quarta-feira, setembro 30, 2026

 Quarta, 30.

Eu sou dos que têm simpatia pelo povo espanhol. Ao contrário dos que dizem ser eu mais pró-francês, a verdade é que o país onde gostaria de viver era em Espanha. O modo de ser, de viver, a personalidade vincada do povo, o seu apego às tradições, o estar-se nas tintas para a moda americana ou outra, a sua atenção ao que colectivamente é importante, tudo isso mais o esplendor das cidades, do movimento das ruas e praças, da arquitectura e dos museus, fecham um entendimento humanista que me agrada especialmente. Veja-se o que aconteceu com a senhora Maricarmen, expulsa de sua casa aos oitenta e sete anos, com problemas motores, por um fundo de investimento imobiliário, para um hospital de Madrid. Logo se acenderam as fogueiras da revolta e as Portas do Sol onde eu estive com a minha saudosa Annie, foram inundadas de tendas e revolta. Não só ali, como em outras cidades, numa força tal que obrigou Pedro Sanchéz a convocar uma reunião do Governo para discutir o assunto e prontamente a amável senhora tornou ao seu lar sem aumento de renda. Não distante, em Paris, outras reivindicações aconteciam, mas os franceses, pouco civilizados, incendiaram o mobiliário urbano que encontraram no caminho. Às mulheres espanholas, bastou-lhes os gritos de revolta, a ocupação do espaço público e a razão que nunca esmorece quando do nosso lado temos a força das convicções e do direito sobre estas colunas de capitalistas que, apoiados em Trump, querem-nos reduzir a seus escravos. Se algum mérito tem a democracia, é este de em conjunto gritarmos por todo o ser humano frágil e com ele reforçarmos a democracia e o valor colectivo e humanista.  

         - De resto, a chungaria está por todo o lado. Lisboa é um óptimo retrato e quando viajo de metro ou passeio pelas ruas, tenho tendência a fechar-me em mim de modo a isolar-me do que vejo e ouço. O futebol, a grande alienação dos povos básicos, é disso um exemplo triste e miserável. Outro dia, à minha volta no metro, um punhado de homens gordos, maltrapilhos, gargalhando muito alto, a cerveja de boca em boca, deixavam uma impressão triste e moribunda à luz de séculos civilizacionais. Os energúmenos, vim a saber mais tarde, vieram do País de Gales assistir ao jogo com Portugal. Brrrrrr. 

         - Fez-se luz sobre o caso das gémeas brasileiras que vieram do Brasil a Portugal, empurradas pela rede de influências que persistentemente se mantém como herança do fascismo, usufruir de um tratamento que nos custou mais de dois milhões de euros, enquanto outras crianças portuguesas estavam tristemente à espera do mesmo medicamento. Quem aparece à cabeça desta miserável história, é o filho de Marcelo Rebelo de Sousa, o então chefe de Estado, secretário-geral de Estado, o socialista António Lacerda e Luís Pinheiro ao tempo director-clínico do Santa Maria. O Chega e mais uns quantos, tinham o alvo assestado em Marcelo, mas este, desde o começo, que se havia distanciado do filho deixando até de lhe falar por ter utilizado o seu nome sem autorização nem conhecimento. As raízes boas do ex-Chefe de Estado, vieram ao de cima em seu auxílio. Mas esta história, continua a reescrever a linha de coscuvilhice, comadrio, cunhas e corrupção que inunda as elites emporcalhadas da sociedade em que vivemos. 

         - Fui lá fora e respirei o ar outonal que se instalou. Deve ter chovido de noite e os  top-cat prometem-nos um dia lacrimejante. Hoje, a exemplo do que me impus para economizar gasóleo, a saber dois dias por semana em clausura, não conto deixar este convento. 

         - A Ucrânia e a Faixa de Gaza, duas nações mártires, às mãos de déspotas, um tout court, o outro disfarçado de democrata com o rabinho corrupto de fora. A União Europeia, leva anos de reuniões, fala barato, viagens, confidências inocentes, promessas vãs; enquanto o primeiro avança e ou segundo toma o território que não lhe pertence. Pelo meio, milhares de vidas ceifadas, cidades arrasadas, morte e caos.