Sábado, 7.
Foi-se o Leonardo, veio a Marta. Esta ideia de dar nomes aos mafarricos, seria engraçada não fossem as tragédias que esta humanização da desgraça nos causa. Fui há pouco dar uma volta por estas paragens campestres e verifiquei os muitos estragos que a intempérie fez. Há por aqui, talvez porque as pessoas não saem de casa, uma desolação, uma tristeza infinda, o vento forte a impor-se na paisagem que chora as dores de dias e noites deixadas à mercê da tempestade. O meu vizinho também tem árvores tombadas e um portão no chão. O dia hoje até se portou bem, sobretudo depois do almoço com o sol a chegar e a deter-se por toda a tarde. Só o vento com rajas fortes assusta. Contudo, nada a ver com o que nos cercou a mando do Kristin. A boa nova foi o retorno do Black que durante dois dias julgava ter perdido o meu querido amigo. Está mais magro, mas fartou-se de cantar miadas quando me encontrou.
- Faz pena, todavia, ver o abandono a que foram votadas populações inteiras, deixadas para trás, no meio de vilas e aldeias cercadas de água, sem comunicações, sem comer, sem energia, sem uma alma que lhes fosse dizer que não estão sós, volvida mais de uma semana da catástrofe. Marcelo foi correto, tanto pela presença como pelos avisos que mandou ao Governo. Os candidatos a Belém, mais ou menos disfarçados de compaixões, trataram da sua vidinha; como fez Luís Montenegro, com aquele seu ar de nariz empinado, rosto ensimesmado, sorrisinho por vezes sardónico que esconde a incapacidade de abarcar os problemas humanos fora do deve e do haver que lhe é exigido. Aliás, todos os membros do seu Governo, mostraram que não estão preparados para as tarefas que se exige deles. Só a propaganda, mais ou menos velada, aflorou.
- Ontem, quando cheguei a casa, num espaço que detesto ver: árvores caídas, poças de água, a rede que o cerca tombada, o portão abalroado, os montes de dejectos para queimar, encontro presa nas barras do portão um saco de plástico. Com dificuldade o desembaraço do ferro e quando o abro, encontro uma folha que prontamente leio – um casal belga que me dizia gostar imenso do charme desta casa e pergunta se estaria interessado em a vender. No topo da folha está uma fotografia de dois jovens com uma rapariga que eles no texto dizem ser sua filha de quatro anos e o sonho de poderem vir a viver em Palmela que dizem adorar.