sexta-feira, maio 08, 2026

 Sexta, 8 de Maio. 

Como recomeçar? Aos desportistas aconselha-se paciência e persistência, confiança nas suas capacidades, heroicidade e olhar apontado ao futuro. Aos artistas que se recolham, povoem horizontes rasgados, mergulhem nos abismos e voltem à tona banhados da santificação que se concentra no mistério e no rosário de palavras salmodiadas nas horas de desespero e solidão. Como sempre frágeis, um sopro de vento os derruba, um pensamento os levanta, um pôr de sol os ilumina. E assim nos reencontramos comovido pelas palavras dos amigos e leitores anónimos durante esta ausência longa como um caminho crivado de espinhos.   


quarta-feira, abril 29, 2026

 Quarta, 29.

A semana passada, tendo sido surpreendido pelo desastre súbito de saúde do qual ainda não estou recuperado, tinha agendados três ou quatro almoços que não pude cumprir. Acontece que ontem, sob a minha constante curiosidade, andei a investigar no computador pedaços de utilização que não tinha pesquisado. Conclusão: foi-se toda a organização no tratamento de texto que estava estabilizada e constituía ferramenta de trabalho diário. Daí ter de me enfiar no autocarro e ir ao Vasco da Gama encontrar quem pudesse devolver-me a formatação e os documentos que tinham tomado outra paginação. Encontrei a solução na Fnac. Primeiro através de um rapazito que de tratamento de texto e do Offic não entendia peva; depois com o seu chefe que fazia toda a diferença na competência e saber, almejei um sorriso de reconhecimento que quis pagar e ele não aceitou. Ainda há disto, haja Deus!  

          - Bref. Quando atravessava o segundo piso do centro comercial, dou de caras com o Zé, nortenho de gema, que não via há muito tempo. Logo ali nos convidámos para almoçar. Durante o repasto, de resto muito divertido sendo ele betacismo, telefona a Alice. Hesito em atender devido à algazarra que nos cerca. Faço-o, todavia, para remeter a conversa para mais tarde. O facto é que me sentia tão bem, não só por rever o amigo de outras paragens, como por saborear o regresso à escrita para mim tão necessária como pão para a boca. Até porque, enquanto escrevo, desaparecem as dores lombares e o mundo reconstitui-se ao largo de todas as bênçãos celestiais. 

         - O Relatório da Garantia para a infância, registou que mais de 3036 crianças ou jovens foram identificados como sem-abrigo, em 2024. Dormem em tendas, barracas, casas degradadas em condições “insalubres”. Que têm a dizer os sucessivos Governos, que medidas foram tomadas? Nada ou quase nada. Patuá não falta – é dele que se mantêm os políticos com ambição ao poder. Este país desigual, pobre, atrasado não faz parte da propaganda ou a gente que nos governa vive em palácios encantados.  

         - Montenegro vive de fantasias. Com aquele sorrisinho de desdém, montou o palco no Pavilhão de Portugal, Parque das Nações, com encenação privilegiada para as televisões e apresentação de mais uma catrefa de intenções a que chama (PTRR) Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (resiliência, senhor primeiro-ministro?! ai esse português), no montante que o fez abrir o sorriso, de 22,5 mil milhões de euros. Estive a ler atentamente o teor da proposta e a primeira coisa que me saltou à ideia, é que ela não difere de tantas outras promessas e planos, apresentados com pompa e circunstância, mas que nunca passaram do papel e simpáticas intensões. Contudo, há nele decisões futuras que me parecem interessantes e urgentes. Por exemplo, o reforço das redes de energia, água e floresta ou os fundos para catástrofes naturais ou a assistência a idosos e pessoas vulneráveis ou a reforma da emergência médica de que sofri recentemente as consequências. Tudo é muito bonito e saudável, só que um plano de trabalho desta envergadura, devia ter sido alicerçado com a oposição civilizada, que abrange uma larga faixa da população – essa que representa na verdade a vontade do povo. Tenho tendência a dar razão à oposição quando afirma que “aquilo” não passa de uma cópia já apresentada. 

         - À margem deste plano, veio à liça uma imposição régia que pretende obrigar os proprietários de casa própria, a um seguro de catástrofes ou coisa que o valha. Como assim? Só os déspotas se colocam do lado dos prepotentes, fazendo coro com ordens e decretos, na clara intenção de desfavorecer uns e favorecer outros, no caso as companhias de seguros. Eu sei de que falo. A casa de Lisboa estava segurada numa das maiores seguradoras assim como esta. A da capital foi assaltada duas vezes, a companhia veio espreitar e declarou que já não me queria como segurado. Nessa altura desisti de seguros e assumi as possíveis desgraças. Ao contrário da obrigatoriedade do seguro automóvel justa porque prejudica terceiros, a que pretende o primeiro-ministro impor, é descabida e claramente estudada para alimentar e multiplicar as seguradoras. Os inúmeros hospitais privados que se ergueram nos últimos dez anos, são um no paralelo para a saúde.


segunda-feira, abril 27, 2026

 Segunda, 27.

Pequenos pormenores sem importância nenhuma: ainda não consigo ter opinião formada sobre Seguro Presidente, Luís Carneiro e acreditar no cómico Ricardo Araújo Pereira (é a primeira vez que cito o seu nome) quando afirma “Eu não ´uso´ o humor, o humor não é uma esfregona, não é uma coisa que se ´usa´.” Não acredito de todo. Brrrrrr!

       - Não sei se o povo eterniza no seu coração Mário Soares, mas Vhils com a escultura que a Câmara da Amadora lhe encomendou do político, decerto que o conseguirá, porque tem consigo a força e a magia do grande artista que é. 

         - Há cada vez mais pobres em Portugal. Quem o diz, com a autoridade que lhe confere a sua entrega ao outro, é Isabel Jonet Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome. Este escândalo, esta realidade que eu aqui não deixo de vociferar, não passa por ideologias hipócritas dos políticos. 50 anos depois do “25 de Abri sempre”, não conseguiram reduzir este nojento espelho, pelo simples motivo – quem tem fome não possui forças para protestar. A imagem de tristeza, abandono, degradação de todo o tecido social, está estampada no Serviço Nacional de Saúde. Com pobreza, cresce o desejo incomensurável da desistência, do silêncio, da morte. 

         - A velhice é purificação e plenitude. 


domingo, abril 26, 2026

 Domingo, 26.

Retomemos o ritmo dos dias, esqueçamos o passado e forcemos o presente a ir mais além para lá do futuro. Esta imagem que atravessou o mundo a semana passada, parece tirada do ano 33 quando Jesus Cristo foi crucificado pelos judeus, sob pressão do Sinédrio, e Pôncio Pilatos lavou as mãos de tamanho crime, em Abril, seis meses após a morte de Sejano (que o havia nomeado prefeito da Judeia e governou entre 25 e 36) às ordens de Tibério. Na origem da crucificação (prática que imperou na época dos romanos, eles crucificavam às centenas de uma só vez), muitos especialistas acreditam que está o ódio dos judeus, que começou quando Jesus expulsou à chicotada (versão do Apóstolo S. João) do Templo, os cambistas. Seja como for, arrepia, transtorna-nos, obriga-nos a juntar as meadas dois mil e alguns anos depois da morte do Redentor. Basta olhar para as imagens pungentes de palestinianos mortos, de libaneses, de milhares de crianças ceifadas pela ira dos mesmos judeus que sacrificaram até à morte Jesus de Nazaré. O que ainda impera nos corações dos israelitas que pela força e ganância tudo arrebanham, desprezam o ser humano, semeiam a destruição e aliam-se a governantes tiranos, é esse rancor, essa incapacidade de aceitar o Filho de Deus feito homem, e como qualquer um de nós viveu o sofrimento, a incerteza, o temor da morte, a esperança na ressurreição. 

  
  Militar israelita a destruir a imagem de Jesus Cristo
com um martelo, numa aldeia cristã no sul do Líbano.
 

         - O Público de ontem, trazia uma notícia que não me surpreendeu: a proclamada entidade para a Transparência apenas fiscalizou 10% das declarações dos políticos. Aquele órgão, na dependência do Tribunal Constitucional, apenas verificou 883 das 8620 declarações recebidas em 2024 e 2025. Por mim, gritarei: 25 de Abril sempre! 

         - Nova tentativa de ataque a Donald Trump. Esta foi no jantar dos correspondentes da Casa Branca que decorreu no Washington Hilton. Foi o caos, gritos e debandada quando um homem que dizem ser professor, de trinta e um anos, desatou a disparar para a mesa presidencial. Os seguranças retiraram o Presidente e na sala vêem-se vários líderes do Partido Republicano em debandada sob o guarda-sol dos seguranças.  


sábado, abril 25, 2026

 Sábado, 25.

Aqui fica o meu protesto neste dia significativo para a democracia. Do que ouvi e vi, foi igual ao que aconteceu há dez, vinte, trinta, quarenta anos – uma ladainha de palavras vãs, de intenções, de vazio. 

História de Um Acidente de Saúde

Dia 21 p.p. fui acometido de um súbito mau-estar quando trabalhava no Chiado. Fechei o compuatador e disse a um senhor sentado perto de mim, que me sentia mal. Segundos depois fazia um desmaio seguido de vómitos que só vim a confrontar quando voltei a mim. Logo a equipa da livraria Fanc me rodeou e chamou o INEM que chegou cerca de 30 minutos depois. Amáveis, seguros, impecáveis mediram-me a tensão (6-5) e tudo fizeram para me acalmar e erguer do chão onde estive até à sua chegada. Num instante, chegámos ao hospital de S. José. Aqui tudo se complicou. Desde logo as exiguas salas onde me deixaram em maca, imagem de país pobre, salazarento, onde a dignidade humana não existe como vou provar. 

O médico jovem que me recebeu, ordenou a um rapaz africano de tranças Nagô que fosse comigo ao wc mudar de roupa porque a que trazia estava, de facto, imprópria. Daí a minutos abalou dizendo « volto já » - nunca mais regressou. Ali estive à sua espera um bom tempo, enquanto senhoras abriam e fechavam a porta, aflitas, por não o poderem utilizar. Foi quando optei por ir saber do meu destino num hospital que parecia saído da II Guerra Mundial : muita gente em espaços minúsculos, funcionários ronceiros (felizmente nem todos), sem capacidade para responder aos muitos utentes, macas encostadas às paredes de corredores onde o movimento era constante, poucas cadeiras para a avalanche de gente, doentes impacientes, alguns disseram-me ali aguardar há 12 horas, outros há oito, nove e um rapaz que me pareceu indiano, há tantas horas que optou por dormir na sala de espera coberto com um lençol, quatro cadeiras unidas por colchão para não falar na imundice dos sanitários. Asseguro-vos que não vi um ministro, um deputado, um autarca.

De senha na mão (nº 253, tarja amarela) fui pedir explicações a uma funcionária, tinham passado já três horas. Esta diz-me que tivesse paciência, voltasse para a sala e aguardasse ser chamado pelo médico. Fui. Fechei os olhos, desviei o pensamento de forma a afastar-me deste país, desta miséria moral, deste murmúrio de reivindicações e promessas, desta tristeza e pobreza de SNS, que tem servido para tudo, menos para os cidadãos que o pagam com língua de fora. E pensei num dos seus fundadores, António Arnaut, nas muitas cambalhotas que ele tem dado no caixão por cada doente abandonado, humilhado, silenciado, desprezado, maltratado. 

Pelas oito e tal da noite, levantei-me de novo e fui ao guiché pedir explicações para tamanha espera. Atrás do vidro, diante do computador, estava uma senhora muito produzida, de longos cabelos pretos de azeviche, que me respondeu : « Olhe, estou agora aqui a ver que o médico está a mexer na sua ficha, vá para a sala não tarda chamam-o. » Monstruosa mentira. Para lá retornei, e de lá saí exague, mais tarde, perdido, desiludido, humilhado, abandonado, triste pela inutilidade da democracia de um país que muito pouco tem feito pela nossa saúde – pilar fundamental da condição humana.  


Helder de Sousa

#atonadovento


c.c. Ministério da Saúde e

Procurador de Justiça. 


quinta-feira, abril 23, 2026

 Quinta, 23.

Estou vivo. Anteontem, julguei que tinha chegado a minha hora. Quando me sentei no pequeno café da Fnac, ao Chiado, pedi uma sande com fiambre e queijo e abanquei para duas horas de escrita. Enquanto comia o “almoço”, comecei a ter dificuldade em acabar, mas, obedecendo à Ordem franciscana, disse para mim mesmo que o bota-fora é pecado e fui até ao fim. Enquanto mastigava, ia teclando apondo palavra a palavra na página do computador. A dada altura, começo a sentir-me mal, o que chegava do cérebro à máquina não correspondia, a cabeça num delírio. Fecho o computador e toco no ombro de um senhor que estava perto: “Estou a sentir-me muito mal” – disse. O que se seguiu, não sei. Quando volto a mim, tenho uma roda de pessoas à minha volta, estou todo sujo do vómito que fiz quando desmaiei, com tonturas. Os seguranças do estabelecimento deitam-me no chão, de lado, e ali fico imobilizado à espera que o INEM chegue. Nada me parecia real, uma espécie de fantasia tinha tomado conta daquela gente, cada um com o seu prognóstico, um com um comprimido que me pôs debaixo da língua e foi objecto de critica pelos técnicos de saúde, no todo pessoas extremosas que tomaram conta de mim. Meia hora depois, chegou um casal de jovens que prontamente me assistiu, amáveis, amparando-me até à maca à entrada do edifício, eu que estava moribundo com 6-5 de tensão! Dentro da viatura, digo que não quero ir deitado, mas o jovem que me acompanhava “obrigou-me” a viajar naquela posição. Pela cidade fomos e em breve o abençoei, pois percorremo-la aos saltos até ao hospital de S. José. “As ruas de Lisboa, são buracos atrás de buracos.” Ali chegados, encostaram a maca a uma outra onde jazia um velhote que parecia abandonado à morte e ali ficámos os dois a magicar qual de nós tomava a dianteira para o fim. Ele saiu daí a pouco daquela divisão sórdida, exígua, pobre onde ficavam os que iam arribando. Quinze minutos depois, coube-me a mim a vez de ingressar numa outra sala, tão minúscula que só cabiam duas macas e estava um senhor (médico?) sentado numa cadeira baixa, um rapaz negro de longas tranças Nagô e um clínico em frente ao computador – não havia espaço para mais nada. O médico, vendo-me todo molhado e sujo do vomitado, disse ao rapaz que me acompanhasse ao wc para substituir a roupa por aquela azul usada nos hospitais. O rapaz, de porta fechada no wc, disse-me para me despir, respondi que só tirava a camisa, as calças seguiriam comigo mesmo sujas. Ele espantou-se e saiu com a informação “volto já”. Não voltou. Ali esperei uns vinte minutos, a porta a abrir-se de quando em vez por mulheres aflitas para os pipis urgentes. Voltei ao centro de todas as desgraças e murmúrios, isto é, à entrada dita das Urgências. Aí perguntei a um funcionário o que devia fazer, a senha de entrada na mão e o desespero a instalar-se. Ele, espreitando o computador, disse-me que aguardasse na sala de espera que seria chamado pelo meu nome. O espaço estava a abarrotar, mas um cavalheiro dos que quase já não há, levantou-se para me dar o lugar e eu ali fiquei a somar o tempo para a redenção dos meus pecados. Tinha entrado de maca às 14 horas, eram agora 15 horas e ali me encontrava a matutar no completo desastre que é o SNS. Havia de tudo: gente impaciente, velhos relhos, rapazes violentos, algazarra, idas e vindas às Informações, às máquinas de comes e bebes, suspiros impacientes, alguns estrangeiros, poucos negros, a maioria portugueses de gema que sabem na pele o que custa estar doente em Portugal. Naquelas divisões pequeníssimas, aglomeravam-se centenas de pessoas, cada qual com sua dor, seu tratamento, seu diagnóstico. Não vi um ministro, um deputado, um autarca. Pelas oito da noite, decidi, a senha na mão, perguntar nas Informações se estava perdido, se ainda existia nos ficheiros, que era feito de mim seis horas depois de ter entrado de maca. Uma mulher toda produzida, de longos cabelos negros de azeviche, consultou o computador e disparou: “Olhe, volte para a sala de espera porque o médico está neste momento a ver a sua ficha.” Aquela mentira decerto já pronta saída do caos, fez-me esperar até perto das nove da noite. Foi então que, caindo em mim, memorizei que estava em Portugal, que o SNS se tinha transformado num fosso de sofrimento, mentira, morte, fisga dos diferentes partidos, todos interessados em conluios, interesses ideológicos, financeiros, políticos, um biju de ouro que serve quantos almejam o poder e aí canonizam os seus egos do tamanho da sua ignorância, incompetência e farfalhice de toda a espécie. Quando fugi do hospital, encontrei a noite cerrada, as ruas desertas, e, pela primeira vez, desejei ter um quarto na cidade para descansar. Estava exausto, não tinha comido nem bebido nada depois do desastre. O motorista do táxi que me transportou à Gare do Oriente, insistiu comigo para que comesse qualquer coisa. Mas eu só me queria ver dentro do autocarro de regresso a casa. Com a protecção da divina Providência, um transporte aguardava-me. Entrei nele e atirei-me para o banco, esgotado. Viagem deslumbrante, o Tejo onde as luzes da cidade reflectiam, as sombras nas margens, o trabalhar do motor, o deslizar no asfalto, toda aquela imensidão de espaço aberto ante os meus olhos fascinados, o céu de estrelas cintilantes, o meu coração desfraldado numa furtiva lágrima de reconhecimento, apertado pelas emoções que tanto me dão vida, como me amortalham aos poucos, a existência jogada para trás das costas, a tristeza do mundo que me coube viver nesta fase, o meu país desfeito depois de tantas e tão profundas esperanças postas na democracia, hoje metamorfoseada num trambolho de interesse nenhum... E lembrar-me eu que a lei prevê para o meu caso (fita amarela) 60 minutos para exames. Esperei, ao todo, 8 horas largamente a passar!!!


segunda-feira, abril 20, 2026

 

Segunda, 20.
Pedro Sánchez vai pedir formalmente à UE que anule o acordo de associação com Israel. À Espanha junta-se a Eslovénia e Irlanda. Há muito que este acordo onde assentam as relações comerciais e financeiras com Israel, devia ter sido rasgado. Isto se a nossa querida União Europeia que tanto apregoa a moral em simultâneo com as ajudas a Netanyahu, tivesse vergonha e dignidade.  

         - O Papa está em Angola sempre acompanhado por um bando de multidão que o segue para todo o lado. Angola está no périplo por África – Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial – focado na paz e na concórdia entre os povos. O diálogo inter-religioso, não o furta a entradas de natureza política onde a exploração e a corrupção irrompem dos discursos e sermões. Leão XIV segue os passos de Francisco. 

         - Não há semana nenhuma que em qualquer parte do mundo não haja mortandade. Os motivos a maior parte das vezes não chegam a ser conhecidos porque o criminoso acaba morto pela polícia. Em França houve vários em escolas, nos EUA é quase normal haver ataques em centros comerciais e estabelecimentos de ensino, como ontem em Luisiana onde morreram oito crianças e o transgressor foi abatido pela polícia. Portugal também não escapa e ainda recentemente um rapaz matou a mãe sem qualquer ressentimento. Ou aqueloutros atentados a uma série de cientistas na América, entre os quais um português, que apareceram mortos sem razão aparente. Ou em Kiev há quatro dias, quando um homem sem cadastro abateu na rua seis pessoas. Este desvario, estou em querer, advém da situação mundial, directamente dos governantes sem humanidade, drogados pela riqueza, entronados pelo poder, ajeitando os ódios de estimação aos seus estados de alma onde não existe o mínimo de decência e compreensão do cargo que ocupam, humanidade e sagração da vida humana. 

         - Fortes dores nas costas. Resisto até onde posso aos medicamentos e o resultado foi uma noite infernal. Esta manhã, contrariado, tomei um Bem-u-Rom. Eu não devia queixar-me, pois levei toda a vida sem uma dor, a dormir como um gato feliz, sem o mínimo empecilho à vida plena. E ainda por cima, coxinho, coitadinho, a caminhar na originalidade que me conferia uma certa nobreza e o olhar compassivo que quase sempre escondia o desejo do envolvimento em fantasias secretas que aproveitei à exaustão... Portanto, caro de Sousa, não te queixes. 


domingo, abril 19, 2026

 Domingo, 19.

Que desordem reina no mundo! Desde que Trump chegou à Casa Branca que nunca mais houve descanso num vasto leque de nações, guerras instalaram-se, países foram invadidos, ninguém tem poder para o afastar. Governa pela força, sem inteligência, tacto, sabedoria, à merce das mentiras que brotam da sua boca ante a estupefacção dos jornalistas e do mundo inteiro. Há dias, anunciou que o Estreito de Ormuz ia reabrir sob o seu comando, ontem este voltou a fechar sob a autoridade do Irão que sempre negou o acordo por ele apregoado. De Washington ordenou ao feiticeiro Netanyahu que parasse imediatamente de bombardear o Líbano. Nos acordos que ninguém conhece, essa exigência estava impressa preto no branco. Estamos nisto. O mundo do capital e dos negócios cospe-lhe em cima, as segundas-feiras são um vómito ante a subida dos combustíveis.       

         - Nós por cá estamos serenos, democráticos, prosseguindo com os nossos ódios de estimação. O novo PS parece ignorar que quem nos (des)governou foi uma figura de estimação que anda perdida pelos salões de Bruxelas e por coincidência foi chefe do Governo, ainda por cima da segunda vez com maioria absoluta. Nem ele, nem o actual dirigente do partido, nem os outros dirigentes de outros partidos, todos com a boca cheia do 25 de Abril que aí vem, todos sem excepção, conseguiram trazer “ao nosso Povo” uma vida respeitável e uma saúde minimamente credível. Quando eu vejo as filas de gente simples, trabalhadora, honesta para um médico nos centros de saúde logo às quatro e meia da madrugada como tem acontecido no Cacém, não acredito num país governado por faladores, propagandistas, falsos democratas. Nunca se viu naquelas filas nenhum deputado, ministro ou autarca – eles aprendem cedo a coçar-se para dentro. 

          - “Este é o verdadeiro conto exemplar. Jesus Cristo é o clandestino da vida humana. Não damos por Ele, mas Ele anda sempre connosco.” Fr. Bento Domingues. 

         - A taralhoquice da idade surge quando menos se espera. Esta manhã, entrou pelo meu cérebro ao preparar o pequeno-almoço. Pus na cafeteira o saco de papel, despejei a água que devia descer, mas de café nem aroma. Notei então que havia feito tudo direito, menos o essencial - pôr o café moído no filtro respectivo. 


sexta-feira, abril 17, 2026

 Sexta, 17.

Mais uma vez a CGTP desarranjou a vida a milhares de portugueses, eles que se permitem fazê-lo com apenas um por cento de sindicalizados. Ainda por cima, naquela delícia de ter escolhido a sexta-feira com o grande fim de semana agarrado. Estão contra as alterações à lei laboral, como sempre estão contra tudo o que não nasça da inteligência do PCP e do amor ao “nosso povo”. Espero que a nova lei reveja o direito à greve que é de todos os direitos aquele que se transformou num abuso e na falta de respeito pelos milhares de trabalhadores que querem trabalhar. É muito fácil tudo exigir, quando se sabe que nunca serão eleitos para governar o país. 

         - A pouco e pouco, a democracia vai cedendo. Enquanto por todo o lado os financiamentos aos partidos são públicos e acessíveis a qualquer pessoa, entre nós há quem queira transformá-los em segredo de Estado. E desta vez, ao que parece, não é o senhor Ventura.

         - Eu já estou a fazer a minha parte. Aliás há muitos anos. Ando nos transportes públicos e desde que a taralhoquice de Trump começou, que tento não utilizar o carro dois dias por semana. O presidente da Agência Internacional de Energia, avisou que as reservas de jet fuel só dão para seis semanas. Muitos voos vão ser anulados e a actividade industrial severamente atingida. Tudo isto, devido ao desastre da trupe de Trump que, qual rei absoluto do mundo, se permite ocupar o Estreito de Ormuz com 10 mil tropas, não sei quantos aviões, torpedeiros, etc. Bem sei que o Irão e os seus dirigentes não são gente que se cheire, que o diga o casal Céline e Jacques recentemente libertado do horror das cadeias de Teerão, mas, se Trump fosse honesto, teria de avançar pela Rússia, China ou Coreia do Norte, como herói libertador do povo espezinhado. Para além de que para mim, como decerto para muita outra gente, não vejo que a bomba nuclear americana e daqueles países, seja menos destruidora do que aquela que os iranianos andavam a construir e têm o mesmo direito em possuir.   

         - Mudei de quarto. Desde a chegada do novo colchão que passei a dormir no meu quarto. Durmo é certo, mas com os sentidos no outro em frente. Fechei-me lá uns dois meses, mas foi como se reinventasse o sono, as sensações, os ruídos, os silêncios. Amputado desse mundo, não me encontro neste outro que desde a origem da casa foi o meu. Daí que esta noite não conseguindo adormecer com o pensamento no outro, levantei-me e mudei-me. A cama reconheceu-me, o quarto recebeu-me, os sons do silêncio que vinham de fora chegaram aos meus ouvidos como melodia vinda dos fundos da infância, e o sono desceu das alturas afagando-me docemente. 


quarta-feira, abril 15, 2026

 Quarta, 15.

Dos ignorantes governantes que servem Donald Trump, há um que se realça: J.D.Vance o seu vice-presidente. O homem que oportunamente se deslocou ao Vaticano, em 2025, para saudar o Papa Leão XIV, diz agora que sua santidade deve “ter cuidado quando fala de teologia e questões de moralidade.” Estes cretinos desbocados, a tudo se permitem. 

         - Li não sei onde que os cientistas estão capazes de reverter o sexo de qualquer pessoa. Fizeram a experiência com ratinhos mediante a inserção de uma mutação genética que incide numa região da actividade de um gene em particular, situado numa região do ADN que dá pelo nome de Enh13, que controla a funcionamento do gene Sox9. Daqui até ao desafio prepotente dos ditos machões para suspender o desejo de quem, não se sentindo bem na natureza com que nasceu, pretende mudar. Ou o ataque cerrado aos homossexuais que pela força vão ter que mudar de desejos por decreto ditatorial de uma qualquer aventesma, macho bem entendido, que decreta a masculinidade no seu reino. E lembrar-me eu que Hitler, não dispondo desta arma, pura e simplesmente, mandou assassinar todos homossexuais que pôde. Todavia, a realidade, era outra: nos quarteis – generais, capitães, altas patentes – reinava o regabofe com os mancebos, servindo-se da eugenia que tanto beneficiou Hitler no dito apuramento da raça. Seja como for, no cerne de tudo isto, está o ataque costumeiro à liberdade. 


terça-feira, abril 14, 2026

 Terça, 14.

Se o acordar se estendesse pelas manhãs e tardes, estava liquidado. Raros são os alvores dos dias que me consintam a alegria do despertar. Todas as catástrofes do mundo desaguam muito antes de abrir os olhos, uma teia de frustrações e desastres, medos e titubeias embrulham aqueles instantes que parecem uma eternidade. Levanto-me, hesitante, tateando o espaço e o tempo, à espera do que vem a seguir, perdido como me encontro à procura de me achar a mim mesmo. Quando abro as portadas e a natureza se estende com os primeiros raios de sol, os cantares da passarada, o caminho ao fundo onde não passa ninguém, mas de onde me chega o frémito de vida que me banha por inteiro e dura até ser noite, todos os fantasmas mergulham nas profundezas dos infernos e levanto a voz ao Criador num agradecimento ao dia resplandecente que tenho a graça de viver... 

         - Sim, foi estrondosa a vitória de Péter Magyar. Dos 106 círculos eleitorais na Hungria, 93 pertencem ao partido Tisza do primeiro-ministro eleito e uns modestos 13 ao Fidesz de Viktor Orbán. A União Europeia canta de contentamento porque vai poder desbloquear muitos milhões que o anterior governante travou e levou o país à miséria. Zelensky vai decerto entender-se melhor com a Hungria que deixou de andar a reboque de Putin. Mesmo assim, quanto a mim, é de realçar a atitude de Orbán ao aceitar a derrota e ao felicitar o seu sucessor. 

         - Fui à piscina não obstante a dor nas costas causada por trabalhos aqui. Nos chuveiros, vi um homem magro como uma tábua de passar a ferro, nu, de uns quarenta anos, careca embora peludo de corpo, com uma nuvem de cabelo que descia da zona occipital até meio das costas, personagem inquietante, lento de gestos, passeando pelos corredores naquele estado, e depois demorando-se horas a secar com o secador do estabelecimento, as franjas negras que lhe tocavam os rins. 

         - Assisti igualmente à chegada de uma gorda, gorda como não podia mais, aplaudida pelas companheiras que estavam na água às ordens de uma técnica ucraniana, naqueles exercícios ditos de hidroginástica, acompanhados com canções de Carlos Paião. Parei o meu exercício cheio de curiosidade de ver quantos litros de água saltavam para fora da piscina com a sua entrada triunfal. Mas a senhora desiludiu-me, com o corpo que construiu ao longo dos anos, necessitou de se apoiar no corrimão e nos braços de duas colegas. E logo me lembrou a Alice que frequenta a piscina em Caldas da rainha onde mora, quando me diz que pensa em mim ao chegar aos balneários e olha para as colegas gordas, de fartas mamas, rabos enormes, quando comento com ela o espectáculo de horror que tudo aquilo deve ser. 


segunda-feira, abril 13, 2026

 Segunda, 13.

Como se previa em tudo em que Trump se mete, desta vez o princípio de acordo com o Irão comandado pelo oportunista Vance, foi mais um falhanço. Danado, o pobre homem, logo ameaçou o Irão com envio da Marinha dos Estados Unidos para bloquear os navios que entrem ou saiam de portos iranianos. Governa apenas com a força, porque a inteligência é algo que nunca se instalou na sua mente. Viver da especulação não dá estatuto superior.  

         - A criatura dispara em todos os sentidos, com aquele vocabulário rasca que é o seu e ficou apanágio da sua equipa. Nem o Papa escapa. Para o débil Presidente, Leão XIV é “fraco em matéria de criminalidade e péssimo em política externa”. Pergunta-se a quem se refere ele, quando o retrato traçado mais parece cópia perfeita da sua tremenda ignorância e alarvidade.  

         - A Hungria, enfim, liberta da pata dos EUA e da Rússia. A vitória de Magyar parece ter rondado os 80 por cento! Esmagadora. A hegemonia dos poderosos que pensam ter o mundo nas mãos, quando confrontada com a vontade dos povos, desmorona-se. A esquerda lá do sítio, também ficou reduzida, assim como a extrema-direita. Está tudo farto desta gente salvíssima, muito estreitada cinicamente “aos mais necessitados,” “ao nosso povo”, mas, a coberto destes, esconde-se o totalitarismo e as algemas. Já Gide quando após a Grande Guerra foi convidado para visitar a URSS, na volta declarou “aquilo é idêntico à extrema-direita”. Se a Federação Russa ou a China fizessem eleições agora, seriam amortalhados nos destroços dos seus despotismos. 

         - De igual modo em Israel onde a lei do mais forte impera. Benjamim Netanyahu, preferiu reduzir a escombros toda a Faixa de Gaza e, não satisfeito com o monstruoso crime praticado, atirou-se agora ao Líbano onde já morreram mais de 2.000 pessoas e milhares ficaram feridas devido ao bombardeamento contínuo e à usurpação do território, tudo para escapar ao julgamento por corrupção e outros crimes. Se a isto se chama democracia, falo dos Estados Unidos, China, Rússia, Israel, de nada serviu o exemplo de Hitler ao usar a democracia para instalar a pior ditadura na Europa.    

         - Por cá é o vergonhoso avanço através da lixeira a céu aberto que é as redes sociais, onde jovens alienados impõem a supremacia masculina sobre raparigas indefesas. Segundo os dados recentemente conhecidos, um quinto dos arguidos por violação tem menos de 20 anos de idade. A Internet, desafia pelas imagens, diálogos, pornografia a violência contra as mulheres e as loucuras sexuais.

         - Aqui continua um frio glacial. Vou ter que acender de novo a lareira enquanto o Sr. José Manuel ocupou parte da manhã a cerrar madeira e a queimar os sobras da tempestade do mês passado. A quinta está a adquirir o seu estatuto principesco. O espalha brasas caiu-me do céu e transformou este espaço numa planície de encanto. Gosto imenso dele.  


domingo, abril 12, 2026

Domingo, 12.

Ia-me a esquecer de informar que o ditador Kim Jong-un, foi reeleito para o mais rentável cargo político da Coreia do Norte. Eles chamam àquilo República Popular Democrática! Este “democrata” junto com os camaradas da Rússia, China, Israel, Irão, etc. tem um alto sentido de humor ou tomam-nos por idiotas?  

         - As eleições que hoje têm lugar na Hungria, são fundamentais para o destino do país como da União Europeia. O sinistro J. D. Vance, capitão de brega, esteve lá a apoiar o amigalhaço de Putin. Tanto ele como o patrão Trump, estão em campanha para destruir a União Europeia. Os ditadores, de direita ou esquerda, entendem-se às mil maravilhas. Tomando o povo húngaro por lorpa, num comício, em Budapeste, apelou ao voto em Orbán contra Péter Magyar. Mas disse ainda que a sua visita era um sinal de apoio “especialmente aos burocratas de Bruxelas” que acusou de serem “um dos piores exemplos de interferência eleitoral” – ele que veio dos confins do globo intrometer-se nas eleições presentes! A esta tropa fandanga que nos governa, lata não falta e bom senso muito menos. 

         - A polémica miserável que por aí vai, a propósito do nome e da obra de José Saramago, discutida como plataforma de aprendizagem do português nas escolas. Uns são contra porque o homem distribuía sabedoria de esquerda; outros porque a sua forma de escrever o português é demasiado complexa para os conhecimentos (e cabecinhas) dos alunos. Então, a dada altura, alguém aventou (dentro dos esquemas mesquinhos e pequeninos dos que ensinam e governam) que não estava em causa a ideologia do romancista, tanto assim que para o substituir vinha outro, Mário Cláudio, alinhado politicamente com o nosso Nobel. A pergunta que faço é esta: “Vocês os que possuem teorias literárias, leram porventura algum livro do autor que propõem?” É que se Saramago vos é inacessível, Cláudio eu vou ali e já venho...   

         - Soubemos no final da semana, que a Santa Casa teve lucros no montante de 43,6 milhões de euros! O que se pergunta é quem ficou sem assistência, quem morreu de fome durante o ano passado, quem vive na rua ou em condições inumanas.  

          - Estou de lareira acesa. O vento aqui anda e ciranda em torno da casa, o frio acompanha-o e para não morrer regelado, voltei ao conforto do Inverno. 




sábado, abril 11, 2026

 Sábado, 11.

O ladrão da corte, José Sócrates, é notícia por andar a fugir à cadeia. Na mente deste génio, com diploma tirado ao domingo, e que se integra no feliz acrónimo criado pelo eminente professor jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto TACO (Trump always chikens out), a sua inocência só é provada por um núcleo de portugueses onde se integra a esquerda extremamente bem representada pelo João Corregedor. A esta esquerda sectária não bastam os anos e a quantidade de processos, as provas provadas pelas escutas, o modus operandi da personagem, a sua ligação a este e àquele, os milhões que tudo compravam dizendo-se pobre e a viver dos dois mil e poucos euros da reforma do Estado, as juras que esses milhões lhe foram emprestados pelo empresário de Leiria com a garantia de lhe devolver até ao cêntimo. Como é possível que esta palhaçada convença o comum dos portugueses, que seja uma manobra política como a criatura quer fazer querer? O homem, com aquela barriga proeminente, aquele ar desafiador, que menospreza a justiça e os seus agentes, deixa todas as semanas o seu refúgio na Ericeira e surge nos ecrãs da televisão numa guerra que só tem um objectivo: atrasar e remeter os prazos de forma a prescreverem e ele sair inocente de todas as falcatruas que praticou. Para isso pergunta-se de onde lhe vem tanto dinheiro para pagar a advogados durante estes últimos dez anos!? Se se diz pobre...  

         - Ontem tinha, enfim, aprazado um almoço com a Alzira. Todavia, ao meio-dia, telefonei a desmarcar porque estava em guerra com o banco e as suas complicações de acesso à conta. Eles, todos, dizem que é para nos defender de intrusos, mas eu respondi ao funcionário brasileiro que me recebeu que os vigaristas, com ou sem excesso de zelo, fraqueiam tudo e são eles que devem milhões aos bancos forrados de segurança. 

         - Como estava perto do Corte Inglês, dei um salto ao último andar para almoçar. Aquela gente sabe do negócio. Como a razia de clientela é notória, reparei que os pratos tinham descido 2-3 euros. Não será muito, mas o suficiente para recolher a simpatia e forçar a tentação de novas idas ao restaurante. Por todo o lado, é visível o abandono dos clientes com todos os andares vazios, os restaurantes sem filas, um movimento escasso e as chegadas ao telemóvel dos descontos para esta e aquela secção. E ainda a procissão vai no adro. 

         - Aquela ideia maluca de que eu sou bonito, desinquieta-me. Esta semana, pelo menos duas pessoas mo assinalaram. A última foi hoje de manhã o barbeiro. Encontrei o brasileiro que me rapou todo e um outro (português) que me tinha cortado o cabelo há uns meses. Digo a este: “Outro dia um tipo brasileiro que não percebia o que eu dizia, dizimou-me a cabeça onde já pouco cabelo existe.” E ele olhando-me, responde: “Ficou mais bonito.” Aí aquele que me causou os estragos para além de se identificar, disse concordar com o parecer do companheiro. E eu para rematar a conversa: “Não fiquei - sou bonito.” À mon âge! Gargalhada geral. 


quarta-feira, abril 08, 2026

 Quarta, 8.

O mundo regozijou-se com a suspensão da guerra sob a batuta do primeiro-ministro do Paquistão na base do programa posposto pelo Irão. Trump, o Hitler dos tempos modernos, vingativo e ignorante, chamou a si esta como todas as restantes vitórias que o mundo nunca teve nem virá a alcançar. Por duas semanas, dizem, vai haver tréguas, pelo Estreito de Ormuz irá passar o querido petróleo tão indispensável ao mundo civilizado e desenvolvido, os mísseis que arrasarão o Irão e o deixarão na “idade da pedra” ficarão suspensos, não haverá ameaças de Israel sobre o Irão como sobre o Líbano. Esta paz aldrabada, está explícita no comunicado do governo de Netanyahu:  “The two-weeks ceasefire does not include Lebanon.”

         - Anda aí o espalha brasas. Desta vez, decidiu acolher o que lhe pedia e se resumia a duas coisas: aproveitar o tempo para queimar os mortos da intempérie e começar a cortar a erva ruim em volta da casa. Deste modo, quando pelo meio-dia olhei através da janela, já o espaço me pareceu digno de um príncipe esquecido nos subúrbios do tempo. 

         - Francis foi a enterrar ontem no cemitério de Saint-Denis. Os amigos mais chegados, conseguiram através do notário, chegar a uma conta bancária que permitiu pagar a estada na câmara frigorífica do hospital e haver um enterro condigno. Diz-me o Robert que esteve presente, uma dúzia de pessoas compareceram e um dos mais próximos do defunto, fez o elogio fúnebre realçando a sua imensa cultura em vários domínios, sobretudo em História de que era um ilustre conhecedor. Que eu posso testemunhar, pois chegava a estar uma hora ao telemóvel comigo, desenvolvendo teses que eu contrariava como podia ou ele me deixava. Que Deus o tenha. 

         - O português de hoje surpreende-me e revolta-me. Os nossos políticos chegados de urgência após-25 de Abril, trataram (e muito bem) da iliteracia do povo, varrendo da sociedade o analfabetismo. Mas descuidaram a educação e deixaram através dos anos de incutir a Cultura. O futebol, os concursos, os concertos estivais, são suficientes para dar resposta a esse incómodo que é o conhecimento. A nossa língua, que alguns cultores dizem ser a nossa pátria, anda pelas ruas da amargura. A começar pelos políticos que falam um português de ralé e aquelas jornalistas que inundaram as estações de TV, e comunicam por monossílabos desajeitados. Um exemplo muito frequente: “O porquê de tudo isto que vai ser impactante para o futuro...” Horror, Horror! 


segunda-feira, abril 06, 2026

 Segunda, 6.

Lasso. Ontem tive que interromper o ritmo da minha vida para me consagrar ao repouso absoluto. Com tonturas que há muitos anos não me desnorteavam, esmagado por elas, vegetei entre livros e TV, a maior parte do tempo espojado na chaise longue. Para a noite já me sentia melhor e hoje estou como novo. Todavia, forçado a abrandar, dei-me conta de como os dias e os anos têm sido preenchidos na azáfama do quotidiano. Tenho mesmo a impressão que nunca tinha feito uma desaceleração como esta. Senti-me um felizardo, um tipo cercado de criados silenciosos, que me vigiavam sem que eu desse por isso, soba refratário que observa do alto do seu trono, um sorriso macaco traçado no rosto contente, a orla das horas desfiando para si as memórias de outros tempos fixadas na lisura dos instantes subitamente presentes. Pela tarde, em sopros claros, chegavam os aromas da minha estadia em Coimbra. Não sei explicar. Era como se a minha mente voltasse ao Colégio Camões, aos meus colegas, àquele lar que dava para o campo de futebol, o meu quarto virado para o terreno que vinha lá de cima do edifício central, amparado por um muro alto, rente à estrada alcatroada do bairro social, com vivendas de dois andares, onde vivia uma mistura incrível de classes: professores universitários, polícias, empregados bancários, etc. À entrada, vencidos os dois degraus de mármore, virando à esquerda ficava a sala comum onde nas tardes soalheiras se discutia futebol e gajas boas. Depois, mais adiante, pelo corredor em face, ladeado de quartos individuais dormiam e estudavam muitos dos meus camaradas, filhos da elite endinheirada no Norte. Um deles, de nome Zamite, filho de um médico de Mira, com quem jogava bilhar às três tabelas no café do Manel, na Cumeada, e onde muitas vezes se juntavam o Rui e o irmão, filhos de um comandante da Polícia, que viviam na rua de cima em frente ao lar. Eram momentos divertidos, abastecidos do imediato debitado pelo instante, mas igualmente da excitação do que surge do fundo dos sentimentos ou no espanto que ilumina para sempre a vida. Na juventude, mesmo os mais feios, são bonitos. Era o caso dos manos Cardoso de uma beleza sólida, servidos por um corpo abandonado, sem certeza de coisa nenhuma, rude, os rostos emoldurados de um sorriso leve, natural, que deixava sobressair duas fiadas de dentes imaculadamente brancos; quanto ao meu colega, pára, não entres pelos labirintos que dão forma e consistência ao que jaze na vala comum da dissimulação e nunca perde a forma que os olhos oferecem sem nada em troca ao coração...  

         - Alexandra Lucas Coelho: “Depois de séculos a perseguir judeus, culminando no Holocausto, a Europa fez a Palestina pagar as culpas europeias. Limpeza étnica em 1948, ocupação com colunatos em 1947, genocídio desde 2023, pena capital na Páscoa de 2026, Jerusalém é hoje uma cidade refém de Israel, como toda a Palestina (e em breve todo o Líbano acrescento eu), onde nenhum cidadão do mundo pode pisar se Israel não quiser.”

         - Comigo é sempre uma questão de excitação. Entusiasmo-me por tudo e por nada e o resultado sai sempre nulo quando não enfio a armadura da calma. Hoje, contudo, pela primeira vez, dispus-me a preencher o IRS sem ajuda de ninguém – e consegui! O meu IRS não obedece aos parâmetros do pré-preenchido, ficando a faltar o mod. 3 da coxearia. Munido de toda a calma e atenção, fui desbravando página a página o modelo das despesas e dos ganhos. Demorei um nico, mas rejubilei quando o sistema me disse, cara a cara, que estou cada vez mais inteligente. Agora é só esperar pelos carcanhóis que me fazem muita falta. Consignei o meu IRS à Fundação Salvador.   


sábado, abril 04, 2026

 Sábado, 4.

Ontem assisti pela TV à Via-Sacra transmitida de Roma e presidida pelo Papa Leão XIV. Momentos inesquecíveis a tal ponto que adormeci mais tarde com a imagem interior de Jesus Cristo na cruz. Os textos que acompanharam cada estação, eram de S. Francisco de Assis decerto em memória do Papa Francisco. Il poverello acompanha-me desde tenra idade. 

         - Acerca da morte de Jesus Cristo, estou a ler um ensaio curioso de James Lacey. Segundo o historiador, se Sejano não tivesse sido assassinado, na desordem e traições que acompanharam Lívia, Germânico, Agripina, Druso,  

Caio (Calígula), nos anos de 32 e 33, nunca Pôncio Pilatos, nomeado pelo centurião para governar a Judeia, teria cedido aos interesses dos judeus – um povo em constante desordem. Tibério tinha depositado total confiança naquele que desde sempre o apoiou, mas perante a carta que recebeu de Apicata ex-mulher de Sejano, de Capri onde se havia refugiado farto das querelas e interesses de Roma, Tíbério manda assassinar toda aquela gente, incluindo parentes próximos. Pôncio Pilatos, apressa a morte na cruz de Jesus porque os acontecimentos, em certa medida, iam também recair sobre os seus ombros enquanto íntimo de Sejano. A desenvolver. 

         - Os dois assanhados ditadores, Trump e Netanyahu, andaram dias a afirmar que o Irão estava reduzido do ponto de vista bélico e eis que ontem um caça e mais outro e ainda dois helicópteros do Exército americano, foram abatidos pelos mísseis de iranianos. Os EUA procuram o piloto-norte-americano desaparecido; o Irão oferece recompensa a quem o encontrar. Assim vai o mundo. 

         - Veio aí esta manhã o espalha brasas, mais conhecido por senhor José Manuel. Adoro o homem. Chega cedo, pelas oito da manhã, e não pára um minuto. É uma figura seca, em constante movimento, que pega nisto e logo larga para se enfiar naquilo. Queria queimar alguns montes de vegetação, mas eu tive de o impedir devido ao muito calor que aqui faz. Assim, optou por serrar a lenha saída do abate das árvores tombadas e nas idas e vindas entre o telheiro onde a guardava, falava-me da família, dos mortos, e daqueles que não guardam os dias feriados e o chamam para trabalhos. É uma pessoa solidária, que gosta de ser útil, e sofre quando não consegue satisfazer os seus compromissos. Há poucos assim. Este é de ouro. 

         - Acaba de chegar o Mr. Jonhson. Vem desafiar-me para ir ao café e por aqui me quedo. Boa Páscoa para todos os que me acompanham nestas passadas titubeantes, onde para uns me exponho em demasia e para outros nunca me dou conhecer. É isto. 


sexta-feira, abril 03, 2026

 Sexta, 3.

Se não soubéssemos que Trump é para além de egocêntrico rasca, bastou aquela tirada do aprendiz a presidente para vermos que espécie de gajo ocupa o alto cargo de uma nação que pretende liderar o mundo. Referindo-se às imagens do casal presidencial francês à chegada de avião, gozou: “Brigitte Macron trata o marido extremamente mal, e ele ainda está a recuperar do murro que levou no queixo.” Nem todos podem medir a sua masculinidade pelo tamanho dos pés, isso é reservado unicamente a um -  Donald Jonh Trump. Que de resto o utilizou durante anos a violar miúdas de tenra idade e devido aos oitenta está inoperacional. Seria interessante saber de Melania a este propósito que tem para nos contar. A menos que as caixas do célebre comprimido azul sejam feitas especialmente para o monstro em dose dupla, por exemplo, 1000 gramas. E mesmo assim...

         - O porte é de um canalha e não honra a confiança do cargo. O povo americano não merece um tipo destes à frente dos seus destinos. Atente-se naquela ridícula adoração que a sua entourage lhe fez ao elegê-lo cristo pela sacerdotisa que veio expressamente à Casa Branca deificá-lo. Estará o homem no seu perfeito juízo? Ou a decadência é tal que o aproxima da loucura!


quinta-feira, abril 02, 2026

 Quinta, 2 de Abril. 

Os nossos políticos podem esgrimir todos os contentamentos com a Constituição, enfrentar-se para a manter ou alterar, que ela de nada serve às centenas de utentes do SNS que vão para as filas às quatro da madrugada para conseguir consulta. O entretenimento filosófico de uns, é a maldição da maioria. Os deputados de todas as cores, vivem num mundo só deles onde não há pessoas e as poucas que há, são de nenhuma importância. 

         - Trump falou à nação, a boca cheia de palavras ocas, já desacreditado pelo mundo inteiro que não compreende a razão da guerra no Irão, a incursão na Venezuela, a prisão do seu Presidente, a tortura dos cubanos e por aí fora, sobretudo, a ligação a Netanyahu e aos extremistas de direita que governam Israel e a adoração pelo ditador Putin. 

         - As ameaças de rei soberano, continuam. Segundo o mentecapto americano, o Irão vai ser reduzido “à idade da pedra”. Espero que a história antiga onde nós bebemos ao longo dos séculos, escape à fúria desta choldra de gente ignorante, básica, que tem no poder a justificação e realização das suas loucuras. O tumulo do Grande Ciro, coberto por um véu de ouro, na montanha, em Pasárgada; os gigantescos touros barbudos com caras humanas que guardam o sepulcro de Xerxes, em Persépolis; ou o último Darius e tantas outras obras da história e cultura mundiais como os reis Artaxerxes II e III que repousam nas montanhas sagradas do Irão desde 522 a/C., além das imensas mesquitas. Não é só a cultura e a civilização dos iranianos que vai desaparecer, é também a do Ocidente cuja cultura mergulha as suas raízes naquelas montanhas de memória, tingidas do sangue dos nossos antepassados civilizacionais.  

         - A prova que a crise provocada pelos monstros ameaça estender-se ao mundo global, está no deserto que percorri no Corte Inglês. Quase não se via vivalma, os restaurantes sem ninguém e quando me abeirei do balcão para escolher o almoço, era o único cliente.  

         - Ontem fui ao Centro de Saúde. Fartei-me de andar, calcorreando a Avenida Ávares Cabral até ao Jardim da Estrela e de seguida a pequena rua que desce para a unidade familiar e de novo o regresso para me sentar a almoçar no 1800 - restaurante dos meus tempos de juventude. Mais tarde, desci e subi o Chiado, não falando nas voltas e viravoltas pela cidade e estações do Metro. Tinha atravessado a arrogância de um funcionário ao telefone e fui discutir com a minha competente médica, Dra. Vera Martins, o cruzamento de informação para a consulta do neuro-oftalmologista no Santa Maria. 


terça-feira, março 31, 2026

Terça, 31.

Sinais (perigosos) dos tempos. Não gosto de generalizar, mas que me apetece fazê-lo, lá isso.... Outro dia vi na Internet uma proposta com a sigla da Shtil, que pela módica quantia de pouco mais de cem euros, podia adquirir uma tesoura de poda, uma serra eléctrica, uma vara de corte em altura e ainda a generosa oferta de uma máquina para afiar motosserras. Disse que só pagava por multibanco e esperei uma semana pelo brinde de Páscoa. Que chegou ontem, montado numa instituição que já teve melhores dias, os CTT. Ao portão entrou uma carrinha branca, amachucada, e de dentro saiu uma brasileira escura, cabelo cortado à escovinha, pintado de amarelo, cara redonda e gestos decididos, para me estender um embrulho com pouco mais de 60x30cm, mais leve que um pacote de amêndoas. Perguntei se podia verificar o que continha, respondeu a célere rapariga que não. Insisti: acha que aí está (nomeei o que acima descrevi), ela balbuciou que não tinha nada a ver com a operação, facto que eu sabia. Rodopiou a estafeta sobre os calcanhares da viatura e fui à Net verificar tudo de novo. Procurei a marca e obtive o número de telefone para confirmar o que me parecia óbvio: “Estamos com uma promoção, mas nas nossas lojas”, com o remate: “Essas aldrabices são constantes, meu caro senhor.” Curioso como sou, ainda agora me penalizo por não ter aceitado o volume e certificar-me o que continha. Mas dar 100 euros por um par de botas velhas...  

         - Os criminosos da extrema-direita israelita, com o chefe corrupto e assassino à cabeça, senhor Benjamim Netanyahu, defensores dos primórdios da religião, cuspindo o fel que lhes entope as gargantas, aprovaram no Knesset a pena de morte para os palestinianos que enfrentaram os invasores e agressores na sua pátria soberana. Não contentes com a mortandade que fizeram, com a destruição de um país eternamente subjugado à supremacia de uma raça e religião, enxotados como lixo para fora das portas de Israel, não obstante toda esta desumanidade e tirania, ainda se querem vingar de inocentes que apenas se defenderam de assassinos sem consciência, nem legalidade moral e impedidos de tais actos ao abrigo do direito internacional. 

         - Mais uma vez, glória a Pedro Sánchez. É ele que se distingue da chusma de dirigentes de pacotilha que vegetam pela nossa moribunda e medíocre Europa. Ele e Zelensky. Ao contrário dos nossos governantes humildes, bajuladores e reconhecidos a Trump, oferecendo-lhe de bandeja a base das lajes para prosseguir a guerra sangrenta e incongruente contra o Irão; a Espanha de Sánchez, altiva e civilizada, recusou categoricamente, com voz firme e clara: “Negámos aos EUA o uso das lajes de Rota e Móron para esta guerra ilegal (sic). Todos os planos de voo que contemplem acções relacionadas com a operação do Irão foram rejeitados. Todos incluindo os aviões de reabastecimento.” 

         - Preciso tanto de tempo para me consagrar ao romance. Escolhi viver neste isolamento apenas porque escrever exige tempo e silêncio. Enganei-me. Nunca o trabalho sob vários ângulos nesta quinta deixou de me desafiar. Não tenho tempo para nada e mesmo estes gatafunhos que aqui alinho, levam-me três horas surripiadas ao romance. Que fazer quando isto está a resultar numa obsessão? Vender e fechar-me num apartamento em Lisboa? Esta manhã, na meia hora a passar na piscina, enquanto nadava, não pensei noutra coisa. Por vezes, só para fazer avançar a história de Ana Boavida, vou com o croché sentar-me num café em Lisboa. Que contradição, santo Deus!


segunda-feira, março 30, 2026

 Segunda, 30.

Daqui a duas semanas a Hungria vai a votos. Esperemos que vença Péter Magyar fartos como estamos da prepotência e conluio de Viktor Orbán e do seu partido Fidesz com o nepotista Vladimir Putin. Ao que parece, a interferência do ditador russo está por todo o lado, manobrando a província paupérrima com esmolas, comida e assim. A Hungria! E lembrar-me eu que estive nas vésperas de o visitar, quando a entrada de turistas foi proibida devido à Covid-19! Ainda hoje estou à espera que a nossa bandeira, tão querida da esquerda, me devolva o dinheiro da viagem.  

         - Quem é que acredita nesta gente hipócrita e cínica! Refiro-me à reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros do G7 realizada na sexta-feira passada em França, da qual saiu o pedido imediato dos ataques contra civis e infra-estruturas civis no Irão. Sabem quem estava presente? O Secretário de Estado norte-americano (entre nós ministro dos Negócios Estrageiros), senhor Marco Rubio! Irão onde já morreram 1900 pessoas e 20 mil ficaram feridas, segundo a Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. 

         - Entretanto, Israel prossegue a invasão do Sul do Líbano. António Guterres e Pedro Sánchez, alertam para a possibilidade dessa ocupação redundar no mesmo destino do enclave palestiniano. Netanyahu e seus apaniguados, não se resignam ao seu pequeno território (do tamanho do Alentejo) e pretendem estendê-lo no sentido da Faixa de Gaza e para o Líbano, fazem-no protegidos pelo louco da América danadinho por ir a banhos na Riviera palestina. Tudo isto seria cómico, não fora os crimes hediondos praticados por ambos. 

         - Dito isto, também não aprovo de maneira nenhuma, os actos terroristas contra os israelitas que um documentário da SIC, sexta-feira, nos mostrou. Aquilo é horror impossível de aceitar, de uma crueldade assustadora. No entanto, pergunto-me como foi possível o HAMAS crescer daquele modo, sem que os serviços secretos do Estado, reputados como um dos mais eficazes do mundo, soubessem. Frente a frente com Netanyahu, perguntar-lhe-ia. Um povo que durante quase um século sofreu humilhações e torturas sob a pata dos vizinhos déspotas e militarmente abastecidos, tratados como lixo, sem forças anímicas para repudiar o HAMAS, que se permitiu fazer tuneis e preparar-se para enfrentar o pior. 

         - “A pior e mais bestial atrocidade cometida pelos seus exploradores foi a seguinte: penduraram nuas as mulheres mais nobres e distintas e depois cortaram-lhes os seios e coseram-lhos na boca, para parecer que as vítimas os estavam a comer; de seguida, empalaram-nas em paus afiados. E fizeram tudo isto no meio de sacríficos, banquetes e crueldades.” Este acontecimento é narrado por Dião Cássio, em História de Roma e se o trago aqui, é para comparar com as crueldades de Netanyahu, Putin e Trump – estes são tão cruéis como os bretões conduzidos pela rainha Boadiceia, mas não observam, in loco, as barbaridades que cometem. Como em Nagasaki e Hiroxima.


domingo, março 29, 2026

 Domingo, 29.

A guerra dos dois tresloucados déspotas, alastra por todo o Médio Oriente. Os houthis do Iémen acabam de entrar no conflito ao lado do Irão, lançando o primeiro míssil sobre o sul de Israel. Trump, contudo, vendo escapar-se-lhe o Nobel da Paz, encosta-se um pouco mais aos homens judeus dos negócios americanos e ao seu camarada Putin que parece ser o único que tem beneficiado com a desgraça que ainda vai no adro. A propósito, se me permitem, transcrevo este naco de boa prosa e melhor análise de Fr. Bento Domingues há uma semana no jornal Público, servindo-se do texto de Rafael Rabona,. “As guerras de Putin, Trump e Netanyahu não são guerras justas, que não existem. São guerras inspiradas pela antiga mentalidade colonial, segundo a qual é legítimo saquear a riqueza alheia. Por trás de todas as guerras em curso, existe apenas um desejo obsceno de controlar petróleo, gás, minerais e rotas comerciais.”  

         - Portugal parece alheado de tudo isto. Os socialistas fazem o seu congresso pós-José Luís Carneiro, mapeado dos anteriores, tentando “furar a bolha”, mostrando que pouco aprenderam com o passado, ignorando a sensibilidade dos portugueses, a vida apertada que levam, a descrença nos políticos, detendo-se nos pequenos-nadas como a identidade de género, o susto do Chega, o folclore da esquerda do partido liderada por um tal Ricardo Gonçalves encostado ao defunto Pedro Nuno Santos, enfim, a política à portuguesa. Bom entretenimento, sim senhor. 

         - Enquanto isto, como se fossem alheios ao destino dos seus concidadãos, não reparam como são vãs as palavras, os actos e omissões que os democratas imprimiram ao longo dos 50 anos de democracia. As últimas estatísticas, dizem que estamos como estávamos em 1995, a pobreza continua a proliferar e o emprego é cada vez mais mal remunerado e sem estabilidade. Para não falar no reinado de António Costa que tenho atravessado na garganta pelo que foi de ilusório, rastejante, ideologicamente fracassado, a par da desordem, dos gritos de uns e outros nos órgãos de comunicação social, do abandono do investimento na saúde, na habitação, na valorização dos jovens, mesmo quando a “geringonça” que a esquerda laureou e continua a laurear, apesar da desgraça que ainda hoje rasteja pelas ruas da amargura nacional ter sido varrida. Os que nos (des)governam, como antes os socialistas com as suas “contas certas”, ufanam-se com a ilusória riqueza do “excedente histórico de 0,7%” mas, em simultâneo, os velhos vadiam pelas ruas da amargura, os jovens fogem do país, os prejudicados pelo temporal ainda não foram compensados, os sucessivos governos desprezam esta massa humana de dez milhões de almas entregues à sua sorte. A imperial governação de uns e outros, trabalha para a pobreza e indiferença do povo cordeiro sofredor, pondo em primeiro as ideologias aqueles, os cifrões estes. Macaca sorte a nossa. 

         - Fim de semana brilhante. Não só pelos dias ajoujados de sol, como pela placidez das horas preenchidas pelo trabalho intelectual e laboral. 


sexta-feira, março 27, 2026

 Sexta, 27.

O drama do Francis atinge a epopeia de romance. Ontem o Robert disse-me que no hospital correu a notícia de suicídio. Na véspera os médicos tinham-no informado de que iriam amputar-lhe a perna. Depois do pé, talvez o pobre Francis não tivesse suportado tamanha infelicidade e viver naquelas condições não era viver. Seja como for, o facto é que ele continua na câmara fria e não se sabe quem paga a diária pois os três dias gratuitos já findaram. Amigos para que vos quero! Um homem que conhecia meio mundo, cultíssimo, bom carácter, generoso, com quem dava gosto e prazer conviver, falece e não há ninguém que leve uma flor à sua campa. Eu sei que isso pouco importa para aquele que deixa este mundo, mas a recordação dos próximos rubrica a amizade que perdura na lembrança dos dias felizes. Aqui em casa, são muitas as memórias que dele perduram. Francis oferecia tudo aos seus amigos, por vezes surpreendia-me o seu desapego aos objectos que estavam lacrados com a presença de homens e mulheres que deixaram obra colectiva. Como se dava com todo o mundo político e artístico, dele recebia lembranças e considerações. Um dia foi Václav Havel, estadista, poeta, dramaturgo e dissidente tcheco, que veio a ser o primeiro presidente democraticamente eleito da República Tcheca após a queda do comunismo, que lhe ofereceu um serviço de café em cristal e que eu guardo comigo sem nunca o ter usado como recordação; outra vez foi a grande monografia da pintora Françoise Gilot, dedicada, sua grande amiga, companheira de Picasso do qual teve dois filhos, Claude e Paloma; mais tarde, abandonado Picasso, casou com o pintor Luc Simon, em 1970, separada deste, viria a unir-se ao Dr. D´Salk pioneiro da vacina contra a poliomielite. Pelo que constatei, eles eram, de facto, muito ligados pois a cumplicidade era grande e a liberdade ainda maior. Poderia continuar, porquanto as suas ofertas eram constantes, pessoalmente ou pelo correio. Detenho-me, por agora, na expectativa que o esforço do seu amigo de adolescência possa encontrar o notário que esclareça o mistério do ou dos seus herdeiros ou simplesmente diga que morreu na pobreza. Assim sendo, junta-se a Mozart, que foi enterrado na vala comum. Não te importes, querido Francis – estás em muito boa companhia. Os mausóleos são para os ditadores de esquerda e direita, os arrogantes, os charlatães. Paz à tua alma.  


quinta-feira, março 26, 2026

 Quinta, 26.

Francis continua na arca frigorífica do hospital. Os três primeiros dias são gratuitos, depois alguém terá de pagar. Se tal não acontecer, será despejado na vala comum. Esta é a regra dos tempos modernos, a norma das democracias, da Igreja e dos negócios. Há, todavia, um grande amigo que vem dos tempos da sua adolescência e que se está a ocupar desta horrível situação. Eu lancei achas para a fogueira ao dizer o que sei sobre a sua riqueza e a sua relação amorosa com o “petit oiseau”, um rapaz que se formou há dois anos em advocacia e foi convidado por uma grande empresa do Barein onde vive e foi prevenido da morte do companheiro. Contra sua vontade, o rapaz não pode despedir-se do amigo, impedido pela guerra no Médio Oriente, onde os aviões não descolam como antes. Eu informei que há dois anos o Francis comunicou-me que tinha vendido o apartamento sobranceiro ao canal Saint-Martin onde vivia ao “petit oiseau”, e por proposta deste, ambos iriam habitar um outro no centro de Paris que o namorado havia adquirido há pouco tempo. Também disse que sei de uma casa (dizem-me que está em ruínas) perto de Bruxelas, de outra a Norte de Paris, da sua colecção de arte africana que os americanos cortejavam, de obras de arte e dos direitos de autor de toda a obra cinematográfica de Marcel Carné com quem viveu até à sua morte, em 1996, e lhe rendia somas simpáticas anuais. Tudo isto, o seu amigo sabia e o seu trabalho centra-se agora em visitar notários de modo a certificar-se quem é o seu ou seus herdeiros. Que história, hein! Que infelicidade para o pobre Francis, homem de uma cultura infindável (ao ponto de possuir um camarote ininterrupto oferecido pela Comédie Française e onde me levou uma e outra vez), generoso, divertido, amante da liberdade e cultor da amizade. 

Francis comigo na Comédie Française há três anos. 

         - Nas bocas do mundo invejoso e dos pobres, pobrezinhos que inundam este miserável país de futebol e festivais, está Mário Centeno, dito de uma maneira mais assertiva, o Portugal imperial dos funcionários públicos de alto coturno. Álvaro Santos Pereira, o novo governador do Banco de Portugal, fala do acordo que fez com o seu antecessor, e esclarece "estamos a falar em poupanças que chegam a 2,2 milhões de euros se ele ficasse, como tinha direito, até aos 70 anos." O que me acode dizer é que se trata de um roubo aos pobres, aos reformados, aos milhões de portugueses que são a mola essencial da actividade económica, aos pequenos e médios empresários, que sobrevivem à rasca, enquanto estas nobres e aristocratas criaturas vivem como príncipes e ainda usufruem de carro, motorista, reformas para cima de 10 mil euros, fundos de pensões, assistência médica e não sei mais o quê porque a revolta já me tolda o cérebro. Dizem de cabeça levantada que “têm direito” como se este “direito” estivesse inscrito na Constituição e não fosse um escândalo num país pobre e aqui se ganhasse tanto como em França, Inglaterra e por aí fora. Abro um parêntesis para o orçamento da Presidência da República que é mais elevado que o da casa real espanhola! Sirvo-me de Mário Centeno porque é ele que está na berlinda. Nada tenho contra a sua pessoa que sempre considerei um técnico eficaz, competente e lúcido.  

         - O mesmo não direi de Isaltino Morais, o Presidente da Câmara de Oeiras. O homem gasta em refeições para si e seus apaniguados, a módica quantia de 150 mil euros em almoços, lanches e jantares, tabaco incluído). Em que país vivemos! Somos pobres, mas a classe política é rica mesmo riquíssima. Daí a corrida aos cargos públicos. Qualquer bicho careto, com ambições conhece o percurso: fazer-se sócio de um partido político, bajular os seus dirigentes, ser humilde e patriota, conseguir um lugar de comentador na TV e esperar pacientemente que o cargo se projecte na figura. Sai figurão? Decerto. 

         - Dia animado. Andou aí o Sr. José Manuel, que por sua vez chamou o empregado dos Venâncios que se aproximou com o tractor e daí a meia hora o patrão. Foi uma reinação de gente que se conhece há muitos anos, trabalhadores da Adega Venâncio da Quinta do Anjo. A parte do desastre que deita para o lado meu vizinho ficou pronta e desimpedida. Na próxima vez, vou-me ocupar do muito que sobrou à minha porta. 


quarta-feira, março 25, 2026

 Quarta, 25.

Neste mundo governado por doidos varridos, o Irão respondeu ontem a Trump que insiste estar a negociar com o Exército iraniano: "Não chames acordo à tua derrota. A era das tuas promessas chegou ao fim"  

         - A propósito, ontem na SIC, o senhor Rogeiro, que sabe tudo sobre tudo inclusive sobre armas militares, não vai ter nunca mais por espectador este que aqui escreve. Prefiro mil vezes Milhazes. Parece mais honesto e independente. O homem jamais me convenceu e é para mim como aquele humorista que no mesmo canal, embora não dizendo ao que vem, está tudo estampado nas suas crónicas. Rogeiro de tão fanático dos EUA, passa a ideia de ter negócios com os gananciosos e incultos que se apoderaram do país e desorganizaram o mundo. Brurrrrrr, aquela sapiência deito-a ao lixo.

         - De resto, como qualquer pessoa equilibrada e humana, elejo os três assassinos que fomentam a morte e a destruição por todo o Planeta: Putin, Netanyahu e Trump. Não há nenhuma razão credível para tão horríveis crimes. No que toca a Trump, parece-me mesmo que o homem sofre de uma qualquer doença mental, não só pela obsessão egoísta de ficar na história, como por se ter deixado manipular pelo corrupto primeiro-ministro israelita 

         - Aconteceu mais um parto em ambulância. Se me fosse possível dar um conselho à Ministra da Saúde, seria este: crie salas de parto ambulantes. Assim como assim, era mais barato e os bebés teriam desde logo o prazer de serem embalados em viagem. 

         - Num só dia tive dois quiproquós com africanos. Só não acontece a quem, como as meninas do BE e outros sobas que utilizam o carro do Estado pago por todos nós, não viajam nos transportes públicos. O primeiro com um rapaz de uns vinte anos, camisola amarela, uma agitação inquietante, que me ordenou me levantasse de um lugar prioritário; o segundo no supermercado, um homem de uns quarenta anos, a tossir que nem um desalmado sem protecção. O primeiro de uma arrogância imperial; o segundo ouviu o pedido que lhe fiz para que pusesse o braço ao tossir e pediu-me desculpa. “Tem razão, não me lembrei.” Fui direito a ele e pedi-lhe eu desculpa, acrescentando que os bons gestos favorecem toda a gente. Que nobreza a daquele negro! Simpatizei intimamente com ele. 

         - Contudo, o problema dos africanos é este: os que aqui nasceram e saem de manhã rumo à Europa para estudar ou trabalhar, regressam a África ao fim do dia. É esta salada de cultura que deve ser difícil de assimilar, porque a mentalidade e a civilização são diferentes e muitas vezes antagónicas. Como costumo dizer, não é a cor da pele que me desgosta, é a falta de educação, de cultura, de adaptação a uma realidade onde escolheram viver. Todavia, como se viu, não convém generalizar.

         - Alinho estas linhas na Fnac. Ontem não abandonei o meu convento inebriado pelo dia senão para ir nadar. As ideias floriram, os falhanços eclipsaram-se, as certezas suplantaram as dúvidas. De facto, diante do campo tomado pela força que o revigora, as árvores que se vestem quotidianamente de um verde frágil, sob o céu de um azul pálido, o silêncio misturado com o todo numa harmonia que parece etérea, eu, minúsculo ser no meio deste cosmo agigantado pela protecção divina e a sombra em fulgurações que caía do Céu, perguntei-me se seria merecedor de tamanha graça.


terça-feira, março 24, 2026

Terça, 24.

Anne dizia ao irmão no dia 17 de Novembro de 1958: “J ´ai à peut près autant de vie intérieure qu´une souris.” Anotação de Julien: “Estas palavras pronunciadas com profunda humildade como eu as invejo.” E remata o dia assim: “Il est 7 heures du soir.” É nesta simples frase que fecha o dia que o mistério se revela. Reside nela toda a beleza, o deslumbre da finitude, que contêm em si a dimensão secreta por desvendar. A noite cai, mas outra noite se levanta até ser de novo dia. Há uma espécie de paralisação do tempo, um fosso abismal que sustem o vislumbre, a queda, a tristeza, o súbito enigma que nos escapa e cresce diante dos nossos olhos cegos pela pulcritude da vida. 

         - Voltei à natação. De mansinho devido ao tempo de inação. Dia absolutamente deslumbrante. E sob todos os aspectos, pois qualquer coisa de hossana se levantou dos despojos onde estive nestes últimos tempos. Houve como que um impulso, um puxar para cima, que me alcandorou de súbito ao patamar onde o tempo e os anos me haviam despojado. 

 

segunda-feira, março 23, 2026

Segunda, 23.

A vida, isto é, a morte surpreende-nos (no dizer da Bíblia) como um ladrão. Passei mais de um mês a tentar falar com o Francis sem conseguir. Sabia (por ele) que dera entrada no mesmo hospital onde faleceu Annie e da cama do mesmo após amputação de um pé, falámos algumas vezes ao telefone. Parecia melhor, dizia-me, inclusive, que se estava a adaptar bem à prótese. Seguiu-se um longo silêncio e eu preocupado, falei ao Robert pedindo-lhe que o procurasse. Assim aconteceu. Foi achá-lo, engolindo as recordações da estada recente da mulher na mesma unidade hospitalar. Soube então que recusara o telemóvel e, dizia-me Robert, não o tinha achado nada bem. Anteontem, telefona-me o meu amigo, a dar-me a notícia da sua morte. Mais: “il avait de grosses daites, il pourrait être à la fosse commune!” Retive a respiração ao ouvir estas terríveis palavras, uma tristeza imensa tomou conta de mim. Minutos depois, refeito, liguei ao Robert pedindo-lhe que telefonasse à Câmara de Paris, à de Saint-Denis, a este e àquele que eu sabia serem seus amigos para que lhe arranjassem uma morte digna. Francis Von Overbeque que havia sido secretário de Charles De Gaulle e conhecia meio mundo, não devia morrer daquele modo, só, sem uma alma que viesse em seu auxílio e ainda por cima atirado para a vala comum. Uma vez ele mostrou-me a sua agenda e deixou-me babaca. Conhecia meio mundo, reis, princesas, chefes de Estado, possuía os seus números de telefone e moradas, e era convidado pela Rainha de Inglaterra, Isabel II, para o jantar anual no Palácio de Buckingham. Afinal, ele como o filho de Thomas Mann, Klaus que se dava com um mundo vasto de gente, acabou encontrado morto sem uma única pessoa ao seu lado, no Sul de França. 

         - Depois de muito matutar, encontrei a razão para este desassossego íntimo: a entrada na Primavera. Toda a minha vida sofri com uma estação que devia ser para mim e para todos nós, uma espécie de aleluia, de graça e explosão de vida. Todavia, a minha sensibilidade, não suporta a chegada desta donzela irrequieta que distribui o que tem e o que não tem. 

         - Trump diz que tem tido conversas produtivas com o Irão, este apressa-se a negar qualquer contacto. Eis o mundo maluco em que vivemos. 

         - A estratégia da Fesinap é sempre a mesma e está traçada há muito a papel químico: convocar greves. Assim, alto e bom som, o seu secretário-geral, veio anunciar a adesão de 80% sobretudo nos sectores da saúde e educação. É nisto que estamos. A guerra que cerca a Europa, não nos incomoda. Viva o futebol, as greves, o fado e a gritaria dos concertos que se anunciam. 


domingo, março 22, 2026

Domingo, 22.

Outro dia, no encontro com o Filipe em Lisboa, descendo o Chiado, não sei a que propósito, falou-se dos jovens de hoje. Atrevido como sou, logo disparei que a malta “só lá vai com quatro cervejas” e acrescentei “é o que ouço dizer às feministas”. Na sequência desta constatação, não sei porque carga de água, o Filipe disse à colega que o acompanhava: “Este senhor, foi o meu primeiro director”, estupefacção dela no olhar incrédulo que me devolveu. 

         - Sousa Tavares no Expresso: “Trump é incrivelmente inculto, não sei se terá lido um livro sem ser de autoajuda e é altamente ignorante” O que é que se espera de um especulador imobiliário?! 

         - Passa de 80 por cento o número de portugueses descontentes com o Governo. Eu sou um deles. A poupo e pouco deixei de confiar numa pessoa que arrasta consigo todo um fadário de esquemas, de alguma incompetência e ziguezagues sem fim. 

         - Ontem almocei com o João. Não é meu hábito ir a Lisboa ao sábado, mas achei-o muito desmoralizado e fui levar-lhe um pouco de conforto. O homem detesta estar doente, e se lhe digo do meu espanto com a frequência com que adoece, ouço invariavelmente a mesma resposta: “Mas eu há anos que não estou doente.” 

         - Passei vários meses de um sono de bebé Nestlé. Chegava a dormir dez horas seguidas e a cama era para mim o maior e mais eficiente antídoto para tudo. Agora, há coisa de uma semana, sem saber porquê, um volte-face. Se tomo uma porcaria dita natural, durmo entre os lençóis e por todo o lado. Ando bêbado o dia inteiro, eu que não bebo uma gota de vinho há anos.


sexta-feira, março 20, 2026

 Sexta, 20.

Começo a pensar que não sou estupido de todo. Ontem, embalado pela chuva, cheio de paciência, consegui realizar uma série de peripécias que este novo computador exigia. Fui tacteando como uma criança que aprende os primeiros passos e ao fim de mais de uma hora, tinha reconstituído tudo aquilo que fazia falta ao meu trabalho diário. Ufa! De futuro, não peças ajuda, arrisca e verás todo o potencial de recursos que existe em ti. 

         - Ainda bem que temos de volta à TSF um cronista de excepção: Fernando Alves. Na sua crónica de hoje, ei-lo oportuno a chamar os bois pelos seus nomes e a orientar o pensamento crítico para o lugar onde ele devia estar inteiro: o Parlamento. Este retrato do todo: “Deixai correr o olhar pelas bancadas. Ei-los, impantes, o cabelo engomado mais do que penteado, a farda oficial de gato pingado muito assertoada. Não há um assessor que os despenteie? Não há um repórter mais atrevido que, na roda mediática, lhes peça, inesperadamente, o título do romance que lhes sacode os dias?” Mais adiante: “Ao longo da vida sempre cuidei de orientar o sentido do meu voto no favorecimento de um pressuposto: não confio politicamente em quem não estime em voz alta a língua portuguesa ou em quem me possa transmitir a suspeita de um desdém ou de um desapego pelos livros.” Para concluir: “O que me fez puxar este fio amargo? Uma entrevista de José Carlos Vasconcelos à jornalista Filipa Lino no excelente suplemento de fim de semana do Jornal de Negócios. A conversa percorre a longa vida de um lutador sereno, "poeta na clandestinidade" como se designa, que defendeu presos políticos durante a ditadura, foi deputado e dirigiu durante 45 anos o desaparecido Jornal de Letras. E convoca a memória das lutas e dos amigos, os dias de Coimbra, os grandes combates da democracia.” Acrescento como nota de simpatia, que ainda guardo as folhas que José Carlos Vasconcelos me enviou com dois ou três poemas para a Rádio Universidade, dirigidos ao meu programa Nova Musa

         - Alinho estas palavras no pequeno café da Fnac. Vou deixar que a minha mente se estenda até ao horizonte de livros, distendo as pernas, assim ficarei até sentir o cérebro voar sobre o infinito espaço de alheamento e beleza, ao encontro da galáxia invisível do meu ser. 


quinta-feira, março 19, 2026

Quinta, 19.

Quando descia o Chiado, encontrei o Filipe como sempre surpreendente na forma de vestir e ser. Estava acompanhado por uma colega do gabinete de informação e imagem da Câmara de Lisboa onde trabalha. Disse-me que tem vivido num desassossego devido à Judiciária que irrompeu pelo edifício em busca de provas de mais um cambalacho de milhares levado a cabo pelo secretário-geral da autarquia, um tipo do CDS e mais três funcionários, todos da área das iluminações natalícias, que embolsaram milhares em contratos sem concurso. É nisto que estamos há pelo menos duas décadas. Políticos, autarcas, gestores públicos e privados, funcionários administrativos, enfim, este escol de gente sem ambição nem honestidade, dá aos tribunais e judiciária um trabalhão a mais que nem aluvião de vadios, ladrões e salteadores de casas, dariam. À sua conta o número de funcionários da justiça quintuplicou. Só para o gatuno José Sócrates, contem quantos advogados foram até hoje precisos. Assim, é certo e sabido, que ele vai ser absolvido pela caducidade dos prazos – e mantém bem aferrolhados os milhões dos nossos impostos. 

         - Ontem, deu-me para ir almoçar pacatamente ao restaurante do alto do Corte Inglês. Não é tanto a refeição que me apaixona, mas aquele estar ausente, o olhar perdido nos comensais devoradores e conversadores, aquele pequeno e modesto mundo de gente que toma alguma importância quando se senta à mesa e o empregado fardado se aproxima para saber o que escolhem suas excelências do menu que ele lhes estende. É como se ingressasse num universo outro, onde figuras de negro vestidas fossem sombras voláteis onde as moscas teriam medo de pousar. O brouhaha que varre o espaço, hipnotiza, anestesia os sentidos, leva-me a sobrevoar com o olhar a teia de gente que parece feliz tocada pelo álcool e pelos prazeres da mesa, da importância que a importância confere a quem dela nunca se afasta mesmo quando pela idade, a solidão da velhice, o desconforto da saúde e o abandono dos mais chegados alvejados por outras fantasias que em catadupa a sociedade lhes oferece. Ao fundo, junto à grande vidraça que dá para a cidade submersa no vazio das horas, estava uma senhora recolhida em si, que mastigava sem pressa, o olhar perdido algures no centro do seu mundo misterioso e digno, espécie de lugar povoado dos pensamentos que o tempo deixou para trás e naquele momento se apresentavam para o derradeiro aceno, antes de o tule de sombras cobrir num vislumbre de realidade ou de eterna recordação o passado, o presente e o futuro. Ela, só, carregava consigo o destino da sala inteira, autoridade que o tempo consagra a quem se atreve a atravessá-lo hirto, sobranceiro, senhor dos dias contados pelo filamento frágil das horas. A eternidade é um sítio algures onde se perdura em errância. 

         - Tendo terminado o Diário de Green há dias, nem por isso o largo disposto na mesa de apoio junto à lareira. Abro ao acaso uma página, folheio o espesso livro e observo as minhas anotações, os meus sublinhados e surpreendo-me sempre com o que leio. Julien foi à sua maneira um místico, um homem dilacerado pelos prazeres carnais, em luta constante entre o divino e a sua condição humana frágil e comovente. Em 15 de Agosto de 1958 ele está de férias na Áustria com o seu amor Robert e a irmã Anne. Acorda a meio da noite sacudido por uma voz envolta numa luz que ordena faça as suas orações. Ele responde: “À cette heure, Seigneur? – Oui, je le veux, il faut obèir.” São inúmeras as passagens que o Senhor intervém na vida do escritor e que ele não hesita em as narrar.  

         - Dia de uma tristeza infinda, sombrio, cinzento, a chuva ora forte, ora miúda a mistura com o frio, salpicando as horas que pareciam incomensuráveis. As árvores agitaram-se por favor, em sintonia com o resto, o todo enfiado numa massa mole, adstringente. Os pingos que batiam nas vidraças, pareciam toques de salteador precavido; a luz coada pelas nuvens chegava envolta num segredo de baixo teor de certeza. Tudo aqui mergulhara num silêncio espesso, ninguém passou no caminho que atravessa o campo solitário. Mergulhado na escrita e na leitura, enchi as horas no remanso eterno de quem desconfia do que se passa fora de porta. 

         - Sonho já com o autocarro amarelo. Felizmente as bombas dos dois desmiolados que semeiam a morte e a desordem, a miséria e a incerteza, não furam o silêncio religioso que aqui se alonga. Atravessar o rio, olhá-lo com os olhos recuados da alma, remoer pensamentos, chamar ao instante amigos e momentos de felicidade, todo um mundo de recordações que a viagem me proporciona antes de alcançar Lisboa e ter escondido no fundo do Tejo a presença dos eternos ausentes.    


quarta-feira, março 18, 2026

Quarta, 18.

Eu já sabia da proeza que ontem vinha escarrapachada no Público. O facto é que com Donald Trump tudo é possível e nada nos espanta. Ou, talvez, sim. Esta. Nas reuniões na Casa Branca, o líder supremo, sentado no seu trono com os seus súbditos em volta, para descansar a mente de tanto magicar como invadir este ou aquele país, o estudo do que pode surripiar explicado num caderno escuro que nunca larga, pousou o olhar nos pés dos presentes e estremeceu: “hum... pés pequenos, zizis diminutos” pensou. Então teve uma ideia. Mandou perguntar ao seu grupo de entendidos em direito internacional, bombas de larga potência, secretários e ministros, chefes militares e agentes do FBI quanto mediam os seus delicados pezinhos. Ninguém estranhou tal pergunta e todos responderam sem questionarem a curiosidade do mais poderoso. Uma semana depois, Trump tinha um par de sapatos Florsheim, com dois números acima da medida de cada um. Logo foi como se, no momento em que calçaram os sapatos ao preço de 120 euros cada (nem acho caro, pois há muito que eu pago pelos meus da Massimo Dutti este valor) e em boa verdade também é irrisório para um homem com 20 cm entre as pernas que queira duplicar a sua masculinidade ficando com à altura do abastado octogenário que muito o utilizou a desflorar crianças com o seu amigo Jeffrey Epstein. Enfim, os EUA podem multiplicar as reuniões de Estado assim abastadas de conteúdo e dimensão sem que com isso o país perca a sua virgindade.  

         - Voltando à Améria, desta vez para falar de coisas sérias. Trump, o dono do mundo, pediu ajuda à Europa e a outros países para abrir o Estreito de Ormuz à circulação dos combustíveis, hoje e sempre controlado por Teerão. Teerão que parece invencível. Não obstante as bombas assassinas de Israel e Estados Unidos, o que se vai vendo é que o país estava há muito preparado para a guerra. A obsessão e ódio de Netanyahu em eliminar os seus dirigentes, de tão obcecado está, que nem pensa que por cada figura da república teocrática islâmica que mate, logo outra se ergue com o mesmo dinamismo e revolta de vingança. O controlo daquela mancha de água é tal, que Teerão dá-se ao luxo de deixar passar quem entenda e seja dos seus interesses. Quanto a Trump, naquele infantil modo de governar, logo veio dizer que não precisava do Ocidente nem da NATO. Ele e o corrupto e tirânico israelita, bastam para pôr ordem no mundo. O Presidente, na sua idiota maneira de governar, deixou-se enredar na rede criminosa de Netanyahu e seus fanáticos religiosos, servindo-se de mais uma mentira (como aconteceu no Iraque) que o país dos yatolis tinham para breve a bomba nuclear. Graças a estes dois loucos e fanáticos, o desarranjo mundial aí está a ameaçar-nos a todos para o terceiro conflito mundial.    

         - Ontem foi um dia em pleno. De manhã fui ao lavadouro tecnológico e de tarde tive aqui o senhor José Manuel e um vizinho com um tractor, ambos aplicados em pôr a quinta civilizada. Isto sob a urgência do anúncio da chuva para as 17 horas que, como um relógio suíço, começou a cair tal como os nossos meteorologistas previram. 



A chegada do tractor para levar o taralhoco do cepo para queimar. 


José Manuel, do alto dos seus 75 anos, a dar uma lição a todos os preguiçosos de hoje agarrados aos telemóveis como manjedouras caseiras. 

 
O lume sagrado que ficou pela noite dentro.