domingo, junho 28, 2026

 Domingo, 28.

Estive a ler uma série de cartas que Charles De Gaulle escreveu aos filhos durante o rude período da II Grande Guerra. Vou transcrever para aqui duas delas, porque revelam o contraste existente entre os políticos de hoje e os de então, o imenso abismo cultural, civilizacional, a perspectiva do futuro, a identidade nacional que coexistia neles com a religiosa, a familiar, os valores, isto é, a fabulosa dimensão dos políticos e da política, grandes obreiros da Europa que perspectivaram o futuro como sentimento de identidade histórica, quando comparados com esta esventre de governantes de um vazio, de uma vacuidade impressionantes, de um analfabetismo, sem ideias, centrados na oportunidade pessoal, na vaidade, na propaganda, no poder pelo poder, transformando a política numa batalha de idiotas sedentos de brilho e ódio. 




sábado, junho 27, 2026

Sábado, 27.

Estamos sempre a aprender. Ontem, pelas dez da manhã, entrei no autocarro com destino a Oriente. Ao todo os passageiros para Lisboa, seriam uma dúzia. Ainda o veículo não tinha arrancado, entra um controlador. Pede-me o passe e eu digo-lhe que tem um trabalho inútil, porque todos os passageiros ao entrar são obrigados a apresentar o bilhete ao condutor. Ele ri-se, saca do bolso dois passes e diz-me: “Estes dois são desta manhã, acrescentando: "o número de famílias que só compra um passe social e depois é com ele que todos se deslocam à vez, não pára de aumentar.” Ante a minha surpresa: “E agora os filhos, como estão de férias, os pais passam-lhes o passe e eles divertem-se deslocando-se de Palmela para Lisboa ou outros sítios da margem sul.” Foi ao fundo o carro e quando voltou, continuou: “Ainda se compreendia quando os passes eram caros, mas ao preço que eles estão...” Respondo: “Não diga isso pela sua rica saúde. Olhe que ainda o tomam por um tipo de direita. O trabalhador tem sempre razão e se não a tiver a esquerda que temos encarrega-se de o defender.” Riu-se, ele e o condutor.  

         - As ajudas à Venezuela chegam a conta-gotas devido à imensa dificuldade de transportes. As imagens que nos chegam do norte de Caracas, são impressionantes, acompanhadas dos números que não param de crescer: 188 mortos, 1530 feridos. Mas também a surpresa que a vida nunca deixa de nos encantar. No meio dos escombros, saiu uma mulher que estava em trabalho de parto e o bebé nasceu nas mãos dos socorristas.  


         - Starmer, o primeiro-ministro britânico, abandonou o cargo. Tinha simpatia pelo homem e achava-o competente. Mas os comentadores dizem que ele foi péssimo na política interna e óptimo na política externa. Como Sanchéz, Macron e passo. 

         - Ontem passei na Brasileira. Fui recebido como se fosse o rei de Portugal. Todos me vieram cumprimentar e com todos travei pequenos diálogos e ouvi grandes discursos acerca do que resta dos tertulianos. Um destes, travou-se de razões com o pintor de um dos quadros premiados pelo conhecido café. O escândalo foi tal, que turistas e nacionais, assistiram, estupefactos aos conhecimentos técnicos e artísticos retratados aos berros, como se ele fosse a sumidade nacional na matéria. Que ridículo! Céus, do que eu me livrei!  

 

quinta-feira, junho 25, 2026

 Quinta, 25.

Há um advogado estrangeiro de seu nome Christophe Marchand (o apelido assenta-lhe como uma luva) que cobra fortunas a descobrir na lei os alçapões por onde iça os criminosos directamente para os altares das catedrais nacionais. Recentemente um que está preso, em breve será libertado. O outro, que anda há mais de dez anos a ser julgado, também é cliente do tal causídico que lhe cobrou para cima de meio milhões de euros, falo de José Sócrates, pagos pelo primo ou amigo empresário de Leiria, porque o homem, coitado, com 2.200 euros de aposentação, não pode, naturalmente, dar-se a tais ousadias. O tribunal, devia antes ouvir o João Corregedor e colher dele os motivos da inocência do socialista ladrão. Numa única sessão, ficava o assunto encerrado e para a conta bancária do ex-deputado do PCP, entraria o suficiente saído da conta do velho amigo Carlos Santos Silva, empresário do Grupo Lena. Que país! Que justiça! Que democracia! Tomam-nos por idiotas e mentecaptos, enquanto o carrocel de gente a enriquecer à custa daqueles que não podem aceder à justiça, não pára de crescer e as cadeias abrem-se de par em par para deixar sair os injustiçados. 

         - Pelo menos dois sismos de magnitude 7 na escala de Richter, abalaram a Venezuela. Caracas e La Guaira foram as cidades mais atingidas, onde vários edifícios colapsaram, e estima-se terem feito muitos mortos e milhares de feridos. Por agora estão confirmados 164 mortos e para cima de mil feridos. O mundo mobiliza-se para ajudar a Venezuela onde a vida já não era confortável, mas que agora ficará muito pior.   

         - Apanhei dois cabazes de ameixas pretas: um para fazer compota, outro para o espalha brasas senhor José Manuel.

         - Black, embalado pelo tempo chuvoso, dormiu toda a manhã no sofá do salão. Fui à piscina e voltei e ele nem deu pela minha saída, nem pela minha chegada. 


quarta-feira, junho 24, 2026

 Quarta, 24.

As temperaturas não param de subir. Toda a Europa sofre horrores com os termómetros a aumentar em flecha: Londres, Amesterdão, Paris com 40 graus e várias mortes por afogamento no Sena de quem queria escapar ao sufoco, Madrid, Roma, Viena. As noites aqui são particularmente difíceis obrigando-me a dormir de janelas escancaradas e colónias de mosquitos de atalaia. Esta noite, tendo-me esquecido de levar para o quarto a garrafa com água congelada, desci para a retirar do congelador. A noite estava serena, como se o calor se tivesse ausentado para deixar passar um fino assobio de ar fresco que se insinuava no vasto espaço. Quedei-me a ouvi-lo, a perscrutar o que me contava a noite naquele resto de horas antes da alvorada. Mas o silêncio era pesado, cirandava pelas divisões, povoando os muros, enchendo os minutos de um mundo que não se dá a conhecer ao dia. 

         - Posso dar a minha opinião sobre a Selecção Nacional e o resultado diametralmente oposto à última partida no Mundial de Futebol? Posso? Aqui vai. Do pouco que vi, do pouquíssimo que percebo de futebol, acho que foi fácil vencer os fracos. A equipa era muito fraquinha, fez o que pôde, e o brilho que levou o avô Ronaldo e os seus pupilos a enobrecerem-se, não me convenceu. A hora da verdade ainda está para vir. Tenho razão? 

         - Estou a ler a encíclica Magnifica Humanitas de Leão XIV. O exemplar foi-me emprestado e eu não sei ler sem anotar, sublinhar, folhear várias vezes um livro facultado. Todavia, do que tenho lido, incentiva-me a parar e ir à livraria comprá-lo. A incidência vai para a Inteligência Artificial e a sua aplicação (ou desumanização) no nosso quotidiano colectivo. 


terça-feira, junho 23, 2026

 Terça. 23.

Estive a tomar café com a Maria José durante o qual pusemos a conversa em dia. Ela foi operada a uma catarata do olho direito há três dias, mas já retomou o trabalho. Corajosa. Sobretudo quando, sendo escultora, tem de lidar com gesso, pedra, madeira na construção das suas obras. Não conheço ninguém tão activo como ela. Os seus oitenta anos, não a deixam descansar e trabalho não lhe falta. Perdeu o atelier que tinha numa quinta um pouco longe daqui, e pensou instalar-se aqui comigo. Eu não fiz nenhuma pressão nesse sentido e ela acabou por perceber e encontrou poiso em Quinta do Anjo. 

         - A ladroagem está por todo o lado. Quando é a direita a roubar, a esquerda desce à rua e julga-a na praça pública; mas quando é a esquerda protesta que é invenção do fascismo, das forças da reacção. Outro dia, no término relacional com o João Corregedor, quando eu disse que José Sócrates era o maior ladrão de todos os tempos ele, irado, mandou-me na linguagem própria dos camaradas proletários básicos àquele sítio. Mas os factos falam por si. Portugal tem sido governado por cliques sucessivas de corruptos, esquemas, ligações a máfias escondidas, compadrios, dinheiro a rodos passado por debaixo da mesa, ou escondido em offshores e até em gabinetes governamentais como aconteceu com o amigalhaço de António Costa que o abafou no seu gabinete ministerial de S. Bento. Eu costumo dizer que praticamente os tribunais só julgam a classe política e empresarial, são elas associadas que movimentam esforços e somas astronómicas de dinheiro e investigação à justiça. Os ladrõezinhos de pouca coisa, desapareceram. Em Portugal os dois partidos que têm tido o poder, também se têm governado à vez. 

         - Vem isto a propósito do que se passa em Espanha. Os socialistas por lá não são muito diferentes dos de cá. Assim, o braço direito de Pedro Sanchéz, foi condenado a 24 anos de prisão por esquemas fraudulentos quando da Covid-19. 24 anos! Os nossos tribunais são mais brandos, todo o mundo se conhece e, portanto, a actividade humanitária dos advogados faz de criminosos santos de altar. Num país de terceiro mundo, é assim que as coisas funcionam e ponto final. 

         - Calor abrasador. Fui ao tanque electrónico lavar a roupa de duas semanas. Lá encontrei um rapaz de vinte anos que vive só e tem que se ocupar de si; uma estrangeira que antes de meter a roupa na roda da fortuna, munida de uma data de produtos com esguiches, borrifava as peças antes de as pôr na máquina; e um homem à moda antiga, muito cuidadoso, dobrando cada peça como se fosse definitiva e guardando-a muito direita no cesto. Que mundo! 


segunda-feira, junho 22, 2026

Segunda, 22.

Eu nunca confiei no plano de Trump e do seu gang para o Irão - as evidências aí estão a dar-me razão. Trump é refém da situação que criou, a sua derrota é por demais evidente. O Irão e seus dirigentes, têm mostrado ser mais sólidos, persistentes na concepção que têm do mundo, preparados para todos os infortúnios. Em certo sentido, a América depende deles nos interesses mundiais que estão em jogo. Quanto a Netanyahu, o seu grande amigo, não passa de um criminoso que vai necessitar de larga pedalada para escapar ao cárcere. A destruição da Faixa de Gaza, é inaceitável à luz de qualquer realidade palpável. O Holocausto devia servir de comparação e alertar as nações para a crueldade de uma guerra desigual que tratou os palestinianos de carne para canhão. Vexados há mais de meio século, circunscritos a uma língua de terra sempre e sempre vigiada, espécie de prisão a céu aberto, humilhados e desprezados, nunca conseguiram ser um povo feliz, com um território seu e uma vida digna. 

         - Voltemos a agulha. Hoje, sentaram-se no metro, perto de mim - à frente, ao lado, nas traseiras - uns quantos rapazes pelos vinte anos em calções, com pernas nuas garbosas. Logo me ocorreu Julien Green que sofria e fechava os olhos para não cair em tentação quando lhe tocava, nos dias abafados de Paris, cenas como esta. Só que, se avistasse este espectáculo da juventude encalorada à moda de Lisboa, não precisava de desviar o olhar porque todos eles abundavam de pêlos – um horror para o escritor. Decerto nenhum deles tem namorada, porque hoje, também elas, só se abandonam à lascívia, quando eles se apresentam depilados... 

 

domingo, junho 21, 2026

 Domingo, 21.

“Raramente se escreveu moção tão tola e tão recheada de lugares-comuns. Com esta moção, o presidente do PSD e actual primeiro-ministro tem um único objectivo: o afirmar que não quer governar com o Chega nem com o PS. Que quer governar sozinho, ora com um, ora com outro, na esperança de ser derrubado, a fim de obter uma maioria absoluta. A nulidade desta ambição só tem um equivalente o da mediocridade dos propósitos.” Assino de cruz este parecer de António Barreto acerca de Luís Montenegro e do congresso do seu partido que decorreu este fim-de-semana em Anadia. Do mesmo, saiu a aberração de nomear o Bugalho para representante do partido em Bruxelas! Nunca me constou que o Parlamento Europeu tivesse um deputado oficial dos partidos nele representados. Eu adivinho a razão: Bugalhito queixou-se outro dia, suponho que ao Observador, que ninguém o conhecia em Bruxelas... 

         - O Chega depois de muitas promessas e piruetas trolarós, votou contra o pacote laboral. Nas galerias do Hemiciclo estavam os sindicados em força a assistir. Quando o impensável aconteceu, as bancadas do velho edifício explodiram de contentamento e vitória. O que me comoveu, não foi o projecto ir por água abaixo, foi as lágrimas quentes e sinceras do dirigente da Intersindical, Tiago Oliveira. Aquelas lágrimas traduziam envolvimento, sinceridade, paixão pela causa que defende, humanismo. 

         - A extrema-direita em tudo igual à extrema-esquerda, tinha um plano montado para virar o sistema democrático que temos e um projecto na clandestinidade: Movimento Armilar Lusitano. Associados estavam grupos neonazis, bem apetrechados com arsenal de armas, dinheiro a rodos, treinados e distribuídos pelas redes sociais onde recrutavam pessoal para as suas causas. Era objectivo liquidar “os indesejáveis” – Marcelo Rebelo de Sousa, Cavaco Silva, Luís Montenegro, Ana catarina Mendes, António Costa alguns mais. À frente do grupo, há dois militares, um elemento da GNR e um fuzileiro da Marinha. Estes são suspeitos de fornecer armas e munições ao chefe da PSP envolvido no caso, e ainda terem entregado fardas camufladas. Quatro arguidos encontram-se em prisão preventiva. 

         - Estive no consultório do Dr. Octávio Simões a apresentar-lhe o resultado das páginas de exames a tudo e mais alguma coisa. Não falei, deixei-o analisar o que me havia ordenado fazer e mais o que a minha médica de família acrescentou. Confesso, nunca vi um médico tao feliz. Parecia que aquelas análises eram suas e a revelação da sólida saúde sem que um único parâmetro se desviasse do sagrado mens sana in corpore sano de Juvenal, lhe diziam respeito. 

         - A propósito deste excelente clínico. Há três meses que não tenho dores nenhumas e o meu coxear trouxe-me o brilhantismo dos meus vinte anos. Todo este orgulho, foi-me restituído pelo Dr. Simões. Coxinho, coitadinho ainda não virou o coxinho, coitadinho, velhinho.