quarta-feira, setembro 23, 2026

Quarta, 23. 

Faleceu Jorge Palma. Cruzei-me com ele em duas ou três ocasiões, mas foi no Casino Estoril onde actou algumas vezes e eu tinha mesa no então chamado salão Preto e Prata, oferecida por Joaquim Couto, director, que restou daquele mundo empresarial, até hoje meu amigo, malgrado o tempo imenso que passávamos a esgrimir os textos que eu criava não só para o Casino como para outras unidades da empresa Estoril-Sol. Recordo-me de uma noite, Jorge Palma, acabado o espectáculo, os espectadores que enchiam a sala a debandar apressados para casa, as luzes a apagarem-se e o artista, só, sentado ao piano, prosseguia o show como se não soubesse onde estava, mergulhado num mundo estranho para nós, mas poderoso para ele, onde sons e emoções se misturavam para dar vida à personagem frágil, talvez um pouco tocada pelo álcool, que se esquecera que a madrugada não tardava e a música não conhecia dias nem noites, luz que vagueia por lugares que a imaginação impõe e a melodia persegue. Foi necessário que a dada altura, os funcionários o viessem retirar do piano, literalmente, e o levassem para os bastidores onde decerto ele ainda balbuciava uma canção e os poucos espectadores que com ele ficaram, eu entre eles, o aplaudissem até que desapareceu ao fundo do palco, figura magra vestida de escuro, provavelmente perdida algures entre o sonho e a realidade, a fantasia e a magia da música que só ele tinha o dom de criar, que só ele reinventava fundindo-a com a vida. O que mais apreciava nele, a par da sua música simples e complexa, que como um retrato permanece, era a voragem da liberdade, o ser de uma humanidade sem mácula, vivendo longe da mediocridade dos “artistas” de galinheiro que hoje proliferam como os “especialistas”, os “comentadores”, os porta-vozes deste e daquele partido.  

         - Hoje no metro, a dada altura, entra uma negra de largas ancas e mamas equilibradas, bem feitas, rijas e senta-se dois lugares adiante daquele onde eu vou instalado. Traz consigo uma bolsa e quando se ajusta ao banco, pendura-a ao ombro esquerdo enquanto com a mão direita fala ao telemóvel. Naquele movimento, não dá por mama onde assenta a mala, saltar do exíguo decote. Os mirones em volta, de sorrisinho maroto, não tiravam o olho... da mala. 

         - O Outono chegou, mas o Verão impôs-se com temperaturas que nalguns sítios chegaram aos 37 graus centígrados.