terça-feira, março 10, 2026

 Terça, 10.

Esta manhã cruzei-me no Rossio com o Luís, velho amigo dos teatros. Aceitei tomarmos um café no Nicola para pormos a vida em dia, depois de anos sem nos vermos. Foi casado, tem dois filhos, separou-se da mulher para casar (casar mesmo, com diploma e tudo) com um homem que vi no mostrador do seu telemóvel, figura espadaúda, depilada, ao gosto amaneirado dos tempos presentes. Falámos, falei. Para lhe dizer quanto lamento a escolha de vida à moda dos heterossexuais, monótona, fingida, trancados na família enquanto instituição católica tão do agrado das instituições - ainda que Jesus Cristo não tivesse optado por tal sorte -, egoísta e toda centrada nos filhinhos queridos, nos netos delicodoces, a televisão a preencher os dias, os passeios eternos pelos supermercados e centros comerciais, os restaurantes em moda, a ronceirice terna a encher o tempo que lhes resta para viver, quando antes, os homossexuais eram figuras de proa de um viver solto, criativo, apaixonante, onde o acaso tinha lugar e a liberdade caía em pleno no centro dos dias e sobretudo das noites, alagando as suas existências de impulsos criativos, amores desencontrados, escolhas entregues à sorte, desilusões, sofrimento, o todo num incitamento à descoberta, à aventura. Aquilo que mais reprovo à organização que impera entre nós, e que os concursos, a televisão, as empresas são forças da sua estrutura social ao mesmo tempo que dela dependem, é a ideia de que a família existe, é a força do Estado alicerce civilizacional de um padrão que tem nela o centro de um mundo que sendo largo deve permanecer limitado ao núcleo restrito de cada agregado. Se me permitem, este egoísmo mais evidente, teve o seu climax durante o SARS-COV-2, quando elas assaltaram os supermercados em busca do armazenamento de papel higiénico. Pode parecer ridícula esta observação, mas estou certo que recentra como nenhuma outra, a incapacidade de a dita família ver para além das quatro paredes da sua casa. De todos os meus amigos, quase todos casados, só um ainda por cima com mulher (perdão) esposa e três filhos, está sempre disponível para os outros, honra lhe seja feita: João Corregedor.  

         - Aquela cena ridícula, com Trump rodeado dos seus seguidores, em oração, ligados ao chefe, olhos fechados a orar não percebi a quem!