Quarta, 7.
Hoje não saí deste convento ocupado com afazeres domésticos. Ontem porém, fui à Expo falar com um técnico da Mac como me aconselhou a madame fantasma como são os empregados da Macintosh – só os ouvimos ao telefone, mas não sabemos onde estão, quem são e a quem nos dirigirmo-nos. Bom. Belo dia ensolarado. Desta vez fui de autocarro, através da Ponte Vasco da Gama, pleno de passageiros, mas, ao contrário do fertagus, nenhuma negra medonha a falar ao telefone em altos berros, atirada para duas cadeiras, devido ao volume corporal que vai de acordo com o vozeirão. No interior reinava um silêncio perfeito, a paisagem belíssima desfilava ante o meu olhar hipnotizado pela beleza do Tejo, com a capital a desenhar-se no horizonte e à medida que nos aproximávamos recortada como um vislumbre imperceptível de luz matizada de música e cores contagiantes. Fui e vim navegando inteiro, submerso da poesia que me visitou e me ungiu de um nada que continha tudo.
- Uma vez mais viajei com a Annie. Ontem, no jornal da 2 francesa, vi a França coberta de um manto espesso de neve, a longa fila de carros de Norte a Sul de Este a Oeste, com cerca de mil quilómetros de bouchon. Quantas vezes isso nos aconteceu! Vindos do Norte ou do Sul em direcção a Paris, em muitas ocasiões admirei a paciência e coragem do Robert preso em filas monumentais e horas e horas parados com a neve a bater nos vidros do carro. Annie tinha sempre uma palavra amiga para comigo, na convicção de que seria para mim doloroso a viagem porque pensava no “Avril au Portugal”. Depois, mais adiante, retirava do saco uma banana que partia ao meio para Laure e para mim, uma sandes e um golo de água que cada um vertia para a sua pequena garrafa. Chegávamos exaustos e felizes.
- A campanha para a Presidência vozeia em derradeiros dias. Ontem assisti um momento ao debate entre os 11 (11, céus!) candidatos que nos propõem de tudo um pouco e, sobretudo, fraqueiam-nos a sua natureza interior cheia de ódios ressequidos, falcatruas financeiras, vaidades devastadas por infâncias avoengas, conflitos internos mal resolvidos, percursos de vida sombrios e passo. Até o Almirante, o das vacinas, misericordiosa personagem, de pescoço empinado, farda galante, espírito autoritário e sorriso malévolo, transformou-se neste último mês na personagem que se escondia atrás da palavra vertical, seca, segura de si e militar. Virou, literalmente, um vendedor de peixe numa lota onde a faina do mar foi inexistente ou só trouxe pescada podre. De todos aqueles gananciosos do poder, irei votar como sempre disse, em António Seguro, embora veja dignidade em António Filipe e naquela sensibilidade tenra, inocente e proveitosa que é o candidato do Livre. Com a sua fragilidade, coerência e devoção à causa, Jorge Pinto, seria o meu favorito. Tudo o resto enferma das ideias batidas, dos sentimentos gastos, das promessas apodrecidas, das ilusões sem voos, da quietude, do bem-estar sobre ondas mansas, do quotidiano banhado sol fraco das primaveras passadas...
- Prossigo o Green. A sua vida foi marcada pelo desassossego, pela eterna luta entre o pecado e a graça, entre o sexo e o amor. Tudo é exposto como confissão de quem se purifica lançando nas páginas do livro o seu profundo acto de contrição. Estou absolutamente convencido, que a sua obra enquanto valor libertário da sua condição sexual, trouxe imenso reconhecimento e dignidade da causa homossexual. A própria Igreja já o reconheceu quando, mais de uma vez, o seu imenso edifício ficcional foi citado no Vaticano.
- Continuo com dores de costas. À parte isso - o check-up que irei buscar amanhã confirmará -, nada mais me faz sofrer. Levei a minha vida toda sem sofrimento físico, nunca tive dores de cabeça, nunca senti o meu corpo lancinante senão, quando o amor me sacudia da cabeça aos pés inundando-me de dores sentimentais. O que verifico, é que estou a coxear melhor (ou pior conforme quem sabe decifrar o meu trote trote). Oh!