Terça, 12.
Outro dia passei para cima de duas horas numa esplanada em Setúbal com o Fernando Dacosta em farta e ininterrupta cavaqueira. Há algum tempo que não estávamos juntos e por isso os temas atropelavam-se contrariando o seu habitual ritmo de ser e estar. Conheci-o quando entrei para o jornalismo pela porta larga do Primeiro de Janeiro, estando ele no Diário de Lisboa. Desde então nunca mais nos largámos, pese embora os sucessivos ajustes que fomos fazendo ao longo dos anos. Achei-o muito magro sem que o peso da idade o tenha modificado. Diz-me que é devido a diabetes e que tudo o mais corre dentro dos carris da vida que é hoje a sua. De resto, sempre o vi com o seu bloco de notas em pele e elogiei o estado do mesmo. Retorquiu-me que o havia mandado fazer expressamente porque hoje já não se encontra exemplares iguais em parte nenhuma. De política falámos pouco até porque percebi que estávamos em sintonia e a melhor forma de se viver é afastados dela. Mas não faltou a literatura com referências a este e àquele autor, este e aqueloutro livro, colega jornalista ou amigo. Para surpresa minha, diz-me que não apreciou o Diário Incontínuo de Mário Cláudio e pareceu-me estar de acordo de que Saramago não é a única alusão digna de estacionar nos manuais escolares. Quanto ao estado da cultura, da edição, dos novos editores que exigem aos autores paguem a publicação dos seus livros, aconselhou-me a não entrar nesse jogo pois para ele é certo que a literatura e os grandes escritores estarão de volta no futuro, correndo com a arraia miúda de oportunistas que se têm instalado sôfregos não tanto de lucro porque não vendem nada, mas de imagem e prestígio.
Há, contudo, um facto que quero realçar e diz muito não só da sua personalidade, como do preconceito que todas as lutas não almejam acabar: a aceitação da relação entre pessoas do mesmo género. Eu desde que o conheço que conheço o seu companheiro Zé Manuel. Muitos anos passaram. O Zé veio viver aqui para Setúbal, eles separam-se, mas o vínculo de amizade nunca se quebrou. Mais tarde, recebi em minha casa o seu novo amigo, um colega jornalista como ele. Vim a saber agora que a mãe do António é a proprietária do apartamento onde viveu o Zé e que se prepara para o alugar de modo a ajudar na estadia do Zé na clínica em Azeitão onde larga 2 mil euros/mês - importância que a sua reforma não suporta. Zé já não reconhece ninguém, mas Fernando vai todas as semanas estar um pouco com o amigo de metade da sua vida. Uma tal generosidade, um tal louvor humano, uma tal dedicação à memória de um tempo decerto feliz, fecha o ciclo de uma vida que não desaparece com a morte. Pelo contrário, estende-se como campo de flores onde a Primavera refloresce dos fios intensos da luz das alvoradas, das memórias como sentinelas de hinos salmodiados ao amanhecer e ao entardecer da vida.

