Domingo, 8.
Dia passajado de luz. Manhã muito cedo enfiei-me no autocarro (ai, este transporte que tanto me encanta!) e fui votar a Lisboa. Passei antes na Brasileira para um café e logo depois meti-me num táxi para o Liceu Passos Manuel, saí directamente para o Corte Inglês onde almocei tranquilo no último andar. Depois sentei-me no pequeno bistrot do primeiro andar para ler os interessantes artigos de Fr. Bentes Domingues e Tereza de Sousa. À meia-tarde regressei a casa.
- Quando cheguei à minha zona de voto, às 11 horas, surpreendi-me por não ver ninguém, literalmente ninguém na rua ou nas imediações do velho convento. Assim que franqueei a entrada, tinha apenas no átrio dois dos funcionários que habitualmente encaminham os mais velhos ou os indecisos para as mesas de voto. Fui por ali adentro até à sala onde costumo exercer o meu direito democrático. Como naquela e nas outras assembleias não havia ninguém, entrei de rompante, depositei a minha escolha e zarpei. Pensei: “que raio de eleições são estas! O dia parece ter acordado brilhante de sol, num convite à responsabilidade de cada um, e pouca ou nenhuma pessoa se vê na rua”.
- Este pensamento desceu comigo o Chiado, miraculosamente devolvido aos lisboetas como antigamente antes da invasão selvagem do turismo que tanto jeito deu a António Costa mas que dele sua excelência pouco soube beneficiar. À minha frente, ia um casal de meia-idade, de mão dada, os dois homens feitos, com pinta de portugueses de província, semeando à sua passagem olhares risonhos, palavras cochichadas, pensamentos livres ou prisioneiros de voos que nem todos conseguem alcançar, mas já depositados na lengalenga da vida em comum, onde faltam diálogos e sobra em abundância a monotonia.
- Eu não tenho à mão uma mola para o nariz, porque se a tivesse, registaria a história fedorenta que me contou esta manhã o motorista brasileiro da Carris que me depositou na gare do Oriente. Viver como eu vivo desde que deixei a minha ex-vida de contactos amaneirados, bajulando medíocres em lugares corrompidos, lutando contra mim mesmo por mor de outros que tinha a meu cargo, existir desta forma invisível hoje, traz-me uma força criadora de indizível resumo. Ando de baldão com os demais, sou parte desta imensa massa humana que faz crescer os dias e diminuir as noites, que possui uma liberdade que lhes escapa, é senhor absoluto das horas, do rumo dos sentimentos, da verdade que não está à venda nem do lucro que não se expatria para os cofres-fortes nos alçapões do fim do mundo. Este que hoje sou, igual em tudo a todos os outros, carrega a maior liberdade – a que só existe para testemunhar o que o coração não pode guardar e a justiça não logra dispensar.