quarta-feira, setembro 09, 2026

 Quarta, 9.

Fui ver o filme de que tanto se fala: A Odisseia de Christopher Nolan. Que dizer quando tudo já foi dito? Ainda assim, atrevo-me a lançar a minha própria visão da obra de Homero que li em 2014, na tradução de Frederico Lourenço e que é preferível à interpretação de que dela faz o realizador. Aquilo é espectáculo puro, com toda a panóplia de efeitos técnicos, som e luz, transformações humanas e guerras, muitas guerras, a Guerra de Troia no centro e o regresso de Ulisses a Ítaca, tendo por protagonista o actor Malton Damon que se desembaraça bem no papel principal. O filme não me prendeu no início, desconfiado de mais uma “americanice”, sabendo eu a pouca cultura greco-latina do povo que elegeu Trump. Porém, a dada altura, começo a recordar-me da narrativa romanesca de Homero, os nomes que me eram familiares a aparecer no ecrã, as batalhas, as personagens mitológicas, os deuses adorados por homens e mulheres há quase três mil anos, todo aquele ambiente que salta nas páginas vivas de Odisseia, na sua génese textos orais. Julgo que é Frederico Lourenço que diz que Homero foi o criador da narrativa romanesca. Com efeito, são de tal modo empolgantes as imagens, que nos esquecemos de tudo para indagar que pretende o realizador com aquela proeza. Em verdade, salvo a exploração dramática levada ao cume, Ulisses está sempre presente do princípio ao fim. Talvez o retorno a Ítaca, ao lar e a Penélope que, contrariamente a todos os que a cotejam, acreditava que o marido estava vivo; seja uma espécie de transfere para algo tão comezinho como a busca de paz, silêncio e o conforto do lar após anos de guerras, perda de amigos e combatentes que lhe eram fiéis, enfim, a inutilidade da morte por objectivos que escapam à verdadeira essência da vida. Há momentos no filme que são de antologia como, por exemplo, a cena de terror de Ciclope ou o nascimento de Telémaco (Tom Holland). Ulisses um homem febril, corajoso, vaidoso, desafia monstros, mares, crenças e paradigmas, velho e gasto, desiludido e cansado, chega a casa onde o espera Penélope farta dos jogos de sedução e poder dos muitos pretendentes. Apesar da idade avançada, dos anos de guerra, de privações de toda a ordem, Ulisses ainda tem de eliminar os seus adversários que se apropriaram da casa e da mulher. Só então no regresso se interroga, no fundo de si mesmo, da utilidade das batalhas, da violência, da privação e da morte, da aventura humana levada ao extremo. Outro Ulisses transborda de inquietação sobre a sua verdadeira natureza, utilidade de tantos mortos, destruído por fantasmas, frágil e absorto ante a sua verídica natureza – a que nos revela a nós próprios quem somos. Não resisto a transpor para aqui o primeiro canto de Odisseia

Fala-me, musa, do homem astuto que tanto vagueou, 
Depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou, 
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon, 
o Sol – e assim lhes negou o deus o dia de retorno.
Destas coisas, fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.    

segunda-feira, setembro 07, 2026

 Segunda, 7.

A verdade é que quase não se passa um dia que ela não me telefone ou vice-versa. Falo dos diálogos constantes com a Gi que surgiram depois de ela e o Nuno terem cá vindo lançar-me a mão no mês de todos os sofrimentos. Parece que nos descobrimos ou qualquer sentimento se nos impôs além da virtude familiar. Falamos de tudo, sem preconceitos nem falsas morais, ao abrigo do que julgávamos esquecido e ressuscitou dos escombros que me cobriram a vida inteira. Não fui educado no seio de nenhuma família, não conheço as normas nem os tratados que fazem prevalecer o sentimento que em nada precisa de cânones para impor a consanguinidade. Estamos numa luta que irá mudar a minha vida, mas que eu, eterno solitário, se extasia ante o descampado, o deserto, a vastidão de nada, o horizonte que me circunscreve, me rodeia e me reconforta a existência... (interrompido pela urgência de tomar o autocarro) 


domingo, setembro 06, 2026

 Domingo, 6.

Nada que venha de Israel nos surpreende. O país está, enfim, em campanha eleitoral para avaliar não só Netanyahu, como a clique ultra-ortodoxa que o segura no poder e da qual ele depende. O partido Poder Judaico de Ben Gvir, lançou o programa de remoção dos palestinianos que restam dos dois milhões antes do ataque israelita à Faixa de Gaza que liquidou 75 mil, para a Turquia, República Democrática do Congo e Etiópia. Estas pazadas de lixo para eles, são palestinianos corajosos e seres humanos dignos que sobrevivem sob o fogo constante do exército que nunca parou, não obstante as mentiras de Trump que determinou o cessar-fogo. A extrema-direita lá do sítio, diz precisar apenas de sete anos para limpar toda a Faixa de Gaza transformando-a na Riviera francesa como propagandeou o inquilino da Casa Branca. 

O homem de quem se fala. 

         - No Nepal, dez dias depois da tragédia, foi descoberto num dos muitos túneis subterrados, um sobrevivente. O número actual de mortos é de 1300, estão desaparecidas 5 mil pessoas. O feito tem indício de milagre. 

         - O especulador imobiliário que governa a América, vendo aproximar-se as eleições intercalares, aposta forte no fim da guerra entre a Rússia e Ucrânia. Daí, tendo mandado uma missão diplomática com 

o genro pelo meio a Moscovo, conseguiu do ditador Putin um cessar-fogo por três dias sobre Kiev - apenas sobre a capital onde se encontra hoje a delegação dos EUA. Nada disto me cheira a algo em que se possa confiar. 


sábado, setembro 05, 2026

 Sábado, 5.

Ontem andei na Baixa ocupado com vários assuntos que me lá levaram. Mais tarde, encontrei-me com o João B. para um café. Eu não lhe havia telefonado a contar-lhe o que me aconteceu e ele esmorecido: “Podia-me ter chamado para o ajudar.” A conversa entrou depois num ritmo e tom que me agradou sobremaneira tendo em conta o atropelo dos assuntos. À nossa volta ninguém entendia o que discutíamos; Lisboa transformada num país de várias línguas e costumes, abafando completamente os nossos modos da vida. Grossa maioria o que vemos é lixo, mas isso pouco importa aos que nos governam porque não frequentam os mesmos locais, fechados como estão numa campânula de cristal. À despedida ele atirou: “Cuide-se, viu.” 

         - Um leitor do Público de seu nome Alexandre Delgado, em carta endereçada ao jornal, escrevia: “Ana Paula Martins é a coveira do SNS. A sua missão é fechar serviços, infernizar a vida dos profissionais de saúde, escorraçar utentes e abrir a porta aos privados. Devia ser condecorada.” Como os meus leitores se recordarão, eu sempre apoiei a Ministra da Saúde, por considerar, no início, que ela teria um trabalho hercúleo e desfazer o que António Costa fez na saúde. Acontece que, se tivermos em conta que Ana Paula Martins vem já do primeiro mandato de Montenegro, em 2024, era para ter um ministério mais próximo dos portugueses e mais competência na sua direcção. Eu sei do que falo e por saber enviei-lhe o e-mail do desastre que foi a minha entrada no S. José de maca às duas da tarde e a saída pelos meus próprios pés, às 9,30 da noite de táxi para casa sem ter sido atendido (ver dia 25 de Abril). Protesto de que não obtive resposta. Talvez fosse por ter relembrado o grande Senhor da Saúde, obreiro do sistema, o socialista António Arnaut. 

         - Que dizer da proposta do presidente dos Estados Unidos para mudar o Estreito de Ormuz para Estreito Trump? A tarouquice do homem, raia a demência. 

         - Ontem estendi-me um pouco mais em andanças pedestres. Queria testar o pé maroto e a perna que nele assenta. Nada mau. Apesar de um ligeiro inchaço no peito do dito cujo, o dia saldou-se por uma vitória na sequência da vida. 


quinta-feira, setembro 03, 2026

 Quinta, 3.

A Câmara Municipal de Lisboa, decidiu relembrar os mortos da tragédia do elevador da Glória com um memorial. O seu presidente, especialista em propaganda, disse querer uma cerimónia recatada desde que as televisões não faltassem para registarem as lágrimas, uma a uma, a correr dos rostos dos infelizes. Ao acontecimento, perdão, evento nem faltou o camarada Rui Valério. A hipocrísia de tudo isto, está no facto de um ano depois, não conhecermos os responsáveis e as seguradoras não terem pagado as indeminizações a que estão obrigadas. Neste miserável país, só a demagogia e o populismo nunca falham e chegam sempre a horas.  

         - A maior tragédia humana não é vencer, é ultrapassar a inércia. 

         - A mim quer-me parecer que o senhor Luís Neves é o homem mais poderoso do país – tem-nos a todos na mão. 

         - Aqui, depois de uma certa acalmia, voltaram as temperaturas elevadas. Hoje 41 graus. Apesar disso, hoje de manhã, carreguei quatro carros de mão de lenha para o alpendre. 


quarta-feira, setembro 02, 2026

Quarta, 2 de Setembro. 

Ontem fui de experiência à capital, depois de mais de um mês sem atravessar os lugares da minha juventude. Fui, naturalmente, de autocarro e admirei como se fosse a primeira vez o Tejo, Lisboa no recorte do horizonte, a luz limpa de uma manhã sem mácula. Queria saber até onde aguentava o meu pé cuja doçura dos olhares de mulheres feitas e raparigas airosas tanto cobiçam. Almocei no C.I. agora de preços alçados, um bacalhau à Gomes de Sá apetitoso e fiquei por um tempo a deliciar-me com a paisagem, os poucos clientes, o sururu que me envolvia. Lisboa, vista do alto, parecia queda, sonhadora, indiferente a quem a olha com sobranceria e saudade. Fiz de seguida algumas compras, li o Público diante de uma chávena de café, visitei a livraria e comecei a sentir dores advindas de muito caminhar. Disse “por hoje chega”. Regressei pelo mesmo modo, satisfeito por haver tentado a rotina dos dias, dividido entre o lugar onde nasci e o de adopção. 

         - A tragédia no Nepal-Tibete não pára de nos surpreender. Muitas equipas (enfim o país aceitou ajuda estrangeira) desafiam o imprevisto para tentar encontrar sobreviventes. Mas o número de mortos monta já a mais de mil e os desaparecidos a 4 mil. São impressionantes as imagens que nos chegam, túneis esmagados pelo peso da montanha, lama e resíduos, desolação e dor. 

         - O Ministro da Administração Interna, aproveitou uma missão de serviço à Madeira para responder, diante da tropa fardada e em sentinela, a André Ventura e a todos quantos o acusam de falcatruas e mentiras. Cobardia. Não é numa cerimónia oficial, que se esgrimem razões e se impõe o poder. 

         - Quando o meu orçamento fraqueja, faço como o Corregedor e digo ao Sr. José Manuel para não vir porque estou cheio de reuniões. Na próxima, invoco os muitos emails oficiais para despachar, como faz o sobrinho de Urbano Tavares Rodrigues que nunca lhe conheci uma ocupação. Que presunção!  

 

segunda-feira, agosto 31, 2026

 Segunda, 31.

Afinal de contas o que me retém aqui? Não é só o silêncio sagrado, nem o ar limpo que se respira, nem tão-pouco o isolamento, mas também e ainda as descobertas humanas que desaguam de quando em vez à minha porta. A última das quais o conhecimento do ser humano extraordinário que é o senhor José Manuel. Faz tudo para me agradar, para me proteger. Como hoje, não eram sete da manhã, quando chegou com o filho ao volante de uma camioneta e descarregou esta relíquia do século XIX que a foto mostra e eu cuidava votada à sucata. Depois de grandes constipações, carradas de óleo, carícias e falas mansas, eis que sua excelência decide mostrar o ar de sua graça. E aí funcionou toda a manhã, dividindo os troncos pesados e grandes tornando-os maneirinhos de forma a serem levados para as chaminés da casa. Tenho lenha para dar e vender. 


         - No sábado, ele apareceu com uma máquina sopradora e reconstituiu os arredores da casa ao espelho do tempo quando a Piedade se ocupava da limpeza exterior e interior. De súbito, uma ternura imensa por este refrigério de verdura e silêncio tomou conta de mim, devolvendo-me as emoções que experimentei quando aqui cheguei pela primeira vez com o João. Toda a beleza natural se exprimiu nas recordações e nos momentos felizes de outros tempos, quando a descoberta da paz que aqui dormia se me introduziu para nunca mais me largar. Para aonde quer que vá terminar os meus dias, nunca daqui sairei ou comigo levarei a doçura dos tempos que nesta planície me pertenceram. 

         - O que é este diário se não o registo do seu autor e a narrativa de um tempo que lhe coube viver. O verdadeiro quotidiano é preenchido até à minudência das circunstâncias que aconteceram embrulhadas dos efeitos sem importância aparentemente nenhuma.

         - E de repente, recomeçaram os ataques dos EUA ao Irão e deste às bases americanas na Jordânia e Emiratos Árabes. Cada nova ofensiva de Trump, é a constatação de que o Irão está preparado para uma guerra duradoura e bastante mais inteligente no confronto com a arrogância e o poder do senhor que pensa ser o todo poderoso que subordina o mundo inteiro.  

         - Luís Montenegro tem uma noção curiosa da democracia. Segundo ele, todos os disparates são consentidos porque é “a democracia a funcionar”. Quando o vejo aparecer no ecrã, desligo ou salto para outro canal – já não suporto tanta desfaçatez e hipocrisia. E lembrai-me eu que acreditei nele nos primeiros tempos, antes do aparecimento de uma vida de esquemas!