segunda-feira, dezembro 05, 2016

Segunda, 5.
A Europa, a querida Europa que passa por ser europeia ou pertencer ao continente europeu se estiver arregimentada no euro, tem sucessivos pequenos enfartes e qualquer dia fina-se com um fulminante ataque cardíaco. Ontem andou a balões de oxigénio enquanto os povos austríaco e italiano, decidiam dos seus destinos. Uma das válvulas desentupiu. Refiro-me à conservadora que manteve a vigorosa Casa Austríaca dos Habsburgo durante dez séculos; a outra, de natureza latina e, portanto, incerta, teve mais um aperto prontamente socorrido mas de prognóstico instável.

         - Ainda o mundo dos energúmenos de futebol. Ontem, durante uma partida desportiva em França, o guarda-redes do Metz, um português, foi atingido por várias bombas artesanais que o levaram ao hospital. O diagnóstico foi claro: suspensão de jogar por semanas para curar a surdez que o afetou. É certo e sabido, que ninguém vai ser acusado da malfeitoria que podia ter sido pior para o infeliz desportista.

         - Em Cuba, sem que ninguém fosse obrigado a carpir como acontece com o deus que dirige o Coreia do Norte, foram aos milhares os que se despediram de Fidel Castro. Desde Havana até Santiago de Cuba onde foi enterrado, por todo o lado onde o cortejo fúnebre passou, encontrou os passeios juncados de povo de todas as idades e condição. As esquerdas dizem que sim, mas que não. O facto é que se não tivesse sido a desumanidade e tirania dos americanos com o estúpido e criminoso embargo à ilha, é quase certo que outro destino teria sido o dos cubanos. Se com tantas dificuldades eles puderam desenvolver o essencial da existência humana, que seria se a liberdade de importar e exportar, negociar e relacionar com todos os povos para além do russo a que ficaram confinados, lhe fosse consentida. Certo houve censura, prisões, deportações, falta de liberdades. É verdade, é próprio dos regimes ditatoriais. Mas a democracia deve também olhar para si mesma e perguntar-se se muito do que reprova ao vizinho não está sob outros esquemas e fundamentos implementado no seu seio. Desse ponto de vista há muito a dizer.

         - Corre por aí um estudo – Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa: Uma perspectiva comparada – que pretende ser a radiografia mais completa da gerontologia entre nós e que devia fazer corar de vergonha os sucessivos governos que o nosso triste país democrático teve. Sabemos que a Europa está envelhecida. Diz o estudo que para cima de 50 por cento tem mais de 50 anos. Contudo, quando perguntada se foi feliz, os europeus de dezasseis países, respondem “muitas vezes”, os velhos portugueses apenas 26,9 retorquiu conhecer a felicidade porque dizem viver mal, com pior saúde e pouco dinheiro para comer. Esta situação, remete-me como sempre aqui o tenho feito, para a demagogia política que constrói a felicidade nacional a partir de mentiras e distanciamentos aristocráticos, números e sorrisos macacos construídos na Assembleia Nacional e nas reuniões ministeriais, nos partidos e nessa corja de assalariados (normalmente advogados e economistas) bem remunerados que assiste o Governo. E devo acrescentar a Igreja. Através dos anos, todos se estiveram nas tintas para os idosos. A primeira, fazendo deles as personagens secundárias e patetas que enchiam e enchem os templos; os segundos, a turbamulta que está a mais, é desgraçada e entope a Segurança Social. Todos deram deles a imagem de marginais, de gente limitada, suspensa do chamamento divino que tarda tanto quando as novas gerações se atropelam para ficar com os seus lugares, os filhos com os seus bens, os regimes políticos com folga nos orçamentos anuais. A velhice em Portugal – muitas vezes por culpa dos idosos – é tida por coitadinha, por pobrezinha, por sozinha, por doentinha, numa palavra, por uns pobres infelizes que pr´ali estão à espera da morte. Não admira, portanto, que o resultado da saúde mental dos portugueses seja tão deprimente. 36 por cento dos inquiridos com 50 ou mais anos, apresentam sintomas de depressão, de fadiga, dificuldade de dormir, pessimismo. Esta morbilidade está ligada ao consumo de medicamentos que receitam os médicos desejosos de se verem livres deles e úteis para a família que os têm mais calmos e sedados anos a fio (todos aceitam sem pestanejar os comprimidos “para o resto da vida”). Portugal nunca olhou a “terceira idade” como algo intelectual e socialmente útil ao conjunto da comunidade. Afadigados em aferrolhar o máximo possível, entretidos no patuá inútil, os senhores deputados nunca se debruçaram com atenção para um mundo que parece meter-lhes medo. E, todavia, é esse mundo que pode reorientar o país para políticas mais humanas e socialmente mais interventivas porque possui a maioria de votos. 


         - Uma tarde destas quis ir ao cinema. Quando me abeirei da bilheteira (no Corte Inglês), a empregada apresentou-me o bilhete para “a sessão da meia-noite e quinze minutos”.  Digo: “Como assim! À meia-noite! - Esse filme só tem uma sessão” , responde ela. - “Bah, é um filme pornográfico? – Não. Mas puseram-no para esse horário.” Desisti. Lembrei-me doutros tempos quando amigos meus me desafiavam para ir à discoteca e me marcavam encontro às três da madrugada e acabávamos por sair às nove da manhã. Era um mundo invertido, louco, solto de deveres e obrigações, fantasmagórico.

domingo, dezembro 04, 2016

Domingo, 4.
“Historicamente os imperialismos convivem bem entre si desde que consigam dividir o mundo em esferas de influência. É isso que Putin quer e que Ronald Trump está disposto a dar. Isso não só tornara certas regiões do Leste europeu mais sujeitas ao poderio russo, como não deixará de nos tornará a nós mais vulneráveis ao poderio dos EUA. Ficaremos menos, e não mais, independentes, e só escaparemos a este destino se formos capazes de reforçar e democratizar a construção da Europa.” Esta é a ideia da uma certa esquerda, e as palavras são de Rui Tavares no Público de sexta-feira. Estou até quase ao final de acordo com ele, só não alinho na sua proposta de que é na União Europeia que podemos fazer face à invasão dos dois imperialismos. A “construção da Europa” traduzo eu pela UE, a mesma união que se traduz hoje pela desunião. Que é irreversível, atendendo ao que se passa um pouco por todo o lado. Os três países que suportam a União, fizeram-no no interesse dos seus interesses, no ganho das suas influências e à custa da miséria e da humilhação de vários outros povos que confiaram nos alicerces democráticos da construção da Europa. Os exemplos são tantos, que seria enfadonho aqui os enumerar, de resto ao longo destas páginas vivos e incandescentes no fio dramático dos anos. Tavares parece esquecê-los ou galopar sobre os dramas para defender o indefensável. Deve ser por isso que a Europa está suspensa das eleições na Áustria e do referendo na Itália.  

         - Ronaldo desviou para paraísos fiscais 150 milhões de euros! Ele e o Number One que arrisca-se a ser o last number e tantos outros, sob a batuta do maestro em esquemas financeiros, Jorge Mendes. Esta revelação pertence à equipa de jornalistas que a designou por Football Leaks e cujas revelações ainda agora começaram. Resta saber se alguém desta chusma de pervertidos, vai parar com os costados à prisão. Por muito menos, já outros pobres e inocentes cidadãos lá estão ou passaram por lá. Se os Estados não atacam esta malta sôfrega de riqueza com imparcialidade e justiça, não se admirem depois que os povos lhes fujam como o diabo da cruz. Já tivemos a experiência com a revelação da mesma equipa jornalística que denunciou chefes de Estado, políticos e gestores públicos e privados e ninguém foi condenado. O mundo está maduro para aceitar um qualquer salvador.


         - Portugal tem sido fustigado pela intempérie nestes dois últimos dias. Há zonas inundadas e os bombeiros não podem acudir a tantos apelos. Dizem-me que distrito de Setúbal sofreu forte chuvada e trovões durante a noite. Eu não ouvi nada, rendido ao sono que felizmente não me larga e me faz mergulhar num mundo outro durante sete horas seguidas.

sábado, dezembro 03, 2016

Sábado, 3.
Nem o pobre Cristiano Ronaldo escapa à podridão! Que o mundo do futebol está todo contaminado por falcatruas, corrupção, sacanice já todos sabíamos. Agora que um tipo que se fez a pulso, com persistência e trabalho, vindo de um meio pobre e honrado, fosse também conspurcado pela sofreguidão do dinheiro, dá que pensar.  Não lhes chega o que têm, querem sempre mais e mais. Mesmo com os pés para a cova, continuam a rapar no tacho, compram e multiplicam influências porque se convenceram que é no dinheiro que está a grandeza e notoriedade deste mundo e do outro. Nem se lembram de quando eram pobres e os ricos os maltratavam com trabalho duro e pobreza, fugindo ao pagamento de impostos enquanto eles eram condenados a pagar ao Estado até o tostão que lhes faltava para a boca. Eu espero que o Estado espanhol seja implacável e, se preciso for, o meta na prisão. Seria uma lição corajosa para todos os seus comparsas e tubarões do mundo do esférico.

         - O Black está constipado. Desde que se aburguesou, passou a espilrar como as pessoas. Como, a Piedade, por exemplo, que anda a fungar há dias. Eu escapei à gripe francesa, espero escapar a gripe gatesca.

         - Tenho por hábito responder às cartas e e-mails que me enviam e, por isso, enderecei à nossa Câmara esta missiva:   

Caros Senhores,

Agradeço a informação sobre a qual se me impõe algumas objecções.

1º - Não sei de que obras se trata pois encontrava-me ausente do país. Se se trata de dois protestos que  fiz no Verão pela má condição dos caminhos daqui, de facto, os senhores vieram consertá-los com atraso por essa altura.

2º - Invocam os senhores a falta de verba e consequente incapacidade de contratação de funcionários para manter as estruturas camarárias em bom funcionamento. Bom. Pelo que sei, a Câmara de Palmela, foi a que nesta zona mais aumentou o IMI e outros impostos. Aos municipes não cabe ajuizar das capacidades financeiras, cabe a fiscalização e resultados da boa gestão dos eleitos pelos cidadãos.

3º - Eu dispenso o tratamento de Excelência. A mim basta-me o de senhor. Até porque não me quero comparar a sua excelência-professor-doutor-economista-presidente da República Cavaco Silva…


De todo o modo, e esperando melhor atenção aos que em vós confiaram a orientação e gestão da nossa bonita vila de Palmela, apresento os meus cumprimentos.

sexta-feira, dezembro 02, 2016

Sexta, 2.
Ontem, no momento em que tinha no televisor François Hollande lamuriando os feitos que o seu mandato ofereceu aos franceses, telefonou-me o Simão. Disse-lhe que o socialista ia recandidatar-se a novo mandato e que isso seria o seu suicídio. Enganei o meu amigo, porque a ladainha de uma boa parte do seu espiche parecia ir nesse sentido. No final, em alguns minutos, soubemos que o homem deixava o campo aberto ao transtornado Manuel Valls e a todos os outros que muitos são na perseguição ávida do poder. Triste reinado a deste bonhomme. Em muitos momentos, cheguei a ter pena dele. Termina o percurso com 7,5 dos franceses a acreditar nele. Foi um socialista que se rendeu completamente às proposições da direita, do capital, dos valores que hoje maculam a Europa e o mundo.  

         - Corregedor teve a feliz ideia de organizar um almoço de Natal com o grupo de pintores, escultores e jornalistas da Brasileira. Telefonou-me a dizer que não falte. Como poderia eu escusar-me a uma tal reunião!


         - A novela da Caixa Geral de Depósitos tem um novo protagonista: o antigo ministro da Saúde de Passos Coelho, Paulo Macedo. Trata-se de alguém comummente reconhecido por competente e isento. A ver se é desta que o Banco que sempre esteve ao serviço dos grandes interesses económicos e foi asilo de políticos desempregados e incompetentes, passe a estar ao serviço das PMEs e dos portugueses.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Quinta, 1 de Dezembro.
Um trágico acidente de avião apagou a festa que a equipa de futebol do Chapecoense ia disputar numa final da Copa Sul-Americana. Do conjunto de jogadores só escaparam três e ao todo 71 passageiros foram mortos. Não se sabe qual a origem do desastre, embora estejam apontadas anomalias técnicas.

         - Em Alepo onde a guerra semeia todos os dias depois de cinco anos a morte, parece iminente o assalto final pelas tropas de Bashar al-Assad ajudadas pelos russos. Os habitantes fogem como podem ao inferno, as crianças levadas nos braços, os mortos enterrados à pressa, o único hospital transformado num antro de homens e mulheres condenados ao sofrimento. Todas as guerras são odientas pouco importa os motivos. Entretanto, deixou de se contar os mortos. Todos os actores envolvidos no conflito se acusam mutuamente. Teerão anunciou que mais de 1000 combatentes morreram no conflito. A propaganda é por si só assassina.

         - Uma boa história bem contada não faz um bom livro se ao leitor não chegar a voz do seu autor.

         - Esta manhã na Brasileira, misturado com os nossos artistas sempre divinos, encontrava-se na sua forma discreta o nosso ricaço. Ele e um outro que esteve armazenado por anos no Parlamento Europeu, falavam de abastanças. Eu meti a colher para dizer meia dúzias de coisas que não agradaram ao nosso simpático copioso, logo ele me replicou: “Você pode não ser rico, mas tem aspecto disso.” Gargalhada uníssona.


         - Almocei no Corte Inglês a abarrotar de gente feliz cheia de promessas de presentes natalícios. Uma conhecida “figura pública” que eu conheço de ginjeira, abancou a dois passos de mim. Chegou a falar só como a maluquinha de Arroios, sentou-se e ordenou à servente africana que lhe trouxesse de imediato a ementa porque estava cheia de pressa. Esta, com ar nobre, disse-lhe: “Tem de esperar pela sua vez.” A figurona não gostou e chamou por outra colega. Mais condescendente, a rapariga demorou-se a ouvir a lengalenga da convencida criatura, fazendo que sim com a cabeça, mas de olho na colega e ambas ajustaram na troca de olhares o tempo do serviço. Quando deixei o restaurante, ela ainda barafustava pelo prato.