quinta-feira, maio 14, 2026

Quinta, 14.

Manhã cedo estava em Lisboa. Fui à clínica marcar o tac e eletrocardiograma assim como restantes análises. Como queria ser atendido pelo médico que me radiografou o cérebro há cinco anos, não estando este, fui remetido para segunda-feira. Bom. A pronta aceitação dos exames, prova que ainda há privados honestos e deontologicamente capazes de acudir às urgências dos pacientes. Vou pelo SNS quando já estava disposto a pagar do meu bolso toda a pesquisa para o que me aconteceu há três semanas. A minha médica dita de família, Dra. Vera Martins, decerto mordida do remorso de não me haver atendido logo a seguir ao acidente, telefonou-me a dizer que me ia mandar as receitas, como me marcou consulta para dia 1 do próximo mês. Bom. A manhã estava maravilhosa, fresca, brilhante, com pouco ruído na Avenida da Liberdade e eu sentia-me leve, sem dores, a perna que as meninas e os meninos tanto adoram fiel ao passado, quando de súbito, um cachão de recordações se veio acoitar no meu cérebro. Comecei a descer a pé (a empresa situa-se perto do Marquês de Pombal) por ali afora até ao Rossio. Não descia só, comigo caminhava o Alberto, ambos pelos nossos dezoitos anos sublimes. Tínhamos saído das nossas casas, sendo vizinhos na Rua do Salitre e mais tarde colegas na Radio Universidade, ele técnico de manutenção eu produtor radiofónico. Caminhávamos num fim de tarde soalheiro, os cabelos longos e desalinhados tocados por uma leve brisa, sorridentes e felizes a caminho do cinema Tivoli para um concerto de música clássica com a orquestra da Gulbenkian. Praticamente nunca nos largávamos, éramos íntimos na pureza de uma adolescência apesar de a minha natureza mais livre e a dele concentrada nas coisas que o apaixonavam sem perceber o que se passava a nossa volta. E portanto, éramos ambos belos, ele de cabelo escuro acetinado, eu aloirado e – o que não era menos displicente – coxinho, coitadinho. Regressávamos à nossa rua, quando a noite espreitava por entre os prédios da cidade, cheios da música dos grandes compositores, os nossos programas anotados, três cruzes para as peças que nos encantaram, duas ou uma para as restantes. Ele habitava dois prédios ao lado do meu. Durante anos, telefonava-me a convidar para uma bica num café à entrada da Pedro Alvares Cabral quem sobe do Rato. Ali ficávamos à cavaqueira até perto da meia-noite quando fechava e muitos eram ainda os serões no seu quarto a conversar e a ouvir música até às tantas. Nunca o perdi de vista, falo da vista interior que guarda todas as memórias felizes, aquelas que só acontecem e perduram na juventude. Mais tarde apaixonou-se por uma artista gráfica, viajou com ela para o Algarve e por lá ficou e foi professor de música em Faro. Sei que teve pelo menos um filho. Mesmo assim o tempo que nos coube viver decerto que faz parte dele como de mim. Há um mundo que todos transportamos da adolescência de tão precioso que suporta os murmúrios, os olhares perdidos no infinito, as dores cravadas no peito, os silêncios e segredos que não ousamos contar às horas e por assim dizer são parte de tudo o que carregamos connosco.

         - Copio o final do artigo de João Miguel Tavares hoje no Público: “A maior tragédia não é um país ir demasiado para a esquerda ou para a direita – é ir para lado nenhum, transmitindo a ideia de que o sistema está paralisado e que o nosso voto não conta para nada. É disso que devemos ter medo.”  Pois é. Talvez o problema resida neste princípio: à esquerda interessou a derrota do regime salazarista; aos outros a conquista da democracia.  

 

quarta-feira, maio 13, 2026

 Quarta, 13.

Às vezes dou comigo a pensar que a actividade dos políticos é falar, falar, falar transformando-os nuns fala-baratos. Nunca a gritaria foi tão ameaçadora, nunca o 25 de Abril foi tão gritado, tão imposto, tão obsessivo sobretudo na esquerda. Isto não é em vão. O “25 de Abril sempre” esconde o fracasso, o embuste em que mergulhou o país. Grita-se por essa data, para esconder as promessas nunca concretizadas, os programas falhados, a vida dos portugueses reduzida à pobreza, ao dia-a-dia, as mãos cheias de coisa nenhuma, as profundas desigualdades, as instituições falidas, a saúde pelas ruas da amargura, uma juventude agressiva, analfabeta, básica sem princípios morais, desumanizada, em conclusão uma tristeza. Quem muito fala, pouco acerta, diz o provérbio. 

         - Descobri que é excelente não nos fixarmos num médico exclusivo. Ignorado pelo SNS, outra saída não tive que procurar um clínico no sector privado. Foi ele que, mediante a toma de um comprimido por dia (eu intercalei dia sim, dia não) deixei de ter dores lombares e passei a coxear melhor. Sobretudo depois de meses e meses sofrendo, estar hoje intacto e apto para prosseguir caminho. Antes, o que me fora receitado, era encharcar-me de Bem-u-Rom. O curioso da situação é que, quando me queixei ao Dr. Simões das dores nas costas, ele respondeu: “Vou dar-lhe um medicamento que os ortopedistas dão a casos como o seu.” Ah, como é agradável voltar à coxearia dos meus tempos de rapaz que tanto atraía os olhares delicodoces que muitas vezes fecharam noites de sonho... 

         - Pobre Zelensky! Não lhe bastava o esforço de uma guerra que dura há quatro anos, como a ganância dos mais próximos chafurdando na nojeira da corrupção. Um seu directo e íntimo colaborador, está indiciado por embolsar milhões da reconstrução do país. 

         - Por muitas voltas que dê, não consigo compreender por que razão podem os EUA e outros países possuir a bomba nuclear, e negá-la ao Irão. Será que a sua é menos mortífera, espécie de lança flores perfumadas? 

         - O Chega de André Ventura tem andado muito agressivo a apregoar a baixa de anos para a reforma. Contestam todos os outros com o pretexto de que a Segurança Social não aguenta e vai à falência. Deve ser por isso, que a sociedade pós-25 de Abril, abriu tantas excepções não só para políticos como para juízes. Aqueles foram emendando a mão ante a fúria do povo, sem esquecer que todos usufruem ainda de outras reformas acumuladas com funções e negócios no privado. Oh, oh esta gente não se descuida!


terça-feira, maio 12, 2026

 Terça, 12.

Outro dia passei para cima de duas horas numa esplanada em Setúbal com o Fernando Dacosta em farta e ininterrupta cavaqueira. Há algum tempo que não estávamos juntos e por isso os temas atropelavam-se contrariando o seu habitual ritmo de ser e estar. Conheci-o quando entrei para o jornalismo pela porta larga do Primeiro de Janeiro, estando ele no Diário de Lisboa. Desde então nunca mais nos largámos, pese embora os sucessivos ajustes que fomos fazendo ao longo dos anos. Achei-o muito magro sem que o peso da idade o tenha modificado. Diz-me que é devido a diabetes e que tudo o mais corre dentro dos carris da vida que é hoje a sua. De resto, sempre o vi com o seu bloco de notas em pele e elogiei o estado do mesmo. Retorquiu-me que o havia mandado fazer expressamente porque hoje já não se encontra exemplares iguais em parte nenhuma. De política falámos pouco até porque percebi que estávamos em sintonia e a melhor forma de se viver é afastados dela. Mas não faltou a literatura com referências a este e àquele autor, este e aqueloutro livro, colega jornalista ou amigo. Para surpresa minha, diz-me que não apreciou o Diário Incontínuo de Mário Cláudio e pareceu-me estar de acordo de que Saramago não é a única alusão digna de estacionar nos manuais escolares. Quanto ao estado da cultura, da edição, dos novos editores que exigem aos autores paguem a publicação dos seus livros, aconselhou-me a não entrar nesse jogo pois para ele é certo que a literatura e os grandes escritores estarão de volta no futuro, correndo com a arraia miúda de oportunistas que se têm instalado sôfregos não tanto de lucro porque não vendem nada, mas de imagem e prestígio. 

Há, contudo, um facto que quero realçar e diz muito não só da sua personalidade, como do preconceito que todas as lutas não almejam acabar: a aceitação da relação entre pessoas do mesmo género. Eu desde que o conheço que conheço o seu companheiro Zé Manuel. Muitos anos passaram. O Zé veio viver aqui para Setúbal, eles separam-se, mas o vínculo de amizade nunca se quebrou. Mais tarde, recebi em minha casa o seu novo amigo, um colega jornalista como ele. Vim a saber agora que a mãe do António é a proprietária do apartamento onde viveu o Zé e que se prepara para o alugar de modo a ajudar na estadia do Zé na clínica em Azeitão onde larga 2 mil euros/mês - importância que a sua reforma não suporta. Zé já não reconhece ninguém, mas Fernando vai todas as semanas estar um pouco com o amigo de metade da sua vida. Uma tal generosidade, um tal louvor humano, uma tal dedicação à memória de um tempo decerto feliz, fecha o ciclo de uma vida que não desaparece com a morte. Pelo contrário, estende-se como campo de flores onde a Primavera refloresce dos fios intensos da luz das alvoradas, das memórias como sentinelas de hinos salmodiados ao amanhecer e ao entardecer da vida. 


segunda-feira, maio 11, 2026

 Segunda, 11.

Dizer que estou bem é um pleonasmo. Decerto vou ter que ultrapassar o meu centro de saúde para obter o Tac Crânio-Encefálico de que tanto necessito. Entretanto, uma farmacêutica amiga, ouvindo a minha versão do acidente de saúde, prescreveu-me 120 mil milhões de estripes macrobióticas, por forma a que a fauna e flora intestinal se restabeleçam. Foi este distúrbio que me provocou o desmaio e a mobilização para a guerra no Hospital de S. José.  

         - Estive no tanque tecnológico com um cesto de roupa como se tivesse meia dúzia de filhos. 

         - Álvaro Santos Pereira, assim que se viu governador do Banco de Portugal, desatou a comprar acções das grandes empresas, num investimento sôfrego como se o lugar que tinha ocupado fosse o trampolim para aventuras financeiras que fazem os ricaços dos nossos dias. O BCE obrigou-o a revender as acções que adquiriu quando já ocupava o cargo. Toma e embrulha. À portuguesa, seja na base como na pirâmide, a ganância é sempre a mesma e a mediocridade não têm posto.

         - Fiquei satisfeito com a decisão dos juízes que ilibaram Rui Pinto, dito pirata informático, de 241 crimes. Plasmaram na sentença que ele havia sido vítima da arbitrariedade do sistema judicial e da violação da sua dignidade enquanto pessoa. Os “inocentes” do processo Football Leaks vão ter que pagar as custas do tribunal do seu bolso.


domingo, maio 10, 2026

 Domingo, 10.

Não há dia nenhum em que não tenhamos as boçalidades de Trump para digerir. A última diz respeito à saída de 5 mil militares de Vilseck, pequena cidade bávara onde estão desde o fim da II Grande Guerra. Estive a ver outro dia no canal 2 francês o desastre que vai ser para a população local e para os soldados americanos e respectivas famílias que estão completamente integrados no espírito alemão e adoram ali viver. Relativamente à população, os contingentes destacados duplicam e todo o comércio e actividade económica gira em torno daquele mundo que se misturou e parece viver feliz. A decisão do todo poderoso, é uma raiva contra o chanceler Friedrich Merz que não aceitou a sua política relativamente à Europa e ao Irão que disse ser o digno represente da guerra no Golfo. 

        - A propósito. Nenhum dos acordos ditados por Trump parece duradouro. Horas depois, o Irão não só desdiz o louco, como investe abrindo fogo contra o cerco que ele montou no Estreito de Ormuz. Foi de um dos seus dirigentes que saiu esta condenação: “O único lugar para os EUA no Golfo, é no fundo do mar.

         - Saiu o número oficial de palestinianos mortos na guerra da Faixa de Gaza: 73 mil. A este número, não obstante o cessar-fogo à Trump, falecem diariamente mais uns quantos inocentes.  

         - Sexta-feira estive na Fnac a tentar recomeçar o meu trabalho, de seguida fui almoçar calmamente ao restaurante de cima do Corte Inglês, e regressei de metro ao autocarro que por sua vez me devolveu a casa. Numa estação, deparei com este subterfúgio no texto que corresponde melhor à choldra dos tempos presentes sem que deixe de ter graça... 




sábado, maio 09, 2026

Sábado, 9.

No seguimento do que ontem anotei, chamo por instantes a estas páginas, Gabriel Rolón. Diz o psicanalista argentino a propósito da solidão: “As pessoas têm medo da solidão e eu pergunto o que há na solidão para além de nós próprios? A pessoa que tanto teme a solidão tem isso porque não gosta de quem é ou porque tem medo de olhar para dentro e ver quem é. Não quer descobri-lo, e isso incomoda-a e perturba-a.” E conclui: “A solidão desfrutada e escolhida permite que nos façamos perguntas e tomemos decisões com mais calma:” (tradução de António Rodrigues)  

         - Trump o eterno louco, afirma que o cessar-fogo com o Irão continua válido, mas ao mesmo tempo ataca posições no Estreito de Ormuz e vangloria-se como uma criança demente: “Hoje provocaram-nos, nós arrasámo-los.” É um tirano à escala planetária, um facínora que quer impor a regra do pelotão de fuzilamento nos métodos de execução federais, como se o que existe – injecção letal, cadeiras eléctricas, electrocussão e gás azoto – não fossem suficientemente cruéis. 

         - Não posso aceitar a humilhação de que somos vítimas em fases críticas da nossa vida individual e colectiva. Refiro-me ao estado decadente do SNS. É ele que se devia deitar no bloco operatório para um tratamento de restauro geral a todo o seu tecido operacional. O que tenho experienciado no último mês, diz-me como a democracia falhou redondamente quando escraviza e humilha, desiste e incentiva a morte prematura de muitos dos nossos concidadãos. Homem de esperança e fé, vou recentrar a minha crença no convite que António José Seguro fez a Adalberto Campos Fernandes para elaborar um Pacto Estratégico para a Saúde, de modo a devolver o SNS aos portugueses, deixando definitivamente os jogos de poder, interesse e corrupção que nele se instalaram. Adalberto Fernandes é um homem sério, competente e afastado dos jogos políticos que tanto apodreceram o sistema de saúde. Assim os socialistas o deixem trabalhar. Eles que com o PSD nunca deixaram o poder desde o 25 de Abril e em conjunto têm arruinado o Serviço Nacional de Saúde. 

 

sexta-feira, maio 08, 2026

 Sexta, 8 de Maio. 

Como recomeçar? Aos desportistas aconselha-se paciência e persistência, confiança nas suas capacidades, heroicidade e olhar apontado ao futuro. Aos artistas que se recolham, povoem horizontes rasgados, mergulhem nos abismos e voltem à tona banhados da santificação que se concentra no mistério e no rosário de palavras salmodiadas nas horas de desespero e solidão. Como sempre frágeis, um sopro de vento os derruba, um pensamento os levanta, um pôr de sol os ilumina. E assim nos reencontramos comovido pelas palavras dos amigos e leitores anónimos durante esta ausência longa como um caminho crivado de espinhos.