Sábado, 17.
Dias agitados de idas e voltas a Lisboa. Mais uma vez, tendo ido ao Vasco da Gama buscar o Mac, utilizei o autocarro e desfrutei da beleza de um dia desta vez de chuva torrencial a cair sobre o Tejo e a capital traçada na bruma da tarde, tão longe e tão perto, como magia que se revela sem contudo se desvendar completamente, um pingo de música na sinfonia que envolveu toda a viagem. Para meu agradável espanto, a Macintosh aceitou a minha argumentação e não me cobrou um chavo pelo novo ecrã. Vou voltar à Expo terceira-feira para verter tudo o que este computador possui para o novo.
- Outro dia fui à minha excelente médica, Dra. Vera Martins, que voltou a analisar todos os exames, o electrocardiograma, as minhas queixas de dores nas costas e de tudo concluiu que eu estou com a saúde de um jovem de vinte anos. Saí com a receita de duas caixas de Ben-u-ron que, segundo ela, me tirará as dores se (acrescentou desconfiada que eu cumpra) tomar um comprimido de oito em oito horas. Estou a cumprir há três dias. As dores amainaram, mas não despegam deste corpinho airoso...
- Depois retornei para me encontrar com um grupo de gente de várias idades, alguns jovens e imensa vivacidade. A discussão galopou sem rédeas em todas as direcções. Como estamos em mês de eleições para a Presidência, falou-se dos candidatos e do baixo nível da campanha. Uma senhora simpática, quando eu me insurgi contra o Ventura, assinalou-me que o conhecia pessoalmente e que não pensasse eu que ele é como se apresenta publicamente. “É uma pessoa extremamente educada, boa, agradável.” Eu repliquei que isso não me interessava porque o que está em jogo é aquilo que ele apregoa, o modo como o faz, a desordem de ideias que divulga.” Acontece que entre os jovens, estava um rapaz de 21 anos, de férias em Portugal, com regresso amanhã a Chicago onde estuda na faculdade economia e gestão. Contou ele que a universidade lhe oferece alojamento, uma bolsa e a alimentação chega a ser mais barata que em Portugal. Falou igualmente do grupo de estudantes – espanhóis, ucranianos, brasileiros, portugueses – que com ele formam o grupo dos estrangeiros. Os portugueses, dizia, são os mais apreciados, os mais inteligentes, os mais procurados depois do curso, os mais fieis às empresas onde trabalham. Com eles formou um grupo de futebol e todos se dão às mil maravilhas. Logo que acabe a faculdade, tem companhias que lhe pagarão 100 mil euros anuais como ordenado de entrada Perguntei-lhe como via a América sob a batuta de Trump, disse-me que está tudo a desaparecer e que Chicago está irreconhecível como a própria América que passou a ser designada por Estados Destruídos da América. Depois ao meu ouvido, acrescentou: “Nós, na faculdade, dizemos Estados Fodidos da América.” (Desculpe-me o leitor pela ordinarice que julgo estar plena na concepção hoje da nação americana. É a primeira vez que em milhares de páginas deste Diário, apus um turpilóquio desta grandeza.) Tive pena de não ter pedido a dois dos jovens o número de telefone, pois pareceram-me malta impecável quando comparados aos seus congéneres.
- O mundo vai de mal a pior. Trump destruiu tudo, abalroou todos os alicerces, quer conquistar países que sejam ricos em matérias que lhe interessam e pôr no lixo os outros onde a pobreza é congénita. Compreender para onde vamos – eis a questão que ninguém sabe responder. Depois de ter atacado a Venezuela, prepara-se afincadamente para anexar a Gronelândia. Macron, de súbito um líder, junto com outros países da UE, enviou soldados para o país. A NATO também estará presente sob o subterfúgio de uma possível invasão da Rússia. Sendo a América igualmente membro da Organização. Que fará Trump face a este imbróglio. Newman dizia “O maior privilégio de um cristão, é não se envolver na política mundial.”
- Amanhã voltarei a Lisboa para votar em António Seguro. Ufa! Enfim termina a algazarra de gente que devia ser civilizada e se revelou um punhado de gajos e gaijas brejeiras. O que me fica na memória, é o desfile de moda da senhorita Catarina naquele filme promocional. Ei-la saltitante ou a passo decidido, descontraída ou hirta como se quer um presidente da república, de salto alto ou sapatilhas, avançando na direcção da câmara, um tailleur à maneira, um sorriso de donzela recatada, o cabelo ao vento marítimo, imagens de todo o país com sua excelência a presidente da república oferecendo os seus préstimos aos portugueses, verdadeira dama das camélias à portuguesa, mas mais moderna, mais sábia dos truques ideológicos, do apetite da caçarola, da ronha que empanturra os papalvos.