Quarta, 27.
O terno espalha brasas passou aí as primeiras horas da manhã. Para o receber, tive de acordar antes da sete de forma a evitar-lhe penosas horas ao sol. Bom. Veio lacrimoso, desabafando a sua tristeza pela morte de uma prima. Como não posso ver ninguém chorar, abracei-o dizendo-lhe que ela está melhor que nós e lhe rezasse pela alma. “Não sei rezar, a minha mãe dizia pra mim o Pai-Nosso.” Levou o tempo a carregar para debaixo do alpendre a lenha que nasceu do abate das árvores que tombaram quando da tempestade. Depois, pedi-lhe que arrancasse pela raiz os rebentos dos sobreiros que se multiplicaram por toda a quinta. É um trabalho que nunca mais finda com as despesas inerentes. E, contudo, isto é tão fascinante!
- Estive a observar Luís Montenegro quando falava no Norte sobre o seu Código do Trabalho. O homem, perdão, sua excelência, está muito diferente quando comparada com o primeiro ano de governação que eu tanto havia apreciado. Engordou, exibe já umas bochechas que lhe deformam o rosto, o sorriso tornou-se mais rígido, fala pelos cotovelos, numa ária em tudo idêntica ao PS de António Costa e ao Chega inchado de “principal partido da oposição”. Mas o que diz é básico, não há uma sustentação de pensamento, uma frase filosófica, um sentido de inteligência. É aquilo e ponto final.
- O país real, do lado da classe política, prossegue chafurdando na corrupção. A Polícia Judiciária tem mais um caso a acrescentar às centenas de outros. Anda tudo a roubar e daqui a nada, os milhões furtados por Sócrates, são trocos de pouca importância. Desta vez, foi a Águas de Gaia com suspeitas de uma enorme aranha económico-financeira, no valor de oito milhões. Estão em causa vários crimes, incluindo corrupção, branqueamento de capitais, abuso de poder, numa mixórdia entre dirigentes públicos e empresários.
- As parlapatices de Trump não têm fim. Numa hora crê que levou a palma sobre o Irão, noutra larga bombardeamento sobre o país dos aiatolas. Enquanto isso, diz que o cessar-fogo continua. Torna-se evidente que é o Irão dos revolucionários islâmicos que pratica a inteligência, a honorabilidade, e conhece a ciência política onde o Presidente dos EUA é ignorante. A mim o que me surpreende e faz pensar, é como uma democracia estabilizada ao longo de mais de um século, pode manter e dar poder absoluto a uma só pessoa que pôs de lado as instituições, as leis, a práxis política praticada por Cícero, profundamente pensada e elaborada pelo político-filósofo no seu refúgio de Túsculo.
- Por aqui as temperaturas andaram ontem a roçar os 40 graus. Saí para ir nadar e esse exercício, vá-se-lá-saber porquê, foi possante de força, alegria íntima, satisfação plena. Continuo sem dores nas costas, caminho com o pensamento e andar postos nos meus vinte anos, naquela atitude de quem não se lembra das dificuldades físicas e cresce ante o desafio dos dias na plenitude da vida. Amém.