domingo, maio 24, 2026

 Domingo, 24.

Mais um atentado que visava Donald Trump ocorrido em frente à Casa Branca. Se ele não deixa um só dia o mundo sossegado, um ou outro habitante cheio de ódio, tentará liquidá-lo. Este parece ser o seu destino. 

         - De facto, o mundo parece estar à beira do abismo, num estado comatoso. Pela África já de si abastada de guerras, fome, migrações forçadas, pobreza extrema, chegou agora em força o Ébola. Nestes últimos dias morreram no Congo para cima de 175 pessoas e o vírus parece estar a propagar-se falando-se já em Angola e noutros países africanos. Com o Mundial de Futebol à porta, as equipas africanas vão estar sujeitas a isolamento à chegada aos EUA onde o acontecimento tem lugar. 

         - O PS aparenta estar à frente nas intenções de voto dos portugueses logo seguido do Chega. Ufa! Livramo-nos do Costa e se isto se confirma será que o iremos ter em dose dupla, sabendo que o Chega não existe enquanto partido estruturado, credível e honesto! Até porque não acredito que António Costa faça o segundo mandato como Presidente do Conselho Europeu. Para além de levar a pasta da Presidente da União Europeia, não lhe reconheço saber nem conhecimento que lhe permita continuar no posto. Salvo se, como aquilo é decidido entre eles, ele que diz ser um “político”, consiga baratinar os colegas – nisso ele é impecável.  

         - Estou sem televisão. Que beleza, que silêncio, que paz! Terei de mandar chamar um técnico, mas como me encontro tão bem assim, dia para dia deixo-me resvalar na doce ausência do barulho, da mediocridade, do fala-barato, dos tristes e abundantes comentadores, dos políticos no seu português de bairro de lata. 


sexta-feira, maio 22, 2026

 Sexta, 22.

Chegaram-me hoje os resultados dos exames efectuados no início da semana. Tal como eu previra, o meu cérebro continua aquela máquina de excelente forma e actividade. Idem para o coração e as análises são de um jovem em princípio de vida activa. O acidente que tive na Fnac, não passou de um desafio do estômago afogado de ar, oito dias de flatulência que encontrou no desmaio seguido de vómitos a sua libertação. Decerto é isto que me vão dizer os médicos Dra. Vera Martins e Octávio Simões que me assistem. Já suspendi a Aspirina do tamanho de uma mosca, que o Dr. Simões para prevenir algum acidente, me receitou. Resolvido este problema, vou atirar-me a conhecer a razão que me leva a fechar o olho direito quando há demasiada luz e quando leio. 

         - Os nossos políticos saem da mesma matriz como se tivessem sido feitos por vazos concomitantes. É o caso do actual Presidente da Assembleia que é igual a Luís Montenegro, igualíssimo a Leitão Amaro ou Rita Júdice. Todos tiveram uma vida airada no domínio dos negócios que, como se sabe, são por sua vez a cadeia de ligações fervorosas que nunca se perdem e constantemente se ajustam, daí que aqueles senhores lutem contra o excesso de transparência que dizem existir em Portugal. Basta ver a pregação de Aguiar-Branco no 25 de Abril e compará-la com o modus vivendi do senhor. A ele custou-lhe ter de registar os apartamentos que possui, ao ponto de se ter esquecido de o fazer conforme a obrigatoriedade de quem acede a funções públicas. 

         - Assim me parece. Vai pelo mundo uma onda de abandalhamento no que toca a honestidade e missão cívica daqueles que exercem cargos politico-governativos. A coisa vem de Trump que deslassou a ética, criou a mentira em cadeia, a sobranceria, a ideia de que o poder só a ele pertence. Chegados ao poder, tudo lhes é permitido, pouco ou nada lhes é impeditivo; agrupados em partido, o país está muitos degraus abaixo e por conseguinte, subjugado aos interesses ideológicos que não têm em conta o indivíduo, mas o colectivo, isto é, o rebanho. 

         - O Verão instalou-se. As temperaturas de súbito ultrapassaram os 30 graus. Ontem, no autocarro que me levou ao Chiado para cumprimentar os rapazes da Brasileira, o ar condicionado estava ao rubro a tal ponto que senti frio. A mudança foi tão brusca, que alterou sobremaneira a parecença dos citadinos. 


quarta-feira, maio 20, 2026

Quarta, 20.

Esta manhã deu-me para rever páginas de Un journaliste juif à Paris sous l´Occupation de Jacques Biélinky. Horror, horror! Durante a ocupação nazi, não foram só os judeus que sofreram toda a sorte de malvadezes, também os negros os alemães proibiram de servir às mesas nos cafés e restaurantes. A fome entre os judeus foi terrível, as senhas de racionamento nunca chegavam para o mínimo, as filas eram intermináveis, e um dia Biélinky esteve seis horas para obter um ovo. Isto remete-me para o que se passa na Palestina e no Líbano. Às vezes dou comigo a pensar se toda aquela barbaridade não é se não a vingança de um povo. 

         - Vou até muito para trás, em 1096, porque vejo hoje a continuação do que aconteceu no tempo de Godofredo de Bulhão, a primeira Cruzada, as multidões anárquicas das “cruzadas populares” que atacaram judeus e vários milhares foram massacrados ou convertidos à força. É um facto e basta ler o Antigo Testamento, para verificarmos que os judeus viveram sempre sob guerras, mortes, numa luta constante que me é estranha se tivermos em conta que temos o mesmo Deus e o mesmo Livro Sagrado como conduta e fraternidade. As fontes hebraicas designam a Cruzada que prosperou no século XII por “Gizérot de 4856”, e as crónicas apontam por “desvairados” os “marcados pela cruz” ou “incircuncisos”. Quando estive na Praga dos Habsburgos, pude constatar com os meus olhos, o que persiste de um passado de luta entre católicos e judeus. A estes devemos muito, assim como aos árabes cujas culturas persistem na ostentação do que somos como europeus e como ocidentais. Daí que, se me indigno com os 75 mil mortos palestinianos, também me insurjo contra os incêndios em sinagogas como recentemente no Reino Unido e em França. Há um episódio que é narrado por Jean-Claude Guillebaud e vale a pena transcrevê-lo porque faz de certo modo a ligação com o que vem acontecendo na nossa Europa civilizada. “Em Rabisbona, em 28 de Junho de 1096, quarto dia do Tamuz, no calendário hebraico, os bandos bárbaros e suábios do padre alemão Gottschalk, identificados pela cruz, perseguiram os judeus da cidade, mataram os que ofereciam resistência e atiraram os outros ao Danúbio à força.” Estamos um pouco nas mesmas circunstâncias e medra o ódio aos judeus e o anti-semitismo não pára de crescer. Há nove séculos, estas manifestações que deram origem à formação dos célebres “pogroms” conduzidos por monges e místicos cavaleiros salteadores que marcaram o despertar do anti judaísmo que perdura até aos nossos dias. Da rivalidade religiosa, chegou-se aos extremos de ódio e liquidação de um povo que não se revê estou certo, nuns quantos radicais que ostentam a mecha acendida no início da cristandade.  

         - Ontem fui surpreendido por um telefonema de um dos empregados da Brasileira a que se associaram outros colegas. Souberam pelo António o que me havia acontecido e, como lá não vou há mais de um mês, inquietaram-se com o que lhes contou o António Carmo. Tanta generosidade desfaz em mim a barreira que impede o impulso generoso do outro. Solitário por prazer e realização pessoal, tenho nestes gestos a surpresa que me enche da presença que me falta. 

 

terça-feira, maio 19, 2026

 Terça, 19.

Ontem não eram oito da manhã e já eu atravessava Lisboa ao encontro da clínica onde passei para cima de duas horas a fazer análises a isto e àquilo, tac, electrocardiograma e mais não sei o quê. Como tinha de estar em jejum, assim que me vi livre daquela trapalhada, voei para o outro lado da Avenida da Liberdade para abancar na pastelaria Maison Luce - L´esprit du Pain, onde nos anos Setenta encontrava sempre Bernardo Santareno. O escritor levantava os olhos do papel, olhava-me do fundo da libido em sururu, num desassossego ante a beleza que lhe escapava. Hoje, o lugar aburguesou-se, afrancesou-se, tornou-se num sítio de passagem, com boa doçaria (os croissants são deliciosos, comi dois e comprei outros tantos), mas onde o espírito do escritor levantou amarras. Nem uma lápide existe naquela triste melancolia de quem entra e sai na indiferença ou desconhecimento de um tempo histórico que ali reinou e foi lugar de grandes discussões do reviralho. 

         - Aquele funcionário da Fnac com quem estive à conversa uns instantes, tendo eu encomendado um inédito de Stefan Zweig, e depois, não sei a que propósito, falámos de autores portugueses, retorquiu: “Não leio nenhum autor português de hoje.” Ele, que me pareceu ser um livreiro doutros tempos, terá as suas razões. Eu seguindo-lhe os passos posso contar pelos dedos de uma mão os que me interessam. De resto, os leitores mais atentos, sabem bem de quem falo e quem leio. 

         - Fui à piscina. Nadei meia hora sem qualquer prazer, impelido (se falasse o péssimo português de hoje diria impactado) apenas pela necessidade de fazer exercício. 

         - Montenegro que disputou em 2024 e 2025 eleições sempre com promessas de garantia de médico e família para mais de 1,6 milhões de portugueses, foi forçado a reconhecer que isso não é possível e remete para 2027 esse objectivo, decerto com os olhos postos em nova recandidatura.  Quis o poder a todo o custo e agora veio a reconhecer que essa mentira, justamente por ser propaganda, não podia ser alcançada. Que dizer? É um político português, com certeza. 


domingo, maio 17, 2026

Domingo, 17.

Vou ser breve e elucido os meus leitores que as palavras que se seguem não são minhas, mas da lúcida e sempre livre e actualizada Teresa de Sousa. “Xi é um ditador que ambiciona figurar ao lado de Mao. Os mais elementares direitos são sistematicamente violados na China. A tecnologia é utilizada para controlar cada cidadão. As purgas fazem parte da vida quotidiana do Partido Comunista da China.” Foi à sombra desta ideologia que na altura era também a da URSS, que muitos dos nossos comunistas estudaram, viveram, aprenderam a ser quem o que ainda hoje são. Eles quiseram derrubar o fascismo para se instalarem no seu lugar; a todos os outros partidos e cidadãos era a democracia que queriam alojar e defender. 

 

sábado, maio 16, 2026

 Sábado, 16.

Num país onde o Presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro são proprietários de uma série de casas e apartamentos, temos o quadro que dispensa apresentações. Será? Chamo a esta página Swift: “Il n´y à qu´à voir la tête de ceux à qui Dieu a accordé de l´argent pour savoir le cas qu´il fait des richesses.” Esta afirmação encaixa perfeitamente no dono do Pingo Doce e nos políticos manhosos que se esquecem de nomear a sua fortuna vinda da especulação imobiliária. Acrescento que não há novo-rico que não vá a Fátima de vela acesa e devoção hipócrita. 

         - Está aí o senhor José Manuel, mais conhecido por espalha brasas. Que homem gentil, dedicado, trabalhador. Só é pena que comece um trabalho aqui para logo o deixar a meio e ir começar outro que acaba por não terminar. O homem anda sempre a saltar deixando pontas inacabadas por todo o lado. 

         - Fui atestar o depósito. Depois dos descontos do ACP e mais não sei o quê, despendi 78,54 euros. Longe vão os 30 euros mensais! 

         - Ando muito sensível. Comovem-me todos os gestos de amigos e desconhecidos que se aproximam para saber como estou. Por escrito ou pessoalmente, volta que não volta, sinto o toque no ombro que me consome de gratidão. Mas também há aqueles que telefonam a saber se estou bem e como se levassem a carta a Garcia, disparam: “Se precisares de alguma coisa, apita.” Apitarei quando chegar ao destino final. 

         - Pobres dos dez milhões de cubanos que Trump condenou à morte. Como é possível que ninguém trave este desmiolado armado em arcanjo do mundo. Presos na ilha, sem electricidade, combustíveis, a morrer à penúria, o povo aguarda pelo pior se as ameaças do ditador se cumprirem. Não lhes bastou a soma de ditadores que governaram a ilha, ainda têm de suportar outro louco em nome não se sabe de quê. 


sexta-feira, maio 15, 2026

 Sexta, 15.

Dizem as estatísticas que aumentou em cinco anos os filhos que agridem as mães ou pais. A APAV revela que a maioria das vítimas são mulheres com 65 ou mais anos. Os agressores 70% homens entre os 25 e 54 anos. A querida família e os queridos filhos tão trauteada pela publicidade e pela Santa Igreja são afinal esta miséria.

         - Nesta democracia tão louvada pela classe política que pouco ou nada faz para a defender, antes pelo contrário a enterra diante dos nossos olhos baixos e conformados, somos confrontados cada vez mais com o fosso entre ricos e pobres, entre empregadores e servos. A Jornal de Notícias, na edição de hoje, mostra-nos o estado abismal da riqueza dos presidentes das maiores empresas portuguesas e dos seus escravos trabalhadores. Aqueles ganham em média 53 vezes mais e as remunerações de líderes executivos chegaram a 23,4 milhões de euros o ano passado. Para não falar dos benefícios de toda a ordem. Aquele espécime, feio como os trovões, que dá pelo nome de Pedro Soares dos Santos, dono da Jerónimo Martins que possui o supermercado Pingo Doce, tem uma remuneração total a rondar os 5,25 milhões de euros! Eu já aqui desaconselhei aos meus leitores entrarem numa tal catedral de escravidão, e foi mais de uma vez que lhes enderecei e-mail acusando-os de escravizar os seus empregados. Uma funcionária de aqui, com um balcão que abarca comes e bebes, cafés, padaria, faz maratonas ao longo do balcão, atura os clientes impacientes, por um ordenado pouco mais que o salário mínimo. A nossa querida EDP, que nós mantemos com língua de fora, a excelência que a dirige, usufrui uma bagatela de 2 milhões de euros/ano. A estes ordenados à americana, acrescem carros privados com motoristas, custas para isto e aquilo, subsídios para a luz, combustíveis, e, bem entendido, reformas doiradas de pasmar o pobre português. E lembrar-me eu que há reformados que não chegam a ter 400 euros por mês! É esta a democracia que nos coube na rifa do 25 de Abril do ano 1975. 

         - Falemos agora do engenheiro com diploma tirado ao domingo. A criatura quer cobrar ao Estado português a módica quantia de 205 mil euros por demora do Ministério Público (quatro anos) a deduzir a acusação. De facto, eu também considero excessiva, mas isso por culpa do queixoso que, para escapar à sentença, foi trabalhando recursos de modo a sair ilibado por esgotamento de prazos processais. Esta é a Justiça que temos, ronceira, cheia de teias de aranha, pontos e virgulas que fazem a delícia dos nossos advogados e lhes dão ganhos milionários. 

         - É este o país que temos. Maravilhoso como se vê, onde é rei e senhor quem mais escraviza, explora, rouba, corrompe, falsifica, foge aos impostos, compra defesas, exibe-se de peito feito, contorna os tribunais e aparece como o maior inocente que Deus pôs no mundo. Temos fabulosos advogados que conseguem transformar o maior trafulha numa peça angélica de filigrana imaculada. Bastava os juízes pedirem à SIC uma cópia do documentário da estadia de José Sócrates em Paris, onde o ilustre ex-primeiro-ministro e filósofo de Portugal residiu para estudar francês e aprender a tocar piano, voltando tão culto que nos desconcertou ao chegar: "Fui muito feliz nestes dois anos, entregue ao que os filósofos chamam de vida contemplativa por oposição à vida activa." O homem tem lata para tudo.