Terça, 14.
Se o acordar se estendesse pelas manhãs e tardes, estava liquidado. Raros são os alvores dos dias que me consintam a alegria do despertar. Todas as catástrofes do mundo desaguam muito antes de abrir os olhos, uma teia de frustrações e desastres, medos e titubeias embrulham aqueles instantes que parecem uma eternidade. Levanto-me, hesitante, tateando o espaço e o tempo, à espera do que vem a seguir, perdido como me encontro à procura de me achar a mim mesmo. Quando abro as portadas e a natureza se estende com os primeiros raios de sol, os cantares da passarada, o caminho ao fundo onde não passa ninguém, mas de onde me chega o frémito de vida que me banha por inteiro e dura até ser noite, todos os fantasmas mergulham nas profundezas dos infernos e levanto a voz ao Criador num agradecimento ao dia resplandecente que tenho a graça de viver...
- Sim, foi estrondosa a vitória de Péter Magyar. Dos 106 círculos eleitorais na Hungria, 93 pertencem ao partido Tisza do primeiro-ministro eleito e uns modestos 13 ao Fidesz de Viktor Orbán. A União Europeia canta de contentamento porque vai poder desbloquear muitos milhões que o anterior governante travou e levou o país à miséria. Zelensky vai decerto entender-se melhor com a Hungria que deixou de andar a reboque de Putin. Mesmo assim, quanto a mim, é de realçar a atitude de Orbán ao aceitar a derrota e ao felicitar o seu sucessor.
- Fui à piscina não obstante a dor nas costas causada por trabalhos aqui. Nos chuveiros, vi um homem magro como uma tábua de passar a ferro, nu, de uns quarenta anos, careca embora peludo de corpo, com uma nuvem de cabelo que descia da zona occipital até meio das costas, personagem inquietante, lento de gestos, passeando pelos corredores naquele estado, e depois demorando-se horas a secar com o secador do estabelecimento, as franjas negras que lhe tocavam os rins.
- Assisti igualmente à chegada de uma gorda, gorda como não podia mais, aplaudida pelas companheiras que estavam na água às ordens de uma técnica ucraniana, naqueles exercícios ditos de hidroginástica, acompanhados com canções de Carlos Paião. Parei o meu exercício cheio de curiosidade de ver quantos litros de água saltavam para fora da piscina com a sua entrada triunfal. Mas a senhora desiludiu-me, com o corpo que construiu ao longo dos anos, necessitou de se apoiar no corrimão e nos braços de duas colegas. E logo me lembrou a Alice que frequenta a piscina em Caldas da rainha onde mora, quando me diz que pensa em mim ao chegar aos balneários e olha para as colegas gordas, de fartas mamas, rabos enormes, quando comento com ela o espectáculo de horror que tudo aquilo deve ser.