1 de Janeiro.
Outro dia para travar o João com as suas ideias de democracia e interpor um guarda-vento às suas palavras em catadupa, falei do desastre psicológico que a democracia entre nós tem provocado a toda a gente e particularmente à juventude. Ele ouvia em silêncio, ufa!, atento a tudo o que eu proferia sem intervir, pelo contrário parecendo reter cada palavra. E que discorria eu? Congeminava sobre esta democracia de confronto permanente, de luta de galos em busca de poleiro, negando sempre o trabalho do que chegou, numa política do bota a baixo, trazendo os reais destinatários, nós, num constante alarido, que leva à descrença e à alienação da vivência democrática. Os nossos políticos pouco democráticos, incultos, nada conhecedores da civilização de onde partiu este regime, parcamente educados no seio das suas famílias, muitas vezes labregos no sentido absoluto do termo, tomaram a democracia como o exercício permanente do confronto, da gritaria nas televisões, do pouco trabalho dos dossiers, e até o Parlamento pegaram de assalto transformando-o numa praça onde os produtos-ideias vão a leilão. Não há seriedade nos seus modos de trabalho, no estudo afincado dos problemas, tudo se passa como coisa vulgar que se ajusta ao confronto entre eles. As leis que saem, sabem que não podem ser cumpridas porque, por muito bem feitas que algumas por milagre possam ser, não têm supervisão de ninguém, e ficam como bala de arremesso para o próxima confrontação. No campo oposto, longe do seu universo de alucinações e descomprometido da sensibilidade e valores sociais, está a massa anónima dos portugueses que se arrastam, aparvalhados, pela vida dura que é a sua. Não têm sossego, assistem todos os dias à chegada da desilusão, do abandono, da entrega a si próprios. Os jovens, mais precisados de atenção, mais sensíveis pela idade e as descobertas, vêem no seu país o descrédito no futuro. Não há quem olhe por eles, a sociedade dita democrática, exclui-os do futuro, da aventura da vida, da aceitação da felicidade. Num país permanentemente em guerra, onde não há dias pacificados para acolher os seus interesses, ideias, obras eles fecham-se sobre si próprios, e trilham os caminhos da alienação absoluta pela via das drogas, do futebol, dos concertos que pouco têm de música, antes os levam a chafurdar no ruído que entontece e os remete para mundos que emparelham obsessões, delírios, entregas furtivas a este e àquele dogma, sorrisos, piscar de olhos, num remate de vida que está para lá da vida porque se radica nos espaços sombrios da existência humana. Nascidos e criados nesta desordem política, psicológica e emocional, sem períodos de silêncio onde o pensamento se instale, a camaradagem flua, os dias nasçam para eles e com eles possam viver e coexistir, sem a merda da política brejeira a sujar as horas, os meses, os anos, a propor o insulto, o grito, o ódio, numa casa onde todos ralham e ninguém tem razão... Que será feito desta juventude saída da democracia de discórdia, arrogância, ódio, revolucionários e gente ordinária? Espero ter vida para a ver. Por agora, é notório que os nossos políticos não se dão conta do prejuízo e desastre que semeiam todos os dias contra a democracia, além de reduzirem psicologicamente a juventude ao alheamento da vida colectiva e da construção do amanhã. Os traumas sociais vêm do exercício do poder em labaredas como é o nosso, da ambição egoísta e do pensamento trespassado do desespero.
- Não falto todos os anos ao Concerto de Ano Novo de Viena d´Áustria. Este ano o maestro foi um homem de meia-idade, médio de estatura, ruivo, um pouco dançarino, divertido que soube agradar à assistência burguesa que tem entrada no teatro por gerações, Yannick Nézet-Séguin. Introduziu compositores interessantes sem ter posto de lado (seria despedido) a família Strauss. O primeiro número de dança que acompanhou, julgo, a peça musical dedicada às mulheres, foi surpreendente de arte, improvisação e talento artístico. O primeiro bailarino absolutamente arrebatador.
- O nosso primeiro, voltou à carga com a sua pouca cultura concentrada na arte de pontapear a bola do “maior jogador do mundo”. Por que razão, esta gente, quando chega ao poder depressa se vulgariza. É para mim um mistério. Melhor fora que ele fizesse como quando assumiu o primeiro mandato: pouca fala e muito trabalho. Assim, é uma cópia da governação dos socialistas de má memória, uma assimilação do pobre do Ventura e um desastre dos miúdos de esquerda.
- Ontem deitei-me tarde. Estive a ver o espectáculo transmitido de Paris pela antena 2 francesa e apresentado pelo fatiloquente Stépfane Bern. Paris é a capital geminada com Roma e daí ter aproveitado a ocasião para o espectáculo de luz, música e história derramada no Arco do Triunfo, magistralmente. Todo os Champs-Élysées que eu conheço como as palmas das minhas mãos, fascinante de arte, as árvores que descem lá de cima até à Place Concorde, decoradas de luz e das cores da bandeira nacional. Propriamente fogo de artifício só no quarto de hora depois da beleza que passou em narrativa no monumento. A isto chama-se cultura e a França não perde oportunidade de o dizer. Aqui somos o maior do mundo em tudo, até na saloiice que pespega o povo na Praça do Comércio a ver estrelar foguetes no rio... A verdade porém, é que estive com a Annie como em outras noites frias quando subíamos e descíamos “a mais bela avenida do mundo” (já agora, não é?.