terça-feira, fevereiro 03, 2026

 Terça, 3.

A quem tiver acesso ao quarto volume do Diário de Julien Green, Toute Ma Vie (Ed. Bouquins), recomendo a leitura das páginas 720 a 725. São trechos dilacerantes do enorme sofrimento do escritor face ao equilíbrio que ele achava imprescindível para viver segundo os mandamentos de Jesus Cristo por um lado e por outro a obsessão pelo corpo de Eros (Éric) que era para ele o demónio transformado no prazer que ambos usufruíam e sem o qual todo o desequilíbrio se instalava. Penso que este sofrimento foi em grande parte o respaldo da sua educação protestante, de uma mãe austera, de um mundo familiar crente ao ponto de se impregnar dos valores tão caros a São Paulo. A noção do pecado carnal hoje praticamente posta de parte pela Igreja, foi no séc. XIX e início do século passado devido às teorias jansenistas de Port Royal, séc. XVII, cujos ecos chegaram até Pascal e outros mais, o mandamento de todos o mais imposto, combatido, explorado e sofrido. Ao longo dos milhares de páginas deste diário pos-mortem, assistimos à luta hercúlea do autor pelo retorno à inocência, pela desistência do corpo e dos sentidos, por um regresso à pureza como se esta já não estivesse impregnada da sua condição humana e, por com seguinte, sob o descontrolo do indivíduo enquanto obra do Criador. O pecado sexual (digamos assim) é parte intrínseca dos impulsos do corpo, algo que durante muito tempo tem difícil controlo e na juventude toma a forma de crescimento a par de todos os outros desenvolvimentos. É uma manifestação (ouso dizer) de liberdade, de grito, de algo que não se confina à moral como não se restringe aos valores sociais e éticos. É o maravilhoso encontro com o outro, consentido para que os dois dele saiam leves e felizes da morada secreta que os juntou. É a natureza tout court libertada para a realização humana. Respeito os clérigos que fazem votos de castidade, e são capazes de ao longo da vida honrar essa decisão, mas penso que Deus deu essa maravilhosa realização humana e, como alguns sacerdotes dizem, estou a pensar em S. Tomás, o chamado pecado da natureza é de todos o que menos ofende a Deus. 

         - Ouvi há pouco um homem simples dar uma grande lição aos políticos e a todos nós: “A mim a política não me governa, só a cultura e o trabalho.” 


segunda-feira, fevereiro 02, 2026

 Segunda, 2.

As malfeitorias climáticas prosseguem. Continuamos com chuva por vezes forte acompanhada de vento veloz e perigoso. Dizem-nos que os rios vão galgar as margens e invadir vilas e cidades. Todo este cenário catastrófico, rima com aquele outro que nos trouxe o Kristin. Os dois candidatos a Belém cheios de piedade e competência, advogam decisões para outros invernos e desgraças a advir. 

         - O mundo está suspenso do que vai acontecer no Irão onde, diz a imprensa, os senhores todos poderosos, mataram para cima de 30 mil pessoas, a maioria jovens posto que o país é constituído de gente a rondar os trinta anos. Entretanto, Putin não desarma e antes de Trump terminar o mandato, terá por inteiro o território devolvido à Rússia. O ditador é feroz e não olha a meios para atingir os fins. As temperaturas deste Inverno rigoroso não param de subir, tendo atingido quase trinta graus negativos. Os ucranianos, sem energia destruída pelo verdugo, vivem momentos difíceis em tendas onde se aquecem e recarregam energias e telemóveis. Também em Gaza, os méritos de Trump para o Prémio Nobel estão claros nas mortes que não param e foram de mais de trinta almas às mãos dos invasores israelitas. O criminoso e corrupto Netanyahu, mantém-se no poder. Num mundo em transformação acelerada, a nossa estimada União Europeia está ausente. 

         - Green chega a ser compungente não só com Deus como para os seus leitores. Ao longo de páginas e páginas, num murmúrio ou ladainha sem fim, ele desarma a sua alma num clamor de preces e interpretações divinas que tarde ou cedo são abafadas pelos prazeres do corpo incendiado de desejos e frustrações sem fim. É certo que o objecto dos seus desejos se mantém firme em MM (Éric). Pensa ele, talvez, que essa obsessão meramente carnal é melhor que andar de rua em rua à procura do imprevisto. Mas, a pouco e pouco, no seu limitado seio de fragilidades e equilíbrios, cresce o ciúme de Robert (o amor da sua vida), e também a preocupação pelo facto de Éric não ter trabalho, nem gostar de trabalhar. Bref. Ele começou a imitar Julien Green e escreveu um romance que o célebre amante ajudou a publicar. (Abro um parêntese para dizer que li um ou outro livro de Éric Jourdan, mas achei-os sem interesse absolutamente nenhum, pese embora as opiniões do futuro pai adoptivo muito elogiosas. Aquilo é pornografia pura e dura onde a homossexualidade é contada de uma forma nojenta.) MM era viciado em sexo (e em dinheiro) e multiplicava as aventuras diariamente. No ano cinquenta e seis não tinha Éric trinta anos e Julien Green aproximava-se dos sessenta. Essa vida airada, não trouxe ao escritor nenhuma espécie de rivalidade muito menos serenidade por ser meramente carnal. A relação sincera e forte era com o seu amor de toda a vida Robert de Saint-Jean.  

         - Hoje daqui não saio, daqui ninguém me tira. Choveu toda a manhã, mas agora o campo encheu-se de sol fraco, luminoso. As folhas das árvores agitam-se numa dança frenética – é a festa que o vento seu parceiro ao bailar expande. 


domingo, fevereiro 01, 2026

Domingo, 1 de Fevereiro.

Dou comigo a magicar que o problema de Donald Trump é a doideira. O homem é maluco, foi corroído pela ganância, pelo seu excessivo ego. Depois, os que estão à sua volta aproveitam-se, oram em torno da imagem senil que se besunta de poder. Os americanos já se deram conta do desvairado que puseram à frente dos destinos do país, a sua impreparação, mas como a Constituição dos EUA dá ao Presidente todas as decisões possíveis e imaginárias ele, sendo Trump, temo-lo rei do universo, inclusive do subsolo das terras profundas onde os metais precisos o levam ao desvario. 

         - Esperemos ruidosos a observar o que vai rebentar no Irão. Trump ocupou praticamente todo o Golfo Pérsico com a tralha do porta-aviões Abraham Lincoln, robusteceu as bases militares americanas no Médio Oriente, colocou mísseis prontos a actuar, enviou centenas de militares e todo este arsenal bélico para quê? O Irão dos Ayatollahs, sendo o que é há 40 e tal anos, respondeu-lhe que experimentasse atacá-lo. Trump não percebe nada da concepção da morte e da vida para os povos persas e outros que por lá pululam. O sacrifício para esses povos é quase desejado enquanto projecção na outra vida em que acreditam fielmente ao contrário dos cristãos que deixaram de admitir que este mundo é apenas uma passagem. Depois existe o próprio regime, sustentado por uma milícia feroz, que protege até à morte o seu chefe nacional e religioso. Se a este governo centralizador e déspota, se juntar a potência que o país é, o seu material nuclear e devastador, eis o quadro que levará a América a deixar em solo estrangeiro os seus melhores filhos. 

         - Na realidade a fúria do Kristin deixou por todo o lado um rasto de morte e destruição. O centro do país está num montão de destroços e as populações sem água nem electricidade, comida e telecomunicações parecem abandonadas à sua sorte. Toda a gente da política usa a desgraça em seu proveito próprio e o Governo, com Luís Montenegro à frente, parece não ter consciência das responsabilidades que lhe compete assumir. Há tantos departamentos, tantos ministros e ministérios, tanta polícia e soldados, e ninguém possui conhecimentos para repor o mínimo de conforto às populações infelizes. Hoje como ontem, hoje como no passado, não sabemos organizar, prever, pensar o futuro. Somos uns tontos alegres ao sabor da vida. 

         - “L´homme scrute le silence, mais le silence scrute l´homme.” Max Picard anotado por Julien Green (pág. 707). 


sexta-feira, janeiro 30, 2026

 Sexta, 30.

A terrível Ingrid foi-se e chegou o bélico Kristin. Para cima de Caldas da Rainha até Coimbra, os estragos são tantos e tão desastrosos, que até o canal 2 francês ontem os projectou. De facto, a sua passagem deixou um rasto de horror e violência., com ventos que passaram os 140 k/m hora e fizeram pelo menos quatro mortos. Cidades e vilas estão destruídas, todas as infra-estruturas foram abaladas, os estragos e seus custos são incalculáveis. Tudo isto, dizem os técnicos, deve-se ao aquecimento climático. Eu não ponho em dúvida, mas quer-me parecer que algures no universo qualquer coisa se modificou, seja por culpa dos homens, seja porque este lugar onde vivemos é tão mutável na sua suspensão e quietude. Os grandes projectos para lhe fazer frente, são esquiçados contra as populações, ou seja a jusante, enquanto a montante a grande indústria prossegue o seu caminho de lucro indiferente à tragédia que consome a vida dos pagantes. Acresce que todas as barragens sem excepção, estão a descarregar. Numa palavra: é à sociedade de consumo que se deve todo este desarranjo existencial.         

          - Não é só neste petit pays que o clima se desarranjou. Nos EUA já houve mais de 30 mortos devido às baixas temperaturas e a casos com elas relacionadas.  Sobre a Europa foram descarregadas toneladas de neve, e na Espanha não só neve como chuvas diluvianas. No tocante à neve, vários distritos no Norte foram beneficiados, pois por cá ela é objecto de gozo e satisfação. 

         - Ainda o debate entre Seguro e Ventura. Eles tratavam-se assim (mesmo nos momentos mais violentos) o senhor doutor isto, o senhor doutor aquilo. Não sendo médicos, é estranho assistir-se a tamanha dose de provincianismo. 

         - Cheguei cedo a Lisboa. Comecei por passar pelo oculista onde deixei há dois meses 600 euros e continuei com o mesmo problema que tinha com os óculos comprados na fábrica dos mesmos – fecho o olho canhoto para ler. De seguida fui ao C.I. e mais tarde abanquei na Fnac para alinhavar estas linhas. Aqui estou como estive anteontem quando, ao fechar o novo computador e não o conhecendo ainda bem, salvei o documento tão bem salvado, que ele desapareceu do ecrã. Pânico. Depois lembrei-me de ir pedir ajuda aos polícias de tenra idade que a livraria tem para acudir a desastres destes, mas o rapaz andou de lanterna na mão em busca do ladrão e não o encontrou - para ele o documento tinha sido apagado. Novo susto. Todavia, ontem de manhã, enchi-me de paciência e iluminado pelos céus negros, sentei-me à secretária decidido a compreender este bicho. Depois pedi ajuda à IA e com as suas explicações, pude rumar à aventura. Devo ter pesquisado por todas as files durante uma hora e, de súbito, eis que o tenho escondido num recanto onde nunca havia entrado. Depois, através do e-mail, arrastei-o de novo para o ecrã e pude prosseguir o meu trabalho. Já não é a primeira vez que tal me acontece. O facto é: sempre que me decido a pôr o cérebro em andamento, quase sempre levo a melhor e digo para mim mesmo “de estúpido não tens nada”. Gaba-te, ó inteligente. 


quinta-feira, janeiro 29, 2026

 Quinta, 29. 

A América virou uma selva. A mando de Trump os imigrantes transformaram-se em gado a abater. A ICE, a polícia criada para expulsar estrangeiros com total impunidade e desumanidade, diante das câmaras de televisão, fuzilou com vários tiros um enfermeiro americano indefeso que se colocou do lado dos pobres imigrantes. Já perdi a conta ao número de imigrantes mortos pela polícia. Como tudo isto vai terminar ninguém sabe. Mas a mim parece-me que uma só morte irá paralisar os EUA. 

         - Esta tarde no fertágus, duas raparigas roíam numa outra do seu bairro. Uma despejava tudo quanto a horrorizava nela, a outra complementava: “Ela é burra na vida porque diz coisas banais. Ela tem problemas no pensamento.” 

         - Estamos nas derradeiras semanas para as eleições presidenciais. António José Seguro, segundo as soldagens, leva larga vantagem sobre André Ventura. Eu fui dos primeiros, senão mesmo o primeiro, a elegê-lo. Perdoei-lhe aquela passagem fugaz pelo comentário televisivo e apliquei nele o meu primeiro voto. 

         - A noite passada voltou a ser assustadora: chuva forte e constante, vento medonho, barulho demoníaco lá fora. Esta manhã observei o resultado: caminhos transformados em rios, espaços abertos em charcas, árvores arrancadas. Aqui, felizmente, o mundo vegetal ficou todo de pé. 

         - Estou pela primeira vez a escrever no novo computador ao cabo de meses de chatices que duraram até ontem. Ainda não o domino completamente, mas o essencial para a escrita já alcanço. Daí o deslumbre de ler as páginas finais escritas no romance há alguns meses. Sublimes. Urge pegar de novo nele e terminá-lo. 


quarta-feira, janeiro 28, 2026

Quarta, 28.

A noite passada foi assustadora. Fui acordado pelas três da manhã com o barulho do vento passando a uma velocidade devastadora. Tudo tremia e os uivos do Joseph eram lancinantes. Depois da Ingrid, veio este sujeito ainda mais ameaçador. Eu só pensava no telheiro que tenho debaixo do meu quarto que há muito se sustém com um barrote que o Sr. Vítor colocou. Depois devo ter adormecido porque me lembro de pelas sete da manhã me ter posto à escuta dos restos sinistros da noite. Mal pus os pés no soalho, fui às janelas de trás e da frente observar os estragos – felizmente não vi nada tombado ou em vias disso. O Black, como é seu hábito, esperava-me à porta da cozinha. Aberta a porta sua excelência entrou seco e feliz como se tivesse passado a noite no palácio de Xerazade, esposa do rei Xariar. Saí para dar uma volta e regressei feliz – nada por pequeno que fosse havia a lamentar. Ao contrario da Alice que na sua quinta de quatro hectares, em Caldas da Rainha, teve várias oliveiras arrancadas pela raiz, cedros gigantes, pinheiros, oliveiras num total que ela ainda não conseguiu contabilizar. 

         - Assisti ontem ao debate entre Seguro e Ventura por sinal nada venturoso. Foi uma inutilidade, tendo em vista o que ambos disseram naquela peregrinação estafante por rádios, televisões e espaços públicos durante a dita pré-campanha, e lhes competia dizer. No final, como sempre, colhi coisas válidas do homem do Chega e outras tantas de António José Seguro. Devo ter sido o seu primeiro eleitor, quando ele começou a pensar em se candidatar, e depois de lhe ter perdoado a saloiice da tentação de comentador televisivo. Francamente, se ele ganhar como tudo indica que aconteça, não creio que o país vá mudar um milímetro da sua construção de cliques, favores, vida airada dos políticos, esquemas, corrupção, negociatas, conluios, peso das catedrais de advocacia, e muitos eteceteras. Contudo, se vir transformações, aqui estarei de alerta a com todo o prazer as divulgar. 

         - Aquela de “a mãe de todos os acordos” nos negócios que Ursula e Costa estão a consolidar na Índia, só pode sair da verba do seu impagável secretário e nosso ex-primeiro-ministro. 

         - Prossigo Green. A páginas 676 citando um dos muitos clérigos que frequentavam nos anos Cinquenta o seu apartamento parisiense, padre Couturier, que devia conhecer a natureza do escritor, disse: “Lá tentation charnelle est un vertige et provoque un déséqulibre qui n´est pas compatible  avec la nature du Sauveur”, isto em contra-resposta do que lhe havia dito outro sacerdote, padre Carré, segundo o qual os pecados da carne não são pecados graves, “mais un péché malgré tout.” 


segunda-feira, janeiro 26, 2026

 Segunda, 26.

Se não fosse o amigo de Putin atirar sobre os jovens que odeiam o regime dos Khomeinis, atingindo-os de propósito com tiros nos olhos (horror! horror!); se não tivéssemos um desvairado do grande capital a governar o nundo; se Deus não tivesse sido expatriado do mundo e dos corações dos homens, a vida de brouhaha que tem sido a minha nestes últimos tempos, seria muitíssimo fascinante. 


domingo, janeiro 25, 2026

Domingo, 25.

Não obstante o dinheiro que tenho gastado para começar a usar o novo computador, nada parece chegar. Anteontem voltei ao Vasco da Gama e a impressão que trouxe é de que a marca, embora cara, não investe em empregados qualificados. Os que se distribuem por centros comerciais, só sabem vender ou quando muito adquiriram saber de hardware e não se software. 

         - Todavia, o dia não foi perdido. Dali fui ao encontro do Carlos com quem almocei num dos restaurantes do centro comercial da Praça de Touros. Quando nos encontramos, quero dizer, desde que o saudoso Augusto nos apresentou, o nosso convívio é um ramalhete de riso e conversa divertida. No B & B ele tentou ajudar-me na paginação do blogue, mas o novo computador é mais moderno e foi alterado relativamente a este em que ainda trabalho. Falámos da hipótese de irmos juntos a Fátima. Eu disse-lhe que o Francis me pediu para lá ir rezar uma Ave Maria por ele. Mas não foi só por este encontro que o dia foi salvado. Acrescentarei ainda a viagem de autocarro. Sobretudo a vinda com o espectáculo da noite instalando-se docemente sobre a terra, naquele instante de incerteza em que não conseguimos vislumbrar a fresta entre o dia e a noite, ambos parecendo precipitar-se no abismo connosco suspensos das asas ternas de vida, espécie de murmúrio por onde descem todas os nossos entusiasmos como as nossas incertezas.   

         - O país foi sacudido por mais uma tempestade que dura há vários dias. Os fantasiosos técnicos chamaram-lhe Ingrid. Pois a nossa Ingrid, deixou todo o Norte até Coimbra, coberto de neve espessa, um espectáculo digno de se ver e para os felizardos de aproveitar. Contudo, por todo o país o vento forte e a chuva torrencial sacudiu todos os lugares deste terra abençoada, deixando para trás uma morte e árvores tombadas e terras alagadas. E lembrar-me eu do que diziam os cientistas a saber que esquecêssemos as estações de outros tempos, que os invernos não seriam mais os mesmos de então, nem neve nem nítidas épocas do ano. Se neva muito, a culpa é das alterações climáticas, se há calor a mais, idem, se chove, idem... 

         - A pobre da Piedade vai de mal a pior. Diz-me o neto que outro dia abalou de casa às três da noite e foi encontrada por um vizinho muito distante da sua morada às cinco da madrugada. Voltou com as pernas e a cabeça a sangrar, sem saber quem era e onde se encontrava. O neto está decerto na origem deste distúrbio, atendendo ao que ela desabafava quando por aqui vinha. Disse-lhe que tivesse cuidado e lhe desse todo o amor e ternura que ela toda a vida lhe deu e por ele se sacrificou. O curioso é que o rapaz, ao telefone, com uma voz quente e embaladora, fala comigo com algum saber e propriedade, não denunciando o que a avó me dizia e a levou a muitos sacrifícios e desgostos.  

         - Frederico Lourenço, disse ao Jornal da Madeira que o imenso trabalho da tradução da Bíblia, o levou de retorno à Igreja. Talvez o último volume (Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio) fabuloso sob todos os pontos de vista, tenha sido o que lhe permitiu o passo derradeiro.   


sábado, janeiro 24, 2026

Sábado, 24.

Não nos libertamos de António Costa. O seu rasto está por todo o lado e vai ser difícil de o apagar, tantas foram as desgraças que ele semeou. Refiro-me mais uma vez às célebres “autobaixas”. Este Governo tentou melhorar a coisa e, segundo o presidente das USF-AN, foi um bem para o SNS, retirando-lhe a enormidade de baixas que a ele aportavam. Desde a sua criação, em 2023, foram emitidas qualquer coisa como 1,3 milhões de pedidos de baixa, a quase totalidade às segundas-feiras e quartas-feiras. É só fazer a soma. Como os dias permitidos eram cinco... 

         - Que alguém se atreva a pôr ordem no mundo de hoje. Trump com o seu ego sempre em brasa quer-se substituir à ONU e para isso formou um clube a que chama Conselho de Paz. Basta ver quem a ele se associou, para perceber que o mundo dos negócios não desarma. À parte uns quantos países africanos, os Emiratos Árabes Unidos, a Bielorrússia e o Azerbaijão, a Albânia, Roménia ou Hungria, nenhuma outra nação até agora se associou ao projeto de destruir o plenário das Nações Unidas. A UE não alinhou, por enquanto, na desgraça. Espero que ela entenda que face a Trump não deve andar a bajulá-lo porque não foi para isso que os povos europeus a mandataram. Aprendam com o Irão e o Canadá que o afrontaram e ele se encolheu. Que diabo, a União Europeia possui 450 milhões de almas dispostas a defenderem-se e com a sua riqueza e tecnologia capaz de ombrear com os Estados Unidos!

         - Luís Montenegro não se portou à altura do cargo. Faltou-lhe personalidade, ousadia, substância democrática. Ao deixar o seu povo ao desbarato eleitoral, vai colher o oposto que a sua atitude presume - isolamento e eleições mais breves do que supõe.


quarta-feira, janeiro 21, 2026

Quarta, 21.

Surpreende-me como a democracia americana permite que o seu Presidente se comporte como um salteador de tesouros, um alarve, um egocêntrico, utilizando o cargo para negociatas, valorização pessoal, invasão de nações soberanas, chantagens, enriquecimento pessoal e dos amigos, rompa tratados, monte uma organização dita de paz passando por cima das Nações Unidas, vocifere ordinariamente contra este e aquele que lhe faça frente, ordene bombardeamentos a países independentes, destitua presidentes eleitos pelo povo, force a obtenção do prémio Nobel da Paz (que, de resto já o obteve embora em segunda mão) enfim, se ache na posição de rei do mundo, juiz de todos os conflitos, mais poderoso que o próprio Deus. Parece haver nele uma pressa devido à idade de deixar no mundo um nome, uma obra imortal, um olhar diferente sobre tudo o que até hoje se foi construindo passo a passo, com esforço e alguma pureza de intenções pelas gerações que o precederam. 

         - Recorro Albert Camus quando em 1957, em Estocolmo, no jantar da celebração da entrega do Nobel: “Cada geração supõe-se destinada a refazer o mundo, mas a tarefa da minha talvez seja maior. Consiste em impedir que ele se desfaça. (...) Em face de um mundo ameaçado de desintegração, em que os grandes inquisidores procuram estabelecer para sempre o reino da morte, ela sabe que deverá, numa espécie de louca corrida a contrarrelógio, restaurar entre as nações uma paz que não seja a da servidão, reconciliando trabalho e cultura e voltando a estabelecer entre os humanos uma sagrada aliança.” E este aviso do humanista, em 1940: “Estamos decididos a suprimir a política e a substitui-la pela moral.”  Quem dera!  

         - O inferno tecnológico em que vivemos, em que nos desumanizamos, em que gastamos o melhor de nós e nos arruinamos enquanto irmãos fraternos, percebi eu ontem durante duas preciosas horas no Vasco da Gama. A mim só me interessa num computador o tratamento de texto. Contudo, para o conseguir, tenho de fazer a via-sacra dos números ímpares e de toda a parafernália de demónios e sintaxes do algoritmo. 

         - Vou vadiar a Lisboa. Tenho um encontro com o Carlos Soares que me telefonou para o efeito. Ufa! Com ele perceberei um pouco melhor os séculos XVII e XVIII e ficarei a reconstruir em mim a real beleza da vida passada a pente fino pelos olhares eminentes dos grandes mestres. 

         - Ainda não escrevo estas linhas no novo Macintosh. Para tal vou ter que passar o Cabo das Tormentas e chegar sem cheta ao novo ecrã do aparelho. 


segunda-feira, janeiro 19, 2026

Segunda, 19.

Ontem, manhã cedo, rumei ao Chiado e, como é hábito, fui recebido calorosamente pelos empregados da Brasileira, na maioria africanos, cabo-verdianos, que já não me viam há mais de uma semana. Sentei-me na esplanada pouco frequentada por turistas sempre em vantagem. Nunca me senti tão bem ali, a manhã fria qb, aberta à limpidez que tudo abraçava de ternura, a nostalgia a coçar-me os sentidos, a enovelar-me o olhar que a pouco e pouco foi humedecendo e tive de disfarçar. Ali me deixei ficar por mais de meia hora, extasiado ante a luz que do Céu descia em cachos cintilantes e levantava aquela artéria de todas as memórias presentes e passadas. Uma sensação nunca alcançada de bem-estar, de me sentir presente no pedaço de vida que me coube viver, o corpo abandonado ao prazer da leveza que tudo carrega sem uma lamúria. Tudo me cativava e nada me retinha, porque a minha mente, estando ali, pairava por horizontes de  memórias ancestrais. Um dos empregados, que decerto não me vê como cliente antes como amigo (eu parece que cativo as pessoas e construo relacionamentos que logo se transformam em cordialidade e aproximação), perguntou-me, num tom ingénuo que me sensibilizou, se o achava bonito. Respondi como fazem os machões antes de a uma da manhã, que não apreciava homens. Ri-me, rimo-nos. 

         - De seguida, tomei um táxi e fui ao liceu Passos Manuel votar. Pouca gente. Surpresa. Na volta, fui para a paragem do autocarro ao fundo da Calçada do Combro. Instantes depois, aproxima-se um rapaz brasileiro, sorridente, finório, nem bonito, nem feio, que mete conversa comigo; palavra puxa palavra, logo as intimidades floresceram sem que eu tivesse dado conta. Disse que morava em Santa Catarina, que se dedicava a vários negócios e de repente, para meu espanto, que eu era muito bonito e tinha charme, pediu-me o número de telemóvel (dei-lhe o que me veio à cabeça), fotografou-me e perguntou quando podia visitar-me, se queria ir tomar café com ele. Tudo naquele patuá corrido dos brasileiros, despachado, solto, a intimidade exposta como algo adquirido. O ronrom deve ter durado uma meia hora, e quando o mini-autocarro parou, ele pegou-me no braço para me ajudar a subir. Recusei veementemente. Ele deve ter ficado assustado e foi sentar-se a meio do transporte enquanto eu voei para o fundo. Daí a minutos saiu e volveu-me: “Xau, Helder. Depois telefono. Tout ça á mon âge?!   

         - E foi António José Seguro que ficou em primeiro e vai disputar a final com André Ventura. A esquerda chique não passou dos um por cento. Sobra da noite aquela lengalenga dos telejornais, sempre o mesmo figurino, sempre os mesmos comentadores, sempre os velhos e relhos apresentadores, sempre os pequenos ódios disfarçados nos sorrisinhos que não conseguem esconder o que lhes espezinha a alma. Que interessa saber onde e quando votaram os candidatos, o que pensa a gente modesta da democracia, o que disseram os candidatos, quem devia ganhar e quem devia perder, toda aquela imensa, chata, monótona ladainha dos infelizes que a democracia exonera e os espectadores mais atentos não dão conversa. Aquilo é por inteiro a imagem de um jornalismo medíocre, feito para pessoas vulgares, para encher o tempo de patetices armadas em gongóricos pareceres, sem sentido de competência nem descida ao patamar mínimo da reflexão. 

         - Não sei como vou sair do Diário de Julien Green. Sei que cheguei às 600 páginas com os olhos doridos, a visão tolda e o esforço no limite. Aquele papel fino como a massa dos pastéis de Tentúgal, sem espaços, numa letra miúda, páginas e páginas a correr sem parágrafos, só o meu encantamento, a minha grande apetência pelo conhecimento e a descoberta de uma personalidade fascinante, resistem ao esforço quotidiano. Desde a infância que não lia nem ouvia falar de pecados veniais. A Igreja parece tê-los posto de lado por demasiado correntes ou com sentido pouco graves para a engrandecer os confessionários. Só os pecados ditos capitais a fazem descer às ruas e muitas vezes são objecto das suas próprias tentações. O autor de Moira levou a vida a debater-se contra aquilo a que chamava os seus demónios, essencialmente, a doentia obsessão por rapazes. Este quarto volume, está impregnado de sofrimento, de quedas e erguidas, do murmúrio contínuo num doentio borbulhar de confrontos espirituais e humanos, caídas e confissões, de que vai fecundando as peças de teatro e os romances escritos nos anos Cinquenta. A homossexualidade nessa época era repugnante para a sociedade num todo, permissiva para os heterossexuais e castigadora com aos homos. Talvez o primeiro país que rompeu com o drama dos homossexuais, depois de muitas mortes e vociferações, tenha sido o Reino Unido. Com efeito, em 1957, com dossier Wolfenden que preconizou a despenalização das actividades sexuais entre adultos por mútuo consentimento. Por isso, embora esteja convencido da inverdade dos factos, a homossexualidade é no fundo das sociedades algo que as atormenta, que não tem lugar, e que vão ser precisos muitos Greens, com coragem e conhecimento para implementar esse modo diferente de amar, de realização sexual, de equilíbrio humano.  

         - O descarrilamento de dois comboios de alta velocidade em Espanha fez até ao momento 39 mortos e 152 feridos de entre os 400 passageiros dos dois comboios. A causa do acidente não é conhecida, um deles tinha sido inspeccionado há dias. 

         - O dia decorreu ao ritmo constante de trabalho. As horas foram enchidas, umas após ouras, do muito que aqui sobra para fazer. Não deixei este presbitério depois da semana passada ter andado num constante vai e vem entre Palmela e Lisboa. Não sei como há milhares de pessoas que vivem sem terem nada para fazer. Mistério. 


sábado, janeiro 17, 2026

Sábado, 17.

Dias agitados de idas e voltas a Lisboa. Mais uma vez, tendo ido ao Vasco da Gama buscar o Mac, utilizei o autocarro e desfrutei da beleza de um dia desta vez de chuva torrencial a cair sobre o Tejo e a capital traçada na bruma da tarde, tão longe e tão perto, como magia que se revela sem contudo se desvendar completamente, um pingo de música na sinfonia que envolveu toda a viagem. Para meu agradável espanto, a Macintosh aceitou a minha argumentação e não me cobrou um chavo pelo novo ecrã. Vou voltar à Expo terceira-feira para verter tudo o que este computador possui para o novo.  

        - Outro dia fui à minha excelente médica, Dra. Vera Martins, que voltou a analisar todos os exames, o electrocardiograma, as minhas queixas de dores nas costas e de tudo concluiu que eu estou com a saúde de um jovem de vinte anos. Saí com a receita de duas caixas de Ben-u-ron que, segundo ela, me tirará as dores se (acrescentou desconfiada que eu cumpra) tomar um comprimido de oito em oito horas. Estou a cumprir há três dias. As dores amainaram, mas não despegam deste corpinho airoso...  

         - Depois retornei para me encontrar com um grupo de gente de várias idades, alguns jovens e imensa vivacidade. A discussão galopou sem rédeas em todas as direcções. Como estamos em mês de eleições para a Presidência, falou-se dos candidatos e do baixo nível da campanha. Uma senhora simpática, quando eu me insurgi contra o Ventura, assinalou-me que o conhecia pessoalmente e que não pensasse eu que ele é como se apresenta publicamente. “É uma pessoa extremamente educada, boa, agradável.” Eu repliquei que isso não me interessava porque o que está em jogo é aquilo que ele apregoa, o modo como o faz, a desordem de ideias que divulga.” Acontece que entre os jovens, estava um rapaz de 21 anos, de férias em Portugal, com regresso amanhã a Chicago onde estuda na faculdade economia e gestão. Contou ele que a universidade lhe oferece alojamento, uma bolsa e a alimentação chega a ser mais barata que em Portugal. Falou igualmente do grupo de estudantes – espanhóis, ucranianos, brasileiros, portugueses – que com ele formam o grupo dos estrangeiros. Os portugueses, dizia, são os mais apreciados, os mais inteligentes, os mais procurados depois do curso, os mais fieis às empresas onde trabalham. Com eles formou um grupo de futebol e todos se dão às mil maravilhas. Logo que acabe a faculdade, tem companhias que lhe pagarão 100 mil euros anuais como ordenado de entrada Perguntei-lhe como via a América sob a batuta de Trump, disse-me que está tudo a desaparecer e que Chicago está irreconhecível como a própria América que passou a ser designada por Estados Destruídos da América. Depois ao meu ouvido, acrescentou: “Nós, na faculdade, dizemos Estados Fodidos da América.” (Desculpe-me o leitor pela ordinarice que julgo estar plena na concepção hoje da nação americana. É a primeira vez que em milhares de páginas deste Diário, apus um turpilóquio desta grandeza.) Tive pena de não ter pedido a dois dos jovens o número de telefone, pois pareceram-me malta impecável quando comparados aos seus congéneres.

         - O mundo vai de mal a pior. Trump destruiu tudo, abalroou todos os alicerces, quer conquistar países que sejam ricos em matérias que lhe interessam e pôr no lixo os outros onde a pobreza é congénita. Compreender para onde vamos – eis a questão que ninguém sabe responder. Depois de ter atacado a Venezuela, prepara-se afincadamente para anexar a Gronelândia. Macron, de súbito um líder, junto com outros países da UE, enviou soldados para o país. A NATO também estará presente sob o subterfúgio de uma possível invasão da Rússia. Sendo a América igualmente membro da Organização. Que fará Trump face a este imbróglio. Newman dizia “O maior privilégio de um cristão, é não se envolver na política mundial.”

         - Amanhã voltarei a Lisboa para votar em António Seguro. Ufa! Enfim termina a algazarra de gente que devia ser civilizada e se revelou um punhado de gajos e gaijas brejeiras. O que me fica na memória, é o desfile de moda da senhorita Catarina naquele filme promocional. Ei-la saltitante ou a passo decidido, descontraída ou hirta como se quer um presidente da república, de salto alto ou sapatilhas, avançando na direcção da câmara, um tailleur à maneira, um sorriso de donzela recatada, o cabelo ao vento marítimo, imagens de todo o país com sua excelência a presidente da república oferecendo os seus préstimos aos portugueses, verdadeira dama das camélias à portuguesa, mas mais moderna, mais sábia dos truques ideológicos, do apetite da caçarola, da ronha que empanturra os papalvos.

terça-feira, janeiro 13, 2026

Terça, 13.

Uma volta pelas estantes de filosofia e religião, desenterrou volumes que não digo estarem esquecidos, antes arrumados sagazmente de forma a voltarem à luz do conhecimento a qualquer momento. As obras são numerosas e descem do cimo da parede ao chão. Queria eu pesquisar a palavra “alma”. Retinha, vagamente, uns quantos conceitos de autores clássicos e contemporâneos, mas não sabia com precisão o que cada um meditara sobre o assunto. Felizmente, tenho o bom hábito de sublinhar e anotar à margem o que me atrai a atenção ou molda a sensibilidade. Aristóteles e Platão, este com a sua teoria tripartida da alma, demasiado enfeixada para traduzir aquilo que me parece do domínio divino, portanto, instruído na leveza e sensibilidade como são todas as normas e conceitos vindos de Deus. Santo Agostinho, porém, no seu sétimo grau da evolução da alma, resume a conquista desta pela eternidade e assim chega à Sabedoria de Deus. Há uma frase vivificante a este propósito: “Somente Deus é superior à alma e somente Ele deverá ser adorado.” Muitas foram as culturas e religiões (Cristianismo, Budismo outras mais) que através da filosofia exploraram a alma como elemento fundamental da essência da vida. Aristóteles, por exemplo, mergulhou no cosmos da consciência e de certa subjectividade para trazer à superfície algo que não é palpável enquanto configuração normalizada da conduta humana. Agostinho no seu monumental Civitate Dei (pág. 2331, Ed. Gulbenkian, Trad. J. Dias Pereira): “Nem a carne deixa de desejar contra o espírito nem o espírito contra a carne.” S. Paulo vai mais longe: “corpo e espírito interpenetram-se”. Porfírio mais radical: “A alma para se purificar deve evitar todo o corpo.” Eu, se me fosse lícito, diria:  a alma vive na intercepção do espírito. 

         - Na pág. 1326 esta curiosa anotação: “que significa a circuncisão senão a renovação da natureza pelo despojamento da velhice”.  

         - E assim fui lendo muitos sublinhados e apontamentos de rodapé. A dada altura, pág. 917, encontrei estas palavras que vão directas aos Corregedores que inundam este pobre país: “O que acontece é que um homem, escravo de qualquer vício, ameaça e amedronta com as suas mentiras, não um demónio ou a alma de um morto, mas o próprio Sol, a Lua ou qualquer outro astro para lhes extorquir a verdade!” 

         - Continuo com imensas dores no fundo das costas. Amanhã vou voltar à minha médica a ver o que ela me oferece para as atenuar. Só acontece quando ando. Sentado, deitado, de pé ofuscam-se como por milagre. Hoje pensei ir à piscina, mas lembrei-me que o grande sofrimento da semana passada começou quando terminei a natação. Talvez tivesse exagerado. 


segunda-feira, janeiro 12, 2026

Segunda, 12.

Por aqui, apesar das vozes piedosas dos candidatos a Belém, dos políticos competentes que o 25 de Abril foi descobrir nos alçapões da ditadura, depois de 50 anos de democracia, o país que eles dizem estar mais humano, rico e culto, o facto é que a realidade, nua e crua, mostra criminosamente o contrário. No salve-se quem puder do corrupio de governantes, dos autarcas aos deputados, destes aos ministros e presidentes da república, todos sábios e votados à causa pública, não almejaram reformar Portugal ao ponto de o tornarem um país decente, equilibrado e humanista, onde as desigualdades não fossem escandalosamente evidentes e onde a pobreza salta aos olhos de quem não se ofusca com as mentiras que alimentam a demagogia, as aldrabices e os códigos de honra partidários. Esta foto, da “casa” que vou vendo crescer, mostra à evidência a mediocridade de governantes de todos os quadrantes partidários, que o país possui. Palmela tem sido desde Abril de 1974 até hoje, governada pelos comunistas. 

Atente-se no pormenor da câmara de segurança, à direita, já instalada. 

         - Dos programas da nossa miserável TV que encontro com algum interesse, sobretudo quando da revelação de grandes artistas desconhecidos, está o Got Talent. A edição de ontem não fugiu à regra. Pena que no júri esteja uma histérica que chama a si todas as atenções quando, como seria normal, elas estivessem focalizadas nos concorrentes. 

         - O pequeno Mendes, que levou uma vida a imitar o seu mestre Marcelo, aproveitando-se da SIC para os mesmos voos do seu compadre, está agora nos derradeiros degraus das sondagens à Presidência. Não vai estrear as imensas divisões do Palácio de Belém, mas pode passar os seus dias tranquilamente com a bonita reforma de 15 mil euros/mês (sem contar com o resto que a revista Sábado deu a conhecer). E lembrar-me eu que Cavaco, o confrade, a certa altura, referindo-se à aposentação de 10 mil euros, dizia não poder governar a vida com tostões tão miseráveis... 

         - Como a manhã havia sido frutifica, dei-me ao luxo de ir passear a Lisboa. Sim, passear sem mais. Andei pelo Rossio, subi ao Chiado e entrei numa loja de antigamente  onde a tia Dália gostava de se vestir. Saí com uma camisola. 


domingo, janeiro 11, 2026

Domingo, 11. 

Expresso aqui um exemplo de tantas páginas incendiadas da gulodice do sexo entre Julien Green e o seu amante, Éric Jourdan, que veio a ser seu filho adoptivo, e está depositado na capela de Santo Egídio, Áustria, com o escritor desde 2015. Visitei a cidade de Klagenfurt em 2016 e escrevi um artigo a propósito da visita à campa mortuária comum. O que é, todavia, original e surpreendente, é a liberdade do escritor, original e descomplexada e daí a disposição de Green em ser publicada 50 anos após a sua morte, ocorrida em 1998 aos 98 anos. Eu fui visitar a capela onde os dois estão sepultados, em Klagenfurt, e escrevi um artigo para a revista de Maria Estela Guedes. (Os pudicos, cínicos, anjos e arcanjos da hipocrisia, estão dispensados de ler o que se segue.)   

... Éros (Éric). Diné avec lui, puis nous avons arraché nous vêtements et fait l´amour avec un emportement indescriptible. J´ai baisé Éros pendent près de trois quarts d´heure et à partir d´un certain moment il a perdu la tête et s´est mis à parler  d´une façon très obscène: “jamais on ne m´a baisé comme ça, gémissait-il. Mon cul s´ouvre comme un fleur... Je suis ouvert comme une fleur... Un jour je te chierai sur la gueule. Je le baisais lentement, puis plus fort, selon ses désirs. Il murmurait: Je vais te baiser.” Quant j´ai joui, il crier presque de bonheur. M´a laissé le temps de souffler puis m´a baisé avec lenteur, m´ouvrant peu a peu avec une science étonnante chez un garçon si jeune. Il fessait aller son cul de droite à gauche avec force et me mordait l ´épaule ou me fessait très rudement, Je lui ai dit une fois ou deux que j´avais mal, à quoi il répliquait: “Ta gueule”. À un moment il s´est retourné et m´a baisé à l´envers, ses pieds (dans leurs merveilleuses spartiates dont les lacets rouges arrondissaient ses gros mollets) de chaque côté de ma tête et sa queue dans mon cul. En tournant la tête, je voyais ses fesses s´agiter en cadence. Il disait, les regardent lui aussi: “Elles sont jolies, mes fesses.” Il me disait sans cesses: “Je t´encule, je te baisse. .... “ A joui furieusement avec de grands rôles de volupté, M ´a dit ensuite: “J´ai besoin de me faire baiser, mais j´aime mieux baiser. J´ai besoin de me faire baiser comme une femme en  a besoin, mais il faut aussi que je baise. M´a quitté très affectueusement.” 

         - Os animais têm alma é dito no Génesis (1-20). Embora Frederico Lourenço tente nas suas preciosas notas de rodapé especificar que o significado pode ser « ser vivo », o facto é que o relevo dado no início da criação do mundo por Deus, pressupõe que se trata de uma natureza divina como qualquer outra. Contudo, para mim, sempre me foi difícil de aceitar o termo “alma”, sobretudo, como o vemos aplicado desde os sapatos dos jogadores de futebol à fantasia do presidente da Câmara de Lisboa, quando se refere “à alma da cidade”. E repensar.

         - Sim, é assustador o número de mortos (nos últimos dias 3) por negligência ou falta de ambulâncias. Mas atribuir todos os desvarios à Ministra da Saúde, é esquecer ou atirar para debaixo da cama, o imenso trabalho que ela tem tido para repor o desastre que fora a “geringonça” e nos três últimos anos o governo de António Costa. Pelo que vou observando, ela não endireitará o SNS porque não possui tempo nem para respirar e, ainda, porque na sombra são muitas as manobras partidárias que desmancham o puzzle que ela vai paulatinamente reconstruindo. 

          - Esta manhã, apesar de tudo, consegui assistir à missa pela TV. Domingo passado, pura e simplesmente, desisti. Na RTP1 estava o padre Tony da Madeira e na TVi o bispo de Setúbal, dois profissionais da Igreja, vaidosos e zelosos das suas pessoas - de fé, népia. 


quarta-feira, janeiro 07, 2026

Quarta, 7.

Hoje não saí deste convento ocupado com afazeres domésticos. Ontem porém, fui à Expo falar com um técnico da Mac como me aconselhou a madame fantasma como são os empregados da Macintosh – só os ouvimos ao telefone, mas não sabemos onde estão, quem são e a quem nos dirigirmo-nos. Bom. Belo dia ensolarado. Desta vez fui de autocarro, através da Ponte Vasco da Gama, pleno de passageiros, mas, ao contrário do fertagus, nenhuma negra medonha a falar ao telefone em altos berros, atirada para duas cadeiras, devido ao volume corporal que vai de acordo com o vozeirão. No interior reinava um silêncio perfeito, a paisagem belíssima desfilava ante o meu olhar hipnotizado pela beleza do Tejo, com a capital a desenhar-se no horizonte e à medida que nos aproximávamos recortada como um vislumbre imperceptível de luz matizada de música e cores contagiantes. Fui e vim navegando inteiro, submerso da poesia que me visitou e me ungiu de um nada que continha tudo. 

         - Uma vez mais viajei com a Annie. Ontem, no jornal da 2 francesa, vi a França coberta de um manto espesso de neve, a longa fila de carros de Norte a Sul de Este a Oeste, com cerca de mil quilómetros de bouchon. Quantas vezes isso nos aconteceu! Vindos do Norte ou do Sul em direcção a Paris,  em muitas ocasiões admirei a paciência e coragem do Robert preso em filas monumentais e horas e horas parados com a neve a bater nos vidros do carro. Annie tinha sempre uma palavra amiga para comigo, na convicção de que seria para mim doloroso a viagem porque pensava no “Avril au Portugal”. Depois, mais adiante, retirava do saco uma banana que partia ao meio para Laure e para mim, uma sandes e um golo de água que cada um vertia para a sua pequena garrafa. Chegávamos exaustos e felizes. 

         - A campanha para a Presidência vozeia em derradeiros dias. Ontem assisti um momento ao debate entre os 11 (11, céus!) candidatos que nos propõem de tudo um pouco e, sobretudo, fraqueiam-nos a sua natureza interior cheia de ódios ressequidos, falcatruas financeiras, vaidades devastadas por infâncias avoengas, conflitos internos mal resolvidos, percursos de vida sombrios e passo. Até o Almirante, o das vacinas, misericordiosa personagem, de pescoço empinado, farda galante, espírito autoritário e sorriso malévolo, transformou-se neste último mês na personagem que se escondia atrás da palavra vertical, seca, segura de si e militar. Virou, literalmente, um vendedor de peixe numa lota onde a faina do mar foi inexistente ou só trouxe pescada podre. De todos aqueles gananciosos do poder, irei votar como sempre disse, em  António Seguro, embora veja dignidade em António Filipe e naquela sensibilidade tenra, inocente e proveitosa que é o candidato do Livre. Com a sua fragilidade, coerência e devoção à causa, Jorge Pinto, seria o meu favorito. Tudo o resto enferma das ideias batidas, dos sentimentos gastos, das promessas apodrecidas, das ilusões sem voos, da quietude, do bem-estar sobre ondas mansas, do quotidiano banhado sol fraco das primaveras passadas...

         - Prossigo o Green. A sua vida foi marcada pelo desassossego, pela eterna luta entre o pecado e a graça, entre o sexo e o amor. Tudo é exposto como confissão de quem se purifica lançando nas páginas do livro o seu profundo acto de contrição. Estou absolutamente convencido, que a sua obra enquanto valor libertário da sua condição sexual, trouxe imenso reconhecimento e dignidade da causa homossexual. A própria Igreja já o reconheceu quando, mais de uma vez, o seu imenso edifício ficcional foi citado no Vaticano.

         - Continuo com dores de costas. À parte isso - o check-up que irei buscar amanhã confirmará -, nada mais me faz sofrer. Levei a minha vida toda sem sofrimento físico, nunca tive dores de cabeça, nunca senti o meu corpo lancinante senão, quando o amor me sacudia da cabeça aos pés inundando-me de  dores sentimentais. O que verifico, é que estou a coxear melhor (ou pior conforme quem sabe decifrar o meu trote trote). Oh! 


segunda-feira, janeiro 05, 2026

Segunda, 5.

A maioria dos países parece ter medo de Trump e daí que a condenação da captura de Nicolás Maduro, seja adocicada dando uma no cravo, outra na ferradura. Montenegro é nulo de coragem e foge por entre os fios da comunidade portuguesa em Venezuela que diz ser seu dever defender. Ele segue os mesmos subterfúgios políticos da UE, e assim, quando o maluco americano avançar sobre a Groelândia, não vai encontrar qualquer resistência. Os nossos dirigentes são fracos, temerosos, cobardes e não defendem os seus cidadãos como lhes compete.  

         - A verdade é esta: que todas as nações se previnam contra o que aí vem. Se lhe dá na vaidade e jactância a Trump de se armar em justiceiro do mundo (ele persegue o Nobel da Paz), temo-lo a atacar todos os ditadores a começar por Putin, XI, Kim Jong-un, e uns quantos da América Latina e África, mas... desde que tenham riqueza suficiente para ser surripiada.

          - Estamos a uma semana de ir votar para as presidenciais. Ufa, que ela passe depressa porque já não se aguenta tanta mediocridade e paspalhice e o Planeta sofre com a poluição que os 11 (11, céus!) candidatos têm feito e deviam pagar imposto por isso.


domingo, janeiro 04, 2026

Domingo, 4.

Ia-me a esquecer de deixar uma palavra à despedida de Marcelo Rebelo de Sousa aos portugueses em fim ano e de mandato. Até ao último dia igual a si mesmo, leu um papel, praticamente de Eça de Queiroz, para comparar a personagem João Gouveia de A Ilustre Casa de Ramires, ao que somos como povo pastoreado por um conjunto de políticos que parece não lhe deixam grande recordação. Acontece, porém, que a personagem é absolutamente secundária na obra, uma espécie de manga de alpaca, com rodriguinhos e muita ronha e oportunismo. Além de que a obra, nem foi revista pelo escritor que a deixou por editar. Apesar de tudo, prefiro as comparações de Marcelo a Eça, que as de Montenegro a Ronaldo. Há entre os dois um imenso abismo de cultural. 

         - Sabemos como os acontecimentos começam, não sabemos como terminam. Vem isto a propósito da arrogância de Donald Trump e seus apaniguados, que perfilam obedientes nas suas costas quando o homem de negócios fala sobre os mesmos. Com total impunidade e sem obstáculos de nenhuma nação digna desse nome matou, lançou bombas sobre vários locais de Caracas, prendeu o presidente e a mulher, meteu-os num avião, algemou-os e ele está numa cadeia de Washington a aguardar julgamento. Para trás deixou um país sem gestão, preocupando-se em anunciar que os homens de negócios americanos vão tomar conta e gerir o maior fornecedor mundial de petróleo. Nesse entretanto, embalado pela proeza, já ameaça fazer o mesmo a Cuba e à Gronelândia e logo depois aos Açores. O momento é dos ditadores. Que responsabilidade pode a América pedir a Putin pela invasão da Ucrânia, quando o homem que elegeu para presidir aos destinos da nação americana, se comporta como um verdadeiro tirano, rei e senhor do universo, omnipresente por toda a parte onde as nações tenham qualquer produto que ele possa roubar. Perante o que temos diante dos olhos, não tarda que a bomba nuclear seja utilizada. Vou chamar para esclarecer melhor este meu pensamento, dona Teresa de Sousa que no Público de hoje (artigo, decerto, escrito antes do rapto de Maduro) nos dá a sua impressão do estado em que se encontra a ordem mundial. “A democracia não costuma ser a maior preocupação do Presidente americano, os negócios sim. A democracia não pode ser imposta por uma intervenção externa. A intervenção americana pode ser apenas o regresso, mais de um século depois da Doutrina Monroe, anunciada na nova Estratégia de Segurança Nacional americana, segundo a qual o Hemisfério Ocidental deve voltar a ser o “pátio traseiro” dos Estados Unidos. Maduro tinha recebido um enviado de Xi Jnping na véspera do golpe. Segue-se o Irão? Ou a Gronelândia?” O mundo é uma incógnita. 

         - Eu vigio o meu corpo dos tratamentos. Com efeito, depois de três dias insuportáveis de dores, decidi iniciar a toma de um comprido (o médico dizia dois) de Rantudil 60 mg.. Ontem, poucas horas depois de a droga entrar no meu organismo, logo comecei com ligeiras melhoras. Hoje enfiei o segundo e tenho missão para mais três dias e... basta. Na verdade sou o mais refractário a medicamentos que se possa pensar. Prefiro sofrer, dar tempo ao corpo para reagir por si, e só quando não posso mais entro, cheio de pavor, nos comprimidos. 

         - De súbito um dia limpo, quase cristalino, com o céu a derramar sobre a terra o Sol luminoso, que nos permite olhar a paisagem com os olhos da infância amadurecida pelo espanto da Natureza. O silêncio, hoje, trazia um ciciamento profundo que só cada um de nós pode decifrar. 


sábado, janeiro 03, 2026

Sábado, 3.

A incerteza do mundo continua. Com um louco à frente dos EUA, todas as expectativas são de ponderar. Não gosto de Maduro nem do seu regime, mas não suporto que pela flatulência Trump tenha mandado bombardear a capital sob a capa da moral purificadora e dos bons costumes, raptado o Presidente e a mulher e levá-los para os EUA onde conta julga-los. É evidente que a droga é um pretexto para fins económicos, imposição de supremacia sobre povos subalternos. O Presidente é forte com os fracos e fraco com os fortes. Que o diga a situação da Ucrânia e da Faixa de Gaza para não falar nas suas investidas na América Latina. Para o tirano, pouco valem os tratados, o Direito Internacional, a soberania de um país, a Carta das Nações Unidas e o bom senso tout court. Como é que a Constituição de um país dá ao seu governante temporário uma tal capacidade de tudo destruir e reconstruir como qualquer construtor civil. 

         - As dores insuportáveis na região lombar voltaram na sequência da natação de terça-feira. Foi com dificuldade que ontem me desloquei a Lisboa para solucionar a “queda” do meu computador que segundo o técnico tem o ecrã partido sem que se veja moça de tombo na máquina. Custo da substituição: 600 euros. O aparelho está dentro da garantia Macintosh, mas esta não cobre quedas visonhas. 

         - Volta que não volta, estas tragédias acontecem. Desta vez ocorreu em Crans-Montana, Suíça, num bar cheio de jovens que se divertiam ao som da música quando, ao bater da meia-noite, se ausentava 2025 e chegava 2026. Um grande fogo eclodiu destruindo o tecto em madeira e um qualquer produto de espuma. Na sequência do pânico que se armou, morreram 40  pessoas e 119 feridas (números conhecidos até agora). O fogo propagou-se devido a garrafas de champanhe com velas acesas. 

         - Faço minhas estas palavras de Julien Green (pág. 437, Toute Ma Vie) : “Hier je pensais à la beauté de la vie. Regarder le feu, ouvrir un livre, écouter de la musique, tout cela est saint. C´est le cadeau que Dieu fait tous les jours. Aimer surtout. J´ai essayé de mieux prier.” Que grande ajuda neste período difícil que atravesso, ter comigo este volume 4 do seu Diário. 

         - Olho através da janela que tenho diante dos meus olhos e vejo a tarde desaparecer embrulhada no silêncio que tudo imprime, das árvores ao caminho lá em baixo, do céu escuro à dobra do firmamento. Nem uma folha bule, tudo se queda numa meditação sem palavras, sem murmúrio, espessamente ante os meus olhos mortiços do cansaço de haver pensado na morte como refúgio e salvação. Este silêncio é uma condenação. 


quinta-feira, janeiro 01, 2026

1 de Janeiro. 

Outro dia para travar o João com as suas ideias de democracia e interpor um guarda-vento às suas palavras em catadupa, falei do desastre psicológico que a democracia entre nós tem provocado a toda a gente e particularmente à juventude. Ele ouvia em silêncio, ufa!, atento a tudo o que eu proferia sem intervir, pelo contrário parecendo reter cada palavra. E que discorria eu? Congeminava sobre esta democracia de confronto permanente, de luta de galos em busca de poleiro, negando sempre o trabalho do que chegou, numa política do bota a baixo, trazendo os reais destinatários, nós, num constante alarido, que leva à descrença e à alienação da vivência democrática. Os nossos políticos pouco democráticos, incultos, nada conhecedores da civilização de onde partiu este regime, parcamente educados no seio das suas famílias, muitas vezes labregos no sentido absoluto do termo, tomaram a democracia como o exercício permanente do confronto, da gritaria nas televisões, do pouco trabalho dos dossiers, e até o Parlamento pegaram de assalto transformando-o numa praça onde os produtos-ideias vão a leilão. Não há seriedade nos seus modos de trabalho, no estudo afincado dos problemas, tudo se passa como coisa vulgar que se ajusta ao confronto entre eles. As leis que saem, sabem que não podem ser cumpridas porque, por muito bem feitas que algumas por milagre possam ser, não têm supervisão de ninguém, e ficam como bala de arremesso para o próxima confrontação. No campo oposto, longe do seu universo de alucinações e descomprometido da sensibilidade e valores sociais, está a massa anónima dos portugueses que se arrastam, aparvalhados, pela vida dura que é a sua. Não têm sossego, assistem todos os dias à chegada da desilusão, do abandono, da entrega a si próprios. Os jovens, mais precisados de atenção, mais sensíveis pela idade e as descobertas, vêem no seu país o descrédito no futuro. Não há quem olhe por eles, a sociedade dita democrática, exclui-os do futuro, da aventura da vida, da aceitação da felicidade. Num país permanentemente em guerra, onde não há dias pacificados para acolher os seus interesses, ideias, obras eles fecham-se sobre si próprios, e trilham os caminhos da alienação absoluta pela via das drogas, do futebol, dos concertos que pouco têm de música, antes os levam a chafurdar no ruído que entontece e os remete para mundos que emparelham obsessões, delírios, entregas furtivas a este e àquele dogma, sorrisos, piscar de olhos, num remate de vida que está para lá da vida porque se radica nos espaços sombrios da existência humana. Nascidos e criados nesta desordem política, psicológica e emocional, sem períodos de silêncio onde o pensamento se instale, a camaradagem flua, os dias nasçam para eles e com eles possam viver e coexistir, sem a merda da política brejeira a sujar as horas, os meses, os anos, a propor o insulto, o grito, o ódio, numa casa onde todos ralham e ninguém tem razão... Que será feito desta juventude saída da democracia de discórdia, arrogância, ódio, revolucionários e gente ordinária? Espero ter vida para a ver. Por agora, é notório que os nossos políticos não se dão conta do prejuízo e desastre que semeiam todos os dias contra a democracia, além de reduzirem psicologicamente a juventude ao alheamento da vida colectiva e da construção do amanhã. Os traumas sociais vêm do exercício do poder em labaredas como é o nosso, da ambição egoísta e do pensamento trespassado do desespero. 

         - Não falto todos os anos ao Concerto de Ano Novo de Viena d´Áustria. Este ano o maestro foi um homem de meia-idade, médio de estatura, ruivo, um pouco dançarino, divertido que soube agradar à assistência burguesa que tem entrada no teatro por gerações, Yannick Nézet-Séguin. Introduziu compositores interessantes sem ter posto de lado (seria despedido) a família Strauss. O primeiro número de dança que acompanhou, julgo, a peça musical dedicada às mulheres, foi surpreendente de arte, improvisação e talento artístico. O primeiro bailarino absolutamente arrebatador. 

         - O nosso primeiro, voltou à carga com a sua pouca cultura concentrada na arte de pontapear a bola do “maior jogador do mundo”. Por que razão, esta gente, quando chega ao poder depressa se vulgariza. É para mim um mistério. Melhor fora que ele fizesse como quando assumiu o primeiro mandato: pouca fala e muito trabalho. Assim, é uma cópia da governação dos socialistas de má memória, uma assimilação do pobre do Ventura e um desastre dos miúdos de esquerda. 

         - Ontem deitei-me tarde. Estive a ver o espectáculo transmitido de Paris pela antena 2 francesa e apresentado pelo fatiloquente Stépfane Bern. Paris é a capital geminada com Roma e daí ter aproveitado a ocasião para o espectáculo de luz, música e história derramada no Arco do Triunfo, magistralmente. Todo os Champs-Élysées que eu conheço como as palmas das minhas mãos, fascinante de arte, as árvores que descem lá de cima até  à Place Concorde, decoradas de luz e das cores da bandeira nacional. Propriamente fogo de artifício só no quarto de hora depois da beleza que passou em narrativa no monumento. A isto chama-se cultura e a França não perde oportunidade de o dizer. Aqui somos o maior do mundo em tudo, até na saloiice que pespega o povo na Praça do Comércio a ver estrelar foguetes no rio... A verdade porém, é que estive com a Annie como em outras noites frias quando subíamos e descíamos “a mais bela avenida do mundo” (já agora, não é?.