terça-feira, junho 30, 2026

 Terça, 30.

José Sócrates a quem não falta dinheiro aos milhões, ele que disse que é pobre e vive do montante de 2200 euros de aposentação, não se sabe bem (ou sabe-se) onde vai arranjar tanto dinheiro para recursos, processos contra os tribunais que o julgam por gatuno e outros desvarios. Anda louco de contentamento porque o processo que interpôs contra o Estado por violação do segredo de justiça no processo Operação Marquês, deu-lhe razão.  Assim o Estado foi condenado a pagar-lhe 15 mil euros “por má administração da justiça”. Este homem é uma personagem romanesca num país de fadas, criado por ele, e que ele manobra a seu belo prazer. E dizer-se que este socialista de gema, foi primeiro-ministro deste pobre país com séculos de história! Dá para acreditar? 

         - Quem se agiganta e não me digam porque razão eu o agrego ao socialista Sócrates, é o nosso aperaltado Bugalhito. Luís Montenegro pediu-lhe que subisse mais uns quantos degraus, e o lustroso aí vai até aos píncaros de primeiro-ministro. Sem mulheres que o afrontem por medo dos enxovalhos físicos, com a palavra salmodiada na ponta da língua, a vaidade estampada no rosto duro, traçado a cremes e pomadas que dão brilho à pele, os memes aprendidos quando palestrou nas televisões, sem conteúdo cimentado, aí vai ele todo laricas. Bugalhito não tem ideias - tem pressupostos. 

         - Calor. Fui à piscina, estava vazia. Eu era o único nos 25 metros de betão, se tivermos em conta as madames medonhas que ocupavam com o seu peso uma outra parte, ninguém mais aproveitou para se refrescar e ginasticar. De facto, esteve uma brasa. Todavia, é em casa que estou bem, porque a construi com sabedoria e arte. Aqui está sempre fresco (no Inverno acolhedora), com as portadas encostadas, as janelas abertas quando acordo, todo este espaço é um oásis de bem-estar. Começa porque ergui em toda a moradia duas paredes paralelas, com uma caixa de ar de 6 cm, um produto isolante de baixo a cima, o que não permite deixar entrar o frio como a humidade, mantendo uma temperatura constante. É nesta semi-obscuridade abraçada ao silêncio igual quando há frio ou calor, que as horas deslizam nos braços eternos da felicidade. 

         - Vou ter de me acautelar, diminui de peso para 62 kg. O problema é que detesto comer e com calor tenho tendência a comer menos. Depois do desastre de Abril que o estômago esteve no centro, evito restaurantes, comida cozinhada a granel, acepipes, etc. Há só um lugar que o meu estômago não barafusta: o restaurante do Corte Inglês.  


segunda-feira, junho 29, 2026

Segunda, 29.

Interrogo-me e peço a Deus que nos poupe a tragédias como a que ocorreu na Venezuela. Se lá é o que se vê, aqui seria bem pior porque os que passaram pelo poder, PSD e PS, nunca se importaram com o nosso futuro, antes os animou e anima o poder pelo poder, a importância de suas excelências, a gestão do dia a dia. Estratégias e planos nunca foram o seu forte. Costa costumava dizer que ele fazia política - os outros executavam-na. Esperto, aproveitou e hoje está sem preparação nenhuma no lugar que os confrades lhe ofereceram. Nós ainda não nos vimos livres do caos em que ele deixou o país. Entretanto, o número de mortos e feridos não pára de aumentar: 1450 falecidos, 3158 feridos, 12760 desalojados.  

         - Confesso que tenho pena dos meus amigos que se submetem a uma vida fininha, sem nervos, sem vontade própria, rendidos ao deixa andar como se já não vivessem e tudo o que ainda usufruem lhes é completamente indiferente. Eles não têm uma companheira em casa - têm uma oficial do exército, uma comandante das forças vivas de terra, mar e ar. 

         - O conflito entre Irão e EUA recomeçou (se é que tenha alguma vez acabado). Os bombardeamentos e bloqueios no Estreito de Ormuz estão como sempre estiveram salvo em momentos idílicos, festejados pelos pobres políticos europeus, quando da cimeira na Suíça e França. Está tudo louco e ninguém compreendeu ainda que se encena uma guerra de largas proporções. Nunca o mundo esteve como está hoje, com tantos déspotas a vigiarem-se, a estudarem-se, a ensaiarem a saída mais oportuna para a terceira guerra mundial.

         - Prometem-nos para toda a semana temperaturas a rondar os 40 graus centígrados. Por aqui, as alvoradas começaram para regas e pequenos trabalhos exteriores. Ontem, fiz quatro frascos de compota de ameixa e um bolo de noz. Dono de casa e proprietário de quinta, não tem vida fácil. Mais a mais o que se acrescenta nos próximos dias: piscina amanhã, quarta renovação da carta de condução, quinta espalha brasas, sexta de novo em Lisboa ao encontro de Fr. Hélcio, e a escrita, a leitura, etc. Para uma vida assim, exige-se disciplina, força de vontade, prazer de viver.

         - Justamente, enquanto o calor não começar a chamuscar as pétalas delicadas das hortênsias, eis como o eu as trato e elas me devolvem a serenidade quando nelas pouso o olhar ao entardecer e ao amanhecer.  

 




domingo, junho 28, 2026

 Domingo, 28.

Estive a ler uma série de cartas que Charles De Gaulle escreveu aos filhos durante o rude período da II Grande Guerra. Vou transcrever para aqui duas delas, porque revelam o contraste existente entre os políticos de hoje e os de então, o imenso abismo cultural, civilizacional, a perspectiva do futuro, a identidade nacional que coexistia neles com a religiosa, a familiar, os valores, isto é, a fabulosa dimensão dos políticos e da política, grandes obreiros da Europa que perspectivaram o futuro como sentimento de identidade histórica, quando comparados com esta esventre de governantes de um vazio, de uma vacuidade impressionantes, de um analfabetismo, sem ideias, centrados na oportunidade pessoal, na vaidade, na propaganda, no poder pelo poder, transformando a política numa batalha de idiotas sedentos de brilho e ódio. 




sábado, junho 27, 2026

Sábado, 27.

Estamos sempre a aprender. Ontem, pelas dez da manhã, entrei no autocarro com destino a Oriente. Ao todo os passageiros para Lisboa, seriam uma dúzia. Ainda o veículo não tinha arrancado, entra um controlador. Pede-me o passe e eu digo-lhe que tem um trabalho inútil, porque todos os passageiros ao entrar são obrigados a apresentar o bilhete ao condutor. Ele ri-se, saca do bolso dois passes e diz-me: “Estes dois são desta manhã, acrescentando: "o número de famílias que só compra um passe social e depois é com ele que todos se deslocam à vez, não pára de aumentar.” Ante a minha surpresa: “E agora os filhos, como estão de férias, os pais passam-lhes o passe e eles divertem-se deslocando-se de Palmela para Lisboa ou outros sítios da margem sul.” Foi ao fundo o carro e quando voltou, continuou: “Ainda se compreendia quando os passes eram caros, mas ao preço que eles estão...” Respondo: “Não diga isso pela sua rica saúde. Olhe que ainda o tomam por um tipo de direita. O trabalhador tem sempre razão e se não a tiver a esquerda que temos encarrega-se de o defender.” Riu-se, ele e o condutor.  

         - As ajudas à Venezuela chegam a conta-gotas devido à imensa dificuldade de transportes. As imagens que nos chegam do norte de Caracas, são impressionantes, acompanhadas dos números que não param de crescer: 188 mortos, 1530 feridos. Mas também a surpresa que a vida nunca deixa de nos encantar. No meio dos escombros, saiu uma mulher que estava em trabalho de parto e o bebé nasceu nas mãos dos socorristas.  


         - Starmer, o primeiro-ministro britânico, abandonou o cargo. Tinha simpatia pelo homem e achava-o competente. Mas os comentadores dizem que ele foi péssimo na política interna e óptimo na política externa. Como Sanchéz, Macron e passo. 

         - Ontem passei na Brasileira. Fui recebido como se fosse o rei de Portugal. Todos me vieram cumprimentar e com todos travei pequenos diálogos e ouvi grandes discursos acerca do que resta dos tertulianos. Um destes, travou-se de razões com o pintor de um dos quadros premiados pelo conhecido café. O escândalo foi tal, que turistas e nacionais, assistiram, estupefactos aos conhecimentos técnicos e artísticos retratados aos berros, como se ele fosse a sumidade nacional na matéria. Que ridículo! Céus, do que eu me livrei!  

 

quinta-feira, junho 25, 2026

 Quinta, 25.

Há um advogado estrangeiro de seu nome Christophe Marchand (o apelido assenta-lhe como uma luva) que cobra fortunas a descobrir na lei os alçapões por onde iça os criminosos directamente para os altares das catedrais nacionais. Recentemente um que está preso, em breve será libertado. O outro, que anda há mais de dez anos a ser julgado, também é cliente do tal causídico que lhe cobrou para cima de meio milhões de euros, falo de José Sócrates, pagos pelo primo ou amigo empresário de Leiria, porque o homem, coitado, com 2.200 euros de aposentação, não pode, naturalmente, dar-se a tais ousadias. O tribunal, devia antes ouvir o João Corregedor e colher dele os motivos da inocência do socialista ladrão. Numa única sessão, ficava o assunto encerrado e para a conta bancária do ex-deputado do PCP, entraria o suficiente saído da conta do velho amigo Carlos Santos Silva, empresário do Grupo Lena. Que país! Que justiça! Que democracia! Tomam-nos por idiotas e mentecaptos, enquanto o carrocel de gente a enriquecer à custa daqueles que não podem aceder à justiça, não pára de crescer e as cadeias abrem-se de par em par para deixar sair os injustiçados. 

         - Pelo menos dois sismos de magnitude 7 na escala de Richter, abalaram a Venezuela. Caracas e La Guaira foram as cidades mais atingidas, onde vários edifícios colapsaram, e estima-se terem feito muitos mortos e milhares de feridos. Por agora estão confirmados 164 mortos e para cima de mil feridos. O mundo mobiliza-se para ajudar a Venezuela onde a vida já não era confortável, mas que agora ficará muito pior.   

         - Apanhei dois cabazes de ameixas pretas: um para fazer compota, outro para o espalha brasas senhor José Manuel.

         - Black, embalado pelo tempo chuvoso, dormiu toda a manhã no sofá do salão. Fui à piscina e voltei e ele nem deu pela minha saída, nem pela minha chegada. 


quarta-feira, junho 24, 2026

 Quarta, 24.

As temperaturas não param de subir. Toda a Europa sofre horrores com os termómetros a aumentar em flecha: Londres, Amesterdão, Paris com 40 graus e várias mortes por afogamento no Sena de quem queria escapar ao sufoco, Madrid, Roma, Viena. As noites aqui são particularmente difíceis obrigando-me a dormir de janelas escancaradas e colónias de mosquitos de atalaia. Esta noite, tendo-me esquecido de levar para o quarto a garrafa com água congelada, desci para a retirar do congelador. A noite estava serena, como se o calor se tivesse ausentado para deixar passar um fino assobio de ar fresco que se insinuava no vasto espaço. Quedei-me a ouvi-lo, a perscrutar o que me contava a noite naquele resto de horas antes da alvorada. Mas o silêncio era pesado, cirandava pelas divisões, povoando os muros, enchendo os minutos de um mundo que não se dá a conhecer ao dia. 

         - Posso dar a minha opinião sobre a Selecção Nacional e o resultado diametralmente oposto à última partida no Mundial de Futebol? Posso? Aqui vai. Do pouco que vi, do pouquíssimo que percebo de futebol, acho que foi fácil vencer os fracos. A equipa era muito fraquinha, fez o que pôde, e o brilho que levou o avô Ronaldo e os seus pupilos a enobrecerem-se, não me convenceu. A hora da verdade ainda está para vir. Tenho razão? 

         - Estou a ler a encíclica Magnifica Humanitas de Leão XIV. O exemplar foi-me emprestado e eu não sei ler sem anotar, sublinhar, folhear várias vezes um livro facultado. Todavia, do que tenho lido, incentiva-me a parar e ir à livraria comprá-lo. A incidência vai para a Inteligência Artificial e a sua aplicação (ou desumanização) no nosso quotidiano colectivo. 


terça-feira, junho 23, 2026

 Terça. 23.

Estive a tomar café com a Maria José durante o qual pusemos a conversa em dia. Ela foi operada a uma catarata do olho direito há três dias, mas já retomou o trabalho. Corajosa. Sobretudo quando, sendo escultora, tem de lidar com gesso, pedra, madeira na construção das suas obras. Não conheço ninguém tão activo como ela. Os seus oitenta anos, não a deixam descansar e trabalho não lhe falta. Perdeu o atelier que tinha numa quinta um pouco longe daqui, e pensou instalar-se aqui comigo. Eu não fiz nenhuma pressão nesse sentido e ela acabou por perceber e encontrou poiso em Quinta do Anjo. 

         - A ladroagem está por todo o lado. Quando é a direita a roubar, a esquerda desce à rua e julga-a na praça pública; mas quando é a esquerda protesta que é invenção do fascismo, das forças da reacção. Outro dia, no término relacional com o João Corregedor, quando eu disse que José Sócrates era o maior ladrão de todos os tempos ele, irado, mandou-me na linguagem própria dos camaradas proletários básicos àquele sítio. Mas os factos falam por si. Portugal tem sido governado por cliques sucessivas de corruptos, esquemas, ligações a máfias escondidas, compadrios, dinheiro a rodos passado por debaixo da mesa, ou escondido em offshores e até em gabinetes governamentais como aconteceu com o amigalhaço de António Costa que o abafou no seu gabinete ministerial de S. Bento. Eu costumo dizer que praticamente os tribunais só julgam a classe política e empresarial, são elas associadas que movimentam esforços e somas astronómicas de dinheiro e investigação à justiça. Os ladrõezinhos de pouca coisa, desapareceram. Em Portugal os dois partidos que têm tido o poder, também se têm governado à vez. 

         - Vem isto a propósito do que se passa em Espanha. Os socialistas por lá não são muito diferentes dos de cá. Assim, o braço direito de Pedro Sanchéz, foi condenado a 24 anos de prisão por esquemas fraudulentos quando da Covid-19. 24 anos! Os nossos tribunais são mais brandos, todo o mundo se conhece e, portanto, a actividade humanitária dos advogados faz de criminosos santos de altar. Num país de terceiro mundo, é assim que as coisas funcionam e ponto final. 

         - Calor abrasador. Fui ao tanque electrónico lavar a roupa de duas semanas. Lá encontrei um rapaz de vinte anos que vive só e tem que se ocupar de si; uma estrangeira que antes de meter a roupa na roda da fortuna, munida de uma data de produtos com esguiches, borrifava as peças antes de as pôr na máquina; e um homem à moda antiga, muito cuidadoso, dobrando cada peça como se fosse definitiva e guardando-a muito direita no cesto. Que mundo! 


segunda-feira, junho 22, 2026

Segunda, 22.

Eu nunca confiei no plano de Trump e do seu gang para o Irão - as evidências aí estão a dar-me razão. Trump é refém da situação que criou, a sua derrota é por demais evidente. O Irão e seus dirigentes, têm mostrado ser mais sólidos, persistentes na concepção que têm do mundo, preparados para todos os infortúnios. Em certo sentido, a América depende deles nos interesses mundiais que estão em jogo. Quanto a Netanyahu, o seu grande amigo, não passa de um criminoso que vai necessitar de larga pedalada para escapar ao cárcere. A destruição da Faixa de Gaza, é inaceitável à luz de qualquer realidade palpável. O Holocausto devia servir de comparação e alertar as nações para a crueldade de uma guerra desigual que tratou os palestinianos de carne para canhão. Vexados há mais de meio século, circunscritos a uma língua de terra sempre e sempre vigiada, espécie de prisão a céu aberto, humilhados e desprezados, nunca conseguiram ser um povo feliz, com um território seu e uma vida digna. 

         - Voltemos a agulha. Hoje, sentaram-se no metro, perto de mim - à frente, ao lado, nas traseiras - uns quantos rapazes pelos vinte anos em calções, com pernas nuas garbosas. Logo me ocorreu Julien Green que sofria e fechava os olhos para não cair em tentação quando lhe tocava, nos dias abafados de Paris, cenas como esta. Só que, se avistasse este espectáculo da juventude encalorada à moda de Lisboa, não precisava de desviar o olhar porque todos eles abundavam de pêlos – um horror para o escritor. Decerto nenhum deles tem namorada, porque hoje, também elas, só se abandonam à lascívia, quando eles se apresentam depilados... 

 

domingo, junho 21, 2026

 Domingo, 21.

“Raramente se escreveu moção tão tola e tão recheada de lugares-comuns. Com esta moção, o presidente do PSD e actual primeiro-ministro tem um único objectivo: o afirmar que não quer governar com o Chega nem com o PS. Que quer governar sozinho, ora com um, ora com outro, na esperança de ser derrubado, a fim de obter uma maioria absoluta. A nulidade desta ambição só tem um equivalente o da mediocridade dos propósitos.” Assino de cruz este parecer de António Barreto acerca de Luís Montenegro e do congresso do seu partido que decorreu este fim-de-semana em Anadia. Do mesmo, saiu a aberração de nomear o Bugalho para representante do partido em Bruxelas! Nunca me constou que o Parlamento Europeu tivesse um deputado oficial dos partidos nele representados. Eu adivinho a razão: Bugalhito queixou-se outro dia, suponho que ao Observador, que ninguém o conhecia em Bruxelas... 

         - O Chega depois de muitas promessas e piruetas trolarós, votou contra o pacote laboral. Nas galerias do Hemiciclo estavam os sindicados em força a assistir. Quando o impensável aconteceu, as bancadas do velho edifício explodiram de contentamento e vitória. O que me comoveu, não foi o projecto ir por água abaixo, foi as lágrimas quentes e sinceras do dirigente da Intersindical, Tiago Oliveira. Aquelas lágrimas traduziam envolvimento, sinceridade, paixão pela causa que defende, humanismo. 

         - A extrema-direita em tudo igual à extrema-esquerda, tinha um plano montado para virar o sistema democrático que temos e um projecto na clandestinidade: Movimento Armilar Lusitano. Associados estavam grupos neonazis, bem apetrechados com arsenal de armas, dinheiro a rodos, treinados e distribuídos pelas redes sociais onde recrutavam pessoal para as suas causas. Era objectivo liquidar “os indesejáveis” – Marcelo Rebelo de Sousa, Cavaco Silva, Luís Montenegro, Ana catarina Mendes, António Costa alguns mais. À frente do grupo, há dois militares, um elemento da GNR e um fuzileiro da Marinha. Estes são suspeitos de fornecer armas e munições ao chefe da PSP envolvido no caso, e ainda terem entregado fardas camufladas. Quatro arguidos encontram-se em prisão preventiva. 

         - Estive no consultório do Dr. Octávio Simões a apresentar-lhe o resultado das páginas de exames a tudo e mais alguma coisa. Não falei, deixei-o analisar o que me havia ordenado fazer e mais o que a minha médica de família acrescentou. Confesso, nunca vi um médico tao feliz. Parecia que aquelas análises eram suas e a revelação da sólida saúde sem que um único parâmetro se desviasse do sagrado mens sana in corpore sano de Juvenal, lhe diziam respeito. 

         - A propósito deste excelente clínico. Há três meses que não tenho dores nenhumas e o meu coxear trouxe-me o brilhantismo dos meus vinte anos. Todo este orgulho, foi-me restituído pelo Dr. Simões. Coxinho, coitadinho ainda não virou o coxinho, coitadinho, velhinho. 


sábado, junho 20, 2026

Sábado, 20. 

Às vezes suspendo-me a admirar as paredes desta casa, as estantes a abarrotar de livros, os quadros suspensos de onde desce toda a amizade e simpatia dos artistas que admiro e com quem convivi, os móveis estrategicamente colocados para serem presença quase humana do meu viver, a atmosfera de sossego indispensável ao labor quotidiano, a mesa onde escrevo voltada para o campo de onde brotam as árvores, ternas amigas com quem dialogo e colho energias para esta solidão abençoada ramificada num lugar eterno onde elas e eu permaneceremos para a eternidade. O cheiro bafiento da riqueza nunca aqui entrou, só o conforto esteve presente desde o dia e ano em que deixei de viver em Lisboa e me revigorei no contacto com a natureza que desde logo me abençoou. Não foi fácil aqui chegar, duros foram os meses a acompanhar a construção deste refúgio, a lidar com os operários e, sobretudo, com os empreiteiros que me tentaram roubar obrigando-me a comprar tijolos, sacas de cimento, material que lhes serviria noutras edificações de casas, com lucro a dobrar. Investi sobre todos os desaires, só, montado no escudo invisível que não sinto no corpo, mas me asperge de coragem e motivação. Todo o interior não fora concebido pelo meu amigo arquitecto João Biancard que desenhou a casa durante os nossos jantares, mas sim por mim, passo a passo, à medida que ia vendo crescer estes muros, abrirem-se divisões, cantos e recantos. Aqui suprimi uma porta para levantar uma janela, acolá mandei fazer um sobrado para instalar parte da biblioteca, as casas de banho forradas a azulejo com pinturas assinadas pelo meu saudoso amigo Osório e realizadas nas oficinas de Sebastião Fortuna. Para as janelas e portas, andei com o mestre Fortuna semanas a fio, a correr seca e meca em busca de cantarias antigas que se ajustassem às suas dimensões. Quando o esqueleto da habitação ficou pronto e os pedreiros e os aldrabões dos construtores partiram, entrou o meu querido e pesaroso Fernando Fernandes com a sua equipa de deficientes de grau máximo, mandando eu vir do Brasil o soalho para o chão, portas, janelas e portadas que este excelente artista assentou, montou, afinou e que até hoje, já lá vão trinta anos, nada mexeu ou desajustou e se conserva inalterável em cor, fendas e brilho apesar do seu físico deformado, o pescoço que quase não mexia, as dores que propagavam durante o penoso ofício de carpinteiro. Na semana seguinte à cobertura das tábuas no chão do rés-chão e quartos no andar de cima, veio o envernizador, trazido por um sobrinho, em cadeira de rodas. Para o primeiro andar, o rapaz conduziu o tio nos braços e depois levava-lhe a cadeira e desse modo o trabalho maravilhoso que ele executou ainda hoje refulge no aprumo e rigor da sua assinatura. Quando Fernando Fernandes, deu por findo o trabalho e se preparava para se despedir, eu inventei outro afazer e ainda um terceiro e foi ele que me disse que tinha de abalar porque outros clientes esperavam por ele. No intervalo, andaram aí dois estucadores meio loucos, que num só dia despacharam as paredes da moradia. Entretanto, desde o começo desta aventura, tinham passado cinco meses. Surgia, então, um sítio só meu para habitar e um enorme espaço de campo selvagem, com vinha e árvores de fruto, que tive de deitar abaixo quando a nossa querida então CEE proibiu que se fizesse vinho fora dos circuitos comerciais e as oliveiras que me davam um azeite excelente, mandou fechar os lagares onde eu levava todos os anos a colheita das azeitonas. Quando um pintor meio doido acabou a pintura exterior e eu interiorizei que era aqui que viveria, fui tomado de um pavor indiscritível. Deixar o Príncipe real onde vivi uma grande parte da minha vida, era obra de um louco. Todavia, de cada vez que jantava com o João Biancard, ele repetia: “Quando começares a levar os teus livros para Palmela, depressa te instalarás.” Dito e feito. Com a ajuda preciosa dos Amados e dos seus empregados, que trouxeram na carrinha da empresa da qual eram sócios, estantes e móveis, e mais o auxílio dos meus sobrinhos e amigos deles, num ápice o interior ficou acolhedor e o seu proprietário recolhido no conforto que desde logo aqui reina. A seguir ao Verão instalou-se o Outono e eu fora agasalhado com uma manta de silêncio. No caminhar do tempo a casa, qual cofre inviolável, foi guardando delírios, serões de conversas sossegadas, loucuras, amores feitos e desfeitos, noites no respaldo de muitos cansaços engolidos pela opacidade das horas, pensamentos construídos no limiar de angústias, pedaços de palavras atiradas ao fogo que arde na lareira, e sobretudo, a pouco e pouco, ergueram-se novos alicerces que sustêm a memória, a recordação do que não morre, o sopro que alimenta a vida que me coube viver, plena no ser solitário e inteiro que sou, onde crepita nos momentos o desespero e renasce de recônditos lugares a esperança de dias plenos de luz. Adoro este espaço, os pássaros que me acordam, os ventos mansos e demoníacos, a fruta que me alimenta, a sombras das figueiras, a lonjura que me aproxima de quem de mim precisa, o silêncio que não pára de dialogar, o murmúrio dos segredos que nem às sombras se contam, aqui densos, límpidos, cheios da ternura que embala as horas, os dias, os meses, os anos. Serei eu de novo feliz na terra que me viveu nascer? Habitar uma padiola, circunscrever-me a um espaço restrito, sem vista que me abrace quando tanto anseio por me perder de mim, voar pelo espaço sideral, eclipsar-me num sítio onde reine a felicidade que as coisas simples impregnam de doçura...  

         - Vai por aí uma berraria medonha contra Ronaldo. O “maior jogador do mundo”, o “craque eterno”, o “português mais famoso”, que subiu da pobreza à luxúria pateta que o isola dos demais, porque o resultado do seu talento é-lhe roubado pelo peso dos anos que não poupa ricos nem pobres, todos irmanados na mesma condição. Neste infeliz país o futebol é uma espécie de pancada forte no toutiço de cada português; assim também eu fui obrigado a acompanhar o drama nacional. Acontece que normalmente vejo os noticiários da SIC. Esta, como todas as televisões, não falam de outra coisa senão do Mundial de Futebol e mais precisamente do resultado da partida Portugal vs RD Congo. Ao infeliz ricaço chamam-lhe tudo: avô, velhote, empecilho em campo, estorvo para os companheiros da Selecção, e outros vitupérios desagradáveis. Eu nunca fui seu fan, embora o tenha visto algumas vezes a atravessar a Largo do Chiado no seu automóvel vistoso, de música aos berros para que o mundo sentado na Brasileira o admirasse. Nunca apreciei o seu físico construído, pomadado, o ar provinciano que o dinheiro e o conhecimento de Donald Trump e dos príncipes das arábias não ousaram abrilhantar, é arrogante, vaidoso, e muito menos o sex-appeal que mulheres e alguns homens cobiçam. No entanto, o pobre madeirense, tem algumas características que aprecio: é trabalhador, apesar de já “velhinho” não se dá conta do ridículo daquele pendericalho que desce da orelha esquerda, não tatuou o corpo com amostras de tapetes chineses como os companheiros, chora quando se emociona, e decerto, interiormente, sofre por não ser mais o ídolo que o alcandorou ao lugar passageiro da fama. Dizem as mulheres que com ele se deitaram (penso na americana dona dos hotéis Hilton?), que foi uma decepção, mas isso deve ser ciúme de loucas varridas pelo vazio dos seus corpos saturados dos cheiros nauseabundos dos adónis masculinos...  



 

quarta-feira, junho 17, 2026

 Quarta, 17.

Em Castelo Branco um artesão que reparava todo o género de peças em madeira – velhas cabeceiras de cama, cadeiras de baloiço, molduras antigas... – foi notificado pelo novo proprietário do prédio que comprou uma enfiada de edifícios para os transformar em alojamento local, que devia sair da sua loja no centro da cidade. Logo uma multidão de albicastrenses se reuniu contra a especulação que permite pôr na rua o senhor Jorge Batista. A câmara vai analisar o assunto impulsionada pelo movimento “todos pela oficina do Batista”. Digam lá, caros leitores: então não é muitíssimo mais válido, curioso, humano, progressista até este acontecimento, que um ano inteiro de trabalho insano dos nossos moiros de cansaço deputados na Assembleia da República?

         - Luís Carneiro, além de lutar contra a corrupção que invade o PS, tem de enfrentar os pedronistas que imperam pelas federações do partido e defrontam as decisões do actual Secretário-Geral. Pedro Nuno Santos, dito de esquerda, não nos larga. A princípio pensei que ele tinha abandonado a política, mas depois como a falta de dinheiro é muita e a actividade de especulador imobiliário está a decair, voltou à Assembleia onde o ordenado é chorudo e as mordomias acompanham a vidinha airada de carros de marca, casas confortáveis e restaurante upa, upa. Bem prega frei Tomás: faz o que ele diz, não faças o que ele faz. Esta máxima, aplica-se a muitos militantes de esquerda que conheço: a ideologia só se aplica aos outros, eles mantêm a boa vida burguesa num claríssimo choque entre o que apregoam e o que fazem. 

         - Eu conheci quando entrei para o jornalismo, a maioria desta gente de esquerda que antes do 25 de Abril apoiei e andei de braço dado e estão de saída deste mundo. Todos pareciam pertencer secretamente ao PCP, quando na realidade, como mais tarde vim a constatar, eram democratas que queriam a democracia para o seu país. Hoje, são tratados de direita, porque os comunistas têm apenas dois lados de ver o mundo, a sociedade, a moral e os costumes: ou se é por eles ou contra eles. Endeusam o marxismo-leninismo que provou à saciedade o desprezo pelo proletariado, pese embora a ditadura que criaram em seu nome. Na nomenclatura (Nomenklatura) de Lenine, Trotsky, Estaline, Khrushchov, Brejnev e passo, nunca os trabalhadores tiveram acesso ou quando o tiveram foi fogo de vista. Eles gritaram por uma sociedade igual, sem ricos nem pobres, mas o que floresceu e floresce é precisamente o contrário e as sociedades capitalistas que eles combateram, acabaram por ser mais ajustadas aos sonhos dos trabalhadores e às suas lutas de progresso e bem-estar. Por uma e suprema razão: nos países comunistas, o cidadão de qualquer classe social, trabalhador, intelectual, proletário vive amordaçado e proibido de se manifestar. Aquilo Ribeiro, que andou (ou tinha fama disso) por aquelas águas ditas cristalinas, julgo que em O Malhadinhas, expõe-se desta forma: “Guarda-te de homem que não fala e de cão que não ladra, por isso eu sempre falei, falo e falarei franco até morrer, pois se nós temos pensamento, acautelá-lo da boca só por ronha ou cobardia.”

         - Está a decorrer o Mundial de Futebol. Que vergonha! Que engodo! Que tristeza! Que miséria! Aquilo de desporto não tem rigorosamente nada. O presidente da FIFA, rendeu-se ao lucro, ao fascínio do dinheiro, ao poder e aos triliões que lhe vão entrar por todos os lados. O conluio com os obsessivos capitalistas Trump à cabeça, que recebeu antecipadamente o troféu banhado a ouro com direito à transmissão da Casa Branca, e tem para sua glória o campeonato a realizar-se nos EUA, tudo aquilo tem cheiro nauseabundo a podridão, escravatura, subserviência, endeusamento de figuras insignificantes que andam atrás de uma bola convencidos que são os reis do mundo, quando não passam de pobres coitados que, embora bem pagos, são explorados por esquemas vergonhosos de indignidade humana. 

         - Por falar no louco. Donald Trump está em França em reuniões com os líderes europeus. Adora ser bajulado e quando tal acontece o discurso muda radicalmente. Chegou outro, dialogante, sorridente, próximo dos objectivos da Europa e até com um discurso humano ao afirmar não compreender o seu ex-amigo Netanyahu “quando para matar um tipo do Hezbolá, destrói um prédio e subjaz nos escombros várias pessoas”. Ele que nisso não pensou quando bombardeou uma escola no Irão e matou dezenas de crianças. Que maluqueira é a deste monstro a quem os americanos confiaram os destinos da América!

         - Nada escutei sobre o ataque à catedral de Kiev, cujo resultado foi este crime hediondo 

A catedral em chamas.
    
Uma das cúpulas no chão.









terça-feira, junho 16, 2026

Terça, 16.

Putin só conhece a lei da força. É tempo perdido andar a convocar reuniões, acordos, o fim da guerra. Ele só parará com a ofensiva, quando a Ucrânia o vencer. De contrário, é o que se vê. Anteontem fortes ataques a Kiev e outras localidades que destruíram o mosteiro histórico de Kiev-Pechersk e a catedral do século XI Património Mundial da Unesco sofreu grandes estragos. Além de pelo menos onze mortos e não sei quantos feridos. A UNESCO diz que a catedral é “obra prima da arte ucraniana”, que as suas grutas acolhem há vários séculos relíquias de diversos santos. Daí que o mosteiro ortodoxo seja também conhecido por Mosteiro das Grutas. Naquele dia os russos lançaram 70 mísseis e 611 drones. Vou citar De Gaulle. A guerra, dizia, “où l´homme rompt avec sont Créateur”. 

         - Estamos tramados. Com o mundo a ser dirigido por doidos de egos do tamanho da sua loucura – Putin, Trump, Netanyahu, Xi Jinping, o taralhouco da Coreia do Norte – assim como muitos outros em miniatura, mas nem por isso menos perigosos, tudo pode acontecer. Nem queria voltar à novela do Irão em cujo bolo de aniversário do prepotente pobre octogenário dos EUA, não coube no topo a assinatura dos dirigentes revolucionários iranianos, como ele tanto apregoou. Desta vez, ao contrário do que eu acho embora não tenha voz no assunto, parece que muitas nações entendem que dentro de oito dias o memorando de entendimento que ninguém conhece, vai apresentar as assinaturas que farão parar a guerra e abrir o Estreito de Ormuz. O curioso da mixórdia, que levou Trump e o corrupto Netanyahu a atacar o Irão – recorde-se a bomba nuclear – só vai ser assinado na segunda fase, isto é, daqui a dois meses! Entretanto, ao contrário da ordem dada pelo ex-amigo Trump a Netanyahu, este prossegue os ataques ao Líbano e Gaza situando-se, só no período de cessar-fogo, para cima de 4 mil mortos. 

         - Os suíços são um povo especial. A dita direita, propôs um referendo que limitasse a população a dez milhões de habitantes. Isto tendo em vista o número crescente de imigrantes que se instalam e por lá ficam. Contrariamente ao que o Partido Popular Suíço (SVP) ambicionava, os eleitores rejeitaram a sua ambição impositiva. 

         - Fui à natação. Estranhamente, à parte os velhinhos que dançavam na água ao som das canções de Carlos Paião, só eu me encontrava na piscina. 

 

domingo, junho 14, 2026

 Domingo, 14.

A semana que passou, foi levada em discussões, perdas de tempo, injúrias e hossanas na casa da balbúrdia em que se transformou o Parlamento. Nada daquilo contribuiu para que a vida dos portugueses se dignificasse, a democracia se fortalecesse, o futuro do país fosse mais promissor. Os nossos amargos políticos, formados não se sabe onde, levaram horas e horas uns a reivindicar bandeiras partidárias nos edifícios públicos, outros a arreá-las espezinhando-as no chão.  

         - Aquela coisa que dá pelo nome de Presidente dos Estados Unidos da América juntamente com o seu séquito mafioso, por celebrar hoje o seu octogenário aniversário, entende que o mundo deve estar de joelhos a agradecer-lhe tão divina vida. Assim, sem mais aquelas, exige ao Irão que comemore a data com a assinatura do acordo de paz que ponha fim à guerra que ele começou com o soldado raso Netanyahu. A pressão e tal, que até já se inventou uma resolução moderna, com assinatura electrónica e mais tarde a outra presencial. Mais honestas e credíveis, as autoridades iranianas não parecem convencidas e vão adiando o fim das hostilidades. A descrença em Trump é absoluta e ninguém parece interessado em confiar na sua palavra parlapatona.  

         - Temos sido muito mal governados e assim continuamos. Como podem os partidos quando são governo, exigir aos cidadãos que paguem a tempo e horas os seus impostos, coimas, serviços e passo, quando, como nos informa hoje o Público, eles devem 1,4 milhões em coimas!!! Sabemos porque o jornal deve ter os seus piões estrategos; de contrário nunca o saberíamos. Mais: as instituições competentes para denunciar o desaforo, escondem do povo quais os partidos e que importância cada um deve ao Estado, num claro desafio à falta de transparência exigida pela lei. Este país é uma choldra. Os políticos e os partidos estão claramente acima da lei. A réplica salazarenta está por todo o lado. 


sábado, junho 13, 2026

 Sábado, 13.

Aqui madruga-se. Desde logo para regar, depois para ir ao mercado dos pequenos agricultores em Pinhal Novo e depois para os pequenos trabalhos de dono de casa. E ainda bem que assim é. Porque com tantos afazeres a distâncias daqui, sou sacudido pelo acordar pesado dos tormentos que vêm da noite e se atiram inteiros ao começo do dia. Faz um calor medonho, estou de portadas cerradas, no lusco-fusco das salas, e assim o fresco espraia-se por todas as divisões. 

         - Ontem passei um dia agradável em Lisboa. Fui no autocarro com ar condicionado, regressei em idênticas condições. Almocei no C.I. um prato simples, mastigado sem pressas, os pensamentos volteando entre a mesa e o espaço quase vazio. Depois fui renovar o meu guarda-fatos há muito esquecido. Há anos que não compro roupa, preferindo esgotá-la até ser farrapo e notada por aquelas dondocas que adoram os farrapinhos e me alertam para as calças ou as camisas rotas. Porque o que visto tem duas épocas: a que levo a qualquer lado; a que fica até ser trapo e uso por aqui, casa e cafés, mercados e supermercados. Aconteceu um facto curioso. Andei em busca de camisas frescas e de meia-manga. Encontrei o que procurava e com duas peças dirigi-me à caixa para pagar. Qual o meu espanto quando a amável rapariga, de sorriso de orelha a orelha, me reclama 404 euros! Ia-me dando um fanico. Claro que recusei e só então me apercebo que o ricaço teve mais olhos que a conta bancária. 

         - Mais tarde, no pequeno café da Fnac, durante hora e meia, corrigi 15 páginas no romance. Momento sublime, suspenso do delírio da escrita que o tempo apagou de entusiasmos e ali se me apresentou no espontâneo do texto, como se aquilo que os meus olhos viam não me pertencesse. 

         - Nós tivemos vários Presidentes da República pós-25 de Abril de 1974. O primeiro cheio de militarizes agudas, depois o da austerize distante, a seguir o fanfarrão sedutor, depois o economicista azedo, pegado a este o trolaró simpático, e Seguro?  


quinta-feira, junho 11, 2026

Quinta, 11.

No caminho para o portão, tombou mais uma árvore bloqueando a saída. Não sei se ficara fragilizada quando da tempestade, se alguma ventania a tombou durante a noite. Não escutei vento que me pusesse de atalaia. Seja como for, acresce que o meu amigo espalha brasas está sem moto e vai ter que ser o filho a vir no fim da tarde desimpedir o percurso. Conclusão: eu que tinha um programa a cumprir em Lisboa, desmarquei tudo para ficar preso neste simpático convento. 

         - Leão XIV abençoou o sonho de Antoni Gaudí e a inebriante Basílica da Sagrada Família desprendeu-se em beleza ante os olhares deslumbrados dos espanhóis e turistas. O Papa tem sido acolhido com simpatia em todos os lugares aonde o leva a sua missão apostólica. Espanha, parece reconciliada com o Vaticano e Leão XIV não deixou publicamente de se indignar com os casos sexuais de membros da Igreja católica. Noto, todavia, que os usos canónicos vão mudando. Por exemplo. Onde é que dantes se via um Papa a ser abraçado por uma mulher no contacto físico que isso implica! 

           - Por aqui o espectáculo é o mesmo de todos os anos, só a beleza é sempre única.  


         

 


quarta-feira, junho 10, 2026

 Quarta, 10.

Optei por não deixar este monasterium. Aqui, como digo, há sempre muito para fazer e sou como que abraçado pelo silêncio que me preserva em movimento contra a minha vontade. Ser activo é não deixar morrer os instantes que sobrevoam os momentos que se liquefazem pela força da vontade ligada aos projectos que se inventam dentro e fora de nós. Por outro lado, a quietude, sendo irmã da consolação, carrega em si a soma de sensações, intuições, louvores que se irmanam entre si para fazer saltar as horas do cronónimo que as resguarda. No recolhimento somos ausência e presença, por dentro de nós perpassa um mundo que chega dos inícios da humanidade, paralisa-nos e incentiva-nos a descobrir o tortuoso caminho que juntos fizemos sem nunca nos desligarmos do que fomos somando em experiências - sofrimentos, dúvidas, silêncios, mortes e ressurreições. Fomos feitos para a contemplação, para a paisagem aberta que estende diante dos nossos olhos inquietos todas as interrogações que nos perturbam e dão sentido à movimentação da vida. Preenche-nos o que desconhecemos, o que almejamos e não encontramos na banalidade da vida solta, preenchida de pequenas coisas, enormes vazios, alienações e ousadias serôdias. Também fomos feitos para a felicidade, quando esta se aproxima no segredo das horas, ao lusco-fusco insinuante do horizonte, rasgadas as janelas de luz das madrugadas suspensas das alegrias virgens que povoam noites siderais e quedam o olhar perscrutando o fundo de nós mesmos – lugar onde só nós achamos os pontos cardiais. O vento, agita os ramos das árvores, sem paralelo com nenhum entusiasmo ou alvoroço humano. As árvores, dizia Hermann Hesse, são seres solitários e é nessa condição que partilham connosco as sombras protectoras, os silêncios habitados de histórias, os pensamentos desenvolvidos debaixo das suas frondosas copas, os sonos recuperadores para abraçarmos os dias de esperança. Isolados, somos impelidos a reinventar o melhor de nós, a pensar no supremo privilégio de havermos nascido para glória do tempo a provir. Devemos desconfiar dos que se agitam, dos que levantam a voz, dos que prometem o que sabem de antemão nunca poderão dar, porque simplesmente não conquistaram para si a solidariedade, não pararam para olhar o próximo, escravos da ganância de poder e serventuários da riqueza, egoístas e suspensos do fio tangencial como apregoam a felicidade. As palavras e os pensamentos, são o murmúrio ensurdecedor que enche as horas e o mar de silêncio que nos envolve na doce disciplina da solidão, da solidariedade que nos aproxima do outro – esse que se desdobra em nós e nos faz profundamente humanos.          

         - O PS está podre. Aos muitos casos de corrupção, junta-se agora o número três do partido, António Campos, acusando-o de múltiplas ilegalidades e compadrios.   

         - O Irão que Trump e Netanyahu dizem estar em falência de armamento, responde com soberba aos ataques que ambos lhe fazem. Voltou a acontecer ontem, quando bombardeado pelos EUA porque destruiu um helicóptero norte-americano no Estreito de Ormuz, responde com uma chuva de ataques a bases americanas no Bahrein e Jordânia. E ainda se deu ao luxo de prevenir os inimigos com uma “resposta severa”, caso prossigam as “agressões”. Quem assim fala, é a Guarda da Revolução. 


terça-feira, junho 09, 2026

 Terça, 9.

Ontem reabri o pátio para o Verão. Logo de seguida, mergulhei na leitura de Génesis. A dada altura, depois de Abraão se lamentar ao Senhor por a mulher Sara não lhe dar filhos, YHWH diz-lhe que os faça com a criada Hagar. Indo ele nos oitenta e seis anos, a criada deu à luz o seu filho Ismael. Algum tempo depois, o Senhor volta a aparecer ia Abraão em noventa e nove anos, e promete a Sarra dar-lhe filhos que acrescentem gerações e formem nações. Ela diz-lhe que dada a sua provecta idade, já não tem os desejos de então. Deus não se demove e o marido decide com o seu filho Ismael fazer circuncidar o seu prepúcio como o do rapaz. Muito do que a Bíblia nos inspira, foi posto de lado pelos positivistas para quem o conhecimento científico conta como exclusiva fonte de verdade. Mais recentemente a Ciência que recolhe da realidade o que vê, apalpa, suga. E nos nossos dias, o capital enquanto fonte de realização ou rejeição, poder e consumação do arbítrio sobre os demais. Contudo, o que há de fascinante é que os nossos antepassados acreditavam que Deus e só Ele, era capaz de tudo realizar. Como aconteceu com Sara que engravidou indo Abraão nos cem anos e deu à luz Isaac.   

         - Nos balneários da piscina, os velhotes nus e de sólidas barrigas de torresmos, discutiam a visita do Papa a Espanha. Um deles dizia: “O homem é americano, Trump, humm não me convence.” 

         - Voltei a pôr Seguro de quarentena. Ele está a comemorar o 10 de Junho na Terceira, Açores. Quando lhe perguntaram o que pensava sobre a Base das Lajes, descartou a pergunta, acrescentando que Portugal deve ter boas relações com a América e (para aliviar) com os países da NATO. Sim, o que Portugal necessita é de governantes fortes, como os de Espanha, França, Reino Unido e Alemanha. Há muito que devíamos ter deixado a subserviência, o temor, a falta de carácter. E lembrar-me eu que ele em campanha disse que devíamos pensar em renovar o acordo sobre a ocupação das Lajes. 

         - Verão curioso este, empurrado pelo vento forte e frio. Todas as manhãs, enquanto rego, estou enrolado num casacão de lã porque o frio assim o exige.  


segunda-feira, junho 08, 2026

 Segunda, 8.

Ainda não tenho opinião formada sobre António José Seguro enquanto Presidente da República. Contudo, aqui e acolá, surgem afirmações que começam a criar no meu espírito algo de consistente. Por exemplo. “As sociedades mais fortes se constroem (eu diria constroem-se) pela inclusão e pela capacidade de acolher.” 

          - No sábado fui convidado para um almoço. Acontece que pelas ruas de Lisboa havia arraial pelos direitos de LGBTI+. Nada contra ou antes pouco a favor. Gosto de festa, aceito o espectáculo de rua, mas não alinho muito com exibições deste tipo porque não acredito na sua eficácia conhecendo o que está na sua origem. São as mentalidades que há que mudar, a sociedade como um todo, e uma vez estabelecidos os direitos de cada um ser o que deseja ser, as leis serem cumpridas e admoestados os que as contrariam. Ponto final. De contrário, exposições como aquelas, são, no estado moral actual da sociedade, uma violência que contribui ainda mais para que as mentalidades não mudem. 

         - Está de novo incendiada a guerra entre Israel e o Irão. A noite passada violentas explosões em Telavive e Jerusalém, vindas de Teerão e dos seus aliados hiutis. São a resposta à política de Trump e aos bombardeamentos de Israel no Líbano. Os americanos deram o poder a um doido varrido e este pegou fogo em tão pouco tempo a uma boa parte do mundo. Para não falar nos danos económicos, artísticos, sociais que proliferam pelo Médio Oriente e se estendem ao resto do Planeta. 

         - Salva-nos o Papa Leão XIV. Em Madrid estendeu os braços a todos os infelizes que vivem ao deus-dará. O actor Antonio Banderas, foi ao seu encontro e disse-lhe: “Fui vítima do feitiço de Deus.”

         - De súbito, sabe-se lá porquê, sai da cartola dos resignados, uma voz que se ergue à proa da coragem e do bom senso: Francisco Guimarães. Ontem, no comentário da SIC que temos de gramar sobre o Mundial de Futebol, aquele comentador, afirmou sem pejo, que começa a ser hora de pôr Cristiano Ronaldo no armário, de modo a que a equipa como um todo possa libertar-se da vaidade daquele seu membro e vencer. 

         - A necessidade da escrita em mim, é tão emocionante como a existência de Deus. Esta, porém, fragiliza-me e fortalece-me ao mesmo tempo. A verdade é que, tudo o que diz respeito a Deus, deixa-me emocionalmente de rastos. 

         - Fui ao Chiado desfazer-me do que havia feito no sábado: trocar por um número acima calças e camisas. Não porque tenha engordado – mantenho os meus clássicos 64 quilos –, mas porque não gosto de roupa assertoada não vá os olhares indiscretos possuir o meu elegante corpinho... 


domingo, junho 07, 2026

 Domingo, 7.

Os temas acumulam-se no decorrer dos dias. Todavia, alguns há que ficam a martelar-me a mente por dias. É o caso da morte de Henry Nowak que morreu por assim dizer nas mãos dos polícias que o algemavam. O jovem tinha sofrido ferimentos nas pernas e um golpe no coração e gritava que tinha sido esfaqueado, mas os agentes londrinos não deram crédito ao que ouviam. Tratou-se um acto racista que ocorre cada vez mais por todo o Reino Unido. E não só em Inglaterra, também entre nós. Há duas semanas, no Porto, três meliantes pelos vinte anos, atacaram um marroquino deixando-o em estado comatoso. Cá como por este mundo fora, as novas gerações parecem mais violentas, desumanas e capazes de actos bárbaros inqualificáveis.  

         - O Papa Leão XIV chegou a Espanha em missão apostólica. Hoje, na Praça Cibelis, Madrid, rezou missa para mais de um milhão de fiéis. Dali irá celebrar idêntica cerimónia a Barcelona, à catedral do visionário Gaudí que está praticamente pronta segundo os desenhos que o artista deixou. Segue-se as Canárias. São oito dias em terras de Espanha, quinze anos depois de Bento XVI ali ter estado. As relações entre a Igreja e os espanhóis, durante este longo interregno, não têm sido muito cordiais. Estão na base os abusos sexuais que inundaram a Igreja e que os espanhóis, fervorosos crentes, não aceitaram. A Basílica da Sagrada Família, que eu visitei demoradamente com os Amados há uns anos e me deixou perplexo ante a loucura de um empreendimento que parecia impossível de realizar, terá a bênção do Sumo Pontifico, e do que vi na televisão, os espaços que percorri, as zonas então em duros trabalhos, oferecem pelas imagens um espaço cheio de luz, jorra luz do alto de todos os pontos da basílica e a nave central parece abraçar o cume com as suas torres em flecha. Terei eu a possibilidade de ver aquele Paraíso Terreal que a obstinação do artista levou muitas gerações a realizar?  

         - No país em que nos transformámos, ter resiliência ou ser resistente, na forma como são usados estes substantivos, denunciam uma única palavra: ignorância. 

         - Dizia eu ao Alexandre que tinha dado instruções ao Simão para me vender a quinta, e logo ele como anteriormente Filipe: “Voltar para Lisboa como ela está?!” 


sexta-feira, junho 05, 2026

 Sexta, 5.

Eu se tivesse que entrevistar Donald Trump, far-lhe-ia esta simples pergunta: por que razão não pode o Irão ter a bomba nuclear e os EUA podem? Decerto que a resposta viria na forma de um soco em cheio na minha ousadia. 

         - Uns quantos manifestantes da minoria trabalhadora que desceu à rua contra a reforma laboral, envolveu-se em agressões com a polícia. Não acredito que sejam adeptos da CGTP, mas tipos a soldo de outras organizações misteriosas. Seja como for, o que mais uma vez se viu foi que o PCP através do seu braço direito sindical, determinou a política ideológica e a propaganda sectária habitual. Se para nosso azar algum dia ele fosse governo, a maioria dos que desceram à rua anteontem, seriam obrigados a ficar em casa, amordaçados. 

         - O pobre do Sebastião Bugalho que vive em Estrasburgo à grande e à francesa como deputado europeu, queixou-se ao Observador “aqui ninguém me liga nenhuma”. Pudera! Que importância terá um deputado taxado por baixo como a maioria dos que ali estão em corpo presente? A importância que o sujeito pensa ter, só funciona num país pequeno, onde quem tem olho é rei. Aqui imperam os doutores analfabetos ou com o liceu tirado à tangente, os “comentadores” políticos falatando sem ganharem um tosto nas televisões (na rádio são mais os “especialistas”), assim como essa arraia miúda da recente leva de jornalistas. Não tem conta o número de vezes que estive em Estrasburgo, e nunca por um segundo tive curiosidade em ir visitar o Parlamento. Cruzes! Bastava presenciar os nossos deputados nas esplanadas e restaurantes da cidade, escutá-los nas conversas chulipas, com aquele ar provinciano de quem se sente acima dos demais.


quinta-feira, junho 04, 2026

 Quinta, 4.

O colunista do Público aqui tantas vezes citado, Sr. José Miguel Tavares, não deve ler-me e faz muito bem. (A propósito, ontem, em mais um documentário da SIC sobre as prestidigitações de José Sócrates e os milhões que nunca o largaram, embora nos queira baratinar que vive da reforma de 2.200 euros, menor que a do João Corregedor que apenas foi deputado, falou do figurão na sequência do livro que escreveu sobre a personagem romanesca. Há muito que não o via, e foi para mim uma surpresa observar como os anos lhe assentam bem, tornando-o menos feião e até o lábio superior se arredondou um pouco enquadrando um rosto com os óculos modernos que no-lo devolve airoso.) Bref. Ele acrescenta ao que eu aqui anotei ontem, uma série de dados que confirmam a minha visão da nossa vida partidária. Há muito que para mim a CGTP é contra-poder, que serve em primeira instância o PCP de onde emanam as ordens e a liderança da central sindical. Cita as numerosas greves gerais nos governos PSD, algumas no PS e nenhuma quando da “geringonça” de ma memória. Escreve: “A perda de força do eleitorado do PCP traduziu-se num agravamento da sua luta política através da CGTP.” E vai mais longe: “O sindicalismo no sector do Estado é o lugar que resta ao PCP para fazer prova de vida; um dos derradeiros resquícios das conquistas revolucionárias que perduram até aos dias de hoje.” Não podia estar mais em sintonia. 

         - Por falar  na peçonha. Acabei de pagar com língua de fora o “imposto Mortágua”. 

         - Recuso-me a trazer hoje para estas páginas os desaires do mundo, os loucos que o governam, as injustiças que se praticam, as guerras que proliferam, os mortos que não cessam de aumentar na Faixa de Gaza, Líbano, Ucrânia, Rússia, Irão, Sudão e passo. 

         - A surpresa, à mon âge, de acordar a meio da noite incendiado de desejos!


quarta-feira, junho 03, 2026

Quarta, 3.

Já passaram nove meses sobre o acidente no elevador da Glória. Como eu na altura previ, ainda não há culpados e o julgamento é uma quimera. Entretanto, as vítimas chegam-se à frente e pedem milhões de euros à Carris. Não é preciso ser-se entendido em nada de especial - basta observar a sociedade onde estamos inseridos. 

         - Viver até aos 150 anos! Os cientistas americanos andam a tratar disso. Dizem-nos que é possível e em boas condições de saúde. Nada que não tenha já sido norma. Se lermos o Génesis, encontramos as nossas origens com vidas mais do que centenárias. Por exemplo. Adão viveu duzentos e trinta anos, o seu filho Set duzentos e cinco anos, Abraão tinha cem anos quando lhe nasceu o seu filho Isaac. Toda esta geração na qual assenta a nossa, vivia centenária. Os americanos não estão interessados na universalidade, estão de olho nos poderosos endinheirados que já hoje despendem fabulosas fortunas em retoques, alimentação, arranjos físicos e assim. Vladimir Putin é um deles. Na realidade nota-se quando anda. Olhando-o de face, há nele uma espécie de múmia ambulante que não pode desafiar os instantes, antes movimentar-se na tibieza da vetustez que o espreita. 

         - O país paralisou? Talvez. Mas não foi decerto porque a maioria dos trabalhadores pararam por convicção. Parou porque os funcionários do Estado – professores, médicos e enfermeiros, pessoal dos transportes – impediram que os restantes saíssem ao encontro do quotidiano habitual. A CGTP (a UGT desta vez não aderiu) controla o funcionalismo público, faz o trabalho que o PCP já não consegue fazer por descrédito nas mesas de voto e, por conseguinte, no Parlamento. Que os portugueses ganham miseravelmente, é um facto que ninguém contesta e serve às mil maravilhas à esquerda como propaganda de ascensão. Mas se virmos como vivem os trabalhadores na Rússia, Coreia do Norte, Vietname ou China, temos a cópia do que seria entre nós se vivêssemos sob a sua alçada. Com este particular: teriam de baixar a cabeça ou seriam presos. Por outro lado, quem está na origem da pobreza e da humilhação de metade da população a viver nas condições que se sabe, é o PS e o PSD enquanto partidos que têm governado Portugal. São estas verdades que eu aqui, modestamente, não deixo de alertar. Exigir menos pobreza, mais cultura, saúde, habitação é uma questão humana que devia pertencer à dignidade que se exige e ao equilíbrio que devia imperar em qualquer país. Com esta ou aquela ideologia, com este ou aquele sistema político. Quando as esquerdas reivindicam estes princípios e com isso querem ganhar terreno, não é o ser humano em si que os impulsiona, são apenas os objectivos do poder, porque ali chegados, nada nos garante que seríamos mais humanos e solidários e equilibrados e democráticos. Muito pelo contrário. Uma pequena imagem tivemo-la com a “geringonça” de que hoje sofremos. 

         - Esta lindíssima foto que não resisto a publicar, é um pernilongo juvenil da autoria de Afonso Bernardino, capturado na Figueira da Foz e largamente premiado.  



 

terça-feira, junho 02, 2026

Terça, 2 de Junho. 

Ontem passei todo o santo dia em Lisboa. Comecei no Centro de Saúde apresentando à Dra. Vera Martins a talega de exames para apurar o que me aconteceu, dia 21, do mês de Abril. Como eu previra, o coração está intacto, o cérebro não tem um beliscão, nas análises não há uma que mostre desvios ao corpo são e immaculatus. Foi o que eu sempre imaginei e atribui o sucedido a problemas de estômago pois uma semana antes andei cheio de flatulências e incómodos. Todavia, para apurar um pouco mais, a minha ilustre médica quer que eu faça uma radiografia às carótidas na sua função de levar o sangue do coração ao cérebro. Assim farei. Entretanto, vou ouvir o Dr. Octávio Simões que passou a ser o meu clínico contra os desvios sumptuosos do SNS.

Esta imagem parece uma pauta musical, uma sinfonia onde não há um acorde dessincronizado. Mas não é - não passa de um simples ECG do meu bravo coração. 

         - Almocei no meu saudoso 1900 e daí desci ao Chiado para cumprimentar os rapazes da Brasileira. Detive-me pouco tempo naquela catedral de encher os bolsos, numa tarde de calor abafado, com grande azáfama para acudir aos infelizes turistas esmifrados até ao tutano. Continuando a descer, detive-me um pouco antes do centro comercial, diante de um prédio onde funciona uma loja de inutilidades, devido a multidão de gente que com os seus telemóveis filmava uns tipos que apareciam às varandas do edifício. Perguntei a um transeunte o que se passava, ele informou-me que eram os jogadores da selecção que estavam no interior. Respondi in petto: “Horror, horror.” Depois percebi que toda aquela patetice era uma acção de propaganda ao estabelecimento tendo por engodo os heróis nacionais. Bref. Que país! 

         - Para amanhã anuncia-se uma grande greve nacional. A ver vamos. O que se nota é que o PCP apostou todos os seus três por cento no acontecimento. Os trabalhadores e o povo, parecem absortos aos jogos de poder, embora eu ache que Montenegro anda a medir forças com a oposição, em vez de governar. De qualquer modo, a coisa até vem a calhar com o feriado de quinta-feira e o Verão a brilhar de Norte a Sul. 

         - Fui à natação. A par daquela outra que julgo ser ucraniana e põe sempre músicas de Carlos Paião durante a hidro-ginástica dos velhinhos coitadinhos, existe uma portuguesa de gema. Esta controla-me. Da última vez, quando ia a sair, diz-me: “Hoje sai muito mais cedo.” Esta manhã, voltou a abordar-me: “Chega mais tarde que de costume.” Sorri-me com os dentes que possui e eu contraponho: “Anda a controlar-me.” “Eu sou uma grande controladora.” Que quererá dizer este charabiá?