quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Quinta, 5.

Desta vez sobrou para mim. Acordei pelas cinco e meia da manhã com um barulho estranho de qualquer coisa que se havia soltado debaixo da minha janela. Logo pensei que seria o telhado a desabar. Soube quando me levantei às oito, que havia sido um prato grande alentejano que eu tinha na parede, e tinha deslizado por ela abaixo até se enfiar nas almofadas do canapé sem uma beliscadura. O pior veio depois. Quando quis sair com o carro, tinha o caminho até ao portão todo juncado de braços enormes que se tinham rasgado dos cedros gigantes e dos sobreiros que vão desde a casa ao fundo da quinta. Mais ou menos a meio, um grande buraco de onde tinha saído a raiz imensa de um cedro e com ela o cano que leva a água a casa, rebentado. Mais: três ou quatro barrotes de cimento que sustentam a rede que circunda o terreno, tombaram. A maior parte das árvores, caíram para o terreno do meu vizinho e com ele vou ter de me entender. Por agora, o único que se mostrou disponível foi o meu generoso Sr. José Manuel que vem acudir à tragédia depois do almoço. Tenho para várias centenas de euros. O vento não pára; parece mesmo mais agreste. 

         - Ontem, depois de muitas hesitações, fui a Lisboa. Não quis render-me às indecisões da idade, aos obstáculos da intempérie, ao pavor de uma capital paralisada pela chuva forte e constante. Tinha um programa em mente e fui destemidamente realizá-lo. Viajei no meu querido autocarro com meia dúzia de passageiros, sob vento e chuva, o Tejo de barriga cheia, mas em Alcabideche, corajosos homens apanhavam bivalves, indiferentes ao que se passava em terra. Em pára arranca, chegámos a Oriente. Como tinha em mente ir almoçar ao 1800, o meu saudoso restaurante do Largo do Rato, fui dali no metro ao Saldanha, tomei depois a linha azul, e por volta da uma da tarde estava sentado à mesa. Posteriormente fui ver de um fisioterapeuta ao Centro de Saúde, num táxi para o C.I. e a seguir a umas compras, noutro para o oculista onde tinha à minha espera o acerto da lente esquerda dos últimos óculos. Tomei novo táxi que me levou de regresso à estação de metro S. Sebastião para me enfiar no transporte que me levou ao ponto de chegada para voltar a entrar no autocarro de regresso a casa. As horas deste vai-e-vem pela cidade, foram de guarda-chuva aberto, rajadas por vezes fortes de vento, e a imagem de ruas e avenidas lamentavelmente abandonadas ao temporal. Fica-me do dia um estranho e acolhedor sentimento de intimidade com algo, que embora vindo da espessura do tempo, me paralisou nele como memória perene de um fluxo de luz e quietude. 

         - Não vou poder narrar o que me contou um dos motoristas de táxi que ficará para o texto em livro (se publicação houver), mas direi uma parte da nossa conversa. No percurso entre o Campo Pequeno e o Corte Inglês, o homem, não sei a que propósito, perguntou-me onde eu morava. Quando ouviu falar em Palmela, disse-me que não havia muitos dias que tinha transportado um ilustre senhor (nomeia-o) a uma quinta em Quinta do Anjo. Digo-lhe que conheço a personagem e que ela, inclusivamente, em tempos tentou escapar aos impostos quando da compra de uma herdade aqui perto. A conversa avançado calculo que ali havia algum engano. O motorista, então, conta como encontrou o cliente em Lisboa. “Ele entrou aqui no carro e disse-me que o levasse a Azeitão... – Então não é Quinta do Anjo porque essa povoação é que fica encostada a Palmela, digo-lhe eu. – Sim. Sim, é em Azeitão porque ele a dada altura diz-me que ficava mesmo em frente do (o nome do actor seguido do dichote que não vou dizer). Chegados ao portão, o ilustre socialista e homem milionário de negócios, dá-se conta que não tinha as chaves para entrar na mansão. O condutor oferece-se para saltar o muro e chamar o casal de empregados que o cliente lhe diz viver ali com ele e mais dois cães. Aberto o portão, o motorista tem ainda uma subida para a serra, numa imensa propriedade de muitos hectares, com um palácio imenso lá no cimo. Bref. Aberta a porta da vasta residência (aqui entra a parte interessante do socialista em causa), ele diz-lhe que jante com ele e logo se dirige à cozinha e destapa tachos (um com arroz, outro com carne) de maneira a agradecer a proeza do seu condutor. Este recusa ante a insistência do proprietário. Bah! Socialistas destes, gosto...

         - Já não aprecio tanto aqueloutro, de seu nome Conde Rodrigues, amigalhaço de Sócrates, que recebeu 25 mil euros por mês a troco de aconselhamentos blablá. O homem safou-se porque foi secretário de Estado da Cultura, da Administração Interna e da Justiça. Arre! Que competência! Rico homem, sim senhor! Ah, a sumidade trabalhou também para a empresa de Carlos Santos Silva, arguido na Operação Marquês.   

         - O meu salvador andou aí para cima de uma hora e deixou o caminho limpo. Agora já posso sair sem problemas. Virá cá um dia destes (trabalho não lhe falta nesta altura) para cortar as árvores que tombaram para o lado do meu vizinho. Dou comigo a pensar que o que vou gastar com ele, economizo na compra de lenha para o Inverno que vem. 


terça-feira, fevereiro 03, 2026

 Terça, 3.

A quem tiver acesso ao quarto volume do Diário de Julien Green, Toute Ma Vie (Ed. Bouquins), recomendo a leitura das páginas 720 a 725. São trechos dilacerantes do enorme sofrimento do escritor face ao equilíbrio que ele achava imprescindível para viver segundo os mandamentos de Jesus Cristo por um lado e por outro a obsessão pelo corpo de Eros (Éric) que era para ele o demónio transformado no prazer que ambos usufruíam e sem o qual todo o desequilíbrio se instalava. Penso que este sofrimento foi em grande parte o respaldo da sua educação protestante, de uma mãe austera, de um mundo familiar crente ao ponto de se impregnar dos valores tão caros a São Paulo. A noção do pecado carnal hoje praticamente posta de parte pela Igreja, foi no séc. XIX e início do século passado devido às teorias jansenistas de Port Royal, séc. XVII, cujos ecos chegaram até Pascal e outros mais, o mandamento de todos o mais imposto, combatido, explorado e sofrido. Ao longo dos milhares de páginas deste diário pos-mortem, assistimos à luta hercúlea do autor pelo retorno à inocência, pela desistência do corpo e dos sentidos, por um regresso à pureza como se esta já não estivesse impregnada da sua condição humana e, por com seguinte, sob o descontrolo do indivíduo enquanto obra do Criador. O pecado sexual (digamos assim) é parte intrínseca dos impulsos do corpo, algo que durante muito tempo tem difícil controlo e na juventude toma a forma de crescimento a par de todos os outros desenvolvimentos. É uma manifestação (ouso dizer) de liberdade, de grito, de algo que não se confina à moral como não se restringe aos valores sociais e éticos. É o maravilhoso encontro com o outro, consentido para que os dois dele saiam leves e felizes da morada secreta que os juntou. É a natureza tout court libertada para a realização humana. Respeito os clérigos que fazem votos de castidade, e são capazes de ao longo da vida honrar essa decisão, mas penso que Deus deu essa maravilhosa realização humana e, como alguns sacerdotes dizem, estou a pensar em S. Tomás, o chamado pecado da natureza é de todos o que menos ofende a Deus. 

         - Ouvi há pouco um homem simples dar uma grande lição aos políticos e a todos nós: “A mim a política não me governa, só a cultura e o trabalho.” 


segunda-feira, fevereiro 02, 2026

 Segunda, 2.

As malfeitorias climáticas prosseguem. Continuamos com chuva por vezes forte acompanhada de vento veloz e perigoso. Dizem-nos que os rios vão galgar as margens e invadir vilas e cidades. Todo este cenário catastrófico, rima com aquele outro que nos trouxe o Kristin. Os dois candidatos a Belém cheios de piedade e competência, advogam decisões para outros invernos e desgraças a advir. 

         - O mundo está suspenso do que vai acontecer no Irão onde, diz a imprensa, os senhores todos poderosos, mataram para cima de 30 mil pessoas, a maioria jovens posto que o país é constituído de gente a rondar os trinta anos. Entretanto, Putin não desarma e antes de Trump terminar o mandato, terá por inteiro o território devolvido à Rússia. O ditador é feroz e não olha a meios para atingir os fins. As temperaturas deste Inverno rigoroso não param de subir, tendo atingido quase trinta graus negativos. Os ucranianos, sem energia destruída pelo verdugo, vivem momentos difíceis em tendas onde se aquecem e recarregam energias e telemóveis. Também em Gaza, os méritos de Trump para o Prémio Nobel estão claros nas mortes que não param e foram de mais de trinta almas às mãos dos invasores israelitas. O criminoso e corrupto Netanyahu, mantém-se no poder. Num mundo em transformação acelerada, a nossa estimada União Europeia está ausente. 

         - Green chega a ser compungente não só com Deus como para os seus leitores. Ao longo de páginas e páginas, num murmúrio ou ladainha sem fim, ele desarma a sua alma num clamor de preces e interpretações divinas que tarde ou cedo são abafadas pelos prazeres do corpo incendiado de desejos e frustrações sem fim. É certo que o objecto dos seus desejos se mantém firme em MM (Éric). Pensa ele, talvez, que essa obsessão meramente carnal é melhor que andar de rua em rua à procura do imprevisto. Mas, a pouco e pouco, no seu limitado seio de fragilidades e equilíbrios, cresce o ciúme de Robert (o amor da sua vida), e também a preocupação pelo facto de Éric não ter trabalho, nem gostar de trabalhar. Bref. Ele começou a imitar Julien Green e escreveu um romance que o célebre amante ajudou a publicar. (Abro um parêntese para dizer que li um ou outro livro de Éric Jourdan, mas achei-os sem interesse absolutamente nenhum, pese embora as opiniões do futuro pai adoptivo muito elogiosas. Aquilo é pornografia pura e dura onde a homossexualidade é contada de uma forma nojenta.) MM era viciado em sexo (e em dinheiro) e multiplicava as aventuras diariamente. No ano cinquenta e seis não tinha Éric trinta anos e Julien Green aproximava-se dos sessenta. Essa vida airada, não trouxe ao escritor nenhuma espécie de rivalidade muito menos serenidade por ser meramente carnal. A relação sincera e forte era com o seu amor de toda a vida Robert de Saint-Jean.  

         - Hoje daqui não saio, daqui ninguém me tira. Choveu toda a manhã, mas agora o campo encheu-se de sol fraco, luminoso. As folhas das árvores agitam-se numa dança frenética – é a festa que o vento seu parceiro ao bailar expande. 


domingo, fevereiro 01, 2026

Domingo, 1 de Fevereiro.

Dou comigo a magicar que o problema de Donald Trump é a doideira. O homem é maluco, foi corroído pela ganância, pelo seu excessivo ego. Depois, os que estão à sua volta aproveitam-se, oram em torno da imagem senil que se besunta de poder. Os americanos já se deram conta do desvairado que puseram à frente dos destinos do país, a sua impreparação, mas como a Constituição dos EUA dá ao Presidente todas as decisões possíveis e imaginárias ele, sendo Trump, temo-lo rei do universo, inclusive do subsolo das terras profundas onde os metais precisos o levam ao desvario. 

         - Esperemos ruidosos a observar o que vai rebentar no Irão. Trump ocupou praticamente todo o Golfo Pérsico com a tralha do porta-aviões Abraham Lincoln, robusteceu as bases militares americanas no Médio Oriente, colocou mísseis prontos a actuar, enviou centenas de militares e todo este arsenal bélico para quê? O Irão dos Ayatollahs, sendo o que é há 40 e tal anos, respondeu-lhe que experimentasse atacá-lo. Trump não percebe nada da concepção da morte e da vida para os povos persas e outros que por lá pululam. O sacrifício para esses povos é quase desejado enquanto projecção na outra vida em que acreditam fielmente ao contrário dos cristãos que deixaram de admitir que este mundo é apenas uma passagem. Depois existe o próprio regime, sustentado por uma milícia feroz, que protege até à morte o seu chefe nacional e religioso. Se a este governo centralizador e déspota, se juntar a potência que o país é, o seu material nuclear e devastador, eis o quadro que levará a América a deixar em solo estrangeiro os seus melhores filhos. 

         - Na realidade a fúria do Kristin deixou por todo o lado um rasto de morte e destruição. O centro do país está num montão de destroços e as populações sem água nem electricidade, comida e telecomunicações parecem abandonadas à sua sorte. Toda a gente da política usa a desgraça em seu proveito próprio e o Governo, com Luís Montenegro à frente, parece não ter consciência das responsabilidades que lhe compete assumir. Há tantos departamentos, tantos ministros e ministérios, tanta polícia e soldados, e ninguém possui conhecimentos para repor o mínimo de conforto às populações infelizes. Hoje como ontem, hoje como no passado, não sabemos organizar, prever, pensar o futuro. Somos uns tontos alegres ao sabor da vida. 

         - “L´homme scrute le silence, mais le silence scrute l´homme.” Max Picard anotado por Julien Green (pág. 707). 


sexta-feira, janeiro 30, 2026

 Sexta, 30.

A terrível Ingrid foi-se e chegou o bélico Kristin. Para cima de Caldas da Rainha até Coimbra, os estragos são tantos e tão desastrosos, que até o canal 2 francês ontem os projectou. De facto, a sua passagem deixou um rasto de horror e violência., com ventos que passaram os 140 k/m hora e fizeram pelo menos quatro mortos. Cidades e vilas estão destruídas, todas as infra-estruturas foram abaladas, os estragos e seus custos são incalculáveis. Tudo isto, dizem os técnicos, deve-se ao aquecimento climático. Eu não ponho em dúvida, mas quer-me parecer que algures no universo qualquer coisa se modificou, seja por culpa dos homens, seja porque este lugar onde vivemos é tão mutável na sua suspensão e quietude. Os grandes projectos para lhe fazer frente, são esquiçados contra as populações, ou seja a jusante, enquanto a montante a grande indústria prossegue o seu caminho de lucro indiferente à tragédia que consome a vida dos pagantes. Acresce que todas as barragens sem excepção, estão a descarregar. Numa palavra: é à sociedade de consumo que se deve todo este desarranjo existencial.         

          - Não é só neste petit pays que o clima se desarranjou. Nos EUA já houve mais de 30 mortos devido às baixas temperaturas e a casos com elas relacionadas.  Sobre a Europa foram descarregadas toneladas de neve, e na Espanha não só neve como chuvas diluvianas. No tocante à neve, vários distritos no Norte foram beneficiados, pois por cá ela é objecto de gozo e satisfação. 

         - Ainda o debate entre Seguro e Ventura. Eles tratavam-se assim (mesmo nos momentos mais violentos) o senhor doutor isto, o senhor doutor aquilo. Não sendo médicos, é estranho assistir-se a tamanha dose de provincianismo. 

         - Cheguei cedo a Lisboa. Comecei por passar pelo oculista onde deixei há dois meses 600 euros e continuei com o mesmo problema que tinha com os óculos comprados na fábrica dos mesmos – fecho o olho canhoto para ler. De seguida fui ao C.I. e mais tarde abanquei na Fnac para alinhavar estas linhas. Aqui estou como estive anteontem quando, ao fechar o novo computador e não o conhecendo ainda bem, salvei o documento tão bem salvado, que ele desapareceu do ecrã. Pânico. Depois lembrei-me de ir pedir ajuda aos polícias de tenra idade que a livraria tem para acudir a desastres destes, mas o rapaz andou de lanterna na mão em busca do ladrão e não o encontrou - para ele o documento tinha sido apagado. Novo susto. Todavia, ontem de manhã, enchi-me de paciência e iluminado pelos céus negros, sentei-me à secretária decidido a compreender este bicho. Depois pedi ajuda à IA e com as suas explicações, pude rumar à aventura. Devo ter pesquisado por todas as files durante uma hora e, de súbito, eis que o tenho escondido num recanto onde nunca havia entrado. Depois, através do e-mail, arrastei-o de novo para o ecrã e pude prosseguir o meu trabalho. Já não é a primeira vez que tal me acontece. O facto é: sempre que me decido a pôr o cérebro em andamento, quase sempre levo a melhor e digo para mim mesmo “de estúpido não tens nada”. Gaba-te, ó inteligente. 


quinta-feira, janeiro 29, 2026

 Quinta, 29. 

A América virou uma selva. A mando de Trump os imigrantes transformaram-se em gado a abater. A ICE, a polícia criada para expulsar estrangeiros com total impunidade e desumanidade, diante das câmaras de televisão, fuzilou com vários tiros um enfermeiro americano indefeso que se colocou do lado dos pobres imigrantes. Já perdi a conta ao número de imigrantes mortos pela polícia. Como tudo isto vai terminar ninguém sabe. Mas a mim parece-me que uma só morte irá paralisar os EUA. 

         - Esta tarde no fertágus, duas raparigas roíam numa outra do seu bairro. Uma despejava tudo quanto a horrorizava nela, a outra complementava: “Ela é burra na vida porque diz coisas banais. Ela tem problemas no pensamento.” 

         - Estamos nas derradeiras semanas para as eleições presidenciais. António José Seguro, segundo as soldagens, leva larga vantagem sobre André Ventura. Eu fui dos primeiros, senão mesmo o primeiro, a elegê-lo. Perdoei-lhe aquela passagem fugaz pelo comentário televisivo e apliquei nele o meu primeiro voto. 

         - A noite passada voltou a ser assustadora: chuva forte e constante, vento medonho, barulho demoníaco lá fora. Esta manhã observei o resultado: caminhos transformados em rios, espaços abertos em charcas, árvores arrancadas. Aqui, felizmente, o mundo vegetal ficou todo de pé. 

         - Estou pela primeira vez a escrever no novo computador ao cabo de meses de chatices que duraram até ontem. Ainda não o domino completamente, mas o essencial para a escrita já alcanço. Daí o deslumbre de ler as páginas finais escritas no romance há alguns meses. Sublimes. Urge pegar de novo nele e terminá-lo. 


quarta-feira, janeiro 28, 2026

Quarta, 28.

A noite passada foi assustadora. Fui acordado pelas três da manhã com o barulho do vento passando a uma velocidade devastadora. Tudo tremia e os uivos do Joseph eram lancinantes. Depois da Ingrid, veio este sujeito ainda mais ameaçador. Eu só pensava no telheiro que tenho debaixo do meu quarto que há muito se sustém com um barrote que o Sr. Vítor colocou. Depois devo ter adormecido porque me lembro de pelas sete da manhã me ter posto à escuta dos restos sinistros da noite. Mal pus os pés no soalho, fui às janelas de trás e da frente observar os estragos – felizmente não vi nada tombado ou em vias disso. O Black, como é seu hábito, esperava-me à porta da cozinha. Aberta a porta sua excelência entrou seco e feliz como se tivesse passado a noite no palácio de Xerazade, esposa do rei Xariar. Saí para dar uma volta e regressei feliz – nada por pequeno que fosse havia a lamentar. Ao contrario da Alice que na sua quinta de quatro hectares, em Caldas da Rainha, teve várias oliveiras arrancadas pela raiz, cedros gigantes, pinheiros, oliveiras num total que ela ainda não conseguiu contabilizar. 

         - Assisti ontem ao debate entre Seguro e Ventura por sinal nada venturoso. Foi uma inutilidade, tendo em vista o que ambos disseram naquela peregrinação estafante por rádios, televisões e espaços públicos durante a dita pré-campanha, e lhes competia dizer. No final, como sempre, colhi coisas válidas do homem do Chega e outras tantas de António José Seguro. Devo ter sido o seu primeiro eleitor, quando ele começou a pensar em se candidatar, e depois de lhe ter perdoado a saloiice da tentação de comentador televisivo. Francamente, se ele ganhar como tudo indica que aconteça, não creio que o país vá mudar um milímetro da sua construção de cliques, favores, vida airada dos políticos, esquemas, corrupção, negociatas, conluios, peso das catedrais de advocacia, e muitos eteceteras. Contudo, se vir transformações, aqui estarei de alerta a com todo o prazer as divulgar. 

         - Aquela de “a mãe de todos os acordos” nos negócios que Ursula e Costa estão a consolidar na Índia, só pode sair da verba do seu impagável secretário e nosso ex-primeiro-ministro. 

         - Prossigo Green. A páginas 676 citando um dos muitos clérigos que frequentavam nos anos Cinquenta o seu apartamento parisiense, padre Couturier, que devia conhecer a natureza do escritor, disse: “Lá tentation charnelle est un vertige et provoque un déséqulibre qui n´est pas compatible  avec la nature du Sauveur”, isto em contra-resposta do que lhe havia dito outro sacerdote, padre Carré, segundo o qual os pecados da carne não são pecados graves, “mais un péché malgré tout.”