Quarta, 19.
... trágico porque ao chegar ao quarto, depois do esforço de subir as escadas de pedra em caracol, tremendo da cabeça aos pés, caí redondo no soalho. Levei para cima de quinze minutos para me atirar à cama, a transpirar, num desespero e esforço hércules para me erguer. Pensei passar a noite no chão, mas o candeeiro aceso não era boa companhia. Arrastei-me para entrar pelos pés da cama, mas fui duas vezes cuspido. À terceira fui capaz de chegar aos lençóis e arrastei o corpo para a cabeça do leito, exausto. Tomei então um comprimido para dormir e adormeci num tremor estúpido que não me largava. Bref. Acordei no dia seguinte completamente num traste: doía-me o corpo, qualquer gesto me anunciava a morte. Quando pus os pés no chão, olhei o pé e a perna marota e vi manchas negras por todo o lado: veios vermelhos que subiam até ao joelho, o tornozelo como uma batata, a anca negra, os cotovelos dos braços escuros. Mesmo assim não me rendi. Ir ao hospital estava fora de questão depois da última experiência no S. José. Acontece que daí a dois dias tinha consulta com a minha médica de família para lhe apresentar o exame às caróticas e, não obstante o extremo sofrimento, continuei a conduzir e na tarde aprazada estava na frente da boa doutora. Quando ela viu o meu membro inferior, estarreceu e num protesto quis saber por que não fui às urgências. Depois chamou uma enfermeira e esta prontamente começou a extrair com uma seringa o muito pus da perna e pé. Os que vinham de outros gabinetes, emitiam um ai de espanto – de facto eu estava numa miséria, as alpargatas de quarto ensopadas do líquido que parecia vir de todo o lado, dores insuportáveis. A Dra. Vera disse-me que o que via só um antibiótico podia curar, a enfermeira de acordo com ela acrescentou que eu tinha ali para um mês. O bom do Sr. Gaspar que me tem socorrido sempre, amparou-me da saída ao táxi. Chegados a Palmela, fomos à farmácia aviar o veneno e mais um outro para as dores e um terceiro para os possíveis desarranjos de estômago. Aqui estive cinco semanas, com duas idas ao centro de saúde, terças e sextas-feiras, dores insuportáveis, sempre deitado porque nem um ovo podia estrelar de pé. No frigorífico não havia mantimentos para mais de três dias. E esse foi o drama que me levou a ter dias em que quase não comia – emagreci cinco quilos. Mas foi também um tempo de aprendizagem, de conhecimento humano, de teste aos ditos amigos, de confronto com a realidade e recrudescimento dos valores que me têm orientado ao longo da vida. Eu já tinha poucas ilusões, estas eclipsaram-se, é tempo de encarar o futuro sob outros auspícios. Assim Deus me ajude. Quanto ao período imobilizado, aos “amigos” e amigos, falarei mais tarde. Seja como for, o dia é para mim hoje de regozijo – pela primeira vez peguei no carro e fui ao supermercado e passei uma boa meia-hora no café a meditar.