sábado, setembro 26, 2026

Sábado, 26.

Nunca tinha tido uma consulta tão caótica como a de anteontem, a tal ponto que hesito em fazer o exame ortóptico prescrito pelo oftalmologista directamente para a sua colega do Hospital CUF Tejo, que terminou com esta observação: “Nós depois temos de conversar, porque há cada vez mais exames destes.” Para bom entendedor... Acontece que eu estou sempre muito atento à medicina-negócio que hoje impera por todo o lado e fujo dela como o diabo da cruz. Nestas circunstâncias, a técnica é esta: envolver o paciente numa roda-viva de exames cada um mais caro que o outro. Por agora foram 85 euros, na CUf talvez o mesmo valor, de retorno ao início outros 85 euros e a procissão ainda vai no adro. A sensação que tive, foi que o clínico detectou o meu problema que, de resto, o Lionel que é médico no Hospital de Estrasburgo, me deu de conselho: “Faz como eu: usa óculos para ler e para ver ao longe.”  

         - Que tristeza! Estou transformado num diarista em desprimor do romancista que há pelo menos três meses não molha a tristeza nas páginas do romance e perdeu de vista Ana Boavida que tanto tinha para lhe contar, não obstante as duzentas e muitas páginas de memórias inexistentes que o trabalho de quase três anos metamorfosearam em realidade. 

         - O mundo está confrontado neste momento com o vozeiro de Trump e a serenidade de Leão XIV. 

         - Pobre país, ou antes pobres portugueses. Não fomos feitos para o protesto porque durante 50 anos Salazar obrigou-nos a amochar. E todavia, à parte os primeiros governos constitucionais, todos os outros só trabalharam, só fizeram o esforço de compreender a razão que assiste aos seus concidadãos, só acudiram às necessidades pungentes da sociedade, quando os portugueses entraram em protesto, saíram à rua, cercaram a Assembleia da República, desfilaram nas avenidas, obstruíram estradas, criaram o desnorte na via pública. Então eles deixaram os gabinetes confortáveis onde se acantonaram, olharam através das janelas dos palácios do Estado e reparam no teor da protestação que atravessava o espaço público e tremeram pelos seus postos, pela vida airada de um Estado rico, que esbanja em mordomias, em fidalguias, em luxo e prazeres aquilo que tanta falta faz aos seus compatriotas. O coro de gente com suprema razão, é mais forte e fê-los tremer de temor de perderem o poder ou de este cair podre nas ruas. O trabalho quotidiano, o estudo dos problemas, a antevisão das tragédias e do futuro, a preocupação com os pobres que não cessam de crescer, com o SNS, a justiça, a cultura, a habitação, a velhice, a planificação geral própria de governos vigilantes, foi sempre passageira, empurrada pelo desespero das populações quando lutam proclamando justiça, equidade e um Portugal mais justo e equilibrado. Desta vez, foi a voz potente dos camionistas que são empurrados para o fecho das empresas por não suportarem o preço dos combustíveis. Os últimos vinte anos de governação PS e PSD habituaram-se a falar muito, fascinados pelas televisões, e a trabalhar pouco no sessego do estudo aturado e persistente. Governam através dos ecrãs. Sou dos que acham que somos o único país europeu com telejornais de duas horas preenchidos com histórias de lana-caprina, vaidades pequeninas, gente sem nível que se põe em bicos de pés por não ter onde cair morto e, bem entendido, o festival de políticos, especialistas e comentadores. É um forrobodó. 

         - Esteve aí o espalha-brasas. Chega sempre com imensas histórias de cortar o coração. Tenho de o acalmar, conversar um pouco com ele e quando sai vai mais ligeiro aligeirado das penas deste e daquele, dos filhos e netos, da saúde e da última morte de alguém do seu mundo. Levou também uma carrada de marmelos e dióspiros. 

 

quinta-feira, setembro 24, 2026

 Quinta, 24.

Às oito da manhã tomava o autocarro para chegar ao consultório do oftalmologista, no Chiado, onde tinha hora marcada às onze em ponto, viagem que se faz em pouco mais de trinta minutos. Um habitual acidente na Ponte Vasco da Gama, foi a causa. No caminho, olhos postos no rio, pensava naquela da excelente Ministra do Ambiente, segundo a qual os portugueses devem habituar-se a poupar combustível. A estimada Senhora não conhece os seus contemporâneos. Podem passar fome, não ter dinheiro para a saúde, para livros, para viver condignamente, mas para o popó, qual trono ambulante, ele tem que aparecer. Porque o automóvel é tudo aquilo que esconde à luz dos outros tristezas e desgraças do dia-a-dia; ao volante irmanam-se na máquina e solicitam-lhe o estatuto que brilha como arma de arremesso contra as desigualdades. Portanto, senhora ministra que suba o litro da gasolina, o português da classe média nunca abandonará a sua imagem resplandecente. 

         - A actual Ministra da Cultura, saiu-se com esta: Jorge Palma é um “cantautor”. A palavra está correcta, mas o novo-riquismo aflora por imposição fora do contexto. 

         - Os portugueses, se olharem de frente o presente, o passado e o futuro, vêem um monte de excremento que nunca foi varrido da sociedade – a corrupção. 

         - As ameaças não param, os avisos também não. A CIA alertou a Europa de possíveis ataques com drones contra a França, Espanha e Itália por parte do ditador russo. Que mundo! 


quarta-feira, setembro 23, 2026

Quarta, 23. 

Faleceu Jorge Palma. Cruzei-me com ele em duas ou três ocasiões, mas foi no Casino Estoril onde actou algumas vezes e eu tinha mesa no então chamado salão Preto e Prata, oferecida por Joaquim Couto, director, que restou daquele mundo empresarial, até hoje meu amigo, malgrado o tempo imenso que passávamos a esgrimir os textos que eu criava não só para o Casino como para outras unidades da empresa Estoril-Sol. Recordo-me de uma noite, Jorge Palma, acabado o espectáculo, os espectadores que enchiam a sala a debandar apressados para casa, as luzes a apagarem-se e o artista, só, sentado ao piano, prosseguia o show como se não soubesse onde estava, mergulhado num mundo estranho para nós, mas poderoso para ele, onde sons e emoções se misturavam para dar vida à personagem frágil, talvez um pouco tocada pelo álcool, que se esquecera que a madrugada não tardava e a música não conhecia dias nem noites, luz que vagueia por lugares que a imaginação impõe e a melodia persegue. Foi necessário que a dada altura, os funcionários o viessem retirar do piano, literalmente, e o levassem para os bastidores onde decerto ele ainda balbuciava uma canção e os poucos espectadores que com ele ficaram, eu entre eles, o aplaudissem até que desapareceu ao fundo do palco, figura magra vestida de escuro, provavelmente perdida algures entre o sonho e a realidade, a fantasia e a magia da música que só ele tinha o dom de criar, que só ele reinventava fundindo-a com a vida. O que mais apreciava nele, a par da sua música simples e complexa, que como um retrato permanece, era a voragem da liberdade, o ser de uma humanidade sem mácula, vivendo longe da mediocridade dos “artistas” de galinheiro que hoje proliferam como os “especialistas”, os “comentadores”, os porta-vozes deste e daquele partido.  

         - Hoje no metro, a dada altura, entra uma negra de largas ancas e mamas equilibradas, bem feitas, rijas e senta-se dois lugares adiante daquele onde eu vou instalado. Traz consigo uma bolsa e quando se ajusta ao banco, pendura-a ao ombro esquerdo enquanto com a mão direita fala ao telemóvel. Naquele movimento, não dá por mama onde assenta a mala, saltar do exíguo decote. Os mirones em volta, de sorrisinho maroto, não tiravam o olho... da mala. 

         - O Outono chegou, mas o Verão impôs-se com temperaturas que nalguns sítios chegaram aos 37 graus centígrados. 

 

terça-feira, setembro 22, 2026

 Terça, 23.

“É barganha particularmente perversa, por uma razão que devia ser mais vezes discutida – a descarada infantilização dos cidadãos, que não são tratados como adultos responsáveis, mas como crianças de mão estendida, dependentes das boas graças do Governo. O Estado falha todos os dias nos hospitais, nas escolas e num vasto conjunto de serviços públicos, cada vez mais degradados.” Quem assim fala, é João Miguel Tavares no Público de hoje, em crónica que se insurge contra os bónus que Montenegro decidiu dar aos velhinhos, coitadinhos, com reformas de miséria. Segundo o articulista que deve ser bem pago e por isso, quando não puder arrastar os pés, o primeiro-ministro da altura, far-lhe-á chegar uma reforma compatível com aquilo que afirma ser esmolas. O problema desta gente que se diz culta e responsável, é viver num outro qualquer planeta, onde não entra o reformado com 400 a mil euros, que são a grossa maioria dos aposentados no nosso querido país. Ele insurge-se contra o 13º e 14º mês, norma antiga que tanto jeito dá a quem aufere pouco. Mas vai mais longe: pede reformas para acabar com este feitio bem português de esmolar. Esquece-se que não são só os pobres que trabalharam honestamente toda a vida a esmolar, é o país inteiro que baila quando o dinheiro da UE entra a rodos no país. Mais. Do que ele devia falar quando fala de reformas, é do estado da Segurança Social e dos funcionários do Estado, e dos privados, que auferem várias reformas e quando casados, numa altura em que a mulher já não é dona de casa e aproxima-se a passos largos para se equiparar ao marido em direitos e ganhos do trabalho, falecido um dos cônjuges, o que fica passa a receber uma maquia importante do salário do falecido. Mais ainda. Aquele que nos engrandeceu junto do ninho de víboras que é o Parlamento Europeu (e não é o único), de seguida governador do Banco de Portugal, reformado recentemente sem idade para tal, aufere a bonita soma de 10 mil euros brutos mensais (os tais 10 mil que Cavaco dizia, quando deixou Belém, não ser possível governar-se a si e à mulher), mais o que acumula com o ISEG ao retomar a actividade académica. Mário Centeno está longe de ser o único. Para não falar nas mordomias a um enxame de pindéricos, que possui carro com chauffeur do Estado, subsídios para isto e aquilo, casas pagas, deslocações, numa festa colectiva que os contribuintes pagam com língua de fora, numa manifestação de novo-rico, num Estado a viver acima das suas possibilidades, quando cidadão amocha, vergado ao peso das dificuldades quotidianas. 

         - Fui à piscina. Depois de dois meses sem qualquer exercício, nadei apenas 30 minutos, num teste à perna e ao pé que as damas gordas e de sorrisos mimosos pendurados da água, acompanharam até à primeira braçada. Saí mais leve, quase etéreo, sobretudo psicologicamente, com um andar de menino atrevido a quem soltaram da jaula.


segunda-feira, setembro 21, 2026

 Segunda, 21.

O partido do ditador russo, como era de prever, obteve 57,86% dos votos nas eleições legislativas realizadas no fim-de-semana. Com este resultado, é possível a Putin obter os 301 deputados necessários na Duma. Ressalvando este pormenor que é esquecido pelos seus apoiantes: quase metade dos eleitores, abstiveram-se de votar. A Ucrânia, aproveitou o “evento eleitoral” e atacou em força com drones e um enorme ciberataque contra o sistema de votação electrónico.  

         - Tudo isto, enquanto na rectaguarda Putin ensaia o ataque à Europa. Macron que no início da guerra contra a Ucrânia, pensava que o ditador era sensível a conversa fiada (relembro que entre nós os comunistas apoiaram a “operação militar especial” russa), foi prostrar-se de joelhos no Kremlin tentando chamar à razão um homem preocupado apenas com a reunificação da Santa Mãe Russa e o imperialismo da URSS malbaratado por Gorbatchov que, segundo Vladimir Putin, garroteou o Império Russo. É este mesmo homem, em vésperas de deixar o Eliseu, que tantas ideias lúcidas pôs em movimento, prepara agora a defesa não só do seu país, como a da Europa, desta vez sem ilusões nem falsas rasões piedosas. Como senhor da única nação europeia com arma nuclear (o Reino Unido tem-na, mas a América possui a derradeira palavra), promete pô-la ao serviço da defesa de cada país como da totalidade do continente europeu, provando que não tem ilusões quanto aos ensaios híbridos que Moscovo tem vindo a realizar em território europeu. Parece até que ele é o exclusivo político no seio da UE, que enfrenta a América tresloucada de Trump e a tirania de Moscovo com a lucidez, o pensamento, os objectivos que uma guerra a curto ou longo prazo se prepara. Não quero dizer que outros políticos europeus não estejam inquietos, o que digo é que Macron tem-se adiantado, impulsionado e corajosamente oposto ao desvario e timidez de outros países aninhados no medo e na esperança vã de a paz ser eterna. Portugal, como sempre, não tem voz nem personalidade objectiva. O nosso primeiro-ministro, sem ideias nem conhecimentos, está naquela onda de achar que o diálogo é mais importante que tudo o resto. Macron também assim pensava e Pedro Sanchéz, forte de personalidade e convicções, enfrenta sem pestanejar Putin e Trump. 

         - Não é, contudo, o caso da Polónia que criou frota de aviões militares na fronteira com a Bielorrússia reforçando assim a sua defesa antiaérea; nem da Alemanha e Suécia que robustecem o lado do mar Báltico e do Presidente finlandês que acabou de anunciar que vão ser instaladas armas nucleares francesas na Finlândia. A Lituânia, também não tem ilusões, e em colaboração com a Polónia, em caso de agressão russa, montou um plano de transferência do seu povo para a Polónia. Putin sente-se protegido e impulsionado pela simpatia do seu homólogo e amigo americano, sabe que o momento está do seu lado, o seu sonho da Grande Rússia está ao seu alcance. A NATO, a titubeante NATO, muito bajuladora do louco que ocupa a presidência dos EUA, parece ultrapassada pelas iniciativas da França. A Polónia que eu visitei sem pressa, pude constatar a personalidade de um povo que ama a liberdade conseguida com a libertação da antiga União Soviética.

         - Às vezes, vendo o rebuliço que vai pelas nossas escolas (esta cabeça nunca pára), penso em Julien Green, professor, do alto do estrado na sala de aulas, os alunos de pernas nuas na frente, ele que quando descia à rua nos dias quentes de Verão, em Paris, não tirava os olhos do chão para não sentir a tentação a invadir-lhe o corpo ante a beleza dos corpos juvenis. Querido e grande escritor, não tenho dúvidas que a infinita paz de Deus vos trouxe não só o perdão, como saldou todas as incertezas que vos atormentaram. Do meu lado, lamento e lamentarei não vos ter conhecido, pese embora os incentivos do nosso amigo comum, Francis Von Ourberque. 


domingo, setembro 20, 2026

 Domingo, 20.

Ontem tive a sensação de ter rejuvenescido trinta anos; quase não me reconhecia na azáfama que encheu o meu dia. Cedo fui ao mercado dos pequenos agricultores a Pinhal Novo, antes tinha estado a regar, de seguida ao supermercado e em casa li uma hora, escrevi duas, arrumei o andar de cima, fiz seis frascos de compota de dióspiro porque os tenho em carradas para dar e vender. Pelo menos quatro horas de pé ao fogão, foi um desafio ao pezinho, coitadinho, que as senhoras maduras olham com compaixão e as novas com um ciciar de lábios enternecedor. 

         - Outro dia, a dona do restaurante Café no Chiado, uma mulher desenxovalhada, bonita, veio à nossa mesa trocar algumas palavras com o Paulo Santos. Este apresentou-nos e logo a conversa se desenvolveu, cresceu e não fora os afazeres do restaurante, ficaríamos ali a tarde inteira. O meu amigo disse-lhe, a dada altura, que eu tinha um blogue e logo a simpática proprietária, telemóvel em punho, me pediu o endereço. Neguei. “Como assim”, clamava ela, surpreendida com o meu desplante. “Já tenho leitores que chegue”, respondi. Muito admirada, olhava o Paulo como a interrogá-lo de onde tinha vindo tal personagem. Já na rua, voltou à carga e eu disparei sem travar o passo o nome deste registo. Ela: “Espere aí deixe-me ir lá dentro anotar.” 

         - Carl Bildt, ex-primeiro-ministro sueco: “As democracias ocidentais só têm actualmente dois líderes: Carney e Zelensky.” 

         - Voltou de novo o calor. Aqui os termómetros montaram a 34º C. Até quando andarei eu a regar! 


sábado, setembro 19, 2026

Sábado, 19.

Os opositores, incluindo os jornalistas, ao ditador Vladimir Putin e à espécie de eleições parlamentares que ele montou, chamam àquilo um “evento eleitoral”. Está tudo dito.

         - Como esta gente se assemelha! No tempo de Costa, os socialistas lançaram vitoriosos a ideia das “contas certas”; os que montaram ao poder depois deles, as “contas justas equilibradas”. Uns e outros, delirando com as suas competências, esquecem-se dos dois milhões de pobres, da classe média e de todos os que trabalhando com esforço e dignidade, não ganham para ter uma casa onde viver. O importante para estas delirantes criaturas, é fazer figura de contabilistas competentes. Quem tem lucrado e muito, é a classe política. Noutros tempos, quando com eles privei, sabia bem das dificuldades por que passavam; hoje os mesmos andam de cabeça erguida exibindo o conforto que a Assembleia e os ministérios por onde passaram lhes proporcionaram. 

         - E-mail que enviei à equipa de oftalmologia do Hospital de Santa Maria: 

Unidade de Oftalmologia do Hospital de Santa Maria.

Recebi em triplicado uma mensagem que me informa que fora marcada consulta que a médica, apresssada, do Curry Cabral, na sua observação de cinco minutos, concluiu ser assunto para essa unidade. 

Acontece que estive sete meses à espera daquela consulta e agora, pela mensagem recebida há três dias, vou ser observado só dia 4 de Agosto de 2027 !!! Como devem calcular, não me sujeito a tal humilhação e já tenho consulta com um oftalmologista na área de astigmatismo na próxima semana e não fui à Dra. Fátima Campos e os senhores adivinham o motivo…  E ainda, eu sei lá se tenho olhos daqui a um ano ! Que miséria ! Que vergonha está trasnformada a obra notabíssima e humanista do Dr. António Arnaut. A saúde é hoje o melhor negócio que a democracia inventou. 

Utente descontente

Helder de Sousa