sábado, julho 11, 2026

Sábado, 11.

Pois foi, tombei no Corte Inglês. Quando deixei o restaurante, entrei no super para observar a gama de queijos franceses e adquirir um ou outro. Acontece que o chão estava com uma mancha de água que não enxerguei devido ao material escolhido pela empresa que julgo nem antiderrapante é. Bati com a anca da perna direita, essa que os homens maduros e os jovens imberbes cobiçam, uns e outros com desmaio suave no olhar, a cobiça secreta disfarçada de curiosidade, e ali fiquei uns minutos porque a pancada sentia-a intensa no osso e as dores não me deixavam erguer. Logo um casal me socorreu e de repente tinha em meu redor seguranças, fiscais e uma enfermeira chamada de urgência. De pé verifiquei que o osso não estava partido e a bacia também não, embora as dores fossem muitas, mas a pronta chegada do meu anjo da guarda me tivesse protegido do pior. Trouxeram uma cadeira de rodas, sentaram-me nela e aí vou eu com indisfarçável curiosidade atravessando andares e espaços ante os olhares dos clientes e a minha admiração por observar o centro comercial como um papa que cruza multidões e benze todos e cada um, até ao gabinete de assistência médica aos funcionários no fosso do edifício. Aí peço à jovem enfermeira que me observe, desço as calças e olho também para a perna sólida que arca não só com a outra como com todo o corpo. Não vejo uma nódoa, aparentemente está tudo natural. Questiono então a rapariga que devo fazer se daí a dois ou três dias tiver queixas. Ela não sabe responder, mas vai chamar a médica de serviço. Espero um tempo deitado na marquesa, depois sento-me e, como não gosto de estar sem fazer nada, saquei da mochila as páginas do romance e pus-me a fazer correcções. Quando a Dra. Natália entra, decidida, visivelmente mulher de armas, uns sessenta anos activos, ordena à enfermeira que vá buscar uma folha e uma caneta para fazer o relatório da ocorrência. Pede-me que me volte a deitar, baixe as calças (ajuda na operação “não tenha vergonha”), desce-as até ao nível do zizi, apalpa-me a barrida, a anca, e de tudo o que vê ou sente, vai traduzindo para a outra que anota na folha. “Não vejo nada de especial. Está até muito bem, musculado e vivo.” Replico: “Obrigado, mas o que eu quero saber é se o Corte Inglês tem seguro para ocorrências como esta.” Responde: “Eu sou muito má e não vejo da minha análise nada de cuidado no futuro.” De seguida: “A obrigação do Corte Inglês em casos destes é chamar o 112.” Olho-a de frente: “Quer dizer o C.I. descarta-se das suas responsabilidades, atirando para o SNS o desastre que lhe pertence por inteiro por negligência.” Olha-me de frente, ajeita o cabelo grisalho que lhe tomba para a testa: “Escute, eu pertenço a uma empresa que trabalha para o Corte Inglês, é nessa condição que me encontro aqui. Não tenho nada a ver com o problema, apenas assisto aos empregados.” Não me calei e prossegui, argumentando que julgo ser obrigatório as grandes empresas terem seguro para acudir a desastres que aconteçam dentro das suas instalações e de sua legitima culpa. Saímos os três do gabinete e na sala onde esperavam funcionários por consulta, ela disse para me sentar uns instantes e voltou ao gabinete onde decerto a esperava um doente. Aguardei uns dez minutos, quando a porta do consultório se abriu e ela avançou para mim: “Feixe os olhos, estenda os braços e leve o dedo indicador ao nariz, primeiro o direito, depois o esquerdo.” Estava na minha frente, atenta aos movimentos. De seguida estende-me a mão numa despedida. Disse-lhe: “Obrigado, doutora. Adoro pessoas rijas, duras, são profissionalmente as mais competentes.” Riu-se, ri-me. Todavia, espero enviar um e-mail às autoridades competentes, a saber se é de lei que uma empresa com a dimensão da espanhola, possa estar isenta de seguros próprios e desembaraçar-se dos infelizes quando acidentes como este acontecem dentro das suas instalações. Os lucros são delas, os acidentes do erário público. 

         - O tempo mudou. O dia acordou sem acordar com tudo. Está até um ligeiro frio, o sol ainda não apareceu, diria que estamos no limiar do Outono. Os senhores da meteorologia, oferecem-nos mesmo alguns aguaceiros e descida acentuada de temperatura. Depois dos calores de morte, este interregno é uma bênção do Céu.