Segunda, 19.
Ontem, manhã cedo, rumei ao Chiado e, como é hábito, fui recebido calorosamente pelos empregados da Brasileira, na maioria africanos, cabo-verdianos, que já não me viam há mais de uma semana. Sentei-me na esplanada pouco frequentada por turistas sempre em vantagem. Nunca me senti tão bem ali, a manhã fria qb, aberta à limpidez que tudo abraçava de ternura, a nostalgia a coçar-me os sentidos, a enovelar-me o olhar que a pouco e pouco foi humedecendo e tive de disfarçar. Ali me deixei ficar por mais de meia hora, extasiado ante a luz que do Céu descia em cachos cintilantes e levantava aquela artéria de todas as memórias presentes e passadas. Uma sensação nunca alcançada de bem-estar, de me sentir presente no pedaço de vida que me coube viver, o corpo abandonado ao prazer da leveza que tudo carrega sem uma lamúria. Tudo me cativava e nada me retinha, porque a minha mente, estando ali, pairava por horizontes de memórias ancestrais. Um dos empregados, que decerto não me vê como cliente antes como amigo (eu parece que cativo as pessoas e construo relacionamentos que logo se transformam em cordialidade e aproximação), perguntou-me, num tom ingénuo que me sensibilizou, se o achava bonito. Respondi como fazem os machões antes de a uma da manhã, que não apreciava homens. Ri-me, rimo-nos.
- De seguida, tomei um táxi e fui ao liceu Passos Manuel votar. Pouca gente. Surpresa. Na volta, fui para a paragem do autocarro ao fundo da Calçada do Combro. Instantes depois, aproxima-se um rapaz brasileiro, sorridente, finório, nem bonito, nem feio, que mete conversa comigo; palavra puxa palavra, logo as intimidades floresceram sem que eu tivesse dado conta. Disse que morava em Santa Catarina, que se dedicava a vários negócios e de repente, para meu espanto, que eu era muito bonito e tinha charme, pediu-me o número de telemóvel (dei-lhe o que me veio à cabeça), fotografou-me e perguntou quando podia visitar-me, se queria ir tomar café com ele. Tudo naquele patuá corrido dos brasileiros, despachado, solto, a intimidade exposta como algo adquirido. O ronrom deve ter durado uma meia hora, e quando o mini-autocarro parou, ele pegou-me no braço para me ajudar a subir. Recusei veementemente. Ele deve ter ficado assustado e foi sentar-se a meio do transporte enquanto eu voei para o fundo. Daí a minutos saiu e volveu-me: “Xau, Helder. Depois telefono. Tout ça á mon âge?!
- E foi António José Seguro que ficou em primeiro e vai disputar a final com André Ventura. A esquerda chique não passou dos um por cento. Sobra da noite aquela lengalenga dos telejornais, sempre o mesmo figurino, sempre os mesmos comentadores, sempre os velhos e relhos apresentadores, sempre os pequenos ódios disfarçados nos sorrisinhos que não conseguem esconder o que lhes espezinha a alma. Que interessa saber onde e quando votaram os candidatos, o que pensa a gente modesta da democracia, o que disseram os candidatos, quem devia ganhar e quem devia perder, toda aquela imensa, chata, monótona ladainha dos infelizes que a democracia exonera e os espectadores mais atentos não dão conversa. Aquilo é por inteiro a imagem de um jornalismo medíocre, feito para pessoas vulgares, para encher o tempo de patetices armadas em gongóricos pareceres, sem sentido de competência nem descida ao patamar mínimo da reflexão.
- Não sei como vou sair do Diário de Julien Green. Sei que cheguei às 600 páginas com os olhos doridos, a visão tolda e o esforço no limite. Aquele papel fino como a massa dos pastéis de Tentúgal, sem espaços, numa letra miúda, páginas e páginas a correr sem parágrafos, só o meu encantamento, a minha grande apetência pelo conhecimento e a descoberta de uma personalidade fascinante, resistem ao esforço quotidiano. Desde a infância que não lia nem ouvia falar de pecados veniais. A Igreja parece tê-los posto de lado por demasiado correntes ou com sentido pouco graves para a engrandecer os confessionários. Só os pecados ditos capitais a fazem descer às ruas e muitas vezes são objecto das suas próprias tentações. O autor de Moira levou a vida a debater-se contra aquilo a que chamava os seus demónios, essencialmente, a doentia obsessão por rapazes. Este quarto volume, está impregnado de sofrimento, de quedas e erguidas, do murmúrio contínuo num doentio borbulhar de confrontos espirituais e humanos, caídas e confissões, de que vai fecundando as peças de teatro e os romances escritos nos anos Cinquenta. A homossexualidade nessa época era repugnante para a sociedade num todo, permissiva para os heterossexuais e castigadora com aos homos. Talvez o primeiro país que rompeu com o drama dos homossexuais, depois de muitas mortes e vociferações, tenha sido o Reino Unido. Com efeito, em 1957, com dossier Wolfenden que preconizou a despenalização das actividades sexuais entre adultos por mútuo consentimento. Por isso, embora esteja convencido da inverdade dos factos, a homossexualidade é no fundo das sociedades algo que as atormenta, que não tem lugar, e que vão ser precisos muitos Greens, com coragem e conhecimento para implementar esse modo diferente de amar, de realização sexual, de equilíbrio humano.
- O descarrilamento de dois comboios de alta velocidade em Espanha fez até ao momento 39 mortos e 152 feridos de entre os 400 passageiros dos dois comboios. A causa do acidente não é conhecida, um deles tinha sido inspeccionado há dias.
- O dia decorreu ao ritmo constante de trabalho. As horas foram enchidas, umas após ouras, do muito que aqui sobra para fazer. Não deixei este presbitério depois da semana passada ter andado num constante vai e vem entre Palmela e Lisboa. Não sei como há milhares de pessoas que vivem sem terem nada para fazer. Mistério.