domingo, março 25, 2018

Domingo, 25.
O telefonema amigo, sexta-feira, do João a saber como decorria o almoço com o Carlos Soares. Tínhamos estado ao telefone na véspera à noite e eu havia-lhe transmitido a vinda do nosso amigo. Bom  e nobre Corregedor!

         - Todo o dia flaches intempestivos no meu cérebro. O quarto capítulo ainda não se me apresenta claro. Ou antes é preciso que os factos me sejam mostrados para os levar à teia do texto.

         - O que não aconteceu esta manhã, apesar de ter saído cedo para o Café da Casa. Mal abanquei, apareceu o J. que se sentou na minha mesa. Longa conversa sobre editores (ele trabalhou no meio) que se prolongou até ao meio-dia. Perdida a manhã, levantei amarras e fui Avenida Luísa Todi num passeio saudoso de outros tempos quando, valdevinos, por ali ficava até tarde na noite. Setúbal sempre foi para mim uma cidade de segredos, de obscuras vidas, de pasodobles, de esquinas sombrias, com a sua frente ribeirinha cheia dos encantos que escapam ao dia.  


         - Gabriel Matzneff. Não obstante a sua obsessão pela saúde, a alimentação, a dietética foi há dois anos sujeito a operação ao coração. Um exame de rotina detectou que a carótida esquerda estava entupida a 70 por cento. Catástrofe. Ele que depois de alguns anos tem a vida suspensa do cancro da próstata e de todas as pequenas misérias que a idade traz. Para o hospital levou o Journal de Stendhal (eu levei, em 2010, Petit traité des grandes vertus de Comte-Sponville). Revejo-me muito nele, na sua independência, liberdade e inconformismo, como nos autores que prefere e na coragem que demonstra ante os pontapés da vida. O verdadeiro escritor, ensina-nos sempre qualquer coisa. Com Matzneff aprendo a defender-me e a encarar as adversidades sem desistir dos meus princípios e encarando a solidão como um meio de ultrapassar as fragilidades. São elas que nos fortalecem. Tanto ele como eu, não temos vida para estar doentes, não fomos preparados para isso e dada a liberdade que escolhemos nos acompanhasse ao longo da nossa existência, o esforço pessoal é maior e decerto mais nobre e desafiador que todos os que levam a vida pendurados em alguém. Acresce que uma pessoa com fé nunca está só. Carpe diem, quam minimum credula postero. Esta frase de Horácio convém-me às mil maravilhas.
Gabriel Matzneff, em Paris 

sábado, março 24, 2018

Sábado, 24.
Ontem, mais um bárbaro ataque do Daesh em França. Foi em Carcassonne, a bonita vila perto de Sète, que eu conheço bem por lá ter passado uns dias em casa da minha amiga Diane, a quem prontamente telefonei. Ela é médica e não pára nas suas deambulações para acudir aos doentes que nela confiam. Morreram quatro pessoas, incluindo um oficial da polícia que se ofereceu para trocar com uma refém, durante o acto terrorista a um supermercado local. O herói chamava-se Arnauld Beltrame e tinha 45 anos. Como eu aqui disse várias vezes, aos barbudos jihadistas não é preciso um Estado nem um quartel central, basta-lhes o ódio e o extremismo para a prática da sua vingança. O gesto nobre do agente da autoridade, desceu em linha directa dos fundamentos cristãos e por si só vincula-nos à parábola do Evangelho e ao exemplo de Jesus Cristo. Deus dispensa-nos das nossas preces, ao fazer entrar no Seu Reino no milésimo de segundo após a morte, o generoso soldado. Amanhã começa, coincidentemente, a Semana da Paixão.

         - Marcelo Rebelo de Sousa, na sua fúria malbaratada de palavras, fazendo tábua rasa sobre o seu passado político e falador televisivo, diz ter vergonha da pobreza em Portugal. Que vale o seu lamento? Nada. Ou mots, paroles, words, palabras.

         - Ora bem, Marcelo e Costa, andam a limpar os campos para evitar novas reincidentes como as horríveis do verão passado. Que ridículo! Que demagogos! É deste tipo de políticos que estamos fartos e é por causa deles que a extrema direita se instala por todo o lado confortavelmente.


         - Comecei esta manhã o derradeiro capítulo (o quarto) de O Juiz Apostolatos.

sexta-feira, março 23, 2018

Sexta, 23.
“Até tenho saudades do cheiro dos fogos!” – dizia um emigrante na Suíça onde a selecção de futebol chegou. Que não seja por isso. Atendendo ao Ministro da administração Interna que o partido socialista nomeou para o cargo, não vai faltar este verão a fragrância a terra queimada e então o idiota terá saudades... da Suíça.

         - Carlos a almoçar. Ágape delicioso, diante da lareira acesa, na cozinha. Muita e interessante conversa sobre Damião de Góis, Osório de Castro, Alexandre o grande. Do humanista, Carlos Soares conta-me que quando ele foi condenado pela Inquisição, apresentou uma lista pormenorizada dos seus bens: quadros, livros, mobiliário, peças em prata e ouro. Digo-lhe que todo drama de Góis foi obra de Simão Rodrigues que o denunciou à Inquisição Portuguesa. O escritor é preso em 1570, na sequência de uma série perseguições, falsos testemunhos, ligações a Erasmo e, sobretudo, a Lutero no mosteiro da Batalha. Mas Carlos, por natureza muito preciso e meticuloso em análises, interessa-se mais pela minúcia que levou o homem de Alenquer a especificar o ano da compra do quadro, o autor, o preço.


         Deixámos a cozinha para o salão. Carlos bebeu praticamente sozinho uma garrafa de Dão, delicioso, Vila Real, com três prémios, a acompanhar um peito de peru no forno com batata a murro, castanhas e chalotas, seguido de uma tábua de queijos franceses, tangerinas cá da quinta e um Nespresso, está que nem um abade, tocado pelo vinho. Não diz nem faz coisa com coisa e eu, vendo-o naquele estado, aconselho-o a dormir uma sesta enquanto eu leio 50 páginas de Matzneff. A culpa do seu estado foi minha. Ou antes do agradável convívio que se estabeleceu entre nós. Conhecendo-o como o conheço, devia ter tido mais cuidado. O homem é uma força da natureza em estado puro. Normalmente, depois do almoço, não se pode contar com ele. Nem ele sabe quem habita dentro da sua sólida e compacta carcaça.

quarta-feira, março 21, 2018

Quarta, 21.
Um dia como o de hoje, sobretudo quando saímos de um tempo de trevas, enche-nos de alegria. O campo lavado, purificado pelos ventos, quando a luz cai nele acorda-o do longo inverno e sacode-nos a nós seus habitantes da letargia em que os dias cinzentos nos mergulharam. Andei a podar as cepas (poucas) que ainda restam e terminei a poda das hortênsias. Devia ter prosseguido com a roçadora o corte da erva daninha que as últimas chuvas fizeram brotar do chão desordenadamente, mas temo nova recidiva de dores lombares, de forma que vou retardar essa tarefa. Sem esquecer que nesta altura do ano o trabalho não falta e muitas outras empreitadas me esperam. As manhãs e o início das tardes são religiosamente consagradas à escrita e à leitura. Vivo neste colete organizacional e muitas vezes sinto-me cansado por não abrandar e deixar que este ritmo de trabalho tenha fios de tempo para o simples dolce far niente.


         - O relatório independente sobre os incêndios do Verão passado, foi enfim conhecido. Dispara em todas as direcções: Estado, autarquias, EDP, GNR, sistemas de comunicação, etc., etc.. Ninguém sai incólume, todos são responsáveis das cento e tal mortes. A rainha de todas as mães do CDS, prega escondendo com as suas palavras aldrabadas a sua parte em mais eucaliptos. Outras mortes se seguiram entretanto como oliveiras e carvalhos centenários, figueiras e pinheiros... Ninguém até à data foi responsabilizado – e esse é o desastre maior deste pobre país. O próximo Verão que venha e com ele novos fogos. Infelizmente é isso que vai acontecer. O sistema e as pessoas não mudaram e trabalham em pescadinha. A grande reforma devia ser acabar com este insuportável esquema – todos comem do mesmo tacho.  

terça-feira, março 20, 2018

Terça, 20.
Ontem no Príncipe, o Carlos disse-nos que a mulher achou o escrito que aqui publiquei sobre os trabalhos do marido, “intelectual”. O Paulo, ouvindo, respondeu: “É intelectual porque os temas e a forma como o Helder os aborda são de alguém que tem um pensar erudito, mas são perfeitamente compreensíveis.” E deu o exemplo da mulher, com quem eu estive, sexta-feira, pela segunda vez: “A Catherine diz que tu és sorridente, e o teu humor é a prova da tua inteligência.” E que pensam os meus 40 mil leitores que me têm acompanhado ao longo dos anos? Pelos e-mails direi, grosso modo, bem. É verdade que não recebo verdadeiras questões e quando as recebo chegam através de leitores que dizem conhecer-me doutros tempos e desejam retomar o relacionamento. Como estou sempre de pé atrás, peço provas – fotos, rede de amigos comuns, etc. -  e aí... silêncio.  

         - Virgílio: “Tu deves andar pelos cinquenta anos. - Põe os óculos, Virgílio. – Não uso.” 

         - Os corruptos e patetas do futebol, atribuíram uma estatueta horrenda a Marcelo Rebelo de Sousa. Este, melhor jogador do que eles todos juntos, disse que o troféu era de todos os portugueses. Por mim dispenso-o e agradecia que sua excelência deixasse de falar em meu nome. Se o ridículo pagasse imposto, não teríamos precisão de liquidar o IMI no próximo mês. O meu antídoto contra a praga do futebol, é cortar-lhes o pio.


         - Das notícias do dia, realço a prisão para interrogatório de Nicolas Sarkosy. A justiça quer saber quem financiou a sua campanha presidencial em 2007, encaminhando-se para os milhões que na altura lembro-me a imprensa insinuar terem vindo de Kadhafi. O mesmo Kadhafi que ele posteriormente deixou cair. Admirados? Eu nem um pouco. Está tudo inscrito nos seus tiques.