Terça, 13.
Uma volta pelas estantes de filosofia e religião, desenterrou volumes que não digo estarem esquecidos, antes arrumados sagazmente de forma a voltarem à luz do conhecimento a qualquer momento. As obras são numerosas e descem do cimo da parede ao chão. Queria eu pesquisar a palavra “alma”. Retinha, vagamente, uns quantos conceitos de autores clássicos e contemporâneos, mas não sabia com precisão o que cada um meditara sobre o assunto. Felizmente, tenho o bom hábito de sublinhar e anotar à margem o que me atrai a atenção ou molda a sensibilidade. Aristóteles e Platão, este com a sua teoria tripartida da alma, demasiado enfeixada para traduzir aquilo que me parece do domínio divino, portanto, instruído na leveza e sensibilidade como são todas as normas e conceitos vindos de Deus. Santo Agostinho, porém, no seu sétimo grau da evolução da alma, resume a conquista desta pela eternidade e assim chega à Sabedoria de Deus. Há uma frase vivificante a este propósito: “Somente Deus é superior à alma e somente Ele deverá ser adorado.” Muitas foram as culturas e religiões (Cristianismo, Budismo outras mais) que através da filosofia exploraram a alma como elemento fundamental da essência da vida. Aristóteles, por exemplo, mergulhou no cosmos da consciência e de certa subjectividade para trazer à superfície algo que não é palpável enquanto configuração normalizada da conduta humana. Agostinho no seu monumental Civitate Dei (pág. 2331, Ed. Gulbenkian, Trad. J. Dias Pereira): “Nem a carne deixa de desejar contra o espírito nem o espírito contra a carne.” S. Paulo vai mais longe: “corpo e espírito interpenetram-se”. Porfírio mais radical: “A alma para se purificar deve evitar todo o corpo.” Eu, se me fosse lícito, diria: a alma vive na intercepção do espírito.
- Na pág. 1326 esta curiosa anotação: “que significa a circuncisão senão a renovação da natureza pelo despojamento da velhice”.
- E assim fui lendo muitos sublinhados e apontamentos de rodapé. A dada altura, pág. 917, encontrei estas palavras que vão directas aos Corregedores que inundam este pobre país: “O que acontece é que um homem, escravo de qualquer vício, ameaça e amedronta com as suas mentiras, não um demónio ou a alma de um morto, mas o próprio Sol, a Lua ou qualquer outro astro para lhes extorquir a verdade!”
- Continuo com imensas dores no fundo das costas. Amanhã vou voltar à minha médica a ver o que ela me oferece para as atenuar. Só acontece quando ando. Sentado, deitado, de pé ofuscam-se como por milagre. Hoje pensei ir à piscina, mas lembrei-me que o grande sofrimento da semana passada começou quando terminei a natação. Talvez tivesse exagerado.