sábado, agosto 29, 2026

 Sábado, 29.

É típico da idade fechar as portas que ficaram entreabertas, isolar-se no silêncio pesado dos dias, esperar por alguém que nunca chega. Era nisto que pensava ontem quando, mexendo no telemóvel, verifiquei que o Robert desde a morte da Annie nunca mais telefonou a saber de mim e, pelo contrário, lá estavam registados os inúmeros telefonemas que eu lhe fiz, entretanto. Com isto quero dizer duas coisas: as amizades ou são recíprocas ou são coisa nenhuma. Daí que não me surpreenda o que aconteceu entre ele e o irmão que vive nos arredores de Estrasburgo. Da última vez que estive na cidade há três anos, Robert pediu-me que falasse com o irmão e tentasse marcar um encontro. Assim fiz, porém sem sucesso: ele alegou que Robert há mais de dez anos não lhe falava e não via qualquer interesse em o fazer agora. Penso que é o que se passa hoje. Isolado na grande casa de S. Denis, Robert alimenta-se da solidão que nunca havia provado, recusando qualquer gesto simples que o reaproxima das pessoas. Dito isto, quem crê nunca está só. 

         - Antes que me esqueça, quero registar, ipso facto, o que disse um senhor que foi surpreendido pela jornalista da SIC a atestar o depósito do carro e indignado com o preço da gasolina, disparou: “Quando o Estado vive acima das nossas possibilidades”, está tudo dito. Assino de cruz. 

         - Esteve cá o senhor José Manuel, dito espalha-brasas – e o universo inteiro uniu-se num imenso afecto.  

         - O número de vítimas mortais no Nepal aumentou para mais de 600 e 2426 pessoas estão desaparecidas. É incrível a prontidão da China a remediar os prejuízos e a retomar o quotidiano. O Nepal, orgulhosamente, dispensou ajudas estrangeiras, embora com menos recursos que a vizinha China. 

         - O taralhouco que dirige os EUA, com o seu marcador, rubricou a mudança de o Lago Ontário no Canadá, para Lago América. Muitos são os países, para além do visado, por exemplo, a Alemanha, que rejeitam a alteração. A pesporrência do homem ofende a dignidade de todos e da cada um. Que tipo foleiro e ordinário! Como é possível que uma tal criatura dirija o maior país do mundo! 

         - Retomei a leitura de Génesis (volume VI de Bíblia na tradução de Frederico Lourenço) e O século dos imbecis de Valter Hugo Mãe. 


sexta-feira, agosto 28, 2026

 Sexta, 28.

Ainda não retomei o ritmo, mas vou-me afeiçoando à vida tal qual a vivia quando os dias se abriam esfuziantes de pequenos nadas, restos de recordações, olhares perdidos na imensidão do passado, circuitos de luz, sombras rastejantes, silêncios espessos, horizontes suspensos que me abraçavam e me comoviam e me sideravam e me isolavam na eternidade do silêncio ondulante. Ir como ontem fui ao centro comercial Alegro, em Setúbal, é experimentar despir a capa do solitário que os deuses protegem e a vida desempena dos pensamentos aziagos ou abancar no Retiro Azul para alinhar estas linhas, é chamar os dias largos de antes da tragédia e encaixá-los por força da vontade inquebrantável de quem ama profundamente a vida. 

         - Não há ainda um número de vítimas da avalanche de gelo e água no Nepal. Há, contudo, um registo provisório de 400 mortos e 1500 desaparecidos. Julga-se que a maioria de uns e outros, são turistas. Todas estas catástrofes sucedem-se um pouco por todo o lado, como se a terra berrasse: “parem de me agredir”. 

         - Como eu previra quando há um ano se deu o aparatoso desastre no elevador da Glória, ainda não se conhece o desfecho de um acidente que matou 16 pessoas. Os conluios importam mais que a verdade. Foram, todavia, constituídos arguidos o ex-director de manutenção da Carris e o sócio-gerente da empresa externa que assegurava a manutenção dos elevadores de Lisboa. Bom, não sendo nada, é para a justiça deste pobre país, qualquer coisa. 


quinta-feira, agosto 27, 2026

 Quinta, 27.

Que disse o Dr. Octávio Simões para além da surpresa de tudo o que lhe contei? Não encontrou resposta para o efeito da Água das Pedras que eu confirmei no dia seguinte com o desastre narrado. Acrescentou, contudo, que é verdade ser ela bastante salinizada e daí a recusa do organismo. Quanto ao mais o motivo que me levou ao seu consultório, disse aperceber-se do meu estado psicológico resultante de cinco semanas de reclusão, inacção e sofrimento, e entusiasmou-me a tomar um medicamento específico para o cérebro, afirmando: “quero-o a escrever e a ler em breve”. O resto estava equilibrado. Tensão a 13,2 - 6,7. 

         - O país das polémicas que somos, umas a seguir a outras, foi mais uma vez inserida a escassez de dadores de sangue. Acontece que (julgo já aqui ter trazido o tema) em tempos fiz parte de um núcleo que pensava o modo mais eficaz de atrair benévolos para a causa. Nesse tempo, ainda os portugueses eram aliciados pela humana e cívica razão do próximo em necessidade dessa fonte de vida. Hoje, quase se desvaneceu o auxílio desinteressado do outro, um enorme egoísmo parece ter tomado as novas gerações, cada um por si e Deus por todos. Ora, já nessa altura, eu havia levantado a hipótese de cada dador ser agraciado pelo Estado com alívio de impostos - se bem alvitrei naquela então, mais o reforço hoje. 

         - Por todo o lado, crescem os desastres atribuídos ao aquecimento geral do Planeta. Desta vez, o que assistimos pelas televisões, é o horror na sua expressão mais sinistra na divisão entre o Nepal e o Tibete. De súbito, uma forte enxurrada que provocou um deslizamento de terras, desceu das montanhas a uma velocidade medonha, arrasando tudo o que encontrava e o número de vítimas é incalculável, os prejuízos medonhos. Há centenas de turistas e nepaleses mortos ou desaparecidos. Parece haver pontos onde os sedimentos atingiram 1,5 metros de espessura; as terras abruptas com desníveis superiores a três mil metros.  Horror! Horror! 

         - O Couto, meu fiel leitor, esteve privado deste alinhamento de palavras quotidianas por complicação e troca do seu computador. Telefonou ontem à noite e estivemos à conversa por quase meia-hora. Querido amigo de longa data, grande afecto tenho por ele. Ele não imagina o conforto (quando do desmaio foi igual) que me trouxe, movido pela fraternidade dos anos e aquele íntimo olhar que pousa no sítio certo onde as dores se escondem ou disfarçam num breve abraço de ternura.  

         - Por cá o Outono empurrou para o lado o Verão. Ontem e anteontem choveu se Deus a dava. Uma bênção para estas terras e árvores que tanta sede tinham devido a eu não puder tratá-las. Os meus sobrinhos condoeram-se e por pouco não as embeberam; depois veio o calor sufocante e metia dó escutar a aflição de cada folha, tronco ou braço implorando uma gota de água.


quarta-feira, agosto 26, 2026

 Quarta, 26.

O jogo favorito dos nossos políticos é o ping-pong. Eu não conheço ou não me dou conta que um tal desporto seja praticado tão assiduamente noutro país europeu. No centro do campeonato, já se apresentou várias vezes a Segurança Social e as reformas. Voltou agora com o PSD quando já esteve com o PS e rodou sempre que necessário, ora para um, ora para outro, meter medo aos velhinhos, coitadinhos, já pobrezinhos por destino e condição. Todavia, nunca li nas diferentes alterações ao computo das pensões, nada que restabelecesse o escândalo dos que auferem várias reformas, por morte do seu cônjuge, por acumulação de cargos e acabam velhos ricaços enquanto a seu lado milhares e milhares de seres humanos vivem o resto dos seus dias cavando com as unhas dos pés e mãos a sepultura. A única constatação que se tira, é que debaixo da terra somos todos iguais – espécie de vingança do destino, igualar todos numa mesma língua de chão. 

         - Quando escrevo (não falo do romance, embora ele seja o centro dos meus pensamentos), é como se a vida voltasse em força a correr nas minhas veias. Vem do fundo de mim um ímpeto de graça, uma hossana que se repercute e me remete para o centro de mim, uma força adormecida que julgava abatida para sempre. As palavras reencontram-se na arena da página em branco e são em si a ululação a que todo o meu ser se irmana na conjugação dos verbos viver e ser. 

         - A ver vamos que reacções terá o mundo civilizado à última investida prepotente de Donald Trump na rixa com o Irão. O senhor todo poderoso, que encara o mundo como se fosse o seu campo de batalha, se apropria dele pela força como se estivesse no tempo das conquistas feudais, não tem a noção do ridículo na forma como expõe e usa um grande país com uma democracia archi estabilizada. 

         - Vou fazendo a vida prática. Ontem, fui ao tanque tecnológico lavar o cobertor de papa que durante anos serviu de tapete no meu quarto e de caminho efectuar pequenas compras em falta na cozinha. Conduzir já não me custa, embora o pé maroto esteja um pouco inchado. Vejamos que me diz esta tarde o Dr. Octávio Simões. 


segunda-feira, agosto 24, 2026

 Segunda, 24.

O período por que passei, foi e é para mim uma grande reflexão sobre a minha vida e a dos outros. As confidências que a minha fragilidade e o meu choro por vezes provocaram, fizeram com que os meus visitantes abrissem o coração. A família esteve muitas vezes no centro do futuro. Grandes surpresas tive ao ouvir falar de filhas e filhos que julgava serem o centro da felicidade destes amigos. Um ou outro, disse-me que preparava a velhice longe deles, não só porque eram pessoas com cargos em Belém, ministérios públicos de referência, Banco de Portugal e União Europeia e, portanto, em primeiro lugar estavam as suas careiras e ambições, que não se coadunam com a miséria que acompanha a vetustez, como não esperavam nada deles. Estavam tão sós como eu, com a desvantagem da desilusão e dos anos de vida em comum, pelos vistos pouco recomendáveis e que agora não servem para coisa nenhuma. Que grande fantasia é a vida da maioria das pessoas!

         - Não se pense que as organizações LGBTQ + (o extra não sei o que é) criaram esta imagem que com certeza aprovam; eu, em miúdo, via na televisão estas beijocas rechonchudas, boca a boca, dos dirigentes russos com os camaradas presidentes de países associados. Confesso que me fazia impressão por... inusitado.  




domingo, agosto 23, 2026

 Domingo, 23.

Enfim, ao cabo de cinco semanas a lavar-me como o Black me ensinou, pude retirar o penso e deixar correr a água sobre o meu corpo que a recebeu como uma bênção do céu. Ainda não me sinto a cem por cento, mas a pouco e pouco rejuvenesço das profundezas do sofrimento. 

         - A Carta das Nações Unidas, elaborada depois da Segunda Grande Guerra, tem no seu preambulo “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra”, contudo, poucos ou nenhuns são os países que nela estabelecem essa primazia. Basta olhar para o mundo, e contar com os dedos das duas mãos, a quantidade de países que estão em guerra. Muitas destas, possuem a mão do tresloucado Trump, impelido pelo seco e desumano Netanyahu com quem a UE mantém associação com Israel. Sem falar nos países africanos, acossados pela fome, bandos de criminosos de assalto ao poder, cartéis de droga que possuem hoje tanta força e armamento como muitas nações. No centro desta desordem, a Ucrânia com um conflito que passou o quarto ano. A instabilidade é geral e o factor económico conta tanto ou mais que os mísseis disparados a milhares de quilómetros – é disso exemplo a guerra que os EUA, através do seu presidente, impõem ao Irão. Perdeu-se a conta aos milhares de mortos que se foram às mãos de governantes assassinos nos últimos dez anos. Dito isto, não quero dizer que concorde com o regime iraniano, a “democracia” de Israel, o HAMAS e todas aquelas organizações terroristas que alimentam ódios e fome. 

         - Fr. Hélcio telefonou há dias de Madrid onde estava na companhia do marido espanhol. Assim que me ouviu a voz, prontamente se colocou para no regresso me levar para o apartamento de ambos paralelo à Avenida de Roma. Felizmente, não estando bem, já encontrei a liberdade mínima que me permite a independência. Quarta-feira vou ao Dr. Octávio Simões para ver o que ele pode fazer para reequilibrar a cabeça e o entusiasmo que um mês deixou a apodrecer no vale das dores. Já consegui engordar um quilo. 

         - Chove. O tempo arrefeceu e as árvores sorriem à leveza da chuva descendo sobre seus ramos frágeis. Vejo o espaço através da janela baixa onde escrevo – há um grito de alegria e alívio que é contagiante e me põe de novo no caminho da vida. 


sábado, agosto 22, 2026

Sábado, 22.

Os fogos não nos largam. Luís Montenegro, para defender o seu ministro atulhado de casos como ele esteve e conseguiu eliminá-los com o poder que neste momento tem, veio dizer que a área ardida este ano foi menor que a do ano passado, como se isso se devesse à competência do seu ministro Luís Neves. Este chegou ao poder no andor dos media, era vedeta diária nos primeiros meses e tido por honesto, incorrupto, competente, com as costas protegidas pelo anterior cargo na Polícia Judiciária. E vai-se a ver tem a vida atravancada de esquemas como o seu mestre primeiro-ministro. Os fogos por essa Europa fora, mataram 30 mil pessoas. Um horror! 

         - Está cá o espalha-brasas (no sentido em que começa aqui um trabalho, larga-o e vai deitar mãos a outro), sem que nenhum fique terminado. No entanto, este universo com o seu proprietário incluído, agiganta-se em ternura, bondade e paz com a sua presença. Fui, amparo ao Sr. José Manuel, pela primeira vez, colher figos às figueiras por aí dispersas. Todavia, fazer compota, está fora de questão este ano. 

         - A minha beata de estimação, largado o indispensável para que eu não morresse à fome, desapareceu. Por favor, caros leitores, afastem para longe tudo o que for gente de missas diárias, rosários, invocação do santo nome de Deus em vão; prefiram o vosso pior inimigo pela surpresa de reconhecerem nele um anjo. Onde estarei eu no próximo ano? 


sexta-feira, agosto 21, 2026

Sexta, 21.

Para descer a cortina do palco, agora que a vida retoma no ponto onde fora suspensa, devo confessar que o faço já com uma certa indecisão, posto que muitos ensinamentos colhi da natureza humana, da dita solidariedade e dos afectos que perpassam num ápice a fidedigna face do comediante. Sim, deitado e coberto de dores, levava os dias a tentar aligeirar a situação com espreitadelas aos diferentes canais televisivos. O que vi era simplesmente assustador, medíocre, pacóvio, pobrezinho. Apanhei, dia 12, o eclipse do Sol que foi uma perfeita exposição do que somos. Sobretudo do jornalismo que temos e dos jornalistas que as universidades debitam às centenas todos os anos para os escassos meios de comunicação. A linguagem era esta: “foi, senhores espectadores, simplesmente impactante o que aconteceu há três dias atrás” ou esta quando havia fogos, diante de uma senhora apavorada, perguntava a jornalista: “O que é que está a sentir?” O chorrilho de parvoeira e indecências, alinhava perfeitamente com as palavras do atrasado mental Trump, ao lançar mais esta boutade: o Estreito de Ormuz passaria a pertencer aos EUA. Contudo, quem me fez grande e encorajante companhia, foi os Campeonatos da Europa de desportos aquáticos e atletismo. Um prazer imenso assistir a tudo, não só pelo conúbio, como pela ausência daqueles programas da manhã, orientados por pessoas que decerto vão morrer diante dos nossos olhos, velhos e relhos, a produzir coisas horrendas, sorrisinhos idiotas, convencidos de terem o rei na barriga. Pelo caminho, aconteceu aquela tragédia dos milhares de africanos de diversos países e marroquinos em barda no assalto a Ceuta. A esse propósito, foi lamentável ver Luís Montenegro aproveitar-se da tristeza para recordar o seu programa sobre imigração. Pela boca dele e de muitas outras personagens sinistras, ouvi martelar a frase: “é o mercado e a democracia a funcionar”, onde no fim de contas nada funciona. E ainda esta, escutada no Parlamento: “Aqui não se fazem acórdãos.” O homem que quer o país a funcionar à Ronaldo, precisa de encontrar uma “famila” de analfabetos que o acompanhe.  Nunca lamentei tanto a ausência dos canais estrangeiros que o temporal siderou e eu ainda não encontrei quem subisse ao telhado para reparar a antena parabólica.  

 

quinta-feira, agosto 20, 2026

 Quinta, 20.

Aqui fiquei mais de um mês refém das dores, de alguma fome, sem poder conduzir, à mercê da caridade de vizinhos e amigos quase todos de férias. Quem surgiu do céu, foi Jacquis e a mulher que prontamente se dispuseram a ir ao supermercado comprar o necessário, assim como, ele, se prestou a levar o meu carro à inspecção, depois de eu dias antes do acidente ter ido ao ACP renovar a respectiva carta de condução. Habitando em França, tinham chegado para vender a casa paterna e um terreno, operações realizadas em dez dias, tal o interesse por tudo quanto está a venda nesta zona. Depois, pela forma mais expedita, começaram a brotar os telefonemas, as promessas, a deixas de “se precisares de alguma coisa, apita”, “olha, estou longe, de contrário iria aí ajudar no que precisasses”, “espero que recuperes rápido”, e, por fim, aquela do Corregedor antes de partir para férias, Caminha, para a tal “casa de campo com piscina”, contactou, condoído, conhecidos comuns para que não deixassem de me telefonar. Esta trágico-comédia, ficou em cena cinco semanas e a personagem principal ia decorando - conforme lhe permitia o pouco juízo que lhe restava - , os tons magoados que lhe chegavam aos ouvidos e ecoavam na solidão imensa que se tinha aberto em seu torno, enquanto na prática, apenas contou com os franceses, o Sr. Gaspar e, quase no fim, a Maria José regressada de Salamanca com três ovos, um pudim flan e uma caixa de figos tendo eu as figueiras a abarrotar... Teria a cortina do proscénio desci aí? 

         Quem iluminou este espaço, encheu a casa de alegria, movimento, simpatia, entrega e no pouco tempo que aí estiveram melhoraram visivelmente o paciente-impaciente, foram os meus sobrinhos: Gi e Nuno. Que surpresa encantadora! Eles não pararam, regaram as árvores, o moribundo jardim, levaram-me ao super, cozinharam deliciosos pratos que foram arquivados no congelador e ainda hoje me alimentam, levaram toneladas de roupa às máquinas malucas do Continente, refizeram-me a cama, varreram todo o rés-do-chão, encheram os serões de conversa ora solta, ora teclada no piano doce da ternura familiar que é sempre para mim estupefacção e surpresa. Quando eles me viram à chegada, ficaram impressionados com o aspecto do tio bizarro e solitário – magro, olheiras fundas, rosto fechado de sofrimento. Que fora feito daquele tio airoso, belo, sem idade, sempre divertido e afável, questionavam-se. Quando eles partiram depois de um almoço lá fora, caiu aqui um medonho silêncio, a casa fechou-se sobre si própria e o portão que sempre esteve aberto dia e noite, oscilou na espessura das horas que a solidão abraça e toma conta de tudo. 

         Todavia, senti amparo nos telefonemas diários da Alice (Caldas da Rainha), do Alexandre que vive lá para Oeiras, na atitude do meu querido vigilante Filipe que um dia, tendo eu ido ao curativo a Lisboa e deixado para trás o telemóvel, assustado, telefonou para a minha vizinha da frente, uma senhora africana com quem falei uma só vez, e tem negócio de casamentos e batizados que o Filipe contratou para celebrar o seu casamento com a mulher com quem vive há anos e têm dois filhos. Ela falou-me à noite e in petto queria cá vir trazer-me uma sopa acabada de fazer... 

         Eu que sempre vivi só e adorei esta dádiva dos céus, oscilei e repensei a vida a partir de um acidente que, em verdade, não seria diferente se vivesse num tabuleiro em Lisboa ou Paris. A humanidade, hoje, vive franzida de afectos, de solidariedade, de humanidade. A hipocrisia tomou conta de tudo e a estupidez serve-se em doses compactas nos ecrãs das televisões. A (des)cultura com que os programas embriagam as pessoas e exibem propagandistas ignorantes, é, com efeito, imoral e vazia de tudo. Ao tema voltarei, até porque não podendo ler ou escrever, estando a maior parte do tempo deitado, percorri todos os canais e descobri coisas que não imaginava possível num país civilizado.  


quarta-feira, agosto 19, 2026

 Quarta, 19.

... trágico porque ao chegar ao quarto, depois do esforço de subir as escadas de pedra em caracol, tremendo da cabeça aos pés, caí redondo no soalho. Levei para cima de quinze minutos para me atirar à cama, a transpirar, num desespero e esforço hércules para me erguer. Pensei passar a noite no chão, mas o candeeiro aceso não era boa companhia. Arrastei-me para entrar pelos pés da cama, mas fui duas vezes cuspido. À terceira fui capaz de chegar aos lençóis e arrastei o corpo para a cabeça do leito, exausto. Tomei então um comprimido para dormir e adormeci num tremor estúpido que não me largava. Bref. Acordei no dia seguinte completamente num traste: doía-me o corpo, qualquer gesto me anunciava a morte. Quando pus os pés no chão, olhei o pé e a perna marota e vi manchas negras por todo o lado: veios vermelhos que subiam até ao joelho, o tornozelo como uma batata, a anca negra, os cotovelos dos braços escuros. Mesmo assim não me rendi. Ir ao hospital estava fora de questão depois da última experiência no S. José. Acontece que daí a dois dias tinha consulta com a minha médica de família para lhe apresentar o exame às caróticas e, não obstante o extremo sofrimento, continuei a conduzir e na tarde aprazada estava na frente da boa doutora. Quando ela viu o meu membro inferior, estarreceu e num protesto quis saber por que não fui às urgências. Depois chamou uma enfermeira e esta prontamente começou a extrair com uma seringa o muito pus da perna e pé. Os que vinham de outros gabinetes, emitiam um ai de espanto – de facto eu estava numa miséria, as alpargatas de quarto ensopadas do líquido que parecia vir de todo o lado, dores insuportáveis. A Dra. Vera disse-me que o que via só um antibiótico podia curar, a enfermeira de acordo com ela acrescentou que eu tinha ali para um mês. O bom do Sr. Gaspar que me tem socorrido sempre, amparou-me da saída ao táxi. Chegados a Palmela, fomos à farmácia aviar o veneno e mais um outro para as dores e um terceiro para os possíveis desarranjos de estômago. Aqui estive cinco semanas, com duas idas ao centro de saúde, terças e sextas-feiras, dores insuportáveis, sempre deitado porque nem um ovo podia estrelar de pé. No frigorífico não havia mantimentos para mais de três dias. E esse foi o drama que me levou a ter dias em que quase não comia – emagreci cinco quilos. Mas foi também um tempo de aprendizagem, de conhecimento humano, de teste aos ditos amigos, de confronto com a realidade e recrudescimento dos valores que me têm orientado ao longo da vida. Eu já tinha poucas ilusões, estas eclipsaram-se, é tempo de encarar o futuro sob outros auspícios. Assim Deus me ajude. Quanto ao período imobilizado, aos “amigos” e amigos, falarei mais tarde. Seja como for, o dia é para mim hoje de regozijo – pela primeira vez peguei no carro e fui ao supermercado e passei uma boa meia-hora no café a meditar.  


terça-feira, agosto 18, 2026

 Terça, 18.

... Depois, quando uma tarde cheguei a casa após consulta oftalmológica no Pulido Valente e sentia o estômago num rebulício, não propriamente com dores, mas um mal-estar que antes de me deitar decidi acalmar com meio copo de Água das Pedras. A causa não fora o almoço no Corte Inglês, de resto muito simples (arroz com peito de frango), que me causara o incómodo. O que sei, logo que a água entrou no meu corpo, desatei a tremer como se estivesse nos invernos frios do Alasca. Subi a procurar uma camisola grossa, desci com ela vestida, e sentei-me no sofá do salão em tremuras bizarras. Daí a um tempo, voltei ao meu quarto, pus um cobertor sobre o lençol, tomei um comprimido para dormir e daí a bocado adormecia. Senti-me bem no dia seguinte, tinha descansado o suficiente, estava restabelecido. Mas da cabeça não me saía a garrafa da água que dizem fazer milagres nos problemas gástricos. Antes de me deitar, fui à cozinha testar o produto. Mal tinha engolido um pouco do seu conteúdo, desatei num tremor medonho, idêntico ao da noite anterior – a causa estava encontrada, o que se seguiu foi trágico... (suspendido para dizer que acabei de chegar de Lisboa aonde fora para o curativo, ao todo já dez viagens).  


segunda-feira, agosto 17, 2026

 Segunda, 17 de Agosto.

Há um mês que aqui não venho molhar o entusiasmo e celebrar a vida. Muitos são decerto os leitores que se interrogaram que será feito do genial diarista ou do viperino autor de descrenças? Ele aqui está inteiro e necessitado de, pelo interior de si próprio, explanar as circunstâncias de uma tal ausência, visivelmente reconfortante quando, não obstante, o número de leitores não cessou de subir. Começo por dizer que neste tempo atravessei o deserto da dor, da solidão e da fragilidade humana. Venci? Não sei, quando estamos presos à vida por cordões sensíveis que nos permitem atravessar o espaço minúsculo, por onde ela corre sem nos oferecer certezas nenhumas, nem segurança total, nada de substancial se retém em nós. Talvez apenas a fé, enquanto mensageira do incógnito, mistério de uma presença serena que persiste em se impor no segredo de tudo o que não se conhece e solidifica em nós um destino, que só conheceremos quando esquecermos a vida que vivemos e gozámos na plenitude da esperança... (interrompido, vamos com calma). 


quinta-feira, julho 16, 2026

Quinta, 16.

Decidi não deixar estes claustros hoje. Quando acordei a abri as janelas de cima, pus-me a admirar a quinta que adquiriu outra beleza com o trabalho do Luís Correia. Parece maior, e as poucas árvores que restam de várias dezenas, compõem com encanto o espaço trazendo-me à memória loucuras do passado quando aqui cheguei cheio de energia, criatividade e treslouquices de braço dado com o João seu anterior proprietário. Só a luz e o silêncio parecem os mesmos, uma e outro irmanados num estrondo de magia que se repercute no ar e afaga num ápice todos os temores e rumores da minha futura existência fora desta liberdade, deste recanto isolado, pouso de pássaros vadios, de cobras, de rãs, de todos os répteis que entram e saem sem pedir autorização. Tomado o pequeno almoço, fui vadiar por este hectare de terra a apalpar, a escutar a palpitação das figueiras, romãzeiras, pereiras, macieiras, marmeleiros colher o resto de pêssegos que a passarada não quis e uma tigela de amoras, enfim, parando demoradamente para reter este espaço sagrado, o convento recuado no tempo, o deslumbre de verde que compõe a pauta musical de uma canção que os pássaros e o cuco de vez em quando ecoam com suas vozes melodiosas, por onde esbanjam a juventude que a mim me vai faltando não obstante os exames que me dão na pré-adolescência... 

         - Ao que leio são já 12 mil as mortes em toda a Europa devido ao calor que não nos larga. Para cúmulo, em Fontainebleau, nos arredores de Paris, a célebre floresta que eu tantas vezes percorri e onde se passa tanta coisa pela noite dentro, está a arder. A França não estava habituada à canícula e agora vai ter que pensar nela, substituir os telhados de ardosa, instalar aparelhos de ar condicionado e por aí fora. 

         - Sinto especial encanto pelos fins de tarde sentado no pátio, um ligeiro vento fresco a cirandar em torno de mim, debruçado sobre os meus autores. Tento sempre reservar uma hora para me dedicar ao supremo prazer das leituras. Nesta altura o fim da Encíclica de Leão XIV e o Géneses, sem negligenciar a passagem pelos jornais, sobretudo o Público. O Black que é a paz em pessoa, adora esses momentos e aproveita-os para se deitar ao meu lado, bem colado a mim.  

         - Enquanto a gritaria campeia na Assembleia, eu registo o país real nestes dados: 615 inquéritos abertos por ofensas à integridade física em 2024 nas forças policiais; “quem me dá uma chapada na cara (diz um agente da autoridade), em função do meu serviço, vai ter que se embrulhar comigo até lhe meter as algemas. Se é homem para me bater, vai ser homem para levar”; “não posso bater (diz outro polícia), mas depois eu é que levo no focinho? Jesus Cristo veio à terra, deu uma face, deu a outra. Eu sou abençoado, mas não sou Jesus Cristo”; outro agente afirma “natural ou, às vezes normal, um agente da autoridade vir a “apertar”: berros e torturas. Algumas agressões vieram a acontecer, até alguns actos de tortura”. Quanto às célebres e sinistras acções da PSP no Largo do Rato e Bairro Alto, entre 2023 e 2025, alguns polícias foram acusados de falsificação de autos de notícia, suspeitos de tortura, abuso de poder, abuso sexual, ofensas à integridade física e roubo em mais de uma dezena abusos aos detidos naquelas esquadras. 

 

quarta-feira, julho 15, 2026

 Quarta, 15.

Sebastião Bugalho está em todas. Continua deputado europeu, ganhando daí os milhares que trará de Bruxelas no fim do mandato e porta-voz do PSD além de seu vice-presidente, que até dará para adquirir um cavalo Lusitano. Bravo Bugalhito. És o maior. Um dos anúncios que sua excelência nos trouxe, foi a decisão do Governo em pagar horas extraordinárias aos professores que estão a classificar digitalmente a pouca vergonha dos exames nacionais. Era o que mais nos faltava, que os professores num trabalho hercúleo que buliu com as suas vidas, não fossem pagos! Todavia, o à vontade do sujeito que sonha estar um dia na cadeira do seu benfeitor Luís Montenegro, foi tal que parecia estar a dar notícia que aos docentes lhes tinha saído a lotaria. O presidente do PSD e do Governo fez-lhe a vontade, pois o homem andava desgostosíssimo por não ser reconhecido nas ruas de Bruxelas e no restaurante Aux Armes de Bruxelles onde ele e os seus camaradas ricos abancam. Eu sempre que a Annie me convidava para lá almoçar, via-os felizes a coçar qualquer coisa debaixo da mesa e em coscuvilhices sem fim. 

         - O homem que parecia estar banhado de moralidade da cabeça aos pés, afinal veio rubricar o provérbio como muitos outros políticos: no melhor pano cai a nódoa. Luís Neves, é dele que se fala, fez contratos com um empreiteiro amigo, para obras num monte que possui em Odemira. Este construtor tinha assinado contratos com a Polícia Judiciária quando ele era seu director entre 2020 e 2025. O agora ministro da Administração Interna, ao que parece, nem pedido de licenciamento de obras pediu à Câmara de Odemira. Esta diz que vai fiscalizar e que se assim for vai mandar demolir o que foi feito. Pergunto: algum leitor acredita que a autarquia o faça? Esta obsessão à Trump pelo imobiliário, atravessa a sociedade política: Luís Montenegro, José Aguiar Branco, Nuno Santos e passo. 

         - O Alexandre telefonou-me de Frankfurt onde estava em trânsito para Atenas a saber do resultado do exame às coronárias, ante a reposta debitou: “Pois, tu não comes, não bebes, não fumas por isso estás impecável.” Com efeito. O relatório do doppler é aquilo que eu senti quando do encontro com a médica que o fez. À mon âge! 




terça-feira, julho 14, 2026

 Terça, 14.

A comédia partidária nacional é um mundo diametralmente oposto ao do país, das pessoas, da realidade nacional. Aquela gente vive de fantasias, de recordações cívicas do tempo do fascismo, e em certo sentido nunca dele se apartaram e até gostariam de nele continuar para que as suas ideias e projectos tivessem absoluta concretização. Repare-se no Livre agora liberto do historiador, o simpático que assumiu o seu posto, proclama o poder como se este estivesse na ponta da bandeira ideológica que é idêntica ao do BE de má memória e à do PCP de histórica recordação. Uma utopia para quem nunca alcançou mais que quatro por cento de votos! O que eu vejo nestes congressos, é uma festa da juventude retardada, uma dinâmica de camaradas que se conhecem de longa data, comungam de um programa que andaram a beber nos intervalos das aulas, nas patuscadas nocturnas, e consideram ser seu direito proclamá-lo ao povo inocente, “escravo do capitalismo”, com perspectivas muito limitadas que não vão além da urgência de uma vida digna alicerçada no trabalho honesto. Mas para isto, eles têm uma ideologia e sem ela não é possível estruturar um país. Basta-lhes injectar doses massivas de futebol, concertos de Norte a Sul que outro dia o maestro Vitorino de Almeida nos dizia serem puro barulho, religião qb e concursos (muitos) e programas de entretenimento áridos, coscuvilhando a vida das ditas figuras públicas. Enfim, a TV ao serviço da mentecapta realidade nacional. 

         - Há, todavia, outra realidade que eles nunca compreenderão porque vivem naquilo a que Marx classificava de classe privilegiada. Por exemplo. A daqueles dois irmãos brasileiros, um deles que conheço bem, 22 anos, que se vê obrigado a trabalhar sete horas num café de dia, as noites num bar até às duas da madrugada. Tudo isto para pagar a renda de um apartamento em Benfica, água, luz, uma sobrevivência desgraçada que nunca os nossos políticos burgueses podem algum dia chegar a endireitar, porque isso implicaria pensar fora da caixa partidária, descer ao mundo sofredor daqueles que não vivem, sobrevivem e são aos milhões, uns de cara descoberta, a maioria de rosto escondido do destino que os fez nascer no Portugal de coração escancarado ao coitadinho, mas cheio de esquemas onde só vinga quem correr a alistar-se num qualquer partido (ia a dizer seita). Propus aos rapazes guarida cá em casa enquanto a vida não se organiza de outra forma. Sou extremamente sensível a quem trabalha honestamente e com o seu trabalho não almeja a felicidade de uma vida digna e equilibrada. 

         - Anda aí o senhor Luís a gradar a terra. O terreno mesmo em frente que é maior do que este, está à venda. A pouco e pouco, o mundo que conheci quando aqui cheguei há quase quarenta anos, está a desaparecer. Vão uns, instalam-se outros, mas nada se assemelha àquele universo de sombras e dias florescentes, espaços abertos, manhãs desanuviadas, dias claros e frios, fumo a sair das chaminés, duas ou três famílias, caminhos de terra batida onde só passava o meu carro e os tractores do meu vizinho. Só o silêncio me parece intacto e é nele que repouso a memória e me apetrecho do que há de mais valioso na vida: a presença divina que na vastidão do silêncio desenroupa a resplandecência das horas e dos dias. 

         - Fui à piscina. Também hoje tive uma faixa só para mim. A um canto, contudo, um feixe de mulheres enormes, grandes rabos, coxas gordas, mamas que chegam aos joelhos, quase não se moviam pese embora os gritos da técnica. Como será aquele pagode todo nu nos balneários?! Um pesadelo, um divertimento ou um susto? Não quero saber. 


sábado, julho 11, 2026

Sábado, 11.

Pois foi, tombei no Corte Inglês. Quando deixei o restaurante, entrei no super para observar a gama de queijos franceses e adquirir um ou outro. Acontece que o chão estava com uma mancha de água que não enxerguei devido ao material escolhido pela empresa que julgo nem antiderrapante é. Bati com a anca da perna direita, essa que os homens maduros e os jovens imberbes cobiçam, uns e outros com desmaio suave no olhar, a cobiça secreta disfarçada de curiosidade, e ali fiquei uns minutos porque a pancada sentia-a intensa no osso e as dores não me deixavam erguer. Logo um casal me socorreu e de repente tinha em meu redor seguranças, fiscais e uma enfermeira chamada de urgência. De pé verifiquei que o osso não estava partido e a bacia também não, embora as dores fossem muitas, mas a pronta chegada do meu anjo da guarda me tivesse protegido do pior. Trouxeram uma cadeira de rodas, sentaram-me nela e aí vou eu com indisfarçável curiosidade atravessando andares e espaços ante os olhares dos clientes e a minha admiração por observar o centro comercial como um papa que cruza multidões e benze todos e cada um, até ao gabinete de assistência médica aos funcionários no fosso do edifício. Aí peço à jovem enfermeira que me observe, desço as calças e olho também para a perna sólida que arca não só com a outra como com todo o corpo. Não vejo uma nódoa, aparentemente está tudo natural. Questiono então a rapariga que devo fazer se daí a dois ou três dias tiver queixas. Ela não sabe responder, mas vai chamar a médica de serviço. Espero um tempo deitado na marquesa, depois sento-me e, como não gosto de estar sem fazer nada, saquei da mochila as páginas do romance e pus-me a fazer correcções. Quando a Dra. Natália entra, decidida, visivelmente mulher de armas, uns sessenta anos activos, ordena à enfermeira que vá buscar uma folha e uma caneta para fazer o relatório da ocorrência. Pede-me que me volte a deitar, baixe as calças (ajuda na operação “não tenha vergonha”), desce-as até ao nível do zizi, apalpa-me a barrida, a anca, e de tudo o que vê ou sente, vai traduzindo para a outra que anota na folha. “Não vejo nada de especial. Está até muito bem, musculado e vivo.” Replico: “Obrigado, mas o que eu quero saber é se o Corte Inglês tem seguro para ocorrências como esta.” Responde: “Eu sou muito má e não vejo da minha análise nada de cuidado no futuro.” De seguida: “A obrigação do Corte Inglês em casos destes é chamar o 112.” Olho-a de frente: “Quer dizer o C.I. descarta-se das suas responsabilidades, atirando para o SNS o desastre que lhe pertence por inteiro por negligência.” Olha-me de frente, ajeita o cabelo grisalho que lhe tomba para a testa: “Escute, eu pertenço a uma empresa que trabalha para o Corte Inglês, é nessa condição que me encontro aqui. Não tenho nada a ver com o problema, apenas assisto aos empregados.” Não me calei e prossegui, argumentando que julgo ser obrigatório as grandes empresas terem seguro para acudir a desastres que aconteçam dentro das suas instalações e de sua legitima culpa. Saímos os três do gabinete e na sala onde esperavam funcionários por consulta, ela disse para me sentar uns instantes e voltou ao gabinete onde decerto a esperava um doente. Aguardei uns dez minutos, quando a porta do consultório se abriu e ela avançou para mim: “Feixe os olhos, estenda os braços e leve o dedo indicador ao nariz, primeiro o direito, depois o esquerdo.” Estava na minha frente, atenta aos movimentos. De seguida estende-me a mão numa despedida. Disse-lhe: “Obrigado, doutora. Adoro pessoas rijas, duras, são profissionalmente as mais competentes.” Riu-se, ri-me. Todavia, espero enviar um e-mail às autoridades competentes, a saber se é de lei que uma empresa com a dimensão da espanhola, possa estar isenta de seguros próprios e desembaraçar-se dos infelizes quando acidentes como este acontecem dentro das suas instalações. Os lucros são delas, os acidentes do erário público. 

         - O tempo mudou. O dia acordou sem acordar com tudo. Está até um ligeiro frio, o sol ainda não apareceu, diria que estamos no limiar do Outono. Os senhores da meteorologia, oferecem-nos mesmo alguns aguaceiros e descida acentuada de temperatura. Depois dos calores de morte, este interregno é uma bênção do Céu.

 

sexta-feira, julho 10, 2026

Sexta, 10.

O ministro da Administração Interna não governa a partir do gabinete, fá-lo diante das câmaras de televisão. Temo-lo todos os dias, de manhã à noite. Não será socialista, mas adquiriu maravilhosamente a táctica dos discípulos de António Costa. 

         - Vai por aí uma celeuma a propósito dos resultados dos exames. Não sigo a questão porque não me interessa. Se outro fosse que estivesse à frente do Ministério da Educação, faria semelhante ou como no passado ainda pior. As oposições reclamam uma palavra do primeiro-ministro, mas este anda desvairado num vaivém aos EUA e ao Mundial de Futebol. O seu adjunto, líder parlamentar do PSD, em defesa do silêncio e das constantes idas do chefe ao Mundial, saiu-se com esta que demonstra o provincianismo e o ridículo populista que invade o governo de Luís Montenegro: “Somos povo.” Como quem diz, o povo ama o futebol e até se encontrou lá com o seu orgulhoso primeiro-ministro. 

         - Voltou tudo à estaca zero, isto é, os bombardeamentos ao Estreito de Ormuz e dos iranianos a interesses americanos nos países vizinhos. Que corja de malucos governam o mundo! Os combustíveis, durante a curta fase de sossego, não baixaram; agora vão de novo galopar. E lembrar-me eu do contentamento de Macron e do homem que está à frente da NATO quando o tarado do Trump assinou o pseudo-acordo de paz! 

         - A vida de hoje é uma complicação. É falso que as novas tecnologias e a IA que a pouco e pouco se instala, nos trouxeram simplicidade de métodos, facilidade de resolução dos problemas e por aí adiante. Pelo contrário, como se assiste em nossos dias, o diálogo, o confronto salutar, a informação que olhos nos olhos nos aproxima, nos humaniza, nos devolve a doce presença do outro, praticamente desapareceu entregue ao contacto distante, sobranceiro, ao desleixo das repartições públicas e privadas, à frieza de um e-mail, ao toque de um algoritmo, que virou o ditador à distância e altivo que tudo impõe, recusa contestação, e é por todos temido, respeitado, arrogante. Ainda por cima, quem pela idade, falta de formação, desprezo pela tecnologia, odeia “esta uniformidade que anula as diferenças” como diz na encíclica Magnifica Humanitas o Papa Leão XIV, recusa a imposição do diálogo de sombras, está votado ao ostracismo, ao abandono, à solidão absoluta. Esta observação, ocorreu-me hoje de manhã quando tive de pagar o iuc forçosamente pela Internet. Que mundo bizarro, metálico, uniforme, estudado para obter maiores lucros, dispensando a multidão de empregados e mangas de alpaca que os negócios desprezam cada vez mais satisfeitos com o futuro que a máquina lhes oferece. 

         - Estive a falar com amigos que vivem em Almada onde a água desapareceu por encanto devido à incompetência e desprezo pelos cidadãos da socialista presidente de câmara. Há mais de uma semana que os habitantes deixaram de ver correr nas torneiras o bem essencial à vida. Nestes dias de temperaturas elevadas, imagino a angústia dos que vivem sem poderem tratar da sua higiene, alimentação, cuidar dos filhos e idosos como se de súbito o tempo das cavernas tivesse surgido atirando-os para a estrumeira das ruas e dos dias enxameados de desespero.    

         - Uma grande catástrofe ocorreu no Sul de Espanha, na região de Almeria. A queda de uma linha eléctrica está na origem de um fogo assustador que, devido ao calor, se estendeu por uma vasta área residencial. Até ao momento estão contabilizados 11 mortos e pelo menos 23 desaparecidos. As autoridades receiam que o número de mortos possa vir a crescer. 

 

quinta-feira, julho 09, 2026

 Quinta, 9.

Ontem lá fui fazer o Eco-Doppler das carótidas e vertebrais. Nunca tinha feito um tal esplendor e foi preciso começar a avançar na idade para conhecer tanta coisa que se esconde no nosso corpo e o faz funcionar na maravilha. Foi a minha excelente médica Dra. Vera Martins, que quis juntar aos exames prescritos pelo Dr. Octávio Simões na sequência do desmaio de Abril passado que me aconselhou. Deitado na marquesa, durante pelo menos uns vinte minutos, a médica muito jovem, utilizando um aparelho de ultrassom, foi percorrendo o meu pescoço, primeiro do lado direito, depois do esquerdo. O que me chegava era maravilhoso e assustador, pois ouvia uma espécie de pistola ou jacto de sangue a disparar com força do coração para o cérebro. Quando a médica deixou a zona cervical direita, preocupado em lhe dizer o que pensava na essência que as vias estavam absolutamente desobstruídas, ela adiantou-se e disse da maravilha que encontrou nas artérias do meu pescoço. Estou à espera do relatório final, mas tenho quase a certeza que a idade ainda não fez estragos nesta parte do meu corpinho. Aterosclerose para que te quero! 

         - Depois fui almoçar ao Corte Inglês. Desci do restaurante para regressar a casa, sem que antes tenha entrado no supermercado. O que me aconteceu relatarei noutra altura, mas é a prova provada que no melhor pano cai a nódoa. 

         - Esta casa parece a casa de Ali Babá. Volta que não volta, sou surpreendido pelo meu passado revoluto, de cada gaveta pode sair a reconstituição do que fui, as memórias que se esconderam por vezes durante anos no fundo de um armário, a súbita revelação da vida passada enquanto motor da presente. Eis dois exemplos.  

O meu cartão de Produtor do programa "Nova Musa" que durou quatro anos, aos domingos. 

Não me lembro em que ano me foi atribuída a distinção de melhor programa. 


terça-feira, julho 07, 2026

 Terça, 7.

Estamos safos desta perseguição permanente. Portugal não conseguiu passar da segunda fase dos mundiais de futebol, a Espanha afastou-o. Ufa! O Planeta agradece e eu também porque a polição era medonha e expunha a nossa pequenez e mediocridade à usura da FIFA para quem o dinheiro nunca sacia. A verdadeira natureza do desporto onde estarás tu? O arrogante e egocentrista Cristiano Ronaldo que eu vi jogar nos espaços noticiosos da SIC, parecia, na realidade, o “avô 7” como dizem os aficcionados do futebol desiludidos com a insistência da vedeta em querer ter a última palavra quanto ao abandono dos relvados. Éramos os maiores, tínhamos os melhores jogadores do mundo, Portugal ia ser grande, iria à final e sairia vencedor, assim gritava o português comum, pobre tipo, para quem o futebol e os seus ídolos são a força única da nação. E mais uma vez, não passámos de uns coitados, sem saber nem cultura, eternos patetas alegretes que se satisfazem com uma mão cheia de coisa nenhuma.   

         - Ontem, no metro, o cheiro nauseabundo dos corpos, era medonho. 

         - Quem respondeu ao propagandista ministro da Administração Interna, foi o presidente da Liga dos Bombeiros, ante a catástrofe dos incêndios tão árdua e infelizmente igual ao que aconteceu no ano passado e nos anteriores. Diz o senhor dos bombeiros, que “Portugal continua sem estar totalmente preparado para cenários complexos” e acrescenta “que é preciso um comando nacional de bombeiros que dê mais autonomia dos profissionais”. Nos últimos cinco dias, arderam 15 mil hectares de floresta e terrenos agrícolas. 

         - Entre nós tudo se joga diante das câmaras de televisão. O Governo governa para as câmaras, os partidos disputam-se nos ecrãs, se um autoclismo deixou de funcionar numa escola ou no Parlamento, logo se cria uma notícia, matéria importante para derrubar o primeiro ministro. A guerra entre partidos é objecto de disputas diante dos espectadores acomodados em suas casas, risonhos e felizes, por assistir à “democracia a funcionar”. Digam-me se souberem: há alguma estação de televisão na Europa civilizada que dedique hora e meia a duas horas de noticiários todos os dias? Que eu saiba, não. 


domingo, julho 05, 2026

 Domingo, 5.

Os fins de semana são terríveis. Sobretudo quando o calor aperta e as árvores e flores sofrem tanto ou mais que nós com esta canícula que não nos larga. Aproveitando o quadro bi-horário, toca de regar com começo às seis da manhã. Durante hora e meia, andei a puxar a mangueira, correndo não só as flores que contornam a casa, como as árvores de fruto mais distantes. Nesse entretanto, todas as janelas da casa foram abertas de modo a arejar as divisões e a torná-las mais frescas. Depois, de bastão em punho, decidi dar uma volta pela quinta coisa que não acontecia há algum tempo. Que desilusão! Vou ter de falar com o senhor espalha brasas que adora trabalhar com máquinas porque é pago a dobrar, quando a machada e a tesoura fariam milagres na beleza do espaço. O resultado deste sufoco é bem visível no aspecto das hortênsias: estão todas com as pétalas sensíveis queimadas. É assim todos os anos. A partir de Julho o sol veste-as de um luto acastanhado.  

         - O Black sabe-se defender. Antes não parava no interior, agora aqui fica horas a fio a dormir. Normalmente na cozinha onde o aparelho de ar condicionado está ligado. Escolhe uma cadeira mesmo em frente do sopro frio e aí fica todo o santo dia, petiscando e dormindo, quase nunca precisando de ir ao wc público. 

         - Longa conversa com a Gi. Diz-me que quer cá vir com o Nuno passar uns dias. Falámos sobre o trabalho que a idade dá ao instalar-se sem demora nem aviso. Ela está como eu. Tanto um como outra, sonham com um modesto apartamento para fim de vida. Só que, por exemplo, a casa dela na Foz deverá valer seis milhões, esta a última oferta foi de dois milhões. Ainda nos divertimos a imaginar quanto será um milhão.