Sexta, 21.
Para descer a cortina do palco, agora que a vida retoma no ponto onde fora suspensa, devo confessar que o faço já com uma certa indecisão, posto que muitos ensinamentos colhi da natureza humana, da dita solidariedade e dos afectos que perpassam num ápice a fidedigna face do comediante. Sim, deitado e coberto de dores, levava os dias a tentar aligeirar a situação com espreitadelas aos diferentes canais televisivos. O que vi era simplesmente assustador, medíocre, pacóvio, pobrezinho. Apanhei, dia 12, o eclipse do Sol que foi uma perfeita exposição do que somos. Sobretudo do jornalismo que temos e dos jornalistas que as universidades debitam às centenas todos os anos para os escassos meios de comunicação. A linguagem era esta: “foi, senhores espectadores, simplesmente impactante o que aconteceu há três dias atrás” ou esta quando havia fogos, diante de uma senhora apavorada, perguntava a jornalista: “O que é que está a sentir?” O chorrilho de parvoeira e indecências, alinhava perfeitamente com as palavras do atraso mental Trump, ao lançar mais esta boutade: o Estreito de Ormuz passaria a pertencer aos EUA. Contudo, quem me fez grande e encorajante companhia, foi os Campeonatos da Europa de desportos aquáticos e atletismo. Um prazer imenso assistir a tudo, não só pelo conúbio, como pela ausência daqueles programas da manhã, orientados por pessoas que decerto vão morrer diante dos nossos olhos, velhos e relhos, a produzir coisas horrendas, sorrisinhos idiotas, convencidos de terem o rei na barriga. Pelo caminho, aconteceu aquela tragédia dos milhares de africanos de diversos países e marroquinos em barda no assalto a Ceuta. A esse propósito, foi lamentável ver Luís Montenegro aproveitar-se da tristeza para recordar o seu programa sobre imigração. Pela boca dele e de muitas outras personagens sinistras, ouvi martelar a frase: “é o mercado e a democracia a funcionar”, onde no fim de contas nada funciona. E ainda esta, escutada no Parlamento: “Aqui não se fazem acórdãos.” O homem que quer o país a funcionar à Ronaldo, precisa de encontrar uma “famila” de analfabetos que o acompanhe. Nunca lamentei tanto a ausência dos canais estrangeiros que o temporal siderou e eu ainda não encontrei quem subisse ao telhado para reparar a antena parabólica.