sábado, maio 30, 2026

 Sábado, 30.

A política portuguesa é fértil em cantilenas. Não há semana nenhuma que os senhores políticos não encontrem uma forma de fugir aos problemas que afligem o “nosso povo”, entretendo-se com fait-divers que lhes dão um tesão vertical (desculpem o vernáculo, saiu assim, assim ficará. Que, de resto, também tenho direito se tivermos em conta aquela de Passos Coelho “políticos prostitutos”.). Aí temos mais um. O recente eleito ministro da Administração Interna, Luís Neves, foi buscar o major-general Paulo Viegas Nunes para presidir ao SIRESP de má memória e pouco préstimo. Acontece que este senhor, tinha ocupado o cargo entre 2023-2024 quando António Pombeiro era secretário-geral adjunto do sistema e o acusa agora de graves irregularidades e António Costa (lá vem ele) de triste memória governava o país. António Pombeiro, que não havia gostado das falhas monumentais do readmitido major e, inclusive, aponta-lhe muita corrupção quando exerceu o cargo, demitiu-se em protesto acusando-o de manobras de toda a ordem expostas na praça pública. Acode Luís Neves dizendo estar consciente dos relatórios, documentos e acusações que envolvem a gestão do SIRESP ao tempo daquele que voltou, mas garante que nada se apurou que pudesse impedir a escolha de Viegas Nunes. Também José Luís Carneiro veio em seu auxílio afirmando que só tinha louvores para a honestidade e desempenho técnico do major-general quando ocupou o cargo hoje preenchido por Luís Neves. Pelo exposto, vamos ter lengalenga por semanas. Vivemos no Portugal dos pequeninos. Eu que nada tenho a ver com o assunto, inclino-me para dar razão a António Pombeiro. 

         - Contudo, todavia, a praga António Costa não nos larga. Na Operação Imergente empreendida há dois dias pela judiciária, há um sujeito de seu nome Duarte Moral (imagine-se com este apelido) veterano da máquina política do PS, assessor daquele que secretaria a Presidente da União Europeia e recuperado pelo actual secretário-geral do Partido Socialista para o núcleo duro do partido, foi detido por alegadas contratações por ajuste directo feitas à empresa de comunicação de que o actual assessor do PS é sócio, Diálogo Emergente (daí decerto o nome dado à operação policial). Ele e o autarca de Santa Maria Maior, um velhinho respeitável, estão no centro das pesquisas levadas a cabo por um grupo grande de inspectores. Estes dois homens, são testa de ferro do PS, pois há muitos anos que varrem todos os obstáculos que se abrem na frente socialista. As negociatas rondam os dois milhões de euros. Bem pode José Luís Carneiro dizer que o PS não está a ser acusado de nada, o facto é que ele está no centro do vulcão. Transcrevo o Observador: “No caso de Duarte Moral, o foco está nos contratos por ajuste direto ao assessor político, que tem décadas de ligação ao PS (na órbita do qual trabalhou grande parte da sua vida) e, por isso mesmo, contactos e conhecimento profundos na estrutura do partido. No de Miguel Coelho, a investigação centra-se na forma como exerceu poder autárquico em Santa Maria Maior e sobre decisões de contratação tomadas nesse cargo. Pelo meio, José Luís Carneiro, o líder socialista que escolheu Moral para o seu gabinete, viu Coelho ser um dos seus principais apoiantes internos e é agora obrigado a gerir politicamente o impacto de uma investigação que atinge em cheio o partido.” Mais uma vez se prova que os grandes desastres, os atrasos, a pobreza, a falta de ética, o retrocesso civilizacional, a corrupção que nos empobrece, a saúde que em vez de nos tratar mata-nos, são obra destes dois partidos que em conjunto têm (des)governado Portugal. 

         - Faleceu o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin com 104 anos. Devo-lhe muito. Durante a adolescência li-o sofregamente e nunca o deixei de acompanhar. Até ao fim da vida, conservou-se lúcido e ainda há pouco tempo a sua voz se ouviu acerca da guerra e das novas tecnologias. 

         - Voltei no serão de ontem a admirar a obra notável de Françoise Gilot. Como estamos neste Verão antecipado, aqui deixou esta janela voltada para o mar.