quarta-feira, janeiro 21, 2026

Quarta, 21.

Surpreende-me como a democracia americana permite que o seu Presidente se comporte como um salteador de tesouros, um alarve, um egocêntrico, utilizando o cargo para negociatas, valorização pessoal, invasão de nações soberanas, chantagens, enriquecimento pessoal e dos amigos, rompa tratados, monte uma organização dita de paz passando por cima das Nações Unidas, vocifere ordinariamente contra este e aquele que lhe faça frente, ordene bombardeamentos a países independentes, destitua presidentes eleitos pelo povo, force a obtenção do prémio Nobel da Paz (que, de resto já o obteve embora em segunda mão) enfim, se ache na posição de rei do mundo, juiz de todos os conflitos, mais poderoso que o próprio Deus. Parece haver nele uma pressa devido à idade de deixar no mundo um nome, uma obra imortal, um olhar diferente sobre tudo o que até hoje se foi construindo passo a passo, com esforço e alguma pureza de intenções pelas gerações que o precederam. 

         - Recorro Albert Camus quando em 1957, em Estocolmo, no jantar da celebração da entrega do Nobel: “Cada geração supõe-se destinada a refazer o mundo, mas a tarefa da minha talvez seja maior. Consiste em impedir que ele se desfaça. (...) Em face de um mundo ameaçado de desintegração, em que os grandes inquisidores procuram estabelecer para sempre o reino da morte, ela sabe que deverá, numa espécie de louca corrida a contrarrelógio, restaurar entre as nações uma paz que não seja a da servidão, reconciliando trabalho e cultura e voltando a estabelecer entre os humanos uma sagrada aliança.” E este aviso do humanista, em 1940: “Estamos decididos a suprimir a política e a substitui-la pela moral.”  Quem dera!  

         - O inferno tecnológico em que vivemos, em que nos desumanizamos, em que gastamos o melhor de nós e nos arruinamos enquanto irmãos fraternos, percebi eu ontem durante duas preciosas horas no Vasco da Gama. A mim só me interessa num computador o tratamento de texto. Contudo, para o conseguir, tenho de fazer a via-sacra dos números ímpares e de toda a parafernália de demónios e sintaxes do algoritmo. 

         - Vou vadiar a Lisboa. Tenho um encontro com o Carlos Soares que me telefonou para o efeito. Ufa! Com ele perceberei um pouco melhor os séculos XVII e XVIII e ficarei a reconstruir em mim a real beleza da vida passada a pente fino pelos olhares eminentes dos grandes mestres. 

         - Ainda não escrevo estas linhas no novo Macintosh. Para tal vou ter que passar o Cabo das Tormentas e chegar sem cheta ao novo ecrã do aparelho.