domingo, janeiro 04, 2026

Domingo, 4.

Ia-me a esquecer de deixar uma palavra à despedida de Marcelo Rebelo de Sousa aos portugueses em fim ano e de mandato. Até ao último dia igual a si mesmo, leu um papel, praticamente de Eça de Queiroz, para comparar a personagem João Gouveia de A Ilustre Casa de Ramires, ao que somos como povo pastoreado por um conjunto de políticos que parece não lhe deixam grande recordação. Acontece, porém, que a personagem é absolutamente secundária na obra, uma espécie de manga de alpaca, com rodriguinhos e muita ronha e oportunismo. Além de que a obra, nem foi revista pelo escritor que a deixou por editar. Apesar de tudo, prefiro as comparações de Marcelo a Eça, que as de Montenegro a Ronaldo. Há entre os dois um imenso abismo de cultural. 

         - Sabemos como os acontecimentos começam, não sabemos como terminam. Vem isto a propósito da arrogância de Donald Trump e seus apaniguados, que perfilam obedientes nas suas costas quando o homem de negócios fala sobre os mesmos. Com total impunidade e sem obstáculos de nenhuma nação digna desse nome matou, lançou bombas sobre vários locais de Caracas, prendeu o presidente e a mulher, meteu-os num avião, algemou-os e ele está numa cadeia de Washington a aguardar julgamento. Para trás deixou um país sem gestão, preocupando-se em anunciar que os homens de negócios americanos vão tomar conta e gerir o maior fornecedor mundial de petróleo. Nesse entretanto, embalado pela proeza, já ameaça fazer o mesmo a Cuba e à Gronelândia e logo depois aos Açores. O momento é dos ditadores. Que responsabilidade pode a América pedir a Putin pela invasão da Ucrânia, quando o homem que elegeu para presidir aos destinos da nação americana, se comporta como um verdadeiro tirano, rei e senhor do universo, omnipresente por toda a parte onde as nações tenham qualquer produto que ele possa roubar. Perante o que temos diante dos olhos, não tarda que a bomba nuclear seja utilizada. Vou chamar para esclarecer melhor este meu pensamento, dona Teresa de Sousa que no Público de hoje (artigo, decerto, escrito antes do rapto de Maduro) nos dá a sua impressão do estado em que se encontra a ordem mundial. “A democracia não costuma ser a maior preocupação do Presidente americano, os negócios sim. A democracia não pode ser imposta por uma intervenção externa. A intervenção americana pode ser apenas o regresso, mais de um século depois da Doutrina Monroe, anunciada na nova Estratégia de Segurança Nacional americana, segundo a qual o Hemisfério Ocidental deve voltar a ser o “pátio traseiro” dos Estados Unidos. Maduro tinha recebido um enviado de Xi Jnping na véspera do golpe. Segue-se o Irão? Ou a Gronelândia?” O mundo é uma incógnita. 

         - Eu vigio o meu corpo dos tratamentos. Com efeito, depois de três dias insuportáveis de dores, decidi iniciar a toma de um comprido (o médico dizia dois) de Rantudil 60 mg.. Ontem, poucas horas depois de a droga entrar no meu organismo, logo comecei com ligeiras melhoras. Hoje enfiei o segundo e tenho missão para mais três dias e... basta. Na verdade sou o mais refractário a medicamentos que se possa pensar. Prefiro sofrer, dar tempo ao corpo para reagir por si, e só quando não posso mais entro, cheio de pavor, nos comprimidos. 

         - De súbito um dia limpo, quase cristalino, com o céu a derramar sobre a terra o Sol luminoso, que nos permite olhar a paisagem com os olhos da infância amadurecida pelo espanto da Natureza. O silêncio, hoje, trazia um ciciamento profundo que só cada um de nós pode decifrar.