quinta-feira, maio 28, 2026

 Quinta, 28.

Eu já tinha sido prevenido por um leitor que vinha aí uma chuva de buscas – e elas aí estão às autarquias e juntas de freguesias socialistas, inclusive, à sede do Partido Socialista, no Largo do Rato. É tudo a roubar e deste modo o dinheiro não chega onde o espera os desesperados da pobreza, da saúde, do ensino, de uma vida digna. Eu sempre disse que os socialistas adoram a riqueza, o penacho, a vidinha de frente para a ideologia e a outra na retaguarda bastante mais sedutora.  

         - Ontem, imprevistamente, sentei-me no sofá, pus um disco de José Afonso, depois outro e ainda um terceiro, enquanto folheava pela enésima vez a fabulosa monografia de Françoise Gilot que o meu saudoso amigo Francis me havia oferecido. Há muito tempo que não ouvia a voz do Zeca como era conhecido entre amigos. Voz soberba, melodiosa, temperada da doçura que envolve a melodia e o poema e fica a pairar por entre os assomos que se estendem pulsantes nos finais da poesia bem construída. Não fui seu amigo embora nos tivéssemos encontrado algumas vezes. Correndo o risco de me repetir, lembro o nosso primeiro encontro, em sua casa, aqui em Setúbal, numa noite de Verão, espojados no sofá da sala, em conversa amena sobre o que pretendiam os estudantes universitários nessa altura em luta contra o sistema. Zeca dizia-me não os compreender e eu respondia que não era preciso perceber, mas aceitar o inconformismo enquanto arma que repõe o movimento, empurra as ideias para a frente. A Zélia sua mulher, entrou com um tabuleiro de comes e bebes que ela e a Graciete haviam preparado na cozinha. Esta mais conhecida por Cétinha, era minha grande amiga e fora ela que me tinha convencido a pegar no carro e rumar à cidade sadina para um serão com o casal. Retornarmos noite alta, eu particularmente satisfeito por haver conhecido a Zélia, pessoa excelente, doce, clara de ideias, de quem se gosta ao primeiro aceno de cordialidade. Muito mais tarde, tornei a encontrar o Zeca no consultório do médico dentista, na Lapa, Dr. Eurico de Freitas. José Afonso já atacado pela doença que lhe paralisava os movimentos. Enquanto esperávamos para ser recebidos, conversámos sobre a situação política, observando eu a diferença entre o serão em sua casa e aquele momento que parecia vir de um mundo opaco de sombras. Muito mais tarde, vi-o no Coliseu dos Recreios, já com a doença muito avançada e pude constatar a mudança ideológica profunda que se produziu nele. A partir daí já não o segui por ele ter passado para as extremas das extremas do espectro político. É verdade que no tempo do fascismo, todos os que se lhe opusessem eram apelidados de comunistas. O 25 de Abril veio repor a situação e as sucessivas eleições acabaram por os reduzir a 3 por cento. 

         - “Vamos rebentar com eles” – linguagem de canalha utlizada por Trump ao referir-se ao ataque que quer levar a cabo no Irão. 

         - Voltei à piscina e depois desci à ribeira tecnológica para lavar alguma roupa. Não quero outra coisa. Não só porque é mais baralho em água e electricidade, como tudo vai tão depressa que mal bebo um café no pequeno bar do supermercado, logo a voz da lavadeira me chama para a recolha. 

         - Curioso. Há muito não me acontecia passar a semana inteira sem ir a Lisboa. Neste retiro religioso, tenho avançado com o romance parado há uma data de tempo, leituras e afazeres vários.