quinta-feira, abril 23, 2026

 Quinta, 23.

Estou vivo. Anteontem, julguei que tinha chegado a minha hora. Quando me sentei no pequeno café da Fnac, ao Chiado, pedi uma sande com fiambre e queijo e abanquei para duas horas de escrita. Enquanto comia o “almoço”, comecei a ter dificuldade em acabar, mas, obedecendo à Ordem franciscana, disse para mim mesmo que o bota-fora é pecado e fui até ao fim. Enquanto mastigava, ia teclando apondo palavra a palavra na página do computador. A dada altura, começo a sentir-me mal, o que chegava do cérebro à máquina não correspondia, a cabeça num delírio. Fecho o computador e toco no ombro de um senhor que estava perto: “Estou a sentir-me muito mal” – disse. O que se seguiu, não sei. Quando volto a mim, tenho uma roda de pessoas à minha volta, estou todo sujo do vómito que fiz quando desmaiei, com tonturas. Os seguranças do estabelecimento deitam-me no chão, de lado, e ali fico imobilizado à espera que o INEM chegue. Nada me parecia real, uma espécie de fantasia tinha tomado conta daquela gente, cada um com o seu prognóstico, um com um comprimido que me pôs debaixo da língua e foi objecto de critica pelos técnicos de saúde, no todo pessoas extremosas que tomaram conta de mim. Meia hora depois, chegou um casal de jovens que prontamente me assistiu, amáveis, amparando-me até à maca à entrada do edifício, eu que estava moribundo com 6-5 de tensão! Dentro da viatura, digo que não quero ir deitado, mas o jovem que me acompanhava “obrigou-me” a viajar naquela posição. Pela cidade fomos e em breve o abençoei, pois percorremo-la aos saltos até ao hospital de S. José. “As ruas de Lisboa, são buracos atrás de buracos.” Ali chegados, encostaram a maca a uma outra onde jazia um velhote que parecia abandonado à morte e ali ficámos os dois a magicar qual de nós tomava a dianteira para o fim. Ele saiu daí a pouco daquela divisão sórdida, exígua, pobre onde ficavam os que iam arribando. Quinze minutos depois, coube-me a mim a vez de ingressar numa outra sala, tão minúscula que só cabiam duas macas e estava um senhor (médico?) sentado numa cadeira baixa, um rapaz negro de longas tranças Nagô e um clínico em frente ao computador – não havia espaço para mais nada. O médico, vendo-me todo molhado e sujo do vomitado, disse ao rapaz que me acompanhasse ao wc para substituir a roupa por aquela azul usada nos hospitais. O rapaz, de porta fechada no wc, disse-me para me despir, respondi que só tirava a camisa, as calças seguiriam comigo mesmo sujas. Ele espantou-se e saiu com a informação “volto já”. Não voltou. Ali esperei uns vinte minutos, a porta a abrir-se de quando em vez por mulheres aflitas para os pipis urgentes. Voltei ao centro de todas as desgraças e murmúrios, isto é, à entrada dita das Urgências. Aí perguntei a um funcionário o que devia fazer, a senha de entrada na mão e o desespero a instalar-se. Ele, espreitando o computador, disse-me que aguardasse na sala de espera que seria chamado pelo meu nome. O espaço estava a abarrotar, mas um cavalheiro dos que quase já não há, levantou-se para me dar o lugar e eu ali fiquei a somar o tempo para a redenção dos meus pecados. Tinha entrado de maca às 14 horas, eram agora 15 horas e ali me encontrava a matutar no completo desastre que é o SNS. Havia de tudo: gente impaciente, velhos relhos, rapazes violentos, algazarra, idas e vindas às Informações, às máquinas de comes e bebes, suspiros impacientes, alguns estrangeiros, poucos negros, a maioria portugueses de gema que sabem na pele o que custa estar doente em Portugal. Naquelas divisões pequeníssimas, aglomeravam-se centenas de pessoas, cada qual com sua dor, seu tratamento, seu diagnóstico. Não vi um ministro, um deputado, um autarca. Pelas oito da noite, decidi, a senha na mão, perguntar nas Informações se estava perdido, se ainda existia nos ficheiros, que era feito de mim seis horas depois de ter entrado de maca. Uma mulher toda produzida, de longos cabelos negros de azeviche, consultou o computador e disparou: “Olhe, volte para a sala de espera porque o médico está neste momento a ver a sua ficha.” Aquela mentira decerto já pronta saída do caos, fez-me esperar até perto das nove da noite. Foi então que, caindo em mim, memorizei que estava em Portugal, que o SNS se tinha transformado num fosso de sofrimento, mentira, morte, fisga dos diferentes partidos, todos interessados em conluios, interesses ideológicos, financeiros, políticos, um biju de ouro que serve quantos almejam o poder e aí canonizam os seus egos do tamanho da sua ignorância, incompetência e farfalhice de toda a espécie. Quando fugi do hospital, encontrei a noite cerrada, as ruas desertas, e, pela primeira vez, desejei ter um quarto na cidade para descansar. Estava exausto, não tinha comido nem bebido nada depois do desastre. O motorista do táxi que me transportou à Gare do Oriente, insistiu comigo para que comesse qualquer coisa. Mas eu só me queria ver dentro do autocarro de regresso a casa. Com a protecção da divina Providência, um transporte aguardava-me. Entrei nele e atirei-me para o banco, esgotado. Viagem deslumbrante, o Tejo onde as luzes da cidade reflectiam, as sombras nas margens, o trabalhar do motor, o deslizar no asfalto, toda aquela imensidão de espaço aberto ante os meus olhos fascinados, o céu de estrelas cintilantes, o meu coração desfraldado numa furtiva lágrima de reconhecimento, apertado pelas emoções que tanto me dão vida, como me amortalham aos poucos, a existência jogada para trás das costas, a tristeza do mundo que me coube viver nesta fase, o meu país desfeito depois de tantas e tão profundas esperanças postas na democracia, hoje metamorfoseada num trambolho de interesse nenhum... E lembrar-me eu que a lei prevê para o meu caso (fita amarela) 60 minutos para exames. Esperei, ao todo, 8 horas largamente a passar!!!