quinta-feira, janeiro 24, 2019

Quinta, 24.
O IV volume de Bíblia da Quetzal, que integra os Livros Sapienciais, termina com Eclesiástico. Eu apenas conhecia na tradução latina o Livro de Job e Eclesiastes na versão de Damião de Góis. Vou ter que arranjar tempo para cotejar todos estes textos, de forma a criar um juízo que me habilite ao conhecimento profundo do AT. Porque quer Eclesiástico, quer Sabedoria são em muitos versículos absolutamente aterradores do ponto de vista do anúncio de Jesus Cristo, dando-me mais certezas e força na Palavra de YHWH. De facto, à medida que domino e aprofundo o meu conhecimento do AT, vou-me fixando, como leitura indispensável à minha vida, no estudo do Novo Testamento. Com efeito, a personalidade de Jesus Cristo é impressionante e única. Para não falar na sua mensagem que revolucionou a terra inteira. Desde o séc. I, passando pelos tumultos e cisões na Igreja, melhor dizendo nas Igrejas, considerando o ano de 43, em Antioquia quando os discípulos de Cristo foram, pela primeira vez, apelidados de “cristãos” até aos nossos dias. 2000 anos depois a Mensagem do Senhor não cessa de nos interpelar. Isto apesar dos seus opositores, das directivas da UE em querer esquecer a tradição cultural do povo europeu anulando as nossas raízes. Dir-se-ia que a Bíblia é o livro de que não devíamos retirar os olhos, transformado no estudo da condição humana e divina. Uma e outra são inseparáveis.

         - Se o governo venezuelano capitular, são os Estados Unidos que se instalam. Há anos que os americanos não deixam de cobiçar as suas riquezas e, como se sabe, onde eles entram, trazem a guerra, a desunião, o desastre e por fim a fuga deixando para trás a terra queimada, a fome, o desespero. A nossa querida UE, como sempre, está de joelhos do lado americano.


         - Quando deixo esta serenidade propícia à escrita e ao estudo, é nela que penso para arranjar rotinas de trabalho. É-me caro este mundo que fui criando ao longo dos anos. Não preciso de luxos, basta-me o conforto das horas de silêncio.



quarta-feira, janeiro 23, 2019

Quarta, 23.
Os nossos coletes negros, há três dias que incomodam os governantes e assanham a Polícia, ao mesmo tempo que dão alegria aos noticiários e, sobretudo, às carradas de comentadores que palram sobre moral e bons costumes. O coro das prédicas padrecas é idêntico em todos os canais de televisão, só as carantonhas, medonhas, mudam. O homem dos afectos, apressa-se a dizer que não devemos generalizar os tumultos que aconteceram mas, como sempre, diz estar atento. Que fizeram aqueles que são os únicos juntamente com os reformados que têm o direito de revoltar-se? Desceram à rua e disseram estar fartos de serem marginalizados, de viver em guetos, de não terem saúde e pão para comer, de serem maltratados pela Polícia, ignorados dos políticos, humilhados, serem negros e por isso sofrerem de atitudes racistas e xenófobas que os nossos dirigentes dizem não existir em Portugal. É certo que pelo caminho incendiaram carros privados, caixotes do lixo e assim. Não deviam. Contudo, se pusermos na balança do que deve e do que é, compreendemos que o que eles sofrem no dia-a-dia é incomensuravelmente mais danoso do que aquilo que partiu com o fogo. Eu estou do seu lado e digo que eles deviam primeiro que os professores, os enfermeiros, os juízes, e toda essa elite de funcionalismo que as centrais sindicais apoiam, ser escutados e integrados na sociedade na sociedade democrática e republicana.

         - Eu há anos fui convidado para uma festa naquele bairro africano junto a Loures, as casas inacabadas, os degraus em cimento tosco, as divisões formadas por cobertores e cortinas que separavam as vidas daqueles (muitos) que lá viviam em condições arrepiantes para mim, mas boas para eles recém chegados de Angola e doutros destinos coloniais. Andei por lá perdido, em busca do prédio descarnado onde a festa de anos tinha lugar. Subi e desci escadas, confrontei-me com dezenas de negros que me pareceram mais escuros por não haver electricidade em lado nenhum e, francamente, nunca senti medo. Pelo contrário, o que vi e senti foi afecto, simpatia, por vezes extravagante, calor humano nas suas formas mais diversas. Enquanto o vinho corria e as febras se assavam dentro dos cubículos onde gente dormia, os rádios a pilhas em altos berros, gente que não parava de chegar e outra que não permanecia, negros e negras confraternizavam de olhos nos olhos, os corações abertos ao encontro da luz que irradiava daqueles olhos grandes sobre um fundo branco que sorria. De regresso a casa, para mim branco instalado noutra forma de vida, não deixei de me envergonhar por ver aquelas almas abandonadas à sua sorte, sofrendo os frios dos invernos e os calores tórridos dos verões, sem luz eléctrica, portas e janelas, deitados sobre enxergas como se aqueles prédios desventrados fossem os confortáveis andares onde a alguns quilómetros os autarcas e outros governantes dormiam o sono profundo dos justos... Com uma certeza saí eu daquele aglomerado de pobreza: ali havia mais felicidade, mais camaradagem, mais união que em todas as casas e apartamentos da cidade cínica que dorme sobre a esteira do sofrimento dos africanos que escolheram o nosso país para viver e morrer. Se há raça digna e nobre à face da terra, é a africana.

         - Eu espero que o senhor dos anéis, perdão, o senhor dos afectos, retire as duas condecorações ao “maior jogador do mundo” que aldrabou a justiça espanhola e envergonhou Portugal com vários crimes de fraude fiscal, ganância e arrogância, quando confrontado com os delitos. O sujeito vai ter que pagar para não passar dois anos na prisão, 5,5 milhões de euros ao fisco. Eu sou contra, porque um tipo, qualquer que ele seja, que defrauda o erário público num tal valor, devia pagar, sim, mas em simultâneo cumprir a pena a que fora condenado. Deste modo, os ricos safam-se sempre; os pobres pagam por eles. Se isto é justiça eu vou ali e já venho. 


         - Em Cracóvia, ao fim da tarde, nos dias intensos de trabalho, para aliviar a cabeça, instalado na rotina dos dias felizes, saía do hotel e ia debaixo de neve até à Praça Rynek Glówny. Ia com mil cuidados, utilizado o carreiro que a foule rasgava no chão até à muralha onde a virgem padroeira da cidade tem um pequeno retábulo iluminado dia e noite. Passada a porta ogival, entrava por assim dizer no mundo da Idade Média, inteiramente preservado não obstante invasões e incêndios, guerras e assaltos bárbaros. Seguia depois pela grande rua ao fundo da qual se ergue a catedral e a maior praça da Europa, ainda iluminada com as decorações de Natal, para ir tomar um chá com aqueles doces que me deixavam tonto de gourmandise, ao Kawiarnia Noworolski. O café abarrotava sempre de gente, estudantes acalorados, gentes das mais variadas origens. Eu sentia-me ali bem, no meio daquele mundo barulhento, ausente e presente, respirando a atmosfera invulgar que me dava a sensação de estar em Jerusalém devido à música e à calorosa fraternidade. Na rua nevava e os flocos de neve caindo mais fortes, retardavam a minha partida – as horas e o tempo que as habita, eram notas de um mundo parado no lugar supremo do encantamento...  
Mãe com o Menino, padroeira de Cracóvia, obra de PIASEK 

terça-feira, janeiro 22, 2019

Terça, 22.
Almocei com o João no Adega da Mó. Antes na Brasileira um pouco de discussão política porque o homem respira essa arte nobre hoje transformada em arruaça canalha. A seguir ao repasto ao seu jeito, quero dizer, calmo, sem barulho, cozinha à moda antiga, simples e boa, um pouco ainda de história do lado das facções partidárias, de onde a “sopeira” emergiu muito maltratada grosso modo dando-lhe eu razão porque também não suporto semelhante criatura, fomos dar um passeio pelo Rossio. Um sol luminoso vinha lá do alto, descendo do Carmo pela encosta de casario branco encharcando a Praça de D. Pedro IV de uma luz vibrante. Quem nos observasse, diria tratar-se de dois cavalheiros de antanho, no passo tranquilo, travado de quando em vez de conversa mais atenta, na atenção aos passantes, às lojas, ao destino arquitectónico daquele maravilhoso espaço. Porque o hábito de passear pela cidade perdeu-se há muito tempo, a pressa tomando o transeunte de uma espécie de loucura que destrambelha os nervos e força à violência quotidiana. Felizmente que ontem, havia pouca gente: cafés, restaurantes, o comboio que me levou e trouxe, a Brasileira, o Corte Inglês onde mais tarde fui tomar um chá com a Alzira e comprar o jantar, por todo o lado os sítios ofereciam a imagem de um dia feriado.    

         - Em certo sentido ainda não deixei Cracóvia. No atropelo dos dias maravilhosos que lá passei, ficou uma nostalgia que não sobrevive à memória e instala em mim uma corrente de lugares e momentos repletos de felicidade. Foram tantos os sítios que admirei, as maravilhas que os meus olhos contemplaram, os caminhos que percorri, que dou-me conta ao reler as páginas deste diário que muito ficou na sombra como que protegido da descuidada e rápida espreitadela que regista o todo e não se detém no pormenor. Ora, sabendo nós que é no detalhe que está a raiz da essência de tudo, olho através da vegetação o dia em que visitei a mina de Wieliczka, um lugar mágico, surpreendente, por onde passaram Goethe e João Paul II que nasceu perto.

         - Esse dia acordou muito frio, imitando os anteriores, a neve cobria estradas, caminhos e vastas cercanias por onde o autocarro 304 serpenteou durante 45 minutos. Não seriam nove horas da manhã quando cheguei às instalações das antigas minas de sal que remontam há catorze milhões de anos quando a zona era mar, conhecidas e cobiçadas pelos tártaros que, diga-se de passagem, semearam o terror e incendiaram Cracóvia em 1241. Reinava então Casimir com o cognome de o Renovador. Como acima expliquei, estando num estado desgraçado de dores no pé que não tendo nascido coxinho, coitadinho, se tornou, comecei por solicitar uma cadeira de rodas, mais a mais porque sabia que se queria visitar integralmente o empreendimento - e desejava de facto -, não estava em condições de descer os 327 metros de profundidade da mina pelas escadas com 390 degraus. A princípio aceitei aquele meio de transporte, mas breve compreendi que me sentia mal e disse que iria descer como todos os visitantes de língua inglesa onde me incorporaram a mim e ao casal de putos portugueses. Sensível, uma dama à moda antiga, veio falar comigo, propondo-me fazer a visita com uma guia. Logo o grupo avançou por uma porta e eu fui conduzido a um átrio belíssimo onde aguardei uns minutos pela chegada de uma senhora de meia idade, professora na cidade e paga pelo Governo para aquele trabalho três vezes por semana. As galerias até a derradeira, se bem me lembro, são nove, e eu ia ouvindo as explicações da simpática guia, sentindo-me quase o presidente dos afectos, mas sem aqueles tiques que enchem de misericórdia o nosso Presidente. O deslumbre obrigava-me a parar para admirar, tocar, pedir explicações, numa peregrinação que durou duas horas e meia e me deixou exausto de dores. A cada andar, era pedido o minúsculo elevador que serviu aos mineiros que exploraram durante séculos a mina. Um código era pedido à minha paciente cicerone, o mínimo passo absolutamente controlado. Dentro extasiei-me não só pela obra humana, como também pela natureza que dentro dos 30 quilómetros de galerias, operou uma fantástica trama de rocha, sal, água, onde se respiram os componentes químicos e orgânicos que curam a tuberculose e as doenças respiratórias. À saída do ascensor, tínhamos que percorrer extensos corredores, num labirinto de beleza e admiração pelo conjunto. Embalados pela maravilha, não nos apercebemos sequer que fomos descendo e estamos sem darmos por isso no último piso onde foi construída uma catedral. Uma catedral soterrânea, perguntarão os meus leitores! Sim. Um vasto espaço com 12 metros de altura e 54 de largura, levantado entre 1895 e 1927. O mais surpreendente, é que esta catedral é erigida à rainha kinga (1224-1292) que ocupa o retábulo central enquanto em volta foram esculpidas na pedra cenas e personagens de Cristo, por exemplo a Última Ceia, ao lado de outras que marcaram o destino dos polacos. No centro, voltado para Kinga, uma enorme imagem de João Paulo II, feita por vários escultores. O principal desta obra foi realizada nos séc. XVII e XIX, todo o interior assemelha-se a um vasto navio construído em madeira. É Património Mundial da UNESCO desde 1978. Ninguém que a estas paragens aporte, deve deixar de conhecer uma obra ab-so-lu-ta-mente indispensável. Dentro desta cidade geológica, encontramos uma vasta sala de cinema, um grande restaurante para festas, realizações públicas e privadas, um restaurante, vários cafés, lagos de água azulada, livraria.

(Nem todas as fotos são boas em parte devido ao fotógrafo e às condições de luz reinante na mina)

Os primeiros mineiros 

Goethe o incansável curioso 

Os grandes corredores subterrâneos 

A espessa mancha de sal que perdura

O lago onde com os odores que curam

A catedral dedicada a Kinga 

João Paul II um santo meio de profanos 



domingo, janeiro 20, 2019

Domingo, 20.
Cheguei num estado miserável. O hematoma do pé que as senhoras fora do casamento adoram curvar-se em prostrações e orações, tinha progredido para todo o calcanhar de Aquiles e fizera-se uma enorme bolha esponjosa de sangue que me provocava dores intensas. Ainda pensei ir ao hospital, mas se bem pensei logo desisti. Primeiro, o tempo de espera seria muito, depois durante esse calvário ainda sairia com um qualquer vírus. Acresce que fui recebido por uma chuvada o que contribuiu para ser eu a tomar conta do meu destino. Foi o que fiz. Carreguei o pequeno trólei do aeroporto para o metro e deste para o autocarro que me largou em Pinhal Novo onde havia deixado o carro. Em casa meti mãos à obra e piquei a bola de ténis com uma agulha, espremi o sangue e desinfectei com tintura iodo. Esse simples e um pouco doloroso acto, foi o que me levou directo a nove horas de sono sem interrupção. Caminho ainda com dores, mas nada que se compare com o tormento, por exemplo, das duas horas e meia de visita à mina de Wieliczka ou das visitas posteriores a outros locais e os passeios inevitáveis entre o hotel e o centro krakowska para comer.

         - Chegado foi como se tivesse saído uma hora antes. As mesmas histórias, aquele rom-rom desportivo onde treinadores e jogadores são mais importantes que a vida dos cidadãos, a política, os tormentos do mundo, a fome e miséria moral e física dos habitantes deste recanto cujo oxigénio é uma mistura de futebol e corrupção dura.

         - De contrário – embora saibamos que o mundo anda às avessas – tomemos o caso daquele rapaz que vive em Budapeste e a nossa Justiça tão célere a querer condená-lo somente porque ele, servindo-se da sua imensa inteligência, a pôs ao servido do bem comum denunciando e-mails onde se lê a história secreta do mundo do futebol neste nosso querido e tão maltratado país, em vez de se despachar a condenar os muitos políticos e gestores públicos e privados, banqueiros e autarcas, que abarrotam de crimes de toda a ordem os tribunais. A Justiça e o Governo, se fossem verdadeiramente cristalinos e interessados em mudar o rumo da ronceirice governamental, a amálgama entre o Estado e interesses privados, aconselhariam o presidente dos afectos, a fazê-lo comendador – há mais mérito no seu “crime” que na ganância do comendador Cristiano Ronaldo que vai ter que pagar milhões para não ir parar com os costados à cadeia ou na fala de sargeta do comerciante de pneus que o nosso génio revelou.

         - Esta passagem, pág. 120, do livro de Jean Chalon, Journal d´un ours: Le monde ne tourne plus autour du soleil, il tourne autour d´un ballon. Le football est devenu la nouvelle religion avec ses idoles que l´on adore, et ses stades que l´on remplit pendant que les églises se vident...

         - Somando o regresso desde a porta do hotel Warszawski a Lisboa, foram oito horas perdidas em viagem. Oito horas! Os nossos navegantes, nos séculos XV e XVI, metiam 24, 26 meses nos percursos à Índia. Não tarda, apesar dos avanços técnicos, uma viagem de avião levará tanto como os nossos corajosos antepassados. Isto para dizer que não há pachorra para viajar de avião. Por tudo e particularmente pelo turismo de massas e os voos easy que de easy não têm nada. Os passageiros viajam como carga, literalmente. Os sites destas companhias são estudados para sacar aqui e acolá, com o mínimo de pessoal, dando oportunidade (é o termo) ao passageiro de se perder nos aeroportos onde não encontra um funcionário, um escritório, um guichet de informações. Contudo, pensando melhor, passageiros e companhia entendem-se, vão bem ensemble, não têm exigências, são explorados e calam-se, pagam e não refilam, vão para onde os mandam e não discutem, impõem-lhes regras idiotas e eles aceitam... Isto por uma e única razão: o voo é barato. Lembro-me na ida de ter refilado com o funcionário que me fez pagar mais 20 euros pela mala. Ele argumentou que no site da Rayanair está o que ele me impunha. Respondi: “está, mas está também o seu contrário”. Ele riu-se, eu entendi o sorriso e respondi: “Não sei como há gente que viaje nestas condições! – Não sabe?! É mais barata – acrescentou com um sorriso azedo.”

         - Eu comecei a viajar para fora de Portugal muito cedo. Num tempo em que não se via um patrício em lado nenhum e quando se avistava cumprimentávamo-nos como avis raras. Ainda sou do tempo (como dizem os velhos a propósito de tudo e nada) que visitar um país distante era uma aventura encantadora, quase uma cerimónia pelo prazer de tomar o avião, os aeroportos vazios, as atenções como então se chamavam das hospedeiras, o serviço a bordo com menu requintado onde entrava champanhe, vinhos à descrição, tudo sem pagar um chavo a mais, os passageiros civilizados, distintos, de fato e gravata, um murmúrio circunstancial a percorrer o interior da aeronave, cuidadosamente vigiado pelos desejos de cada passageiro prontamente satisfeitos.
        
         Ontem vim numa grande algazarra, desmazelo, gritos, balbúrdia, maus odores, vulgaridade, empurrões, novo-riquismo pobre, um atropelo das regras civilizacionais, o serviço tu-cá-tu-lá com o passageiro, aquele pobre contentinho que foi ali e logo voltou por uns tristes euros para contar ao vizinho o que viu, igual ao que vê todos os dias, a universalidade democrática transformada numa fraude de importância e igualdade e oportunidade para todos. Para não falar no desarranjo e custos que este turismo barato causa em aumento de empregados, estruturas, movimento nos aeroportos, horas de espera, cansaço, tempo de horrores e compaixões expostas.

         No início, lembro-me, com a Easyjet cheguei a viajar duas ou três vezes e gostei da novidade. Era um tempo antes dos “preços imbatíveis” da Raynair e encontrava uma certa aristocracia falida e de grande dignidade e interesse humanos. Cheguei mesmo a dizer que era naquele tipo de proposta de viagem que eu embarcaria. Mas, pouco tempo depois, as coisas começaram a mudar e era a companhia de aviação que nos impunha as suas condições e nós não tínhamos o direito de reclamar e nem havia onde o fazer. Por outro lado, as principais empresas de aviação europeias, para não perderem o fluxo súbito de viajantes a granel, desceram os preços e eu há anos que me ajustei a esse marketing e passei a viajar em “classe económica”, mas bem melhor que as companhias easy de baixo custo. Pago um pouco mais, mas viajo doutro modo. O Jean- Paul que teve um alto cargo na Air France, aconselhava-me a não viajar nestas companhias. “São um perigo”, dizia.


         - A receita para travar a psicose dos gilets jaunes de descer às ruas ao fim-de-semana, foi passada por um falso médico e não resultou. Por isso, ontem, entre 70 e 80 mil mais uma vez estiveram na rua. Exigem a demissão de Chou Chou o pobre coitado que se convenceu que se governa uma nação como a França (como Portugal onde tudo é manso, talvez) com o físico e juventude (no seu caso entre comas).