quarta-feira, setembro 16, 2026

Quarta,16.

Álvaro Almeida, director do SNS, disse mais ou menos isto: os velhos e os doentes crónicos urgentes que esperem no fim da lista dos que já lá estão há meses, quando não há anos, para consultas ou operações. É esta excelência medíocre que está à frente da obra de António Duarte Arnaud e de cada vez que a figura fala, o obreiro humanista do SNS dá várias voltas no caixão. Se o 25 de Abril nos deu um autêntico socialista que por si só impôs e deu razão e fundamento à mudança de regime, foi o insigne político de Coimbra. Qual Cunhal, qual Soares face à dignificação do direito à saúde para todos, que o construtor deste edifício em desmoronamento criou. 

         - Para mim, são evidentes os ensaios da Rússia para a guerra na Europa ou mundial. Putin testa até onde vai o temor dos europeus – de reuniões em reuniões estes não dão pela estratégia do ditador. Daí as oportunas intervenções do imperialista no sentido de ameaçar os povos para que votem nas direitas extremistas com quem tanto se irmana. 

         - Fui de propósito a Lisboa almoçar com o Carlos em trânsito de Luanda para Nimes onde agora vive. Gostei de o ver, mais maduro, mais agradável de trato e. sobretudo, capacitado para continuar a vida não obstante dois divórcios e duas filhas, em Luanda, da última relação. Falámos quase sempre de política portuguesa, mas sem a obsessão doentia do João, pese embora algumas divergências. Com ele viajei muito, saudade que ele transporta e faz questão de me lembrar sempre que estamos juntos.   

 

terça-feira, setembro 15, 2026

 Terça, 15.

Ontem, andei num corrupio por Lisboa a tratar de pequenas coisas sem importância absolutamente nenhuma, mas que fazem parte da vida moderna dos nossos dias. Almocei no C.I. e cruzei-me com o engenheiro, amigalhaço e rico, de José Sócrates. Fato azul completo, sem gravata, ao telefone a falar um inglês suspeito. O homem parece um ser simples, quase simplório, que deve ter sido manobrado pelo engenheiro de diploma tirado ao domingo, pois acredita que os milhões que lhe emprestou, sendo o ex-qualquer coisa pobre como repetiu inúmeras vezes, lhe pagará no outro mundo. 

         - Do que se tem falado na última semana com voz embargada, é de Inteligência Artificial (IA). Dizem os que a estão a desenvolver, que ela nos pode liquidar a todos e o mundo tal qual o conhecemos, desaparecerá. Jacob Coxon, antigo funcionário da Anthropic, que se demitiu para nos alertar do pesadelo que se prepara, afirma que a IA pode matar toda a humanidade até ao final desta década, tese acompanhada por outros colegas e empresas como Musk, Dario Amodei CEO da Anthropic, Sam Altman um ou outro mais. Contudo, ninguém nos explica ou dá exemplos do que se prepara. Coxon fala de inteligência artificial “superinteligentes”, capazes de se aperfeiçoarem a um ritmo superior ao da supervisão humana. Que quer isto dizer na prática? Não sei. Eu faço apelo muitas vezes à IA e depois de obter o resultado, tenho por hábito pensar se o que me foi fornecido faz sentido ou não. São informações comezinhas, mas ainda assim, desconfiado como sou dos modernismos, fico de pé a trás. A acompanhar. 

         - No romance de Valter H. Mãe, chama àquilo que eu tenho aqui em baixo, um termómetro. Tem alguma lógica na medida em que ele acompanha a temperatura de certos momentos íntimos... Já a turbamulta de “artistas”, são quatro por metro quadrado, nas suas canções pindéricas e pseudo populares, cognominam-no de cacete. 

         - Nos tempos da ditadura impunha-se a lei e a ordem; hoje com a democracia infunde-se “aquilo que o povo gosta”. Que idiotice! 

         - Tentei esta noite libertar-me do comprimido mágico que me lança num ápice nos braços de Morfeu. Já estou há alguns dias a tomá-lo partido ao meio, mas quis desfazer-me completamente dele de forma a entrar nos tempos passados antes da pancada da Água das Pedras. A verdade, porém, é que ainda não sou o que era e esta cabeça tonta não pára de arquitecturar o futuro longe destas paragens. 


sábado, setembro 12, 2026

 Sábado, 12.

Não posso de maneira nenhuma aceitar o SNS que hoje temos. Bem sei que esta degradação começou com a Covid que António Costa e os incompetentes ministros da tutela pioraram. Mas que diabo! Este Governo está em exercício vai para três anos e por todo o lado o sistema piora e a choldra instalou-se empurrando culpas à direita e à esquerda. Não há autoridade, não há respeito pelo serviço público e pelos portugueses. Olhem esta. Estive meio ano para ser atendido em oftalmologia no Pulido Valente. A médica acelerada que me atendeu e me explicou que o estado do SNS se deve aos migrantes acentuando que não só, “mas também às mulheres e filhos deles”, entendeu remeter-me para o Hospital de Santa Maria para ser observado ao astigmatismo que tenho no olho direito. Acontece que anteontem, recebi uma mensagem daquele hospital, a marcar consulta para dia 4 de Agosto de 2027!!! Vou ter que consultar um médico privado que é para isso que Luís Montenegro e seus muchachos foram eleitos. 

         - Felizmente não renunciei a prosseguir a leitura do romance de Valter Hugo Mãe, O século dos imbecis. Eu explico. O primeiro capítulo que apresenta a personagem Marquês da Malandrinha de seu nome Agilulfo, é longo e difícil de tragar. A sucessão de adjectivação é medonha, paralisante e desnecessária por não caber na realidade que o romance (no sentido sinóptico e literário) impõe ao retratar a vida tout court com os elementos que a compõem. Pensei logo em Mário Cláudio que segue naquela direcção e é uma estopada lê-lo. Não me afoitei pela sua obra, tendo ficado pelo Diário que achei interessante contrariamente ao Fernando Dacosta que outro dia me disse não haver apreciado e mais um ou outro livro. Claro que à lembrança, para certos aurores, advém o nome de Aquilino Ribeiro e o seu português que nos solicita ter o dicionário ao lado. Mas Aquilino possui uma escrita limpa, corrida, criativa no sentido de arrastar o leitor, mesmo com paragens para consultar esta ou aquela palavra, adjectivo ou substantivo. Quando sou confrontado com escritores que “escrevem caro”, vem-me à lembrança o termo novo-rico, os novos-ricos da escrita. Não é, contudo, o caso de o autor de Deus na escuridão, que eu descobri tardiamente e fiquei ligado para sempre, tendo já devorado vários títulos. Com este, ainda bem que não o abandonei, porque os capítulos que se seguem são maravilhosamente concebidos e narrados. As personagens entram e saem, numa roda-viva impressionante, com detalhes precisos, como se uma qualquer vida tivesse sido romanceada, vivida e aguardada para ser conferida por algum leitor ousado vindo dos confins do tempo. Nem me vou referir à escrita, ao modo de escrever, ao português específico do autor, porque tudo isso é do conhecimento dos seus leitores. Agora o que queria avançar, embora tibiamente, é que me parece que em nenhuma outra obra Valter Hugo Mãe se mostra tão despudoradamente. Há um rumor, um segredo, um tapa e foge dele em quase todas as personagens, umas mais evidentes que outras. Todavia, o humor reina por todo o lado, faz-se presença, pisca-nos o olho, converte-nos em cúmplices, anda connosco pela mão no rodopio de nomes, qual deles o mais original: Martinbon, Pier Paciugo, Bertrandino das Guildivernes, Presidentês, Paciasso, Pessivista, Omobon, Omobestia, Bem-Va-Ussuf, Gurdulú, etc. etc.  


sexta-feira, setembro 11, 2026

 Sexta, 11.

O recente relatório PISA, divulgou que Portugal recuou vinte anos no conhecimento da matemática e na leitura. Esta realidade, incendiou ex-ministros da Educação e o presente que eu considero, apesar de tudo, do melhor que temos tido. A verdade, porém, acho que é outra: como ultrapassar a facilidade que se desenvolve nas redes sociais, onde um novo método de escrever e falar se instalou a par do abandono da leitura, sem esquecer o exemplo de português primário que ouvem na televisão das bocas dos doutores políticos e jornalistas. A escola revê-se na oralidade rasca dos pomposos, de cabelos oleados, fato e gravata, lábia comprida, convencidos e sabichões que surgem nos ecrãs oferecidos todos os dias aos portugueses.  

         - A sensação que eu desenvolvo de cada vez que oiço a esquerda, é que se trata de um bando de gente que vive ainda no tempo do fascismo e Salazar os persegue sem dó nem piedade. Não conseguiram impor tudo aquilo que condenavam à direita de Marcelo Caetano, chegaram a ter percentagens elevadas como representantes do povo no Parlamento, instalaram-se, agasalharam-se nas traseiras do marxismo-leninismo, da ditadura do proletariado, e daí contemplam o Portugal que lhes escapa e personagens como André Ventura que muito lhes deve a posição em que se encontra. Porque a teoria é sempre esta: quem não é por mim, é contra mim. Os extremos são saudáveis e tocam-se em ambição e poder. Desligam-se da realidade e conluiados exercem a pressão que os lugares que ocupam na “casa do povo” não lhes confere. Marginalizam-se por convicção, acantonam-se num punhado de verdades que já não existe, e daí nasce uma esquerda para todos os gostos e ambições. Não entendem que o mundo mudou, que as ideologias do século XIX estão enterradas no desenvolvimento intelectual, moral e social do mundo moderno e, mesmo nos países onde elas encontram algum resquício, se faz pela força, proibição da imprensa livre, controlo dos cidadãos, amarrados por um bloco de ditadores sinistros, imperialistas, que tudo fazem para conservar o poder. Eu não acho que a direita seja melhor, simplesmente a esquerda não possui inteligência para perceber o seu lugar no sistema democrático – daí o refúgio nas teorias do passado. 

         - Joaquim Couto telefonou-me a felicitar pelo meu aniversário, dizendo-me que eu estou visivelmente melhor do acidente da Água das Pedras – “isso vê-se na forma como escreve”. Grande surpresa da minha parte. Atento, este amigo e leitor, demonstra não só inteligência, como sensibilidade literária. Uma leitora disse mais ou menos o mesmo. Eu é que ignorava que a minha escrita tocasse assim indelével as pessoas. Talvez por não me levar muito a sério. 

         - O facto, contudo, é que ainda não me sinto completamente curado. Ontem, em Lisboa, fartei-me de andar e quando regressei a casa, tinha o pé, coitadinho, muito inchado – apesar do tratamento com Picalm que o doutor Simões me aconselhou. 

         - Esta frase no Génese “a alma dele está pendurada da alma deste” (44-32) dita por um dos irmãos de José em conversa com o pai e não assinalada pelo tradutor. 


quinta-feira, setembro 10, 2026

Quinta, 10.

A Donald Trump tudo lhe é permitido, o dinheiro compra tudo até a imortalidade. Agora saiu-se com esta: quem votar nas intercalares para manter a maioria do seu partido, isto é, de sua excelência no poder, ele ou o Estado não se sabe, promete uma recompensa de 5 mil de dólares a cada cidadão! Pouco importa se a democracia suporta uma tal imoralidade, um tal poder, um tal descrédito, importante é que a maioria alcançada seja rectificada para seu gáudio e egocentrismo. 

         - Este governo vive como todos os outros de taxas sobre taxas, impostos sobre impostos, para que o Estado viva acima das suas possibilidades usando a riqueza que não lhe pertence. Quando digo Estado, falo dos seus funcionários – políticos, deputados, ministros e secretários, partidos, gestores de empresas estatais falidas – e toda a fauna que se alimenta dos nossos impostos. 

         - Acompanhei no carro enquanto viajava, a moção de censura proposta pelo Chega ao Ministro da Administração Interna, Luís Neves. Mais tarde vi excertos nos telejornais contra o homem que fala, mas nunca se explica e na Assembleia parecia humilde, abandonado à sua sorte, espécie de tiro ao alvo de todos os partidos salvo do PSD/AD. De súbito, sem que viesse a propósito, o ilusionista de serviço, Sr. Luís Montenegro, como se imitasse Trump, depois de ter dito que este ano não seria possível tal benesse, decretou o suplemento extraordinário para reformados e redução no IRS para os escalões de mais baixos de rendimentos. Quem brilhou e achei que tinha dom oratório, foi André Ventura. O homem a mim nunca me convenceu e não será nestas páginas onde raramente aparece que fará história. Tudo somado, aquela sessão foi medíocre, excelente para os democratas de pacotilha, mas inútil para a democracia ao deixar tudo como antes. 

 

quarta-feira, setembro 09, 2026

 Quarta, 9.

Fui ver o filme de que tanto se fala: A Odisseia de Christopher Nolan. Que dizer quando tudo já foi dito? Ainda assim, atrevo-me a lançar a minha própria visão da obra de Homero que li em 2014, na tradução de Frederico Lourenço e que é preferível à interpretação de que dela faz o realizador. Aquilo é espectáculo puro, com toda a panóplia de efeitos técnicos, som e luz, transformações humanas e guerras, muitas guerras, a Guerra de Troia no centro e o regresso de Ulisses a Ítaca, tendo por protagonista o actor Malton Damon que se desembaraça bem no papel principal. O filme não me prendeu no início, desconfiado de mais uma “americanice”, sabendo eu a pouca cultura greco-latina do povo que elegeu Trump. Porém, a dada altura, começo a recordar-me da narrativa romanesca de Homero, os nomes que me eram familiares a aparecer no ecrã, as batalhas, as personagens mitológicas, os deuses adorados por homens e mulheres há quase três mil anos, todo aquele ambiente que salta nas páginas vivas de Odisseia, na sua génese textos orais. Julgo que é Frederico Lourenço que diz que Homero foi o criador da narrativa romanesca. Com efeito, são de tal modo empolgantes as imagens, que nos esquecemos de tudo para indagar que pretende o realizador com aquela proeza. Em verdade, salvo a exploração dramática levada ao cume, Ulisses está sempre presente do princípio ao fim. Talvez o retorno a Ítaca, ao lar e a Penélope que, contrariamente a todos os que a cotejam, acreditava que o marido estava vivo; seja uma espécie de transfere para algo tão comezinho como a busca de paz, silêncio e o conforto do lar após anos de guerras, perda de amigos e combatentes que lhe eram fiéis, enfim, a inutilidade da morte por objectivos que escapam à verdadeira essência da vida. Há momentos no filme que são de antologia como, por exemplo, a cena de terror de Ciclope ou o nascimento de Telémaco (Tom Holland). Ulisses um homem febril, corajoso, vaidoso, desafia monstros, mares, crenças e paradigmas, velho e gasto, desiludido e cansado, chega a casa onde o espera Penélope farta dos jogos de sedução e poder dos muitos pretendentes. Apesar da idade avançada, dos anos de guerra, de privações de toda a ordem, Ulisses ainda tem de eliminar os seus adversários que se apropriaram da casa e da mulher. Só então no regresso se interroga, no fundo de si mesmo, da utilidade das batalhas, da violência, da privação e da morte, da aventura humana levada ao extremo. Outro Ulisses transborda de inquietação sobre a sua verdadeira natureza, utilidade de tantos mortos, destruído por fantasmas, frágil e absorto ante a sua verídica natureza – a que nos revela a nós próprios quem somos. Não resisto a transpor para aqui o primeiro canto de Odisseia

Fala-me, musa, do homem astuto que tanto vagueou, 
Depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou, 
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon, 
o Sol – e assim lhes negou o deus o dia de retorno.
Destas coisas, fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.    

segunda-feira, setembro 07, 2026

 Segunda, 7.

A verdade é que quase não se passa um dia que ela não me telefone ou vice-versa. Falo dos diálogos constantes com a Gi que surgiram depois de ela e o Nuno terem cá vindo lançar-me a mão no mês de todos os sofrimentos. Parece que nos descobrimos ou qualquer sentimento se nos impôs além da virtude familiar. Falamos de tudo, sem preconceitos nem falsas morais, ao abrigo do que julgávamos esquecido e ressuscitou dos escombros que me cobriram a vida inteira. Não fui educado no seio de nenhuma família, não conheço as normas nem os tratados que fazem prevalecer o sentimento que em nada precisa de cânones para impor a consanguinidade. Estamos numa luta que irá mudar a minha vida, mas que eu, eterno solitário, se extasia ante o descampado, o deserto, a vastidão de nada, o horizonte que me circunscreve, me rodeia e me reconforta a existência... (interrompido pela urgência de tomar o autocarro)