Domingo, 22.
Belo dia de sol e um silêncio levíssimo a estender-se no campo agasalho das desgraças que o atingiram. Nada está solucionado, nada se abandonou à sua sorte. O Johnson esteve aí de manhã a ver e a dar pareceres sobre o muito que há a fazer para que este espaço volte a ter dignidade e beleza. Pela minha parte continuei a poda das hortênsias que terminei ao fim da tarde. Trabalho durantes anos feito pela pobre Piedade que está num estado horrível. A ver vamos se a arte do podador se iguala à dela.
- Cheguei à página 1000 do diário de Green. Muito haveria a dizer do que diz o escritor, sobretudo quando os campos entre o diarista, o seu “Robert, mon amour” e MM (Éric) se extremam. E por sobre a sua vida dividida entre o prazer, a escrita, o teatro e a presença de Deus a par do pecado como afastamento divino, Green, o espiritual sofre por não conseguir resistir ao sexo que ele considera (sob a moral da época) um pecado maior. Éric não quer trabalhar, vive sob a protecção do escritor que acaba por alimentar os amantes que o amante não cessa de acumular com as suas necessidades de sexo três vez ao dia. Robert sente ciúme e adverte o seu amor de uma vida, mas Julien diz-lhe que nada poderá dividi-los. A narrativa acaba por ser igualmente o diário deste trio que sendo tão desigual e, do lado do autor de Moira, tão profundamente perturbador quando no final de todos os seus dias está invariavelmente a pedir perdão a Deus para no dia seguinte tudo recomeçar.