segunda-feira, setembro 07, 2026

 Segunda, 7.

A verdade é que quase não se passa um dia que ela não me telefone ou vice-versa. Falo dos diálogos constantes com a Gi que surgiram depois de ela e o Nuno terem cá vindo lançar-me a mão no mês de todos os sofrimentos. Parece que nos descobrimos ou qualquer sentimento se nos impôs além da virtude familiar. Falamos de tudo, sem preconceitos nem falsas morais, ao abrigo do que julgávamos esquecido e ressuscitou dos escombros que me cobriram a vida inteira. Não fui educado no seio de nenhuma família, não conheço as normas nem os tratados que fazem prevalecer o sentimento que em nada precisa de cânones para impor a consanguinidade. Estamos numa luta que irá mudar a minha vida, mas que eu, eterno solitário, se extasia ante o descampado, o deserto, a vastidão de nada, o horizonte que me circunscreve, me rodeia e me reconforta a existência... (interrompido pela urgência de tomar o autocarro) 


domingo, setembro 06, 2026

 Domingo, 6.

Nada que venha de Israel nos surpreende. O país está, enfim, em campanha eleitoral para avaliar não só Netanyahu, como a clique ultra-ortodoxa que o segura no poder e da qual ele depende. O partido Poder Judaico de Ben Gvir, lançou o programa de remoção dos palestinianos que restam dos dois milhões antes do ataque israelita à Faixa de Gaza que liquidou 75 mil, para a Turquia, República Democrática do Congo e Etiópia. Estas pazadas de lixo para eles, são palestinianos corajosos e seres humanos dignos que sobrevivem sob o fogo constante do exército que nunca parou, não obstante as mentiras de Trump que determinou o cessar-fogo. A extrema-direita lá do sítio, diz precisar apenas de sete anos para limpar toda a Faixa de Gaza transformando-a na Riviera francesa como propagandeou o inquilino da Casa Branca. 

O homem de quem se fala. 

         - No Nepal, dez dias depois da tragédia, foi descoberto num dos muitos túneis subterrados, um sobrevivente. O número actual de mortos é de 1300, estão desaparecidas 5 mil pessoas. O feito tem indício de milagre. 

         - O especulador imobiliário que governa a América, vendo aproximar-se as eleições intercalares, aposta forte no fim da guerra entre a Rússia e Ucrânia. Daí, tendo mandado uma missão diplomática com 

o genro pelo meio a Moscovo, conseguiu do ditador Putin um cessar-fogo por três dias sobre Kiev - apenas sobre a capital onde se encontra hoje a delegação dos EUA. Nada disto me cheira a algo em que se possa confiar. 


sábado, setembro 05, 2026

 Sábado, 5.

Ontem andei na Baixa ocupado com vários assuntos que me lá levaram. Mais tarde, encontrei-me com o João B. para um café. Eu não lhe havia telefonado a contar-lhe o que me aconteceu e ele esmorecido: “Podia-me ter chamado para o ajudar.” A conversa entrou depois num ritmo e tom que me agradou sobremaneira tendo em conta o atropelo dos assuntos. À nossa volta ninguém entendia o que discutíamos; Lisboa transformada num país de várias línguas e costumes, abafando completamente os nossos modos da vida. Grossa maioria o que vemos é lixo, mas isso pouco importa aos que nos governam porque não frequentam os mesmos locais, fechados como estão numa campânula de cristal. À despedida ele atirou: “Cuide-se, viu.” 

         - Um leitor do Público de seu nome Alexandre Delgado, em carta endereçada ao jornal, escrevia: “Ana Paula Martins é a coveira do SNS. A sua missão é fechar serviços, infernizar a vida dos profissionais de saúde, escorraçar utentes e abrir a porta aos privados. Devia ser condecorada.” Como os meus leitores se recordarão, eu sempre apoiei a Ministra da Saúde, por considerar, no início, que ela teria um trabalho hercúleo e desfazer o que António Costa fez na saúde. Acontece que, se tivermos em conta que Ana Paula Martins vem já do primeiro mandato de Montenegro, em 2024, era para ter um ministério mais próximo dos portugueses e mais competência na sua direcção. Eu sei do que falo e por saber enviei-lhe o e-mail do desastre que foi a minha entrada no S. José de maca às duas da tarde e a saída pelos meus próprios pés, às 9,30 da noite de táxi para casa sem ter sido atendido (ver dia 25 de Abril). Protesto de que não obtive resposta. Talvez fosse por ter relembrado o grande Senhor da Saúde, obreiro do sistema, o socialista António Arnaut. 

         - Que dizer da proposta do presidente dos Estados Unidos para mudar o Estreito de Ormuz para Estreito Trump? A tarouquice do homem, raia a demência. 

         - Ontem estendi-me um pouco mais em andanças pedestres. Queria testar o pé maroto e a perna que nele assenta. Nada mau. Apesar de um ligeiro inchaço no peito do dito cujo, o dia saldou-se por uma vitória na sequência da vida. 


quinta-feira, setembro 03, 2026

 Quinta, 3.

A Câmara Municipal de Lisboa, decidiu relembrar os mortos da tragédia do elevador da Glória com um memorial. O seu presidente, especialista em propaganda, disse querer uma cerimónia recatada desde que as televisões não faltassem para registarem as lágrimas, uma a uma, a correr dos rostos dos infelizes. Ao acontecimento, perdão, evento nem faltou o camarada Rui Valério. A hipocrísia de tudo isto, está no facto de um ano depois, não conhecermos os responsáveis e as seguradoras não terem pagado as indeminizações a que estão obrigadas. Neste miserável país, só a demagogia e o populismo nunca falham e chegam sempre a horas.  

         - A maior tragédia humana não é vencer, é ultrapassar a inércia. 

         - A mim quer-me parecer que o senhor Luís Neves é o homem mais poderoso do país – tem-nos a todos na mão. 

         - Aqui, depois de uma certa acalmia, voltaram as temperaturas elevadas. Hoje 41 graus. Apesar disso, hoje de manhã, carreguei quatro carros de mão de lenha para o alpendre. 


quarta-feira, setembro 02, 2026

Quarta, 2 de Setembro. 

Ontem fui de experiência à capital, depois de mais de um mês sem atravessar os lugares da minha juventude. Fui, naturalmente, de autocarro e admirei como se fosse a primeira vez o Tejo, Lisboa no recorte do horizonte, a luz limpa de uma manhã sem mácula. Queria saber até onde aguentava o meu pé cuja doçura dos olhares de mulheres feitas e raparigas airosas tanto cobiçam. Almocei no C.I. agora de preços alçados, um bacalhau à Gomes de Sá apetitoso e fiquei por um tempo a deliciar-me com a paisagem, os poucos clientes, o sururu que me envolvia. Lisboa, vista do alto, parecia queda, sonhadora, indiferente a quem a olha com sobranceria e saudade. Fiz de seguida algumas compras, li o Público diante de uma chávena de café, visitei a livraria e comecei a sentir dores advindas de muito caminhar. Disse “por hoje chega”. Regressei pelo mesmo modo, satisfeito por haver tentado a rotina dos dias, dividido entre o lugar onde nasci e o de adopção. 

         - A tragédia no Nepal-Tibete não pára de nos surpreender. Muitas equipas (enfim o país aceitou ajuda estrangeira) desafiam o imprevisto para tentar encontrar sobreviventes. Mas o número de mortos monta já a mais de mil e os desaparecidos a 4 mil. São impressionantes as imagens que nos chegam, túneis esmagados pelo peso da montanha, lama e resíduos, desolação e dor. 

         - O Ministro da Administração Interna, aproveitou uma missão de serviço à Madeira para responder, diante da tropa fardada e em sentinela, a André Ventura e a todos quantos o acusam de falcatruas e mentiras. Cobardia. Não é numa cerimónia oficial, que se esgrimem razões e se impõe o poder. 

         - Quando o meu orçamento fraqueja, faço como o Corregedor e digo ao Sr. José Manuel para não vir porque estou cheio de reuniões. Na próxima, invoco os muitos emails oficiais para despachar, como faz o sobrinho de Urbano Tavares Rodrigues que nunca lhe conheci uma ocupação. Que presunção!  

 

segunda-feira, agosto 31, 2026

 Segunda, 31.

Afinal de contas o que me retém aqui? Não é só o silêncio sagrado, nem o ar limpo que se respira, nem tão-pouco o isolamento, mas também e ainda as descobertas humanas que desaguam de quando em vez à minha porta. A última das quais o conhecimento do ser humano extraordinário que é o senhor José Manuel. Faz tudo para me agradar, para me proteger. Como hoje, não eram sete da manhã, quando chegou com o filho ao volante de uma camioneta e descarregou esta relíquia do século XIX que a foto mostra e eu cuidava votada à sucata. Depois de grandes constipações, carradas de óleo, carícias e falas mansas, eis que sua excelência decide mostrar o ar de sua graça. E aí funcionou toda a manhã, dividindo os troncos pesados e grandes tornando-os maneirinhos de forma a serem levados para as chaminés da casa. Tenho lenha para dar e vender. 


         - No sábado, ele apareceu com uma máquina sopradora e reconstituiu os arredores da casa ao espelho do tempo quando a Piedade se ocupava da limpeza exterior e interior. De súbito, uma ternura imensa por este refrigério de verdura e silêncio tomou conta de mim, devolvendo-me as emoções que experimentei quando aqui cheguei pela primeira vez com o João. Toda a beleza natural se exprimiu nas recordações e nos momentos felizes de outros tempos, quando a descoberta da paz que aqui dormia se me introduziu para nunca mais me largar. Para aonde quer que vá terminar os meus dias, nunca daqui sairei ou comigo levarei a doçura dos tempos que nesta planície me pertenceram. 

         - O que é este diário se não o registo do seu autor e a narrativa de um tempo que lhe coube viver. O verdadeiro quotidiano é preenchido até à minudência das circunstâncias que aconteceram embrulhadas dos efeitos sem importância aparentemente nenhuma.

         - E de repente, recomeçaram os ataques dos EUA ao Irão e deste às bases americanas na Jordânia e Emiratos Árabes. Cada nova ofensiva de Trump, é a constatação de que o Irão está preparado para uma guerra duradoura e bastante mais inteligente no confronto com a arrogância e o poder do senhor que pensa ser o todo poderoso que subordina o mundo inteiro.  

         - Luís Montenegro tem uma noção curiosa da democracia. Segundo ele, todos os disparates são consentidos porque é “a democracia a funcionar”. Quando o vejo aparecer no ecrã, desligo ou salto para outro canal – já não suporto tanta desfaçatez e hipocrisia. E lembrai-me eu que acreditei nele nos primeiros tempos, antes do aparecimento de uma vida de esquemas!


domingo, agosto 30, 2026

 Domingo, 30.

Os nossos políticos, na sucessão de alternância do poder, injectaram-nos de demagogias, mentiras, incompetência, partidarites, blá-blá-blá de que são mestres. A verdade, porém, é que em 50 anos de democracia, as vergonhas sociais estão expostas à verdade nua e crua. Vou chamar a esta página o senhor João Dias Ferreira, investigador do Centro de Estudos Internacionais do Iscte que escreveu outro dia no Público: “Os números são reveladores. Em 2023 apenas 1,7% dos portugueses com 65 ou mais anos recebiam cuidados de longa duração, face a uma média de 11,5% nos países da OCDE. Mais chocante ainda: apenas 34% desses cuidados eram prestados no domicílio, quando a média europeia é de 72% e em Espanha chega a 83%. Não é uma diferença – é um abismo”, conclui. 

         - Dona Fátima Campos Ferreira outro dia em entrevista ao grande senhor que é o ex-Ministro da Educação e do Planeamento Valente de Oliveira: “Os portugueses são ciclo-químicos.” 

         - Faleceu Narana Coissoró. Conheci-o há muitos anos apresentado pela minha amiga Maria Alice. Almocei com ele e a mulher, no restaurante que ambos possuíam a dois passos da sua residência, perto de Caldas da Rainha. A sua casa era um oásis pela sua vasta biblioteca e conversar com ele um prazer que apetecia eternizar. Ofereci-lhe, numa das vezes que o visitei, um livro sobre Goa de onde julgo ser originário. Era um verdadeiro gentleman não só no aspecto, sobretudo na vasta cultura. 


sábado, agosto 29, 2026

 Sábado, 29.

É típico da idade fechar as portas que ficaram entreabertas, isolar-se no silêncio pesado dos dias, esperar por alguém que nunca chega. Era nisto que pensava ontem quando, mexendo no telemóvel, verifiquei que o Robert desde a morte da Annie nunca mais telefonou a saber de mim e, pelo contrário, lá estavam registados os inúmeros telefonemas que eu lhe fiz, entretanto. Com isto quero dizer duas coisas: as amizades ou são recíprocas ou são coisa nenhuma. Daí que não me surpreenda o que aconteceu entre ele e o irmão que vive nos arredores de Estrasburgo. Da última vez que estive na cidade há três anos, Robert pediu-me que falasse com o irmão e tentasse marcar um encontro. Assim fiz, porém sem sucesso: ele alegou que Robert há mais de dez anos não lhe falava e não via qualquer interesse em o fazer agora. Penso que é o que se passa hoje. Isolado na grande casa de S. Denis, Robert alimenta-se da solidão que nunca havia provado, recusando qualquer gesto simples que o reaproxima das pessoas. Dito isto, quem crê nunca está só. 

         - Antes que me esqueça, quero registar, ipso facto, o que disse um senhor que foi surpreendido pela jornalista da SIC a atestar o depósito do carro e indignado com o preço da gasolina, disparou: “Quando o Estado vive acima das nossas possibilidades”, está tudo dito. Assino de cruz. 

         - Esteve cá o senhor José Manuel, dito espalha-brasas – e o universo inteiro uniu-se num imenso afecto.  

         - O número de vítimas mortais no Nepal aumentou para mais de 600 e 2426 pessoas estão desaparecidas. É incrível a prontidão da China a remediar os prejuízos e a retomar o quotidiano. O Nepal, orgulhosamente, dispensou ajudas estrangeiras, embora com menos recursos que a vizinha China. 

         - O taralhouco que dirige os EUA, com o seu marcador, rubricou a mudança de o Lago Ontário no Canadá, para Lago América. Muitos são os países, para além do visado, por exemplo, a Alemanha, que rejeitam a alteração. A pesporrência do homem ofende a dignidade de todos e da cada um. Que tipo foleiro e ordinário! Como é possível que uma tal criatura dirija o maior país do mundo! 

         - Retomei a leitura de Génesis (volume VI de Bíblia na tradução de Frederico Lourenço) e O século dos imbecis de Valter Hugo Mãe. 


sexta-feira, agosto 28, 2026

 Sexta, 28.

Ainda não retomei o ritmo, mas vou-me afeiçoando à vida tal qual a vivia quando os dias se abriam esfuziantes de pequenos nadas, restos de recordações, olhares perdidos na imensidão do passado, circuitos de luz, sombras rastejantes, silêncios espessos, horizontes suspensos que me abraçavam e me comoviam e me sideravam e me isolavam na eternidade do silêncio ondulante. Ir como ontem fui ao centro comercial Alegro, em Setúbal, é experimentar despir a capa do solitário que os deuses protegem e a vida desempena dos pensamentos aziagos ou abancar no Retiro Azul para alinhar estas linhas, é chamar os dias largos de antes da tragédia e encaixá-los por força da vontade inquebrantável de quem ama profundamente a vida. 

         - Não há ainda um número de vítimas da avalanche de gelo e água no Nepal. Há, contudo, um registo provisório de 400 mortos e 1500 desaparecidos. Julga-se que a maioria de uns e outros, são turistas. Todas estas catástrofes sucedem-se um pouco por todo o lado, como se a terra berrasse: “parem de me agredir”. 

         - Como eu previra quando há um ano se deu o aparatoso desastre no elevador da Glória, ainda não se conhece o desfecho de um acidente que matou 16 pessoas. Os conluios importam mais que a verdade. Foram, todavia, constituídos arguidos o ex-director de manutenção da Carris e o sócio-gerente da empresa externa que assegurava a manutenção dos elevadores de Lisboa. Bom, não sendo nada, é para a justiça deste pobre país, qualquer coisa. 


quinta-feira, agosto 27, 2026

 Quinta, 27.

Que disse o Dr. Octávio Simões para além da surpresa de tudo o que lhe contei? Não encontrou resposta para o efeito da Água das Pedras que eu confirmei no dia seguinte com o desastre narrado. Acrescentou, contudo, que é verdade ser ela bastante salinizada e daí a recusa do organismo. Quanto ao mais o motivo que me levou ao seu consultório, disse aperceber-se do meu estado psicológico resultante de cinco semanas de reclusão, inacção e sofrimento, e entusiasmou-me a tomar um medicamento específico para o cérebro, afirmando: “quero-o a escrever e a ler em breve”. O resto estava equilibrado. Tensão a 13,2 - 6,7. 

         - O país das polémicas que somos, umas a seguir a outras, foi mais uma vez inserida a escassez de dadores de sangue. Acontece que (julgo já aqui ter trazido o tema) em tempos fiz parte de um núcleo que pensava o modo mais eficaz de atrair benévolos para a causa. Nesse tempo, ainda os portugueses eram aliciados pela humana e cívica razão do próximo em necessidade dessa fonte de vida. Hoje, quase se desvaneceu o auxílio desinteressado do outro, um enorme egoísmo parece ter tomado as novas gerações, cada um por si e Deus por todos. Ora, já nessa altura, eu havia levantado a hipótese de cada dador ser agraciado pelo Estado com alívio de impostos - se bem alvitrei naquela então, mais o reforço hoje. 

         - Por todo o lado, crescem os desastres atribuídos ao aquecimento geral do Planeta. Desta vez, o que assistimos pelas televisões, é o horror na sua expressão mais sinistra na divisão entre o Nepal e o Tibete. De súbito, uma forte enxurrada que provocou um deslizamento de terras, desceu das montanhas a uma velocidade medonha, arrasando tudo o que encontrava e o número de vítimas é incalculável, os prejuízos medonhos. Há centenas de turistas e nepaleses mortos ou desaparecidos. Parece haver pontos onde os sedimentos atingiram 1,5 metros de espessura; as terras abruptas com desníveis superiores a três mil metros.  Horror! Horror! 

         - O Couto, meu fiel leitor, esteve privado deste alinhamento de palavras quotidianas por complicação e troca do seu computador. Telefonou ontem à noite e estivemos à conversa por quase meia-hora. Querido amigo de longa data, grande afecto tenho por ele. Ele não imagina o conforto (quando do desmaio foi igual) que me trouxe, movido pela fraternidade dos anos e aquele íntimo olhar que pousa no sítio certo onde as dores se escondem ou disfarçam num breve abraço de ternura.  

         - Por cá o Outono empurrou para o lado o Verão. Ontem e anteontem choveu se Deus a dava. Uma bênção para estas terras e árvores que tanta sede tinham devido a eu não puder tratá-las. Os meus sobrinhos condoeram-se e por pouco não as embeberam; depois veio o calor sufocante e metia dó escutar a aflição de cada folha, tronco ou braço implorando uma gota de água.


quarta-feira, agosto 26, 2026

 Quarta, 26.

O jogo favorito dos nossos políticos é o ping-pong. Eu não conheço ou não me dou conta que um tal desporto seja praticado tão assiduamente noutro país europeu. No centro do campeonato, já se apresentou várias vezes a Segurança Social e as reformas. Voltou agora com o PSD quando já esteve com o PS e rodou sempre que necessário, ora para um, ora para outro, meter medo aos velhinhos, coitadinhos, já pobrezinhos por destino e condição. Todavia, nunca li nas diferentes alterações ao computo das pensões, nada que restabelecesse o escândalo dos que auferem várias reformas, por morte do seu cônjuge, por acumulação de cargos e acabam velhos ricaços enquanto a seu lado milhares e milhares de seres humanos vivem o resto dos seus dias cavando com as unhas dos pés e mãos a sepultura. A única constatação que se tira, é que debaixo da terra somos todos iguais – espécie de vingança do destino, igualar todos numa mesma língua de chão. 

         - Quando escrevo (não falo do romance, embora ele seja o centro dos meus pensamentos), é como se a vida voltasse em força a correr nas minhas veias. Vem do fundo de mim um ímpeto de graça, uma hossana que se repercute e me remete para o centro de mim, uma força adormecida que julgava abatida para sempre. As palavras reencontram-se na arena da página em branco e são em si a ululação a que todo o meu ser se irmana na conjugação dos verbos viver e ser. 

         - A ver vamos que reacções terá o mundo civilizado à última investida prepotente de Donald Trump na rixa com o Irão. O senhor todo poderoso, que encara o mundo como se fosse o seu campo de batalha, se apropria dele pela força como se estivesse no tempo das conquistas feudais, não tem a noção do ridículo na forma como expõe e usa um grande país com uma democracia archi estabilizada. 

         - Vou fazendo a vida prática. Ontem, fui ao tanque tecnológico lavar o cobertor de papa que durante anos serviu de tapete no meu quarto e de caminho efectuar pequenas compras em falta na cozinha. Conduzir já não me custa, embora o pé maroto esteja um pouco inchado. Vejamos que me diz esta tarde o Dr. Octávio Simões. 


segunda-feira, agosto 24, 2026

 Segunda, 24.

O período por que passei, foi e é para mim uma grande reflexão sobre a minha vida e a dos outros. As confidências que a minha fragilidade e o meu choro por vezes provocaram, fizeram com que os meus visitantes abrissem o coração. A família esteve muitas vezes no centro do futuro. Grandes surpresas tive ao ouvir falar de filhas e filhos que julgava serem o centro da felicidade destes amigos. Um ou outro, disse-me que preparava a velhice longe deles, não só porque eram pessoas com cargos em Belém, ministérios públicos de referência, Banco de Portugal e União Europeia e, portanto, em primeiro lugar estavam as suas careiras e ambições, que não se coadunam com a miséria que acompanha a vetustez, como não esperavam nada deles. Estavam tão sós como eu, com a desvantagem da desilusão e dos anos de vida em comum, pelos vistos pouco recomendáveis e que agora não servem para coisa nenhuma. Que grande fantasia é a vida da maioria das pessoas!

         - Não se pense que as organizações LGBTQ + (o extra não sei o que é) criaram esta imagem que com certeza aprovam; eu, em miúdo, via na televisão estas beijocas rechonchudas, boca a boca, dos dirigentes russos com os camaradas presidentes de países associados. Confesso que me fazia impressão por... inusitado.  




domingo, agosto 23, 2026

 Domingo, 23.

Enfim, ao cabo de cinco semanas a lavar-me como o Black me ensinou, pude retirar o penso e deixar correr a água sobre o meu corpo que a recebeu como uma bênção do céu. Ainda não me sinto a cem por cento, mas a pouco e pouco rejuvenesço das profundezas do sofrimento. 

         - A Carta das Nações Unidas, elaborada depois da Segunda Grande Guerra, tem no seu preambulo “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra”, contudo, poucos ou nenhuns são os países que nela estabelecem essa primazia. Basta olhar para o mundo, e contar com os dedos das duas mãos, a quantidade de países que estão em guerra. Muitas destas, possuem a mão do tresloucado Trump, impelido pelo seco e desumano Netanyahu com quem a UE mantém associação com Israel. Sem falar nos países africanos, acossados pela fome, bandos de criminosos de assalto ao poder, cartéis de droga que possuem hoje tanta força e armamento como muitas nações. No centro desta desordem, a Ucrânia com um conflito que passou o quarto ano. A instabilidade é geral e o factor económico conta tanto ou mais que os mísseis disparados a milhares de quilómetros – é disso exemplo a guerra que os EUA, através do seu presidente, impõem ao Irão. Perdeu-se a conta aos milhares de mortos que se foram às mãos de governantes assassinos nos últimos dez anos. Dito isto, não quero dizer que concorde com o regime iraniano, a “democracia” de Israel, o HAMAS e todas aquelas organizações terroristas que alimentam ódios e fome. 

         - Fr. Hélcio telefonou há dias de Madrid onde estava na companhia do marido espanhol. Assim que me ouviu a voz, prontamente se colocou para no regresso me levar para o apartamento de ambos paralelo à Avenida de Roma. Felizmente, não estando bem, já encontrei a liberdade mínima que me permite a independência. Quarta-feira vou ao Dr. Octávio Simões para ver o que ele pode fazer para reequilibrar a cabeça e o entusiasmo que um mês deixou a apodrecer no vale das dores. Já consegui engordar um quilo. 

         - Chove. O tempo arrefeceu e as árvores sorriem à leveza da chuva descendo sobre seus ramos frágeis. Vejo o espaço através da janela baixa onde escrevo – há um grito de alegria e alívio que é contagiante e me põe de novo no caminho da vida. 


sábado, agosto 22, 2026

Sábado, 22.

Os fogos não nos largam. Luís Montenegro, para defender o seu ministro atulhado de casos como ele esteve e conseguiu eliminá-los com o poder que neste momento tem, veio dizer que a área ardida este ano foi menor que a do ano passado, como se isso se devesse à competência do seu ministro Luís Neves. Este chegou ao poder no andor dos media, era vedeta diária nos primeiros meses e tido por honesto, incorrupto, competente, com as costas protegidas pelo anterior cargo na Polícia Judiciária. E vai-se a ver tem a vida atravancada de esquemas como o seu mestre primeiro-ministro. Os fogos por essa Europa fora, mataram 30 mil pessoas. Um horror! 

         - Está cá o espalha-brasas (no sentido em que começa aqui um trabalho, larga-o e vai deitar mãos a outro), sem que nenhum fique terminado. No entanto, este universo com o seu proprietário incluído, agiganta-se em ternura, bondade e paz com a sua presença. Fui, amparo ao Sr. José Manuel, pela primeira vez, colher figos às figueiras por aí dispersas. Todavia, fazer compota, está fora de questão este ano. 

         - A minha beata de estimação, largado o indispensável para que eu não morresse à fome, desapareceu. Por favor, caros leitores, afastem para longe tudo o que for gente de missas diárias, rosários, invocação do santo nome de Deus em vão; prefiram o vosso pior inimigo pela surpresa de reconhecerem nele um anjo. Onde estarei eu no próximo ano? 


sexta-feira, agosto 21, 2026

Sexta, 21.

Para descer a cortina do palco, agora que a vida retoma no ponto onde fora suspensa, devo confessar que o faço já com uma certa indecisão, posto que muitos ensinamentos colhi da natureza humana, da dita solidariedade e dos afectos que perpassam num ápice a fidedigna face do comediante. Sim, deitado e coberto de dores, levava os dias a tentar aligeirar a situação com espreitadelas aos diferentes canais televisivos. O que vi era simplesmente assustador, medíocre, pacóvio, pobrezinho. Apanhei, dia 12, o eclipse do Sol que foi uma perfeita exposição do que somos. Sobretudo do jornalismo que temos e dos jornalistas que as universidades debitam às centenas todos os anos para os escassos meios de comunicação. A linguagem era esta: “foi, senhores espectadores, simplesmente impactante o que aconteceu há três dias atrás” ou esta quando havia fogos, diante de uma senhora apavorada, perguntava a jornalista: “O que é que está a sentir?” O chorrilho de parvoeira e indecências, alinhava perfeitamente com as palavras do atrasado mental Trump, ao lançar mais esta boutade: o Estreito de Ormuz passaria a pertencer aos EUA. Contudo, quem me fez grande e encorajante companhia, foi os Campeonatos da Europa de desportos aquáticos e atletismo. Um prazer imenso assistir a tudo, não só pelo conúbio, como pela ausência daqueles programas da manhã, orientados por pessoas que decerto vão morrer diante dos nossos olhos, velhos e relhos, a produzir coisas horrendas, sorrisinhos idiotas, convencidos de terem o rei na barriga. Pelo caminho, aconteceu aquela tragédia dos milhares de africanos de diversos países e marroquinos em barda no assalto a Ceuta. A esse propósito, foi lamentável ver Luís Montenegro aproveitar-se da tristeza para recordar o seu programa sobre imigração. Pela boca dele e de muitas outras personagens sinistras, ouvi martelar a frase: “é o mercado e a democracia a funcionar”, onde no fim de contas nada funciona. E ainda esta, escutada no Parlamento: “Aqui não se fazem acórdãos.” O homem que quer o país a funcionar à Ronaldo, precisa de encontrar uma “famila” de analfabetos que o acompanhe.  Nunca lamentei tanto a ausência dos canais estrangeiros que o temporal siderou e eu ainda não encontrei quem subisse ao telhado para reparar a antena parabólica.  

 

quinta-feira, agosto 20, 2026

 Quinta, 20.

Aqui fiquei mais de um mês refém das dores, de alguma fome, sem poder conduzir, à mercê da caridade de vizinhos e amigos quase todos de férias. Quem surgiu do céu, foi Jacquis e a mulher que prontamente se dispuseram a ir ao supermercado comprar o necessário, assim como, ele, se prestou a levar o meu carro à inspecção, depois de eu dias antes do acidente ter ido ao ACP renovar a respectiva carta de condução. Habitando em França, tinham chegado para vender a casa paterna e um terreno, operações realizadas em dez dias, tal o interesse por tudo quanto está a venda nesta zona. Depois, pela forma mais expedita, começaram a brotar os telefonemas, as promessas, a deixas de “se precisares de alguma coisa, apita”, “olha, estou longe, de contrário iria aí ajudar no que precisasses”, “espero que recuperes rápido”, e, por fim, aquela do Corregedor antes de partir para férias, Caminha, para a tal “casa de campo com piscina”, contactou, condoído, conhecidos comuns para que não deixassem de me telefonar. Esta trágico-comédia, ficou em cena cinco semanas e a personagem principal ia decorando - conforme lhe permitia o pouco juízo que lhe restava - , os tons magoados que lhe chegavam aos ouvidos e ecoavam na solidão imensa que se tinha aberto em seu torno, enquanto na prática, apenas contou com os franceses, o Sr. Gaspar e, quase no fim, a Maria José regressada de Salamanca com três ovos, um pudim flan e uma caixa de figos tendo eu as figueiras a abarrotar... Teria a cortina do proscénio desci aí? 

         Quem iluminou este espaço, encheu a casa de alegria, movimento, simpatia, entrega e no pouco tempo que aí estiveram melhoraram visivelmente o paciente-impaciente, foram os meus sobrinhos: Gi e Nuno. Que surpresa encantadora! Eles não pararam, regaram as árvores, o moribundo jardim, levaram-me ao super, cozinharam deliciosos pratos que foram arquivados no congelador e ainda hoje me alimentam, levaram toneladas de roupa às máquinas malucas do Continente, refizeram-me a cama, varreram todo o rés-do-chão, encheram os serões de conversa ora solta, ora teclada no piano doce da ternura familiar que é sempre para mim estupefacção e surpresa. Quando eles me viram à chegada, ficaram impressionados com o aspecto do tio bizarro e solitário – magro, olheiras fundas, rosto fechado de sofrimento. Que fora feito daquele tio airoso, belo, sem idade, sempre divertido e afável, questionavam-se. Quando eles partiram depois de um almoço lá fora, caiu aqui um medonho silêncio, a casa fechou-se sobre si própria e o portão que sempre esteve aberto dia e noite, oscilou na espessura das horas que a solidão abraça e toma conta de tudo. 

         Todavia, senti amparo nos telefonemas diários da Alice (Caldas da Rainha), do Alexandre que vive lá para Oeiras, na atitude do meu querido vigilante Filipe que um dia, tendo eu ido ao curativo a Lisboa e deixado para trás o telemóvel, assustado, telefonou para a minha vizinha da frente, uma senhora africana com quem falei uma só vez, e tem negócio de casamentos e batizados que o Filipe contratou para celebrar o seu casamento com a mulher com quem vive há anos e têm dois filhos. Ela falou-me à noite e in petto queria cá vir trazer-me uma sopa acabada de fazer... 

         Eu que sempre vivi só e adorei esta dádiva dos céus, oscilei e repensei a vida a partir de um acidente que, em verdade, não seria diferente se vivesse num tabuleiro em Lisboa ou Paris. A humanidade, hoje, vive franzida de afectos, de solidariedade, de humanidade. A hipocrisia tomou conta de tudo e a estupidez serve-se em doses compactas nos ecrãs das televisões. A (des)cultura com que os programas embriagam as pessoas e exibem propagandistas ignorantes, é, com efeito, imoral e vazia de tudo. Ao tema voltarei, até porque não podendo ler ou escrever, estando a maior parte do tempo deitado, percorri todos os canais e descobri coisas que não imaginava possível num país civilizado.  


quarta-feira, agosto 19, 2026

 Quarta, 19.

... trágico porque ao chegar ao quarto, depois do esforço de subir as escadas de pedra em caracol, tremendo da cabeça aos pés, caí redondo no soalho. Levei para cima de quinze minutos para me atirar à cama, a transpirar, num desespero e esforço hércules para me erguer. Pensei passar a noite no chão, mas o candeeiro aceso não era boa companhia. Arrastei-me para entrar pelos pés da cama, mas fui duas vezes cuspido. À terceira fui capaz de chegar aos lençóis e arrastei o corpo para a cabeça do leito, exausto. Tomei então um comprimido para dormir e adormeci num tremor estúpido que não me largava. Bref. Acordei no dia seguinte completamente num traste: doía-me o corpo, qualquer gesto me anunciava a morte. Quando pus os pés no chão, olhei o pé e a perna marota e vi manchas negras por todo o lado: veios vermelhos que subiam até ao joelho, o tornozelo como uma batata, a anca negra, os cotovelos dos braços escuros. Mesmo assim não me rendi. Ir ao hospital estava fora de questão depois da última experiência no S. José. Acontece que daí a dois dias tinha consulta com a minha médica de família para lhe apresentar o exame às caróticas e, não obstante o extremo sofrimento, continuei a conduzir e na tarde aprazada estava na frente da boa doutora. Quando ela viu o meu membro inferior, estarreceu e num protesto quis saber por que não fui às urgências. Depois chamou uma enfermeira e esta prontamente começou a extrair com uma seringa o muito pus da perna e pé. Os que vinham de outros gabinetes, emitiam um ai de espanto – de facto eu estava numa miséria, as alpargatas de quarto ensopadas do líquido que parecia vir de todo o lado, dores insuportáveis. A Dra. Vera disse-me que o que via só um antibiótico podia curar, a enfermeira de acordo com ela acrescentou que eu tinha ali para um mês. O bom do Sr. Gaspar que me tem socorrido sempre, amparou-me da saída ao táxi. Chegados a Palmela, fomos à farmácia aviar o veneno e mais um outro para as dores e um terceiro para os possíveis desarranjos de estômago. Aqui estive cinco semanas, com duas idas ao centro de saúde, terças e sextas-feiras, dores insuportáveis, sempre deitado porque nem um ovo podia estrelar de pé. No frigorífico não havia mantimentos para mais de três dias. E esse foi o drama que me levou a ter dias em que quase não comia – emagreci cinco quilos. Mas foi também um tempo de aprendizagem, de conhecimento humano, de teste aos ditos amigos, de confronto com a realidade e recrudescimento dos valores que me têm orientado ao longo da vida. Eu já tinha poucas ilusões, estas eclipsaram-se, é tempo de encarar o futuro sob outros auspícios. Assim Deus me ajude. Quanto ao período imobilizado, aos “amigos” e amigos, falarei mais tarde. Seja como for, o dia é para mim hoje de regozijo – pela primeira vez peguei no carro e fui ao supermercado e passei uma boa meia-hora no café a meditar.  


terça-feira, agosto 18, 2026

 Terça, 18.

... Depois, quando uma tarde cheguei a casa após consulta oftalmológica no Pulido Valente e sentia o estômago num rebulício, não propriamente com dores, mas um mal-estar que antes de me deitar decidi acalmar com meio copo de Água das Pedras. A causa não fora o almoço no Corte Inglês, de resto muito simples (arroz com peito de frango), que me causara o incómodo. O que sei, logo que a água entrou no meu corpo, desatei a tremer como se estivesse nos invernos frios do Alasca. Subi a procurar uma camisola grossa, desci com ela vestida, e sentei-me no sofá do salão em tremuras bizarras. Daí a um tempo, voltei ao meu quarto, pus um cobertor sobre o lençol, tomei um comprimido para dormir e daí a bocado adormecia. Senti-me bem no dia seguinte, tinha descansado o suficiente, estava restabelecido. Mas da cabeça não me saía a garrafa da água que dizem fazer milagres nos problemas gástricos. Antes de me deitar, fui à cozinha testar o produto. Mal tinha engolido um pouco do seu conteúdo, desatei num tremor medonho, idêntico ao da noite anterior – a causa estava encontrada, o que se seguiu foi trágico... (suspendido para dizer que acabei de chegar de Lisboa aonde fora para o curativo, ao todo já dez viagens).  


segunda-feira, agosto 17, 2026

 Segunda, 17 de Agosto.

Há um mês que aqui não venho molhar o entusiasmo e celebrar a vida. Muitos são decerto os leitores que se interrogaram que será feito do genial diarista ou do viperino autor de descrenças? Ele aqui está inteiro e necessitado de, pelo interior de si próprio, explanar as circunstâncias de uma tal ausência, visivelmente reconfortante quando, não obstante, o número de leitores não cessou de subir. Começo por dizer que neste tempo atravessei o deserto da dor, da solidão e da fragilidade humana. Venci? Não sei, quando estamos presos à vida por cordões sensíveis que nos permitem atravessar o espaço minúsculo, por onde ela corre sem nos oferecer certezas nenhumas, nem segurança total, nada de substancial se retém em nós. Talvez apenas a fé, enquanto mensageira do incógnito, mistério de uma presença serena que persiste em se impor no segredo de tudo o que não se conhece e solidifica em nós um destino, que só conheceremos quando esquecermos a vida que vivemos e gozámos na plenitude da esperança... (interrompido, vamos com calma). 


quinta-feira, julho 16, 2026

Quinta, 16.

Decidi não deixar estes claustros hoje. Quando acordei a abri as janelas de cima, pus-me a admirar a quinta que adquiriu outra beleza com o trabalho do Luís Correia. Parece maior, e as poucas árvores que restam de várias dezenas, compõem com encanto o espaço trazendo-me à memória loucuras do passado quando aqui cheguei cheio de energia, criatividade e treslouquices de braço dado com o João seu anterior proprietário. Só a luz e o silêncio parecem os mesmos, uma e outro irmanados num estrondo de magia que se repercute no ar e afaga num ápice todos os temores e rumores da minha futura existência fora desta liberdade, deste recanto isolado, pouso de pássaros vadios, de cobras, de rãs, de todos os répteis que entram e saem sem pedir autorização. Tomado o pequeno almoço, fui vadiar por este hectare de terra a apalpar, a escutar a palpitação das figueiras, romãzeiras, pereiras, macieiras, marmeleiros colher o resto de pêssegos que a passarada não quis e uma tigela de amoras, enfim, parando demoradamente para reter este espaço sagrado, o convento recuado no tempo, o deslumbre de verde que compõe a pauta musical de uma canção que os pássaros e o cuco de vez em quando ecoam com suas vozes melodiosas, por onde esbanjam a juventude que a mim me vai faltando não obstante os exames que me dão na pré-adolescência... 

         - Ao que leio são já 12 mil as mortes em toda a Europa devido ao calor que não nos larga. Para cúmulo, em Fontainebleau, nos arredores de Paris, a célebre floresta que eu tantas vezes percorri e onde se passa tanta coisa pela noite dentro, está a arder. A França não estava habituada à canícula e agora vai ter que pensar nela, substituir os telhados de ardosa, instalar aparelhos de ar condicionado e por aí fora. 

         - Sinto especial encanto pelos fins de tarde sentado no pátio, um ligeiro vento fresco a cirandar em torno de mim, debruçado sobre os meus autores. Tento sempre reservar uma hora para me dedicar ao supremo prazer das leituras. Nesta altura o fim da Encíclica de Leão XIV e o Géneses, sem negligenciar a passagem pelos jornais, sobretudo o Público. O Black que é a paz em pessoa, adora esses momentos e aproveita-os para se deitar ao meu lado, bem colado a mim.  

         - Enquanto a gritaria campeia na Assembleia, eu registo o país real nestes dados: 615 inquéritos abertos por ofensas à integridade física em 2024 nas forças policiais; “quem me dá uma chapada na cara (diz um agente da autoridade), em função do meu serviço, vai ter que se embrulhar comigo até lhe meter as algemas. Se é homem para me bater, vai ser homem para levar”; “não posso bater (diz outro polícia), mas depois eu é que levo no focinho? Jesus Cristo veio à terra, deu uma face, deu a outra. Eu sou abençoado, mas não sou Jesus Cristo”; outro agente afirma “natural ou, às vezes normal, um agente da autoridade vir a “apertar”: berros e torturas. Algumas agressões vieram a acontecer, até alguns actos de tortura”. Quanto às célebres e sinistras acções da PSP no Largo do Rato e Bairro Alto, entre 2023 e 2025, alguns polícias foram acusados de falsificação de autos de notícia, suspeitos de tortura, abuso de poder, abuso sexual, ofensas à integridade física e roubo em mais de uma dezena abusos aos detidos naquelas esquadras.