domingo, setembro 19, 2021

Domingo, 19.

Perante o estado das nações, cada uma a puxar a brasa à sua sardinha, há muito que advogo que a Europa devia ter um sólido sistema de segurança. Comecei a pensar assim quando o alcoólico Bush (filho), disse que a Europa era uma velha senhora frágil e ultrapassada. Depois veio o matulão do Donald Trump e percebeu-se que a América não era parceiro em quem se possa confiar. Agora com o tremeliques Joe Biden, aplicando os mesmos princípios do seu antecessor, mais delico-doce mas nem por isso menos brutal, confirmou-se as minhas apreensões e certezas. O que o homem fez é em linguagem chã uma sacanice, quando negoceia com o Reino Unido e Austrália, um pacto para a região do Indo-Pacífico, fornecendo-a com submarinos nucleares nas costas dos seus aliados europeus. A França reagiu porque já estava envolvida no negócio da venda dos 12 submarinos, pelo astronómico valor de 60 mil milhões. Se apenas se tratasse de uma negociata de salteadores, tudo estaria bem. Porém, o problema é mais vasto e envolve a China que há muito domina o espaço marítimo naquela região. O que sairá desta afronta, está para se ver. Uma coisa é certa: a Europa não pode confiar mais nos EUA com ou sem Trump – os seus sósias estão por todo o lado. 

         - Uma parte dos países estão em eleições, mas em quase todos sabe-se antecipadamente quem é o vencedor. É o caso da Rússia onde a ida às urnas é uma fantasia e uma comédia, prevendo-se que Putin ganhará por larga margem; é o caso entre nós que terá o Partido Socialista por vencedor, já que Costa nunca despiu a estamenha de primeiro-ministro e empurra com a barriga sacos de milhões de euros; é o caso da Alemanha onde a senhora Merkel já não pode candidatar-se e o seu sucessor é Armin Laschet. Por mim é-me indiferente, posto que, por estarmos em campanha autárquica, a câmara daqui (comunista) consertou este fim-de-semana (e bem, enfim!) os caminhos de terra batida que me levam e trazem ao meu cenóbio. 

         - Andava inquieto com a falta de conhecimentos acerca do livro citado na questão do Le Monde. Fui pesquisar e, afinal, trata-se de Freshwater, peça de teatro, sátira passada na época vitoriana que Virginia Woolf escreveu no século passado e foi encenada por Viviane Forestier uma amiga de Julien Green. Fiquei esclarecido, resta lê-la. 

         - Acabei de fazer 30 minutos de gloriosas braçadas com a água já como eu aprecio: fria q.b. De seguida fui apanhar marmelos e romãs para oferecer aos Legros que não param de me convidar para almoçar e jantar. Com eles a conversa é interminável e sempre apimentada com humor por vezes picante. Bref


sábado, setembro 18, 2021

Sábado, 18.

Por estes dias diversas obrigações obrigaram-me a correrias malucas em Lisboa. Quando de súbito, estando eu a descer as escadas rolantes do Corte Inglês vindo do restaurante, amparei-me ao corrimão e deixei que o sistema me levasse e com ele o meu pensamento por instantes voou na direcção de ? Quando cheguei ao patamar, as duas senhoras que desciam comigo, abordaram-me: “O senhor precisa de ajuda?” Pensei tratar-se do meu caminhar andarilho e original mas depois, percebi que não seria por isso dado que elas não me haviam visto andar. “Não. Obrigado” respondi. Então uma delas disse: “É que o senhor tinha uma cara tão triste que metia dó. Parecia que não estava cá.” Sosseguei-as e fui à minha vida. Mais tarde reflectindo sobre o assunto, lembro-me de ter deixado por algum tempo este mundo, mas não sei explicar que outro planeta era esse e, sobretudo, porque quando para lá deslizei me tornara tão infeliz para atrair a misericórdia das duas simpáticas criaturas. Também não me recordo como era essa região para a qual me ausentei; sei que estive em algures, mas não sou capaz de dar qualquer pormenor. Mistério.   

         - O jornal Le Monde mandou-me um questionário sobre a obra e a escritora Virginia Woolf. Extenso, grosso modo, em inglês que fui respondendo como sabia e me recordava, com espaço para a minha opinião pessoal sobre alguns dos seus livros e do grupo Bloomsbury e Hogarth Press. No dia seguinte, mandaram-se o resultado: 80% de aprovação. Nada mau, tendo em conta que há muito não leio a autora de Orlando. Penso que não me deram os 100% porque não consegui ter opinião sobre uma obra que nem sabia da sua existência e infelizmente nem anotei o título. 

         - Vou continuar como se nada fosse. Pelo menos até ao fim do mês, irei tratar a água e nadar quando o tempo o permitir. Hoje de manhã, até frio fazia no jardim dos Legros onde estive à conversa e a tomar café. Agora, 16,28, corre um vento desalmado - que ao menos ele sirva para enxotar as moscas democráticas que nos oferecem um pote de coisa nenhuma. 


quinta-feira, setembro 16, 2021

Quinta, 16.

“Notre vie est un livre qui s'écrit tout seul. Nous sommes des personnages de roman qui ne comprennent pas toujours bien ce que veut l'auteur.” Julien Green. O segundo e terceiro volumes do Journal intégral do diarista foram hoje postos à venda. O Jackie que ontem apareceu a desafiar-me para jantar tendo chegado há dois dias de Paris, disse-me que por todo o lado nas montras das livrarias está anunciada a saída da obra. Daqui a pouco vou almoçar com o casal Legros. 

Julien Green, chez lui, rue Vaneau 


quarta-feira, setembro 15, 2021

Quarta, 15.

É muito engraçado sem ter graça nenhuma. Há pouco liguei à SIC para saber novas do mundo. Aparece António Costa, anafado, de fato e gravata, falando, feliz, com tudo o que foi feito para erradicar o coronavírus das nossas vidas e agradecer aos professores, médicos e pessoal auxiliar e aos portugueses por terem sido exemplares e obedientes das regras da DGS. A seguir vem uma série de notícias: professores em greve, médicos a manifestarem-se contra os baixos salários e a saturação de trabalho, doentes sem médico de família, empresas a fechar com os trabalhadores e pedirem medidas de protecção, funcionários de autarquias na rua a reivindicar justiça e melhores ordenados, à porta do Parlamento estão em protesto professores do ensino artístico e o cortejo de descontentes não tem fim, como se Costa vivesse num país e os demais noutro. 

         - Quando ontem falei das ligações perigosas entre políticos que viajam do público para o privado, não sabia quanto a coisa é escandalosa. Veio orientar-me sobre o assunto o médico Bruno Maia, que parece milita do partido das duas meninas, mas isso pouco me interessa sendo mais importante o que ele diz no livro que acabou de sair: O Negócio da Saúde: Como a medicina privada cresceu graças ao SNS. Segundo ele “a destruição das carreiras médicas através da empresarialização dos hospitais e da introdução de contratos individuais de trabalho representam 40% do total”. Por outras palavras: cada médico privado é para o negócio da medicina, um empresário individual com tudo o que isso implica. A pouca vergonha entre hospitais públicos e privados, vem de longa data,  e faz com que os que laboram no público só façam 42 horas por semana, dados de 2018, o resto do tempo quem os quiser encontrar sabe onde os procurar, digo eu. Diz ainda o neurologista que estudou o percurso de 45 ministros e secretários de Estado da Saúde depois do 25 de Abril de 1974 até 2020. “40 % apresentam ligações a empresas do sector anteriores ou posteriores ao início de funções governativas”. É este o Portugal que António Costa quer e os acólitos aplaudem. O povo doente que se amanhe, que morra se tiver que morrer, posto que o país continue com doentes de primeira (ADSE e privados e de segunda (SNS esfarrapado).  

         - Sua Santidade o Papa Francisco está de visita pastoral à Eslováquia depois de ter passado pela Hungria. Antes de deixar o Vaticano, escreveu a introdução ao livro do seu antecessor Bento XVI, A Verdadeira Europa, Identidade e Missão : “Hoje, na Europa, perde-se cada vez mais a ideia de respeito por cada vida humana, a partir da perda da consciência da sua sacralidade, isto é, a partir do ofuscamento da consciência de que somos criaturas de Deus.”  

         - Bom. Não me posso queixar, os exames globais que hoje me chegaram, indicam um homem de vinte anos pleno de saúde. Todos os parâmetros estão largamente dentro do que é considerável não para uma pessoa de mon âge, mas para imberbes. Até a tensão há uma semana que não descola dos 13,2 - 7.6. Para somar ao dia fulgurante, adquiri bilhete para Charles de Gaulle e não deixei este mosteiro onde fui apanhando o resto dos figos, envasando a antúrio de um vermelho intenso que os Corregedor da Fonseca além do lauto almoço que me ofereceram (todo de marisco do princípio ao fim) adicionaram como prenda de aniversário. Nos intervalos, fui começando a arrumar livros e papéis, objectos dispersos, de modo a deixar a casa mais aligeirada de maneira que a Piedade leve o trabalho penoso das ditas limpezas de verão menos árduo. 


terça-feira, setembro 14, 2021

Terça, 14.

Somos um país de crianças mimadas. Não importa a categoria – deputado, ministro, polícia, militar, bombeiro, autarca, operário, gestor – desde que saia da rotina devido a uma qualquer circunstância pública inerente ao cargo, para logo receber palmadinhas nas costas dos seus superiores elogiando-o e apareça na TV, quando a acção praticada se circunscreve tão só ao dever e responsabilidade que lhe compete no exercício que lhe foi confiado. Só falta provocar-lhe o arroto televisivo, para que a criança emita um sorriso feliz e se transforme em herói nacional. Ninguém tem a coragem de dizer simplesmente: esse é o seu dever, é para isso que lhe pagam.  

         - Esta vem no Público de hoje e não é novidade para ninguém: “40% dos governantes têm ligações ao sector privado.” É também por esta que o país não passa da miséria. A propósito: 45 por cento dos portugueses, por serem pobres, não paga uma série de taxas e impostos. Não digas isso! Chiu, somos ricos. 

         - Já que toda a gente bota discurso e emite pareceres, aqui vai o meu: Não creio que seja boa a ideia “deixar os miúdos em paz e vacinar quem precisa”, porque as crianças, sem o saberem e sem culpa, transmitem aos adultos o vírus que apanham com frequência e a elas não faz grande mossa.  

         - Voltei ontem a almoçar com a Marília e o João no meu velho restaurante do Largo do Rato, 1800. O que nos reuniu foi uma gentileza minha para a solução de um problema que os preocupava. Dali fui ao Corte Inglês fazer duas compras e regressei a casa sob ameaça de chuva forte. Que só veio a cair muito mais tarde para benfeitoria minha e das árvores, dióspiros, figos, uvas e tudo o que tumesce com a natureza no seu estado puro. Quando subi para dormir, pelas 11 horas e trinta minutos, já do céu vinha um murmúrio contínuo que me embalou até de manhã. Não será o Inverno que se antecipou, mas sente-se já no ar os aromas do Outono. 


domingo, setembro 12, 2021

Domingo, 12.

Talvez porque o falecido tenha deixado indicação para que as cerimónias do adeus fossem discretas, o facto é que o espectáculo dantesco de Mário Soares não se repetiu – apesar do andarilho Marcelo – com Jorge Sampaio. É certo que à funerária não faltou ninguém ou quase, mas o que se ouviu foi, tirado a papel químico, o que se escutou com anteriores desaparecidos, parecendo cumprir-se o evidente: a morte não reconhece doutores ou chefes de Estados, príncipes ou governantes, ricos ou pobres – na morte somos uma e a mesma pessoa, aligeirada da saloiice dos títulos e da pretensão provinciana de termos sido alguém. A morte reduz-nos à nossa transcendente insignificância. E ainda bem. 

         - Ouve três dias de silêncio pelo desaparecimento do ex-chefe de Estado. Não valia a pena – pelo que vejo, desta vez, ninguém lhes liga peva. Ou me engano muito, ou estas serão as eleições da maior abstenção. Do barulho que inundou televisões, rádios e jornais nada passa para a opinião pública. Conta mais a nova contratação de Cristiano Ronaldo para o Manchester que toda a vida política nacional. Eles dizem que se ganha pouco no trabalho autárquico ou legislativo, mas são cada vez mais os que se sacrificam pelo bem comum e o fazem sem o olho no cofre do Estado... ou pelo menos é isso que reclamam. Alguns nem sabem dos milhares de milhões que têm à sua disposição nos próximos três anos! Apetece murmurar: “morde aqui a ver se deixo...”  

         - Ontem de manhã voltei ao Parque Eduardo VII. Muita gente a comprar, as laterais cheias de público a subir e a descer. Fui lá por Paul Bowles, e acabei trazendo O Homem do Casaco Vermelho de Julian Barnes e Um Céu Demasiado Azul do nosso Francisco José Viegas e do seu inspector Jaime Ramos (a minha grande descoberta o ano passado). Assim sendo, ao serão, pus-me a pensar: “rapaz, tens com que te entreter para um ano. Se à pilha que aguarda leitura lá em cima, juntares os dois volumes do Diário de Julien Green, por alto, terás muito perto de 10 mil páginas para ler! É obra, caramba!  

         - O Verão parece querer deixar-nos. Mesmo assim, daqui a nada, irei fazer meia hora de natação e manterei o nível de limpeza da água até ao fim do mês. Até ao lavar dos cestos há vindima. Portanto, se me for possível, será mesmo às vésperas de deixar o país a caminho de Paris. 


sábado, setembro 11, 2021

Sábado, 11.

Faleceu Jorge Sampaio. Conheci-o ainda nos tempos da velha senhora, uma ou outra vez estivemos juntos porque ele fazia parte do grupo do Sarajara, Cétinha, Pedro Vasconcelos e assim. Era um homem honesto, sensível, culto e solidário. Foi um excelente Presidente, um político de causas, para muitos de nós o melhor Presidente da República. Descansa em paz aliviado das dores deste mundo. O que por aqui se ouve e dizer de ti, sabes que são coisas de circunstância, sem interesse absolutamente nenhum, paleio de uma sociedade medíocre, onde impera a ignorância servida por aqueles que querem montar sobre a tua sepultura.  


sexta-feira, setembro 10, 2021

Sexta, 10. 

No chorrilho de mensagens e telefonemas de ontem, sobrou o acordo com a Annie para que eu chegue no mês que vem a Paris sem marcação de regresso. Vou ter pois de entrar na algazarra electrónica para encontrar uma companhia de aviação honesta que me deposite em Charles de Gaulle. Em dois anos, imagino haver tanto livro que me escapou e já me vejo horas e dias fechado nas livrarias. Só este mês já devo ter gastado uns 200 euros em esse alimento miraculoso. 

         - Nem a propósito, estamos de parabéns. Tinham-nos asseverado um Verão sufocante, com fogos, faltas de ar, aflições cardíacas e o que tivemos foi um tempo ameno, quente q.b., braçadas na piscina e no mar em abundância. Nestes dias, voltámos àquele Verão que me recebeu nesta casa abençoada nos inícios dos anos oitenta, a pressa que nós tivemos, João e eu, em a pintar por dentro e por fora com medo do inverno e dois dias depois, a nove de Setembro desse ano, a abada de chuva que só parou na Primavera, já nós nos recolhíamos sob este tecto humilde e acolhedor. Não é que o sol seja um inimigo, pelo contrário; segundo um provérbio chinês: “Quando o sol aparece, o médico desaparece.” Felizmente, antes da bicha madrugadora me ter assaltado, já eu havia recolhido toda a lenha necessária a um aconchegado inverno. 

         - O mundo das embaixadas dá e sobra para tudo como demonstrou Roger Peyrephite... No caso Morand, que nelas viveu no tempo da Segunda Grande Guerra – Londres – Berne, Roménia (estas duas sob o governo de Pétain), o clima de festa, conforto e luxo passava completamente ao lado do resto do mundo e seus ocupantes. Paul Morand, no seu Journal de Guerre, tanto ele como a mulher Hèléne uma aristocrata de origem romena, nunca conheceram a mínima privação. Os dias eram de jantares e almoços galantes, equitação, viagens, bons hotéis, visitas a museus e antiquários, aquisição de belos objectos e até casas. Dentro dos muros das embaixadas e nos almoços de espionagem económica e política, de inveja e bajulação, vénias e facadas nas costas, o clima era de diz-se-que-disse, falatório sobre a homossexualidade deste e daquele, dentadas no matrimónio e assim. O Dário que não passa de epistolografia com a mulher e desta, bera, para ele, é um longo historial não de factos da guerra, mas das relações e tratados da mesma. Paul Morand, tendo sido posto de parte por De Gaulle, só vem a ser reabilitado por volta de 1953. Mas é dele esta máxima: “La politique est la vérole de la littératura.”  Justo. 

         - Fui fazer um electrocardiograma e à enfermeira perguntei: “É uma obra de arte? Diz bem” respondeu com um grande sorriso. E logo eu a pensar: “Então de que vais morrer, rapaz? Da maluquice que te enche o cérebro? Pensar demasiado e constantemente mata? A ver vamos, quero dizer, verão. 

         - Fontes da Eurostat. Os gastos em cultura são o pilar para se perceber o interesse dos governos na qualidade de vida dos cidadãos. Assim: em primeiro está a França com 16. 816 milhões de euros, seguida da Alemanha 13.870 e Reino Unido 5560, 7. Depois, nos países com menos interesse no conhecimento, Portugal vem em 20º lugar dos 31 que compõem a dita cuja com 553,3 euros. A Espanha vem na quarta posição com 5.535. A Hungria que a esquerda diz raios e coriscos, investe 1.655, 4. Se somarmos ao que o país faz em esquemas sociais, temos o paraíso que não interessa aos portugueses segundo as meninas BE. 

         - Acabei de entrar do segundo almoço aniversariante que o João Corregedor quis organizar em minha honra. Teve lugar na Trindade, defronte do rio, num dia luminoso, aberto, cheio do esplendor dos dias de então quando a juventude imperava por sobre os avisos da idade e na indiferença dos anos a provir. Que bem se esteve com vista para as águas mansas, os reflexos do sol sobre o tapete líquido que parecia dançar em nossa glória, o vasto espaço bem decorado, pouca gente e uma atmosfera de festa e serenidade de onde não apetecia levantar amarras. Muita gargalhada entre nós, o tempo suspenso a aguardar que a inocência imperasse sobre os primeiros acordes da senectude, ainda não visíveis, insinuados numa excitação, numa dúvida, num lapso de memória, numa escusa de algo que ficara suspenso entre o passado e a chamada ao presente. Marília surpreendente, sem idade, igual à mulher maravilhosa que sempre conheci, original, desimpedida de preconceitos, amiga do seu amigo. 

         - Da chusma de mensagens, telefonemas, mails, três horas a atender esta inusitada lembrança do solitário amigo, surpreendeu-me e agradeço. Dispensaria, contudo, os “amigos” que, como no poema de Pessoa, só se lembram de nós uma vez pelo nosso nascimento e outra pela nossa morte. Verdadeiramente não se conta com eles para nada, são piscadelas de olho que ofendem pela sua inutilidade e insignificância. São amigos que fora da data de nascimento esquecem a vida, a partilha, a presença, o desabafo, a troca de ideias, a mão que afaga, o sorriso que nos ilumina o coração... Chegam do fundo do abismo que nos separa e não nos junta no hosana dos dias tristes e felizes. São na sua maioria casados, egoístas, portanto, infelizes. 


terça-feira, setembro 07, 2021

Terça, 7.

Cedo, sentindo-me seráfico relativamente a ontem (já lá vou), fui passear no campo de lés a lés, admirando as árvores depois da chuva que caiu ao romper do dia. As macieiras exibiam frutos rosados que os pingos d´água atraíam; as uvas (brancas) tinham engrossado mostrando cachos plenos que amanhã colherei; os dióspiros, amparados por duas estacas, pendem em grande quantidade a tocar quase o chão; os marmelos, também grandes e bastantes, oferecem um fruto imaculado, uma cor saudável, solicitando a sua apanha; mais além os figos incharam a pedir a colheita, pena que tenha já compota para dar e vender; e aqui junto a casa colhi os primeiros medronhos que comi avidamente. Deixei para trás a ala de amoras que se inclinam, grossas, à minha passagem e vão da entrada ao limite da quinta, mas que eu, farto de ser picado, me abstenho de colher. Este jornadear matutino, hipnotizado pela natureza agradecida à chuva que tombou do céu como uma bênção a curar os rigores maléficos do verão, contribuiu à minha tranquilidade, a curar o dia de ontem onde estive imobilizado de medo... 

         - O que se passou ontem, foi uma réplica do que havia acontecido há anos quando acordei às quatro da manhã numa excitação que não me deixava sossegado um minuto e me levou aos bombeiros daqui e de seguida eles ao hospital de Setúbal. Só que desta vez, identificando a bicha, consegui debelar o problema embora, quando medi a tensão me tivesse assustado um tanto: 17 contra os meus habituais 13 e qualquer coisa. Tomei o pequeno-almoço, enfiei dois calmantes e continuei pelo dia fora a beber uma infusão de folhas de oliveira. Descendo um pouco, a pressão sistólica nunca veio para valores confortáveis. Quando me fui deitar, não olhando às contra-indicações do medicamento para dormir que a minha nova médica de família me recomendou, tomei meia dose e hoje, ao acordar senti que tudo voltou, digamos, ao normal: já não tinha tonturas, o instigo era favorável, as energias idem. Mas não consegui trabalhar, a construção de uma oração ou alinhamento de duas palavras, prostravam-me. Vegetei todo o santo dia sobre a chaise longue, lendo 20 páginas de Paul Maurand, atendendo duas longas chamadas telefónicas e assim. Dia 21 volto ao Centro de Saúde com a bateria de análises e então discutirei com a simpática doutora. 

         - Para ser franco, não morro de amores por Paulo Rangel. O político, hei, hei! Quanto ao homem que sendo político reconhece publicamente a sua homossexualidade, chapeau. Não vi o programa onde ele fez a revelação, mas olhei nas notícias da SIC o facto de uma grande dignidade e categoria. Na sua classe, faltam muitos para saírem do armário. Contudo, eu acho que não são obrigados a fazê-lo. Cada um saberá quando o pode fazer, sendo que a felicidade não espera e quanto mais tempo se esconderem, mais os que estão sob a sua alçada padecem. Um frustrado nunca foi um bom governador nem bom homem (ou mulher já agora).  

         - Fui depois do almoço visitar a parte esquerda de quem sobe da Feira do Livro. Comprei alguns livros e conversei com muitos livreiros e assistentes de editores. O que ouvi não me surpreendeu. Felizmente, contudo, uma nova geração toma posição pouco a pouco e estima a velha e chega a dizer que a actual, muitos dela não lhes interessa a cultura e a arte – só o negócio os fascina, daí a qualidade de livros que se produzem, os “escritores” a trabalharem um e dois livros por ano, que não passam, evidentemente, de “lixo”. Mas isso não interessa nem a uns, nem a outros. 


domingo, setembro 05, 2021

Domingo, 5.

Falemos das fantasias habituais em tempo de campanha. Aqui em Palmela, a poluição de toda a ordem está ao rubro. Dizem eles que é a democracia a funcionar. Bom. Mas dizem mais: é a pré-campanha em marcha. Só que, andando eu por aqui e por ali, vejo cartazes por todo o lado e o número de candidatos à câmara é tanto que espanta para uma pequena vila. Como se o país não andasse sempre em campanha, vendendo o que tem e o que não possui, prometendo o que pode e o que não pode dar. Acontece que um dos cartazes apresenta dois anafados senhores, de fato e gravata, uma postura que não lembra ao gatuno, que eu francamente não sei quem são. Mas sabem os de cá. E vai daí, mesmo antes de eles se aproximarem do tacho, já foram barrados com uma enorme cruz a preto. O curioso é que os indignados – admitindo que não são os adversários – apontam a sua repugnância aos dois ilustres desconhecidos não deixando um só poster sem a marca da sua ira. 

         - Outro dia encontrei-me com o Carlos Soares na fnac. Antes de deixar o estabelecimento, fui à livraria encomendar os dois volumes do Diário de Green que serão postos à venda dia dezasseis. A rapariga que me atendeu, a dada altura, diz-me que leu Moira e o encantamento foi tal que nunca mais esqueceu a história. O contacto com o autor deu-se na universidade. A professora não aconselhou a sua leitura devido ao conteúdo sem especificar de que se tratava e foi por isso que ela se atirou a lê-lo em inglês. A partir daqui cresceu um diálogo transbordante de entusiasmo, aconselhando eu outros romances e, sobretudo, o primeiro volume do Journal intégral que ela não conhecia. Disse-lhe em determinado momento: “A vida de Julien Green e toda a sua obra é uma consistente e dramática busca de Deus.” A minha interlocutora surpreende-se com esta afirmação e diz que foi essa a impressão com que ficou quando terminou o romance. O Carlos que destas coisas nada percebe, estava de olhos abertos a ver-nos falar, numa roda-viva de coisas comuns como raramente surge neste país onde o futebol é apaixonadamente o único tema de discussão. Eu não lhe disse que Moira e todas as outras personagens femininas são travestis que o escritor criou e que lhe competia a ela substituir por um nome masculino. Mas como ela me disse que eu havia falado tão vivamente da obra de Julien Green, que iria ler o primeiro volume do diário póstumo. Se o fizer descobrirá a tristeza que o diarista deixou plasmada nas páginas de não haver tido coragem de chamar os bois pelos nomes. 

         - Ontem de manhã encontrei-me com o João Corregedor e fomos juntos à Basílica da Estrela despedirmo-nos da Isabel da Nóbrega. Morreu com a bonita idade de 96 anos e, segundo me disse o neto, sem uma doença, lúcida, divertida, serena – partiu de velhice, sem sofrimento, como raramente advém ao comum dos mortais e eu gostaria que assim Deus me chamasse. A capela que a acolheu, estava fresca, florida, ondeando, diáfana. Àquela hora só nós e os familiares. Depois de uma prece junto ao caixão fechado com uma fotografia a preto e branco da defunta quando era menina e moça, linda e fina de traços, sorri recordando-me como ela detestava a senectude e como os seus parentes tinham cumprido neste particular os seus desejos. Logo à entrada uma enorme coroa de flores de Marcelo Rebelo de Sousa. Bom. Quando deixei a capela, juntei-me com o João ao filho, filha, neta e neto que aguardavam os visitantes no claustro da basílica. Com o neto que eu conhecera in illo tempore, quando éramos jovens, ele mais novo que eu, ambos tão diferentes que não nos reconhecemos ali. Na longa conversa sobre a avó, a empatia entre nós foi imediata, as recordações remando, os sentimentos aflorando, e a dada altura tive de parar porque senti que ia irromper num pranto. João afaga-me o braço e eu consegui disfarçar o que sentia num instante. Ufa! O neto pediu-me o número de telefone para breve nos voltarmos a encontrar. 

         - Passava do meio-dia. Aquela artéria da cidade tinha muito movimento, o jardim em frente regurgitava de visitantes, estrangeiros e nacionais. Por sugestão do João que conhece como ninguém os transportes públicos, tomámos um eléctrico apinhado ali mesmo que nos deixou no Chiado. Percorremos depois a Rua Anchieta em busca dos nossos queridos amigos (eu comprei o ensaio de François Mauriac sobre Pascal e Cartas sem Moral Nenhuma de M. Teixeira Gomes). Descemos até ao Rossio para abancar no restaurante favorito do meu amigo, uns quarteirões para o lado do Tejo. Aí nos demorámos em animada conversa sobre tudo e nada, eu a tentar fugir da política, o João com incursões nela. De todo o modo, foram duas horas agradáveis, sob um dia quente q.b., num país e num lugar que a Isabel amou. Só não foi pleno porque o João estava apoquentado com a filha que depois de ano e meio de ter contraído o coronavírus e três meses em coma, para o hospital retornou há três dias num estado lastimável.  Dezanove comprimidos por dia não são suficientes para a aproximar do que fora. 


sexta-feira, setembro 03, 2021

Sexta, 3. 

Num país como o nosso, governado por gente competente e honesta, instituições sólidas, que administram com critérios de rigor e atentos aos contribuintes que pagam cada vez mais impostos, diluídos por um sem-número de taxas e taxinhas, o que vou anotar, como direi, é coisa de somenos importância que nem deveria passar por estas páginas ilustres. Acontece porém, que vivo revoltado com tudo o que se passa e para acalmar nada melhor que pedir ajuda à escrita como tantas e tantas vezes me sucede. Falo da embarcação Bojador, recentemente adquirida por 8,5 milhões de euros e que sem explicação, a danada, foi encalhar junto à praia de Carcavelos. A lancha de alto coturno, com tecnologia de ponta que lhe pertence, foi oferecia não à Marinha, mas à GNR e servia para patrulhar a costa portuguesa! O célebre ministro do Interior, em Maio deste ano, teceu loas ao acontecimento. Acabou três meses depois adormecida decerto de cansaço no areal. O epitáfio, naturalmente e como hábito neste nosso infeliz país, vai ser escrito depois do apuramento das causas e circunstâncias da situação em sigiloso inquérito. Quando? Não sei, lá para as calendas do ano... 

         - Inundações monumentais em Nova Iorque, Pensilvânia, Nova Jérsia e outras grandes cidades dos EUA. Morreram várias pessoas, mais de 200 mil ficaram às escuras. Em Espanha aconteceu o mesmo e um pouco por todo o mundo ocorrem fenómenos climáticos destes com mais frequência. E logo surge o lamento do aquecimento global, mas ninguém move um passo para dar a volta que se impõe. 

         - Ontem almocei com o Carlos no Corte Inglês. Tendo chegado a Lisboa antes das oito, fui daqui pela noite de breu tendo-me levantado às cinco e meia. O motivo foi conhecer o meu novo médico de família e com ele, no caso ela, fazer o exame geral da minha saúde. Depois de demorada conversa, deixei o gabinete com o habitual check up que todos os anos realizo. 

          - João Corregedor telefonou a dar-me a má notícia: “morreu a Isabel da Nóbrega”. Senti um bate no coração. A Isabel, há pelo menos vinte anos, que andava alheada das lides literárias, tendo-se refugiado em Cascais em casa (julgo) do filho. Deve ser por isso que, num mundo onde quem não aparece na TV não existe, quase ninguém fala do seu desaparecimento e muito menos da sua obra. Fui buscar à estante todos os livros que possuo dedicados e lidos, para os ter perto de mim por uns dias: Viver com os outros, Camões Diário, Solo para gravador, Quatrim-1, Os Anjos e os Homens (a capa é de Martins Correia, o exemplar é numerado com o número 3) e, ainda, Viagem a Portugal de José Saramago dedicado e assinado pelos dois “viajantes”. Se sinto a sua ausência, é porque uma parte substancial da minha vida foi vivida ao lado dela e de José Saramago. Guardo noites e tardes inteiras passadas juntos ou a sós com a Isabel em conversa que nunca tinha fim na Rua de S. Marçal, no Varina, na sua casa ou aqui na quinta. Era uma mulher admirável, uma intelectual livre, que exprimia o que lhe ia na alma sem pudor embora velado pela educação esmerada que fora a sua. Abriu-se muito comigo, contou-me coisas da sua vida íntima com João Gaspar Simões, com Saramago, com esta e aquele, obrigando-me a jurar que “nunca contaria a ninguém, nem deixaria escrito”. Querida Amiga, o que prometi cumpri e cumprirei até ao fim da vida. Não me esqueço de nada e porque partiu deixando-me atónito e só, vou fazer o seu luto e o meu porque em verdade uma parte de mim morreu também. Faço por esquecer o que nos dividiu, sobretudo durante aquela viagem que fizemos juntos a Marrocos que sempre me entristeceu. Descanse em paz. Agora já conhece o rosto de Deus cujo tema falávamos com frequência. Que os anjos e os arcanjos a tenham recebido em festa e no repouso eterno possa guardar-me um estreito espaço para mim. Tudo à minha volta é negro até o silêncio. 


quarta-feira, setembro 01, 2021

Quarta, 1 de Setembro.

Temos mais esta que revela em que mãos estamos entregues. O Parlamento fez um diploma que o TC declarou por unanimidade inconstitucional, e mais uma vez na sequência do pedido de fiscalização por parte de Marcelo Rebelo de Sousa, que previa ao abrigo da Lei do Cibercrime, o acesso a e-mails sem ordem de um juiz. A votação parlamentar contou com os votos a favor do PS, BE, PSD, PAN, PEV, Chega e contra do PCP (enfim!), CDS e IL. Se a este diploma acrescentarmos a outra lei do PS que julga arbitrariamente quem cria notícias ditas falsas, temos o quadro do socialismo à portuguesa, isto é, o país de novo “amordaçado”.   

         - Os EUA retiraram de vez (?) do Afeganistão. Perderam a guerra e deixaram para trás um campo minado de injustiças sociais, fome, direitos Humanos espezinhados, material militar, milhares de mortos, seus e outros, ao seu jeito, lembro-me de Indochina, Cuba, Iraque, etc.. Bem tinha razão De Gaulle que nunca lhes aparou a arrogância e supremacia sobre todos os outros povos, correu com a OTAN de França e sempre os pôs em sentido.  

         - Longa conversa de mais de uma hora com Francis ao telefone. Tudo o que toca a homossexualidade o arrebata como, de resto, acontecia com Julien Green ou Paul Morand embora por razões diferentes. Soube por ele que Jean Moulin era homo, casado com uma lésbica, como na altura devia ser para se evitar a condenação pública. A venda do seu espólio, em Londres, vindo do amigo, desvendou. Como ainda hoje, apesar da abertura da sociedade, ocorre. Conheço vários homens que não têm coragem de sair do armário (para utilizar a linguagem codificada), exibindo os filhos e a mulher, mas condenados à frustração, à mentira, à infelicidade. A dada altura disse que aprecio a política de Macron no concerne ao Afeganistão. “Que queres, meia Paris é propriedade do Qatar.” São os árabes que não devem beber álcool que se enfrascam todas as noites no Ritz (donos do hotel) com drinks a 25 euros e almoços a 300 euros!  

         - Ontem à noite, pelas dez horas, telefonei à Maria José. Ouvindo o tilintar de qualquer coisa que parecia pérolas, perguntei o que estava a fazer: “Estou a trabalhar no relógio solar que viu sábado. A esta hora ainda no atelier! Enquanto não acabar este trabalho, fico até por volta da meia-noite.” Quantos artista fariam tantas horas de labor por uma causa social?

         - Acabei de entrar vindo da Feira do Livro. Tempo quente no Parque Eduardo VII. Não me carreguei, preferindo lá voltar noutro dia. Mais um ano que procurei o último livro de Frederico Pedreira... em vão. Por todo o lado, filas incríveis de pessoas para guichets e às portas de departamentos públicos. 


terça-feira, agosto 31, 2021

Terça, 31.

À medida que avanço no romance, deparo-me com uma carrada de dúvidas e muitas hesitações. Sobretudo as relacionadas com o autor, o narrador, a personagem, o tempo na gestação da história. Tinha de memória que José Saramago havia levantado o mesmo género de conflitos na entrevista-livro que deu a João Céu e Silva. Estive, portanto, umas duas horas esta manhã a consultar a obra e como as palavras vivem numa cerejeira, ei-las, as cerejas, que tombam uma a uma e num instante tinha não sei quantas páginas relidas. O curioso da situação, tendo privado com o escritor anos a fio, foi como se o tivesse na Rua de S. Marçal à conversa comigo. O que ele diz é absolutamente verdadeiro, porque muito antes da consagração do Nobel, o espaço e o tempo que foi o seu, derramam-se nas páginas contadas com a clareza da luz que não admite sombras. Nem de tudo gosto na sua vasta obra, acho até que lhe falta um qualquer rasgo de profundidade que navegue por entre os escombros da alma humana, um murmúrio inquieto, uma interrogação que se descaminhe no labirinto da transumância do espírito, cada livro tecnicamente perfeito, mas, para mim, infelizmente, alguns morrem aí. Todavia, esta é a minha opinião pessoalíssima e, portanto, vale o que o vale. 

         - Eu prefiro elogiar Marcelo Rebelo de Sousa no seu papel de vigilante da democracia e das normas constitucionais que no de comentador político, primeiro-ministro, capelão e animador televisivo. Estou com ele quando veta as novas Regras de Apoio à Economia Local que davam aso à extinção de processos a autarcas por incumprimento de normas de gestão financeira, projecto votado pelo PS e o PCP largamente favorecidos, se Marcelo não tivesse vetado. O que é lamentável e revela o carácter político dos dois partidos, é a lata, a indiferença democrática e a  desonestidade que patenteia. 


segunda-feira, agosto 30, 2021

Segunda, 30.

Os franceses não fazem a coisa por menos. Acabo de receber a informação que na próxima semana vão ser postos à venda não só um como dois volumes do Journal intégral de Julien Green, estes acrescidos do título Toute ma vie. São cerca de 2.800 páginas que terminam com o autor a fazer 50 anos de vida. Ora, como ele morre com 98, imagine-se o que nos falta conhecer. Green dizia em vida, que o seu diário na totalidade devia ter o dobro do texto. Eu admiro a força de trabalho que o habitou. Até aos derradeiros meses de vida, indiferente ao tempo, prosseguiu a sua obra como se tivesse ainda mais outros noventa para viver. E sempre muito criativo como prova o romance póstumo L´inconnu.



         - O futuro do Afeganistão está traçado: humilhação, sofrimento, morte. Para a maioria que não consegue fugir do país, espera-lhe um Estado bárbaro como aquele que o Antigo Testamento descreve. O cruel abandono dos EUA, em tempo de líder democrático, executando o plano de antigo Presidente, um homem analfabeto, orgulhoso, déspota, arrogante e megalómano, está à vista: em poucos dias vários rockets trocados entre o chamado estado islâmico e o Estado americano. Não se sabe quantos morreram nesta segunda guerra de cálculos de toda a ordem. Entretanto, 13 militares norte-americanos foram a enterrar. Morreram com vinte anos ao serviço dos interesses do seu Governo e das superpotências. 

         - Estive com o Fortuna – está por metade. Perguntei-lhe se estava doente, assim tão magro e reduzido fisicamente. “Não. São os nervos.” Serão. Porque o entusiasmo pelos projectos, embora empurrados com dificuldade, nunca o largam. O cérebro pensa rápido, a acção arrasta-se atrás. Os 87 revelam-se. 

         - Antecipando o Inverno e prevendo a saída para Paris em Outubro, comecei a carregar lenha para proteger debaixo do telheiro. É trabalho duro e demorado que terei de fazer aos bochechos. Esta manhã três carregos. 


domingo, agosto 29, 2021

Domingo, 29.

Eu parece que previa a desgraça no apontamento de segunda-feira passada, dia 23. Naquela chaga aberta em que se tornou o Afeganistão, grandes foram as tragédias que desde o meio da semana ocorreram. Por cima dos milhares de desesperados que tentavam a saída de Cabul, o Daesh-K (nova sigla indicativa de divisão no seio do grupo) fez deflagrar uma bomba potente que um kamikaze trazia consigo: mais de uma centena de mortos, muitos deles soldados americanos que faziam serviço de encaminhamento dos infelizes para os aviões militares, muitos feridos, o caos e o sofrimento no coração de todos os que ali se encontravam e encontram para fugir de uma vida bárbara que decerto espera a todo o povo afegão. Joe Biden prometeu vingança e não tardou: ontem os EUA desencadearam um ataque com drone contra o Daesh, digamos, mais extremista acantonado na província de Nangarhar (a Este do território). Não se sabe quem foi atingido e provavelmente não se saberá tão cedo. Biden diz ter sido morto o comandante Bill Urban. O curioso de toda esta embrulhada, é que quem cedeu a informação do sítio a atacar, foram os novos senhores do Afeganistão. Adivinha-se, portanto, o futuro da trapalhada americana na zona e no mundo. Acho que quem tem tido o sentido apurado desta desgraça criada pelos EUA e do vindoiro posicionamento geo-estratégico, é Emmanuel Macron que não quer romper com os novos dirigentes e permanece no Afeganistão contra a debandada de todos os outros países. Talvez tenha razão. Ontem estive a ver a entrevista que o porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, ao canal France 24 e pareceu-me um homem equilibrado e em quem se pode confiar. A ver vamos, claro. 

         - “Muitos dos clichés usados para denegrir o Partido Socialista são verdadeiros. Não tem alma, nem ideologia. Não tem doutrina, nem cultura. Não tem estratégia, nem programa. Não tem afecto, nem simpatia. Não tem substância cultural, nem identidade política. Não tem orgulho, nem compaixão.” António Barreto no Público de ontem. Eu gostaria de acrescentar apenas mais esta: não é socialista, é uma coisa híbrida entre a social democracia e um clube de ricos ignorantes. 

         - Sexta-feira instalei-me na fnac do Chiado e cumpri umas saborosas três horas de trabalho no romance. Apesar da noite inopinadamente má, a cabeça cumpriu e o resultado foi satisfatório. Até à chegada da Carmo Pólvora com quem fui almoçar ao Adega da Mó. Longo, simples e saboroso repasto regado com tinto e muita conversa solta. No restaurante apenas meia dúzia de clientes.  

         - Ontem, também de inesperado (eu que adoro imprevistos), apareceu a Maria José a desafiar-me para almoçar. Levou-me ao sítio outrora do Sebastião Fortuna, hoje transformado numa zona de restauração ao ar livre. Os brasileiros estão por todo o lado, são eles que governam o espaço. Depois da arrastada refeição, fomos ao seu atelier. Maria José não pára. Encontrei-a a fazer um relógio solar para uma IPSS, portanto, à borla, na mesma técnica bizantina e romana, isto é, em milhares de pedras de várias cores, minúsculas, 2, 3 milímetros, coladas juntas formando a imagem previamente criada. Disse-me ela que cada quadrado com 20x20 cm levava um dia inteiro (nove horas!) a cobrir! A paciência, o esforço físico que ela põe não sendo já uma moçoila na obra é admirável.  


quinta-feira, agosto 26, 2021

Quinta, 26.

The future is dark, não só devido aos cataclismos naturais como aos que os homens montam para acudir à ganância e à voracidade. O mundo vive numa espécie de construção do desastre, testando meios e circunstâncias, experimentando acções e ódios capazes de explodir a qualquer momento. Há uma atmosfera que antecede a grande catástrofe pairando no ar, os seres humanos mais vulneráveis são testados servindo de confronto e escudo às superpotências. Os computadores ajudam a aperfeiçoar o armamento da guerra moderna, não só pela força das armas, mas também pela palavra que prepara e define os campos de batalha. Ninguém hoje se bate por uma ideologia, religião ou sequer território; só o poder interessa enquanto força dominadora do controlo económico-financeiro do mundo. A partir dele, tudo se submete. Em última análise é a subsistência que constrói a vida e dá sentido à morte. 


quarta-feira, agosto 25, 2021

Quarta, 25.

Volta que não volta, sou surpreendido pelo bom senso e prudência do bom povo português. Não tem uma semana que os governantes libertaram as amarras que sustinham o contágio por coronavírus. Embalados pelas autárquicas, desejosos de serem os primeiros na corrida ao coração dos revoltados pelas medidas de contenção social, ei-los levantando as barreiras que durante estes dois anos impediram que muitos mais mortes houvessem, internamentos, sofrimento e depressões. De repente, montados nos 70 por cento de vacinados, alegremente a aceitarem que a vacina é 100 por cento imune ao contágio, abrem os diques e deixam entrar na enxurrada uma série de mentiras que foram vendidas por verdades: “nos transportes públicos já pode entrar toda a gente”, uma mentira que todos os que viajam como eu neles sabem nunca ter existido impedimentos; “as esplanadas podem agora agrupar 15 pessoas”, mentira sempre puderam, nomeadamente, na Brasileira quem quis e como quis; “a máscara deve ser sempre usada no interior e exterior dos estabelecimentos - cafés e restaurantes – desde que não se esteja a comer”, mentira sempre vi gente sem máscara nas esplanadas e na Brasileira éramos apenas nós, tomada a bica, que a colocávamos e muitas outras aldrabices para patego reter. Todavia, apesar dos políticos que temos, o povo age em contraordem: por todo o lado vi continuar a respeitar o cruzamento de lugares no metro como no comboio, toda a gente de máscara e na rua só vi estrangeiros a mostrar os dentes nem sempre limpos...  

         - Desde que deixei de ir a Lisboa com frequência, aumentei o ritmo de trabalho no romance. Ontem, por exemplo, até fui ao Chiado para me encontrar com o João Reino e almoçarmos e no entretanto pedir-lhe explicações para uma anomalia no computador. Fui mais cedo com o tricot na mochila e instalei-me no café da fnac. Três abençoadas horas sem que tivesse entrado no espaço um só cliente. Conclusão: se somarmos até hoje três manhãs de três horas temos que terminei a revisão da primeira parte de O Matricida. Enfim, forma de falar. Porque neste fragmento é a adolescência de Semyon que é contada e ele só deve ficar concluído quando a personagem deixar Anadyr para se juntar ao grupo de revolucionários que em Kiev se organiza para escorraçar os soldados de Moscovo da Ucrânia. Falta-me muita informação que não encontro em Lisboa. Nem sequer um mapa da Crimeia existe. Por isso, é para mim fundamental ir a Paris onde tenho tudo e diverso à minha disposição. Antes de embarcar de regresso a casa, passei na Reviera para trazer o jantar. Só que a dose, como era a última da travessa, deu para o jantar de ontem, o almoço de um dia destes e o jantar da próxima semana. 

         - Manhã de céu leitoso. Regas. Terminei a limpeza das traseiras da casa onde todos os anos o grande medronheiro atapeta o chão de milhares de folhas. Para o início da tarde instalou-se um sol brilhante e quente e não tarda atirar-me-ei à água para meia hora de natação vigorosa e outra de vitima D. Apesar destes cuidados com a saúde, não tenciono isentar a máscara, a desinfecção das mãos e a distância com quem falo ou me cruzo. 

E cá estou eu com o novo look de ócudos


segunda-feira, agosto 23, 2021

Segunda, 23.

Quer-me parecer que a única pessoa que pôde dialogar com os perversos dos talibãs - pelo que é evidente e comum entre eles -, foi Donald Trump. O acordo que este fez com a seita e Biden podia ter modificado ou recusado, está na origem do abandono criminoso de um povo nobre à morte canalha e bárbara de milhares de inocentes. A América interesseira e soberba, dupla e apoiada no expansionismo, sai absolutamente desacreditada depois de vinte anos e já antes ter criado o bando ensandecido que agora governa o Afeganistão: os talibãs. Eles são produto de uma América sem princípios morais, éticos, humanos, que joga a sua influência apoiada nos seus interesses ocasionais e onde se mete deixa um rasto de miséria e morte e muitos constrangimentos à Europa de pendor mais humanista. Um grande barril de pólvora está a arder em Cabul e basta ouvir o que deles diz o Daesh, para se perceber que os próximos tempos vão ser terríveis não só para a região como para o resto do mundo.  

         - Avencei um pouco mais no Diário de Paul Morand. A páginas 250, no Início do ano 1940, os jogos de guerra são uma constância da actividade do adido da embaixada de França em Londres. Que mexericos, que vida paralela à construção da guerra! De Gaulle por quem o escritor não morria de amores, chega a Londres e por imperativo de Churchill faz a sua primeira alocução na BBC então rádio.  Àquele período voltarei. 

         - Se nós interiorizássemos que a dádiva da vida reside na morte de Jesus tudo mudaria.  

         - A Piedade esta manhã levou-me junto das figueiras e os dois viemos com um cesto de figos. Logo comecei a fazer compota e enchi quatro frascos do delicioso doce. O resto do dia preguicei, sem vontade para escrever ou ler. São 21 horas e 45 minutos. Noite quente, mas tolerável. Os técnicos ameaçam-nos com temperaturas a tocar os 40 graus para os próximos dias.


domingo, agosto 22, 2021

Domingo, 22.

A obsessão pelo de confinamento tem a sua justificação não na saúde dos portugueses, mas nas autárquicas do mês que vem. De contrário, onde é que se viu 70% da população vacinada proteger os quase dez milhões de habitantes! Eu julgava que a imunização colectiva ficava em princípio protegida com 80 por cento. 

         - Outra consequência das eleições, são as promessas de António Costa com o milhões que Bruxelas nos emprestou. Mas a verdade, nua e crua, dos números é que o endividamento de Portugal atinge já 762, 5 mil milhões (no dizer do banco de Portugal). Preocupante é também o aumento do endividamento dos particulares de 2000 milhões de euros. Como sempre, os nossos concidadãos, estão-se nas tintas para estas minudências – o último a sair que bata com a porta. Somos uns pobres patetas para quem o princípio é ir vivendo. É por isso que os políticos nos enganam. Desde o sinistro Cavaco Silva, que todos nos prometem vir a ser dos mais abastados da União, estamos no penúltimo dos mais pobres – e nunca de lá saímos. 

         - Ao Público deu-lhe para fazer o chamado “Questionário de Proust” a torto e a eito. Raras são a “figuras públicas” que têm um tudo de nada de massa encefálica. É o caso do bispo auxiliar de Lisboa, D. Américo Aguiar. À pergunta: “O que considera ser o cúmulo da miséria?” Ele respondeu: “Ser o homem mais rico do cemitério.” Há um apresentador na Antena 2 que a todos os entrevistados pergunta: “Qual é a sua Quinta-essência?” Enfim, conforma-te rapaz. 

         - Domingo dominical. S. Paulo foi chamado ao ofício litúrgico deste dia em carta aos efésios. O que ele diz deve ter revoltado as mulheres e, sobretudo, as meninas do BE que são, naturalmente, ateias. Nesta Carta é bem visível que o Apóstolo nunca largou a sua cegueira pelo corpo e o sexo. 

         - Viver nos nossos dias só é suportável refugiados em Deus. 


sexta-feira, agosto 20, 2021

Sexta, 20.

Não sei porquê, mas sinto-me desde há duas semanas em plena forma. Deve ser passageiro este tempo abençoado, porque comigo é por revoadas que passeio nas nuvens ou desço a queimar-me nas chamas do inferno. Pelo meio, tenho choques de cintilações de uma felicidade indiscritível. São pequenos instantes, fagulhas de segundos, que me levam para mundos que ficam para lá de eternidades desconhecidas. É um bem estar quedo, beatifico, atravessado de sonhos, fantasias, recordações encantatórias ou beliscadas de memórias enérgicas de sensualidade. Todos os corpos que tateei ao centímetro quadrado, desaguam no meu regaço, ficam ali por minutos, trazendo-me a loucura que os imortalizou. Chego a ouvir os soluços, a respiração arfante, os gemidos celestiais que são a fonte não só da inspiração como da própria vida. Este tempo acorda-me para a presença da natureza que me rodeia, e sinto arrepios de vontades, admiro o espaço pousando o olhar que arrasta a alegria do fundo dos dias de desespero, e perco-me em passeios meditabundos, revivendo cada minuto dos anos aqui enclausurado, com o sentimento que nada fiz para os merecer. Impulsionado pelo estado de graça em que me encontro, contemplo cada árvore, viajo no voo dos pássaros, finto os raios do sol na densa ramagem que circunda a casa, encho o coração da beleza dos campos verdejantes decorados de cachos de uvas pretas e brancas refulgindo ao sol do meio-dia. Estou que não posso de bem-aventurança. Chego mesmo a paralisar, impedido pelo silêncio profundo de gritar, de agradecer ao Criador tão ufana e bela paisagem, que recebo como uma bênção no meu coração, a fim de nele nidificar a maior aventura que me foi dado conhecer -  a da vida turbulenta e excelsa que é a minha. 

         - Almocei no Corte Inglês com a Alzira recém-chegada do Algarve e cheia de lamúrias. A dada altura desliguei e passei a acompanhar a conversa da mesa do lado. Duas senhoras de bom porte e tom de voz civilizado, quero dizer, baixo falavam deixando escapar desolação. Uma diz para a outra: “Mataram-no na flor da vida. E dizem que também era bonito por dentro.” Que mundo de súbito se me abriu! Quem era o infeliz? Que idade tinha? Por que o assassinaram? Naquela expressão de compaixão e dor, está inteiro todo o valor e fragilidade da nossa passagem por esta terra. 

         - Posso afirmar que o Black é macho. Aconteceu esta manhã quando vi aproximar-se outro gatesco da porta onde ele comia. Logo abriu a boca num esgar de raiva pondo em fuga do desgraçado. Parecia o Drácula na forma felina, com aqueles dois dentes de cima que avançam um pouco sobre os de mais, pontiagudos. Se o outro fosse outra, ele, como o pai, não o expulsava irado. 


quinta-feira, agosto 19, 2021

Quinta, 19.

Encontrei-me com o João B. no Chiado. Grande conversa em torno do momento actual e da sua vida que teve uma reviravolta depois do falecimento da mãe. Deixou de escrever e daí nunca mais ter lido artigos seus no jornal que foi a sua tribuna durante anos. Confessou-me que se sente muito só e que apenas encontra refúgio na leitura. E que leitura? Conhecendo-o há anos, posso garantir que será a mais hermética que imaginar se possa. Digo-lhe isso e ele sorri exibindo, enfim, um rosto infantil como a dizer-me “que queres, sou como sou”. Convidei-o para me visitar em Palmela o que ele prometeu fazer, sabendo eu de antemão que nunca o fará, prisioneiro da depressão em que se encontra. 

         - Isto não se passa só com ele. Muitos amigos desafiei a aparecer, mas eles nunca vieram. Os tempos são de ostracismo, de hesitação, de medos e apatia. A pandemia deu a volta às vidas das pessoas e parece que conseguiu uma espécie de desaprendizagem da felicidade e do prazer. Talvez já não seja o medo que nos manieta, mas uma comodidade mórbida que se instalou, algo parecido com o egoísmo compassivo que começa em cada um de nós e estende-se ao outro. Somos o espelho que se revê nas sombras do outro. Tal como nos encontramos, entregamo-nos aos fazedores de desgraças, à morbidez da janela que entra em nossa casa soprando mentiras, promessas vãs, números e percentagens preparados para nos quebrar o ímpeto de liberdade. Deixámos de ser críticos, confinámos os nossos interesses ao ecrã que não nos deixa pensar, mas simplesmente aceitar o que outros preparam para nós. Olhamos, mas não vemos; ouvimos, mas não apreendemos; cada notícia é uma página do jornal que renunciámos a  ler. Estamos em lado nenhum, vivemos com a morte debaixo dos olhos, uma morte anunciada pelo desânimo, as funções cognitivas apuradas nas teias do desespero. Alguns ainda se agarram ao quotidiano de antes das trevas, querem pendurar-se nele para reinventar outra forma de existência onde tudo o que foi do passado volte temperado com aditivos ajustados às carências de cada um. Como em todas as guerras, há sempre os falsos deuses, sábios, humanoides que nos preparam uma existência desobrigada da vontade, força e acção, enfim, passados ao estádio  de assombrações.  

         - Cheguei, despi-me e mergulhei numa sopa morna que pouco me espevitou os nervos. Encontrei na caixa do correio a conta da EDP chinesa e, para meu contentamento, tenho para pagar apenas 49 yuanes. Esperava uma soma calada, tendo em conta o que costumo despender no verão por causa das regas e piscina. Exemplo, o ano passado neste mês 100 yuanes. Esta redução não é nenhum bónus chinês, antes a ajuda do robô que me permite reduzir o número de horas de tratamento da água, manter esta sempre limpa e gastar menos produtos. E quero sacudir do meu cérebro os 439 yuanes que a avaria do motor levou para Pequim. 

         - Céu-aberto pleno de um azul intenso. Calor q.b.. Não estou em nenhuma galáxia do nirvana, vagueio no mar imenso do tempo silenciado algures numa plataforma imaginária. 


quarta-feira, agosto 18, 2021

Quarta, 18.

Eu que louvara a não existência de fogos este ano no nosso pobre país, eis que eles irrompem com a brutalidade habitual. Vastas áreas de reserva foram ardidas no Algarve, no Alentejo e no Norte. Mesmo assim e apesar do calor, parece-me que até aqui o desastre não é o costumeiro. Não sei se haverá trabalho bem realizado por parte das entidades que estão obrigadas a preservá-las, espero e torço por isso. 

         - A triste e lamentável fuga dos americanos do Afeganistão, pôs de sentinela a política americana que parece ser du n´import quoi. Admira que Joe Biden execute afinal uma ordem de Trump – é inverosímil. Não se pode confiar naquela gente e a Europa tem de começar a olhar para a América com muita desconfiança se quiser marcar a diferença num mundo cada vez mais globalizado. Em breve iremos assistir a todo o tipo de barbaridades fundamentadas no Islão que é uma bíblia de conceitos à la carte.  

         - A Annie insiste para que vá ter com ela a Paris. Bref. Entretanto, Hugues que voltou a viver com a mãe expatriado de Taiwan, quer cá vir passar uns dias. Tudo isto tem de acontecer antes de meados de Outubro altura certa para eu abalar. Mas qualquer facto das nossas vidas, do mundo até, fica condicionado à tirania da Covid-19 ou de uma variante que os chineses entendam meter ao barulho!... O homem andava tão seguro da sua riqueza, do seu saber, do seu progresso e vai-se a ver um insecto insignificante pô-lo na ordem, diante da realidade, todas as fantasias e importâncias reduzidas às tábuas da sua habitação. Aprende ele? Não.   

         - Dia radioso. Revisão do encontro entre Semyon e Natacha parece-me bem urdido. Ufa! Que algo de bom encha os meus dias! Chega de um tempo que nem no calendário existe! 

         - Às minhas tarefas madrugadoras, acresce a apanha de figos. Não posso falhar; de contrário chegam primeiro os pássaros e fazem uma razia completa. Sábado vou começar a fazer compota. De todos os frutos, o figo é o que mais gosto e todos os amigos fazem bicha para receber a sua parte.  

Amoras silvestres 





segunda-feira, agosto 16, 2021

Segunda, 16.

A saúde mental da população, de nós todos, está muito alterada. Volta que não volta, assisto a cenas macacas nos transportes públicos. Ou porque uma gorda empurrou uma magra: ou uma preta chamou racista a um branco; ou um coxo foi impedido de ocupar o lugar que a lei lhe confere; ou um diabético exigiu um banco para não desfalecer; ou um corcunda empurrou um grupo para passar; ou um careca foi gozado por um rapaz sardento, mas cheio de cabelo; ou um grupo de africanas falando tão alto como se estivessem no pátio da suas casas e um passageiro idoso pediu falassem mais baixo e elas responderam que ele não mandava nelas; ou um cardíaco que entrou ofegante e não houve vivalma que lhe desse lugar; ou um maneta com bengala na única mão, depois de ter revirado os olhos em busca de um sítio para aonde se atirar caiu redondo no chão; ou aquele rapazola, vidrado no telemóvel, não tendo dado pela estação, dispara à última hora para a saída deixando para trás um grupo de passageiros blasfemando; ou aquele ciclista, todo pimpão, que entra com o último modelo do brinquedo e afasta à rodada os passageiros que estão ao monte na plataforma; ou aquele cadavérico que tira a máscara para tossir como se fosse a coisa mais natural; ou aquele casal de anciãos, trôpego, muito agarrado um ao outro, a ternura derramando do olhar que se apoia mutuamente, e a quem ninguém oferece um banco; ou aquela negra, de largas ancas, exaurindo um cheiro que afasta os mosquitos humanos para longe; ou homem branco, rude, visivelmente pedreiro, cheio de tintas e colas nos braços, que as pessoas evitam e ainda por cima ele está colocado à entrada; ou aquela discussão acesa sobre política entre dois homens de meia-idade que quase acabava à bofetada, enfim, para quê tanto drama, tanto rumor,  se nos igualamos todos no final desta caminhada, unidos numa mesma condição – a de mortais. A morte não reconhece diferenças.  

         - A Brasileira a que eu cada vez tenho ido menos, porque o número de estrangeiros negacionistas e sem máscara é quase toda a clientela que ali vai, não respeita o espaço entre mesas e o que importa é facturar, deixou para mim de ter os atractivos de outros tempos. Esta manhã, três brasileiras que falavam - força de expressão - gritavam, coladas a mim, sem máscara descompuseram-me e investi sobre elas lembrando-lhes que em Portugal é obrigatório o seu uso. Logo surgiu o Igor dando-lhes razão, porque estavam a consumir e ao ar livre. A lei deve ser isto que diz. Ou antes as leis no nosso pobre país, ajeitam-se a todos e a todas as circunstâncias, são feitas para o sim como para o não, e assim vão servindo sobretudo aos advogados que são eles que as redigem sem terem sido eleitos. Mesmo que aquelas três obtusas já tivessem engolido a sandes, podiam sempre invocar que estavam a consumir e, portanto, as horas que ali permaneciam abancadas a ver quem passa e a discutir balelas, não as obrigam a proteger-se e a proteger os outros. Então, caro leitor, quando tal lhe acontecer, faça como eu fiz: quem se sente a mais, desanda. (O texto continua, mas eu suspendo-o para os leitores virtuais aqui. Como, de resto, muitas vezes acontece.) 

domingo, agosto 15, 2021

Domingo, 15.

O mundo parece ter sido abandonado por Deus tantos são os horrores, as penas, os males que brotam de todo o lado. Não nos bastava a Covid-19, chegaram também os dias tórridos, as chuvas diluvianas, os fogos, os tremores de terra, as guerras... O Haiti, o país mais pobre entre os pobres, foi atingido por um sismo de magnitude 7,2: morreram centenas de pessoas e os feridos são incontáveis. O pavor está instalado, as populações ainda se lembram doutro terramoto, em 2010, que fez para cima de 100 mil mortes. Ante tanta desgraça é a impotência que nos tolhe. Lemos, ouvimos e vemos e ficamos paralisados sem saber o que fazer. Porque tudo hoje é espectáculo e quanto mais mortes e feridos, mais espectadores alarves se quedam horas diante dos televisores. Que pensam eles ante o sofrimento? Nada. Tudo aquilo é um filme. 

         - Como se previa os talibans entraram já em Cabul. Entram eles, debandam os americanos. Uma vergonha que se esperaria de um Trump e não de Biden. Abandonar o nobre povo afegão à sua sorte, isto é, a voltar ao terror da sharia islâmica é um crime levado a cabo por uma nação que colheu todos os proveitos que lá a levaram e egoisticamente a deixa minada de ódios aos que se reinstalam para prosseguir com as hediondas afrontas aos direitos Humanos. 

         - Diz Jerónimo de Sousa que para preparar o país pós-pandemia, “é preciso ir para além da propaganda”. Meu caro camarada: então não conhece o homem com quem se uniu (salvo seja)? Se há alguém no país que poderia ganhar a vida como milionário, gerindo não uma mas várias agências de publicidade, é o seu parceiro. Homessa! 

         - O país atingiu o milhão de infectados com Covid-19. Isto é o que regista o Público, mas eu penso que deve ser pelo menos mais meio milhão, isso se saberá daqui a uns anos. 


sábado, agosto 14, 2021

Sábado, 14.

Alice está com covid. Embora vacinada com duas doses, foi passar o fim-de-semana com a filha a casa da sogra na Ericeira. As duas não estão protegidas porque são contra a vacinação. Deste modo, Alice tem poucos sintomas – diarreia, cansaço, dor de cabeça – enquanto a sogra está em estado miserável no hospital e a filha em casa de quarentena. Ambas dizem agora que se escaparem, vão imediatamente pedir para serem inoculadas. Depois de casa assaltada, trancas na porta. Pois é. Entretanto, Alice sofre. Estes são os defensores da liberdade... egoísta. 

         - Gosta-se da Alice Vieira mesmo de olhos fechados.

         - Vinte anos depois, perdida a guerra contra os talibans, a América retira-se inchada por ter feito o que quis e como quis, tudo, evidentemente, em nome do povo afegão e da democracia. Os novos senhores são mais jovens, embora gostem de mulheres e rapazes muito jovens como os anteriores, mas, aparentemente, menos selvagens. Só lhes falta entrar triunfantes em Cabul, todo o resto do território é já seu, depois de terem assassinado os opositores: jornalistas, militares afegãos, escritores, artistas, mulheres e crianças. A lei islâmica deve ser aplicada com todo o rigor e nela não cabem os delírios da arte, da música, da democracia. 

         - Só como registo para memória futura. O senhor todo poderoso da Rússia, segundo a Amnistia Internacional, além de ter alterado a Constituição de modo a ficar no poder até 2036, também está a compô-la retirando constitucionalmente direitos aos cidadãos como os de manifestação. Uma carga de medidas obrigatórias passam a ser necessárias para autorizar aglomerações públicas, e o protesto pacífico até aqui normalizado, passa a ser crime. Quem desobedecer tem à perna a violência da polícia, técnicas marciais, electrochoques, bastonadas e a prisão. Do PCP não chega um sopro de indignação. Deve ser porque está todo o Comité Central a banhos. 

         - Sendo fim-de-semana, muito trabalho de regas. Nada que meia hora de natação não esqueça. Ontem, contra todo o rigor horário e de vida, andei a apanhar amoras até um pouco antes de anoitecer. Ultrapassei com vantagem o quilo que já tinha e hoje meti mãos à obra, quer dizer ao tacho. Juntei uma vagem de baunilha e o resultado foi uma obra de arte. Colhi os primeiros figos, segunda-feira, levarei ao Igor uma caixa deles em agradecimento por me defender dos chatos e porque não gosto de dar gorjetas que acho humilhante. Que mais? Fiz sopa de cenoura e agriões, no forno frango, perdão, poulet, com batata, castanhas e cebolinha tudo para arquivar de modo a ser consumido durante a semana que vem. 

         - Para mim não é canícula, pelo menos aqui na eremitagem. Está quente é certo, uns 37 graus, mas suportável. Fiz a minha clássica natação, tomei meia hora de vitamina D, li, escutei o sussurro do calor golpeando em torno de mim e fechei a tarde lá fora no terraço a escrevinhar estes apontamentos. Paz e sossego. São 18 horas e dez minutos. 


sexta-feira, agosto 13, 2021

Sexta, 13. 

Os fogos que por cá matavam e reduziam a nada casas e florestas em anos anteriores, abrem hoje os jornais televisivos com os desastres ocorridos por essa Europa fora. Na Grécia o fogo teima em não deixar os arredores da capital; em Itália lança o terror com o termómetro a tocar os 50 graus centígrados; nos Estados Unidos está sem controlo, com temperaturas acima de 40 graus. Tudo isto, dizem os entendidos, deve-se ao aquecimento terrestre. Há que tomar acções draconianas para travar tanta insanidade, repetem. Mas eu só vejo atacar o consumo, deixando à solta as multinacionais que produzem e obrigam com campanhas a consumir cada vez mais e mais. Não observo travagem dos desfiles de moda, das corridas de automóveis, dos jogos de futebol que deviam passar para de dia, evitando assim milhões de quilowatts gastos que davam para alimentar a capital; como não vejo os senhores deputados, os condecorados militares a dispensar o carro de Estado; os directores das multinacionais, dos bancos, presidentes de câmara que saem de casa para o trabalho resguardados em limusinas que consomem mais que o transporte público e assim. O exemplo devia vir de cima. As meninas do BE, propagandistas do planeta, juro que nunca as vi no metro ou no autocarro. Enganem quem quiserem, a mim é que não.        

         - Consegui recolher um quilo de amoras para compota. Foram dezenas de picadas, horas a apanhar uma a uma, sob sol tórrido, na companhia do gato que não me larga, a pensar na Annie e no Robert que decerto por esta altura correm os muros de urtigas que ladeiam casas e caminhos por toda a Bretanha, mais propriamente Quiberon e seus arredores. A minha segunda profissão é compoteiro, mas nunca experimentei fazer este fruto delicioso, carregado de vitamina C, sais minerais, ferro e antioxidantes. A ver vamos como resulta. 

         - Ontem parecia que andava drogado. A quantidade de coisas que fiz até à hora de fazer meia hora de natação! Só a limpeza da vinha virgem que havia invadido o telhado da casa das máquinas, ocupou-me várias horas, para não falar nas regas, no carrego de entulho para queimar, ida às mercas, à inspecção do carro a Vila Nogueira de Azeitão e basta. Podia ter sido um dia feliz, mas faltou-lhe o essencial: dois minutos de escrita no romance. Não peço muito aos deuses – apenas um olhar contemplativo sobre as páginas do meu bem amado por quem afugento a morte e me entrego inteiro à vida. 

         - Hoje pus-me a pé pelas seis da manhã. Tinha de estar no Rato antes das nove e o sono foi por isso agitado. Despachado do que lá me levou, desci ao Chiado para dois dedos de conversa com o Vergílio, Carmo e a protectora do meu querido escultor. Fazia calor, os termómetros deviam andar pelos trinta e tal, mas ali, com a multidão de estrangeiros veraneando, uma ligeira aragem roçando a esplanada, era como se o céu nos banhasse da luz que brilha sem entontecer. Prometeram-nos para hoje o inferno, mas saiu-nos o paraíso. Mas se pensar na turba lisboeta que me telefonou, diria que andei entre as chamas do desassossego. Há dias que não ouço o telemóvel, hoje não parou. Ora nem Éden nem Averno, o paraíso apraz-me. 


quinta-feira, agosto 12, 2021

Quinta, 12.

O concerto de Agir, O Cantinho do Zeca, transmitido pela RTP1, dia 2 de Agosto, ano de nascimento do cantor, e que eu pude ver ontem ao serão através da internet, é uma beleza de equilíbrio, graça, bom gosto e harmonia. Um naipe de artistas, criteriosamente escolhidos pelo produtor e músico, gente que não vejo a correr os canais miseráveis que transmitem de manhã à noite todo o lixo em versão dejecto nauseabundo, ali estiveram com dignidade, paixão e amor à Arte. O povo não deve ter gostado nada, no dizer habitual dos senhores que mandam nas televisões e também nele, povo, analfabeto que se abstém de espreitar estas safiras cristalinas que nos dão por favor ou quando qualquer efeméride os obriga. Agir é o autor dos arranjos musicais, do giro de cena, da atmosfera, do calor humano que emana de todos os artistas enlaçados nos ritmos de Zeca para quem a letra servia a toada, a canção, o protesto, a revolta. Mas o excelente músico que é Agir vai mais longe: estende no tempo cada tema, embrulha-o na candura que ele próprio cria quando canta, magnetiza-o em torno de matrizes originais sem nunca perder de vista o autêntico sopro que saiu da alma do trovador. Por instantes, somos levados naquela melopeia de sons para um outro mundo, que raras vezes entrevistamos, e eu, pessoalmente, espreito diante da página em branco, num balancear entre a vida e a morte, entre o mistério e a graça, entre o silêncio e o murmúrio. Senhor de uma dicção perfeita, de graves que se adoçam, de agudos que voam, Agir é no panorama da música portuguesa um artista inteiro, único e singular. (Agora não me venham acusar que só digo mal...)  


 

         - Porque mal digo e o pior possível. A começar pelos responsáveis televisivos, tipas e tipos sem qualidade, arrastados por modas ocas, vazias, tresmalhadas, que entretêm o pateta e glorificam o idiota, selando com os seus gostos duvidosos o entretenimento familiar, todos “em família”, à manjedoura comendo os programas comprados por truta e meia, apresentados por gente de baixo preço, sem cultura nem humor, ou de humor grosseiro, do tipo manas catatuas, assente na brejeirice, que dá para esconder a cultura que não possuem, todos gajas e gajos porreiros, que passam de canal em canal levando consigo as anedotas foleiras tão velhas e relhas como eles. É só ver os programas ditos da manhã, os de fim-de-semana, os concursos, os humorísticos e temos a tabuada gravada da merdelhice nacional. Se a isto somarmos as transmissões futebolísticas, chegamos à conclusão que o povo é feliz e instruído até dizer chega. Os governantes esfregam as mãos de contentes, a polícia possui um povo admoestado, manso e humilde, os industriais e financeiros podem escolher viver noutro mundo só seu, despejarem todas as porcarias do consumo de massa no regaço destes adoradores de inutilidades, os decibéis ensurdecer, chuvas diluvianas descerem do céu irado, os calores tropicais estenderem-se à terra inteira, trazendo fome e doenças, que o bom povo lusitano não despegará os olhos do brinquedo mágico que o entretém e desvia dos autênticos problemas que assolam Portugal e o mundo inteiro. Assim a morte vai chegando em cascatas de ataraxia e orações. 


domingo, agosto 08, 2021

Domingo, 8. 

Acompanho três blogues, o de J. Rentes de Carvalho é um deles. O homem está lúcido e bem vivo e recomenda-se. 

         - O medo e o desassossego já está instalado em todo o Afeganistão. Os Taliban reinam sobre amplas províncias rurais e impõem de novo a sua sharia absurda e usurpadora das liberdades individuais e colectivas. As mulheres são quem mais sofre e os artistas que denunciam com o seu talento a chegada do terror. Assim o humorista Nazar Mohammad assassinado em Kandahar na semana passada; o escritor e historiador Abdullah Afiti na quarta-feira em sua casa. A Human Rights Watch denuncia mortes em série entre os que fizeram ou fazem parte das forças afegãs. Nos próximos tempos o mundo vai assistir à transformação de um país numa zona de sangue, humilhação e atentados aos direitos Humanos. O Ocidente, penso muitas vezes, vai ficando a única pátria de liberdade e progresso social. Por quanto tempo, não sei. Assim como sempre achei que a Igreja Católica, é o bastião civilizacional da fé e da solidariedade entre os homens, a mais tolerante de todas as religiões, na esteira do Amor que Jesus pregou no mundo. 

         - Agarram-se os homens à esperança numa vacina que erradique o SARS-Cov2. Contudo, o que vemos é diferentes mutações surgirem do nada e entre nós, mesmo os velhos vacinados morrem ou voltam a recidivar. Todos os dias o número de mortes é assustador, maior que em Janeiro e Fevereiro, mas a morte como tudo o resto entrando na rotina, deixa de lamentar. Quando conheço o número de falecidos sinto um bate no coração. Não me são indiferentes aqueles concidadãos que partem. Que partem?! Onde estão? Ausentaram-se por uns dias ou desapareceram definitivamente deixando um vazio enorme nas nossas vidas que continuam enquanto eles já cá não estão? Foram eles que nos abandonaram ou nós que os deixámos ir por aquele desfiladeiro sem fim onde quem entra não volta à superfície? O seu quotidiano interrompido por uma aflição de saúde ficou para trás, deixando intactos os lugares, os adereços, o próprio tempo, os odores da sua passagem nas quatro paredes do quarto, as obsidiantes memórias escritas nas fotos, nos objectos impregnados da história que lhes deu uma alma. De repente fica tudo tão gélido... Ninguém nos habituou a encarar aquele eterno despedimento; ninguém nos ensinou a seguir em frente sem aquele ou aquela que nos atraiçoou escolhendo outro caminho que não vem no mapa que nos orienta quando viajamos. Por momentos ainda achamos que vai voltar, que se perdeu num atalho, que hesitou numa curva, que se extasiou ante o pôr-do-sol. Mas os dias passam e ninguém nunca nos vem dizer onde está à parte o funeral onde ele ficou num pedaço de terra – ninguém o vê ou o viu alguma vez. Alguns levantam os olhos ao céu e acreditam que o viram, mas não têm a certeza se era ele ou era ela...  


sexta-feira, agosto 06, 2021

Sexta, 6.

No seguimento do país dondoco que a democracia decerto ajudou a crescer, aqui fica mais um detalhe. Entrei na farmácia e pedi para ser atendido por uma farmacêutica e não por uma empregada da farmácia, resposta daquela a quem expus a pretensão: “Aqui não há empregadas de farmácia, há técnicas de farmácia. – Então deixe-me fazer a pergunta doutro modo: seria possível ser atendido por uma empregada farmacêutica e não por uma empregada técnica de farmácia?” Caiu um silêncio ruidoso no balcão, algumas das funcionárias desapareceram para os fundos do estabelecimento. O ridículo levantou-se do cavado das consciências, o faz-de-conta recuou. Por momentos ao menos. 

         - Continuo na farmácia não nesta de que falo acima, mas na outra. As velhas acumulam-se, chegam e partem com sacos cheios de medicamentos. Digo-lhes: “Se nadassem não precisavam de tanta porcaria.” Olham-me com um misto de espanto e indignação. Quem não gosta é a dona da botica que me diz: “Não diga isso que me espanta a clientela!”  

         - Marcelo é o maior actor português de todos os tempos. O país devia estar de joelhos agradecido por representar tão bem, não digo o papel de bobo da corte, mas o de chefe de Estado, primeiro-ministro, técnico de saúde, comentador desportivo, bombeiro, jurista, jornalista, médico, vidente, defunteiro e... passo.

         - Grandes incêndios consomem vastas zonas de montanha nos EUA, França, Turquia, Espanha. Nós por cá, felizmente, este ano não temos dado abertura de telejornais como é hábito em anos precedentes. O verão tem sido simpático ao contrário do que os especialista (não ouvi o maior deles, o nosso chefe de Estado) nos prometiam. 

         - O Black, em casa, prefere estar à janela a ver passar gatos e gatas. Esta bela imagem feita de manhã, com o fluo do amanhecer, é a prova de um bicho com personalidade e fidelidade ao seu dono.  

         - O ditador Alexander Lukashenko, deve estar na origem do enforcamento de Vitali Shishov, dirigente activista da causa dos Belarus, que estava desaparecido e foi encontrado enforcado em Kiev, Ucrânia, segunda-feira. Tudo leva a acreditar que se trata de assassinato encoberto de suicido. Lukashenko e Putin devem saber.   


quinta-feira, agosto 05, 2021

Quinta, 5.

O conhecimento é antes de mais um estado permanente de curiosidade. Daí que, a propósito do programa do ARTE sobre Nero, tendo relido as 24 páginas de Suetónio em tradução do saudoso João Gaspar Simões (pena que a edição não diga de onde ele traduziu a obra) espreitando Tácito e  N. T. Wright, fui reler o que de Nero diz Tertuliano e, sobretudo, as imprescindíveis notas do tradutor João Carlos de Miranda. Aí esbarro com mais 15 longas observações que irei recordar nos próximos dias. Esta obra, foi editada por uma editora que infelizmente desapareceu, Alcalá, para a colecção Pkilokalia. Mais: há anos que procuro por todo o lado os outros dois títulos (julgo que são dois) do ilustre mestre em Ciências Patrísticas.  

         - Há dias, entrando no vasto elevador do Corte Inglês, vejo no topo do mesmo, um casal do tipo dondoca. Subimos três pessoas, portanto. De súbito, num andar qualquer aparecem três outros clientes para entrar, logo sacudidos pelo dondoco senhor. Digo aos que querem subir: “Entrem. - Não podem, só mais uma pessoa – ordena o piquete de serviço. É da lei. - Não exagere – respondo eu – pode ser da lei, mas nós devemos ter cabeça para pensar. De contrário, somos gado.” Não se ouviu uma mosca. Este género de pessoas, vive do faz-de-conta, da aparência, de sentido na riqueza que não quer nada com eles; são infelizes como ó caraças, pensam que enganam toda a gente, mas só se iludem a si mesmos. Vão morrer sem nunca terem esbarrado com a felicidade e, sobretudo, com a liberdade. Prisioneiros da mentira, com ela vão a sepultar. Passaram por aqui, mas ninguém deu por eles. São uns pobres idiotas. Imperam em chusmas nos países pobres, vivem regra geral a chular alguém com posses, e o que exibem é um pedaço de coisa nenhuma, uma máscara que esconde o rosto hipócrita. 


quarta-feira, agosto 04, 2021

Quarta, 4. 

Vi uma reportagem ontem sobre o Líbano. É impressionante como aquelas almas resistem a tudo. Governados há anos por uma seita de ladrões e antes por guerras devastadoras, proclamam a sua fé no meio do sofrimento extremo e como único refúgio numa terra arruinada por criminosos de toda a espécie. 

         - Muito acrescentei aos meus conhecimentos sobre o barão Haussmann. Ele e Napoleão III fizeram obra, mas passaram por cima de milhares de cidadãos pobres que foram, pura e simplesmente, postos a viver sob os escombros, ao frio e à chuva. Calcula-se que a mão do prefeito de Paris, tenha acabado com 42 por cento dos bairros lúgubres e insalubres da capital em tempo record, obrigando 20, 30 mil operários a trabalhar de sol a sol. É a esses infelizes, escravos, que Paris devia render homenagem e que eu saiba nunca o fez. No final, uma vez mais, quem lucrou foram as grandes fortunas. A partir daí o preço das casas quintuplicaram. Os pobres foram encaixotados nos arrabaldes.  

         - Ai está o retrato de um país abandonado recentemente pelos EUA e prontamente cobiçado pela China e Rússia. De uma assentada morreram oito pessoas e dezenas ficaram feridas quando um carro-bomba explodiu junto à residência do ministro da Defesa do Afeganistão. Os Talibãs esperaram pacientemente anos que os russos abandonassem o seu território e de seguida os americanos dessem por finda a luta de mais de uma década. Em breve voltarão a ser os sádicos senhores de um povo sábio e pacífico que viu partir à bomba toda a sua história milenar.    

         - Até agora não tenho que dizer do Verão. Gosto deste tempo que não golpeia, onde a brisa fresca do fim de tarde banha planícies e montanhas, mar e campo. Ontem, chegando da cidade, fiquei mais de uma hora lá fora no terraço (à moda do dondoco Carlos lounge) a ler os jornais e a respirar a doce atmosfera do Estio plácido. O Black, sendo bichano, está sempre disposto à brincadeira e, por isso, entrei na festa porque a aragem fresca que corria a isso convidava. Em breve tenho figos maduros. Vou tentar arranjar paciência para apanhar um quilo de amoras e fazer pela primeira vez compota. Os cachos pendem com tanto fruto negro, mas não deixam que eu deslize as mãos para os colher. Terá que ser por etapas, um tanto cada dia. Também o diospireiro não pode com tanto fruto. Nunca vi nada assim: os ramos carregados quase tocam o chão. Resta as maçãs que eu aceno com ternura porque é quase certo que pouco comerei, sendo os pássaros esfomeados que as ingerem. Outra curiosidade: este ano não há sombra de um só mosquito e mesmo moscas e formigas quase não se avistam. Só as abelhas continuam a preferir este espaço abençoado por Deus. De vez em quando ferram-me, mas eu sorrio-lhes em admiração pela sua sumidade minúscula que não admite granduras. Que mais? Vou nadar meia hora. Antes gostava de falar de Nero e Santo Agostinho que foi obrigado a prisão domiciliária e (talvez) à morte pelo imperador. Em 64 d.C. o apóstolo devia estar em Roma e (talvez) tivesse sido presente a Nero Cláudio César que o mandou assassinar. Agostinho desaparece misteriosamente por essa altura e até hoje não foi encontrada a sua sepultura. Suetónio e Tácito, naturalmente, não falam disso. Pelo menos não recordo qualquer referência.  


segunda-feira, agosto 02, 2021

Segunda, 2.

“Une vie dans laquelle il n´y a pas de solitude est une vie sans force et sans intérêt. En somme, la solitude est le lieu le moins solitaire qui soit.” Julien Green in Journal intégral. 

         - As pessoas dizem-me: você escreve muito bem. Eu sei porque dizem elas esta inverdade: talvez por não tropeçarem no que lêem. Desde o primeiro romance – A Ruptura – prémio do Diário Popular então dirigido por Maria Estela Guedes, oiço dizer que tudo o que escrevo se lê sem dificuldade. O que os leitores ignoram, é que atrás das palavras alinhadas para parecerem verdadeiras e, como direi, deslizarem como água fresca, estão horas de esforço a escolher, a limar, a procurar, a imaginar, a aperfeiçoar um livro ou um simples texto. Sempre tive esta preocupação – a do leitor não ter de esbarrar ou vacilar ou demorar-se em excesso em algum momento do trecho. 

         - Um ano depois das explosões no Líbano, um grupo uns 200 jovens liderados por outro jovem em cadeira de rodas, levantou o hospital central e bairros inteiros de Beirute. O Governo de corruptos não deu um tostão; são grandes empresas, países democráticos como a Suíça e muitos privados que ajudam como podem, enviando dinheiro para o exército de solidários homens e mulheres que Deus, instalando-se nos seus corações, os leva a fazer do cansaço força, da desilusão graça, uma obra surpreendente de fraternidade e amor ao próximo. 

         - Não larguei este presbitério. De manhã atirei-me à poda de uma imponente Cyca muito maltratada pelo inverno rigoroso deste ano. Depois revi dez páginas da primeira parte do Matricida, fiz uma sopa, o almoço, a sesta e de seguida a revisão do historiador latino Suetónio sobre Nero. Pelas quatro e meia fui nadar. Agora, 18,04, vou abandonar-me até ao jantar ao dolce far niente. À noite não quero perder um programa sobre a construção da Rive Gauche no reinado de Napoleão III e do seu prefeito Georges-Eugène Haussmann. Conheço o suficiente, mas estou sempre pronto a acrescentar mais qualquer coisa. Amanhã irei a Lisboa.   


domingo, agosto 01, 2021

Domingo, 1 de Agosto. 

Assisti com imenso agrado a algumas provas olímpicas vindas do Japão. O esforço que os desportistas empreendem para chegar ao nível que se lhes é exigido, é quase inumano. Daí que, como nos jogos da antiga Grécia, eles se transformem em deuses. A sua força é a sua fragilidade, as lágrimas de derrota ou de vitória que nos dilaceram o coração, são as medalhas de uma vida, que digo eu, missionária, ao serviço de uma arte maior. Nada a ver com aquela indústria de exploração humana que é o futebol. Os  desportistas de salto com vara e cem metros pista, nuns segundos encaixam nos seus corações fatigados as alegrias e tristezas de anos e anos de trabalho dedicado e duro. No judo gostei de Jorge Fonseca, no salto de Mamona e daquela frágil rapariga da Venezuela que explode quando sabe que fez história ao sagrar-se campeã do mundo na sua especialidade. É um universo maravilhoso aquele, porque a glorificação tem laivos místicos e a dedicação um mergulho na mais transbordante solidão. 

         - A China, ante o olhar indiferente da maior parte do mundo, prossegue o seu caminho imperialista. Para o conseguir, não olha a meios e agora até com os assassinos déspotas do Afeganistão se quer unir. A Xi Xiping ping ping não lhe bastou alterar a Constituição – como, de resto, fez Putin – para permanecer um líder vitalício; quer submeter à sua ditadura o maior número de nações livres. 

         - “É melhor estar saudável sozinho do que doente acompanhado.” Esta pode parecer um axioma à Helder de Sousa, mas não é – pertence ao psicólogo norte-americano Phil McCraw e vem hoje no “Escrito na Pedra” do Público.   

         - Domingo dominical pleno de paz e serenidade. Fiz uma quantidade de trabalhos que me satisfizeram. Fantasiei e sonhei, mas banhado da doce calma inabitual.