclusão: os exames posteriores no olho esquerdo deram 0,25 dioptrias quando ele, Dr. Bruno, disse ser de 1,45. A diferença é substancial e é nela que espero voltar a utilizar o olho esquerdo.  

          - Saí levitando, tomado por uma energia imprevista, a manhã linda ajudando, e caminhei por ali avante até à Gulbenkian não distante. Como eram horas de almoço, fui abancar no restaurante do lado chinês para uma refeição à maneira, quero dizer, sem olhar à despesa. Antes, porém, passei de raspão na exposição Xerazade por conhecer a maior parte do que ali estava exposto. Na minha frente tinha o esplendor na natureza toda emoldurada da frescura que pingava de cada ramo, de um verde intenso, como se a Primavera se tivesse adiantado somente para mim que extasiado a admirava sob o manto de paz e sossego que me trouxe a perspectiva de voltar a ver como antes. 

         - No carro, fui ouvindo o debate na Assembleia da República. O secretário-geral do PS falava num português de chinelo impróprio para um senhor doutor...

         - Alinho estas linhas na Fnac depois de ter deixado o João com quem estive esta manhã na Brasileira. Por vezes, um leitor ou amigo, inquieta-se como posso eu continuar a suportar ideias políticas diametralmente opostas às minhas, respondo que estimo a amizade antes das preferências ideológicas dos meus amigos. No caso do João, ele é duplo de Janus o deus da mitologia romana, com duas faces opostas. Ele professa uma coisa e vive outra. Pertence a uma geração que combateu ferozmente a ditadura de Salazar e posteriormente teve apoio e existência em todos aqueles que no seu tempo lutaram a seu lado. Daí não muda, as raízes adquiridas ficaram, a doutrina é imutável e soberana enquanto essência de uma filosofia completamente ultrapassada, mas que ele não tem liberdade para encaixar, prosseguindo um quotidiano quase isolado porque os da sua geração foram juncando o chão de imortais figuras do inconformismo.