terça-feira, outubro 13, 2026

 Terça 13.

Tenho muita pena que não tivesse conhecido a Bíblia pelos quinze anos, porque passaria o resto da vida a ler e a estudar o que nela hoje me surpreende e por vezes revolta. Não leria provavelmente nenhum outro livro e mesmo assim decerto chegaria ao fim sem solidificar o que hoje me inquieta e me afasta dela. Sobretudo todo o Pentateuco, em particular o Génese, que desenvolve a criação de Israel e as bases, práticas e teológicas, da religião cristã. As acções que são atribuídas a Deus, pesam tanto no contraste do que hoje pensamos de Ele, que dir-se-ia que a humanidade se aperfeiçoou não com os livros sagrados, mas com o humanismo, a cultura tout court, a filosofia, a sociologia, o Direito, a Matemática, a obrigação social da interacção dos valores do outro enquanto imagem e semelhança de Deus. O nosso Deus, este que veio até nós enriquecendo a nossa cultura humanista, está tão distante de Aquele outro que tomou Moisés como seu mensageiro nas coisas práticas da vida, da criação de uma religião com códigos e regras, minudências religiosas práticas, mas igualmente desumaníssimo ao ponto de arrasar multidões, destruir cidades, matar e reduzir a nada a Terra dos que no início dos inícios não O aceitaram. A ideia que nós hoje temos do Senhor, falo por mim, leva-me a descrer de um Deus tão bárbaro, tão obsessivo e tão desumano como o Deus que o Judaísmo toma como seu, um Deus de origem abraâmica, como dizer, étnica, que parece ter estabelecido uma aliança, um pacto e sendo monoteísta, também de base racial. Jesus Cristo veio de certo modo restabelecer o sagrado do Pai, modificando, inclusivamente, algumas raízes estabelecidas milhares de anos antes. A nós cristãos, que colhemos do Antigo Testamento e do Novo as bases do cristianismo é, todavia, no NT que melhor reconhecemos o Pai e o Filho, e com os dois numa mesma majestade divina, convivemos e nos irmanamos como irmãos. É muito bela esta imagem, este sentir colectivo, ao mesmo tempo fraterno, sem exclusividades, acolhendo com imensa liberdade outras religiões, porque não somos uma seita, somos de tempero cultural e humanista, uma grande nação de fiéis que acolhe o outro independentemente da religião, do sexo e das origens sociais. É por isso, que temos Deus no centro das nossas vidas. 

         - Mudemos de assunto que este é demasiado sério e não sei se consegui exprimir-me como gostava e devia. O Ministro da Administração Interna, que chegou sorridente, ajoujado de competências, honestidade e profissionalismo, que durante meses não saía dos ecrãs de televisão e das primeiras páginas dos jornais, perseguido pelo jornalismo indecente que hoje se pratica (eu era despedido por muitíssimo menos do que vejo e ouço, corrido pelo chefe de redacção a pontapé). Estes doutores da mula ruça, saídos das universidades onde aprendem o jornalismo de beicinho, sabichão, provocador, vazio, vedeta que os leva do elogio vibrante ao vexame ridículo, com o mesmo à vontade do grande senhor (nem falo das pobres senhoras) do pensamento e da notícia que incendeia razões, despacha políticos, cria intriga, encosta-se a facção partidária e triunfa do interior da massa amorfa dos portugueses interessados apenas no futebol. Quanto a Luís Neves, está de novo atulhado na porcaria da seriedade que esbanjou e agora o aprisiona. 

         - Bem dizia eu ontem: cala-te, boca suja. Os dois canalizadores acabaram esta manhã o trabalho. O mais velho saiu-se com esta: “Eu conheço-o há muitos anos.” Assim que ele falou no Sebastião Fortuna, e nomeou o seu próprio nome, luzes e luzes acenderam-se no meu cérebro e reconstrui logo um mundo feliz e fabuloso que ficou no passado. Ele esteve aqui com o Mestre para tentarem arranjar a bomba da piscina e nós vimo-nos vezes sem conta no vasto atelier do Fortuna. Quando lhe disse que tinha ido à piscina esta manhã, ele perguntou-me se não tinha visto a sua mulher “que tem o hábito de ir à hidro- ginástica”. Está tudo esclarecido? Talvez. 

         - Dia abençoado o de hoje. 


segunda-feira, outubro 12, 2026

 Segunda, 12.

O país vive “à Ronaldo” como deseja Luís Montenegro. Desse modo, nasceu OE visivelmente pensado nos mais favorecidos, deixando de lado a pobreza que se vem acentuando de ano para ano. Em 50 anos, foram sempre os mesmos a governar-nos salvo no período sinistro da “gerigonça” de tão saudosa memória para o PCP e Bloco de Esquerda, que consagrou António Costa como o homem que conseguiu aglutinar num mesmo Governo a esquerda, mas de olho pesquisando e estudando a personalidade da senhorita que preside à UE com quem acamaradou até ao cargo que hoje ocupa e para o qual não lhe vejo nenhuma aptidão ou conhecimentos. 

         - Não quero com isto chamar o Chega como faz Passos Coelho. Devia, em abono de Portugal, estar satisfeitíssimo por ver duas eminentes personalidades a disputarem-se para o cargo de chefe do governo: o antigo governante e o ex-governador do Banco de Portugal. Um e outro, quando instados, respondem que não têm ambição política alguma, senão a de ajudar o país a sair da eterna miséria. É o blá blá do costume. Passos Coelho que durante a troika esteve à altura dos acontecimentos, não percebeu ainda o partido Chega que, tal como o PCP, o Livre, os resquícios das senhoritas do BE, vive tão só do desconsolo do povo, das suas legítimas aspirações nunca realizadas, da revolta e do imediato, própria de partidos que tudo podem prometer porque sabem nunca serão poder. É o caso do Chega, vive do tumulto, do oportunismo, do descontentamento nas ruas, não possui programa, não tem dirigentes, técnicos, pessoas com carisma e força de liderança, sendo André Ventura o carismático dirigente de um partido onde só existe ele. Sem que com isto lhe retire valentia. De resto, é graças a pessoas como ele – Marine Le Pen, Jean-Luc Mélenchon – para só citar estes dois, que a direita de Ventura prolifera. Não é tanto por aquilo que apregoa, mas por aquilo que as esquerdas lhe oferecem em promoção gratuita. 

         - É inevitável falar da França onde a revolta não larga as ruas de Norte e Sul. Aqui como por lá, a governação é rotineira, sem criação, sem pesquisa social, sem pessoas que se lembrem que trabalham não para si, mas para toda a comunidade. Para isso é que há ministros e secretários de Estado, administração pública e gabinetes disto e daquilo, multidões de funcionários que se deviam ocupar das pessoas e da vida prática da nação. Digamos que o dinamismo é o motor impulsionador da vida moderna, impeditivo da ronceirice, da ocupação das horas sonolentas pelos ministérios, do deixa andar. A França é, por assim dizer, um país pobre. Os franceses não querem assumir esta pobreza, deslocam o olhar dos quase 121% de dívida pública em relação ao PIB. Não é ainda a miséria, mas para lá caminha. E isso sentem os cidadãos no dia-a-dia. Mas quando por ciclos a sociedade é sacudida, num ápice aparecem as soluções que todos necessitam. Pergunta-se por que não vieram antes. O Governo francês, de repente, diz que tem mais 3 mil professores em falta nas escolas e universidades, que possui uma verba astronómica para obras nos edifícios públicos, não vai haver mais frio ou calor dentro das salas de aulas, enfim, o paraíso terreal abrir-se-á para as gerações presentes e futuras. Que blá blá monstruoso. 

         - Somos governados por ditadores, doidos varridos, impotentes, arrogantes, aldrabões, complexadas criaturas que despejam a impotência sobre milhões de seres humanos. Parece que um fosso se abriu por todo o lado depois da chegada de Donald Trump e do fundo subiram à vez dezenas de tarados irmãos gémeos de Hitler. Perdeu-se a dignidade dos cargos públicos, a linguagem da rua subiu aos palácios presidenciais, aos parlamentos, às cadeias de televisão, a essa vala de lixo que é a Internet. Desde aquele pobre coitado, Peter Hegseth, outrora apresentador do canal de televisão Fox, hoje secretário de Defesa dos Estados Unidos, que se apresenta de peito nu, decorado com grandes tatuagens, ter dado permissão para que o fuzilamento do psiquiatra militar que matou 13 soldados numa base americana seja transmitido em directo, temos o regresso ao mundo das trevas, à Idade Média. A estes energúmenos que nos governam, tudo lhes é permitido em nome da “democracia” que convive bem com o poder absoluto de cada qual. 

         - Estão aí dois homens a arranjar o que o espalha-brasas escaqueirou. Entraram às oito e ao escavarem para encontrar o cano que foi cortado, descobriram outro de onde há muitos anos se evade água para as profundezas da terra. O mais novo andará pelos trinta e poucos anos, o outro pelos cinquenta. O primeiro é magro, corpo inteiro e limpo, um piercing em cada sobrancelha; o mais velho, cabelos brancos, delgado, alto, ambos flutuam num entendimento suave, numa bolha sensível, por onde se escapa um segredo que não ousam expor ao comum dos mortais. Cala-te boca halitosa, cabeça delirante


sábado, outubro 10, 2026

 Sábado, 10.

Ao ver a luta dos jovens e idosos por habitação condigna e a preços decentes (na sua origem a falecida Maricarmen), ocorre-me um pensamento sobre Julien Green que, octogenário, recebeu do proprietário do apartamento onde vivia, em Paris, ordem de expulsão. Se o recordo, é para dizer que a exploração e especulação imobiliária já vem de longe, pelo menos dos anos oitenta do século passado. Também não esqueço que o actual primeiro-ministro e o Presidente da Assembleia da República, são donos de vários apartamentos e vivendas, o primeiro abafou o que diziam os jornais sobre a capacidade financeira de um homem que fez a sua vida no salão redondo do Parlamento; o segundo não se sabe como conseguiu coleccionar tantas casas e ainda por cima esquecer-se de as mencionar na sua folha de bens obrigatória por lei. Enfim, somos isto. 

         - Ontem fui à Brasileira levar à senhora da limpeza (talvez devesse dizer técnica auxiliar...), uma mulher notável, culta, civilizada, não sei de que nação africana, um pequeno saco com romãs. Mal entrei, parecia que tinha chegado o rei de um qualquer país escondido atrás do mundo visível, pois o entusiasmo das raparigas e rapazes foi tal que me obrigou a cumprimentá-los de mão a todos e a cada um. Esperei uns segundos porque a encontrei a limpar os wc, por sinal sempre sujos devido aos turistas nojentos. Se fiz este gesto, foi porque o ano passado lhe ofereci uma romã que devia ter quase meio quilo e ela levou meses a glorificar-me pela oferta. A semana passada, ofereci-lhe uma caixa com dióspiros e então tive direito a dois beijos faciais – agora assim fazemos sempre que nos vemos. 

         - É visível há muito que Trump não é Presidente dos EUA, mas homem de negócios que tomou a nação americana como uma grande empresa. Não faz política, faz negociatas para si e para os seus cúmplices e amigos. Disso é prova o acordo que acaba de realizar com o seu amigo Vladimir Putin, comprando-lhe 300 mil toneladas de gasóleo de imediato, mais 500 mil em Novembro e por aí adiante, sem se importar com o jeito que essa venda vai dar à Rússia em guerra há quatro anos contra a Ucrânia. Ele imagina que deste modo terá do seu lado os votos dos americanos nas intercalares de Novembro. 


sexta-feira, outubro 09, 2026

 Sexta, 9.

Portugal, para nossa desgraça, não passa disto: a corrupção devora-nos. Ontem, cerca de mil elementos da Judiciária, andaram por todo o país à cata dos vigaristas que montaram um esquema de tal modo sólido e extensivo ao estrangeiro, de fuga ao IVA. No plano o Estado ficou sem 450 milhões de euros e deteve 39 implicados que faziam vidas de milionários onde os automóveis de 100 mil euros imperavam, a par de vidas airadas de luxo saloio e fantasias sem limite. O submundo dos pobres, dos trabalhadores honestos, esforça-se para manter a dignidade do país – em vão. 

         - Netanyahu e os companheiros ortodoxos, recordaram o terceiro ano do atentado terrorista onde morreram mil e poucos israelitas. De então para cá, mataram 75 mil palestinianos inocentes, reduziram a escombros toda a Faixa de Gaza, fizeram um acordo de paz e não cumpriram, associaram-se ao louco Trump no ataque ao Irão, invadiram o Líbano, estão a destruir a Cisjordânia. 

         - O espalha-brasas causou tantos estragos levando a eito tudo sem pensar, que provocou um curto-circuito, a bomba avariou, tive uma inundação na casa das máquinas; para acudir a este desastre chamei o técnico do furo, dois canalizadores e por certo a conta da electricidade vai ser de montante. Até agora já desembolsei 120 euros. 

         Vim no autocarro que me trouxe de Lisboa a pensar no senhor José Manuel e com os meus botões disse: “Não posso desfazer-me de uma pessoa como ele que, quando da tempestade do início do ano, veio aqui numa aflição cortar as árvores tombadas, passou nesse trabalho uma manhã e quando lhe perguntei quanto lhe devia, me respondeu: `Numa aflição não se leva nada.”  


quinta-feira, outubro 08, 2026

 Quinta, 8.

Ontem, quando desci do último andar do C.I. onde estivera a almoçar (os preços estão a galopar), passei na loja Rolex e parei para observar um relógio de pulso. Talvez me tenha demorado um tanto, porque o funcionário aproximou-se a perguntar se queria alguma informação. Contudo, o que me retivera o passo, fora o seu preço: 61 mil euros! Respondi: “Se ao menos este modelo retivesse o tempo!” Ele sorriu e afastou-se, talvez pensado: “Um filósofo a esta hora!” 

         - Uma cientista russa morreu vítima de uma bactéria quando trabalhava no seu laboratório na Sibéria. Logo o mundo se inquietou e informações foram pedidas, mais a mais porque as colegas ficaram de quarentena. Sendo o regime uma ditadura, dali só sai o que o chefe autorizar. A Europa e o mundo, reza para que não tenhamos outro vírus idêntico ao da Covid, uma vez que o retrato parece tirado a papel químico daquele que nos trouxe o SARS-Cov-2. 

         - Há algo de que o país é fértil para além da muita corrupção: a leviandade pública, o salve-se quem puder, que se lixe o cidadão. Exemplo recente: os aposentados da Caixa Geral de Aposentação. Inquiriram do montante mensal que iriam receber por mês, obtiveram a resposta e meteram o requerimento iniciando nova vida. Quatro meses depois, dizem-lhes que o organismo se enganou no cálculo e eles terão de devolver ao Estado o excedente, uns 90 euros, outros cento e tal euros mês e acrescenta: é da lei. O Estado e a sua Administração Pública, incompetente, baldas, nas tintas para os cidadãos, passa incólume sobre tudo e todos. Apurar erros, não é hábito em Portugal. 

         - Morreu Maricarmen Abascal, a senhora que originou o mar de protestos contra os despejos em Espanha. Tinha 87 anos e estava internada num hospital de Madrid desde que foi despejada da casa onde viveu parte da sua vida. Não se conhece o que provocou o seu desaparecimento. Eu, quando a vi na TV, parecia-me uma senhora com vitalidade, estranho a sua morte. Seja como for, os espanhóis erguem-lhe pequenos altares nas ruas com a sua imagem e muitas flores.  

         - O governador do estado norte-americano da Califórnia, proclama a aplicação da 25ª. emenda da Constituição dos Estados Unidos para afastar Donald Trump. Motivo: o homem é “doente mental”. Há quanto tempo venho eu dizendo o mesmo nestas páginas. Se os americanos me lessem... 


terça-feira, outubro 06, 2026

 Terça, 6.

Que desordem vai por aí! Não é ainda a barafunda dos tempos de Costa, mas para lá caminha aos passos trapalhões de Montenegro. Para já, pergunta-se quem não faz greve nestes dias atormentados? Todo o mundo se encolhe porque a revolta atinge sectores tão diversos como: os empregados da easyJet, os professores, os fatigados da ALMA, os tristes dos bancários, os escuros das prisões e estou a esquecer-me de outros mais. 

         - Este desassossego, também acaba por atingir os profissionais da inquietação que comentam o discurso de António José Seguro do palanque da Câmara de Lisboa, no Largo do Município vazio de republicados à parte os profissionais da política obrigados a marcar presença (o povo aproveitou a greve para descansar, ferrar os ouvidos e engordar com dois quilos de torresmos), com as palavras que se lhes adaptem, embora eu continue sem perceber quem é e o que pretende o actual Presidente da República. Até aqui, as suas intervenções foram, de um modo geral, delicodoces. Limpa um pouco o pó que está à superfície, lava daí as mãos e lá vou para Caldas da rainha. Enquanto Marcelo era o trolaró de serviço, este parece ser o da concórdia, um sorriso discreto permanente no rosto, um besoirar de lábios onde se persente “deixem-me em paz”?  

         - Talvez tenha a sua razão ou talvez não tenha razão nenhuma. Socialista do antigamente, rejeitado pela maioria da classe reinante ao tempo de António Costa, ei-lo desimpedido para pensar pela sua própria cabeça. Daí ter louvado o acordo entre PSD e PS para o Orçamento de Estado. Até aqui... acontece que toda a esquerda, cavalgando o risível, saltou em cima de um e outro afirmando que ambos deixam passar um documento fundamental... sem ainda o haverem conhecido. Todavia, o PCP e acólitos já disseram, preto no branco, que votam contra OE que me conste sem o... conhecerem. 

         - Quer-me parecer que a França vai renovar o Maio de 68. 

         - Fui à piscina. Lá encontrei os mesmos velhotes, um ou outro desconhecido, dois, nus, a untarem o corpo minuciosamente, sobretudo as partes íntimas (o “termómetro” e o resto) com um creme hidratante, enquanto discutiam a novela Ronaldo vs Jesus. 


segunda-feira, outubro 05, 2026

 Segunda, 5.

Pedro Sánchez, na sequência do escândalo Maricarme, decidiu chamar os espanhóis às urnas. Não sei se foi a melhor medida, sei que os socialistas vão ser corridos por corrupção onde estão chafurdados da cabeça aos pés. Ao querer modificar a lei da habitação que, de resto, vigora há imensos anos, afundou-se utilizando politicamente a senhora de 87 anos, presa a uma cadeira de rodas, e atirada porta fora da sua residência para um hospital. O problema dos socialistas é sempre o mesmo: são ou não social-democratas? Que tipo de ideologia os sustenta? Adoram a riqueza em pé de igual com a direita ou fazem dela o instrumento social capaz de incitar a igualdade? Sánchez, como Macron, internacionalmente fazem a diferença numa Europa rendida e bajuladora de Trump; internamente são incapazes de pôr de lado as ideologias e trabalhar em prol de uma sociedade mais justa e equilibrada. 

         - Eu, como os meus leitores se recordarão, fui sempre defensor de Rui Pinto. Entre os “crimes” que ele praticou ao assaltar certas páginas transaccionadas na Internet - esse alçapão de misérias e vigaristas da pior espécie -, pondo a descoberto crimes de lesa-majestade que fulanos do futebol e não só praticam atrás do tapume da impunidade tecnológica, esses crimes, comparados com aqueles que ele pôs a nu, não passam de adendas morais que outros países aproveitam para caçar tubarões humanoides. Veja-se o caso do Manchester City, tão bem aproveitado pela justiça do Reino Unido, que acusou a instituição de 114 casos de corrupção ou a França que tão grata ficou ao hacker, para não falar no (entre nós misterioso) caso Benfica e por aí fora. Em Portugal, com a rama de advogados que conseguem dar várias voltas às leis até as corromperem, abusando do calvário de prescrições, os crimes acabam mortos por nunca terem existido. 

         - O funcionários públicos, estão muito agradecidos à CGTP pelo fim-de-semana duplo. 

domingo, outubro 04, 2026

Domingo, 4.

A parte de o Pentateuco consagrada ao Êxodo, é sem dúvida a mais fascinante, não obstante as imensas contradições. Ocupa-se da adopção dos filhos de Israel e da construção da Casa Comum. Depois de a rebelião dos israelitas, YHWH, todo misericordioso, revela-se o único e verdadeiro Deus. Conduz Moisés e seu irmão Aarão através do deserto, com muitas privações pelo caminho e descrença do povo, sacrifícios e desistências, montanhas, mares e nesse longo caminho, vai construindo as bases que hoje sustentam não só o judaísmo, como o cristianismo. É certo que com a vinda de Jesus Cristo, alguns fundamentos foram abalroados e daí, talvez, as muitas perseguições dos judeus até à crucificação na cruz. Os ortodoxos judeus, não aceitam o Novo Testamento, porque rejeitam Jesus. Segundo eles, Deus tal qual o imaginam e crêem, não podia descer entre nós para morrer numa cruz como tantos humanos (dois dos quais de cada lado) às ordens de Pôncio Pilatos que, de resto, lavou as mãos da condenação farto das insistências falsas dos judeus. Seja como for, a verdade é que é na junção do Antigo Testamento com o Novo Testamento, estão as bases onde assentam muitas religiões emanadas de um Deus único. Aliás, há muita coerência, entre um e outro, apesar de distarem séculos. O Messias sabe-se que viveu na Palestina no reinado de Tibério é, portanto, uma verdade irrefutável. E também é histórica a Grande Revolta Judaica de 66-71; nessa altura Roma destruiu Jerusalém e o seu Templo, assim como uma grande parte da Judeia.    

         - Liguei a televisão. De repente vejo-me na Sé da Madeira, sendo dia da Armada, cheia de militares de farda branca, oficiais de condecorações ao peito, e o seu bispo Nuno, de rosto gorducho e feliz, tecendo panegíricos a suas “excelências” a maior parte de uma mediocridade confrangedora. Desliguei. Não suporto ver e ouvir o despautério sacerdotal, na casa de Deus, eleger cristãos de primeira e de segunda, os primeiros instalados junto ao altar-mor, os outros na rectaguarda perto da porta da rua. Imagino a almoçarada que se segue com os funcionários eclesiásticos.  

         - Este mundo está metamorfoseado no inferno. A semana que findou, trouxe-nos mais um atentado terrorista. O avião da companhia Flydubai com destino a Telavive, tinha como co-piloto, um radical que possuía a intenção de o estatelar no solo e, para isso, desatou a golpear com um canivete o comandante. O alarde chegou aos passageiros que se precipitaram para a cabine. Por sorte, entre eles, seguiam dois pilotos de carreira que prontamente se ocuparam do aparelho, e quando este estava perto do solo, conseguiram orientá-lo para o aeroporto da Arábia Saudita onde aterrou sem problemas. Ao que parece, o assassino tinha ordens criminosas do Irão.  

         - Alinho estas linhas apenas para não me sentir só. Teresa de Sousa que o Torquato da Luz me apresentou (julgo) no Jornal Novo, escreve hoje no Público sobre a situação complexa do mundo, com a guerra quase instalada na Europa, enquanto “nós, por cá, passamos a semana a debater freneticamente o assunto Cristiano Ronaldo” e conclui: “Estamos todos bem.” 

         - Troveja, está escuro, chove.

 

sexta-feira, outubro 02, 2026

 Sexta, 2.

Ontem, depois de ter posto on-line o que me ocorreu, subi para tomar um duche. No quarto tenho um pequeno aparelho que está sempre conectado com a TSF. Eis se não quando, uma voz feminina, firme, incisiva que fala do que eu tinha escrito – a comentadora Margarida Davin. Que disse ela que me honrou por pensar como eu e dando-me a satisfação de não ser nenhum chico esperto original. Disse a jornalista: "É, no mínimo, bizarro que um primeiro-ministro, um chefe de Governo, perca o seu tempo a tentar interceder numa questão que poderá ser muito importante para quem gosta muito de futebol e para quem segue a seleção, mas que, para lhe chamarmos crise, só com muita boa vontade, porque, efetivamente, crise é aquilo que se vive quando não se tem acesso à habitação, quando não se tem acesso à saúde, quando há cada vez mais dificuldades no acesso à educação”, acrescentando: "só pode ser considerada normal num país em que, efetivamente, o futebol transforma-se num ativo político". E ao finalizar: "No gabinete do primeiro-ministro, já há muito tempo que se percebeu, até através das publicações nas redes sociais, que o futebol rende e que torna o primeiro-ministro alguém popular e simpático (...) preferia que Luís Montenegro gastasse energia noutros problemas: Isso, sim, são crises, quando tentamos fazer face ao custo de vida e cada vez o mês é mais longo do que o salário. Isto são as verdadeiras crises nas quais é suposto um Governo se concentrar, nas quais é suposto um primeiro-ministro gastar todas as suas energias e não propriamente acorrer a um pequeno drama na seleção, que é muito importante, lá está, para a Federação, para a Seleção e para todos os adeptos, mas que está muito longe de constituir uma crise nacional." Enfim. não estou. 

         - Cedendo aos apelos do João, fui hoje à Brasileira e encontrei-me com o Paulo Santos, Alexandre, Virgílio. Bons momentos, nada de politiquice, apenas a vida a estender-se ao correr da conversa. Recusei ir almoçar com eles. 

         - Paulo Santos, lê-me um pequeno fragmento do que enviou, em francês, para o editor. No livro ele decidiu citar-me numa nota que acima escrevi sobre a Saudade. A eternidade está-me garantida. Vergílio Ferreira cita-me no seu Diário, agora o Paulo eterniza-me no seu livro sobre Lisboa. 


quinta-feira, outubro 01, 2026

 Quinta, 1 de Outubro.

O país parece um território de moribundos a carpir desgostos de séculos. Tudo porque um tipo arrogante, convencido, deselegante decidiu deixar os campos de futebol, tomar o seu jacto particular e regressar ao leito materno. Fica-me de tudo isto, a personalidade forte do homem que, sem o sacudir, pô-lo a andar. O primeiro-ministro de Portugal, telefonou às personagens a tentar remediar a pieguice do dito “maior jogador do mundo”, mas não me lembro do ver acercar-se dos que precisam de um lar, saúde, educação e uma vida digna. Que pobreza! Que ridículo! Que imagem de país do terceiro mundo!  

         - A habitação como tanta, tanta coisa não foi sendo resolvida ao longo de 50 anos de democracia, ao ponto de tantos seres humanos, dignos, trabalhadores, honestos e activos não terem uma casa para morar e, alguns, nem ganharem para um mísero quarto com uma cama. Na origem desta desgraça, está uma tal Assunção Cristas, decerto ela e os seus com apartamentos a necessitar de impulsos financeiros, que lançara a desordem, atirara para a rua velhos e novos, impulsionara o aumento desnorteado dos alugueres com ainda hoje apelidada de “lei Cristas”. A criatura, como ministra, era um desastre, uma espécie de pacóvia deslumbrada, que soprava horrorosos sermões que nunca me convenceram e só alimentaram a lei do mais forte, fosse ele governante ou fundo de investimento imobiliário. De seguida, veio António Costa e o seu amor aos pobrezinhos, aos deserdados da sorte, que nunca cuidou do direito à habitação plasmado na Constituição e deixou proliferar a moda AL prontamente apanhada pelos gananciosos de riqueza fácil e nenhum trabalho. Em desespero, milhares de jovens saíram à rua. Foi quando aquele que se governa junto dos corruptos em Bruxelas, acordou da longa letargia do poder e olhou, ainda que timidamente, para as novas gerações que dormiam ao relento ou em tendas nas ruas. Pobre país que tão insignificantes políticos possui comparado com a riqueza de povo digno e humilde que possui. 

         - Grande tristeza o falecimento da Piedade. Só não me derrotou, porque há mais de dois anos ela tinha deixado de cuidar desta casa e do seu residente. Grande amiga que a Annie era, quando cá vinha trazia sempre uma lembrança para a “que tão bem trata de ti”. Foram mais de trinta e cinco anos de amizade e respeito mútuos. Repousa em paz terna amiga, que Deus te compense pelo muito que sofrestes. 


quarta-feira, setembro 30, 2026

 Quarta, 30.

Eu sou dos que têm simpatia pelo povo espanhol. Ao contrário dos que dizem ser eu mais pró-francês, a verdade é que o país onde gostaria de viver era em Espanha. O modo de ser, de viver, a personalidade vincada do povo, o seu apego às tradições, o estar-se nas tintas para a moda americana ou outra, a sua atenção ao que colectivamente é importante, tudo isso mais o esplendor das cidades, do movimento das ruas e praças, da arquitectura e dos museus, fecham um entendimento humanista que me agrada especialmente. Veja-se o que aconteceu com a senhora Maricarmen, expulsa de sua casa aos oitenta e sete anos, com problemas motores, por um fundo de investimento imobiliário, para um hospital de Madrid. Logo se acenderam as fogueiras da revolta e as Portas do Sol onde eu estive com a minha saudosa Annie, foram inundadas de tendas e revolta. Não só ali, como em outras cidades, numa força tal que obrigou Pedro Sanchéz a convocar uma reunião do Governo para discutir o assunto e prontamente a amável senhora tornou ao seu lar sem aumento de renda. Não distante, em Paris, outras reivindicações aconteciam, mas os franceses, pouco civilizados, incendiaram o mobiliário urbano que encontraram no caminho. Às mulheres espanholas, bastou-lhes os gritos de revolta, a ocupação do espaço público e a razão que nunca esmorece quando do nosso lado temos a força das convicções e do direito sobre estas colunas de capitalistas que, apoiados em Trump, querem-nos reduzir a seus escravos. Se algum mérito tem a democracia, é este de em conjunto gritarmos por todo o ser humano frágil e com ele reforçarmos a democracia e o valor colectivo e humanista.  

         - De resto, a chungaria está por todo o lado. Lisboa é um óptimo retrato e quando viajo de metro ou passeio pelas ruas, tenho tendência a fechar-me em mim de modo a isolar-me do que vejo e ouço. O futebol, a grande alienação dos povos básicos, é disso um exemplo triste e miserável. Outro dia, à minha volta no metro, um punhado de homens gordos, maltrapilhos, gargalhando muito alto, a cerveja de boca em boca, deixavam uma impressão triste e moribunda à luz de séculos civilizacionais. Os energúmenos, vim a saber mais tarde, vieram do País de Gales assistir ao jogo com Portugal. Brrrrrr. 

         - Fez-se luz sobre o caso das gémeas brasileiras que vieram do Brasil a Portugal, empurradas pela rede de influências que persistentemente se mantém como herança do fascismo, usufruir de um tratamento que nos custou mais de dois milhões de euros, enquanto outras crianças portuguesas estavam tristemente à espera do mesmo medicamento. Quem aparece à cabeça desta miserável história, é o filho de Marcelo Rebelo de Sousa, o então chefe de Estado, secretário-geral de Estado, o socialista António Lacerda e Luís Pinheiro ao tempo director-clínico do Santa Maria. O Chega e mais uns quantos, tinham o alvo assestado em Marcelo, mas este, desde o começo, que se havia distanciado do filho deixando até de lhe falar por ter utilizado o seu nome sem autorização nem conhecimento. As raízes boas do ex-Chefe de Estado, vieram ao de cima em seu auxílio. Mas esta história, continua a reescrever a linha de coscuvilhice, comadrio, cunhas e corrupção que inunda as elites emporcalhadas da sociedade em que vivemos. 

         - Fui lá fora e respirei o ar outonal que se instalou. Deve ter chovido de noite e os  top-cat prometem-nos um dia lacrimejante. Hoje, a exemplo do que me impus para economizar gasóleo, a saber dois dias por semana em clausura, não conto deixar este convento. 

         - A Ucrânia e a Faixa de Gaza, duas nações mártires, às mãos de déspotas, um tout court, o outro disfarçado de democrata com o rabinho corrupto de fora. A União Europeia, leva anos de reuniões, fala barato, viagens, confidências inocentes, promessas vãs; enquanto o primeiro avança e ou segundo toma o território que não lhe pertence. Pelo meio, milhares de vidas ceifadas, cidades arrasadas, morte e caos.   


terça-feira, setembro 29, 2026

 Terça, 29. 

No Pentateuco, o Êxodo dos israelitas do Egipto onde eram um povo de escravos, mas ainda assim não tão mal como muitas vezes no-lo apresentam, onde ficaram entre o Egipto e Canaã quatrocentos trinta anos, foi uma disputa que durou imenso tempo entre YHWH (tetragrama do alfabeto hebraico) e o faraó apoiado pelos seus acólitos. Por essa altura ainda Deus não se tinha revelado em todo o seu esplendor a Moisés o eleito para levar o seu povo para a terra escolhida por YHWH. O que me impressiona, desde o primeiro capítulo até ao dezassete do Êxodo, é a violência que Deus impõe no confronto com o faraó utilizando métodos medonhos ao ponto de levar o povo egípcio à fome, à privação, às doenças e à morte. A saída dos hebreus para a longa viagem que os deixará na terra prometida, espécie de iniciação, onde Ele os fixará como seus filhos adoptidos, e aí começará a história judaica, faz-se à custa do suplício dos egípcios que morrem aos milhares com epidemias de toda a sorte, porque o faraó recusa-se a deixar partir um povo que lhe foi útil, trabalhador, e há séculos radicado no território dos faraós. Há muito que penso no assunto, porque a Deus, com o poder absoluto que era e é o Seu, podia num gesto, palavra ou aceno mudar o faraó e toda a sua entourage a Seu favor. (Voltarei a rever este texto que foi escrito no café da Fnac, portanto sem consulta aos dados disparados pelo meu cérebro.) Há, contudo, uma frase que YHWH ao revelar-se Deus, deixando por assim dizer o tetragrama divino, quando Moisés antes de partir com o seu povo, lhe pergunta: que direi quando me perguntarem quem és? Deus respondeu: “Eu sou O que está sendo.” Esta resposta, desde que a li no Pentateuco, nunca mais me largou. Penso imensas vezes nela e preciso de desabafar para acalmar. Assim farei quando estiver preparado para tal. Quanto filhos de Israel, a história diz-nos que estiveram em todo o lado e em lado nenhum – até 1948. 

         - O Papa Leão XIV na sua última jornada de três dias em França. Por onde passou, falou de paz porque tanto ele como todos nós, persentimos que a guerra se aproxima a passos apressados. Putin sente as costas quentes com o seu camarada Trump a protegê-lo e atrás dele a Coreia do Norte, China, e outros pequenos satélites-ilhas no apoio à trama tremenda que se prepara como ficou demonstrado nestas últimas semanas de investidas “hibridas” ao nosso continente, a derradeira das quais há três dias em Inglaterra. Portugal está completamente alheado de tudo, como se este canto do mundo não estivesse aliado aos seus vizinhos e não fizesse parte daquilo que o ditador pretende destruir – a União Europeia. Luís Montenegro, sem ideias, preparação ou acuidade, continua a afirmar que é melhor o diálogo. Macron também assim pensava, depressa percebeu que os ditadores impõem, não escutam. 

         - Insistem os nossos queridos governantes em forçar os automobilistas a andar a pé, falam-lhes ao ouvido que deixem o carrinho em casa e passem a usar os transportes públicos. Pois é. Eu instalei-me aqui em 1998, ia todos os dias a Lisboa de carro, para passar a ponte já nessa altura precisava de uma hora. Por fim cansei-me, pensei nos gastos, no Planeta, e optei pelo Fertagus. Aqui me encontro desde então e contam-se pelos dedos de uma mão, as vezes que peguei no popó para ir à capital. Sou um português comum, nunca vi um deputado, ministro, secretário de Estado nos transportes públicos. Suas altezas não se rebaixam a deixar o trono rolante. Que bicheza! 


sábado, setembro 26, 2026

Sábado, 26.

Nunca tinha tido uma consulta tão caótica como a de anteontem, a tal ponto que hesito em fazer o exame ortóptico prescrito pelo oftalmologista directamente para a sua colega do Hospital CUF Tejo, que terminou com esta observação: “Nós depois temos de conversar, porque há cada vez mais exames destes.” Para bom entendedor... Acontece que eu estou sempre muito atento à medicina-negócio que hoje impera por todo o lado e fujo dela como o diabo da cruz. Nestas circunstâncias, a técnica é esta: envolver o paciente numa roda-viva de exames cada um mais caro que o outro. Por agora foram 85 euros, na CUf talvez o mesmo valor, de retorno ao início outros 85 euros e a procissão ainda vai no adro. A sensação que tive, foi que o clínico detectou o meu problema que, de resto, o Lionel que é médico no Hospital de Estrasburgo, me deu de conselho: “Faz como eu: usa óculos para ler e para ver ao longe.”  

         - Que tristeza! Estou transformado num diarista em desprimor do romancista que há pelo menos três meses não molha a tristeza nas páginas do romance e perdeu de vista Ana Boavida que tanto tinha para lhe contar, não obstante as duzentas e muitas páginas de memórias inexistentes que o trabalho de quase três anos metamorfosearam em realidade. 

         - O mundo está confrontado neste momento com o vozeiro de Trump e a serenidade de Leão XIV. 

         - Pobre país, ou antes pobres portugueses. Não fomos feitos para o protesto porque durante 50 anos Salazar obrigou-nos a amochar. E todavia, à parte os primeiros governos constitucionais, todos os outros só trabalharam, só fizeram o esforço de compreender a razão que assiste aos seus concidadãos, só acudiram às necessidades pungentes da sociedade, quando os portugueses entraram em protesto, saíram à rua, cercaram a Assembleia da República, desfilaram nas avenidas, obstruíram estradas, criaram o desnorte na via pública. Então eles deixaram os gabinetes confortáveis onde se acantonaram, olharam através das janelas dos palácios do Estado e reparam no teor da protestação que atravessava o espaço público e tremeram pelos seus postos, pela vida airada de um Estado rico, que esbanja em mordomias, em fidalguias, em luxo e prazeres aquilo que tanta falta faz aos seus compatriotas. O coro de gente com suprema razão, é mais forte e fê-los tremer de temor de perderem o poder ou de este cair podre nas ruas. O trabalho quotidiano, o estudo dos problemas, a antevisão das tragédias e do futuro, a preocupação com os pobres que não cessam de crescer, com o SNS, a justiça, a cultura, a habitação, a velhice, a planificação geral própria de governos vigilantes, foi sempre passageira, empurrada pelo desespero das populações quando lutam proclamando justiça, equidade e um Portugal mais justo e equilibrado. Desta vez, foi a voz potente dos camionistas que são empurrados para o fecho das empresas por não suportarem o preço dos combustíveis. Os últimos vinte anos de governação PS e PSD habituaram-se a falar muito, fascinados pelas televisões, e a trabalhar pouco no sessego do estudo aturado e persistente. Governam através dos ecrãs. Sou dos que acham que somos o único país europeu com telejornais de duas horas preenchidos com histórias de lana-caprina, vaidades pequeninas, gente sem nível que se põe em bicos de pés por não ter onde cair morto e, bem entendido, o festival de políticos, especialistas e comentadores. É um forrobodó. 

         - Esteve aí o espalha-brasas. Chega sempre com imensas histórias de cortar o coração. Tenho de o acalmar, conversar um pouco com ele e quando sai vai mais ligeiro aligeirado das penas deste e daquele, dos filhos e netos, da saúde e da última morte de alguém do seu mundo. Levou também uma carrada de marmelos e dióspiros. 

 

quinta-feira, setembro 24, 2026

 Quinta, 24.

Às oito da manhã tomava o autocarro para chegar ao consultório do oftalmologista, no Chiado, onde tinha hora marcada às onze em ponto, viagem que se faz em pouco mais de trinta minutos. Um habitual acidente na Ponte Vasco da Gama, foi a causa. No caminho, olhos postos no rio, pensava naquela da excelente Ministra do Ambiente, segundo a qual os portugueses devem habituar-se a poupar combustível. A estimada Senhora não conhece os seus contemporâneos. Podem passar fome, não ter dinheiro para a saúde, para livros, para viver condignamente, mas para o popó, qual trono ambulante, ele tem que aparecer. Porque o automóvel é tudo aquilo que esconde à luz dos outros tristezas e desgraças do dia-a-dia; ao volante irmanam-se na máquina e solicitam-lhe o estatuto que brilha como arma de arremesso contra as desigualdades. Portanto, senhora ministra que suba o litro da gasolina, o português da classe média nunca abandonará a sua imagem resplandecente. 

         - A actual Ministra da Cultura, saiu-se com esta: Jorge Palma é um “cantautor”. A palavra está correcta, mas o novo-riquismo aflora por imposição fora do contexto. 

         - Os portugueses, se olharem de frente o presente, o passado e o futuro, vêem um monte de excremento que nunca foi varrido da sociedade – a corrupção. 

         - As ameaças não param, os avisos também não. A CIA alertou a Europa de possíveis ataques com drones contra a França, Espanha e Itália por parte do ditador russo. Que mundo! 


quarta-feira, setembro 23, 2026

Quarta, 23. 

Faleceu Jorge Palma. Cruzei-me com ele em duas ou três ocasiões, mas foi no Casino Estoril onde actou algumas vezes e eu tinha mesa no então chamado salão Preto e Prata, oferecida por Joaquim Couto, director, que restou daquele mundo empresarial, até hoje meu amigo, malgrado o tempo imenso que passávamos a esgrimir os textos que eu criava não só para o Casino como para outras unidades da empresa Estoril-Sol. Recordo-me de uma noite, Jorge Palma, acabado o espectáculo, os espectadores que enchiam a sala a debandar apressados para casa, as luzes a apagarem-se e o artista, só, sentado ao piano, prosseguia o show como se não soubesse onde estava, mergulhado num mundo estranho para nós, mas poderoso para ele, onde sons e emoções se misturavam para dar vida à personagem frágil, talvez um pouco tocada pelo álcool, que se esquecera que a madrugada não tardava e a música não conhecia dias nem noites, luz que vagueia por lugares que a imaginação impõe e a melodia persegue. Foi necessário que a dada altura, os funcionários o viessem retirar do piano, literalmente, e o levassem para os bastidores onde decerto ele ainda balbuciava uma canção e os poucos espectadores que com ele ficaram, eu entre eles, o aplaudissem até que desapareceu ao fundo do palco, figura magra vestida de escuro, provavelmente perdida algures entre o sonho e a realidade, a fantasia e a magia da música que só ele tinha o dom de criar, que só ele reinventava fundindo-a com a vida. O que mais apreciava nele, a par da sua música simples e complexa, que como um retrato permanece, era a voragem da liberdade, o ser de uma humanidade sem mácula, vivendo longe da mediocridade dos “artistas” de galinheiro que hoje proliferam como os “especialistas”, os “comentadores”, os porta-vozes deste e daquele partido.  

         - Hoje no metro, a dada altura, entra uma negra de largas ancas e mamas equilibradas, bem feitas, rijas e senta-se dois lugares adiante daquele onde eu vou instalado. Traz consigo uma bolsa e quando se ajusta ao banco, pendura-a ao ombro esquerdo enquanto com a mão direita fala ao telemóvel. Naquele movimento, não dá por mama onde assenta a mala, saltar do exíguo decote. Os mirones em volta, de sorrisinho maroto, não tiravam o olho... da mala. 

         - O Outono chegou, mas o Verão impôs-se com temperaturas que nalguns sítios chegaram aos 37 graus centígrados. 

 

terça-feira, setembro 22, 2026

 Terça, 23.

“É barganha particularmente perversa, por uma razão que devia ser mais vezes discutida – a descarada infantilização dos cidadãos, que não são tratados como adultos responsáveis, mas como crianças de mão estendida, dependentes das boas graças do Governo. O Estado falha todos os dias nos hospitais, nas escolas e num vasto conjunto de serviços públicos, cada vez mais degradados.” Quem assim fala, é João Miguel Tavares no Público de hoje, em crónica que se insurge contra os bónus que Montenegro decidiu dar aos velhinhos, coitadinhos, com reformas de miséria. Segundo o articulista que deve ser bem pago e por isso, quando não puder arrastar os pés, o primeiro-ministro da altura, far-lhe-á chegar uma reforma compatível com aquilo que afirma ser esmolas. O problema desta gente que se diz culta e responsável, é viver num outro qualquer planeta, onde não entra o reformado com 400 a mil euros, que são a grossa maioria dos aposentados no nosso querido país. Ele insurge-se contra o 13º e 14º mês, norma antiga que tanto jeito dá a quem aufere pouco. Mas vai mais longe: pede reformas para acabar com este feitio bem português de esmolar. Esquece-se que não são só os pobres que trabalharam honestamente toda a vida a esmolar, é o país inteiro que baila quando o dinheiro da UE entra a rodos no país. Mais. Do que ele devia falar quando fala de reformas, é do estado da Segurança Social e dos funcionários do Estado, e dos privados, que auferem várias reformas e quando casados, numa altura em que a mulher já não é dona de casa e aproxima-se a passos largos para se equiparar ao marido em direitos e ganhos do trabalho, falecido um dos cônjuges, o que fica passa a receber uma maquia importante do salário do falecido. Mais ainda. Aquele que nos engrandeceu junto do ninho de víboras que é o Parlamento Europeu (e não é o único), de seguida governador do Banco de Portugal, reformado recentemente sem idade para tal, aufere a bonita soma de 10 mil euros brutos mensais (os tais 10 mil que Cavaco dizia, quando deixou Belém, não ser possível governar-se a si e à mulher), mais o que acumula com o ISEG ao retomar a actividade académica. Mário Centeno está longe de ser o único. Para não falar nas mordomias a um enxame de pindéricos, que possui carro com chauffeur do Estado, subsídios para isto e aquilo, casas pagas, deslocações, numa festa colectiva que os contribuintes pagam com língua de fora, numa manifestação de novo-rico, num Estado a viver acima das suas possibilidades, quando cidadão amocha, vergado ao peso das dificuldades quotidianas. 

         - Fui à piscina. Depois de dois meses sem qualquer exercício, nadei apenas 30 minutos, num teste à perna e ao pé que as damas gordas e de sorrisos mimosos pendurados da água, acompanharam até à primeira braçada. Saí mais leve, quase etéreo, sobretudo psicologicamente, com um andar de menino atrevido a quem soltaram da jaula.


segunda-feira, setembro 21, 2026

 Segunda, 21.

O partido do ditador russo, como era de prever, obteve 57,86% dos votos nas eleições legislativas realizadas no fim-de-semana. Com este resultado, é possível a Putin obter os 301 deputados necessários na Duma. Ressalvando este pormenor que é esquecido pelos seus apoiantes: quase metade dos eleitores, abstiveram-se de votar. A Ucrânia, aproveitou o “evento eleitoral” e atacou em força com drones e um enorme ciberataque contra o sistema de votação electrónico.  

         - Tudo isto, enquanto na rectaguarda Putin ensaia o ataque à Europa. Macron que no início da guerra contra a Ucrânia, pensava que o ditador era sensível a conversa fiada (relembro que entre nós os comunistas apoiaram a “operação militar especial” russa), foi prostrar-se de joelhos no Kremlin tentando chamar à razão um homem preocupado apenas com a reunificação da Santa Mãe Russa e o imperialismo da URSS malbaratado por Gorbatchov que, segundo Vladimir Putin, garroteou o Império Russo. É este mesmo homem, em vésperas de deixar o Eliseu, que tantas ideias lúcidas pôs em movimento, prepara agora a defesa não só do seu país, como a da Europa, desta vez sem ilusões nem falsas rasões piedosas. Como senhor da única nação europeia com arma nuclear (o Reino Unido tem-na, mas a América possui a derradeira palavra), promete pô-la ao serviço da defesa de cada país como da totalidade do continente europeu, provando que não tem ilusões quanto aos ensaios híbridos que Moscovo tem vindo a realizar em território europeu. Parece até que ele é o exclusivo político no seio da UE, que enfrenta a América tresloucada de Trump e a tirania de Moscovo com a lucidez, o pensamento, os objectivos que uma guerra a curto ou longo prazo se prepara. Não quero dizer que outros políticos europeus não estejam inquietos, o que digo é que Macron tem-se adiantado, impulsionado e corajosamente oposto ao desvario e timidez de outros países aninhados no medo e na esperança vã de a paz ser eterna. Portugal, como sempre, não tem voz nem personalidade objectiva. O nosso primeiro-ministro, sem ideias nem conhecimentos, está naquela onda de achar que o diálogo é mais importante que tudo o resto. Macron também assim pensava e Pedro Sanchéz, forte de personalidade e convicções, enfrenta sem pestanejar Putin e Trump. 

         - Não é, contudo, o caso da Polónia que criou frota de aviões militares na fronteira com a Bielorrússia reforçando assim a sua defesa antiaérea; nem da Alemanha e Suécia que robustecem o lado do mar Báltico e do Presidente finlandês que acabou de anunciar que vão ser instaladas armas nucleares francesas na Finlândia. A Lituânia, também não tem ilusões, e em colaboração com a Polónia, em caso de agressão russa, montou um plano de transferência do seu povo para a Polónia. Putin sente-se protegido e impulsionado pela simpatia do seu homólogo e amigo americano, sabe que o momento está do seu lado, o seu sonho da Grande Rússia está ao seu alcance. A NATO, a titubeante NATO, muito bajuladora do louco que ocupa a presidência dos EUA, parece ultrapassada pelas iniciativas da França. A Polónia que eu visitei sem pressa, pude constatar a personalidade de um povo que ama a liberdade conseguida com a libertação da antiga União Soviética.

         - Às vezes, vendo o rebuliço que vai pelas nossas escolas (esta cabeça nunca pára), penso em Julien Green, professor, do alto do estrado na sala de aulas, os alunos de pernas nuas na frente, ele que quando descia à rua nos dias quentes de Verão, em Paris, não tirava os olhos do chão para não sentir a tentação a invadir-lhe o corpo ante a beleza dos corpos juvenis. Querido e grande escritor, não tenho dúvidas que a infinita paz de Deus vos trouxe não só o perdão, como saldou todas as incertezas que vos atormentaram. Do meu lado, lamento e lamentarei não vos ter conhecido, pese embora os incentivos do nosso amigo comum, Francis Von Ourberque. 


domingo, setembro 20, 2026

 Domingo, 20.

Ontem tive a sensação de ter rejuvenescido trinta anos; quase não me reconhecia na azáfama que encheu o meu dia. Cedo fui ao mercado dos pequenos agricultores a Pinhal Novo, antes tinha estado a regar, de seguida ao supermercado e em casa li uma hora, escrevi duas, arrumei o andar de cima, fiz seis frascos de compota de dióspiro porque os tenho em carradas para dar e vender. Pelo menos quatro horas de pé ao fogão, foi um desafio ao pezinho, coitadinho, que as senhoras maduras olham com compaixão e as novas com um ciciar de lábios enternecedor. 

         - Outro dia, a dona do restaurante Café no Chiado, uma mulher desenxovalhada, bonita, veio à nossa mesa trocar algumas palavras com o Paulo Santos. Este apresentou-nos e logo a conversa se desenvolveu, cresceu e não fora os afazeres do restaurante, ficaríamos ali a tarde inteira. O meu amigo disse-lhe, a dada altura, que eu tinha um blogue e logo a simpática proprietária, telemóvel em punho, me pediu o endereço. Neguei. “Como assim”, clamava ela, surpreendida com o meu desplante. “Já tenho leitores que chegue”, respondi. Muito admirada, olhava o Paulo como a interrogá-lo de onde tinha vindo tal personagem. Já na rua, voltou à carga e eu disparei sem travar o passo o nome deste registo. Ela: “Espere aí deixe-me ir lá dentro anotar.” 

         - Carl Bildt, ex-primeiro-ministro sueco: “As democracias ocidentais só têm actualmente dois líderes: Carney e Zelensky.” 

         - Voltou de novo o calor. Aqui os termómetros montaram a 34º C. Até quando andarei eu a regar! 


sábado, setembro 19, 2026

Sábado, 19.

Os opositores, incluindo os jornalistas, ao ditador Vladimir Putin e à espécie de eleições parlamentares que ele montou, chamam àquilo um “evento eleitoral”. Está tudo dito.

         - Como esta gente se assemelha! No tempo de Costa, os socialistas lançaram vitoriosos a ideia das “contas certas”; os que montaram ao poder depois deles, as “contas justas equilibradas”. Uns e outros, delirando com as suas competências, esquecem-se dos dois milhões de pobres, da classe média e de todos os que trabalhando com esforço e dignidade, não ganham para ter uma casa onde viver. O importante para estas delirantes criaturas, é fazer figura de contabilistas competentes. Quem tem lucrado e muito, é a classe política. Noutros tempos, quando com eles privei, sabia bem das dificuldades por que passavam; hoje os mesmos andam de cabeça erguida exibindo o conforto que a Assembleia e os ministérios por onde passaram lhes proporcionaram. 

         - E-mail que enviei à equipa de oftalmologia do Hospital de Santa Maria: 

Unidade de Oftalmologia do Hospital de Santa Maria.

Recebi em triplicado uma mensagem que me informa que fora marcada consulta que a médica, apresssada, do Curry Cabral, na sua observação de cinco minutos, concluiu ser assunto para essa unidade. 

Acontece que estive sete meses à espera daquela consulta e agora, pela mensagem recebida há três dias, vou ser observado só dia 4 de Agosto de 2027 !!! Como devem calcular, não me sujeito a tal humilhação e já tenho consulta com um oftalmologista na área de astigmatismo na próxima semana e não fui à Dra. Fátima Campos e os senhores adivinham o motivo…  E ainda, eu sei lá se tenho olhos daqui a um ano ! Que miséria ! Que vergonha está trasnformada a obra notabíssima e humanista do Dr. António Arnaut. A saúde é hoje o melhor negócio que a democracia inventou. 

Utente descontente

Helder de Sousa

 

sexta-feira, setembro 18, 2026

 Sexta, 17.

Dia rico o de ontem. Cedendo ao convite do Paulo Santos para um almoço no Café no Chiado, encontrámo-nos na Brasileira onde eu não ia havia mais de quatro meses e aí encetámos uma viagem de memórias e factos recentes, celebrada em honra do convite que o meu amigo teve por parte de uma editora francesa para publicar um livro emocional sobre Lisboa. Foi o que ele fez de melhor e não deixo de o engrandecer por se ter libertado da Economia e do Parlamento europeu, ninho de corruptos e interesses rasteiros, perdas de tempo em conversas que não têm fim e não levam a parte alguma, e ter enveredado pela liberdade limpa dos salamaleques tão indispensáveis à classe política, yes obrigatório do partido e da ideologia que o sustem. Bref. Daí passámos ao restaurante, meu conhecido dos tempos de jornalista, na rua debaixo do teatro de S. Luís, onde tantas vezes estacionara o carro e passara em frente sem ousar entrar porque me parecia, visto de fora, de uma pobreza franciscana. Seria há trinta anos. Hoje é um espaço afrancesado, acolhedor, onde se come bem em doses restritas, de acordo com a austeridade que a pouco e pouco se vai instalando e corrige a voracidade e lobriguez de certos estômagos nacionais. Ficámos quase três horas abancados, porque o Paulo trazia o computador e requeria que eu lhe desse opinião sobre seus escritos (em francês). Lá fui lendo e opinando, com o meu amigo a anotar o que me parecia deslocado, em falta ou demasiado propagandístico. Lisboa, a cidade onde nasci e vivi (salvo uns anos em Coimbra na adolescência) é para mim uma intimidade, um modo de sentir através da sensibilidade que habita na saudade enquanto elemento identificador, aglutinador e único, que nos mergulha numa atmosfera que mantém presente e passado, desafia o futuro, história e sentimentos incluídos, num êxtase de amarguras e espaços de luz debruçados sobre a eternidade que abraça quem nela nasceu e viveu. Porque os editores insistiram (ou não fossem eles franceses) que o retrato escrito e fotografado, tivesse a assinatura dos sentimentos do seu autor, e não produzisse um mero roteiro de ruas e malha histórica, também eu reforcei esse cuidado e essa escolha, na forma e conteúdo, mais a mais porque Paulo Santos é suficientemente conhecedor e estudioso do mundo cultural da capital, e possui o gosto e a tradição que elimina o fácil, o delicodoce, aquilo que não tem a densidade que atrai e glorifica a exigência e o pormenor, profundidade e a magia, que acaba por envolver o leitor-viajante. Fico à espera das páginas que ele me enviará por mail, para que possa, modestamente, ajudá-lo a engrandecer o seu (julgo) quinto volume de uma obra originalíssima que envolve, escultores e pintores, escritores e historiadores, civilizações e modos de vida, e é testemunho do seu amor à Marinha, ao mar e às caravelas que trouxeram a riqueza e o desafio da descoberta de mundos hoje parte importante da Sociedade das Nações. 

         - Não há fome que não dê em fartura. Passamos por vezes muito tempo sem nos vermos, mas ontem, como a preencher esssa lacuna, Paulo quer que nos sentemos por mais uma hora numa esplanada. Escolhi o petit cafe da Fnac onde abancámos, convidando-me o Paulo para assistir no próximo ano a acontecimento que traz a Lisboa Stéphane Bern. “Tu és o único português que o conhece”, acrescentou. Com efeito. Conheço-lhe a obra escrita, os programas televisivos e o trabalho em prol da Cultura enquanto ministro. Depois, estou certo que nos cumprimentámos - na altura jovens quase imberbes -, quando Jean Lebrun nos apresentou, em Paris, num estúdio de televisão. Tudo isto está plasmado nas paginas deste Diário no período respectivo. Também falámos muito da Córsega de onde a mulher (julgo) ser natural e é um país que eu adorava visitar devido às suas muitas capelas góticas e românicas que se escondem nas encostas das montanhas. Separámo-nos pelas cinco da tarde.  

         - Já me libertei do comprimido noctâmbulo, esperando estar de volta aos meus sonos profundos, inteiros e céleres, que sempre me habitaram da infância à idade velhada. 

         - Para ser franco, não apreciei a rejeição de Aguiar-Banco ao Chega para inquérito à gestão de Luís Neves quando esteve à frente da Polícia Judiciária. O Presidente da Assembleia não é dono nem do Parlamento, nem da Democracia. Pode ser vigilante desta, nunca seu dono.