Quinta, 14.
Manhã cedo estava em Lisboa. Fui à clínica marcar o tac e eletrocardiograma assim como restantes análises. Como queria ser atendido pelo médico que me radiografou o cérebro há cinco anos, não estando este, fui remetido para segunda-feira. Bom. A pronta aceitação dos exames, prova que ainda há privados honestos e deontologicamente capazes de acudir às urgências dos pacientes. Vou pelo SNS quando já estava disposto a pagar do meu bolso toda a pesquisa para o que me aconteceu há três semanas. A minha médica dita de família, Dra. Vera Martins, decerto mordida do remorso de não me haver atendido logo a seguir ao acidente, telefonou-me a dizer que me ia mandar as receitas, como me marcou consulta para dia 1 do próximo mês. Bom. A manhã estava maravilhosa, fresca, brilhante, com pouco ruído na Avenida da Liberdade e eu sentia-me leve, sem dores, a perna que as meninas e os meninos tanto adoram fiel ao passado, quando de súbito, um cachão de recordações se veio acoitar no meu cérebro. Comecei a descer a pé (a empresa situa-se perto do Marquês de Pombal) por ali afora até ao Rossio. Não descia só, comigo caminhava o Alberto, ambos pelos nossos dezoitos anos sublimes. Tínhamos saído das nossas casas, sendo vizinhos na Rua do Salitre e mais tarde colegas na Radio Universidade, ele técnico de manutenção eu produtor radiofónico. Caminhávamos num fim de tarde soalheiro, os cabelos longos e desalinhados tocados por uma leve brisa, sorridentes e felizes a caminho do cinema Tivoli para um concerto de música clássica com a orquestra da Gulbenkian. Praticamente nunca nos largávamos, éramos íntimos na pureza de uma adolescência apesar de a minha natureza mais livre e a dele concentrada nas coisas que o apaixonavam sem perceber o que se passava a nossa volta. E portanto, éramos ambos belos, ele de cabelo escuro acetinado, eu aloirado e – o que não era menos displicente – coxinho, coitadinho. Regressávamos à nossa rua, quando a noite espreitava por entre os prédios da cidade, cheios da música dos grandes compositores, os nossos programas anotados, três cruzes para as peças que nos encantaram, duas ou uma para as restantes. Ele habitava dois prédios ao lado do meu. Durante anos, telefonava-me a convidar para uma bica num café à entrada da Pedro Alvares Cabral quem sobe do Rato. Ali ficávamos à cavaqueira até perto da meia-noite quando fechava e muitos eram ainda os serões no seu quarto a conversar e a ouvir música até às tantas. Nunca o perdi de vista, falo da vista interior que guarda todas as memórias felizes, aquelas que só acontecem e perduram na juventude. Mais tarde apaixonou-se por uma artista gráfica, viajou com ela para o Algarve e por lá ficou e foi professor de música em Faro. Sei que teve pelo menos um filho. Mesmo assim o tempo que nos coube viver decerto que faz parte dele como de mim. Há um mundo que todos transportamos da adolescência de tão precioso que suporta os murmúrios, os olhares perdidos no infinito, as dores cravadas no peito, os silêncios e segredos que não ousamos contar às horas e por assim dizer são parte de tudo o que carregamos connosco.
- Copio o final do artigo de João Miguel Tavares hoje no Público: “A maior tragédia não é um país ir demasiado para a esquerda ou para a direita – é ir para lado nenhum, transmitindo a ideia de que o sistema está paralisado e que o nosso voto não conta para nada. É disso que devemos ter medo.” Pois é. Talvez o problema resida neste princípio: à esquerda interessou a derrota do regime salazarista; aos outros a conquista da democracia.