Terça 13.
Tenho muita pena que não tivesse conhecido a Bíblia pelos quinze anos, porque passaria o resto da vida a ler e a estudar o que nela hoje me surpreende e por vezes revolta. Não leria provavelmente nenhum outro livro e mesmo assim decerto chegaria ao fim sem solidificar o que hoje me inquieta e me afasta dela. Sobretudo todo o Pentateuco, em particular o Génese, que desenvolve a criação de Israel e as bases, práticas e teológicas, da religião cristã. As acções que são atribuídas a Deus, pesam tanto no contraste do que hoje pensamos de Ele, que dir-se-ia que a humanidade se aperfeiçoou não com os livros sagrados, mas com o humanismo, a cultura tout court, a filosofia, a sociologia, o Direito, a Matemática, a obrigação social da interacção dos valores do outro enquanto imagem e semelhança de Deus. O nosso Deus, este que veio até nós enriquecendo a nossa cultura humanista, está tão distante de Aquele outro que tomou Moisés como seu mensageiro nas coisas práticas da vida, da criação de uma religião com códigos e regras, minudências religiosas práticas, mas igualmente desumaníssimo ao ponto de arrasar multidões, destruir cidades, matar e reduzir a nada a Terra dos que no início dos inícios não O aceitaram. A ideia que nós hoje temos do Senhor, falo por mim, leva-me a descrer de um Deus tão bárbaro, tão obsessivo e tão desumano como o Deus que o Judaísmo toma como seu, um Deus de origem abraâmica, como dizer, étnica, que parece ter estabelecido uma aliança, um pacto e sendo monoteísta, também de base racial. Jesus Cristo veio de certo modo restabelecer o sagrado do Pai, modificando, inclusivamente, algumas raízes estabelecidas milhares de anos antes. A nós cristãos, que colhemos do Antigo Testamento e do Novo as bases do cristianismo é, todavia, no NT que melhor reconhecemos o Pai e o Filho, e com os dois numa mesma majestade divina, convivemos e nos irmanamos como irmãos. É muito bela esta imagem, este sentir colectivo, ao mesmo tempo fraterno, sem exclusividades, acolhendo com imensa liberdade outras religiões, porque não somos uma seita, somos de tempero cultural e humanista, uma grande nação de fiéis que acolhe o outro independentemente da religião, do sexo e das origens sociais. É por isso, que temos Deus no centro das nossas vidas.
- Mudemos de assunto que este é demasiado sério e não sei se consegui exprimir-me como gostava e devia. O Ministro da Administração Interna, que chegou sorridente, ajoujado de competências, honestidade e profissionalismo, que durante meses não saía dos ecrãs de televisão e das primeiras páginas dos jornais, perseguido pelo jornalismo indecente que hoje se pratica (eu era despedido por muitíssimo menos do que vejo e ouço, corrido pelo chefe de redacção a pontapé). Estes doutores da mula ruça, saídos das universidades onde aprendem o jornalismo de beicinho, sabichão, provocador, vazio, vedeta que os leva do elogio vibrante ao vexame ridículo, com o mesmo à vontade do grande senhor (nem falo das pobres senhoras) do pensamento e da notícia que incendeia razões, despacha políticos, cria intriga, encosta-se a facção partidária e triunfa do interior da massa amorfa dos portugueses interessados apenas no futebol. Quanto a Luís Neves, está de novo atulhado na porcaria da seriedade que esbanjou e agora o aprisiona.
- Bem dizia eu ontem: cala-te, boca suja. Os dois canalizadores acabaram esta manhã o trabalho. O mais velho saiu-se com esta: “Eu conheço-o há muitos anos.” Assim que ele falou no Sebastião Fortuna, e nomeou o seu próprio nome, luzes e luzes acenderam-se no meu cérebro e reconstrui logo um mundo feliz e fabuloso que ficou no passado. Ele esteve aqui com o Mestre para tentarem arranjar a bomba da piscina e nós vimo-nos vezes sem conta no vasto atelier do Fortuna. Quando lhe disse que tinha ido à piscina esta manhã, ele perguntou-me se não tinha visto a sua mulher “que tem o hábito de ir à hidro- ginástica”. Está tudo esclarecido? Talvez.
- Dia abençoado o de hoje.