terça-feira, março 07, 2017

Terça, 7.
Ontem, ao fim tarde, quando as nuvens empurraram o resto de sol que ficou suspenso nos ramos das árvores, vinda de um mundo inanimado, uma profunda e dolorosa nostalgia de Paris. Sentia um aperto no peito, um cansaço no fundo da retina, um desfalecimento que me tolhia os membros – braços e pernas – e obrigava o cérebro e os olhos a cerrarem como persianas, revi pela enésima vez o vídeo que evoca a cidade e Gabriel García Márquez, pela maestria de um trabalho pontuado pela voz e o poema do inconfundível de Charles Aznavour.

         - Nenhum médico algum dia conseguiu explicar-me por que me tomo eu de intenso cansaço e desmotivação com a chegada da Primavera. Tudo em mim entorpece, o cérebro entra em fadiga espessa como nevoeiro compacto, uma neurastenia instala-se, faltam-me as forças, ando desmotivado, vagueio pelos cantos da existência como alguém que está a mais em todo o lado e arrasta os pés como um condenado à morte. Sempre assim foi e só um composto vitamínico me recompõe. Não tenho vida para carregar este fardo, os afazeres são muitos, os impulsos da existência também, e eu restringido a ver passar o melhor dos dias ao balcão do vazio. Que tristeza, Santo Deus!


         - Contudo, a vida tem de continuar, é próprio dos solitários não se atrasarem no encontro com a diversidade. Assim, esta manhã, prossegui na pesquisa que me levará a enriquecer O Juiz Bernardo (título provisório) o romance que entrou de rompante empurrando O Matricida para fora das minhas preocupações. Fui à piscina, dei um salto ao Fortuna. Abracei o dia cintilante lavado de quimeras.

segunda-feira, março 06, 2017

Segunda, 6.
Durante - julgo - três dias, a SIC andou a lavar o cérebro dos espectadores com doses espessas de propaganda partidária. A propósito de explicarem os diferentes tentáculos do polvo no caso BES/GES, foi um ataque claro ao Governador do Banco de Portugal, persona non grata aos socialistas e às meninas do BE. Aquilo era de tal modo escandaloso que provocava urticária. Como se o Mágico e a sua confraria fizessem melhor e não oferecem-se de mão beijada uns milhares dos nossos impostos a Ricardo Salgado para salvar o império. O presidente do BES devia atacar e pôr a nu tudo o que sabe desta classe política que nas últimas três décadas lhe andou a lamber os pés. E não foi só José Sócrates.

         - Numa altura em que a Coreia do Norte lançou mais três mísseis nas águas japonesas e o mundo se arma gastando somas nunca antes vistas, o futuro próximo parece-me inquietante. Não há nenhuma zona em segurança e a fagulha que ateará o fogo pode acontecer a qualquer momento. Os povos irão ser então carne para canhão das loucuras e dos crimes dos políticos. Ontem como hoje, como amanhã. Uma certa esquerda indigna-se contra aquilo a que chama “os populismos”, mas não trata de se retratar quanto à génese desta desordem que se instalou por todo o lado. A Europa da União Europeia vai em breve passar por grandes transformações. Talvez resida aí a nossa esperança. O PCP é único que vê longe e quer preparar o país para o pos mortem da velhaca senhora.


         - Eu desconfio imediatamente quando, a propósito de tudo e nada, é invocado “o erro político”, “a falta política”, “o esquecimento político”, “o acordo político” e assim. Esta norma é uma espécie de salvo-conduto para a desgraça colectiva. Favorece apenas o governante infractor e mais ninguém. Tomemos o caso de Paulo Núncio. Deixou escapar 10 mil milhões do país, mas tendo reconhecido o seu erro político impôs a si mesmo o castigo demitindo-se de funções do partido minúsculo que não conta para nada senão para os poucos que o compõem. Pronto. Está salvo. Nada mais lhe acontece embora os danos ao país sejam consideráveis. E assim vai o mundo: eles, os senhores, lá em cima; nós, o rebanho, cá em baixo. Exactamente como no tempo da ditadura.

domingo, março 05, 2017

Domingo, 5.
François Fillon foi a grande desilusão. Afirmou há um mês que no momento em que fosse constituído arguido no processo dos dinheiros ganhos pela mulher e os filhos à conta dos contribuintes, desistiria de concorrer às eleições presidenciais. Deu o dito pelo não dito. Até aqui tudo normal, é o que fazem todos os seus pares, em França como em Portugal e noutros países. Quer-me parecer que a Madame Le Pen subiu mais uns degraus para o Eliseu.

         - O meu amigo Couto, durante muito tempo, sendo leitor atento destas páginas, dizia que eu era anarquista. Há dias, em conversa telefónica, acrescentou um pormenor que nos diferencia e de que maneira: o seu credo de advogado, leva-o a considerar a lei acima do cidadão. Ele e os simples funcionários da câmara daqui, dizem um uníssono: “É a lei.” Portanto, cidadão honesto e trabalhador, pagador de impostos e dos altos salários da nobreza democrática governativa cala-te, reduz-te à tua insignificância. Mas Couto disse mais qualquer coisa que me enche de esperança: “Estou em desacordo contigo em muita coisa.” Helder, heroico combatente, não esmoreças: estás no bom caminho! Contudo, talvez quem tenha razão é Gonçalo M. Tavares quando adianta: (...) “diga-se ainda que as discussões universais são sempre discussões particulares. Cada qual está debruçado sobre o seu mundo em parapeito frágil. E nem mesmo os imbecis têm fisionomias colectivas. Cada país é um pormenor que cada habitante utiliza como melhor lhe convém e como a lei permite”. Viagem à Índia, pág. 40, Ed. Caminho.  

         - O Público de hoje, sendo aniversariante, passou a palavra a Miguel Esteves Cardoso. Eu até simpatizo com o solitário de Sintra, mas repugna-me que ele tivesse elegido como modelo, um egoísta que afirma: “Conheço músicos incríveis, farto-me de viajar, sou respeitado. Mas não sou nenhum filantropo, faço para mim e tenho uma vida boa.” Esta posição é a do patronato português e, sobretudo, dos grandes patrões que são incapazes de partilhar a riqueza com o país e as pessoas. São abastados porque têm um harém de trabalhadores pagos à jorna por uma miséria. No tempo da troika, o números de ricos aumentou e os pobres passaram de um milhão para o dobro.


         - Saí das páginas do livro de Gunter Grass com vontade de voltar ao princípio. Que grande escritor descobri eu! Que fantasista, humanista, humorista, atento observador da História, trabalhando a palavra com desenvoltura, arriscando nela o seu passado, multiplicando o riso e o sofrimento, não tendo, inclusive, pejo em dizer que não conhece a língua com suficiente consistência para não dar erros ortográficos! Um homem destes é um monumento que mereceu sem contestação o Prémio Nobel. Mas vou continuar com ele. Já comprei o seguimento desta autobiografia narrada em A Caixa. 

         - A Primavera, indiferente ao clima e aos catedráticos da meteorologia, já chegou a estas paragens abençoadas. 
A exuberante ameixoeira 

O anárquico jardim 

A beleza da amendoeira em flor 
  

sábado, março 04, 2017

Sábado, 4.
Quando o Dr. Azul (o nome por si só instala no céu da boca uma miríade de estrelas) me extraiu sem eu dar por isso o dente do sizo que há muito desejava ver-me livre, disse: “Enfim, a partir de agora vou passar a ter o juízo todo!” Ele riu-se, riram-se os seus quatro assistentes e depois devolveu-me: “Inda não. Resta um sizo que está em bom estado.” O que é admirável neste estomatologista, é a técnica e a competência que lhe permite fazer o seu trabalho com humor e ainda por cima sem que o paciente tenha um sopro de dor, antes e depois da intervenção. O seu apelido vai de par com o impulso que senti (e refreei) de lhe pedir que me arrancasse todos os dentes, só para conferir se ficava desdentado sem o mínimo sofrimento...

         - Ontem não resisti a comprar um pequeno livro de pouco mais de cem páginas contendo as cartas e outros escritos de Klaus Mann, pela primeira vez vejo editado em Portugal. O meu fascínio pelo escritor é tal, que adquiro tudo o que encontro dele. E faço-o por impulso, pois tinha comprado em Paris o corpo do livro (Contre la barbárie) de onde foram tirados os artigos e aguarda vez de leitura na pilha de in-fólios.




         - Este país não tem autorização de progredir porque tem tido à sua cabeça gente de uma mediocridade e mesquinhez insuportáveis. Vem isto a propósito do impoluto juiz Carlos Alexandre. Têm acusado o homem de tudo, mordem-lhe os calcanhares, vasculham-lhe a vida, atormentam os filhos e a mulher, só porque ele é das poucas pessoas honestas e trabalhadoras que devíamos estar de joelhos a glorificar. Agora vieram com insinuações só porque o magistrado pediu numa aflição emprestados 10 mil euros ao amigo de infância Orlando Figueira a contas com a justiça. Dez mil euros! Uma merdelhice comparada com os milhões de milhões que todos os dias são expostos na praça pública surripiados por esta corja de políticos, empresários, banqueiros e advogados ávidos de riqueza e por mor dela capazes de matar a mãe e o pai, arruinar um país e fazer milhões de milhões de pobres. Eu posso nunca mais ver editado um livro, mas não me calo. Nestas páginas direi o que penso, plasmarei a minha revolta e deixarei nelas expresso de que lado estou, ainda que não esteja se não do lado da liberdade.

quinta-feira, março 02, 2017

Quinta, 2.
Durante muito tempo, cada vez que nos encontrávamos, lá vinha: “Então quando aparece?” António Osório, o pintor perdido num decore grato a Luchino Visconti, em Azeitão, recebeu-me, enfim, numa tarde cinérea. Depois de subir um lance de escadas de pedra gastas, puxei a corda do sino e prontamente o vi assomar ao portão, qual guardião de um tempo perturbado, quando Portugal estava sob o domínio Filipino, Osório parecia uma figura de aristocrata saído do século XVI. Passado o alegrete que ele cuida com fantasia, montamos mais uns quantos degraus e eis-me no interior de um palácio carregado do húmus do tempo e de onde nos chegam os ecos surdos revolutos de antanho e o silêncio sepulcral dos séculos. Estacamos por momentos à entrada, enquanto ouço uns laivos de história que me dizem das asneiras que o último proprietário operou no interior do edifício. Desde logo o grande salão à direita, que recebeu os nobres amigos de D. Jorge de Lancastre para bailes animados, repartido em múltiplas divisões com um longo corredor que vai até ao topo de uns trinta metros, para onde deitam os aposentos. Atrás de nós, fica um impressionante terraço, assente sobre colunas em cantaria, decorado com azulejos do séc. XVI, reproduzindo paisagens ao correr da parede de uns quarenta metros, que deita para um jardim abandonado onde outrora havia um lago, protegido por um corrimão de ferro, que decerto no tempo de D. Jorge, filho bastardo de D. João II, seria em madeira decorada, como acontece com os tectos. Regressados ao interior, fomos assentar os costados numa saleta apinhada de livros, iluminada por uma janela de guilhotina. No espaçoso hall, ali como no resto do palácio, os tectos pareceram-me mudéjares, em caixotão, muito bem conservados. Uma enorme arca que foi à Índia, portanto, do séc. XV ou XVI, impõe-se a par da profusão de mobiliário antigo, algum verdadeiramente raro, casando com o estilo das divisões. Durante horas foi um desfiar de memórias. António Osório de Castro pertence a uma família com história e o cruzamento de culturas fez entrar, inopinadamente, naquela sala muitos nomes para mim familiares, com quem mantive amizade e troca de impressões: escritores, jornalistas, actrizes (uma prima dele é a saudosa Isabel de Castro), pintores, escultores, políticos, enfim, um passado em muitos casos presente, ali introduzido para longas horas de conversa, ao ponto de ter ficado enregelado porque é difícil e caro aquecer um palácio daqueles e não obstante a saborosa manta inglesa a cobrir os joelhos dele e que eu recusei para mim. Vi a noite descer sobre a grande sala de visitas que é o largo quando se chega a Azeitão. Osório veio acompanhar-me ao portão, não sem antes ter visitado o resto do palácio onde a arte não falta e o silêncio passeia espesso pelo enorme espaço. Visto do fundo da praça principal, desenhado no horizonte tomado já pela noite, o Palácio dos Duques de Aveiro, na sua fachada renascentista, adossado o lado lateral esquerdo de onde acabo de sair, ergue-se decadente por entre as folhas reescritas da memória que a ninguém interessa engrandecer. António Osório de Castro é, entre os inquilinos do casarão pesado de história, o único que beija as páginas que os séculos persistem em manter vivas. 


quarta-feira, março 01, 2017


Quarta, 1 de Março.
Outro dia encontrei-me com o João Corregedor. Aos primeiros acordes da união, logo a política entrou triunfante, levada na enxurrada dos nomes transformados em pragas, como castanhas assadas, quentes e saborosas, a pular de gosto. Nele a política deve ser o último suspiro que o seu cérebro exala na hora da morte. Está-lhe na massa do sangue, e os anos de Parlamento perseguem-no na reforma muito pouco reformada. Estando quase sempre de acordo com ele, gostando de o ouvir falar dos meandros inacessíveis de certos corredores sombrios e das figuras e figurões que ele conhece como poucos, por vezes fico estático a gozar da sua inteligência fina (e grossa), da sua paixão pelo discurso político, vinculado aos princípios do MDP-CDE, quiçá mais puros, galvanizadores quando sobre eles a materialização nunca ficou concluída. Generoso, amigo do seu amigo, tendo na amizade a profunda solidariedade que ultrapassa largamente as divergências, João é alguém de fino recorte educacional, e mesmo quando se irrita ou fala mal deste e daquele, pressentimos que nesse seu estado de alma não mora o rancor, o ódio, a vingança. Vai tudo na narrativa, mas esta está agrilhoada à sensibilidade que nele é exercida com despojamento.

         - Assim, estando ele com hora marcada para a sessão de fisioterapia e eu ida ao cinema, fez questão de me acompanhar no frugal almoço que tomei no Centro Comercial do Chiado. Estivemos à conversa durante mais uma hora, sem que ele aceitasse um simples copo de água. Frente a frente, esgrimimos o tema Sócrates (embora ele me dissesse que não gosta da personagem) e eu que estou em desacordo com ele, limitei-me a ouvi-lo sem que, contudo, o seu parecer tivesse alterado o que penso da sinistra figura. Já no que diz respeito a Marcelo e a Cavaco, comungo das suas ideias. Despedimo-nos na rua. Ele desceu o Chiado, eu ao rés-do-chão da Fnac ao encontro dos meus queridos amigos, os livros.

         - No cinema Monumental, assisti à ultima sessão da tarde. Stefan Zweig encheu a tela por mais de hora e meia, pelo olhar fulgurante e atento, de Maria Schrader. Gostei do prólogo, seguido de quatro capítulos e epílogo que a realizadora encontrou para nos oferecer a densidade humana do escritor austríaco de O Mundo de Ontem e de mais quase meia centena de títulos. Fugiu a mostrar-nos a guerra e seus derivados, já muito batida. Preferiu quatro passagens da vida do escritor que nos remetem para o seu fim no Brasil, em Petrópolis, a Mitteleuropa que ele sonhou como a união dos valores do espírito baseada na arte e na democracia e não olvidou as fraquezas do autor de Erasmo de Roterdão, as suas hesitações na aceitação do nazismo de que é elemento o congresso dos escritores de Buenos Aires, em 1937. Zweig, profundamente humanista, acreditando no diálogo e detestando o confronto, preferiu pôr termo à vida com a mulher Lotte, na terra que ele glorificava e onde escolheu exilar-se. A decadência da Europa do espírito e da cultura na qual ele reinou, parecia-lhe impossível voltar a renascer. Eu estou do lado de Klaus Mann junto com a irmã Erika, viu muito cedo que não se pode dialogar com loucos, fanáticos e criminosos, que em nome da democracia constroem a ditadura e o caos. Contudo, não ignoro que na base da destruição dos valores democráticos e humanos, está quase sempre a obsessão partidária e os interesses mesquinhos daqueles que sobem ao poder como quem monta a um ringue de boxe. Uma palavra para a interpretação de Tómas Lemarquis no papel de Stefan Zweig. Intuitivo, percebeu que a personagem devia passar no ecrã com o peso interior que o escritor enquanto ser emotivo, débil e sublime carrega. Magistral.

         - Escrevo com o ruído ensurdecedor do tractor que grada a terra. Está uma tarde tristonha. As nuvens escuras acastelam-se mudas no horizonte. O Black não me larga os pés. Todo o dia procurou refúgio em mim que sou mais frágil do que ele. Detesta o barulho como eu a invasão que aniquila o silêncio. Vou ficar a ver a noite descer sobre este chão limpo das desgraças do último tratorista que aí andou. O que acabou de sair, comentando o bicho que trouxe todo bonito, esclareceu: “esta máquina deve ter a sua idade, uns cinquenta anos.” Bom.