quinta-feira, agosto 21, 2025

Quinta, 21.

Nunca me deu tanto prazer pagar a alguém pelo seu trabalho. Foi caro, mas valeu a pena. Ele veio por indicação do Sr. Correia que aqui todos os anos grada a terra. Terá setenta anos, mas o vigor, a honestidade, a simbiose entre eficácia e conhecimento é perfeita. Disse-me que já tivera dois enfartes, que anda vigiado, que arranjou uma rapariga com quem se entende muito bem, que não me atormente eu pela força e rapidez da entrega ao trabalho. Aconselhei-o a ser mais calmo, menos rápido. Riu-se. Mais uma vez digo: quando não tiver meios para trazer a quinta limpa e bela, entrego-a aos americanos por uma pipa de massa. 

         - Há um autor que descobri este ano e me enche de prazer lê-lo não só pelo que diz, sobretudo pela profundidade e simplicidade do que pensa: Robert Walser. Suíço de nascimento o que por si só seria um aborrecimento e me levaria a pô-lo de parte, mas porque através da sua obra e mormente os últimos anos passados num hospício, em Herisau, por depressão e esquizofrenia, interiorizou a ideia do momento como consubstanciação do instante. A vida feita de pequenos nadas, de recordações simples, o seu horror ao grande, a todos os que se tomam por importantes, quando na realidade não têm importância absolutamente nenhuma. 

A registar: 

“Só através dos erros se adquire traços de carácter interessantes... A maldade existe para criar contrastes e trazer vida ao mundo...”

“Nenhum escritor está obrigado à perfeição. Admiremo-lo com as suas fraquezas e as suas idiossincrasias.”

“As naturezas criativas são avessas à especulação. Isso distingue-as dos especuladores.”

         - Quanto vale uma vida? Nada. Em França, um tipo habitué da Internet, foi morto com torturas, ofensas, humilhações. A assistir ao suplício consentido pelo infeliz, estiveram milhares sentados diante dos seus computadores. Ante isto, que dizer? Abre-se-nos um vazio imenso onde a morte parece dar sentido ao destino de uma vida. 


quarta-feira, agosto 20, 2025

Quarta, 20.

Abrir uma grande clareira de vazio e preenchê-la com a serenidade que traz o labor minucioso do pensamento. Foi o que fiz ontem. Não tendo deixado este espaço, sentei-me no salão e entreguei-me à leitura como se estivesse a soletrar pela primeira vez cada palavra. Momento mágico, assaz misterioso, que me envolveu todo o dia até à chegada da noite. Em sucessivas golfadas de silêncio e entrega, foi-me possível saudar a vida como bênção divina. 

         - Sem me alhear do que à minha volta se passa e do que vai pelo mundo. Aqui é a via-sacra dos fogos, a dor dos aflitos, a perda dos entes queridos, a paisagem varrida pela desolação, o aproveitamento assassino que de tudo isto fazem os partidos. Loas dou ao actual secretário-geral do PS que se posicionou contra o debate de urgência na Assembleia sobre os incêndios pedido pelo Chega, PCP e não sei mais quem, talvez o BE mas a menina está de férias e, graças a Deus, desapareceu do mapa (a dos cãezinhos, com aquela voz de oração, já voltou), por não querer participar na “chicana política”, garantindo que o seu partido não fará ao primeiro-ministro o que Montenegro fez a António Costa. O toque é inevitável. Bref

         - Enquanto uma embaixada de gente ilustre (ou como tal se julgam) europeia foi apoiar Volodymyr Zelensky na reunião para o fim da guerra na Ucrânia realizada anteontem na Casa Branca, espécie de endeusamento do enfatuado Trump, Putin, mais esperto e seguro, bombardeou várias cidades e Kiev. Eu sou dos que não espero nada de proveitoso destes encontros. O tirano russo, sabe que cala e acalma o actual Presidente dos EUA, oferecendo-lhe negócios chorudos – é simples e ganham os dois. 

         - Fui num pé e vim noutro. Às dez da manhã chegava a Sete Rios e por volta do meio-dia e meia estava em casa. Fui ao Bangladesch buscar as almofadas que entreguei à equipa de costureiros para fazer. Já somos velhos amigos e quando me despedi apertei a mão ao meu artista preferido - o que fez o toldo. Tive de me entender com ele em inglês o que o surpreendeu. “Você falhar inglês!” 

         - Ontem foi o primeiro dia que mergulhei na piscina de água cristalina de um azul magnífico. Não sei se ela se vai manter assim perto do azul do céu. Os skymers não me parece que estejam a funcionar correctamente. Seja como foi, a sensação de voltar a nadar, nu, sob o olhar terno das nuvens e o calor do Sol, incentivou-me a aceitar a vida sob o manto enérgico que espraie bafagens de felicidade e saúde. 


segunda-feira, agosto 18, 2025

Segunda, 18.

A tertúlia da Brasileira decaiu imenso desde os tempos áureos de antes do 25 de Abril de 1974 e nos vinte anos posteriores. Hoje não existe à parte dois ou três tipos que não podem passar um dia sem lá ir, entretidos a repetir discursos, lengalengas de caris que eles chamam de esquerda (entenda-se PCP) do mais arcaico que se possa imaginar e sem suporte ideológico e muito menos capaz de aceitar a opinião contrária. Um exemplo. Falavam dos fogos que assolam o país e tantos prejuízos têm causado e aflições a populações inteiras, remetendo para o actual Governo toda a responsabilidade, “porque Luís Montenegro não fez como António Costa que esteve ao leme nos períodos mais difíceis”. (Abro um parênteses convidando o leitor a ler o que escrevi, Sábado 16.) Disse que o camarada António Costa fez tão melhor nos fogos de 2017, em Pedrogão,  que 66 pessoas morreram queimadas e centenas ficaram feridas. Resposta: “Mas isso foi outro fogo.” E lá continuaram a defender o patrão. Então perguntei: “Quer dizer que há fogos maus para Costa e bons para Montenegro?” É esta qualidade de conversa que ali se desfruta. Não quero consumir o meu precioso tempo neste roçago inútil, daí que tenha espaçado e muito as idas ao Chiado. 


domingo, agosto 17, 2025

Domingo, 17.

Enfim, tenho a piscina cheia. Ficou engraçada com aquelas manchas de tinta azul ao lado de pedaços de outras sem tinta quase nenhuma, produzindo sob a água que o sol dinamiza em bruxuleantes brilhos que nunca param quietos, um efeito risível que não se compadece do falso surrealista que ousou pintá-la. Não me atirei ao primeiro mergulho, porque a água vinda de 80 metros de profundidade, era além de cristalina fria como ó caraças. Mas adverti a Mai Hong que chegará esta semana, que a pode usar a seu bel-prazer. 

         - O Corte Inglês já não é aquele sítio que António Barreto aquando da sua inauguração disse ser “o único lugar civilizado” em Lisboa. A degradação surpreende os nossos olhos e a vulgaridade no trato está instalada, fazendo de um lugar antes atencioso, uma grande barraca onde tudo é caro sob o aspecto de chique. Em Julho, cobraram-me em duplicado o montante das minhas despesas – estou até hoje à espera que me reembolsem do abuso. Desde então, e-mail vai, e-mail vem e o dinheiro continua do seu lado. Disse-lhes: “Às catacumbas (secção de pagamentos) nunca mais irei, porque não estou para ser atendido por um batalhão de gente sem preparação nem educação.”  

         - A grafia habitual de Valter Hugo Mãe, encontro-a com frequência em Machado de Assis, como nesta passagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “No dia seguinte, antes de me receitar nada... (pág. 59)” 

         - Nilton esteve aí ontem a reparar a torneira da mangueira grande que leva a água à piscina. Gosto imenso dele e da mulher, e apanhei para lhes oferecer uma taça de figos. Sentaram-se no lounge a comê-los, a conversa foi desfiando ao encontro do nada onde tudo renasce e se constitui matéria de vida. Disse-lhe: “Você admira tanto Bolsonaro que até quando se exalta tem os mesmos esgares.” Nunca o tinha visto rir com tanta vontade. Ele pertence à direita dos pobres que o apoiam, provando às esquerdas que não são donas exclusivas da verdade dos mais necessitados. Ou dito de outro modo: os mais necessitados não são necessariamente de esquerda. 


sábado, agosto 16, 2025

Sábado, 16.

Suponho que nada de importante teríamos de esperar daqueles dois trafulhas não fora os negócios que um e outro sempre desenvolveram ao longo dos anos. Putin e Trump são feitos da mesma matéria e ambos carregam a palmatória que rebaixa quem lhes faz frente. Um vivendo e mantendo um regime ditatorial, tem mais peso como prova a razia de mortes dos seus adversários mais próximos; o outro, impedido pelas leis democráticas, vai a pouco e pouco servindo-se da régua do amigalhaço para pôr na ordem quem lhe faz frente. Aos dois interessam os seus interesses pessoais. No panorama mundial, o único que se destaca em dignidade, mérito e competência, é Zelensky. Tudo o resto é arraia miúda sem préstimo. 

         - Por cá, temos de considerar que os fogos são normais. Servem um infindável mundo de interesses e atiram para a ribalta toda a mediocridade de políticos sem categoria nenhuma e até são espectáculo para televisões sem tema que preencha as horas infindáveis dos telejornais. Apreciei aquele autarca que em aflição disse o que o povo semeia por todo o lado: que isto é uma merda de gente. Já morreu uma pessoa, dezenas viram os seus haveres reduzidos a cinzas, a paisagem transformou-se num torrão preto, mas isso é normal e não deve tirar o sono nem o direito a férias a nenhum político. Que merda de país, hein! 


sexta-feira, agosto 15, 2025

Sexta, 15.

Esta manhã demorei-me uma boa hora na esplanada da Brasileira. Combinara com o CR (não é esse que nada tem a ver comigo nem me interessa minimamente salvo no apego ao trabalho persistente) que, como bom africano, ao cabo de sessenta minutos ainda não tinha chegado. Não se pode contar muito com estes buliçosos de mente sempre perdida em África, inadaptados por condição, perdidos entre europeus que nada têm a ver com eles. No entanto, correndo uma aragem fresca depois dos dias tórridos que temos vivido sentia-me bem ali, um entre os demais, estrangeiros naquele pedaço de chão que Fernando Pessoa sustenta em constante companhia para uma foto de passagem tirada à maneira. Ele que pouco frequentou aquele café, um século depois é uma espécie de deidade onde se sentam à sua mesa os ignorantes da imensa e preciosa obra que ele nos deixou. A mim, enquanto expandia o olhar sobre a multidão de pacóvios vindos das quatro partes do mundo em busca do sol e praia, tropeçando naquela figura esfíngica de chapéu e óculos, perna traçada e olhar compenetrado, disse para mim feliz pela manhã desocupada e fresca, limpa e solta: “Ai que prazer não cumprir um deve, Ter um livro para ler e não o fazer, Ler é maçada, Estudar é nada, O sol doura sem literatura” ... e por aí adiante, a cabeça largada ao encontro do poeta ali, só, a refazer os poemas cozidos na pele de cada passante... 


quarta-feira, agosto 13, 2025

Quarta, 13.

A China, bem vistas as coisas, não acrescenta nada com os seus robôs humanoides ao que os judeus, em 1850, criaram com o seu Golem. O impulsionador da figura nocturna, foi  o rabi Löw, que viveu em Praga por volta da mesma época. Quando cheguei a Praga, logo me dirigi à zona judaica – cemitério, antiga sinagoga, sinagoga de Pinchas e câmara israelita – uma vasta zona por onde deambulei várias horas e onde deixei numa incrustação mural no antigo cemitério, um papel com duas palavras magoadas pelo sofrimento e morte causados pelo Holocausto. Este Golem talvez tenha origem no Talmude e daí alguns rabinos próximos de Deus terem essa capacidade de criar uma tal figura em grande parte justiceira. O Golem do ilustre rabi Low ou Loew, era uma figura como qualquer outra, com um único senão que mais tarde veio a ser reconhecido como conveniente: não falava (aqui os chineses ganham aos pontos). Praga borbulhava de judeus, as cenas tidas por indecentes, nomeadamente, as sexuais obrigaram o rabi a tomar medidas severas. Um dia ele diz ao Golem:“Sabe que nós te fizemos com um pouco de terra. O teu dever é proteger os judeus de persecução. Tu te chamarás José e habitarás no Rabinato. Tu, José, cumprirás as minhas ordens. Irás aonde te ordenar, seja qual for o lugar e o instante, no fogo ou na água, mesmo que te diga para saltares do telhado ou entrares no mais profundo oceano.” A comparação com os humanoides chineses, talvez não seja de todo descabida. 

         - Não sei que diga. Uma mulher com problemas num rim, acaba de dar à luz na... rua! Falou para o Saúde 24 e foi aconselhada a meter-se no seu carro e ir ao hospital mais próximo. Esta gravidade e descrença na ministra e no SNS, calha bem às oposições que se estão nas tintas para a parturiente. Tantas cenas canalhas aconteceram no governo do que vive feliz em Bruxelas, mas a memória colectiva é fortemente combatida de modo a que só o presente interesse. Dito isto, o estado a que o SNS chegou, não é só culpa deste executivo ou do anterior, é um trabalho paciente de descrédito dos sindicatos, associações, partidos e interesses particulares do sector da saúde. Este e as companhias seguradoras, riem-se felizes. 

         - Aquela lei idiota que o homem de Bruxelas criou chamada auto-declaração por doença, permitiu ao trabalhador abusar a um ponto que hoje, patrões e médicos, pedem a este Governo que a altere. No que se vê, é que os doentes só tinham doença aos fins-de-semanas e pontes. Como é que um dito socialista, com largo tempo em cargos públicos, inclusive autarquias, desconhece deste modo o povo português! Os patrões foram prejudicados com uma lei que não conhece a realidade e, à boa maneira socialista, obrigados a pagar a quem não trabalha. A verdade é esta: somos um país de irresponsáveis. 

         - Muito calor. Só se pode pôr a cabeça de fora, depois das cinco. 


terça-feira, agosto 12, 2025

Terça, 12.

Para se salvar dos crimes cometidos na Faixa de Gaza e da corrupção que aguarda sentença e tem sido sucessivamente adiada, Benjamim Netanyahu não se importa de destruir a benevolência que o mundo tem tido com o massacre e humilhação de há meio século ao povo palestiniano. É um mentiroso compulsivo, tudo faz para se salvar e manter no poder, mesmo que para tanto tenha de destruir o belo território com varanda para o mar, que os capitalistas americanos e árabes tanto anseiam para gozar. Conseguiu que a maior parte das nações do mundo, paulatinamente, venham a reconhecer o Estado da Palestina. Ontem, matou mais uns quantos jornalistas da Al-Jazeera, assim como toda a equipa da emissora na Faixa de Gaza. O homem alucinou, não vê nem ouve os próprios israelitas a pedirem o fim da guerra. É um monstro igual aquele que o povo americano elegeu para presidente. A propósito deste. Anteontem, o canal 2 da televisão francesa, emitiu um programa que prova o envolvimento de Trump em vários domínios com a Rússia. Não é de agora. Já o pai dele teve negócios com o poder em Moscovo. 

         - Ontem passei na Brasileira. Pensava que o tema seria o episódio televisivo incluído no programa Cafés Históricos, mas não. Virgílio, de quando em vez, perguntava: “De quem se vai hoje falar mal?” Com razão. Ali ninguém se salva, às vezes até os presentes são chamuscados, mas sobretudo os ausentes saem destruídos. Em cada um daqueles artistas há um génio por despontar, um imortal a atravessar a bruma espessa da eternidade.  

         - A mim convêm-me às mil maravilhas esta frase de Fernando Pessoa: “Ser solitário para ser sincero e puro na alma. O homem ente colectivo – é um ser corrupto.”    

          - A minha conta de electricidade não pára de grimpar. Quem esfrega as mãos de contentamento é o patrão Xi Jinping ping ping. O capitalismo de Estado, por aquelas bandas, está nos píncaros. O ditador que matou milhares de pobres coitados, Mau Tsé-Tung, já deve ter dado várias voltas no caixão. 

         - A pouco e pouco as coisas vão-se resolvendo. Esta manhã fui com o carro à inspecção e veio de lá com o diploma de honra. 


domingo, agosto 10, 2025

Domingo, 10.

Putin não deve deixar a sua fortaleza por nada com medo de ser preso pelos crimes que tem praticado na Ucrânia. Daí Trump ter anunciado para sexta-feira um encontro com o ditador no Alasca. Vão entender-se sobre o fim da guerra na Ucrânia, cada um sentado no trono omnipotente que permite excluir a vítima principal, Zelensky, e entenderem-se segundo os seus interesses. Pensam que os dois são os senhores do mundo. Um, qual imperador, no fito de reunir o império perdido; o outro montado num ego inchado de maledicências que pretende encobrir com a chama olímpica do Prémio Nobel da Paz. O que preside aos destinos da América, é um pobre diabo que crê nas suas faculdades potenciadas na riqueza, no dinheiro que tudo comanda e subverte, não se dando conta da esperteza cínica e viperina do seu homólogo. Este, não obstante a marcação do encontro, prossegue os bombardeamentos como aconteceu a noite passada, provando que quer ganhar tempo e distrair o seu interlocutor. A Europa que devia estar atenta, está a gozar férias nos destinos paradisíacos onde não se pensa se não em sopas e descanso. 

         - A força da ideologia no governo da nação é tão forte, que a Justiça impera sob o jugo dos dois maiores partidos da clássica nomenclatura nacional: PSD e PS. O projecto-lei para a imigração, devia ser observado unicamente à luz dos códigos jurídicos e não da disputa ridícula entre o Presidente e o vice-Presidente do Tribunal Constitucional. Dizer que a decisão do TC quanto é sorte dos imigrantes é humana, é carregar sobre a interpretação da lei valores que lhe são implícitos e não precisam do cartão partidário para nada. 


sábado, agosto 09, 2025

Sábado, 9.

Se houve um extenso dia de trabalho de toda a ordem que terminou no fundo da piscina pelas nove da noite, foi quinta-feira. Não vou dizer que a pintura da dita cuja esteja uma maravilha, não está. Todavia, no estado de cansaço e dores de costas em que o fiz, mereço dizer a mim mesmo que és um valentão. “Helder, és um bravo rapaz!” Depois, no dia seguinte, fui observar a obra do artista e foi a grande desilusão. A piscina está transformada numa obra surrealista com aquelas manchas de azul dadas sem simetria nem sentido do traço. Tapei os estrados do tempo, as manchas dos ácaros e lodos, e transformei o tanque numa bandeira sem território nem vassalagem. Agora está a secar para daqui a oito dias poder enchê-la e mergulhar como quem se afunda num espaço de ninguém. 

         - É evidente que Benjamim Netanyahu tem o apoio que lhe permite abastecer-se de toda a Faixa de Gaza. Mesmo que o mundo, os israelitas, o seu próprio exército estejam contra, fala mais forte a força da cumplicidade, do compadrio, da corrupção e da ambição. Cada vez dou mais razão a Alexandra Lucas Coelho quando o ano passado disse que “Israel acabou. O futuro é da Palestina.” Eu tenho uma profunda simpatia pelo povo palestiniano. Um povo amachucado, humilhado, sem pátria e muitas vezes sem chão, que durante mais de cinquenta anos tudo suportou às mãos de governantes criminosos, que sempre o quiseram escorraçar da sua pátria, com a conivência da União Europeia, de alguns Estados árabes e da América. Para toda esta gente, o povo palestino não passa de um monte de dejectos que é preciso enterrar. 

         - Até agora, 11,00 horas, não se conhece se Putin abandonou os bombardeamentos à Ucrânia tal como lhe impôs o cómico Trump. É caso para dizer, que o ditador russo tem o peixe autocrata na mão. 


quinta-feira, agosto 07, 2025

Quinta, 7.

São dilacerantes as imagens que continuam a chegar da Faixa de Gaza. Todos os dias morrem crianças e adolescentes à fome sem que isso toque o coração dos que se dizem crentes em Israel. O deus da ceita religiosa que apoia Netanyahu não se compadece. Contudo, há que assacar também responsabilidades àqueles que fornecem as armas ao Governo ortodoxo. No interior da classe governativa assim como no Exército, há quem pense que a ideia de Israel em se instalar no território que não lhe pertence e cuja ambição levou ao genocídio dos palestinianos, não é bem vinda. Honra seja feita ao primeiro-ministro esloveno, Robert Golob, o primeiro entre os 27 países da UE, a embargar armas a Israel.  Este ao menos não é cúmplice do Holocausto palestino. 

         - Ontem, no programa Cafés Históricos da Europa realizado pela SIC, tocou a Portugal. A Brasileira esteve em destaque, com o grupo dos tertulianos chefiados pelo António Carmo e para o qual eu havia sido convidado e recusei. Tenho acompanhado  a série, do meu ponto de vista de grande qualidade, mas que desceu um tanto porque ninguém atendeu com préstimos culturais e valores históricos, ao reduto “intelectual” daquela instituição. O que se ouviu foram banalidades, e nada se disse do passado do café como refúgio e impulso para a liberdade de que hoje beneficiamos. Centrar a Brasileira em Pessoa só porque Lagoa Henriques esculpiu a imagem do Poeta sentado à mesa de café, é muito pouco e merecia bem mais. De resto, basta comparar a intervenção de intelectuais e artistas noutras paragens da Europa por onde o programa se deteve, para que nem comparação possa existir. Hoje o estabelecimento é uma máquina de fazer dinheiro que o senhor Miguel (o único que disse coisas acertadas) quis honrar sem, contudo, o conseguir. É sobre os costados de tantos artistas e intelectuais, jornalistas e pessoas simples, que ali esgrimiram a revolta e a indignação a um poder absoluto que reinou durante cinquenta anos, que hoje a sua memória fornece o lucro fabuloso que os estrangeiros ignorantes ali deixam. 

         - Levantei-me cedo com o intuito de apagar as manchas negras que desfeiam a piscina. Acontece, porém, que o dia acordou cinzento, e grandes manchas de água impediram o trabalho. Esperei que o Sol rompesse o que aconteceu por volta do meio dia altura impossível para começar a minha tarefa.  Fá-la-ei daqui a bocado quando o calor descer.  


quarta-feira, agosto 06, 2025

Quarta, 6.

Ontem o dia e a noite foram insuportáveis. Foi para mim o segundo mais quente e sufocante desta série de dias de altas temperaturas. Apesar de dormir de janela aberta, nem por isso tive um sono calmo e duradouro. 

          - Oleg veio trazer-me a caleche. É mais um ucraniano honesto e competente a somar aos muitos que por aqui têm passado com particular saudade pelo Roman que Deus o tenha no eterno descanso. Quanto lhe devo, perguntei. Nada. Em que mundo vivo eu? 

         - Como se previa, o autócrata desprezível Netanyahu, amantizado com Trump e muitos outros políticos hipócritas, vai expandir o seu naco de terra para a Faixa de Gaza, numa apropriação criminosa que espero os países decentes se oponham. Tal como tem vindo a fazer na Cisjordânia, aí irão nascer colonatos de luxo à beira-mar para americanos ricos, seguindo a cartilha do rei do mundo. 

         - Há outro criminoso que se quer apoderar de território ucraniano – Vladimir Putin. O prazo dado pelo soba americano para entrar em negociações de paz, termina sexta-feira se o dito cujo cumprir a palavra o que não é certo, nem tem sido. Perante a incógnita, o exército russo devasta zonas importantes de forma a ficar com o quinhão maior. Os oblates de  Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporijjia quer o ditador anexar à Rússia. Se tal acontecer ou o rufia ceder, é uma derrota para um povo digno que se soube bater pela defesa e integridade da sua pátria. Espero, também aqui, que o mundo se una contra esta enfiada de espúrios que hoje exercem o poder. 

         - Recorda-se hoje os 80 anos do lançamento das primeiras bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui. Há quem tente desculpar os seus autores atendendo à personalidade e política de Josef Estaline. Nesse grupo não me encontro eu, porque não esqueço os 240 mil japoneses reduzidos a cinzas e quem se atreveu a tamanho horror. O Japão, esse país onde o bom-senso impera sobre o assunto, tem sido um exemplo de honorabilidade para a Comunidade Internacional e a hipocrisia dos EUA no tocante à difusão das armas nucleares. “A base para alcançar um mundo sem armas nucleares é a compreensão correta do facto da bomba atómica”, disse o primeiro-ministro do Japão, Shigeru Ishiba, acrescentando: “Liderar a comunidade internacional para alcançar um mundo sem armas nucleares é a missão do Japão como único país que sofreu a bomba atómica na guerra e que aplica os três princípios não nucleares” a saber: não produzir, não possuir e não permitir armas nucleares no seu território. 


terça-feira, agosto 05, 2025

Terça, 5.

O HAMAS divulgou vídeos dos reféns que retém desde 7 de outubro de 2023. Imagens impressionantes, que nos revoltam, nos fazem descrer dos homens e nos põem a pensar até onde pode ir a banalidade do ódio e o desinteresse pela vida humana. A verdade é que elas são tão assustadoras e insuportáveis, como as que vemos do lado oposto, com crianças a morrer de fome, cadáveres espalhados sob e sobre os escombros das vilas e cidades destruídas pelo ódio de Netanyahu e seus companheiros. Não anoto isto com a ligeireza de quem se exprime e fica feito, mas de quem sofre e tem transtornos nocturnos, desistências psíquicas, ante o drama de uma região, de um povo inocente, que sempre fora reduzido, humilhado, espezinhado pela soberba dos israelitas como se fosse um montão de gado que para ali está. Aliás, ainda ontem, preto no branco, o primeiro-ministro mostrou ao que vem ao dizer que controlaria toda a Faixa de Gaza, apropriando-se de um lugar que o idiota da América quer transformar num sítio para endinheirados passarem o fim de vida e férias douradas. É este desprezo que me revolta e devia revoltar qualquer ser humano.  

         - Ao que diz o Púbico online, cerca de 42 mil hectares foram consumidos pelo fogo. Os incêndios não dão descanso a bombeiros e populações que habitam em vilas e aldeias perto das serras. São o flagelo sazonal que leva Portugal a abrir noticiários todos os anos nas televisões estrangeiras e o retrato do que acontecera em anos precedentes. Todos nós já vimos este cenário, ele é o registo da incompetência dos sucessivos governos e das autarquias que não actuam contra os criminosos que ateiam os fogos e as indústrias que esfregam as mãos de contentamento com as madeiras que dai resultam. O território, anos após planos e discussões continua igual, sem fiscalização nem cumprimento dos estudos feitos para prevenir e evitar esta desgraça. Uma boa parte dos incêndios este ano como em anos anteriores, são fogos postos. É isto Portugal.  

         - Um mal nunca vem só. Depois do descarrilamento das minhas finanças, eis agora o carro que geme em vários pontos do sistema. O Oleg veio buscá-lo esta manhã para o pôr sólido de forma a passar na inspecção. Estou, pois, apeado e com um programa carregado.

         - Um pormenor sem importância nenhuma. Pedro Nuno Santos, diz que não renuncia “para já” ao lugar de deputado. Pudera! Foi a política que lhe permitiu começar a ganhar um salario decente e foi ela que lhe abriu a propriedade de várias casas (sem falar no apetite por carros de alta cilindrada). Ora! Então o homem é ou não é socialista?! 


domingo, agosto 03, 2025

Domingo, 3.

Eu não aceito defender Israel porque um punhado de terroristas, que Netanyahu fingiu durante muitos anos ignorar, atacou barbaramente umas centenas de raparigas e rapazes que se divertiam numa festa e os fez reféns volvidos dois anos. Contra eles, matou Netanyahu, Trump, a UE, e outros mais para cima de 56 mil palestinianos, parte dos quais crianças, muitas destas à fome. Estou em parte com António Barreto quando afirma: “O Governo de Israel tem todo o direito a defender a sua existência, cabalmente legalizada há décadas, mas não tem o direito de massacrar outros na maneira como está a fazer em Gaza e se prepara para fazer na Cisjordânia. Tem o direito de atacar o Hamas e o Hezbollah, assim como os governos da região que os apoiam, mas não tem o direito de massacrar um povo. O Governo de Israel raríssima democracia (democracia? Registemos a observação) naquela região do mundo, não tinha o direito de infligir esta derrota ao seu povo e à democracia do seu Estado.” 

         - Ontem e hoje, sob calor tórrido, na hora em que ele mais queima, andei lá fora a dar serventia ao Nilton. Decide, não sem me queixar, esvaziar a piscina depois de ter gastado para cima de cem euros em produtos que não podiam ter qualquer feito sobre a água atendendo o seu estado de dois anos parada e às altas temperaturas. Aceitei a oferta do Nilton para limpar as paredes e o fundo e, nesse propósito, com duas bombas conseguiu-se quase despejar o tanque. Agora, 14,30, espero por ele e pela apaixonada que sempre o acompanha. O fundo é um lodaçal que vai ser aspirado pelo ralo para o exterior. Todavia, ao olhar as paredes e o lado baixo da construção, verifico que há sítios onde a tinta desapareceu e começo a cogitar se, ante a beleza e o esforço do conjunto, não devo retocar aqueles espaços. Mas esse trabalho, vou eu próprio fazê-lo. 

         - A expressão “qual é que é” está por todo o lado. Nas bocas dos ignorantes, dos ricos, dos ditos cultos, até dos professores, para não falar nas dos políticos, jornalistas, apresentadores, etc. etc..  

         - Há um crime hediondo que não é a primeira vez acontece no nosso país: a decapitação. Desta vez ocorreu entre dois imigrantes que se conheceram na Internet, um nigeriano, outro africano. Ambos estudavam em Portugal e aqui viviam há algum tempo. Foi marcado encontro. Logo o africano, de 34 anos, começou a seduzir o nigeriano de 27, que não esteve com meias medidas e avançou para ele decepando-lhe a cabeça com a faca da cozinha. Uns dias depois, foi entregá-la dentro de um saco de plástico no Hospital de S. José sem dizer que estava envolvido no caso. Ficou preso. 


sábado, agosto 02, 2025

Sábado, 2 de Agosto. 

Espera-me um mês agitado com entradas e saídas do hotel. Toda a azáfama que vier, acrescenta trabalho ao trabalho que por aqui nunca pára. Ando enredado em tanta coisa para resolver, para acudir, para terminar que ninguém faz ideia. Cheguei a uma fase da vida que devia ter direito ao descanso ou, pelo menos, a largos momentos de ripanço. No princípio, quando escolhi instar-me aqui, era para me dedicar na tranquilidade dos dias à escrita e ao silêncio seu companheiro. Sei agora, excluindo o silêncio, que nada disso fez consistência e se traduziu em realidade vivificadora. Vivo assaltado de preocupações, de urgências, disto e daquilo que é necessário fazer avançar. A ideia do campo idílico, nostálgico, adormecido na relva fresca, com os ocasos lânguidos, fixos no fundo do horizonte, emoldurados do brilho-sangue, foi uma imagem de apelo, é hoje um sinal de repelo. Há mais de um mês que Ana Boavida me espera, me pisca olho, me incentiva a ir ao seu encontro, jurando que tem ainda muito para me contar. Eu disfarço, faço-me bom, finjo não dar por ela no fio das horas, murmurante, cativadora, exaltada, desfiando o apetite e a excitação que há em mim e vai a pouco e pouco murchando, desligando-me da vida, a verdadeira, aquela que me leva para parte incerta, me desmultiplica, me seduz e prega na cruz do romance que faz que avança na minha cabeça doida, mas sem expressão nas palavras impressas na folha de papel do computador. Há, assim, uma divisão em mim. Estou parado, com a vida suspensa, no meio de duas margens: uma que me tem por cativo; outra cirandando num remoinho de ventos contrários me atira para o deserto interior como refúgio e santificação daquele que crê e não é atendido. Com efeito, não estou nem sou de lado nenhum. Vivo dividido entre dois mundos, como se sonhos fossem reais e os seres autênticos peças que se movem em torno de delírios consubstanciados em algo que só eu sei, do fundo do coração, quão amargamente sei. A criação é desassossego, é insatisfação, é viver sobre mundos que não descem dos céus nem sobem dos infernos. É como um micróbio que nasce e morre sem nunca verdadeiramente ter identidade. Depois, bem depois, em certos dias ou momentos, reinvento-me em cochilos de minutos, às vezes uma hora. Salto da atmosfera fechada, da incubação, e respiro, respiro o ar que as personagens, as palavras, os assomos de qualquer coisa, circunstância ou lugar traduzem, sintetizam-se em horas e dias de maturação e sobressaem da folha em branco como se algo humano tivesse nascido debaixo dos meus olhos cansados, num faixe de luz, cuja unidade é absoluta. Só então me chamo, me interrogo, faço o balanço que a solidão beatifica que escolhi por companheira, num enamoramento que venceu o tempo, a razia das horas e dos anos, e se precipitou no fio limpo e cristalino do silêncio.  


quinta-feira, julho 31, 2025

Quinta, 31.

Todo o Pacifico atingido por tremores de terra e ameaça de tsunamis. A Rússia sofreu um forte sismo á escala de 8,8, com repercussões para o Japão,  Havaí e a costa dos EUA. Trump não acredita nas alterações climatéricas, mas que a Terra vai dando sinais de saturação, ninguém pode negar. 

         - Por falar no bicho. O homem exerce uma política que surpreendeu todo o mundo. Ele, Netanyahu e Putin são um fiasco, todos perdem em todas as frentes. O Presidente dos EUA, usa a vingança sempre que pode e pode uma e outra vez. No caso do Canadá que recusou ser mais um apêndice da América e, inclusivamente, impulsionado por Macron vai juntar-se aos muitos países que se preparam para dar o seu apoio à criação do Estado da Palestina, acaba de receber a ameaça do especulador imobiliário sobre o acordo tarifário. Espero que ele faça como os chineses que devolveram a mesma taxa ao taxador. 

         - Por cá os fogos não dão tréguas e são notícia nos telejornais estrangeiros. Como todos os anos acontece, devem-se a pirómanos e ao desnorte do ordenamento do território, com os eucaliptais a impor os lucros do negócio do papel. Seja como for, as altas temperaturas que temos tido há quase um mês, são a ajuda a toda a sorte de tarados que por aí circulam, da avareza ao pobre coitado. 

         - Outro dia, ao passar a ferro uma camisa, lembrei-me daquela expressão “cair os parentes na lama” que se aplica aos que se julgam nobres e acham que isto é trabalho menor. Depois de a Piedade ter entrado na fragilidade da vida, muito do que ela fazia ficou para mim. Contudo, durante a operação, pensei no músico Avi Avital, de origem (julgo) israelita, intérprete sublime no manejo do bandolim e das suas interpretações e arranjos de Bach, que tem o hábito de passar a camisa que usa no espectáculo, momentos antes de entrar em cena. Ele é tão modesto que costuma dizer que o bandolim é um instrumento para amadores. Julgo que ele é mais exímio neste metier (o de engomar as camisas) que eu. 

         - Tempo tórrido. Fui à piscina quase sem desportistas. 



quarta-feira, julho 30, 2025

Quarta, 30.

As temperaturas aqui rondam ou ultrapassam os 40 graus centígrados. Por todo  país, nesta altura, como é habitual, são os incêndios que assustam as populações, destroem matas e florestas, levam habitações e animais, lançam o pavor. A maioria ocorrem no Norte e Alentejo. Os bombeiros não chegam para acudir às solicitações, todos ralham e ninguém tem razão. As oposições servem-se da desgraça para ganhar votos. 

         - Ontem almocei com um amigo economista que vive em Luanda. Durante mais de três horas de conversa. ele pôs-me ao corrente da dinâmica governamental em Angola. Que podridão, que indecência humana onde até o sexo se imiscui, que macacada! O povo merecia mais, quero dizer, melhor que a governação colonialista. Mas pelo que ouvi, a corrupção está instalada ao mais alto nível e não será a mudança de poder que irá restabelecer a democracia e trará a decência, a moral e a conduta política impolutas. Pelo o que me foi dito, a comitiva que acompanhou na recente estada do Presidente no nosso país, negou-se a regressar e instalou-se entre nós. O avião aterrou em Luanda quase vazio. 

         - Às vezes por lassidão, deixo-me estar sentado enfrente do televisor. Nesta altura, pelo que percebo, é época de escolher, trocar ou vender como se fazia antigamente com os escravos, jogadores de futebol. Parece uma brincadeira de crianças que habitam um mundo imaginário, que nós olhamos como se fosse distante deste onde cada vida é vivida na luta do quotidiano, os patacos à rasca para chegar ao fim do mês, por todo o lado as ameaças de desgoverno e de Trump a lançar a incerteza sobre os mercados e a economia. Este foi comprado por 60 milhões, aqueloutro vendido por 30 milhões, num ápice este que estava já quase a pertence a esta equipa, à ultima hora, vai para a Arábia Saudita ou Brasil, de onde acabou de chegar um outro tatuado e de brincos, o cabelo cortado como se fosse uma boina de pescador. Os milhões viram tostões, não têm qualquer valor, são números que enfeitam a vida de uns e outros, e no final são gastos com irresponsabilidade de quem sempre foi pobre e tem por destino muitas vezes voltar à pobreza. Como a grossa maioria destes escravos de luxo não possui formação para se governar e faz da vida que lhes sobra um festival de arrogância e despautério, o dinheiro não tem a dignidade de quem o ganha na contagem do esforço de uma vida. Daí a arrogância que vemos nesta classe privilegiada, que vive na dança do carro último modelo, acompanhado da amante de lenço ao pescoço com as pontas a sair da janela aberta, o sorriso descodificado de quem soube chegar ao papalvo que teve o azar de se apaixonar por ela. São os novos-ricos. Como estes que vivem por aqui em contentores de ferro e janelinhas com persianas de plástico, mas com carros topo de gama: Volvos, Mercedes, BMW e outros que são autênticos tronos que os levam de mãozinha a acenar às multidões que os adoram. Que triste vida, que triste país! 


segunda-feira, julho 28, 2025

Segunda, 28.

Um ilustre leitor do Público, de seu nome José Cavalheiro, em carta enviada ao jornal: “Gaza está a tornar-se a reincarnação de Auschwitz, cuja memória indelével julgava impossível ver reavivada desta forma.” 

         - Por falar no bicho. Há dias o Público trazia em letras gordas na capa frontal: “Ministério Público abriu cinco mil inquéritos por stalking (será que queria dizer perseguição?) em cinco anos.” No melhor pano cai a nódoa. 

         - O mundo não precisava de mais uma guerra. Mas como a ganância está ao rubro e há um Trump que pretende a todo o custo ganhar o Prémio Nobel da Paz, eis que mais um conflito deflagrou entre a Tailândia e o Camboja. Cento e trinta e tal mil tailandeses com casas perto das duas fronteiras já deixaram o país, uns quantos morreram. O ponto da discórdia, está no desacordo secular do traçado da fronteira com mais de 800 quilómetros. Donald Trump esfrega as mãos de contente, a hipótese do Nobel está mais perto. 

         - Por cá, país pequenino, gerido por políticos minúsculos, o tema é o mesmo que permitiu a vitória estrondosa de Trump e a derrota esmagadora dos democratas: o sexo, mais concretamente a identidade de género e a imposição do orgulho gay com a sigla modernizada de LGBTQIAPN+, isto é, gays, lésbicas, queer, bissexuais, transsexuais, intersexuais, assexuais, pansexuais e por aqui me fico porque a minha cabeça ficou desorientada com tanta modernice idiota. Melhor fora que todas e todos se limitassem a praticá-lo, em vez de o leiloarem nas ruas em gritinhos estridentes. Dizia-me uma antiga presidente da Câmara de Cascais a este propósito: “Ninguém tem que se imiscuir no que duas pessoas fazem dentro das quatro paredes do seu quarto.” As esquerdas, particularmente, o BE e o Livre, agarram-se a todo o custo para impor novas doutrinas de sexo e género, como se o ser humano decidisse ser (ou não) homo ou herero a partir dos ensinamentos da escola. Julien Green que nunca escondeu a sua homossexualidade, dizia que esta é um mistério. Se assim é, como podem os dirigentes partidários dar corpo a algo que desde a nascença está inscrito no cromossoma de cada um de nós? A liberdade e a escolha que cada um faz, é da sua inteira responsabilidade. O que eu queria era viver num país culto, com valores cívicos e morais sólidos, com respeito pela identidade de cada um, deixando à escola o trabalho da liberdade e da curiosidade, sem abordagens levianas e ideológicas. Mas basta ver o que as televisões oferecem aos jovens como programação e preparação para a vida, para se perceber que o desafio entre elas e a escola, é tarefa impossível. O desalinho entre umas e outra é tal, que aquelas tomarão a dianteira como se tem visto e vê. Se a isto se somar a praga informativa das redes sociais, temos um quadro difícil para os docentes. Perguntar-se-ão e o papel da família? Cala-te boca. E o papel da Igreja? Leiam o que escrevi sobre a missa de domingo em Alcochete. 

         - Já está anunciada em França, a publicação para Novembro do quarto volume de Toute ma Vie de Julien Green. Espero adquiri-lo em Paris onde conto estar nessa altura. 


domingo, julho 27, 2025

Domingo, 27.

Se eu tivesse assistido in loco à missa na igreja de Alcochete, teria interferido com o celebrante, dizendo-lhe: “Senhor padre, na igreja de Deus somos todos iguais, as excelências ficam à porta.” Isto porque o celebrante, ocupou no início da homilia e depois naquele período moderno que a Igreja criou para que os presentes se cumprimentem, algum tempo a abraçar o Presidente da Câmara, o tesoureiro, e a chusma de gente, toda excelentíssima presente, numa subserviência de nojo. É a missa de domingo transformada num acto público tão do agrado dos nossos políticos anafados e  saloios.  

         - Trump, falando do drama humano que o amigo Netanyahu junto com os ortodoxos fascistas criou na Faixa de Gaza: “É preciso acabar o trabalho.” Esta ligeireza de palavras, designa a pressa para que o Holocausto se conclua e em todo o território palestiniano nasça a Riviera francesa à moda do Médio Oriente. Não é por acaso que um especulador imobiliário chega a Presidente dos EUA e um corrupto assassino mantém o cargo de primeiro-ministro de Israel. 


sábado, julho 26, 2025

Sábado, 26.

Vivi de fiado esta manhã no mercado dos pequenos agricultores. Esquecida em casa a carteira, logo as duas habituais vendedeiras a quem eu dou nomes todos os sábados com a obrigatoriedade de lhes oferecer uma prenda no Natal e amêndoas na Páscoa,  prontificaram-se de imediato a fornecerem-me o necessário para a semana. Num bocado de papel pedi-lhes que escrevessem o montante em dívida, e tanto uma como a outra, assinou com o seu nome: Maria Alzira e Rosinda. A ver se fixo estas progénies de forma a economizar nas duas quadras natalícias...  

         - Estiveram aí o Nilton e o Johnson ainda a ocupar-se da piscina. Estou decidido a deixar cair as natações caseiras e diárias, porque perdi a paciência com os lordes que se ocupam deste metier por aqui. Estes amigos não se resignam à minha decisão, e tornaram a pegar no assunto e o Nilton queria que eu esvaziasse a piscina para que ele a limpasse como dever ser. Recusei. A água é um bem precioso que não devemos esbanjar como facilidade pessoal e egoísta. De modo que concordei voltar a programar a bomba para trabalhar de noite durante a próxima semana, e sábado que vem o Nilton cá escovar a piscina. 

         - Todavia, o dia foi movimentado para um homem só. Alvorada pelas 6 horas e trinta minutos para regas após o pequeno-almoço; depois fui ao Pinhal Novo ao mercado, de seguida ao Continente, no regresso fiz o almoço e a seguir quatro frascos de compota de morango. No meio desta trapalhada toda, houve que assistir aos amigos, com ida a Setúbal para comprar uma lata de tinta. Nilton só daqui sairá pelas nove da noite.

         - Tudo isto sob calor insuportável. O termómetro tocou os 37 graus e, embora a casa estivesse de portadas cerradas, a frescura quase não se sentia. Para amanhã prometem-nos mais do mesmo. Mas o que é isto quando confrontado com o enorme sofrimento humano na Faixa de Gaza, onde Netanyahu mata à fome centenas de crianças? Ele culpa o HAMAS, como se os terroristas andassem por todo o lado à superfície da terra sem que o exército israelita os topasse. Macron, distinguindo-se dos demais políticos europeus, vai às Nações Unidas reconhecer o Estado da Palestina. Trump responde praticamente dizendo que Macron é um palerma e o seu gesto não tem importância nenhuma. É este o mundo actual. Os criminosos governam metade dele, a outra metade amocha. O  facto é que cresce por todo o lado o antissemitismo e há mesmo quem comece a dar razão a Hitler. A um horror, sobrepõe-se outro. 

Terna foto, como uma imagem que se venera em oração. 




quinta-feira, julho 24, 2025

Quinta, 24.

Não é que não queira, é que qualquer coisa em mim trava este débito que já vai longo com o seu começo (publicado) em 1985. Talvez para muitos leitores as transformações não tenham sido significativas, lavadas pelo tempo, torcidas pelo temperamento ocasional, dançadas ao sabor das melodias que nos impregnam a existência e nos impedem a dançar conforme o nosso par, quero dizer, de acordo com as circunstâncias. Contudo, que há um travo, um desmultiplicar do passo, um sufoco no ritmo, um cansaço lá isso há. Ou não havendo, ele se vai instalando a pouco e pouco afastando o entusiasmo dos primeiros acordes. O tempo que se desfila vem cauteloso, desconfiado, obrigando o cérebro a muitas acções e a andar de atalaia aos imprevistos que nos esperam. A grande mudança é a que se faz silenciosamente no nosso interior e dela o silêncio é o seu fiel companheiro. Portanto, bico calado. 

         - De todo o lado diziam-me: “Estás muito magro, vai ver isso.” Então comprei as pilhas para a balança e pesei-me: 63kg - exatamente o peso que me convém e para o qual contribuí quando há meses verifiquei que tinha mais dois centímetros de barriga.  

         - Luís Montenegro é igual a toda a turbamulta que tem paralisado Portugal ao longo destes últimos 50 anos. Deu-lhe uma de partidarite ao escolher um homem do seu partido para governador de Portugal. Ele que dizia que o cargo devia ser exercido por alguém independente. Mário Centeno seria o homem certo para este momento, não só porque é um técnico competente, como foi ele e só ele, que nos colocou ao nível de qualquer outro bicho-careto do Parlamento Europeu. Sou dos que penso que a sua independência, mesmo no tempo daquele que se instalou em Bruxelas, era bastante notória. Ele impôs-se cá como lá fora, não por ser do PS como se diz por aí, mas porque é idóneo e honesto naquilo que lhe confiam. 

         - Por aqui muito calor. Fui à piscina e depois a Setúbal procurar uma cinta de borracha que fará com que não entre ar na bomba – não encontrei, não há em nenhum lado. Por este andar, só poderei mergulhar no próximo Inverno. 


quarta-feira, julho 23, 2025

Quarta, 23.

Fui buscar esta tarde o novo Mac que adquiri segunda-feira com todos os programas e trabalhos vertidos para este maneirinho e mariconço computador. Vou levar uns dias a adaptar-me a ele e ao sistema operativo. E, todavia, tanta coisa há a debitar para a posteridade, sobretudo no que diz respeito à miudeza política que tomou de assalto a nossa inteligência. Espero não perder o fio à meada e ter tempo ainda para refrescar o juízo ao correr destas páginas. 

         - A câmara de Palmela é governada há uma data de anos pelos comunistas. Parece que o actual presidente está de saída por ter completado os mandatos da lei e, segundo oiço dizer, sempre foi um homem impoluto (já dos seus serventuários, cala-te boca). Contudo, do meu ponto de vista, tem andado distraído da gula dos proprietários de “casas” pois estas, apesar de serem mais sólidas que as barracas de Loures, são tão indignas como as que têm entretido as esquerdas nestes últimos dias. A coisa explica-se assim. Pelo menos desde há dois anos, que a uns cem, duzentos metros daqui, vi começar os meus vizinhos a alugar garagens e a comprar autocarros e caravanas para, com uma ligeira modificação, alugarem a brasileiros necessitados de um tecto. Caixas de ferro ferrugento contam-se pelos dedos de uma mão. Esta que aqui retrato, começou por ser depositada no terreno minúsculo, de seguida foi feito o murete, mais tarde abriram umas pequenas janelas e mais tarde ainda, montaram as ridículas persianas. Agora, há dois meses, começaram a forrá-la de cortiça como mostram as fotos, e foram ao luxo de exibirem a bandeira nacional à entrada do palacete!!!  


(amplie para os detalhes)

        - Estive na Brasileira hoje muito cheirosa. Paredes-meias com o famoso café, está uma agência do BPI. Entrei para levantar dinheiro. À frente de duas máquinas distribuidoras havia duas filas compactas. Daí a uns segundos, sendo o cheiro nauseabundo a bufas (estas contemporâneas), abri a porta de par em par para deixar arejar o pequeno espaço. De volta à esplanada contei aos velhotes a cena e logo eles começaram a contar histórias relacionadas com peidos, traques e outras miudezas da natureza intima de cada um de nós. Decididamente, as bufas não me largam. Possa!


domingo, julho 20, 2025

Domingo, 20.

Enquanto o ex-monarca da Síria se espreguiça de contentamento e lazer em Moscovo, a violência instala-se entre beduínos e drusos, saldando-se em mais de 1000 mortos. Aqueles começam por rapar o bigode a estes, como se a sua dignidade fosse assim atingida. As barbas podem manter-se, mas os bigodes, a velhos e novos, são para abater.  

         - Assisti à missa dominical pela RTP. Transmitida de Moimenta da Beira, teve a celebrá-la um padre gorducho, imponente de físico, típica figura de provinciano, com um toque de modernidade: o cabelo pintado  à moda do ex-secretário do Partido Socialista Vítor Constâncio. 

         - Isto não muda ou muda quase nada. Luís Montenegro que tem muitas qualidades, nomeadamente, a que mais aprecio a da sobriedade, disse que ia dar uma esmola aos reformados e pensionistas em Setembro. Foi o que fez António Costa que julgo ter sido o inventor do bodo aos pobrezinhos. Portugal nunca passará da cepa torta. Saem uns, entram outros, mas todos aprenderam pela mesma cartilha – a da submissão do povo às esmolas, à caça ao voto. É com esta vulgaridade de gente que temos vindo a marcar passo em 50 anos de democracia. 


sábado, julho 19, 2025

Sábado, 19.

Ninguém faz frente a Netanyahu. Ao bombardear de novo Damasco, atingiu a única igreja católica, destruindo-a e ferindo entre outros cristãos, o pároco. Depois, cínico, veio pedir desculpas porque se enganou no alvo. 

         - “Donald Trump não tem uma visão estratégica sobre a posição dos EUA no mundo”, disse outro dia Stephen Wertheim, historiador da política externa dos Estados Unidos. Ele governa como senhor absoluto do mundo, tergiversando à tona dos acontecimentos, como uma bússola encravada. 

         - A esquerda anda a carpir por tudo quanto é sítio sobre o destino daqueles que fizeram entrar no país para serem mártires das suas ideologias. Agora segue-se a Amadora onde parece que os autarcas deixaram crescer bairros da lata nas periferias da cidade. Por todo o lado, os infelizes sem eira nem beira, foram deixados ao abandono, como pau para toda a colher, explorados por empresários desonestos, sugados até ao tutano ao ponto de se transformarem em escravos da Era Moderna. Alguns destes escravos, espertos ou no limite da salvação, atiram com os filhos para a primeira fila dos suplicados. O português choroso comove-se e é esse o trabalho das esquerdas, fazê-lo chorar; enquanto o da direita é escorraçá-los. 

         - Ontem o João reuniu na Brasserie de l´Entrecôte, ao Chiado, os amigos. A Marília tinha feito 91 anos e ele, generoso, fez questão de os festejar connosco. O ágape decorreu como (não) se previa, comigo a dada altura a estranhar a ausência da sua única obsessão – a política. Quando terminámos as sobremesas e o café foi servido, ei-lo que abre os braços como os padres nos púlpitos, e inicia: “O que me dizem àquela do Chega...” Dali passou para o mundo do neorrealismo político no qual se inclui a pintura e a literatura eternizadas no museu caro aos comunistas em Vila Franca de Xira. Entornou-se o caldo de imediato, comigo a contestar o valor da pintura dos camaradas, dos livros simplórios, falando dos coitadinhos dos trabalhadores, dos agricultores e de todas essas vítimas da hipocrisia da esquerda chique do Bairro de Alvalade. O pintor António Carmo que foi do partido e, inclusive, operário de montar stands e faixas na festa anual do Avante, autor de uma pintura a que eu não dou nenhum valor (salvo o desenho), associou-se com ele e os dois bombardearam-me até dizer chega. Mais uma vez saí incomodado de uma reunião que se queria fraterna e redondeou num final infeliz. Helder, diz-me uma coisa, quando é que tomas juízo!  


quinta-feira, julho 17, 2025

Quinta, 17.

Nada me impede de exercer a liberdade de análise e de pensar. É por isso que não estou nem nunca estive filiado em nenhum partido. Não necessito de tachos, cunhas, arredondamentos salariais ou vencimentos e reformas principescos de deputados (metade destes, ao longo da legislatura, nunca abriram a boca). Por isso, estou disponível para apoiar nas suas acções o autarca socialista de Loures. Estou inteiramente com ele quando, de uma forma desinibida, consciente e politicamente correcta, mandou destruir as barracas que se foram levantando à sua porta depois de muito labutar pela legalidade, a higiene e a dignidade daqueles que as ergueram. Tudo o que as esquerdas dizem, incluindo o seu próprio partido, não passa de hipocrisia e propaganda panfletária. Na origem, mais uma vez, está António Costa e o seu querido programa “manifestação de interesse”.

         - Ontem, desde que cheguei de Lisboa, passei uma parte da tarde a ouvir o autêntico plano de austeridade de François Bayrou: congelação de gastos do Estado, um “ano branco” para pensionistas e funcionários públicos sem aumentos salariais e reformas, venda de imóveis do Estado, corte a eito na despesa pública, nos feriados nacionais, tudo para economizar 43,8 mil milhões no próximo orçamento francês, de forma a combater a dívida pública que já vai em mais de 3,3 mil milhões de euros. O primeiro-ministro foi claro: “Impõe-se como primeira regra não gastar nem mais um euro em 2026 do que em 2025.” Como irão reagir os franceses um povo difícil de governar, mais a mais sem maioria na Assembleia? Mistério. E todavia, na origem não está somente a dívida, está no investimento a fazer na segurança face à cada vez mais evidente ameaça de Putin e ao abandono cómodo e protector dos EUA. 

         - Portugal que se cuide. Os comunistas e todos os seus parceiros, falam que não querem a guerra, que não aceitam o desinvestimento na saúde, na educação e na vida tout court. Falam, mas nada dizem da invasão da Ucrânia pelos camaradas capitalistas-comunistas. Eu há algum tempo que venho aconselhando os amigos a preparem-se para o pior, economizando, pondo de parte o que puderem, fazendo uma vida regrada. O mundo tal como está, vem sendo ensaiado nas suas múltiplas acções bélicas, testado e programado para uma terceira guerra mundial. Esta, à sua escala, multiplica-se já. Ontem o ditador Netanyahu bombardeou a Síria. Os criminosos mundiais – Netanyahu, Trump, Putin, o dono da Coreia do Norte, o distanciamento táctico da China – entre si estudam o destino da Europa e do Médio Oriente. Se não pensarmos nisto e sermos levados pela irresponsabilidade dos políticos medíocres que nos governam, cedendo fraquezas e temores, não percebemos que na guerra não há metade do que os países têm e oferecem aos seus concidadãos em tempo de paz. Na guerra há miséria e sangue e morte e destruição. 

          - A fortuna dos donos dos supermercados que atribuem às guerras e às loucuras de Trump são o paraíso que lhes permite enriquecer à conta do brutal aumento dos produtos indispensáveis à nutrição humana, mede-se pelo bacalhau: o ano passado estava a 8-12 euros o quilo, ontem comprei-o a 17 euros. As guerras, pelos vistos, favorecem os escravos do dinheiro. 

         - Continuo assoberbado de trabalho. São muitas coisas da vida prática que se acumulam e só eu as tenho de realizar, posto que as sombras não passam de figuras escuras e passageiras, sem poder nem presença física, assombrações que não param quietas. Ontem, quando entrei ao portão, encontrei-o aberto. Logo percebi que só o Nilton poderia ter franqueado a entrada. E, com efeito, fui dar com ele a consertar um dos blocos que sustêm os skymers. É um homem admirável que tudo faz para me facilitar a vida. 

quarta-feira, julho 16, 2025

Quarta, 16.

É claro que é desumano ver o espectáculo do desmantelamento das barracas em Loures, ordenado pelo socialista que rege a autarquia. Eu também não queria ter aqui ao pé de mim um bairro construído de tapumes e tectos de chapa e muito menos  gostaria de ver todos os dias seres humanos recolherem-se sob construções insalubres após um duro dia de trabalho árduo. Mas o problema vem de antes. É preciso que as esquerdas sempre no clamor do coitadinho, não se aproveitem das condições precárias e inumanas de quem chega sem as mínimas condições para permanecer. A extrema esquerda, particularmente o BE, Livre, PCP, precisa como pão para a boca de casos destes. Sem eles não teriam armas contra quem quer que esteja no poder, posto que nenhum deles algum dia chegará a primeiro-ministro. As pessoas não lhes interessam para nada, o que conta é a ideologia, o fanatismo de impor regras e tratados, filosofias e  actos de fé. Eu conheço vários comunistas com quem falo regularmente, a nenhum deles nunca ouvi interessarem-se por pessoas, grupos, lamentar esta ou aquela desgraça que sobre eles recaiu. É a ordem, o folheto sindical ou partidário que conta, tudo o mais é secundário. 

         - O calor regressou em força. Eu continuo sem achar um técnico que ponha a piscina a funcionar. Já telefonei a vários, todos me dizem que têm trabalho de mais e só lá para Outubro poderão vir. Mas para que quero eu piscina em Outono! 

         - Que tristeza ver a que ponto chegou o nosso querido português! Políticos, jornalistas, advogados, professores, aquelas psicólogas que vêm à televisão empoeiradas e cheias de saber, os apresentadores tipo Goucha, com o conhecimento na ponta da língua molhada minutos antes no Google, as comunicadoras da meteorologia, quem mais que virou alguém porque as câmaras de TV se abriram para se debruçarem à janela, em pescadinha, cada duas palavras intercaladas com “aqui”, despejado como balde de água fria na arrogância de quem julga saber comunicar com a boca cheia de ignorância. 


segunda-feira, julho 14, 2025

Segunda, 14. 

Se por algum tempo não nos podemos queixar do tempo, outros têm sofrido as suas investidas catastróficas. É o caso do Texas e Novo Texas. Há uma semana arrasados por tempestades demoníacas, que levou o rio Guadalupe a transbordar com oito metros acima das suas margens. As imagens que nos chegam são aterradoras, para cima de 100 pessoas morreram e entre elas muitas crianças de férias num acampamento. De igual modo, aqui perto, a martirizada Valência de novo sob chuvas torrenciais. Duas pessoas estão desaparecidas, centenas dormiram em abrigos de emergência, toda a Catalunha está em estado de alerta. Todos estes fenómenos, dizem os cientistas, são devidos às alterações climáticas. 

         - Este pobre país é um couto de corruptos. Está tudo alterado. Antes era a ralé miúda que ocupava a Policia com roubos de galinhas e massa nos supermercados; agora são os galifões que roubam aos milhões e constroem circuitos diabólicos como aqueles que José Sócrates montou para que os milhões se diluíssem no doce rio do tempo, passagens deste para aquele, aplicações aqui e acolá, numa teia difícil de saber quem é o maior ladrão entre tantos ladrões. A Judiciária, na companhia de agentes da UE, anda à caça de 20 milhões que desapareceram do PRR. Chamam-lhe Operação Nexus. Nesta cabala estão envolvidas universidades, empresas públicas e particulares da área de material informático e cibersegurança. Para tanto, foram realizadas cento e tal buscas realizadas por 300 inspectores. È Obra! Mas também a ladroagem hoje está instalada por todo o lado. 

         - Os fins-de-semana por aqui são extremamente extenuantes. Ontem, depois de ter andado a regar e apanhado um cabaz de ameixas pretas, ainda me deu para ficar horas de roda do fogão a transformá-las em compota. Deitei-me pela meia-noite. Como há mais de um mês ando a dormir como no tempo da minha juventude, despachei sete horas seguidas de sono e ainda me apeteceu readormecer ao som da TSF para acordar às oito e meia.   

         - Não resisto a transpor este excerto do artigo de Fr. Bento Domingues no Público de ontem “Rezar ou blasfemar?” Estas palavras decorrem do longo texto que só quem o ler distraído não percebe quão actual ele é no contexto judaico que vivemos. “Eu tiro a minha conclusão: o iaveísmo histórico veicula uma teologia nacionalista, por vezes, de uma extrema violência. Coloca na boca de Deus os interesses de um povo contra os outros povos. Este nacionalismo religioso blasfema.” Está tudo dito. 


sábado, julho 12, 2025

Sábado, 12.

Ainda penso no técnico que veio observar a piscina anteontem. É um homem alto, de uns trinta e tal anos, forte sem ser gordo, encorpado, com várias tatuagens no corpo, um olhar meigo e atento, uma voz cordial e humana. Chegou montado num Dacia branco, espécie de jipe, impecável de limpeza; desceu discreto e voltou ao interior do veiculo para me deixar babaca a vê-lo partir. Voltei à cabine das máquinas e observei que ele antes de ir deixou tudo impecável de limpeza e até a luz desligou. E tudo isto sem levar um tostão! Curiosamente (ou talvez não) Zacarias é o seu nome... 

         -  O dia pareceu dormir, fatigado das longas semanas de calor abrasador. O sol não desceu das alturas senão à meia tarde, a luz ténue pairou baixa sobre a terra crestada, o silêncio impôs-se sobrepujante à mudez das horas incertas. Quando cheguei à terra dos pequenos agricultores pelas sete, encontrei-a fechada – só tinha autorização para abrir às sete horas e vinte minutos, como se aquele imenso espaço sob árvores e toldos, fosse as instalações de um banco sem direito a tirar o ticket de chegada. Ridículos destes inundam o nosso sistema público e caracterizam a pequenez dos nossos autarcas – são fortes com os fracos, desfibram o riso e instalam a revolta. 

         - As ideologias dos extremos tocam-se e dançam o vira e estão sempre dispostas a dançar. Como no caso da privatização da TAP. Chega e esquerdas votaram em sintonia contra parte da privatização da “nossa bandeira”. Perdemos 3 mil milhões ainda recentemente nela e mais de mil empregados postos no desemprego pelo socialista Pedro Nuno Santos, mas isso dos dinheiros não são ganhados por eles e, portanto, não têm valor nenhum. Eu, pessoalmente, não entendo esta obrigação de um país ter a sua companhia aérea. Com isto, ganham as ideologias bacocas, ganham os sindicados e naturalmente os partidos, porque se sentem fortes, com a palmatória em riste, pronta a despachar reguadas a quem fugir dos ensinamentos marxistas-leninistas da economia estatizada. Não conheço nenhuma empresa do Estado que funcione bem, tenha equilíbrio, poucas greves ou nenhumas, satisfaça plenamente os portugueses, tenha respeito por eles e os trate a todos por igual. Já aqui disse e volto à carga: a “bandeira de Portugal” deverá ser a limpeza da pobreza, a dignidade dos dois milhões e meio de pobres, reformas e salários condignos, cultura e saúde, apoio aos velhos, vida e morte tranquilas. Tudo isto era possível se não houvesse tanta corrupção, milhões gastos sem controlo, empreendimentos feitos para durar poucos anos e às vezes meses. 

         - Hoje estiveram aí a manhã inteira o Nilton e o Johnson. Começaram e terminaram a montagem do toldo comigo a dar assistência aos dois. Estou esfalfado., mas conseguiu-se realizar um projecto que se vinha arrastando desde a nossa ida a Badajoz. Não sei se gosto do resultado. Talvez tenha de me habituar ao efeito de ver aquela grande tela exposta sobre a mesa e cadeiras no pátio. 


sexta-feira, julho 11, 2025

Sexta, 11. 

Tenho tanto trabalho, tanta coisa a resolver que me é impossível ter serenidade para a escrita. Esta manhã passei duas horas na Brasileira a conversar com o António e o Virgílio. Falou-se de tudo, embora o António tenha sempre aquele pendor para o vulgar e por vezes a ordinarice. De súbito, começou a chover. Um frio rasante corria na esplanada e eu com uma t-shirt fina. À boa maneira dos países frios, pedi uma manta e embrulhei-me, literalmente, nela. Que bem me soube e me evitou alguma constipação. Aquele jeito para a brejeirice, não lhe levo a mal porque o António é de todos os do grupo o mais são. Pelo meio-dia, tomámos o metro e eu fui ao Colombo orientado por ele que ali mora perto. Detesto aquele mundo afadigado, doente, embebedado das alegrias da sociedade de consumo. Outro remédio não tive, dado que não gostei dos modos grosseiros do chauve da Concept - a minúscula loja de tecnologia que trabalha no andar do Corte Inglês onde se encontram os computadores. Por isso optei por não adquirir o Mac no C.I. e ter ido hoje ao Colombo que lá tem uma loja toda Macintosh. Que diferença de tratamento, e ainda por cima mais barato em comparação com o saber do homem do Corte Inglês, quero dizer este leva 80 euros para transpor a informação de um computador para o outro, enquanto a GMS apenas 50€ incluindo a boa educação e  classe no atendimento.  

         - Por ali me quedei, almocei, fiquei estendido na cadeira isolado do aluvião de barulho que fazia aquela gente em meu redor. Em catadupa desceram os pensamentos, levando-me dali para desertos de silêncio que permitem às ideias e aos sentimentos florescerem. Não sei quantas horas ali me quedei, sei que quando voltei à realidade, o afane dos almoços eram agora o espaço  de uns quantos velhotes, de olhar vazio, a encher a tarde desenhada lá fora nos escombros de uma vida irreal. 

         - Por vexes somos surpreendidos por seres humanos desalinhados do tempo. Ontem esteve aí um senhor a estudar as razões por que não trabalha a piscina. Durou pelo menos duas horas a desapertar canos, torneiras, a enfiar água nos tubos, a fechar esta e aquela torneira, a espreitar os skymers, o tubo do esgoto, do vácuo, enfim, todo o sistema. No final, pelas oito da noite, fez um croqui da estrutura da piscina com a seguinte sentença: a bomba está sólida, mas é preciso descobrir os canos de ligação à máquina geral, que saem do ralo do fundo e do vácuo. São eles que devem estar entupidos e não deixam passar a água com força para os skymers. Mostre este desenho ao técnico que anda a reparar a piscina. “Quanto lhe devo?” perguntei. “Não deve nada.” Fiquei siderado. Insisti para lhe pagar e ante a recusa projectámos outra vinda dele para limpar a piscina. Num mundo onde só o dinheiro impera, um gesto destes é uma bênção, um acto de caridade.  

         - Gostava de recordar aos médicos que os doentes são a saúde deles. 


quinta-feira, julho 10, 2025

Quinta, 10

Curiosa esta analogia do caminhante, desenvolvida por Robert Walser: “O caminhante é aquele que aceita a ideia de que o espectáculo já terá sempre começado antes da sua chegada. (...) Na expectativa do homem que viaja, que anda ao engate ou que passeia, a sensação de uma existência diáfana, é tão intensa que o persegue. Uma sensação por vezes muito ligeira, que foram os escritores a melhor descrever.” 

         - Aquela atitude ordinária e petulante de José Sócrates gritar com os juízes que o julgam, é a mesma que ele utilizava nos conselhos de ministros quando foi (pobre de Guterres que já deve ter tido muitas noites aos trambolhões na cama por o ter chamado à política) imagine-se, primeiro-ministro de Portugal. 

         - Pareço Sartre que residia no boulevard Raspail, em Paris, e trabalhando decerto junto à janela, registava a quantidade de pessoas que passavam na rua a falar sozinhas e os sonoros peidos que lhe entravam em casa. Eu não vou tão longe. Todavia, sou tentado a falar das bufas fedorentas dos velhos esta manhã nos balneários da piscina – são mais insuportáveis que aquelas bufas pretas das africanas no fertagus outro dia. Dá para rir de facto, mas para suportar... 


terça-feira, julho 08, 2025

Terça, 8. 

Fui à natação. Nos chuveiros, nus, homens velhos e de meia idade discutiam o caso José Sócrates. Indignados, chamando ao ex-primeiro-ministro socialista filho da puta, ladrão e outros epítetos do género. Nenhum parecia estar em sintonia com o falecido Mário Soares ou com ex-deputado João Corregedor para quem o petulante está inocente. Um deles, revoltado pelos milhões que o “engenheiro” se apropriou, dizia por ter feito a guerra em Angola, recebia 100 euros por ano “enquanto aquele e outros corruptos filhos da puta como ele, roubam milhões”. 

         - O julgamento prosseguiu hoje. Os berros da figura básica e repugnante, ouviram-se pelo país inteiro onde não haverá português algum que não o condene. São por demais evidentes os crimes. A tática do homem, é esta: havendo decerto alguns buracos na eficiência argumentativa e condenatória da justiça, ele pretende escapar por aí, e pelas centenas de recursos que interpôs, de modo a que os prazos sejam ultrapassados e a sentença nunca seja conhecida. E todavia, esta simples pergunta permanece: ele disse e redisse que é pobre e viveu do salário de primeiro-ministro (hoje reforma que não chega aos 2 mil euros). Então de onde vieram os milhões que lhe permitiram (e continuam a permitir) viver à grande e à francesa? Sendo empréstimos do engenheiro-empresário de Leiria, como vai ele liquidar uma tal soma? Não gosto, senhor marquês, a mim não me enfeitiça. 

         - A vingança e a traição servem-se frias. Por isso, ele quer arrastar para o julgamento António Costa que sempre teve um secreto conluio com a criatura. Ele e Santos Silva, bichanavam muito de orelha a orelha e eu conheço esses momentos por um amigo que trabalhou com eles. O primeiro, não mais lhe falou; o segundo, a semana passada, ante os factos, decidiu não se candidatar a Belém, deixando o rasto opinativo “que espera que surja outra candidatura na área socialista”, por outras palavras António Seguro vem do lado do Chega. Foi o melhor que fez, porque a abada e a vergonha seriam de o arrojar pelas ruas da amargura.  

         - A viúva do BE, a pouco e pouco, são os seus camaradas que lhe vão descobrindo a máscara esquerdista. Nada menos que três moções a exigirem mudanças no partido, a começar por ela. A criatura parece estar ressabiada. A gente olha para aquele rosto duro, onde o amor se ausentou e é a fúria que o reveste, e desviamos o olhar para não vermos nele os mesmos tiques autoritários de Trump. 


segunda-feira, julho 07, 2025

Segunda, 7. 

A grande notícia do dia é o começo do julgamento do marquês ex-primeiro ministro de Portugal José Sócrates. Desde aquele dia em que eu tinha embarcado em Paris de regresso ao meu país e Sócrates fora preso à chegada a Lisboa, que os portugueses têm os olhos esbugalhados na personagem kafkiana socialista que lhes saiu na rifa da Farinha Amparo. Eu que, portanto, sempre descri da criatura, engenheiro de diploma tirado ao domingo, assisto de boca aberta ao desfile da vida de luxo do socialista, e aos milhões de milhões que a sustentavam. O ritmo louco em que caíam na sua conta e noutras radicadas em países estrangeiros e offshores, é de trazer a cabeça à roda a qualquer cidadão. O Correio da Manhã, ontem, na primeira página, anunciava “que dos 34 milhões acumulados por José Sócrates numa conta bancária titulada pelo amigo Carlos Santos Silva, 29 tiveram origem no Grupo Espírito Santo (GES), liderado por Ricardo Salgado. As primeiras transferências, de acordo com os registos bancários, remontam a 2006 e 2007 (nove milhões de euros) para uma conta, na Suíça, em nome de José Paulo Pinto de Sousa, primo do antigo primeiro-ministro, uma das principais personagens do caso Freeport.” Ante todas as evidências de crime, Sócrates insiste que o julgamento não passa de uma fraude e acusa juízes, Ministério Público, jornalistas de complot, de estarem associados para destruir a sua imagem de político impoluto, que honrou Portugal e o socialismo. O homem tem lata e dinheiro a rodos para contratar o advogado belga, Cristophe Marchand, para o defender das “campanhas mediáticas” e dos “lapsos de escrita”, montados pelos diversos juízes que se ocuparam dos processos.  Recorreu ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para se queixar e dizer que é totalmente inocente, sem explicar de onde vêm os magotes de milhões de notas, dizendo-se pobre e sem recursos pessoais. Para isso, na véspera do julgamento, em Bruxelas, deu uma conferência de imprensa (pena tenha sido em português, pois gostaria de ver os avanços conseguidos nos estudos da língua de Molière, durante os dois anos que passou em Paris no apartamento de luxo que vimos na reportagem da SIC  onde reconheci o prédio da minha amiga Françoise, no 16º arrondissement). Espero que a sentença o decrete culpado, com os costados para o resto da vida no luxo das cadeias portuguesas. 

         - Não, não caros leitores. Nada de cuidado me aconteceu, apenas tive um empanque tecnológico na sequência da criação de e-mails com a ajuda do Carlos, que se revelaram aos olhos e saber dos técnicos da Macintosh, a razão deste interregno. Retomemos, portanto, hoje o nosso convívio.  


terça-feira, julho 01, 2025

Terça, 1 de Julho.

Penoso, muito penoso sermos esmagados pela canícula. Nestes últimos dias, às seis da manhã, já estou a regar. Todavia, todo este esforço e canseira, não tem sido suficiente para conservar a beleza das hortênsias que estão já todas queimadas do sol. Assim como os acantos, e só as laranjeiras ainda se mantêm de pé, verdes e belas, cheias do fruto que irá desenvolver-se para gáudio meu até Dezembro. Felizmente, sem nenhuma dor de costas, nem qualquer outra. Puxar mangueiras com cinquenta metros, não e pera doce.   

         - Ontem fui a Lisboa e passei na Brasileira para cumprimentar os velhotes. Nem lá, na esplanada, se estava bem. Fugi ao encontro da Alzira que me esperava para o almoço no C.I.. Aí, sim, residia o paraíso. Quando nos separámos, fui tratar de avançar com a compra de um Mac mais recente. O meu, com mais de dez anos, está ultrapassado e nem as operações bancárias exigidas on line, consegue fazer. 

         - Ir a Lisboa por dias assim de suplício, é uma tortura. Outro dia, com o saco pesado da lona aos ombros, sem a minha querida mochila que me acompanha com o portátil dentro, pude carregá-lo até ao Bangladesch. Curioso, senti-me outro sem aquele apetrecho útil aos meus tempos e perpetuamente disponível para me concentrar e mergulhar em coscuvilhices com Ana Boavida. Com ele acho-me gente, sem ele vejo-me um tipo qualquer sem identidade. Mal comparado, sou como aquelas damas que se pintam com tons provocantes, abrem o rego do peito para que espreitemos (discretamente, claro) as mamas frescas que exibem com falsa circunspecção, mas que são a marca daquilo que querem ser para os olhares dos homens lambidos de libido assanhada. 

         - “Um dia reconhecerá que éramos felizes e não sabíamos”. frase de Marcelo para António Costa na balbúrdia e desnorte de tempos sinistros, aplica-se também a Trump e Elon Musk. Transcrevo o que o oligarca americano tuitou na sua rede pessoal: “Elon deve ser o ser humano que, de longe, mais subsídios recebeu em toda a história, e, sem subsídios, Elon deveria ter de fechar a loja e regressar à África do Sul. Não há mais lançamentos de foguetões, satélites, ou produção de carros eléctricos e o nosso país iria poupar uma fortuna.” Resposta do homem mais rico do mundo: “Cortem-nos todos.”  

         - Fui à natação enquanto aguardo pelo homem das piscinas me venha limpar paredes e chão da minha. Muita gente, o calor como sinal. Ontem no Rossio estavam 41 graus, hoje aqui 40. 


sábado, junho 28, 2025

Sábado, 28.

Trump voltou para o seu castelo inchado de orgulho, passado a pente dourado de vaidade. Assim que ele debandou, os nossos entendidos e orgulhosos euro-governantes, caíram na real: afinal o homem não se havia esquecido das percentagens que fazem o lustro da sua governação. A criatura acenou-lhes da Casa Branca que não olvidassem as taxas a aplicar aos produtos chegados aos EUA - são para cumprir. Foi um balde de água fria que despejou sem piedade sobre as suas cabeças doidas e levianas. Que humilhação, que miséria! Ainda por cima redisse que a Europa tem andado a enriquecer à conta da América.  

         - Tenho tido dias duros não só por causa da canícula, mas pelo serviço que venho prestando ao Nilton no arranjo da piscina. Ontem fui ao Bangladesch, à sua secção na estação do metro Restauradores, entregar a lona para que os costureiros a transformassem na cortina que há-de descer sobre o lounge (modo de falar à Carlos Neto). No Rossio abafava-se, O calor era tanto, que mal se podia andar. E todavia, baratas tontas estrangeiras não faltavam. Fui mastigar qualquer coisa ao paraíso C.I. e despachei-me para casa onde a frescura convida ao ripanço e ao dolce far niente. O galdério do gato, só daqui saiu pelas dez da noite ao encontro da namorada que o chamava do lado de fora. O único sitio mais difícil para se estar com estes quase 40 graus centígrados, é a cozinha. Mas é lá que estou bem, o ar condicionado ligado. Hoje fui ao encontro do Nilton à loja onde se vende material para piscinas. Diz-me ele que esta tarde, quando voltar de ao pé da namorada brasileira, poderá pôr a água a circular e terminar o trabalho. A ver vamos. Estou ansioso por correr com a rã que lá se instalou e não pára de cantar. A mim faz-me impressão vê-lo trabalhar sob esta temperatura de morte. Pela uma e meia da tarde, quase lhe ordenei que fosse fazer a sesta e voltasse pelas cinco. Recusou. Eu insisti. Contrariado aceitou. Bref. 

         - Terminei o livro de Hugo Mãe. Que dizer. São curtas histórias do seu quotidiano, que se lêem num ápice, na sintaxe do costume, e logo se esquecem. Prefiro-o nos romances onde a criatividade e o sentido da história nos prende e somos, literalmente, arrastados. 

         - O artigo de João Miguel Tavares de hoje, sobre a figura sinistra de Augusto Santos Silva, termina assim: “Bem sei que o ressabiado Santos Silva, após dizer e repetir que Seguro não cumpre os “serviços mínimos”, veio agora informar a pátria de que irá anunciar na quarta-feira se ele próprio é, ou não, candidato à presidência. Espero que venha a ser, porque eu tenho este sonho: ver Augusto Santos Silva ser humilhado nas urnas ao mesmo tempo que Jose Sócrates é julgado nos tribunais. Seria um final feliz para os piores anos da democracia portuguesa.” Assino de cruz.     

         - Agora, no inferno em que se tornou há muito a Faixa de Gaza, são os solados israelitas que denunciam ordens para matar multidões que procuram alimentos para não morrerem à fome. Naturalmente o assassino Netanyahu, desmente.  


quinta-feira, junho 26, 2025

Quinta, 26.

Uma vergonha, uma nojenta vergonha a Cimeira da NATO com Trump a presidir, senhor todo poderoso a quem toda a cambada de políticos medíocres renderam vassalagem. Salvo Pedro Sánchez, o grande, o independente, que prefere acudir ao seu país e aos factores sociais de Espanha, que embarcar nos 5 por cento que o poderoso impôs para manter a Organização. Pergunta-se por quê 5 e não 10 ou 20%, uma vez que nunca li nenhum estudo sobre a necessidade de um tal acréscimo em armamento. Aquela bajulação, nem ao menos teve em conta os desafios de Donald Trump ao pretender anexar a Gronelândia, pertença da Dinamarca, território da União Europeia. Vivemos um momento de loucura, somos governados por insignificantes seres, pequeninos como moscas, equidistantes dos grandes que reconstruíram a Europa, estou a pensar em De Gaulle que tendo pertencido à NATO, abandonou-a em 1966, correndo com as bases militares americanas do país. Ele sabia bem porquê. Seguiu-se a corrupção dos Sarkozys deste mundo, o futuro encurtou até não ter margem de visão - a França deixou de ser independente e com ela toda a Europa. Estamos sob a pata de governantes tirados a papel químico do modelo americano. 

         - Faz muito calor. Fui à piscina com a sorte de haver uma faixa só para mim durante uma hora. Nos balneários não assisti a nenhuma daquelas cenas de terror. Ao contrário, na água, naquilo a que chamam hidroginástica, uma chusma de mulheres que faziam cada uma três vezes o meu corpo. E mais uma vez me assaltou este terror: como será aquilo todas nuas nos chuveiros? Pesadelo, pesadelo! 


quarta-feira, junho 25, 2025

Quarta, 25.

Regressar ao conforto de mim, apoiar-me no ombro do meu Criador, fechar a cortina de luz e vento, descer as pestanas de luz, e deixar-me invadir pela paz, o silêncio que murmura orações e cânticos e desce das alturas carregado de bênçãos. Ficar hirto como uma estaca no deserto, tocada pelos temporais que não assustam antes revigoram porque nos sacodem e nos devolvem a identidade perdida na aprendizagem manipulada, nas vozes doces truncadas de falsa sabedoria, no segredo incrustado em nós desde tempos imemoriais. Ler o breviário das horas e descobrir em cada página o percurso das sombras, o sopro das divindades, o eco das preces num mundo breve, ruidoso, sem sentido nem esperança, traçado na ira e ódio que rasteja e ciranda e sobe e desce e contorna cada um de nós da nostalgia do passado, quando os humanos se reconheciam como humanos...  


terça-feira, junho 24, 2025

Terça, 24.

Ninguém me consegue explicar – à parte a dança habitual dos políticos que pensam todos em pescadinha e já agora também dos sabichões comentadores – qual a diferença entre arma atómica construída pelo Irão e aquelas outras que alguns países possuem sem que ninguém os obrigue a desfazerem-se delas. Ouço falar americanos e europeus que o regime iraniano é cruel, dominador, envaido de moralidade e dominado por ditadores de crenças religiosas, querendo com isso contrapor os regimes democráticos onde ninguém se sobressai dos demais em decisões de tamanha importância como o disparo de armas nucleares. Com esta particularidade. Foi um país democrático, os EUA,  o primeiro a fazer uso de tais armas de morte e destruição e não uma, mas duas vezes: Hiroshima e Nagasaki. E se um louco democrático como Donald Trump quiser hoje utilizá-la, não pode? Ou o seu camarada Vladimir Putin? Ou aqueloutro varrido dos miolos Kim Jong-un? 

         - O Executivo aprovou a Lei da Nacionalidade. Grosso modo, concordo não fora as excepções que dão a palavra à madre superiora do Bloco de Esquerda e dos seus acólitos. Esta lei faz dos imigrantes pessoas de primeira e de segunda. Os ricos, os dos “Vistos Gold” que ninguém fiscaliza, os profissionais altamente classificados com cartão azul da UE podem fazer o que muito bem quiserem; os restantes ficam sujeitos a todos os entraves, peripécias, demoras e esforços para conseguirem residência entre nós. Não tarda, teremos a vir morrer neste espaço ao sol como lagartixas em fim de vida, toda a casta de oligarcas, de Trump a Putin, de Elon Musk a Mark Zuckerberg. 

         - Fui à piscina. Água gelada a fazer encolher tudo à dignidade secreta da cobiça dos olhares. Ontem, no C.I. adquiri o último livro de Valter Hugo Mãe, Educação da Tristeza. Também abanquei por duas horas na esplanada de A Brasileira em cavaqueira ligeira sobre o peso do mundo actual. Mas quando chegou o João, mal se tinha sentado, já falava contra a América. Debandei de pronto. À chegada a este paraíso, tinha o Nilton de volta da piscina e a sua namorada por ele mandada vir do Brasil há um mês, a ajudá-lo.  


domingo, junho 22, 2025

Domingo, 22.

Desde que um boçal alcança o poder, tudo é de esperar. Contudo, o que a mim mais me  surpreende, é como a democracia fica vassala de um qualquer arrogante, oligarca ou egocêntrico, que de súbito está de posse do poder absoluto, indo contra os adversários políticos, as leis internacionais, o Senado ou Assembleia Nacional, fazendo o que melhor serve os seus objetivos pessoais e interesses privados. É o caso original e extremamente assustador de Trump. De braço dado com o criminoso e seu bajulador Netanyahu, bombardeou ontem o Irão com armas que só os EUA possuem. Fê-lo sem prevenir ninguém. Como senhor absoluto do mundo e da força que o regime americano põe ao seu dispor. O mundo acordou para esta triste realidade. Muitos foram já os países que a condenaram, a nossa estimada UE só amanhã vai reunir para analisar os factos. Que chateza virem-nos aborrecer no fim-de-semana. Já não basta a pobreza que berra, vêm agora os islâmicos incomodar-nos com bombas que nem sequer foram lançadas por nós. Esperemos de cabeça erguida pela resposta de Teerão. 


sábado, junho 21, 2025

Sábado, 21.

Eu sou muito metódico. Organizo-me em função de objectivos, com margem apesar de tudo para imprevistos e estes me incomodarem. Perguntei outro dia ao João Biancard, hoje com proveta idade, o que mais o incomoda na vida. Ele respondeu a alteração abrupta dos meus ritmos, a desistência de projectos subitamente adiados ou suspensos, o atraso de alguém para quem as horas não contam. Eu estou com ele. Esta manhã fiquei muito incomodado com o senhor que tem vindo cá limpar com a roçadora a erva seca. Ontem, tendo chegado com a mulher, uma rapariga simpática, uns trinta anos mais nova, ouvi-o dizer para ela: “Aqui é que nós passávamos um bom dia com o nosso filho a nadar.” Pois bem, esta manhã, saí para o mercado dos pequenos agricultores quinze minutos depois das oito – hora combinada para início do trabalho e ele sem vir. Na volta, encontro a mulher a aparar os arbustos da entrada juntamente com ele. Digo-lhe que aquele não era o projecto combinado, mas sim limpar em volta da quinta de modo a que o Sr. Correia pudessem trabalhar com o tractor sem danificar as macieiras (ontem o veiculo teve uma pane). Amuou. Nesse entretanto, a rapariga vem falar-me, dizendo que em vez de estar em casa só e gostando de plantas, ia desimpedir-lhes as ervas ruins. Disse-lhe que não gostava de misturar as coisas e apliquei aquele velho ditado: “trabalho é trabalho, conhaque é conhaque”. Todavia, se há alguém a quem devo atribuir esta triste situação, é a mim. Porque sou demasiado comunicativo, tomo toda a gente por igual, sou incapaz de ser grosseiro. O resultado, com certas educações, rapidamente se instala a familiaridade, o tu-cá-tu-lá, misturando tudo: sentimentos, à-vontade, liberdade, aproveitamento. 

         - O dia acordou claro e um vento ligeiro cirandava em torno da casa. Não fazia calor, havia até uma ligeira neblina suspensa no horizonte. Quando desci para o pequeno-almoço, ao abrir a porta, dou com as hortênsias que durante a noite tinham rejuvenescido, catitas e de sorriso aberto. São elas que me amparam os dias, são elas que me iluminam as manhãs, é nelas que repouso o cérebro e enterro os desaires frágeis da existência. 

         - O tema do dia, são os ataques dos neonazis e a construção de uma rede internacional para derrubar pela extrema direita a democracia. Não duvido de uma tal construção que se sente impulsionada por Donald Trump. São violentos, atacam inocentes, não respeitam as leis, tudo fazem para se impor pela força. Contudo, são uma vantagem para uma certa esquerda dando-lhe espaço, visibilidade, discurso e acção de ordem vária. Porque esta é tão violenta como aquela, usa a força das palavras, o poder da argumentação, o ódio, a messiânica missão de impor ideologias, que mais não são que democracias disfarçadas de ditaduras. Portugal, noutros tempos, também conheceu esta mesma arbitrariedade por parte dos grupos extremistas de esquerda. Portanto, muita atenção a uns e outros. O que soubemos que se passou no interior do Bloco de Esquerda no tocante ao desprezo pelas suas funcionárias grávidas e outras que largaram o partido, indica-nos o rumo que facilmente nos leva para o outro lado – o despotismo.