segunda-feira, outubro 19, 2026

 Segunda, 19.

Faleceu Joaquim Letria. Conheci-o bem, gostava muito dele e encontrávamo-nos com regularidade. Quando eu entrei para o jornalismo, trabalhava ele no Diário de Lisboa e durante um tempo, fizemos um acordo fornecendo-lhe eu as notícias que saíam das vigílias no Hospital da Cruz Vermelha onde, caloiro no metier, “dormia” à espera da morte de Salazar ao serviço do Primeiro de Janeiro. A par do jornal, ele trabalhava para Associated Press - era daí que vinham os escudos que me faziam muito jeito. Cada vez que nos víamos, discutíamos tudo, sem regra nem travões, sempre com um sorriso conivente alicerçado na amizade que recordo como momentos de afecto e cumplicidade. Ele vivia aqui para estas bandas e hoje lamento nunca o ter procurado. Repousa em paz, afectuoso amigo. Um dia darás tu a notícia da minha chegada ao paraíso onde te encontras.

         - Repito: nunca vi a França como hoje a vemos, nem no Maio de 68 os saques, a destruição de edifícios camarários e históricos, a pilhagem, os incêndios, a desordem e as prisões (fala-se em mais de duas mil detenções), têm comparação. Macron mostra-se incapaz de pôr ordem no país, a esquerda e a direita, estando por detrás de grupos anarcas, disputam nos confrontos o poder. A habitual selvajaria dos franceses, da juventude aos mais velhos, exibe nas ruas de Paris, Marselha, Lille, os horrores que fragilizam a democracia sem solucionar os problemas que justamente os estudantes trouxeram para a ribalta política. 

         - Por cá, prosseguem as manifestações contra as políticas de Luís Montenegro, que eu digo serem do PSD e do PS, partidos que, para o bem e para o mal, têm governado o nosso triste país. Entrou tanto dinheiro da UE e Portugal mantém o mesmo nível de pobreza, de insatisfacção, de desequilíbrio e desenvolvimento. Não se vê, não se sentem as mudanças, os milhões eclipsaram-se, as empresas continuam periclitantes, a vida quotidiana marca passo, rente aos tostões que se contam para isto e para aquilo, só a desfaçatez de primeiro-ministro fala em progresso, em pleno emprego, indo ao ponto de achar normal rendas de 2.500 euros (gostava de saber quanto pagam os seus inquilinos). O “nosso povo”, pelo menos uma ínfima parte, acredita ainda no slogan “o povo é quem mais ordena” quando esta fantasia nunca teve relação com a realidade, nem nunca fizeram uso dela. 

         - Vou deixar a escrita para me dedicar à doçaria. A experiência de ontem aí está e leva-me a dizer, como fazem na TSF os banhas da cobra dos empresários - não há marmelada branca melhor que a minha.