segunda-feira, junho 22, 2026

Segunda, 22.

Eu nunca confiei no plano de Trump e do seu gang para o Irão - as evidências aí estão a dar-me razão. Trump é refém da situação que criou, a sua derrota é por demais evidente. O Irão e seus dirigentes, têm mostrado ser mais sólidos, persistentes na concepção que têm do mundo, preparados para todos os infortúnios. Em certo sentido, a América depende deles nos interesses mundiais que estão em jogo. Quanto a Netanyahu, o seu grande amigo, não passa de um criminoso que vai necessitar de larga pedalada para escapar ao cárcere. A destruição da Faixa de Gaza, é inaceitável à luz de qualquer realidade palpável. O Holocausto devia servir de comparação e alertar as nações para a crueldade de uma guerra desigual que tratou os palestinianos de carne para canhão. Vexados há mais de meio século, circunscritos a uma língua de terra sempre e sempre vigiada, espécie de prisão a céu aberto, humilhados e desprezados, nunca conseguiram ser um povo feliz, com um território seu e uma vida digna. 

         - Voltemos a agulha. Hoje, sentaram-se no metro, perto de mim - à frente, ao lado, nas traseiras - uns quantos rapazes pelos vinte anos em calções, com pernas nuas garbosas. Logo me ocorreu Julien Green que sofria e fechava os olhos para não cair em tentação quando lhe tocava, nos dias abafados de Paris, cenas como esta. Só que, se avistasse este espectáculo da juventude encalorada à moda de Lisboa, não precisava de desviar o olhar porque todos eles abundavam de pêlos – um horror para o escritor. Decerto nenhum deles tem namorada, porque hoje, também elas, só se abandonam à lascívia, quando eles se apresentam depilados... 

 

domingo, junho 21, 2026

 Domingo, 21.

“Raramente se escreveu moção tão tola e tão recheada de lugares-comuns. Com esta moção, o presidente do PSD e actual primeiro-ministro tem um único objectivo: o afirmar que não quer governar com o Chega nem com o PS. Que quer governar sozinho, ora com um, ora com outro, na esperança de ser derrubado, a fim de obter uma maioria absoluta. A nulidade desta ambição só tem um equivalente o da mediocridade dos propósitos.” Assino de cruz este parecer de António Barreto acerca de Luís Montenegro e do congresso do seu partido que decorreu este fim-de-semana em Anadia. Do mesmo, saiu a aberração de nomear o Bugalho para representante do partido em Bruxelas! Nunca me constou que o Parlamento Europeu tivesse um deputado oficial dos partidos nele representados. Eu adivinho a razão: Bugalhito queixou-se outro dia, suponho que ao Observador, que ninguém o conhecia em Bruxelas... 

         - O Chega depois de muitas promessas e piruetas trolarós, votou contra o pacote laboral. Nas galerias do Hemiciclo estavam os sindicados em força a assistir. Quando o impensável aconteceu, as bancadas do velho edifício explodiram de contentamento e vitória. O que me comoveu, não foi o projecto ir por água abaixo, foi as lágrimas quentes e sinceras do dirigente da Intersindical, Tiago Oliveira. Aquelas lágrimas traduziam envolvimento, sinceridade, paixão pela causa que defende, humanismo. 

         - A extrema-direita em tudo igual à extrema-esquerda, tinha um plano montado para virar o sistema democrático que temos e um projecto na clandestinidade: Movimento Armilar Lusitano. Associados estavam grupos neonazis, bem apetrechados com arsenal de armas, dinheiro a rodos, treinados e distribuídos pelas redes sociais onde recrutavam pessoal para as suas causas. Era objectivo liquidar “os indesejáveis” – Marcelo Rebelo de Sousa, Cavaco Silva, Luís Montenegro, Ana catarina Mendes, António Costa alguns mais. À frente do grupo, há dois militares, um elemento da GNR e um fuzileiro da Marinha. Estes são suspeitos de fornecer armas e munições ao chefe da PSP envolvido no caso, e ainda terem entregado fardas camufladas. Quatro arguidos encontram-se em prisão preventiva. 

         - Estive no consultório do Dr. Octávio Simões a apresentar-lhe o resultado das páginas de exames a tudo e mais alguma coisa. Não falei, deixei-o analisar o que me havia ordenado fazer e mais o que a minha médica de família acrescentou. Confesso, nunca vi um médico tao feliz. Parecia que aquelas análises eram suas e a revelação da sólida saúde sem que um único parâmetro se desviasse do sagrado mens sana in corpore sano de Juvenal, lhe diziam respeito. 

         - A propósito deste excelente clínico. Há três meses que não tenho dores nenhumas e o meu coxear trouxe-me o brilhantismo dos meus vinte anos. Todo este orgulho, foi-me restituído pelo Dr. Simões. Coxinho, coitadinho ainda não virou o coxinho, coitadinho, velhinho. 


sábado, junho 20, 2026

Sábado, 20. 

Às vezes suspendo-me a admirar as paredes desta casa, as estantes a abarrotar de livros, os quadros suspensos de onde desce toda a amizade e simpatia dos artistas que admiro e com quem convivi, os móveis estrategicamente colocados para serem presença quase humana do meu viver, a atmosfera de sossego indispensável ao labor quotidiano, a mesa onde escrevo voltada para o campo de onde brotam as árvores, ternas amigas com quem dialogo e colho energias para esta solidão abençoada ramificada num lugar eterno onde elas e eu permaneceremos para a eternidade. O cheiro bafiento da riqueza nunca aqui entrou, só o conforto esteve presente desde o dia e ano em que deixei de viver em Lisboa e me revigorei no contacto com a natureza que desde logo me abençoou. Não foi fácil aqui chegar, duros foram os meses a acompanhar a construção deste refúgio, a lidar com os operários e, sobretudo, com os empreiteiros que me tentaram roubar obrigando-me a comprar tijolos, sacas de cimento, material que lhes serviria noutras edificações de casas, com lucro a dobrar. Investi sobre todos os desaires, só, montado no escudo invisível que não sinto no corpo, mas me asperge de coragem e motivação. Todo o interior não fora concebido pelo meu amigo arquitecto João Biancard que desenhou a casa durante os nossos jantares, mas sim por mim, passo a passo, à medida que ia vendo crescer estes muros, abrirem-se divisões, cantos e recantos. Aqui suprimi uma porta para levantar uma janela, acolá mandei fazer um sobrado para instalar parte da biblioteca, as casas de banho forradas a azulejo com pinturas assinadas pelo meu saudoso amigo Osório e realizadas nas oficinas de Sebastião Fortuna. Para as janelas e portas, andei com o mestre Fortuna semanas a fio, a correr seca e meca em busca de cantarias antigas que se ajustassem às suas dimensões. Quando o esqueleto da habitação ficou pronto e os pedreiros e os aldrabões dos construtores partiram, entrou o meu querido e pesaroso Fernando Fernandes com a sua equipa de deficientes de grau máximo, mandando eu vir do Brasil o soalho para o chão, portas, janelas e portadas que este excelente artista assentou, montou, afinou e que até hoje, já lá vão trinta anos, nada mexeu ou desajustou e se conserva inalterável em cor, fendas e brilho apesar do seu físico deformado, o pescoço que quase não mexia, as dores que propagavam durante o penoso ofício de carpinteiro. Na semana seguinte à cobertura das tábuas no chão do rés-chão e quartos no andar de cima, veio o envernizador, trazido por um sobrinho, em cadeira de rodas. Para o primeiro andar, o rapaz conduziu o tio nos braços e depois levava-lhe a cadeira e desse modo o trabalho maravilhoso que ele executou ainda hoje refulge no aprumo e rigor da sua assinatura. Quando Fernando Fernandes, deu por findo o trabalho e se preparava para se despedir, eu inventei outro afazer e ainda um terceiro e foi ele que me disse que tinha de abalar porque outros clientes esperavam por ele. No intervalo, andaram aí dois estucadores meio loucos, que num só dia despacharam as paredes da moradia. Entretanto, desde o começo desta aventura, tinham passado cinco meses. Surgia, então, um sítio só meu para habitar e um enorme espaço de campo selvagem, com vinha e árvores de fruto, que tive de deitar abaixo quando a nossa querida então CEE proibiu que se fizesse vinho fora dos circuitos comerciais e as oliveiras que me davam um azeite excelente, mandou fechar os lagares onde eu levava todos os anos a colheita das azeitonas. Quando um pintor meio doido acabou a pintura exterior e eu interiorizei que era aqui que viveria, fui tomado de um pavor indiscritível. Deixar o Príncipe real onde vivi uma grande parte da minha vida, era obra de um louco. Todavia, de cada vez que jantava com o João Biancard, ele repetia: “Quando começares a levar os teus livros para Palmela, depressa te instalarás.” Dito e feito. Com a ajuda preciosa dos Amados e dos seus empregados, que trouxeram na carrinha da empresa da qual eram sócios, estantes e móveis, e mais o auxílio dos meus sobrinhos e amigos deles, num ápice o interior ficou acolhedor e o seu proprietário recolhido no conforto que desde logo aqui reina. A seguir ao Verão instalou-se o Outono e eu fora agasalhado com uma manta de silêncio. No caminhar do tempo a casa, qual cofre inviolável, foi guardando delírios, serões de conversas sossegadas, loucuras, amores feitos e desfeitos, noites no respaldo de muitos cansaços engolidos pela opacidade das horas, pensamentos construídos no limiar de angústias, pedaços de palavras atiradas ao fogo que arde na lareira, e sobretudo, a pouco e pouco, ergueram-se novos alicerces que sustêm a memória, a recordação do que não morre, o sopro que alimenta a vida que me coube viver, plena no ser solitário e inteiro que sou, onde crepita nos momentos o desespero e renasce de recônditos lugares a esperança de dias plenos de luz. Adoro este espaço, os pássaros que me acordam, os ventos mansos e demoníacos, a fruta que me alimenta, a sombras das figueiras, a lonjura que me aproxima de quem de mim precisa, o silêncio que não pára de dialogar, o murmúrio dos segredos que nem às sombras se contam, aqui densos, límpidos, cheios da ternura que embala as horas, os dias, os meses, os anos. Serei eu de novo feliz na terra que me viveu nascer? Habitar uma padiola, circunscrever-me a um espaço restrito, sem vista que me abrace quando tanto anseio por me perder de mim, voar pelo espaço sideral, eclipsar-me num sítio onde reine a felicidade que as coisas simples impregnam de doçura...  

         - Vai por aí uma berraria medonha contra Ronaldo. O “maior jogador do mundo”, o “craque eterno”, o “português mais famoso”, que subiu da pobreza à luxúria pateta que o isola dos demais, porque o resultado do seu talento é-lhe roubado pelo peso dos anos que não poupa ricos nem pobres, todos irmanados na mesma condição. Neste infeliz país o futebol é uma espécie de pancada forte no toutiço de cada português; assim também eu fui obrigado a acompanhar o drama nacional. Acontece que normalmente vejo os noticiários da SIC. Esta, como todas as televisões, não falam de outra coisa senão do Mundial de Futebol e mais precisamente do resultado da partida Portugal vs RD Congo. Ao infeliz ricaço chamam-lhe tudo: avô, velhote, empecilho em campo, estorvo para os companheiros da Selecção, e outros vitupérios desagradáveis. Eu nunca fui seu fan, embora o tenha visto algumas vezes a atravessar a Largo do Chiado no seu automóvel vistoso, de música aos berros para que o mundo sentado na Brasileira o admirasse. Nunca apreciei o seu físico construído, pomadado, o ar provinciano que o dinheiro e o conhecimento de Donald Trump e dos príncipes das arábias não ousaram abrilhantar, é arrogante, vaidoso, e muito menos o sex-appeal que mulheres e alguns homens cobiçam. No entanto, o pobre madeirense, tem algumas características que aprecio: é trabalhador, apesar de já “velhinho” não se dá conta do ridículo daquele pendericalho que desce da orelha esquerda, não tatuou o corpo com amostras de tapetes chineses como os companheiros, chora quando se emociona, e decerto, interiormente, sofre por não ser mais o ídolo que o alcandorou ao lugar passageiro da fama. Dizem as mulheres que com ele se deitaram (penso na americana dona dos hotéis Hilton?), que foi uma decepção, mas isso deve ser ciúme de loucas varridas pelo vazio dos seus corpos saturados dos cheiros nauseabundos dos adónis masculinos...  



 

quarta-feira, junho 17, 2026

 Quarta, 17.

Em Castelo Branco um artesão que reparava todo o género de peças em madeira – velhas cabeceiras de cama, cadeiras de baloiço, molduras antigas... – foi notificado pelo novo proprietário do prédio que comprou uma enfiada de edifícios para os transformar em alojamento local, que devia sair da sua loja no centro da cidade. Logo uma multidão de albicastrenses se reuniu contra a especulação que permite pôr na rua o senhor Jorge Batista. A câmara vai analisar o assunto impulsionada pelo movimento “todos pela oficina do Batista”. Digam lá, caros leitores: então não é muitíssimo mais válido, curioso, humano, progressista até este acontecimento, que um ano inteiro de trabalho insano dos nossos moiros de cansaço deputados na Assembleia da República?

         - Luís Carneiro, além de lutar contra a corrupção que invade o PS, tem de enfrentar os pedronistas que imperam pelas federações do partido e defrontam as decisões do actual Secretário-Geral. Pedro Nuno Santos, dito de esquerda, não nos larga. A princípio pensei que ele tinha abandonado a política, mas depois como a falta de dinheiro é muita e a actividade de especulador imobiliário está a decair, voltou à Assembleia onde o ordenado é chorudo e as mordomias acompanham a vidinha airada de carros de marca, casas confortáveis e restaurante upa, upa. Bem prega frei Tomás: faz o que ele diz, não faças o que ele faz. Esta máxima, aplica-se a muitos militantes de esquerda que conheço: a ideologia só se aplica aos outros, eles mantêm a boa vida burguesa num claríssimo choque entre o que apregoam e o que fazem. 

         - Eu conheci quando entrei para o jornalismo, a maioria desta gente de esquerda que antes do 25 de Abril apoiei e andei de braço dado e estão de saída deste mundo. Todos pareciam pertencer secretamente ao PCP, quando na realidade, como mais tarde vim a constatar, eram democratas que queriam a democracia para o seu país. Hoje, são tratados de direita, porque os comunistas têm apenas dois lados de ver o mundo, a sociedade, a moral e os costumes: ou se é por eles ou contra eles. Endeusam o marxismo-leninismo que provou à saciedade o desprezo pelo proletariado, pese embora a ditadura que criaram em seu nome. Na nomenclatura (Nomenklatura) de Lenine, Trotsky, Estaline, Khrushchov, Brejnev e passo, nunca os trabalhadores tiveram acesso ou quando o tiveram foi fogo de vista. Eles gritaram por uma sociedade igual, sem ricos nem pobres, mas o que floresceu e floresce é precisamente o contrário e as sociedades capitalistas que eles combateram, acabaram por ser mais ajustadas aos sonhos dos trabalhadores e às suas lutas de progresso e bem-estar. Por uma e suprema razão: nos países comunistas, o cidadão de qualquer classe social, trabalhador, intelectual, proletário vive amordaçado e proibido de se manifestar. Aquilo Ribeiro, que andou (ou tinha fama disso) por aquelas águas ditas cristalinas, julgo que em O Malhadinhas, expõe-se desta forma: “Guarda-te de homem que não fala e de cão que não ladra, por isso eu sempre falei, falo e falarei franco até morrer, pois se nós temos pensamento, acautelá-lo da boca só por ronha ou cobardia.”

         - Está a decorrer o Mundial de Futebol. Que vergonha! Que engodo! Que tristeza! Que miséria! Aquilo de desporto não tem rigorosamente nada. O presidente da FIFA, rendeu-se ao lucro, ao fascínio do dinheiro, ao poder e aos triliões que lhe vão entrar por todos os lados. O conluio com os obsessivos capitalistas Trump à cabeça, que recebeu antecipadamente o troféu banhado a ouro com direito à transmissão da Casa Branca, e tem para sua glória o campeonato a realizar-se nos EUA, tudo aquilo tem cheiro nauseabundo a podridão, escravatura, subserviência, endeusamento de figuras insignificantes que andam atrás de uma bola convencidos que são os reis do mundo, quando não passam de pobres coitados que, embora bem pagos, são explorados por esquemas vergonhosos de indignidade humana. 

         - Por falar no louco. Donald Trump está em França em reuniões com os líderes europeus. Adora ser bajulado e quando tal acontece o discurso muda radicalmente. Chegou outro, dialogante, sorridente, próximo dos objectivos da Europa e até com um discurso humano ao afirmar não compreender o seu ex-amigo Netanyahu “quando para matar um tipo do Hezbolá, destrói um prédio e subjaz nos escombros várias pessoas”. Ele que nisso não pensou quando bombardeou uma escola no Irão e matou dezenas de crianças. Que maluqueira é a deste monstro a quem os americanos confiaram os destinos da América!

         - Nada escutei sobre o ataque à catedral de Kiev, cujo resultado foi este crime hediondo 

A catedral em chamas.
    
Uma das cúpulas no chão.









terça-feira, junho 16, 2026

Terça, 16.

Putin só conhece a lei da força. É tempo perdido andar a convocar reuniões, acordos, o fim da guerra. Ele só parará com a ofensiva, quando a Ucrânia o vencer. De contrário, é o que se vê. Anteontem fortes ataques a Kiev e outras localidades que destruíram o mosteiro histórico de Kiev-Pechersk e a catedral do século XI Património Mundial da Unesco sofreu grandes estragos. Além de pelo menos onze mortos e não sei quantos feridos. A UNESCO diz que a catedral é “obra prima da arte ucraniana”, que as suas grutas acolhem há vários séculos relíquias de diversos santos. Daí que o mosteiro ortodoxo seja também conhecido por Mosteiro das Grutas. Naquele dia os russos lançaram 70 mísseis e 611 drones. Vou citar De Gaulle. A guerra, dizia, “où l´homme rompt avec sont Créateur”. 

         - Estamos tramados. Com o mundo a ser dirigido por doidos de egos do tamanho da sua loucura – Putin, Trump, Netanyahu, Xi Jinping, o taralhouco da Coreia do Norte – assim como muitos outros em miniatura, mas nem por isso menos perigosos, tudo pode acontecer. Nem queria voltar à novela do Irão em cujo bolo de aniversário do prepotente pobre octogenário dos EUA, não coube no topo a assinatura dos dirigentes revolucionários iranianos, como ele tanto apregoou. Desta vez, ao contrário do que eu acho embora não tenha voz no assunto, parece que muitas nações entendem que dentro de oito dias o memorando de entendimento que ninguém conhece, vai apresentar as assinaturas que farão parar a guerra e abrir o Estreito de Ormuz. O curioso da mixórdia, que levou Trump e o corrupto Netanyahu a atacar o Irão – recorde-se a bomba nuclear – só vai ser assinado na segunda fase, isto é, daqui a dois meses! Entretanto, ao contrário da ordem dada pelo ex-amigo Trump a Netanyahu, este prossegue os ataques ao Líbano e Gaza situando-se, só no período de cessar-fogo, para cima de 4 mil mortos. 

         - Os suíços são um povo especial. A dita direita, propôs um referendo que limitasse a população a dez milhões de habitantes. Isto tendo em vista o número crescente de imigrantes que se instalam e por lá ficam. Contrariamente ao que o Partido Popular Suíço (SVP) ambicionava, os eleitores rejeitaram a sua ambição impositiva. 

         - Fui à natação. Estranhamente, à parte os velhinhos que dançavam na água ao som das canções de Carlos Paião, só eu me encontrava na piscina. 

 

domingo, junho 14, 2026

 Domingo, 14.

A semana que passou, foi levada em discussões, perdas de tempo, injúrias e hossanas na casa da balbúrdia em que se transformou o Parlamento. Nada daquilo contribuiu para que a vida dos portugueses se dignificasse, a democracia se fortalecesse, o futuro do país fosse mais promissor. Os nossos amargos políticos, formados não se sabe onde, levaram horas e horas uns a reivindicar bandeiras partidárias nos edifícios públicos, outros a arreá-las espezinhando-as no chão.  

         - Aquela coisa que dá pelo nome de Presidente dos Estados Unidos da América juntamente com o seu séquito mafioso, por celebrar hoje o seu octogenário aniversário, entende que o mundo deve estar de joelhos a agradecer-lhe tão divina vida. Assim, sem mais aquelas, exige ao Irão que comemore a data com a assinatura do acordo de paz que ponha fim à guerra que ele começou com o soldado raso Netanyahu. A pressão e tal, que até já se inventou uma resolução moderna, com assinatura electrónica e mais tarde a outra presencial. Mais honestas e credíveis, as autoridades iranianas não parecem convencidas e vão adiando o fim das hostilidades. A descrença em Trump é absoluta e ninguém parece interessado em confiar na sua palavra parlapatona.  

         - Temos sido muito mal governados e assim continuamos. Como podem os partidos quando são governo, exigir aos cidadãos que paguem a tempo e horas os seus impostos, coimas, serviços e passo, quando, como nos informa hoje o Público, eles devem 1,4 milhões em coimas!!! Sabemos porque o jornal deve ter os seus piões estrategos; de contrário nunca o saberíamos. Mais: as instituições competentes para denunciar o desaforo, escondem do povo quais os partidos e que importância cada um deve ao Estado, num claro desafio à falta de transparência exigida pela lei. Este país é uma choldra. Os políticos e os partidos estão claramente acima da lei. A réplica salazarenta está por todo o lado. 


sábado, junho 13, 2026

 Sábado, 13.

Aqui madruga-se. Desde logo para regar, depois para ir ao mercado dos pequenos agricultores em Pinhal Novo e depois para os pequenos trabalhos de dono de casa. E ainda bem que assim é. Porque com tantos afazeres a distâncias daqui, sou sacudido pelo acordar pesado dos tormentos que vêm da noite e se atiram inteiros ao começo do dia. Faz um calor medonho, estou de portadas cerradas, no lusco-fusco das salas, e assim o fresco espraia-se por todas as divisões. 

         - Ontem passei um dia agradável em Lisboa. Fui no autocarro com ar condicionado, regressei em idênticas condições. Almocei no C.I. um prato simples, mastigado sem pressas, os pensamentos volteando entre a mesa e o espaço quase vazio. Depois fui renovar o meu guarda-fatos há muito esquecido. Há anos que não compro roupa, preferindo esgotá-la até ser farrapo e notada por aquelas dondocas que adoram os farrapinhos e me alertam para as calças ou as camisas rotas. Porque o que visto tem duas épocas: a que levo a qualquer lado; a que fica até ser trapo e uso por aqui, casa e cafés, mercados e supermercados. Aconteceu um facto curioso. Andei em busca de camisas frescas e de meia-manga. Encontrei o que procurava e com duas peças dirigi-me à caixa para pagar. Qual o meu espanto quando a amável rapariga, de sorriso de orelha a orelha, me reclama 404 euros! Ia-me dando um fanico. Claro que recusei e só então me apercebo que o ricaço teve mais olhos que a conta bancária. 

         - Mais tarde, no pequeno café da Fnac, durante hora e meia, corrigi 15 páginas no romance. Momento sublime, suspenso do delírio da escrita que o tempo apagou de entusiasmos e ali se me apresentou no espontâneo do texto, como se aquilo que os meus olhos viam não me pertencesse. 

         - Nós tivemos vários Presidentes da República pós-25 de Abril de 1974. O primeiro cheio de militarizes agudas, depois o da austerize distante, a seguir o fanfarrão sedutor, depois o economicista azedo, pegado a este o trolaró simpático, e Seguro?  


quinta-feira, junho 11, 2026

Quinta, 11.

No caminho para o portão, tombou mais uma árvore bloqueando a saída. Não sei se ficara fragilizada quando da tempestade, se alguma ventania a tombou durante a noite. Não escutei vento que me pusesse de atalaia. Seja como for, acresce que o meu amigo espalha brasas está sem moto e vai ter que ser o filho a vir no fim da tarde desimpedir o percurso. Conclusão: eu que tinha um programa a cumprir em Lisboa, desmarquei tudo para ficar preso neste simpático convento. 

         - Leão XIV abençoou o sonho de Antoni Gaudí e a inebriante Basílica da Sagrada Família desprendeu-se em beleza ante os olhares deslumbrados dos espanhóis e turistas. O Papa tem sido acolhido com simpatia em todos os lugares aonde o leva a sua missão apostólica. Espanha, parece reconciliada com o Vaticano e Leão XIV não deixou publicamente de se indignar com os casos sexuais de membros da Igreja católica. Noto, todavia, que os usos canónicos vão mudando. Por exemplo. Onde é que dantes se via um Papa a ser abraçado por uma mulher no contacto físico que isso implica! 

           - Por aqui o espectáculo é o mesmo de todos os anos, só a beleza é sempre única.  


         

 


quarta-feira, junho 10, 2026

 Quarta, 10.

Optei por não deixar este monasterium. Aqui, como digo, há sempre muito para fazer e sou como que abraçado pelo silêncio que me preserva em movimento contra a minha vontade. Ser activo é não deixar morrer os instantes que sobrevoam os momentos que se liquefazem pela força da vontade ligada aos projectos que se inventam dentro e fora de nós. Por outro lado, a quietude, sendo irmã da consolação, carrega em si a soma de sensações, intuições, louvores que se irmanam entre si para fazer saltar as horas do cronónimo que as resguarda. No recolhimento somos ausência e presença, por dentro de nós perpassa um mundo que chega dos inícios da humanidade, paralisa-nos e incentiva-nos a descobrir o tortuoso caminho que juntos fizemos sem nunca nos desligarmos do que fomos somando em experiências - sofrimentos, dúvidas, silêncios, mortes e ressurreições. Fomos feitos para a contemplação, para a paisagem aberta que estende diante dos nossos olhos inquietos todas as interrogações que nos perturbam e dão sentido à movimentação da vida. Preenche-nos o que desconhecemos, o que almejamos e não encontramos na banalidade da vida solta, preenchida de pequenas coisas, enormes vazios, alienações e ousadias serôdias. Também fomos feitos para a felicidade, quando esta se aproxima no segredo das horas, ao lusco-fusco insinuante do horizonte, rasgadas as janelas de luz das madrugadas suspensas das alegrias virgens que povoam noites siderais e quedam o olhar perscrutando o fundo de nós mesmos – lugar onde só nós achamos os pontos cardiais. O vento, agita os ramos das árvores, sem paralelo com nenhum entusiasmo ou alvoroço humano. As árvores, dizia Hermann Hesse, são seres solitários e é nessa condição que partilham connosco as sombras protectoras, os silêncios habitados de histórias, os pensamentos desenvolvidos debaixo das suas frondosas copas, os sonos recuperadores para abraçarmos os dias de esperança. Isolados, somos impelidos a reinventar o melhor de nós, a pensar no supremo privilégio de havermos nascido para glória do tempo a provir. Devemos desconfiar dos que se agitam, dos que levantam a voz, dos que prometem o que sabem de antemão nunca poderão dar, porque simplesmente não conquistaram para si a solidariedade, não pararam para olhar o próximo, escravos da ganância de poder e serventuários da riqueza, egoístas e suspensos do fio tangencial como apregoam a felicidade. As palavras e os pensamentos, são o murmúrio ensurdecedor que enche as horas e o mar de silêncio que nos envolve na doce disciplina da solidão, da solidariedade que nos aproxima do outro – esse que se desdobra em nós e nos faz profundamente humanos.          

         - O PS está podre. Aos muitos casos de corrupção, junta-se agora o número três do partido, António Campos, acusando-o de múltiplas ilegalidades e compadrios.   

         - O Irão que Trump e Netanyahu dizem estar em falência de armamento, responde com soberba aos ataques que ambos lhe fazem. Voltou a acontecer ontem, quando bombardeado pelos EUA porque destruiu um helicóptero norte-americano no Estreito de Ormuz, responde com uma chuva de ataques a bases americanas no Bahrein e Jordânia. E ainda se deu ao luxo de prevenir os inimigos com uma “resposta severa”, caso prossigam as “agressões”. Quem assim fala, é a Guarda da Revolução. 


terça-feira, junho 09, 2026

 Terça, 9.

Ontem reabri o pátio para o Verão. Logo de seguida, mergulhei na leitura de Génesis. A dada altura, depois de Abraão se lamentar ao Senhor por a mulher Sara não lhe dar filhos, YHWH diz-lhe que os faça com a criada Hagar. Indo ele nos oitenta e seis anos, a criada deu à luz o seu filho Ismael. Algum tempo depois, o Senhor volta a aparecer ia Abraão em noventa e nove anos, e promete a Sarra dar-lhe filhos que acrescentem gerações e formem nações. Ela diz-lhe que dada a sua provecta idade, já não tem os desejos de então. Deus não se demove e o marido decide com o seu filho Ismael fazer circuncidar o seu prepúcio como o do rapaz. Muito do que a Bíblia nos inspira, foi posto de lado pelos positivistas para quem o conhecimento científico conta como exclusiva fonte de verdade. Mais recentemente a Ciência que recolhe da realidade o que vê, apalpa, suga. E nos nossos dias, o capital enquanto fonte de realização ou rejeição, poder e consumação do arbítrio sobre os demais. Contudo, o que há de fascinante é que os nossos antepassados acreditavam que Deus e só Ele, era capaz de tudo realizar. Como aconteceu com Sara que engravidou indo Abraão nos cem anos e deu à luz Isaac.   

         - Nos balneários da piscina, os velhotes nus e de sólidas barrigas de torresmos, discutiam a visita do Papa a Espanha. Um deles dizia: “O homem é americano, Trump, humm não me convence.” 

         - Voltei a pôr Seguro de quarentena. Ele está a comemorar o 10 de Junho na Terceira, Açores. Quando lhe perguntaram o que pensava sobre a Base das Lajes, descartou a pergunta, acrescentando que Portugal deve ter boas relações com a América e (para aliviar) com os países da NATO. Sim, o que Portugal necessita é de governantes fortes, como os de Espanha, França, Reino Unido e Alemanha. Há muito que devíamos ter deixado a subserviência, o temor, a falta de carácter. E lembrar-me eu que ele em campanha disse que devíamos pensar em renovar o acordo sobre a ocupação das Lajes. 

         - Verão curioso este, empurrado pelo vento forte e frio. Todas as manhãs, enquanto rego, estou enrolado num casacão de lã porque o frio assim o exige.  


segunda-feira, junho 08, 2026

 Segunda, 8.

Ainda não tenho opinião formada sobre António José Seguro enquanto Presidente da República. Contudo, aqui e acolá, surgem afirmações que começam a criar no meu espírito algo de consistente. Por exemplo. “As sociedades mais fortes se constroem (eu diria constroem-se) pela inclusão e pela capacidade de acolher.” 

          - No sábado fui convidado para um almoço. Acontece que pelas ruas de Lisboa havia arraial pelos direitos de LGBTI+. Nada contra ou antes pouco a favor. Gosto de festa, aceito o espectáculo de rua, mas não alinho muito com exibições deste tipo porque não acredito na sua eficácia conhecendo o que está na sua origem. São as mentalidades que há que mudar, a sociedade como um todo, e uma vez estabelecidos os direitos de cada um ser o que deseja ser, as leis serem cumpridas e admoestados os que as contrariam. Ponto final. De contrário, exposições como aquelas, são, no estado moral actual da sociedade, uma violência que contribui ainda mais para que as mentalidades não mudem. 

         - Está de novo incendiada a guerra entre Israel e o Irão. A noite passada violentas explosões em Telavive e Jerusalém, vindas de Teerão e dos seus aliados hiutis. São a resposta à política de Trump e aos bombardeamentos de Israel no Líbano. Os americanos deram o poder a um doido varrido e este pegou fogo em tão pouco tempo a uma boa parte do mundo. Para não falar nos danos económicos, artísticos, sociais que proliferam pelo Médio Oriente e se estendem ao resto do Planeta. 

         - Salva-nos o Papa Leão XIV. Em Madrid estendeu os braços a todos os infelizes que vivem ao deus-dará. O actor Antonio Banderas, foi ao seu encontro e disse-lhe: “Fui vítima do feitiço de Deus.”

         - De súbito, sabe-se lá porquê, sai da cartola dos resignados, uma voz que se ergue à proa da coragem e do bom senso: Francisco Guimarães. Ontem, no comentário da SIC que temos de gramar sobre o Mundial de Futebol, aquele comentador, afirmou sem pejo, que começa a ser hora de pôr Cristiano Ronaldo no armário, de modo a que a equipa como um todo possa libertar-se da vaidade daquele seu membro e vencer. 

         - A necessidade da escrita em mim, é tão emocionante como a existência de Deus. Esta, porém, fragiliza-me e fortalece-me ao mesmo tempo. A verdade é que, tudo o que diz respeito a Deus, deixa-me emocionalmente de rastos. 

         - Fui ao Chiado desfazer-me do que havia feito no sábado: trocar por um número acima calças e camisas. Não porque tenha engordado – mantenho os meus clássicos 64 quilos –, mas porque não gosto de roupa assertoada não vá os olhares indiscretos possuir o meu elegante corpinho... 


domingo, junho 07, 2026

 Domingo, 7.

Os temas acumulam-se no decorrer dos dias. Todavia, alguns há que ficam a martelar-me a mente por dias. É o caso da morte de Henry Nowak que morreu por assim dizer nas mãos dos polícias que o algemavam. O jovem tinha sofrido ferimentos nas pernas e um golpe no coração e gritava que tinha sido esfaqueado, mas os agentes londrinos não deram crédito ao que ouviam. Tratou-se um acto racista que ocorre cada vez mais por todo o Reino Unido. E não só em Inglaterra, também entre nós. Há duas semanas, no Porto, três meliantes pelos vinte anos, atacaram um marroquino deixando-o em estado comatoso. Cá como por este mundo fora, as novas gerações parecem mais violentas, desumanas e capazes de actos bárbaros inqualificáveis.  

         - O Papa Leão XIV chegou a Espanha em missão apostólica. Hoje, na Praça Cibelis, Madrid, rezou missa para mais de um milhão de fiéis. Dali irá celebrar idêntica cerimónia a Barcelona, à catedral do visionário Gaudí que está praticamente pronta segundo os desenhos que o artista deixou. Segue-se as Canárias. São oito dias em terras de Espanha, quinze anos depois de Bento XVI ali ter estado. As relações entre a Igreja e os espanhóis, durante este longo interregno, não têm sido muito cordiais. Estão na base os abusos sexuais que inundaram a Igreja e que os espanhóis, fervorosos crentes, não aceitaram. A Basílica da Sagrada Família, que eu visitei demoradamente com os Amados há uns anos e me deixou perplexo ante a loucura de um empreendimento que parecia impossível de realizar, terá a bênção do Sumo Pontifico, e do que vi na televisão, os espaços que percorri, as zonas então em duros trabalhos, oferecem pelas imagens um espaço cheio de luz, jorra luz do alto de todos os pontos da basílica e a nave central parece abraçar o cume com as suas torres em flecha. Terei eu a possibilidade de ver aquele Paraíso Terreal que a obstinação do artista levou muitas gerações a realizar?  

         - No país em que nos transformámos, ter resiliência ou ser resistente, na forma como são usados estes substantivos, denunciam uma única palavra: ignorância. 

         - Dizia eu ao Alexandre que tinha dado instruções ao Simão para me vender a quinta, e logo ele como anteriormente Filipe: “Voltar para Lisboa como ela está?!” 


sexta-feira, junho 05, 2026

 Sexta, 5.

Eu se tivesse que entrevistar Donald Trump, far-lhe-ia esta simples pergunta: por que razão não pode o Irão ter a bomba nuclear e os EUA podem? Decerto que a resposta viria na forma de um soco em cheio na minha ousadia. 

         - Uns quantos manifestantes da minoria trabalhadora que desceu à rua contra a reforma laboral, envolveu-se em agressões com a polícia. Não acredito que sejam adeptos da CGTP, mas tipos a soldo de outras organizações misteriosas. Seja como for, o que mais uma vez se viu foi que o PCP através do seu braço direito sindical, determinou a política ideológica e a propaganda sectária habitual. Se para nosso azar algum dia ele fosse governo, a maioria dos que desceram à rua anteontem, seriam obrigados a ficar em casa, amordaçados. 

         - O pobre do Sebastião Bugalho que vive em Estrasburgo à grande e à francesa como deputado europeu, queixou-se ao Observador “aqui ninguém me liga nenhuma”. Pudera! Que importância terá um deputado taxado por baixo como a maioria dos que ali estão em corpo presente? A importância que o sujeito pensa ter, só funciona num país pequeno, onde quem tem olho é rei. Aqui imperam os doutores analfabetos ou com o liceu tirado à tangente, os “comentadores” políticos falatando sem ganharem um tosto nas televisões (na rádio são mais os “especialistas”), assim como essa arraia miúda da recente leva de jornalistas. Não tem conta o número de vezes que estive em Estrasburgo, e nunca por um segundo tive curiosidade em ir visitar o Parlamento. Cruzes! Bastava presenciar os nossos deputados nas esplanadas e restaurantes da cidade, escutá-los nas conversas chulipas, com aquele ar provinciano de quem se sente acima dos demais.


quinta-feira, junho 04, 2026

 Quinta, 4.

O colunista do Público aqui tantas vezes citado, Sr. José Miguel Tavares, não deve ler-me e faz muito bem. (A propósito, ontem, em mais um documentário da SIC sobre as prestidigitações de José Sócrates e os milhões que nunca o largaram, embora nos queira baratinar que vive da reforma de 2.200 euros, menor que a do João Corregedor que apenas foi deputado, falou do figurão na sequência do livro que escreveu sobre a personagem romanesca. Há muito que não o via, e foi para mim uma surpresa observar como os anos lhe assentam bem, tornando-o menos feião e até o lábio superior se arredondou um pouco enquadrando um rosto com os óculos modernos que no-lo devolve airoso.) Bref. Ele acrescenta ao que eu aqui anotei ontem, uma série de dados que confirmam a minha visão da nossa vida partidária. Há muito que para mim a CGTP é contra-poder, que serve em primeira instância o PCP de onde emanam as ordens e a liderança da central sindical. Cita as numerosas greves gerais nos governos PSD, algumas no PS e nenhuma quando da “geringonça” de ma memória. Escreve: “A perda de força do eleitorado do PCP traduziu-se num agravamento da sua luta política através da CGTP.” E vai mais longe: “O sindicalismo no sector do Estado é o lugar que resta ao PCP para fazer prova de vida; um dos derradeiros resquícios das conquistas revolucionárias que perduram até aos dias de hoje.” Não podia estar mais em sintonia. 

         - Por falar  na peçonha. Acabei de pagar com língua de fora o “imposto Mortágua”. 

         - Recuso-me a trazer hoje para estas páginas os desaires do mundo, os loucos que o governam, as injustiças que se praticam, as guerras que proliferam, os mortos que não cessam de aumentar na Faixa de Gaza, Líbano, Ucrânia, Rússia, Irão, Sudão e passo. 

         - A surpresa, à mon âge, de acordar a meio da noite incendiado de desejos!


quarta-feira, junho 03, 2026

Quarta, 3.

Já passaram nove meses sobre o acidente no elevador da Glória. Como eu na altura previ, ainda não há culpados e o julgamento é uma quimera. Entretanto, as vítimas chegam-se à frente e pedem milhões de euros à Carris. Não é preciso ser-se entendido em nada de especial - basta observar a sociedade onde estamos inseridos. 

         - Viver até aos 150 anos! Os cientistas americanos andam a tratar disso. Dizem-nos que é possível e em boas condições de saúde. Nada que não tenha já sido norma. Se lermos o Génesis, encontramos as nossas origens com vidas mais do que centenárias. Por exemplo. Adão viveu duzentos e trinta anos, o seu filho Set duzentos e cinco anos, Abraão tinha cem anos quando lhe nasceu o seu filho Isaac. Toda esta geração na qual assenta a nossa, vivia centenária. Os americanos não estão interessados na universalidade, estão de olho nos poderosos endinheirados que já hoje despendem fabulosas fortunas em retoques, alimentação, arranjos físicos e assim. Vladimir Putin é um deles. Na realidade nota-se quando anda. Olhando-o de face, há nele uma espécie de múmia ambulante que não pode desafiar os instantes, antes movimentar-se na tibieza da vetustez que o espreita. 

         - O país paralisou? Talvez. Mas não foi decerto porque a maioria dos trabalhadores pararam por convicção. Parou porque os funcionários do Estado – professores, médicos e enfermeiros, pessoal dos transportes – impediram que os restantes saíssem ao encontro do quotidiano habitual. A CGTP (a UGT desta vez não aderiu) controla o funcionalismo público, faz o trabalho que o PCP já não consegue fazer por descrédito nas mesas de voto e, por conseguinte, no Parlamento. Que os portugueses ganham miseravelmente, é um facto que ninguém contesta e serve às mil maravilhas à esquerda como propaganda de ascensão. Mas se virmos como vivem os trabalhadores na Rússia, Coreia do Norte, Vietname ou China, temos a cópia do que seria entre nós se vivêssemos sob a sua alçada. Com este particular: teriam de baixar a cabeça ou seriam presos. Por outro lado, quem está na origem da pobreza e da humilhação de metade da população a viver nas condições que se sabe, é o PS e o PSD enquanto partidos que têm governado Portugal. São estas verdades que eu aqui, modestamente, não deixo de alertar. Exigir menos pobreza, mais cultura, saúde, habitação é uma questão humana que devia pertencer à dignidade que se exige e ao equilíbrio que devia imperar em qualquer país. Com esta ou aquela ideologia, com este ou aquele sistema político. Quando as esquerdas reivindicam estes princípios e com isso querem ganhar terreno, não é o ser humano em si que os impulsiona, são apenas os objectivos do poder, porque ali chegados, nada nos garante que seríamos mais humanos e solidários e equilibrados e democráticos. Muito pelo contrário. Uma pequena imagem tivemo-la com a “geringonça” de que hoje sofremos. 

         - Esta lindíssima foto que não resisto a publicar, é um pernilongo juvenil da autoria de Afonso Bernardino, capturado na Figueira da Foz e largamente premiado.  



 

terça-feira, junho 02, 2026

Terça, 2 de Junho. 

Ontem passei todo o santo dia em Lisboa. Comecei no Centro de Saúde apresentando à Dra. Vera Martins a talega de exames para apurar o que me aconteceu, dia 21, do mês de Abril. Como eu previra, o coração está intacto, o cérebro não tem um beliscão, nas análises não há uma que mostre desvios ao corpo são e immaculatus. Foi o que eu sempre imaginei e atribui o sucedido a problemas de estômago pois uma semana antes andei cheio de flatulências e incómodos. Todavia, para apurar um pouco mais, a minha ilustre médica quer que eu faça uma radiografia às carótidas na sua função de levar o sangue do coração ao cérebro. Assim farei. Entretanto, vou ouvir o Dr. Octávio Simões que passou a ser o meu clínico contra os desvios sumptuosos do SNS.

Esta imagem parece uma pauta musical, uma sinfonia onde não há um acorde dessincronizado. Mas não é - não passa de um simples ECG do meu bravo coração. 

         - Almocei no meu saudoso 1900 e daí desci ao Chiado para cumprimentar os rapazes da Brasileira. Detive-me pouco tempo naquela catedral de encher os bolsos, numa tarde de calor abafado, com grande azáfama para acudir aos infelizes turistas esmifrados até ao tutano. Continuando a descer, detive-me um pouco antes do centro comercial, diante de um prédio onde funciona uma loja de inutilidades, devido a multidão de gente que com os seus telemóveis filmava uns tipos que apareciam às varandas do edifício. Perguntei a um transeunte o que se passava, ele informou-me que eram os jogadores da selecção que estavam no interior. Respondi in petto: “Horror, horror.” Depois percebi que toda aquela patetice era uma acção de propaganda ao estabelecimento tendo por engodo os heróis nacionais. Bref. Que país! 

         - Para amanhã anuncia-se uma grande greve nacional. A ver vamos. O que se nota é que o PCP apostou todos os seus três por cento no acontecimento. Os trabalhadores e o povo, parecem absortos aos jogos de poder, embora eu ache que Montenegro anda a medir forças com a oposição, em vez de governar. De qualquer modo, a coisa até vem a calhar com o feriado de quinta-feira e o Verão a brilhar de Norte a Sul. 

         - Fui à natação. A par daquela outra que julgo ser ucraniana e põe sempre músicas de Carlos Paião durante a hidro-ginástica dos velhinhos coitadinhos, existe uma portuguesa de gema. Esta controla-me. Da última vez, quando ia a sair, diz-me: “Hoje sai muito mais cedo.” Esta manhã, voltou a abordar-me: “Chega mais tarde que de costume.” Sorri-me com os dentes que possui e eu contraponho: “Anda a controlar-me.” “Eu sou uma grande controladora.” Que quererá dizer este charabiá? 

 

domingo, maio 31, 2026

Domingo, 31.

Diz José Luís Carneiro a propósito do terramoto no PS com a prisão e posterior liberdade condicionada dos quatro tubarões do partido que se enlamearam em dois milhões de euros com esquemas fraudulentos, os militantes “é bom que tenham consciência que quando desempenham funções em nome do PS estão a representar uma massa humana de muitos milhares de pessoas, são quase 100 mil militantes e estão a representar muitos simpatizantes por todo o país” referindo-se à operação Imergente da PJ. Compreendi. A moral e a ética só se aplicam aos militantes dentro do seu partido, fora enquanto conduta de todo o ser humano, não. 

         - Hoje tive a honra de assistir à missa directamente da Madeira. A celebrá-la o nosso profissional da fé, padre Tony. Entrou pela porta do fundo, muito engalanado, de cabeça erguida, sorriso feliz, relógio num pulso e no outro uma bracelete, a calvície lustrada, a palavra rendilhada, de peito feito e sedução q.b. O que um diocesano tem de ultrapassar para chegar a Deus! 

         - Ontem, tendo terminado os arranjos do texto nas 100 primeiras páginas do romance, comecei a imprimir as restantes. Acontece que há muito não pegava nele e já não me lembrava até onde ia a história de Ana Boavida. O tinteiro esgotou-se na 263. Vou ter um trabalho imenso para reler o conjunto de forma a reencontrar-me com a minha heroína. Um romance é uma prisão onde vivemos perdidos e atarantados.    

 

sábado, maio 30, 2026

 Sábado, 30.

A política portuguesa é fértil em cantilenas. Não há semana nenhuma que os senhores políticos não encontrem uma forma de fugir aos problemas que afligem o “nosso povo”, entretendo-se com fait-divers que lhes dão um tesão vertical (desculpem o vernáculo, saiu assim, assim ficará. Que, de resto, também tenho direito se tivermos em conta aquela de Passos Coelho “políticos prostitutos”.). Aí temos mais um. O recente eleito ministro da Administração Interna, Luís Neves, foi buscar o major-general Paulo Viegas Nunes para presidir ao SIRESP de má memória e pouco préstimo. Acontece que este senhor, tinha ocupado o cargo entre 2023-2024 quando António Pombeiro era secretário-geral adjunto do sistema e o acusa agora de graves irregularidades e António Costa (lá vem ele) de triste memória governava o país. António Pombeiro, que não havia gostado das falhas monumentais do readmitido major e, inclusive, aponta-lhe muita corrupção quando exerceu o cargo, demitiu-se em protesto acusando-o de manobras de toda a ordem expostas na praça pública. Acode Luís Neves dizendo estar consciente dos relatórios, documentos e acusações que envolvem a gestão do SIRESP ao tempo daquele que voltou, mas garante que nada se apurou que pudesse impedir a escolha de Viegas Nunes. Também José Luís Carneiro veio em seu auxílio afirmando que só tinha louvores para a honestidade e desempenho técnico do major-general quando ocupou o cargo hoje preenchido por Luís Neves. Pelo exposto, vamos ter lengalenga por semanas. Vivemos no Portugal dos pequeninos. Eu que nada tenho a ver com o assunto, inclino-me para dar razão a António Pombeiro. 

         - Contudo, todavia, a praga António Costa não nos larga. Na Operação Imergente empreendida há dois dias pela judiciária, há um sujeito de seu nome Duarte Moral (imagine-se com este apelido) veterano da máquina política do PS, assessor daquele que secretaria a Presidente da União Europeia e recuperado pelo actual secretário-geral do Partido Socialista para o núcleo duro do partido, foi detido por alegadas contratações por ajuste directo feitas à empresa de comunicação de que o actual assessor do PS é sócio, Diálogo Emergente (daí decerto o nome dado à operação policial). Ele e o autarca de Santa Maria Maior, um velhinho respeitável, estão no centro das pesquisas levadas a cabo por um grupo grande de inspectores. Estes dois homens, são testa de ferro do PS, pois há muitos anos que varrem todos os obstáculos que se abrem na frente socialista. As negociatas rondam os dois milhões de euros. Bem pode José Luís Carneiro dizer que o PS não está a ser acusado de nada, o facto é que ele está no centro do vulcão. Transcrevo o Observador: “No caso de Duarte Moral, o foco está nos contratos por ajuste direto ao assessor político, que tem décadas de ligação ao PS (na órbita do qual trabalhou grande parte da sua vida) e, por isso mesmo, contactos e conhecimento profundos na estrutura do partido. No de Miguel Coelho, a investigação centra-se na forma como exerceu poder autárquico em Santa Maria Maior e sobre decisões de contratação tomadas nesse cargo. Pelo meio, José Luís Carneiro, o líder socialista que escolheu Moral para o seu gabinete, viu Coelho ser um dos seus principais apoiantes internos e é agora obrigado a gerir politicamente o impacto de uma investigação que atinge em cheio o partido.” Mais uma vez se prova que os grandes desastres, os atrasos, a pobreza, a falta de ética, o retrocesso civilizacional, a corrupção que nos empobrece, a saúde que em vez de nos tratar mata-nos, são obra destes dois partidos que em conjunto têm (des)governado Portugal. 

         - Faleceu o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin com 104 anos. Devo-lhe muito. Durante a adolescência li-o sofregamente e nunca o deixei de acompanhar. Até ao fim da vida, conservou-se lúcido e ainda há pouco tempo a sua voz se ouviu acerca da guerra e das novas tecnologias. 

         - Voltei no serão de ontem a admirar a obra notável de Françoise Gilot. Como estamos neste Verão antecipado, aqui deixou esta janela voltada para o mar. 




quinta-feira, maio 28, 2026

 Quinta, 28.

Eu já tinha sido prevenido por um leitor que vinha aí uma chuva de buscas – e elas aí estão às autarquias e juntas de freguesias socialistas, inclusive, à sede do Partido Socialista, no Largo do Rato. É tudo a roubar e deste modo o dinheiro não chega onde o espera os desesperados da pobreza, da saúde, do ensino, de uma vida digna. Eu sempre disse que os socialistas adoram a riqueza, o penacho, a vidinha de frente para a ideologia e a outra na retaguarda bastante mais sedutora.  

         - Ontem, imprevistamente, sentei-me no sofá, pus um disco de José Afonso, depois outro e ainda um terceiro, enquanto folheava pela enésima vez a fabulosa monografia de Françoise Gilot que o meu saudoso amigo Francis me havia oferecido. Há muito tempo que não ouvia a voz do Zeca como era conhecido entre amigos. Voz soberba, melodiosa, temperada da doçura que envolve a melodia e o poema e fica a pairar por entre os assomos que se estendem pulsantes nos finais da poesia bem construída. Não fui seu amigo embora nos tivéssemos encontrado algumas vezes. Correndo o risco de me repetir, lembro o nosso primeiro encontro, em sua casa, aqui em Setúbal, numa noite de Verão, espojados no sofá da sala, em conversa amena sobre o que pretendiam os estudantes universitários nessa altura em luta contra o sistema. Zeca dizia-me não os compreender e eu respondia que não era preciso perceber, mas aceitar o inconformismo enquanto arma que repõe o movimento, empurra as ideias para a frente. A Zélia sua mulher, entrou com um tabuleiro de comes e bebes que ela e a Graciete haviam preparado na cozinha. Esta mais conhecida por Cétinha, era minha grande amiga e fora ela que me tinha convencido a pegar no carro e rumar à cidade sadina para um serão com o casal. Retornarmos noite alta, eu particularmente satisfeito por haver conhecido a Zélia, pessoa excelente, doce, clara de ideias, de quem se gosta ao primeiro aceno de cordialidade. Muito mais tarde, tornei a encontrar o Zeca no consultório do médico dentista, na Lapa, Dr. Eurico de Freitas. José Afonso já atacado pela doença que lhe paralisava os movimentos. Enquanto esperávamos para ser recebidos, conversámos sobre a situação política, observando eu a diferença entre o serão em sua casa e aquele momento que parecia vir de um mundo opaco de sombras. Muito mais tarde, vi-o no Coliseu dos Recreios, já com a doença muito avançada e pude constatar a mudança ideológica profunda que se produziu nele. A partir daí já não o segui por ele ter passado para as extremas das extremas do espectro político. É verdade que no tempo do fascismo, todos os que se lhe opusessem eram apelidados de comunistas. O 25 de Abril veio repor a situação e as sucessivas eleições acabaram por os reduzir a 3 por cento. 

         - “Vamos rebentar com eles” – linguagem de canalha utlizada por Trump ao referir-se ao ataque que quer levar a cabo no Irão. 

         - Voltei à piscina e depois desci à ribeira tecnológica para lavar alguma roupa. Não quero outra coisa. Não só porque é mais baralho em água e electricidade, como tudo vai tão depressa que mal bebo um café no pequeno bar do supermercado, logo a voz da lavadeira me chama para a recolha. 

         - Curioso. Há muito não me acontecia passar a semana inteira sem ir a Lisboa. Neste retiro religioso, tenho avançado com o romance parado há uma data de tempo, leituras e afazeres vários.


quarta-feira, maio 27, 2026

Quarta, 27.

O terno espalha brasas passou aí as primeiras horas da manhã. Para o receber, tive de acordar antes da sete de forma a evitar-lhe penosas horas ao sol. Bom. Veio lacrimoso, desabafando a sua tristeza pela morte de uma prima. Como não posso ver ninguém chorar, abracei-o dizendo-lhe que ela está melhor que nós e lhe rezasse pela alma. “Não sei rezar, a minha mãe dizia pra mim o Pai-Nosso.” Levou o tempo a carregar para debaixo do alpendre a lenha que nasceu do abate das árvores que tombaram quando da tempestade. Depois, pedi-lhe que arrancasse pela raiz os rebentos dos sobreiros que se multiplicaram por toda a quinta. É um trabalho que nunca mais finda com as despesas inerentes. E, contudo, isto é tão fascinante!  

         - Estive a observar Luís Montenegro quando falava no Norte sobre o seu Código do Trabalho. O homem, perdão, sua excelência, está muito diferente quando comparada com o primeiro ano de governação que eu tanto havia apreciado. Engordou, exibe já umas bochechas que lhe deformam o rosto, o sorriso tornou-se mais rígido, fala pelos cotovelos, numa ária em tudo idêntica ao PS de António Costa e ao Chega inchado de “principal partido da oposição”. Mas o que diz é básico, não há uma sustentação de pensamento, uma frase filosófica, um sentido de inteligência. É aquilo e ponto final.  

         - O país real, do lado da classe política, prossegue chafurdando na corrupção. A Polícia Judiciária tem mais um caso a acrescentar às centenas de outros. Anda tudo a roubar e daqui a nada, os milhões furtados por Sócrates, são trocos de pouca importância. Desta vez, foi a Águas de Gaia com suspeitas de uma enorme aranha económico-financeira, no valor de oito milhões. Estão em causa vários crimes, incluindo corrupção, branqueamento de capitais, abuso de poder, numa mixórdia entre dirigentes públicos e empresários. 

         - As parlapatices de Trump não têm fim. Numa hora crê que levou a palma sobre o Irão, noutra larga bombardeamento sobre o país dos aiatolas. Enquanto isso, diz que o cessar-fogo continua. Torna-se evidente que é o Irão dos revolucionários islâmicos que pratica a inteligência, a honorabilidade, e conhece a ciência política onde o Presidente dos EUA é ignorante. A mim o que me surpreende e faz pensar, é como uma democracia estabilizada ao longo de mais de um século, pode manter e dar poder absoluto a uma só pessoa que pôs de lado as instituições, as leis, a práxis política praticada por Cícero, profundamente pensada e elaborada pelo político-filósofo no seu refúgio de Túsculo.  

         - Por aqui as temperaturas andaram ontem a roçar os 40 graus. Saí para ir nadar e esse exercício, vá-se-lá-saber porquê, foi possante de força, alegria íntima, satisfação plena. Continuo sem dores nas costas, caminho com o pensamento e andar postos nos meus vinte anos, naquela atitude de quem não se lembra das dificuldades físicas e cresce ante o desafio dos dias na plenitude da vida. Amém. 

 

segunda-feira, maio 25, 2026

 Segunda, 25.

A moda das flotilhas de misericordiosos rumo à Palestina veio para ficar. Mas, desta vez, teve um grande mérito: abanar a hipócrita e ronceira União Europeia. Isto porque o básico governante ministro de Netanyahu, Ben Gvir, entendeu deleitar-se com os 430 activistas detidos, algemados, todos a monte, de cócoras com a cara no chão, e de tão divertido filmou a cena às gargalhadas com a bandeirinha israelita a acenar ao vento num gozo de troça nunca visto. Vai daí, a Itália, França e, imagine-se, até Portugal, formalizaram um pedido à UE para a discussão de sanções económicas a Israel. Até aqui, os 27 estados-membros, nunca tinham dado pelos horrores praticados em Gaza, no Líbano e mais não sei onde. Agora que pessoas da União Europeia se insurgiram e foram maltratadas e humilhadas, é que notaram que Israel com o corrupto primeiro-ministro à frente de um governo de ultras, matou 75 mil palestinianos e para cima de 3 mil libaneses sem falar na destruição criminosa de dois países independentes. O mais incisivo, ele que não tem conhecimentos corridos do que se passa para além da fronteira portuguesa, e tem tido uma presença obscura por onde nos representou, falo de Luís Montenegro, defendeu a suspensão parcial do acordo comercial com Israel! Eureca! Se uma tal proposta tivesse chegado da Espanha ou da França, vá que não vá. Agora de Portugal e ainda por cima do primeiro-ministro...   

         - A gente vê e ouve e de cada vez que vemos e ouvimos, é para registar que desta vez foi mais forte, houve mais mortes e destruição.  Refiro-me à guerra entre a Rússia e a Ucrânia. A noite passada, Putin, ordenou o uso de um míssil hiper-sónico que ao chegar a Kiev se divide em várias direcções, causando mortes e destruindo as zonas do impacto. A capital parece ter sido o alvo e já vão quatro anos de uma guerra que o ditador pensava terminar numa semana. 

         - Comecei as regas e ainda a quinta não saiu dos horrores deste Inverno. Glória à hortênsias que começam a exibir a sua beleza em cumprimento a quem se aproxima de casa. 


domingo, maio 24, 2026

 Domingo, 24.

Mais um atentado que visava Donald Trump ocorrido em frente à Casa Branca. Se ele não deixa um só dia o mundo sossegado, um ou outro habitante cheio de ódio, tentará liquidá-lo. Este parece ser o seu destino. 

         - De facto, o mundo parece estar à beira do abismo, num estado comatoso. Pela África já de si abastada de guerras, fome, migrações forçadas, pobreza extrema, chegou agora em força o Ébola. Nestes últimos dias morreram no Congo para cima de 175 pessoas e o vírus parece estar a propagar-se falando-se já em Angola e noutros países africanos. Com o Mundial de Futebol à porta, as equipas africanas vão estar sujeitas a isolamento à chegada aos EUA onde o acontecimento tem lugar. 

         - O PS aparenta estar à frente nas intenções de voto dos portugueses logo seguido do Chega. Ufa! Livramo-nos do Costa e se isto se confirma será que o iremos ter em dose dupla, sabendo que o Chega não existe enquanto partido estruturado, credível e honesto! Até porque não acredito que António Costa faça o segundo mandato como Presidente do Conselho Europeu. Para além de levar a pasta da Presidente da União Europeia, não lhe reconheço saber nem conhecimento que lhe permita continuar no posto. Salvo se, como aquilo é decidido entre eles, ele que diz ser um “político”, consiga baratinar os colegas – nisso ele é impecável.  

         - Estou sem televisão. Que beleza, que silêncio, que paz! Terei de mandar chamar um técnico, mas como me encontro tão bem assim, dia para dia deixo-me resvalar na doce ausência do barulho, da mediocridade, do fala-barato, dos tristes e abundantes comentadores, dos políticos no seu português de bairro de lata. 


sexta-feira, maio 22, 2026

 Sexta, 22.

Chegaram-me hoje os resultados dos exames efectuados no início da semana. Tal como eu previra, o meu cérebro continua aquela máquina de excelente forma e actividade. Idem para o coração e as análises são de um jovem em princípio de vida activa. O acidente que tive na Fnac, não passou de um desafio do estômago afogado de ar, oito dias de flatulência que encontrou no desmaio seguido de vómitos a sua libertação. Decerto é isto que me vão dizer os médicos Dra. Vera Martins e Octávio Simões que me assistem. Já suspendi a Aspirina do tamanho de uma mosca, que o Dr. Simões para prevenir algum acidente, me receitou. Resolvido este problema, vou atirar-me a conhecer a razão que me leva a fechar o olho direito quando há demasiada luz e quando leio. 

         - Os nossos políticos saem da mesma matriz como se tivessem sido feitos por vazos concomitantes. É o caso do actual Presidente da Assembleia que é igual a Luís Montenegro, igualíssimo a Leitão Amaro ou Rita Júdice. Todos tiveram uma vida airada no domínio dos negócios que, como se sabe, são por sua vez a cadeia de ligações fervorosas que nunca se perdem e constantemente se ajustam, daí que aqueles senhores lutem contra o excesso de transparência que dizem existir em Portugal. Basta ver a pregação de Aguiar-Branco no 25 de Abril e compará-la com o modus vivendi do senhor. A ele custou-lhe ter de registar os apartamentos que possui, ao ponto de se ter esquecido de o fazer conforme a obrigatoriedade de quem acede a funções públicas. 

         - Assim me parece. Vai pelo mundo uma onda de abandalhamento no que toca a honestidade e missão cívica daqueles que exercem cargos politico-governativos. A coisa vem de Trump que deslassou a ética, criou a mentira em cadeia, a sobranceria, a ideia de que o poder só a ele pertence. Chegados ao poder, tudo lhes é permitido, pouco ou nada lhes é impeditivo; agrupados em partido, o país está muitos degraus abaixo e por conseguinte, subjugado aos interesses ideológicos que não têm em conta o indivíduo, mas o colectivo, isto é, o rebanho. 

         - O Verão instalou-se. As temperaturas de súbito ultrapassaram os 30 graus. Ontem, no autocarro que me levou ao Chiado para cumprimentar os rapazes da Brasileira, o ar condicionado estava ao rubro a tal ponto que senti frio. A mudança foi tão brusca, que alterou sobremaneira a parecença dos citadinos. 


quarta-feira, maio 20, 2026

Quarta, 20.

Esta manhã deu-me para rever páginas de Un journaliste juif à Paris sous l´Occupation de Jacques Biélinky. Horror, horror! Durante a ocupação nazi, não foram só os judeus que sofreram toda a sorte de malvadezes, também os negros os alemães proibiram de servir às mesas nos cafés e restaurantes. A fome entre os judeus foi terrível, as senhas de racionamento nunca chegavam para o mínimo, as filas eram intermináveis, e um dia Biélinky esteve seis horas para obter um ovo. Isto remete-me para o que se passa na Palestina e no Líbano. Às vezes dou comigo a pensar se toda aquela barbaridade não é se não a vingança de um povo. 

         - Vou até muito para trás, em 1096, porque vejo hoje a continuação do que aconteceu no tempo de Godofredo de Bulhão, a primeira Cruzada, as multidões anárquicas das “cruzadas populares” que atacaram judeus e vários milhares foram massacrados ou convertidos à força. É um facto e basta ler o Antigo Testamento, para verificarmos que os judeus viveram sempre sob guerras, mortes, numa luta constante que me é estranha se tivermos em conta que temos o mesmo Deus e o mesmo Livro Sagrado como conduta e fraternidade. As fontes hebraicas designam a Cruzada que prosperou no século XII por “Gizérot de 4856”, e as crónicas apontam por “desvairados” os “marcados pela cruz” ou “incircuncisos”. Quando estive na Praga dos Habsburgos, pude constatar com os meus olhos, o que persiste de um passado de luta entre católicos e judeus. A estes devemos muito, assim como aos árabes cujas culturas persistem na ostentação do que somos como europeus e como ocidentais. Daí que, se me indigno com os 75 mil mortos palestinianos, também me insurjo contra os incêndios em sinagogas como recentemente no Reino Unido e em França. Há um episódio que é narrado por Jean-Claude Guillebaud e vale a pena transcrevê-lo porque faz de certo modo a ligação com o que vem acontecendo na nossa Europa civilizada. “Em Rabisbona, em 28 de Junho de 1096, quarto dia do Tamuz, no calendário hebraico, os bandos bárbaros e suábios do padre alemão Gottschalk, identificados pela cruz, perseguiram os judeus da cidade, mataram os que ofereciam resistência e atiraram os outros ao Danúbio à força.” Estamos um pouco nas mesmas circunstâncias e medra o ódio aos judeus e o anti-semitismo não pára de crescer. Há nove séculos, estas manifestações que deram origem à formação dos célebres “pogroms” conduzidos por monges e místicos cavaleiros salteadores que marcaram o despertar do anti judaísmo que perdura até aos nossos dias. Da rivalidade religiosa, chegou-se aos extremos de ódio e liquidação de um povo que não se revê estou certo, nuns quantos radicais que ostentam a mecha acendida no início da cristandade.  

         - Ontem fui surpreendido por um telefonema de um dos empregados da Brasileira a que se associaram outros colegas. Souberam pelo António o que me havia acontecido e, como lá não vou há mais de um mês, inquietaram-se com o que lhes contou o António Carmo. Tanta generosidade desfaz em mim a barreira que impede o impulso generoso do outro. Solitário por prazer e realização pessoal, tenho nestes gestos a surpresa que me enche da presença que me falta. 

 

terça-feira, maio 19, 2026

 Terça, 19.

Ontem não eram oito da manhã e já eu atravessava Lisboa ao encontro da clínica onde passei para cima de duas horas a fazer análises a isto e àquilo, tac, electrocardiograma e mais não sei o quê. Como tinha de estar em jejum, assim que me vi livre daquela trapalhada, voei para o outro lado da Avenida da Liberdade para abancar na pastelaria Maison Luce - L´esprit du Pain, onde nos anos Setenta encontrava sempre Bernardo Santareno. O escritor levantava os olhos do papel, olhava-me do fundo da libido em sururu, num desassossego ante a beleza que lhe escapava. Hoje, o lugar aburguesou-se, afrancesou-se, tornou-se num sítio de passagem, com boa doçaria (os croissants são deliciosos, comi dois e comprei outros tantos), mas onde o espírito do escritor levantou amarras. Nem uma lápide existe naquela triste melancolia de quem entra e sai na indiferença ou desconhecimento de um tempo histórico que ali reinou e foi lugar de grandes discussões do reviralho. 

         - Aquele funcionário da Fnac com quem estive à conversa uns instantes, tendo eu encomendado um inédito de Stefan Zweig, e depois, não sei a que propósito, falámos de autores portugueses, retorquiu: “Não leio nenhum autor português de hoje.” Ele, que me pareceu ser um livreiro doutros tempos, terá as suas razões. Eu seguindo-lhe os passos posso contar pelos dedos de uma mão os que me interessam. De resto, os leitores mais atentos, sabem bem de quem falo e quem leio. 

         - Fui à piscina. Nadei meia hora sem qualquer prazer, impelido (se falasse o péssimo português de hoje diria impactado) apenas pela necessidade de fazer exercício. 

         - Montenegro que disputou em 2024 e 2025 eleições sempre com promessas de garantia de médico e família para mais de 1,6 milhões de portugueses, foi forçado a reconhecer que isso não é possível e remete para 2027 esse objectivo, decerto com os olhos postos em nova recandidatura.  Quis o poder a todo o custo e agora veio a reconhecer que essa mentira, justamente por ser propaganda, não podia ser alcançada. Que dizer? É um político português, com certeza. 


domingo, maio 17, 2026

Domingo, 17.

Vou ser breve e elucido os meus leitores que as palavras que se seguem não são minhas, mas da lúcida e sempre livre e actualizada Teresa de Sousa. “Xi é um ditador que ambiciona figurar ao lado de Mao. Os mais elementares direitos são sistematicamente violados na China. A tecnologia é utilizada para controlar cada cidadão. As purgas fazem parte da vida quotidiana do Partido Comunista da China.” Foi à sombra desta ideologia que na altura era também a da URSS, que muitos dos nossos comunistas estudaram, viveram, aprenderam a ser quem o que ainda hoje são. Eles quiseram derrubar o fascismo para se instalarem no seu lugar; a todos os outros partidos e cidadãos era a democracia que queriam alojar e defender. 

 

sábado, maio 16, 2026

 Sábado, 16.

Num país onde o Presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro são proprietários de uma série de casas e apartamentos, temos o quadro que dispensa apresentações. Será? Chamo a esta página Swift: “Il n´y à qu´à voir la tête de ceux à qui Dieu a accordé de l´argent pour savoir le cas qu´il fait des richesses.” Esta afirmação encaixa perfeitamente no dono do Pingo Doce e nos políticos manhosos que se esquecem de nomear a sua fortuna vinda da especulação imobiliária. Acrescento que não há novo-rico que não vá a Fátima de vela acesa e devoção hipócrita. 

         - Está aí o senhor José Manuel, mais conhecido por espalha brasas. Que homem gentil, dedicado, trabalhador. Só é pena que comece um trabalho aqui para logo o deixar a meio e ir começar outro que acaba por não terminar. O homem anda sempre a saltar deixando pontas inacabadas por todo o lado. 

         - Fui atestar o depósito. Depois dos descontos do ACP e mais não sei o quê, despendi 78,54 euros. Longe vão os 30 euros mensais! 

         - Ando muito sensível. Comovem-me todos os gestos de amigos e desconhecidos que se aproximam para saber como estou. Por escrito ou pessoalmente, volta que não volta, sinto o toque no ombro que me consome de gratidão. Mas também há aqueles que telefonam a saber se estou bem e como se levassem a carta a Garcia, disparam: “Se precisares de alguma coisa, apita.” Apitarei quando chegar ao destino final. 

         - Pobres dos dez milhões de cubanos que Trump condenou à morte. Como é possível que ninguém trave este desmiolado armado em arcanjo do mundo. Presos na ilha, sem electricidade, combustíveis, a morrer à penúria, o povo aguarda pelo pior se as ameaças do ditador se cumprirem. Não lhes bastou a soma de ditadores que governaram a ilha, ainda têm de suportar outro louco em nome não se sabe de quê. 


sexta-feira, maio 15, 2026

 Sexta, 15.

Dizem as estatísticas que aumentou em cinco anos os filhos que agridem as mães ou pais. A APAV revela que a maioria das vítimas são mulheres com 65 ou mais anos. Os agressores 70% homens entre os 25 e 54 anos. A querida família e os queridos filhos tão trauteada pela publicidade e pela Santa Igreja são afinal esta miséria.

         - Nesta democracia tão louvada pela classe política que pouco ou nada faz para a defender, antes pelo contrário a enterra diante dos nossos olhos baixos e conformados, somos confrontados cada vez mais com o fosso entre ricos e pobres, entre empregadores e servos. A Jornal de Notícias, na edição de hoje, mostra-nos o estado abismal da riqueza dos presidentes das maiores empresas portuguesas e dos seus escravos trabalhadores. Aqueles ganham em média 53 vezes mais e as remunerações de líderes executivos chegaram a 23,4 milhões de euros o ano passado. Para não falar dos benefícios de toda a ordem. Aquele espécime, feio como os trovões, que dá pelo nome de Pedro Soares dos Santos, dono da Jerónimo Martins que possui o supermercado Pingo Doce, tem uma remuneração total a rondar os 5,25 milhões de euros! Eu já aqui desaconselhei aos meus leitores entrarem numa tal catedral de escravidão, e foi mais de uma vez que lhes enderecei e-mail acusando-os de escravizar os seus empregados. Uma funcionária de aqui, com um balcão que abarca comes e bebes, cafés, padaria, faz maratonas ao longo do balcão, atura os clientes impacientes, por um ordenado pouco mais que o salário mínimo. A nossa querida EDP, que nós mantemos com língua de fora, a excelência que a dirige, usufrui uma bagatela de 2 milhões de euros/ano. A estes ordenados à americana, acrescem carros privados com motoristas, custas para isto e aquilo, subsídios para a luz, combustíveis, e, bem entendido, reformas doiradas de pasmar o pobre português. E lembrar-me eu que há reformados que não chegam a ter 400 euros por mês! É esta a democracia que nos coube na rifa do 25 de Abril do ano 1975. 

         - Falemos agora do engenheiro com diploma tirado ao domingo. A criatura quer cobrar ao Estado português a módica quantia de 205 mil euros por demora do Ministério Público (quatro anos) a deduzir a acusação. De facto, eu também considero excessiva, mas isso por culpa do queixoso que, para escapar à sentença, foi trabalhando recursos de modo a sair ilibado por esgotamento de prazos processais. Esta é a Justiça que temos, ronceira, cheia de teias de aranha, pontos e virgulas que fazem a delícia dos nossos advogados e lhes dão ganhos milionários. 

         - É este o país que temos. Maravilhoso como se vê, onde é rei e senhor quem mais escraviza, explora, rouba, corrompe, falsifica, foge aos impostos, compra defesas, exibe-se de peito feito, contorna os tribunais e aparece como o maior inocente que Deus pôs no mundo. Temos fabulosos advogados que conseguem transformar o maior trafulha numa peça angélica de filigrana imaculada. Bastava os juízes pedirem à SIC uma cópia do documentário da estadia de José Sócrates em Paris, onde o ilustre ex-primeiro-ministro e filósofo de Portugal residiu para estudar francês e aprender a tocar piano, voltando tão culto que nos desconcertou ao chegar: "Fui muito feliz nestes dois anos, entregue ao que os filósofos chamam de vida contemplativa por oposição à vida activa." O homem tem lata para tudo. 


quinta-feira, maio 14, 2026

Quinta, 14.

Manhã cedo estava em Lisboa. Fui à clínica marcar o tac e eletrocardiograma assim como restantes análises. Como queria ser atendido pelo médico que me radiografou o cérebro há cinco anos, não estando este, fui remetido para segunda-feira. Bom. A pronta aceitação dos exames, prova que ainda há privados honestos e deontologicamente capazes de acudir às urgências dos pacientes. Vou pelo SNS quando já estava disposto a pagar do meu bolso toda a pesquisa para o que me aconteceu há três semanas. A minha médica dita de família, Dra. Vera Martins, decerto mordida do remorso de não me haver atendido logo a seguir ao acidente, telefonou-me a dizer que me ia mandar as receitas, como me marcou consulta para dia 1 do próximo mês. Bom. A manhã estava maravilhosa, fresca, brilhante, com pouco ruído na Avenida da Liberdade e eu sentia-me leve, sem dores, a perna que as meninas e os meninos tanto adoram fiel ao passado, quando de súbito, um cachão de recordações se veio acoitar no meu cérebro. Comecei a descer a pé (a empresa situa-se perto do Marquês de Pombal) por ali afora até ao Rossio. Não descia só, comigo caminhava o Alberto, ambos pelos nossos dezoitos anos sublimes. Tínhamos saído das nossas casas, sendo vizinhos na Rua do Salitre e mais tarde colegas na Radio Universidade, ele técnico de manutenção eu produtor radiofónico. Caminhávamos num fim de tarde soalheiro, os cabelos longos e desalinhados tocados por uma leve brisa, sorridentes e felizes a caminho do cinema Tivoli para um concerto de música clássica com a orquestra da Gulbenkian. Praticamente nunca nos largávamos, éramos íntimos na pureza de uma adolescência apesar de a minha natureza mais livre e a dele concentrada nas coisas que o apaixonavam sem perceber o que se passava a nossa volta. E portanto, éramos ambos belos, ele de cabelo escuro acetinado, eu aloirado e – o que não era menos displicente – coxinho, coitadinho. Regressávamos à nossa rua, quando a noite espreitava por entre os prédios da cidade, cheios da música dos grandes compositores, os nossos programas anotados, três cruzes para as peças que nos encantaram, duas ou uma para as restantes. Ele habitava dois prédios ao lado do meu. Durante anos, telefonava-me a convidar para uma bica num café à entrada da Pedro Alvares Cabral quem sobe do Rato. Ali ficávamos à cavaqueira até perto da meia-noite quando fechava e muitos eram ainda os serões no seu quarto a conversar e a ouvir música até às tantas. Nunca o perdi de vista, falo da vista interior que guarda todas as memórias felizes, aquelas que só acontecem e perduram na juventude. Mais tarde apaixonou-se por uma artista gráfica, viajou com ela para o Algarve e por lá ficou e foi professor de música em Faro. Sei que teve pelo menos um filho. Mesmo assim o tempo que nos coube viver decerto que faz parte dele como de mim. Há um mundo que todos transportamos da adolescência de tão precioso que suporta os murmúrios, os olhares perdidos no infinito, as dores cravadas no peito, os silêncios e segredos que não ousamos contar às horas e por assim dizer são parte de tudo o que carregamos connosco.

         - Copio o final do artigo de João Miguel Tavares hoje no Público: “A maior tragédia não é um país ir demasiado para a esquerda ou para a direita – é ir para lado nenhum, transmitindo a ideia de que o sistema está paralisado e que o nosso voto não conta para nada. É disso que devemos ter medo.”  Pois é. Talvez o problema resida neste princípio: à esquerda interessou a derrota do regime salazarista; aos outros a conquista da democracia.  

 

quarta-feira, maio 13, 2026

 Quarta, 13.

Às vezes dou comigo a pensar que a actividade dos políticos é falar, falar, falar transformando-os nuns fala-baratos. Nunca a gritaria foi tão ameaçadora, nunca o 25 de Abril foi tão gritado, tão imposto, tão obsessivo sobretudo na esquerda. Isto não é em vão. O “25 de Abril sempre” esconde o fracasso, o embuste em que mergulhou o país. Grita-se por essa data, para esconder as promessas nunca concretizadas, os programas falhados, a vida dos portugueses reduzida à pobreza, ao dia-a-dia, as mãos cheias de coisa nenhuma, as profundas desigualdades, as instituições falidas, a saúde pelas ruas da amargura, uma juventude agressiva, analfabeta, básica sem princípios morais, desumanizada, em conclusão uma tristeza. Quem muito fala, pouco acerta, diz o provérbio. 

         - Descobri que é excelente não nos fixarmos num médico exclusivo. Ignorado pelo SNS, outra saída não tive que procurar um clínico no sector privado. Foi ele que, mediante a toma de um comprimido por dia (eu intercalei dia sim, dia não) deixei de ter dores lombares e passei a coxear melhor. Sobretudo depois de meses e meses sofrendo, estar hoje intacto e apto para prosseguir caminho. Antes, o que me fora receitado, era encharcar-me de Bem-u-Rom. O curioso da situação é que, quando me queixei ao Dr. Simões das dores nas costas, ele respondeu: “Vou dar-lhe um medicamento que os ortopedistas dão a casos como o seu.” Ah, como é agradável voltar à coxearia dos meus tempos de rapaz que tanto atraía os olhares delicodoces que muitas vezes fecharam noites de sonho... 

         - Pobre Zelensky! Não lhe bastava o esforço de uma guerra que dura há quatro anos, como a ganância dos mais próximos chafurdando na nojeira da corrupção. Um seu directo e íntimo colaborador, está indiciado por embolsar milhões da reconstrução do país. 

         - Por muitas voltas que dê, não consigo compreender por que razão podem os EUA e outros países possuir a bomba nuclear, e negá-la ao Irão. Será que a sua é menos mortífera, espécie de lança flores perfumadas? 

         - O Chega de André Ventura tem andado muito agressivo a apregoar a baixa de anos para a reforma. Contestam todos os outros com o pretexto de que a Segurança Social não aguenta e vai à falência. Deve ser por isso, que a sociedade pós-25 de Abril, abriu tantas excepções não só para políticos como para juízes. Aqueles foram emendando a mão ante a fúria do povo, sem esquecer que todos usufruem ainda de outras reformas acumuladas com funções e negócios no privado. Oh, oh esta gente não se descuida!


terça-feira, maio 12, 2026

 Terça, 12.

Outro dia passei para cima de duas horas numa esplanada em Setúbal com o Fernando Dacosta em farta e ininterrupta cavaqueira. Há algum tempo que não estávamos juntos e por isso os temas atropelavam-se contrariando o seu habitual ritmo de ser e estar. Conheci-o quando entrei para o jornalismo pela porta larga do Primeiro de Janeiro, estando ele no Diário de Lisboa. Desde então nunca mais nos largámos, pese embora os sucessivos ajustes que fomos fazendo ao longo dos anos. Achei-o muito magro sem que o peso da idade o tenha modificado. Diz-me que é devido a diabetes e que tudo o mais corre dentro dos carris da vida que é hoje a sua. De resto, sempre o vi com o seu bloco de notas em pele e elogiei o estado do mesmo. Retorquiu-me que o havia mandado fazer expressamente porque hoje já não se encontra exemplares iguais em parte nenhuma. De política falámos pouco até porque percebi que estávamos em sintonia e a melhor forma de se viver é afastados dela. Mas não faltou a literatura com referências a este e àquele autor, este e aqueloutro livro, colega jornalista ou amigo. Para surpresa minha, diz-me que não apreciou o Diário Incontínuo de Mário Cláudio e pareceu-me estar de acordo de que Saramago não é a única alusão digna de estacionar nos manuais escolares. Quanto ao estado da cultura, da edição, dos novos editores que exigem aos autores paguem a publicação dos seus livros, aconselhou-me a não entrar nesse jogo pois para ele é certo que a literatura e os grandes escritores estarão de volta no futuro, correndo com a arraia miúda de oportunistas que se têm instalado sôfregos não tanto de lucro porque não vendem nada, mas de imagem e prestígio. 

Há, contudo, um facto que quero realçar e diz muito não só da sua personalidade, como do preconceito que todas as lutas não almejam acabar: a aceitação da relação entre pessoas do mesmo género. Eu desde que o conheço que conheço o seu companheiro Zé Manuel. Muitos anos passaram. O Zé veio viver aqui para Setúbal, eles separam-se, mas o vínculo de amizade nunca se quebrou. Mais tarde, recebi em minha casa o seu novo amigo, um colega jornalista como ele. Vim a saber agora que a mãe do António é a proprietária do apartamento onde viveu o Zé e que se prepara para o alugar de modo a ajudar na estadia do Zé na clínica em Azeitão onde larga 2 mil euros/mês - importância que a sua reforma não suporta. Zé já não reconhece ninguém, mas Fernando vai todas as semanas estar um pouco com o amigo de metade da sua vida. Uma tal generosidade, um tal louvor humano, uma tal dedicação à memória de um tempo decerto feliz, fecha o ciclo de uma vida que não desaparece com a morte. Pelo contrário, estende-se como campo de flores onde a Primavera refloresce dos fios intensos da luz das alvoradas, das memórias como sentinelas de hinos salmodiados ao amanhecer e ao entardecer da vida. 


segunda-feira, maio 11, 2026

 Segunda, 11.

Dizer que estou bem é um pleonasmo. Decerto vou ter que ultrapassar o meu centro de saúde para obter o Tac Crânio-Encefálico de que tanto necessito. Entretanto, uma farmacêutica amiga, ouvindo a minha versão do acidente de saúde, prescreveu-me 120 mil milhões de estripes macrobióticas, por forma a que a fauna e flora intestinal se restabeleçam. Foi este distúrbio que me provocou o desmaio e a mobilização para a guerra no Hospital de S. José.  

         - Estive no tanque tecnológico com um cesto de roupa como se tivesse meia dúzia de filhos. 

         - Álvaro Santos Pereira, assim que se viu governador do Banco de Portugal, desatou a comprar acções das grandes empresas, num investimento sôfrego como se o lugar que tinha ocupado fosse o trampolim para aventuras financeiras que fazem os ricaços dos nossos dias. O BCE obrigou-o a revender as acções que adquiriu quando já ocupava o cargo. Toma e embrulha. À portuguesa, seja na base como na pirâmide, a ganância é sempre a mesma e a mediocridade não têm posto.

         - Fiquei satisfeito com a decisão dos juízes que ilibaram Rui Pinto, dito pirata informático, de 241 crimes. Plasmaram na sentença que ele havia sido vítima da arbitrariedade do sistema judicial e da violação da sua dignidade enquanto pessoa. Os “inocentes” do processo Football Leaks vão ter que pagar as custas do tribunal do seu bolso.