Domingo, 18.
Quando a CGTP aproveita o descontentamento natural dos que não conseguem ter uma vida digna, tudo se complica e desvia das causas aqueles que legitimamente reivindicam os seus direitos na rua. Vejamos, o que ouvi do dirigente da Intersindical, foram apoios aos cubanos e palestinianos que me coloca do seu lado, já não gosto de gente sectária, de tala nos olhos, que oculta deliberadamente as guerras que proliferam por todo o lado. O PCP que sustenta ideologicamente a Organização, nunca se pôs ao lado da Ucrânia e com isso passou para o mínimo de deputados na Assembleia. Quando eles proclamam o fim da guerra, fazem-no na generalidade, pergunto-me quem o não quer, nunca dizem frontalmente à Rússia que cesse de atacar a Ucrânia; quando pretendem que a Europa páre de investir em defesa, e nada dizem dois milhões de milhões que países como a China, Rússia, Coreia do Norte empregam em armamento bélico moderno, estão a contribuir para que os povos europeus fiquem à mercê das vitórias fáceis daqueles países e, portanto, por eles conquistados sob as ditaduras aí vigentes. Perguntou-me que tem a ver com o direito à habitação Cuba e Palestina. Por outro lado, se o futuro for uma guerra generalizada, quem esfrega as mãos de contentamento é Trump, Putin, Xi Jinping e alguns mais assassinos.
- Entretanto, Lisboa foi contaminada pelo Porto. No Rossio centenas de jovens gritaram por habitação e vida condignas, tendas foram montadas, pediram a anulação da nova lei de arrendamento, citaram e bem, os 55 imóveis do ricaço Luís Montenegro. Não houve distúrbios, nem aqui nem no Porto, a Polícia não foi enviada pelo ministro que continua na via pública por mais uns quantos desvios à lei e favorecimentos por pesquisar. Ninguém com dois dedos de testa, vai acreditar que uma pessoa que é proprietária deste império imobiliário, tenha em conta a vida rasteira dos jovens e da velhice marginalizada. Trump que se fez na corrupção e na especulação, não deve ter tantos rendimentos do sector como Montenegro...
- Ontem, em uma hora, li o livro de Gunter Grass: Fazer de Estátua. Gosto muito do escritor, li alguns livros da sua imensa obra, foi Nobel um ano depois de Saramago, em 1999, e este trabalho é uma espécie de novela que o autor queria incluir na autobiografia Descascando a Cebola que devorei em 2017. (Abro parênteses para anotar o desabafo do escritor já feito, a propósito dos erros de ortografia, em carta de amor escrita aos 15 anos: “Ainda hoje me sinto periclitante em matéria de ortografia.”) Também eu tenho muita hesitação, sobretudo quando os computadores estão em sintonia com o AO que pretendeu aproximar o português do Brasil com o de Portugal. Esta autobiografia é uma fantasia que tem na base a figura de Uta de Naumburgo, a mulher mais bela da Idade Média. Grass nasce na Polónia, mas é na Alemanha que constrói a sua vida, tendo, inclusivamente, tido casa no Algarve. Qualquer dos seus livros são fascinantes.
- O livro desceu da biblioteca de cima e ficou na mesa de apoio à mão de semear. Como não sou pessoa para ler em diagonal, todos os meus livros estão anotados, sublinhados, vividos. Por isso, se me permitem, transcrevo estes dois sublinhados: “São os leves começos que equilibram tudo aquilo de mais pesado vem depois (pág. 325); “Quem escreve desiste de si próprio. Só os serviços de finanças é que não querem reconhecer que a existência do autor é uma mera afirmação, por isso uma ficção e não tributável” (pág. 283).
- Para o que me deu esta tarde, como se não tivesse já trabalho bastante para a encher. Longe vão os anos em que a Zitó e o Couto vinham por aqui, colhiam os marmelos e um mês depois tinha umas quantas tijelas com a deliciosa marmelada feita pela minha talentosa amiga. Nunca esquecerei esses fins-de-semana encantadores e com base neles, atirei-me a fazer eu próprio o delicado doce. Nunca tinha feito a experiência e espero ter realizado o feito, não ao nível da confecção da Zitó, mas com o pensamento na nossa amizade de mais de quarenta anos.