Segunda, 16.
A América é uma no cravo, outra na taralhoquice. Em mais uma reunião sobre Segurança e NATO, Marco Rubio, o ministro dos Negócios Estrangeiros americano, disse em Munique que “os Estados Unidos são filhos da Europa”, e “foram feitos para viverem juntos”. Foi o suficiente para que a plateia se levantasse em louvores às palavras daquele que serve apenas Trump (embora me pareça o mais equilibrado do manicómio da Casa Branca). Depois da sua presença de charme, logo zarpou para uma visita à Hungria e outra à Eslováquia, dois países amigalhaços de Putin. A nossa frágil e humilde União Europeia, o que pretende e ambiciona é viver na paz dos anjos, continuar a não fazer peva, distribuir bênçãos à direita e à esquerda, falar, falar, falar até que o sono e as cordas vocais os levem ao sono da História. Depois, sim, podem gozar em pleno as reformas milionárias e o prestígio que eles pensam imortais.
- Se assim não fosse, atente-se naquela reunião tão ao gosto do nosso ex-primeiro-ministro, num belo castelo da Flandres, Bélgica, para parlapatar sobre as reformas necessárias à revitalização da economia europeia. Eu, sem querer ser do contra, acabado o curto descanso dos nossos infatigáveis políticos num fantástico castelo do séc. XVI a que Costa chamou “um retiro informal para discutir reformas económicas, competitividade contra EUA/China e inteligência artificial”, não ouvi uma só palavra dos felizardos que, talvez por se tratar de um retiro que por essência interdita o falatório, saíram sorridentes e felizes daquele descanso entre amigos. António Costa sempre gostou do aparato e de fazer política que os subordinados aplicariam. Assim vai o mundo, arrastado por esta sorte de gente que nos coube na rifa do destino.
- Entretanto, por entre as reuniões inúteis e viciadas, corridas em pescadinha, o comandante da corrupção em Israel, prossegue a matança em série. Ontem foram mais de uma dúzia de palestinianos mortos. Ao todo, se este número estiver correpto do que duvido, pereceram sob as bombas dos fanáticos judeus, 72 mil palestinianos.
- Volodymyr Zelensky passou na reunião da NATO e aliança com os EUA de Munique. O enérgico político, primus inter pares, voltou a apelar aos pobres pequeno-burgueses dirigentes da União Europeia, que o ajudassem na sua luta contra o ditador de Moscovo. Este, exibindo a cara onde se estatelou o ódio e o cinismo, prossegue as ofensivas a centrais eléctricas, num Inverno particularmente duro para além dos ataques a várias zonas da Ucrânia incluindo Kiev.
- A propósito do sinistro pequeno homem, “czar de pacotilha” como lhe chamava Navalny, que submete o povo russo e o esmaga com as suas botas stalinianas, foi descoberto a semana passada algo que ninguém duvidava: Putin mandara assassinar na prisão, para lá do Círculo Polar Ártico, a 16 de Fevereiro de 2024, o seu opositor Alexey Anatolievich Navalny. Os cientistas europeus acusam o carrasco do Kremlin de ter matado o activista com veneno de rã, uma neurotoxina que dá pelo nome de epibatidina, mais forte que a morfina. Aliás o próprio Navalny previu a sua morte às mãos de tirano. Aconselho vivamente aos meus leitores a leitura das suas memórias (Ed. Porto Editora, colecção Ideias de Ler), onde o combatente pelos direitos humanos, diz que até ao momento em que assistiu ao nascimento do primeiro filho não acreditava em Deus; a partir daí, perante a beleza e o mistério daquele instante único, passou a ser crente. Assim se vê a sensibilidade do homem nascido sob um regime ditatorial feroz. E lembrar-me eu, que foi este regime que os comunistas portugueses defenderam.
- Voltei ao lavadouro tecnológico.
