domingo, novembro 17, 2024

Domingo, 17.

Foi com regozijo que li a reconciliação de Simon & Garfunkel aos 83 anos. Para assinalar a alegria desse encontro, ontem passei uma parte da tarde a rever o álbum que eles editaram na CBS Bridge Over Troubled Water. E prometo, se subirem ao palco de novo e vierem a Lisboa, irei vê-los. Mais: até chegar às suas idades, vou revisitar a sua música com mais frequência. Força rapazes, acabou a tontaria.  

         - Escolhi o dia de hoje para ver Anora. O filme é para corações empedernidos e cabeças estruturadas. Mas sobretudo para os que se perdem de amores por Putin. Sem decerto querer o trabalho de  Sean Baker é igualmente um retrato dos oligarcas que sustêm o ditador Putin. Quis escapar às greves que aconteceram no metro e nos comboios, sem esquecer as dos professores. Toda a gente reclama mais dinheiro, a canção é a mesma em todos os sectores e parece que os senhores deputados juntaram-se na mesma avidez. Para aquilo que fazem, quero dizer, a litania de ódios, as presenças mudas e estáticas ao serviço dos partidos, já auferem mais que suficiente. O problema, reconheço, é que todos os salários da classe média são esmolas e nem quero entrar nas reformas que são gorjetas. António Costa (sempre ele) vendeu a imagem de um país rico e talvez tenha razão, pois conseguimos sobreviver às manobras financeiras do senhor Medina e a todos os roubos do líder José Sócrates aos diversos socialistas que integraram o seu governo.   

         - Estas linhas de António Barreto: “Se excluirmos o óbvio, como sejam o voto e as liberdades, a saúde perfila-se.” Será?  O problema para mim é simples: sem saúde não há liberdade, nem votos. (Leia-se o que escrevi, quarta-feira, dia 13).

         - Luís Montenegro diz que não é substituindo a Ministra da Saúde, que os problemas da saúde se resolvem. E tem razão. E tem-na contra o pedido do PS e quejandos, que fazem essa exigência (como sempre em bicos de pés está a viúva), pois quando puseram na rua a sua ministra hoje radiante da Silva em Bruxelas, os problemas não só não desapareceram, como se agravaram e de que maneira com o seu sucessor. 

         - Cedendo ao convite da Maria João que não via há muito, estive hoje em Lisboa. Ora, tendo eu nascido e crescido na capital, e havendo passado milhares de domingos correndo ruas e espaços desertos, esta Lisboa que me recebeu é um enorme lugar descaracterizado, onde vive um mundo escuro, se fala muitas línguas e se espanta com a pobreza estampada naqueles que se cruzam por nós. Sinceramente, não vejo beleza nem humanismo nesta paisagem tão cara à esquerda, que não a vê senão através das limusinas, repimpada nas mordomias que a política criou para ela. “Coitados dos imigrantes” diz a viúva e a actriz que vive à grande em Bruxelas, e digo eu porque os vejo nas ruas, perdidos nos transportes púbicos, acampados nas estações de comboios e nos jardins ao relento. No metro, sentou-se em torno de mim, um bando de brasileiras que falavam tão alto que todo o vagão as escutava. Falando sempre no gerúndio, às tantas, prontas para sair, interrogam a que estava ao meio lado: “Você se levanta ou está enrolada?” A enrolada desenrolou-se de pronto. 


sexta-feira, novembro 15, 2024

Sexta, 15.

Estou curioso embora não espere nada de transcendente, em saber o que vai ser o reinado de Donald Trump. Pela escolha do seu Governo, dos nomes que têm vindo a lume, aquilo cheira-me a um bando de patifes. Mas gostava de estar enganado. Contudo, à escala mundial, com a manápula sobre Europa e outros continentes de referência, a coisa vai ser parecida com o caos e a desorganização que nos coube a nós no modo António Costa. Desse aspecto, temos a sorte de estarmos imunizados. Suponho que o contraponto do excesso de poder num homem imprevisível, tombe para ONU como vigilante do equilíbrio mundial. Outro detalhe de grande importância: o convite de Joe Biden a Trump para tomar chá na Casa Branca e falarem sobre a transferência de poder. Uma bofetada de luva branca que muito apreciei. Ele sai lustroso, depois de ter escolhido (ou alguém por ele) o desastre Kamala Harris. As esquerdas por todo o lado parecem passadas a papel químico, mas sectárias como são, não aprendem.    

         - O tempo mudou. Eu sabia que isto do arrefecimento versos-lareira, o pior é começar. Assim, a casa encolheu-se, mirrou-se, aninhou-se de frio para deixar que as lareiras brilhassem no encanto de noites longas e frios recolhidos. 

         - Por Espanha, Itália, certas zonas de França as intempéries trazem agora nomes como se os cientistas as quisessem humanizar. O pior é que elas não cedem à violência e às catástrofes que as acompanha e deste modo somam-se mortes, cidades destruídas, a indústria paralisada, o comércio encerrado e as pessoas abandonadas à sua sorte. Assim tendo sido, assim voltou a ser anteontem, ontem e hoje. 


quinta-feira, novembro 14, 2024

Quinta, 14.

As memórias de Alexei Navalny lêem-se com sofreguidão. Nem uma semana tem que comprei Patriota e já devorei metade do livro. É uma autobiografia que conta a luta do ativista pelos direitos humanos e, simultaneamente, a história da URSS e depois a Rússia de Putin herdada do alcoólico Yeltsin. Escrito nas prisões por onde o autor passou antes e logo a seguir ao envenenamento e recuperação num hospital na Alemanha, por obra da senhora Merkel, bendita seja, as suas páginas estão cheias da juventude que acredita na palavra enquanto força de atracção da verdade e movimento das ideias que conduzem à liberdade. Quando recordo aquilo que militantes comunistas me diziam à cerca do eldorado que se espraiava pelo vasto território da URSS, com o centro em Moscovo, gente naturalmente que nunca daqui tinha saído e confiava nas verdades da intelectualidade da altura, homens sombrios, dedos manchados do tabaco, tristes, cofiando os bigodes no abandono abominável de quem não vive no reino da luz dos povos governados por aquele trio sinistro: Lenine, Estaline, Kruschev. Ainda hoje escuto dos que se dizem comunistas, a sombra de palavreado que ignora a verdade ou pretende tomar o todo por partes, como, por exemplo, tudo é política, luta de classes e quejandos, que escondem ou realçam as mentiras que armadilham sob o pretexto da luta de classes. No tempo daqueles senhores, tudo tinha de ser explicado em termos de luta de classes, desde que eles estivesse excluídos de enxame do povo pobre, às ordens dos ditadores, onde a corrupção imperava por todo o lado e a miséria era tanta a par da escravidão em que vivia o povo da URSS, que ainda hoje reina sob a batuta do homem que se galardoou para mais não sei quantos anos à frente dos destinos de 270 milhões de almas. O poder é e sempre foi “a vaca leiteira” que seduz em carrossel toda e elite russa hoje chamada oligarcas.  À medida que vá avançando, aqui voltarei para criar a curiosidade e o prazer aos meus leitores em descobrirem as mentiras que sempre foram apanágio dos governantes soviéticos e hoje estão arreigadas num só homem: Vladimir Putin.  

Indispensável 

         - Ontem, não parei em andanças por toda a cidade. Quando, enfim, me acomodei no Fertagus para retorno à minha santa terrinha de adopção, encontrei o resultado: 6,5 km percorridos; 8 pisos palmilhados; 8951 passos andados; 7,55 horas de sono. Nada mau. 

         - Hoje entrecortei o dia com leituras, uma insistência com Ana Boavida que me rejeitou logo às primeiras palavras, e uma ida à piscina para meia hora de natação. Tempo que nos ameaçaram chuvoso e apenas deitou umas comoventes lágrimas.


quarta-feira, novembro 13, 2024

Quarta, 13.

Ontem vi imagens assustadoras num canal estrangeiro de TV do comboio que costuma fazer aquele baile mandado dos eurodeputados entre Estrasburgo-Bruxelas-Estrasburgo. Vi explosões a desfraldarem dentro das carruagens. Pensei que teria sido obra dos chamados antissemitas, mas até ao momento não se sabe nada. Não se registaram feridos, e os nossos zelosos eurodeputados não foram amputados de nenhum membro. Graças a Deus. 

         - Agora que Trump já quase anunciou a sua equipa governamental, prosseguem as análises de todos os ângulos sobre que o levou à maior maioria de sempre na América. Citado por Teresa de Sousa (aviso já que não temos parentesco embora o apelido seja o mesmo), referindo um homem que eu aprecio sobremaneira, Fareed Zakaria, que no Washington Post  reflectiu sobre o discurso das “políticas identitárias” que eu chamo de moda, depois de invocar os erros dos democratas, afirma: “Olharem para as pessoas quase só através da sua identidade racial ou étnica ou de género, não os deixa ver a realidade tal como ela é.” Assim é, com efeito. Todavia, quem acerta na muche, é a nossa jornalista: “O problema não está em que estas preocupações não sejam justas, que são. Está em que, se somos todos iguais, também somos todos diferentes.”  

         - A coisa está preta. Fazer política neste querido e infeliz país, é semear ódio por todo o lado. Que o diga esse direito que está acima de todos os outros: o acesso à saúde. Que foi completamente destruído pelos socialistas e quem não se lembra do ministro que começou por tudo fazer para ser ministro e depois vacilou numa valsa mal dançada com sindicatos, médicos e enfermeiros. Aquilo era uma bagunça diária, um tremendo desencontro entre a realidade e a propaganda. Chegou Montenegro e a ministra da saúde, Ana Paula Martins, as coisas a pouco e pouco começaram a amainar, com diversos acordos alcançados, decerto contra os patrões dos sindicatos e dos partidos. Ultimamente o desastre do INEM que vem muito de trás, rebentou e no Parlamento foi uma festa de acusações da parte das esquerdas sem responsabilidades e do PS que lá esteve e nada fez para solucionar a situação dos técnicos do INEM que, de resto, debandaram em força no tempo de António Costa. Das palavras da excelente ministra, percebeu-se que deve estar cansada e pensa abandonar a pasta, deixando os arruaceiros a falar sozinhos. Pois eu daqui, peço-lhe, cara Senhora, que não se demita. Defronte esta chusma de doidos varridos e imponha o saber e competência, reduzindo-os à sua força democrática. Que algum leitor ou leitora, leve este meu pedido à competentíssima ministra, que ainda por cima é equilibrada, sabedora e dialogante. Como me dizem que tenho muitos leitores entre a classe médica, que algum aceite esta incumbência.   

         - Ora, nem a propósito. Ontem fui ao meu Centro de Saúde. Saí daqui cedo, com o croché na mochila, e sentei-me a trabalhar num café perto do Jardim da Estrela até às onze e meia quando tinha consulta. Praticamente só para mostrar os exames que tinha feito há dois meses. Como tudo estava em ordem, fiquei à conversa com a médica que tem substituído a minha cara Dra. Vera Martins de regresso no início do ano após o nascimento de uma menina. Esta clínica, Dra. Luísa, é uma jovem empenhada na sua profissão e nos seus doentes. Disso se falou e às tantas, ela desabafa: “O que mais me custa, quando chego a casa e revejo o meu dia de trabalho, é pensar que não sei se os medicamentos que prescrevo aos doentes que vejo resultam ou não, porque muitos deles nunca volto a vê-los.” Percebi a profundidade das suas palavras, o seu interior, e emocionei-me a um ponto que senti as lágrimas inundarem–me os olhos. Disse-lhe “a senhora (ela mais parece une jeune fille rangée) nem imagina como isso me toca! É por pessoas assim que eu apoio e louvo o Serviço Nacional de Saúde. A senhora é magnífica.” E abalei para não me expor mais. No caos de egoísmo e luta pelos valores materiais em que o mundo se tornou, encontrar um ser humano com esta dimensão, é um tesouro imenso que me obriga a não desesperar da humanidade. Ela é a semente que germinará da ganância e da indiferença humanas. 

         - Depois, de súbito, a casa regelou. Então, acendi a salamandra que une a sala de jantar à cozinha, e pus o edredão na cama. Assim começou o Inverno por aqui. Há tanto frio, o vento que passa é gélido, que me espanta esta inusitada invasão. 


terça-feira, novembro 12, 2024

Terça, 12.

Fiz por assim dizer as pazes com a Carmo Pólvora. Eu explico. Desde aquele fatídico almoço no 1800 aqui narrado, nunca mais atendi os seus insistentes telefonemas e furtava-me a encontrar-me com ela. Isto durante mais de um ano. Acontece que outro dia, para preencher o serão, desligada a televisão, após as notícias, peguei no livro que ela em tempos me havia oferecido e mergulhei a fundo nele. A obra é um trabalho conjunto com o poeta João Rui de Sousa (alguns poemas são magníficos) e redundou num trabalho absolutamente sublime, poderoso, belo, levantado do fundo mais fundo da extraordinária pintora que ela é. Fiquei a flutuar de página em página, rendido à magia da sua forte abstracção, onde a presença da realidade é transformada num símbolo poético que abraça o espaço e lhe dá a dimensão mítica de singular beleza. O domínio da cor, a introdução dos valores simbólicos, os sombreados que amparam e fazem sobressair a ideia enquanto matéria apenas abordada, mas suficientemente presente nas linhas melódicas do traço e na definição do objectivo. Até perto da meia-noite ali estive, absorto, a olhar cada pintura, a ler o poema que a acompanhava, abraçado pelo silêncio e o escuro da noite que jorrava estrelas sobre a obra luminosa e incandescente de Carmo Pólvora. No dia seguinte liguei-lhe. Ela atendeu, surpreendida. Quis saber a razão daquele contacto ao fim de tanto tempo. Disse-lhe que depois de ter olhado atentamente a sua bela obra plasmada no livro Respirar pela Água, não há zanga nenhuma, nenhum João Corregedor à face da terra, que possa impedir de lhe dizer quanto admiro o seu trabalho.  A tua arte vingou o desgosto daquele asco de almoço. Parecia apatetada. 

         - Lição do moderno português de hoje utilizado por todo o lado: “Qual é que é o problema?” 


segunda-feira, novembro 11, 2024

Segunda, 11.

Para cumprir calendário, assei umas quantas castanhas no forno, ocupei-me do arranjo da cozinha, dei um jeito ao salão, confeccionei um prato no forno para arquivo. Todo este trabalho extra surgido do nada, tirou-me umas horas ao meu quotidiano habitual. Não me lamento porque, a pouco e pouco, aprendo a arte de aceitar o que o destino escolhe para me abastecer os dias. Neles cabem tanto o deslumbre como o inevitável. 

         - As intempéries que assolaram Valência e arredores, não cessam de nos atormentar. Sabe-se agora que os mortos foram 220 e mais de 50 pessoas continuam desaparecidas, 100 mil viaturas apodrecem nas ruas, a cidade é ainda um lamaceiro incrível. A população, essa, não desarma e está por toda a Espanha aos milhares a pedir a cabeça do autarca por “assassino” e péssimo gestor da crise. Ele e Sánchez.  

         - Trump, na língua dos russos e italianos, pronuncia-se “trampa”.  Donald Trampa. Haverá coincidências? 

         - Grosso modo, o Executivo de Luís Montenegro oferece-me confiança. À parte, talvez, a ministra da Administração Interna, Margarida Blasco, com o seu infeliz prenúncio de que em Janeiro iria discutir com os sindicatos das forças de segurança o direito à greve dos agentes da ordem, e indo lá atrás à gestão dos fugitivos (ainda nem todos encontrados) da cadeia de Vale dos Judeus que também apalermou o bastante, todo o resto da equipagem tem a minha simpatia. Mesmo aqueles de quem tinha dúvidas, mostram-se competentes, céleres e correctos nas decisões. Até porque a greve dantes era o derradeiro recurso; hoje é uma arma rápida de manejar bastando um sopro dos sindicatos ou partidos. Gente que diz favorecer os trabalhadores, coitadinhos, com quem eu viajo e espero nas gares tempos incertos de chegada dos comboios, e ouço os seus dramas e lamentos pelo transtorno pessoal e financeiro que isso lhes acarreta e de que os barões sindicais se estão literalmente nas tintas. Sou dos que acham urgente rever a lei que permite tantos abusos, decretar interrupção de serviços públicos às sextas e às segundas-feiras, encostados a fins-de-semana longos que tanto jeito dão aos revolucionários.  O savoir-faire desta gente é uma arte conquistada pelo 25 de Abril, Sempre. 

         - Não resisto a transpor para aqui o artigo de António Barreto “A democracia também é de direita”, saído no Público de ontem. Esta passagem: “Identificar a democracia com a(s) esquerda(s) e estas com a bondade e a humanidade é o mais miserável erro de pensamento político que se pode imaginar. Impede de pensar e compreender. Dispensa a argumentação. Quem assim se comporta ajuda as autocracias de todo o mundo. Estimula as direitas.” Está tudo dito e não fui eu que o disse.   

         - Os governantes europeus condenam a prisão os manifestantes antissemitas, como este fim-de-semana aconteceu quando eclodiram escaramuças no final do jogo entre o Ajax e o Maccabi (isto para mim é chinês, transcrevo como leio). Nem sei quem ganhou e para o caso pouco importa. O que resultou foi mais impressionante que o jogo, e redundou em confrontos que fizeram cindo feridos e 62 detenções. O acontecimento teve lugar em Amesterdão e os revoltosos investiram sobre os adeptos israelitas em sinal de protesto contra a guerra na Faixa de Gaza, melhor dizendo, ao genocídio palestino. Podem os governos tomar tais medidas quando a hipocrisia os leva a fornecer armas a Israel? É a minha pergunta, a minha pura e absoluta revolta.  


domingo, novembro 10, 2024

Domingo, 10.

Não me escapa por entre o silêncio que aqui reina, o ruído constante da nossa classe política, que se serve da democracia para obter os louros que entumecem as suas vidinhas vazias. E qualquer coisa ou facto serve, a avidez é uma doença sem cura. Choram lágrimas de crocodilo pelas onze mortes da semana que passou, como se nós os honrássemos por tanto zelo e pranto derramado pelas almas dos falecidos e a indiferença dos sindicatos que regem o pessoal do INEM causador do abandono dos aflitos, com a sua gloriosa greve impossível de compreender. Acusam a ministra da Saúde, pedem a sua substituição, atiram-se ao primeiro-ministro, tudo como se ele e a sua equipa pudessem restabelecer em meia dúzia de meses o rasto de destruição e caos deixados pelos socialistas nos oito anos de governação. Melhor fora que “o maior partido da oposição” se ocupasse com o país real e deixasse de ambicionar o poder a qualquer preço. 

         - Estou esgotado e por aqui me quedo. Hoje tive que dar assistência ao senhor Nilton no trabalho de desentupir a rede de canos da cozinha, ficando esta alagada em consequência. Não há nada que não me calhe. 


sexta-feira, novembro 08, 2024

Sexta, 8,

Quem ler aquele rosário de misericórdias com que o patriarcado do PS incensou os pobres e imigrantes, rubricado por António Costa e seus associados no Público de anteontem (Em defesa da honra do PS), percebe o que foi o reinado daquele que hoje impera em Bruxelas com todas as benesses que os dois milhões e meio de pobres nunca alcançarão por muito longa que for a sua vida. Confrontemo-lo. O Eurostat avançou há dias com os números de 2023 e Portugal surge em 13º país da UE como a maior taxa de risco de pobreza e exclusão social. Assevera o estudo que mais de 2 milhões de habitantes em Portugal continuam a viver numa situação de vulnerabilidade, e pelo menos 12 por cento dos activos vive com rendimentos abaixo do limiar da pobreza e “ter emprego não garante que se consiga escapar à pobreza”. Que posso eu acrescentar, se não pedir encarecidamente aos meus leitores que não embarquem nos discursos daqueles que se aproveitam da situação ou vivem em mundos sem qualquer ligação com a realidade. Nós, “todos, todos, todos” não existimos – somos vermes que só existem quando se arrastam para votar.  

         - Antes que baixe o ruído que espantou políticos e a turba de jornalistas e comentadores, quero acrescentar mais alguma coisa ao que disse no dia das eleições americanas. Não sei que Donald Trump surgirá desta vez à frente dos destinos da América. Do meu ponto de vista, num país ancorado nos direitos humanos, na justiça e igualdade, nunca um qualquer Trump devia poder candidatar-se ao governo da nação. Explico porquê. Um homem que foi acusado de um rol de crimes (pelo menos 34); que está a contas com a justiça por ter mantido relações sexuais com actriz porno e a ter remunerado com dinheiro da empresa; que provocou o incêndio e assalto ao Capitólio; que falsificou resultados para ocultar pagamentos; que levou da Casa Branca para a sua residência documentação confidencial; estes e mais alguns processos que correm contra ele, e decerto vão ser arquivados, são o descrédito da democracia e dos valores morais que alicerçam a nossa vida colectiva. Entregar os destinos de uma nação imensa, com ramificações de toda a ordem sobre o mundo a um reles assim, é apostar numa incógnita assustadora. Quanto ao mais é a Democracia que sai de rastos ludibriada por um homem que se está nas tintas para os seus valores, um egoísta, um mitómano que conseguiu arrastar um povo cansado das políticas e dos políticos. 

         - Lição de bom português, administrada na TSF: “O homem está impactado pelas novas tecnologias.”


quinta-feira, novembro 07, 2024

Quinta, 7.

À grande calamidade das inundações em Valência, juntam-se agora os roubos e açambarcamentos de produtos alimentares. Parece que a polícia e, sobretudo, os voluntários, patrulham noite e dia as ruas e já conseguiram deitar mão aos meliantes, pelos menos mil foram presos. As recentes imagens, ao cabo de quase uma semana, mostram militares e agentes da polícia em acção no terreno. Os políticos aparecem de vez em quando, mas são corridos de “sacanas” e “filhos da puta”. O número de mortos ainda não está fechado, porque os parques de automóveis das grandes superfícies comerciais, com vários andares, assemelham-se a lagos que os agentes percorrem de pneumáticos em buscas de corpos.  

         - Zangam-se as comadres e descobre-se o cinismo e a concórdia apregoada como uma das muitas mentiras de que fomos bafejados no período António Costa. No centro da disputa, está o presidente da Câmara de Loures, o socialista Ricardo Leão, no seu propósito de correr das casas camarárias aqueles que participaram nos tumultos em defesa de Odair Moniz, morto pela policia. O Vasco Gonçalves mostrou-se condescendente com ele, mas o clã Costa, em artigo no Público de ontem, assinado pelo abastado socialista de Bruxelas mais os amigalhaços José Leitão e o inefável Pedro Silva Pereira, fazem a apologia da FAUL de onde o autarca acabou de se demitir. Dizem eles que foi na Federação da Ária Urbana de Lisboa, que nasceram muitas das políticas públicas socialistas a favor da integração dos imigrantes, que o socialista camarário com o seu propósito deita a perder. Bem entendido, toda a estratégia do esquerdista agora à frente do PS foi, desde a primeira hora, uma tentativa de banir da memória aquele que se ri de coração e bolsos cheios, anafado de honrarias e, provavelmente, ainda a magicar voos mais altos. Ele é o estratega, o outro o emotivo, o repentista.  Entre um e outro, venha o diabo e escolha. 

         - Antes de deixar Lisboa, ontem, passei no C.I. para comprar o jantar e de caminho o livro de memórias de Alexei Navalny que estou a ler com interesse. O carrasco Putin aparece logo nas primeiras páginas das quinhentas que tenho para devorar. Como é possível (penso nisso muitas vezes) que o Partido Comunista defenda um ditador daquele calibre! Daí que alargue o meu pensar e imagine Portugal sob a alçada do comunismo um dia. Terror, terror. 


quarta-feira, novembro 06, 2024

Quarta, 6.

Como eu previra (v. sábado, 2), Trump saiu vitorioso do confronto com Kamala Harris. Serei eu mais inteligente, olheiro ou perspicaz? Nada disso. O que se passa é que os nossos queridos jornalistas vêem a América com olhos pequeninos, ainda por cima arrimados à esquerda, e não são capazes de analisar com independência factos e circunstâncias, atitudes e ideias de passagem e ligá-los ao que necessariamente vem a seguir, muitas vezes no oposto daquilo que foi proclamado durante os comícios. Assim, adianto, que muito do que Donald Trump disse que iria fazer, não acontecerá. Não só porque ele aprendeu a lição do seu anterior mandato, como porque o mundo mudou e força-o a ser mais cordato, condescendente, cauteloso e lúcido. Sem que com isso deixe de pôr em prática muito dos programas enunciados, mais a mais porque a vitória foi arrebatadora com o Senado e a Câmara dos Representantes a engrandecê-lo. 

         Kamala Harris, como aqui disse, foi uma espécie de abencerragem que os democratas julgavam ser a primeira, mas acabou a última. A sua candidatura foi atabalhoada, a senhora não possuía atributos para o cargo (embora se tenha desenrascado com esforço), mas era alguém que enquanto vice de Biden fora obscura, não tinha a simpatia dos americanos, conhecia-se o seu passado pela Administração Pública, mas não possuía talento e originalidade para a Presidência. Caiu em esquemas que não convencem ninguém e são apanágio das esquerdas como a hegemonia das mulheres, o acolhimento dos imigrantes, a concordância com as espécies de sexo assumidas como bandeira de um terceiro ser que se desfaz das origens para se transformar em algo que o futuro ainda não ditou qual virá a ser. Isto é, preferiu as modas, o patuá, as ideias feitas, à concepção da realidade enquanto valor colectivo. Porque, adianto já, nos aspectos económico-financeiros, falou a América que, de esquerda ou direita, sobrevaloriza a riqueza enquanto arma que subjuga os pobres, as nações, faz as guerras e reduz o outro a lixo. Curioso. Lendo e escutado os media nacionais, a vitória da senhora era um facto consumado. 


terça-feira, novembro 05, 2024

Terça, 5.

Deixei-me levar na torrente da chuva batendo nas janelas. Ela tinha o mesmo timbre do silêncio de asas abertas no dia encolhido de tristeza. Pensei ir nadar, mas o rumor, lá longe, onde as dores se acolhem, reteve-me. No caminho de terra batida aonde chego quando daqui parto, não passava vivalma. Havia, todavia, no túnel de arvoredo encharcado, um mistério que não ousei decifrar e se fez a pouco e pouco uma memória por inventar. Desviei o olhar das estantes de livros quedos, do rumor das vozes surdas que proliferam por toda a casa e fiquei quedo a escutar tudo quanto não ousarei divulgar. Há um mundo que me espera, mas eu hesito em conhecê-lo, a mente perturbada pela incógnita que sobrou dos anos vividos. Sem pressas, contudo, vou-me aproximando, espreitando quem foi adiante, e nada rima com o salmo decantado levantado das cinzas dos mares. 



segunda-feira, novembro 04, 2024

Segunda, 4.

Quando Luís Montenegro falou em libertar a escola das “amarras a projectos ideológicos de facção”, o ex-ministro do Governo de má memória, Sr. João Costa, apressou-se a chamar ao proposto pelo primeiro-ministro, um “retrocesso civilizacional”. Pois é. Quem lhe responde à letra, em artigo ontem no Púbico, é o professor João Marôco. Aconselho a sua leitura que não se restringe ao momento, vai lá atrás acusar os sucessivos ministros da Educação de preferirem os portugueses reduzidos à escolaridade obrigatória, que nada tem a ver com Cultura. A esta gente, a quarta classe, basta. Quanto mais analfabetos, humildes e alienados ao futebol enquanto pilar do “bom povo português”, melhor.  

Eis a nossa triste situação e matéria de Leitura, Matemática e Ciência. 

         - O meu Centro de Saúde era exemplar em tudo. Hoje é um desastre e a razão foi-me transmitida: a tomada extraordinária de gente vinda do Nepal, Afeganistão, Índia, África. Elas com filhos na barriga; eles com toda a sorte de doenças que a pobreza e a miséria produzem. Acresce que há pouco pessoal auxiliar e médico para esta avalanche que serve os mafiosos para ganhar muito dinheiro ao trazê-los para o nosso país onde a saúde é à borla. Esta é mais uma obra transgressora de António Costa. Faz muito bem Luís Montenegro em estabelecer regras de entrada no nosso país, de contrário somos nós os prejudicados e a ira contra os imigrantes vai entrar em fase de ódio – os pobres não têm culpa. Ficam bem os socialistas contentinhos com as suas ideologias, mas a prazo são os portugueses que vão sofrer (já sofrem) com o SNS de pantanas.  

         - O desplante do Vasco Gonçalves não sei como classificá-lo. Tudo o que ele condena ao Governo actual, foi exactamente aquilo que os socialistas fizeram. Por exemplo. Ele reprova ao primeiro-ministro não ter ainda ido aos locais onde a desordem e o crime imperou e fala de leis que não são aplicadas ou deviam ter sido ordenadas, mas omite as dezenas e dezenas de decretos-lei criados por Costa, muitos deles renovados ou esquecidos três ou quatro dias depois de terem sido publicados. Dir-me-ão, mas este secretário-geral do PS não é António Costa. Compreendo. Não ignoro, todavia, que ele quis fazer esquecer o reinado do seu antecessor e o resultado está à vista: da escolha dos eurodeputados à forma atabalhoada como se tem imposto ao país. O homem não tem sensibilidade, não possui grandeza, personalidade, saber para ocupar o cargo. Só o radicalismo partidário não vê o que salta à vista de qualquer pessoa que pensa, observa e avalia. 

         - Outra tragédia se anuncia para o Sul de Espanha. Desta vez o temporal parece ir-se deslocar para Barcelona. Seja como for, em Valência e burgos adjacentes, a água que entretanto caiu, aumentou a desgraça voltando a inundar e a criar lodaçal sobre lodaçal. Os atingidos gritam por socorro, têm fome e frio, estão sem tecto nem lugar onde dormir, têm a vida virada do avesso. Sánchez, do interior confortável do palácio de Moncloa, fala em prender os criminosos, promete, promete mas não ousa descer ao terreno onde os infelizes o enxameiam de ignomínia. 


domingo, novembro 03, 2024

Domingo, 3.

São difíceis de ver as imagens que continuam a chegar de Valência. A única nota positiva foi a chegada maciça de voluntários vindos de toda a Espanha. É impressionante ver aquela mobilização quando falta tudo (ou quase) da parte das autoridades locais e sobretudo do governo central. Ao quarto dia, apareceram o Rei e a Rainha,  e também Pedro Sánchez. Foram corridos pela população indignada com a indiferença das autoridades, ouviram, alto e bom som, a população a insultá-los: “fora daqui”, “assassinos, assassinos”, enquanto lhes atiravam com lama. O governante socialista, para quem a propaganda é a sua principal nota governativa, ainda não decretou a calamidade nacional nem solicitou à UE ajuda. De facto, de tantas cadeias de televisão que tenho visto (nacionais e estrangeiras), nunca presenciei imagens de agentes da autoridade ou militares no teatro das operações.   

         - Surpreendeu-me pela positiva o artigo do cineasta Luís Filipe Rocha sobre o activista e revolucionário Camilo Mortágua, publicado no Público de hoje, falecido aos 90 anos. Embora a personagem não me diga nada, o artigo disse-me muito. É bem pensado, magnificamente escrito, num português eloquente, que não só aviva a memória do lutador, como deixa dele a imagem que nem todos partilham. Retenho esta passagem por me parecer à luz dos nossos dias arauto inestimável. “Nunca o poder ou a política enquanto palcos ou trampolins de cargos e benesses públicos ou privados, de carreira partidária ou verborreia ideológica lhe interessaram.” 

         - De facto, enfim, não há maior satisfação e alegria, bem estar e júbilo que o duche que reencontrei após um longo período de banhos comme ci comme ça. 


sábado, novembro 02, 2024

Sábado, 2.

Tenho acompanhado com interesse a campanha para a presidência dos EUA. A impressão que tenho é que Trump sairá vencedor do confronto com Kamala Harris. Não me informo lendo e ouvindo o que dizem entre nós jornais e televisões que, como é habitual, propagandeiam a temática dos socialistas. Faço-o lendo e vendo outros meios de informação internacionais mais independentes e, portanto, objectivando com seriedade factos e acontecimentos. A eleição do trovão vai ser uma desgraça para o mundo, mas a sua opositora é fraca, durante o seu reinado como vice, não passou da cepa torta, é uma construção para correr com Biden que também foi um Presidente medíocre.  

         - Ficam-me os olhos de mágoa ao ver a catástrofe que se abateu no Sul de Espanha. O número de mortos não pára de crescer e já ultrapassou as duas centenas. É dramática a situação de milhares de espanhóis que tudo perderam: casas, familiares, haveres, ruas e pontes, auto-estradas e os sítios herdados dos seus antepassados. Sobra a extraordinária mobilização de todo país que desembarcou em Valência e arredores para ajudar quem precisa e confortar os abandonados à sua sorte. Que alguma lição se tire desta desolação e se pense em construir menos, de forma a que os solos possam absorver o que por direito lhes pertence.   

         - A saga do Skoda ainda não terminou. Esta manhã fui meter gasóleo quando um grupo de homens que por ali parava, me alertou: “Já viu que está a perder combustível no chão.” Abri o capô e na realidade vi esguichar por um pequeno tubo o líquido. Um deles que trabalhava na gasolineira, propôs-se ajudar-me. Fez várias tentativas com fita adesiva para bloquear o furo do tubo do rotor (julgo que foi assim que ele lhe chamou), mas em vão. Telefono ao ucraniano que ainda estava a dormir e combinámos que ele viria buscar-me para juntos irmos ver o que se passa. Resumindo: a falta foi do mecânico segundo o empregado das bombas, porque ao pôr o novo motor devia ter substituído todas as borrachas e tubos com ligação ao mesmo – coisa que não aconteceu. 

         - De igual modo a questão do furo artesiano. Diz-me o simpático rapaz que há quatro anos era uma beleza e agora apareceu de pança majestática e cara de bolacha, que o total do arranjo rondará os 300 euros. Decididamente a riqueza não quer nada comigo. Contudo, se puder tomar hoje um duche comme il faut, ressuscita em mim a bem-aventurança. 

          - A lição de bom português, registada na RTP1: “O porquê que vai impactar tudo isto...”


sexta-feira, novembro 01, 2024

Sexta, 1 de Novembro.

O presidente da Câmara de Loures, perante as noites de pré-revolução que tiveram lugar em muitos sítios da capital e arredores, incluindo, Loures, na sequência da morte do infeliz africano morto a tiro na Cova da Moura, decidiu expulsar os cúmplices pelos estragos públicos, com aprovação do Chega e outros partidos à excepção do PCP, das casas de renda económica onde vivem. Embora não concorde com o vandalismo a que se assistiu, e ache que devem ser condenados e ficar atrás das grades, penso que esta não é a melhor forma de fazer justiça e não estranho que tenha saído de um socialista de gema. Vimos muitas coisas parecidas nos oito anos de governação António Costa. Esta gente nunca me enganou. Se fosse Montenegro ou Moedas a fazer um tal descrédito, caía o Carmo e a Trindade, corridos a fascistas e racistas. Como foi um socialista, bico calado. 

         - Esta manhã, na Brasileira, uma senhora empregada já com alguma idade, que se exprime num português impecável, superior ao de quase todos os políticos, diz-me de imprevisto: “O senhor é muito bonito e jovial.” Encolhi-me, apalermado. Recompus-me e fui pedir parecer a dois dos rapazes que nos servem à mesa: um cabo-verdiano, outro português, ambos pelos vinte anos. O primeiro disse “e é”, o segundo “digo o mesmo”. À mon age! Pena que o Papa Francisco resida tão longe. 

         - Não há nada que não me aconteça. Saí para Lisboa muito cedo deixando o portão aberto para que o técnico que há quatro anos me pôs o furo a funcionar, viesse ver que doença o consome agora. Quando regressei, tinha o tubo da água com os seus oitenta metros, estendido até à entrada da quinta. Telefonei ao rapaz para saber o que se passa e ele respondeu-me que o tubo está roto em vários pontos pelo que tem de ser substituído. Bah! Bem sei que com os seus mais de trinta anos de actividade, merece um fim digno. Mas que diabo! Tudo ao mesmo tempo não dá para aguentar. Annus horribilis. 


quinta-feira, outubro 31, 2024

Quinta, 31.

Desforro-me agora por todo o lado e de todas as maneiras do grande período de reclusão com saídas precárias. Assim, hoje fui à piscina e estive a nadar durante uma hora praticamente de seguida; outro dia fui a uma esplanada e fiquei um tempo esquecido a saborear a liberdade que tanta falta me fez; ainda outra vez fui ao supermercado e deu-me para me satisfazer de tudo quanto via, estive depois no pequeno bistrot da entrada a ler o Público como se fosse a primeira vez. Tanta largueza de impulsos trazem a marca de uma vida escolhida, obstaculizada apenas pelos imprevistos que nos atingem a todos. Entre este percalço e uma existência fechada num tabuleiro chique ou remediado, com vista para os telhados simétricos da grande urbe, escolho mil vezes este recanto onde vejo o Sol nascer, as noites estenderem-se no dorso limpo das recordações vividas, das paixões sofridas, dos silêncios arrebanhados da impressão clara da vida... 

         - A martirizada Espanha atingida por um temporal medonho que destruiu povoações, reduziu Valência a escombros, matou para cima de uma centena de pessoas e arrasou bairros inteiros, transformando-os numa papa de lama onde os cadáveres dos infelizes jazem, atirando os seus moradores para as ruas, em desespero, de súbito sem tecto nem haveres. O Sul o país está paralisado, pontes desfizeram-se, auto-estradas desapareceram, prédios caíram, um sem-número de carros levados na enxurrada, Espanha surpreendida, parou. Ricos e pobres defrontam-se na mesma condição. 

         - O mundo civilizado e livre, ficou estupefacto com aquela vénia respeitosa e obnóxia de António Guterres ao ditador Vladimir Putin. Deslocou-se o nosso compatriota a Moscovo onde o tirano reuniu uns quantos países que compõem os BRICS para o endeusarem. Tanto o nazi precisa de gente como o secretário-geral da ONU! Definitivamente o nosso socialista não acerta uma, parece até que é naïf, pouco experimentado em lidar com a casta reles dos políticos dos nossos dias. Aquele acrómio, cujos países fundadores foram a Rússia, China, Índia alguns mais e outros que se lhes juntaram, pretende ultrapassar ou comparar-se com o dólar e enfrentar as economias ocidentais e americanas. Mas não têm hipótese, pelo menos nos próximos anos. Compare-se só este pormenor: o banco dos BRICS conta, este ano, empréstimos no valor total de 5000 milhões de dólares; o Banco Mundial 72.000 milhões. Daí que eu me incline para outras pretensões por parte de Moscovo. A Putin tudo serve para a sua sobrevivência. O fim está próximo. O mundo não tarda a dar-lhe a reposta que merece. 

         - Justamente. A Israel tudo lhe é permitido. Agora, Netanyahu, quer enfrentar todos os países que compõem as Nações Unidas e fez passar uma lei proibindo operações da agência da ONU na ajuda aos refugiados palestinianos, a UNRWA. Guterres respondeu que “a legislação nacional não pode alterar essas obrigações”. Será? Dentro de Israel quem manda são os ortodoxos em que o ditador se apoia. São eles que escorraçam os funcionários da ONU dos territórios ocupados, num genocídio praticado à frente de todo o mundo. Eles hão-de vingar os seis milhões de judeus exterminados pelos nazis. 

         - Vou transcrever num arrepio: entre 2015 e 2023 foram identificados 836 casos de casamentos infantis em Portugal.  A maioria têm 15 e 18 anos, mas há 126 situações que envolvem crianças de 10 e 14 anos; 346 entre os 15 e 16 anos, sendo os rapazes com menos de 18 anos os mais afectados. Como é isto possível num país organizado, com fiscalização de muita ordem, leis que nos dizem algumas serem neste domínio das mais avançadas da Europa (quiçá à moda portuguesa), do mundo?


quarta-feira, outubro 30, 2024

Quarta, 30. 

De facto a saúde em Portugal deteriorou-se imenso. Talvez não possa falar dos actos médicos, mas do sistema organizativo, do acesso aos cuidados primários, à marcação de consultas com o expediente que permite a toda a gente trabalhar o menos possível com o processo agora em vigor das “primas” que nos atendem ao telefone. As repartições de finanças adoravam o sistema, até que este executivo acabou com ele. O meu Centro de Saúde que trabalhava muito bem, de repente, entraram as “primas” e desqualificaram tudo. Acrescem também as greves. Nesta altura existem por todo o lado, com especial acuidade a dos médicos e transportes (refiro-me, claro, à CP). O cidadão não conta para coisa nenhuma, ninguém o defende, esmagado pelas centrais sindicais e pelas redes de interesses políticos de toda a ordem. Quem esfrega as mãos de contente, é o sector privado que vai enriquecendo com a vida das pessoas - nunca  o negócio da saúde andou tão próspero. Miserável país este. 

         - Vamos a ver se nos entendemos. Socorro-me de Roger Martin du Gard, grande amigo de Gide, também ele senhor de um volumoso Diário. S´il est tout naturel au Journal d´un écrivain d´éclairer son oeuvre, il ne l´est pas moins de considérer que ce genre d´ouvrage est, peu ou prou, un témoignage de son auteur sur son époque. 


terça-feira, outubro 29, 2024

Terça, 29.

Aleluia! Aleluia! Ao cabo de três meses sem carro, ei-lo de novo de retorno. Aparentemente de boa pinta, parecendo conhecer o seu dono e a casa que fora a sua durante uns quinze anos. Logo que o senhor ucraniano mo entregou, fomos passear juntos a fim de nos estreitar-nos e sabermos se ainda nos entendemos e este entendimento é para outros tantos anos tudo aponta que sim. Resta do grande desarranjo caseiro, o furo. Pesquisei nos meus papéis e encontrei o contacto do rapaz que o montou, em 2020. Ficou de cá vir hoje. O electricista que contactei outro dia, observando a bomba que continua a trabalhar, aventou a hipótese de o furo estar seco – facto que excluo por diversas razões. 

         - O Chega, por assim dizer, é um projecto da esquerda, sobretudo do PS e BE. Estes dois partidos tanto o esventraram que expuseram à opinião pública o desejo de o  curar dos males que elas, esquerdas, lhe atribuem a propósito de tudo e nada. Deram-lhe tanta importância que a sua grandeza adveio da importância que lhe foi outorgada por aqueles que o combatem. Em Ventura tudo é estratégia – coisa que o PS e BE ainda não perceberam. O Chega é a imagem do país, analfabeto, preocupado com tudo menos com a democracia, boçal, alheado da política, arruaceiro, vivendo do imediato, com preocupações básicas e o espírito instalado à manjedoura das televisões que substituíram a família, a escola, a religião. A exemplo da aberração Donald Trump, Ventura, seguindo-lhe os passos, vive de petardos que impressionam a esquerda que pretende só ela possuir o garante da democracia. Acontece porém, que o Chega é um partido representado na Assembleia da República, e como tal com liberdade de emitir toda a sorte de disparates, inventar factos, mentir e atacar quem professa ideologias diferentes da sua – se é que tem alguma. Por outro lado, vivemos felizmente em democracia, e como tal com flexibilidade a expressarmos ideias e filosofias nem sempre comummente aceites. A livre expressão do que sentimos não deve ser proibida, mas corrigida quando necessário, dialogada e, se possível, abrangente. 

         - Pois é. Durante muitos anos assistimos à dupla António Mexia e João Manso à frente da EDP, gurus embalsamados pelos media, laureados por serem génios da economia e estrategos exemplares, com lucros de milhões todos os anos. Sabemos hoje que não passavam de aldrabões, tecendo tramas de corrupção e charlatanice, numa espécie de polvo de grandes dimensões, que José Sócrates fingia desconhecer. O PGR acusa um rol de ilustres gestores entre eles o ex-ministro daquele que foi para Paris aprender a tocar piano e a falar francês, Manuel Pinho. A coisa é tão grande, que se julga haver o Estado perdido 840 milhões de euros e, assim, requerer a perda de bens dos arguidos e da EDP Gestão de Produção de Energia e da EDP. 


domingo, outubro 27, 2024

Domingo, 27.

Não resisto em assinalar o texto de António Barreto de ontem no Público. Sou lisboeta, nascido e criado, com excepção de uma parte da minha adolescência passada em Coimbra, é aqui que me fiz quem sou. Também tantas e tantas vezes me tenho referido à minha terra com tristeza, ao Chiado onde continuo a ir tropeçando em toda a espécie de lixo que a modernidade e o turismo trouxeram, a desumanização e a desordem que parece ter dado o mote a uma cidade sem projectos nem beleza, entregue às loucuras promocionais e políticas dos últimos autarcas e, sobretudo, presidentes de câmara.

Lentamente, os lisboetas adaptam-se e habituam-se a tudo: ao lixo nas ruas, à erva dos passeios, à calçada levantada, aos buracos nas ruas, aos abrigos rodoviários desfeitos, aos edifícios em ruína deliberada, ao estacionamento em segunda fila, às filas de carros evitáveis e às filas inevitáveis de cidadãos diante dos serviços públicos. Os lisboetas habituaram-se aos monumentos em ruínas, às casas abandonadas, às fachadas históricas deformadas e à publicidade luminosa de parolo e pechisbeque. Os lisboetas habituaram-se ao desmazelo, à fealdade e à sujidade. Tal como se habituaram ao pobre, ao sem abrigo e ao pedinte. 

Pior do que tudo, os lisboetas habituaram-se à desigualdade, à miséria, à imigração explorada, aos trabalhadores estrangeiros ilegais, aos alojamentos imundos, aos bairros segregados e aos novos guetos étnicos. 

Lisboa tem hoje a mais, sem previsão nem ordem, turistas, imigrantes, ilegais, pobres, comerciantes e outras populações errantes. Lisboa e Portugal podiam ter tudo o que têm, e muito mais, se fosse melhor, se estivesse previsto, se houvesse políticas e regras.

De repente, por causa de um incidente desastrado e fatal, em que um agente da polícia matou um cidadão, os lisboetas acordaram para uma Lisboa difícil, segregada, desmazelada, ilegal, drogada, explorada e pronta para a violência. 

         - Depois do dia de ontem de uma tristeza infinita, o de hoje acordou cheio de vigor, limpo, anunciando nas extremidades o Outono que acabou de chegar. Uma ligeira ponta de frio insinua-se pelas taliscas da manhã, não fere, não subjuga, espoja-se nos espaços, esfriando-os. 


sábado, outubro 26, 2024

Sábado, 26.

Às oposições tudo serve para chicana política. Fervorosos defensores dos imigrantes, piedosos das suas ideologias sem contrapartidas nenhumas, dizendo-se dignitários protectores daqueles que procuram uma vida melhor entre nós e depois deixam-nos pelas ruas da amargura, dormindo e vivendo miseravelmente, sem respeito e dignidade, tudo aproveitam para se gloriarem de um humanismo de pacotilha, de corações endurecidos pelo radicalismo e sectarismo de que deram provas estes dias no Parlamento. Aquele espectáculo é digno do mais putrefacto e vil que à sombra da democracia nos é dado assistir. O vandalismo é para as suas obsessões a possibilidade, o trampolim que encarcerariam se chegassem ao poder. Tenham ou não razão os que se indignam pela morte do infeliz às mãos de um jovem polícia na noite de quarta-feira no Bairro da Cova da Moura, perdem-na quando misturam a raiva e o desespero e atentam contra a liberdade de milhares e destroem bens públicos e privados em actos de criminalidade impossíveis de aceitar em qualquer regime político. 

         - Já não falta muito para sabermos quem ganhará as eleições nos Estados Unidos da América. Chamemos àquilo democracia. Ou antes, digamos que ela só imperará, se o dinheiro às mancheias for injectado no sistema dito democrático. Não vale a pena chorar no molhado. Quando o maior milionário do mundo, Sr. Elon Musk, oferece um milhão de dólares por dia num sorteio a quem votar em Trump, temos a ruína da democracia diante dos nossos olhos estupefactos, temos a democracia reduzida a um qualquer produto. Como foi possível chegar até aqui? Perguntem à ganância daqueles que querem o poder pelo poder. 

         - Toda a gente exige somas fabulosas para fazer face ao custo de vida, não se perguntando onde vai o Estado buscar o dinheiro necessário à satisfação desmedida de todos os sectores. O nosso país é pobre, a riqueza está nas mãos de uns quantos, o solo não produz coisa que se veja, não temos matéria prima de relevo, e assim o dinheiro que o Estado possui chega-lhe em pescadinha no roulement dos impostos. Por agora o turismo vai sendo a mina de ouro. Não é, todavia, certo que o jazigo não seque. No sistema capitalista em que nos encontramos, tudo o que os governos ofereçam, a inflação vai por trás e rouba. A nossa sociedade, mesma em democracia, não é equilibrada. Uns tudo fazem para a perverter convencidos que na podridão podem tomar o poder; outros instalam-se e chamam ao seu umbigo o mealheiro da riqueza subtraída por manigâncias ínvias. 

         - Ontem, quando descia o Chiado, numa manhã tépida de sol tímido, em passo lento, experimentei o suave encanto que me imbuía de alegria. Foi um momento indiscritível, uma espécie de bênção descida do alto, a sensação de pertencer àquela artéria da cidade desde tempos imemoriais. A minha história pessoal funde-se com aquele lugar, pois desde muito cedo ali parava, ali perto trabalhava, ali aprendi os valores da liberdade ouvindo este e aquela, artistas com quem me cruzei que sem ser esse o seu objectivo escolheram-me como mensageiro de protestos e denúncias que ainda hoje carrego.  Estas páginas e os livros publicados e escritos, são disso testemunho.   

         - Igualmente ao serão, depois do noticiário, afundado no sofá do salão, o silêncio cirandando por todo o lado, a noite aberta lá fora, as estrelas espreitando cá para baixo, senti em mim uma paz profunda como há muito não experienciava. Rodeado de livros, peguei no Somerset Maugham e envolvido no romance, esqueci as horas. Ao aproximar-me das 150 páginas, ouvi o relógio que está por cima da lareira bater meia-noite. Só então me despedi das personagens e do espaço mágico onde estivera submerso por um tempo sem tempo.