quarta-feira, fevereiro 06, 2019

Quarta, 6.
No último dia de visita ao Golfo Pérsico, o Papa celebrou missa para 150 mil fiéis, vindos dos países limítrofes como de mais longe. Foi uma bela jornada ecuménica centrada no fundamental, longe do espectáculo que outras visitas papais, Europa e países da América Latina, transformaram em rock, sardinha assada e corridas atrás da vedeta religiosa.

         - Quando eu penso no que se tornou a família nas mãos das televisões, pasmo. Desde o princípio do ano já foram assassinadas nove mulheres e não sei quantos filhos de casais desnorteados. Em vez de as usarem como um qualquer produto ou incentivo ao consumo, deviam deixar-se de hipocrisias e orientá-las no sentido sagrado da vida. Num país equilibrado, onde os cidadãos recebem cultura e humanismo, não acontecem mais de 500 violências domésticas num ano fora as que não são reportadas à Polícia.

         - 10 mortos e 30 feridos num violento incêndio no 16 bairro, em Paris. A Polícia atribuiu a desgraça a uma mulher desequilibrada que estava a ser tratada com antidepressivos.

         - A CGT francesa desceu às ruas ao lado dos gilets jaunes, contradizendo-se ou aproveitando-se esquecendo o tempo em que os desencorajou com palavras desprezíveis.


         - Elementos dos GOE não foram autorizados a entrar na Venezuela. O Governo e o coro habitual dos jornalistas “independentes”, indignaram-se. Mas Maduro tem razão. No estado em que está o país, com o apoio dado por Portugal ao autoproclamado presidente e as ameaças de guerra, aparecerem estes ingénuos agentes no país armados com o pretexto que era para defender a nossa embaixada e os seus compatriotas, não cabe na cabeça de ninguém.  É mais fácil ao Governo ir na onda, que ter que pensar e agir pela sua cabeça, de forma a defender aqueles que foram obrigados a imigrar. A Europa do euro está de joelhos diante da América e nós de rastos diante de Bruxelas. Depois  admiram-se que ninguém nos respeite.

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

Segunda, 4.
Ontem revi Auschwitz através de um documentário que acompanhou uma sobrevivente do Holocausto. A senhora fez-se acompanhar pelos quatro netos, dois pares de gémeos com diferença de dez anos.  Comovente visita que me deixou num estado depressivo. A senhora ia explicando aos rapazes cada etapa daquele calvário, lembrava-se do local onde havia sido separada dos pais, fotografias identificavam-na e, sobretudo, repetia a palavra gémeos para que eles percebessem o seu terrível sentido. Ela soube mais tarde das experiências médicas e outras sob a orientação do Dr. Eduard Wirths realizadas em gémeos. Eles eram os preferidos para ensaios horríveis de apuramento da raça e orientações militares, alterações de personalidade e substâncias químicas. Os dois miúdos muito bonitos, os longos cabelos loiros a cobrir-lhes o olhar compenetrado, ouviam a avó pedir-lhes que não esquecessem nunca aquela visita que os trouxe da América ali onde tudo transpira dor, sofrimento atroz, desumanidade e retrocesso às origens hediondas da humanidade. Embora me tivesse sido doloroso conhecer aqueles pavilhões impregnados de todas as aflições do mundo, não deixo de pensar que ninguém devia renunciar de por lá passar pelo menos uma vez na vida.

         - Francisco I está em visita pastoral aos Emiratos Árabes Unidos. É a primeira vez que um Papa desembarca naquela zona e teve grande acolhimento à chegada não só por parte das autoridades como do povo cristão, que por aquelas paragens não pára de aumentar, calculando-se hoje 2,6 milhões. Por força das circunstâncias, muitos são católicos que ali trabalham e, por isso, num região de maioria muçulmana, pouco tolerante relativamente a outras religiões, é bom que sua Santidade reclame mais igrejas e mais liberdade religiosa. Em Abu Dhabi, amanhã, o Papa vai rezar uma missa. Antes vai encontrar-se com religiosos muçulmanos e líderes políticos.

         - É muito acertada a posição da ONU ao não alinhar na inconstitucionalidade de reconhecer - ainda que interinamente – Guaidô como Presidente da Venezuela, em contraciclo com os Estados Unidos e a União Europeia. 

         - A questão entre nós não é saber quem faz greve, é perceber quem não está em greve.


         - Meia hora de piscina. Na água apenas um velhote activo a empurrar a morte para as bordas das trevas.  

domingo, fevereiro 03, 2019

Domingo, 3.
Há uma tragédia que se desenha: a conquista das grandes potências pela Venezuela. Aquele que se autoproclamou presidente interino do país, consertou objectivos e partilhas com Donald Trump. Ninguém sabe de onde veio, como conseguiu o estatuto que a UE proclama ser o melhor. Eu estou céptico, nada que aproxime os Estados Unidos se faz sem trazer na cauda lucros, posições de confronto, guerras. De resto, já desde o falecido Hugo Chavez, que os americanos tentam conquistar o lugar de exploradores únicos das riquezas nacionais. O problema é que agora têm que se confrontar com a Rússia e a China que não arredam pé do território e estão sem falsos preconceitos ao lado de Maduro. Eles já não podem surgir como salvadores, como fizeram no Iraque, Afeganistão, etc. etc.. Contudo, para as democracias que advogam as suas virtudes e liberdades, não me parece muito acertado elegerem um presidente saído das nuvens – a partir daqui a caixa de Pandora fica escancarada.

         - Uma desgraça, como se sabe, nunca vem só. Putin, respondendo a Trump, acaba de anunciar a saída do acordo nuclear construído em 1987 por Ronald Reagan. O que se segue é cada um a trabalhar para si de forma a acelerar a destruição do Planeta. Mas estas inquietações não abalam os portugueses para quem o fundamental é o jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica.  

         - Hoje andou aí um homem a podar as árvores de fruto. Fui buscá-lo à estrada alcatroada e vi-o chegar de... táxi. Surpreendido, quando ele entrou no meu carro, quis saber porque chegou naquele transporte. Ele respondeu que o seu automóvel não quis pegar e, como se tinha comprometido comigo, não queria falhar. Esta dignidade conquistou-me logo. Agradeci e louvei a sua postura. Neste mundo de choldra, desonestidade, falta de responsabilidade e outros epítetos que designam os tempos presentes, uma pessoa assim deve ser canonizada nos altares da dignidade. Mais surpreendente ainda, é o facto de o homem ser tão gordo – e quando digo gordo, digo em todo ele, coxas, rabo, barriga, peitaça – que quase não me cabia na viatura. Todavia, contra a minha apreensão, o sujeito movia-se bem no confronto com o trabalho que o obrigava a baixar e levantar a cada segundo.


          - Dia radioso de sol. Os borbotões das árvores rompem já dizendo-nos que a Primavera não tarda.  

sábado, fevereiro 02, 2019

Sábado, 2.
O mau tempo que ontem varreu o país, trouxe chuvas fortes, ventos próximos dos 110 quilómetros/hora, alguma trovoada. Os estragos foram consideráveis de norte a sul, e a partir de hoje vai-se a chuva e regressam as temperaturas frias a obrigar a cautelas permanentes. Mas a Europa central, os Estados Unidos, estão francamente pior com temperaturas de muitos dígitos a baixo de zero.

         - Dizem-me que pessoas habitualmente intransigentes relativamente à política, partidários da direita ou da esquerda, estão a modificar-se devido à leitura deste blogue e a tornar-se mais tolerantes. Se isso fosse verdade, francamente, não caberia em mim de contentamento. Uma cabeça escorreita a pensar, vale mais que todo o Governo, partidos e Assembleia juntos.

         - Na sexta fui ao Amoreiras fazer uma compra. Quando saí informei-me se o autocarro onde entrei me deixaria no Corte Inglês. Ante a afirmativa, comprei o bilhete. À medida que a viagem seguia o seu trajecto, passando perto da antiga casa do Couto, apercebo-me, conhecendo bem a zona, que fora enganado. Saí a meio da rua que desce na direcção da Gulbenkian. Subi de seguida a penates, a longa rua onde sua excelência o presidente de Junta de Campolide, André Couto, mora num daqueles prédios cogumelos, para ir dar à Penitenciária e dali atravessar o alto do Parque Eduardo VII e entrar mais a baixo na unidade comercial. Chovia e choveu durante o longo caminho, feito em pouco mais de 30 minutos, a perna que os homens adorariam levar em romaria à Senhora de Fátima a puxar pela outra que as mulheres gostariam de friccionar com a água benta do seu votado amor ao coitadinho. Há anos que não ia por ali. De súbito, como é meu hábito, fui construindo um linguado de texto na minha cabeça. Os Couto viviam num prédio dos anos quarenta, igual a tantos outros, na Rua Marquês da Fronteira. Durante anos, tive o hábito de lá ir jantar inúmeras vezes, ou simplesmente tomar café e ficar por uma hora à conversa. Depois, sempre que passava naquela rua, levantava a cabeça a ver se a Zitó estava a corrigir os pontos dos seus alunos, acomodada na camilha com braseira ao canto da marquise. Mesmo se passasse ao volante do carro, era imperativo subir o olhar até ao terceiro andar. O André era ainda uma criança que eu devido ao seu ar e ao cuidado que a mãe punha na sua educação, passei a chamar de príncipe André. Depois os pais envelheceram, o rapaz cresceu e fez-se um homem, o tempo desmanchou-se, a vida com a sua crueldade instalou-se varrendo da face dos dias as horas sublimes que nos uniam... Guterres diria: “É a vida!” Eu com presunção, exclamarei: “É a morte!”  


         - Rui Pinto, o jovem que denunciou a corrupção no futebol, diz que permanece em Budapeste porque as autoridades portuguesas em vez de louvarem o seu gesto, querem pô-lo na cadeia. A Espanha, se não fosse dirigia por um medíocre oportunista socialista, devia levantar uma estátua ao genial da informática, porque foi por seu intermédio que o fisco espanhol encaixou 5,5 milhões do corrupto e ganancioso Cristiano Ronaldo.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Sexta, 1 de Fevereiro.
Portugal inteiro ouve uma espécie de murmúrio de águas paradas a atravessar o país há muitos anos. Esse rumor é o barulho dos lábios raspando nódulos de indignação com tudo o que diz respeito aos bombeiros nacionais comandados pelo senhor dez por cento. A mim não surpreendeu o que os jornais trazem em parangonas esta manhã sobre as refeições cobradas em quadruplicado ao Estado quando dos fogos de há dois anos e de outros ao longo de muito tempo. São milhares de euros que entraram directos no bolso não só de um como vários dos seus muitos dirigentes. Não é por acaso que as direcções das diferentes corporações, exigem do Governo mais verbas chorudas. As fraudes de refeições pagas para soldados que não estavam no teatro de operações, é uma entre muitas outras. Entretanto, para que houvesse dinheiro para encher os corruptos, muitas populações atingidas pelos incêndios a norte e a sul, esperam desesperadas que lhes construam as casas. 

         - Nos Estados Unidos as temperaturas desceram a 50 graus negativos, facto aproveitado por Trump para pedir aos deuses que devolvam o calor que os cientistas dizem aquecer demasiado a Terra.   

         - Os nossos estimados enfermeiros estão de novo em greve. Eu gostaria de saber quem suporta o “complemento solidário” que tem vindo a multiplicar as muitas paralisações. Vai uma aposta? A mim cheira-me que são os hospitais e clinicas particulares. Devia ser obrigatório publicar de onde saem donativos tão expressivos como solidários... A saúde, do meu ponto de vista, devia ter um estatuto diferente no tocante a este direito não reconhecido nos sistemas ditatoriais. Com a saúde não se brinca. Como já aqui manifestei, quem devia estar a bloquear o país, eram os africanos e os pobres dos bairros de lata, os reformados e as crianças.

         - Ontem, quando ia ao encontro dos meus amigos, deparei com um senhor à moda antiga, recolhido do frio na reentrância do metro Baixa-Chiado a vender o Avante. Fui ao seu encontro para lhe comprar o jornal e disse-lhe que o fazia não pelas quatro folhas que ele vendia, mas por ele. O homem levantou os grossos róis de sobrancelhas até ao cimo da testa, surpreendido: “Por mim!” De facto, ele pertencia ao que resta da velha guarda comunista e da doutrina que o informa – e isso por si só era digno de admiração.

         - A noite passada, já rente à manhã, tive um sonho bizarro. Vi num quarto em desalinho um rapaz que se exibia, nu, para uma câmara. Ele dançava, fazia gestos eróticos, ria-se. Em verdade, a cena passava-se em Londres onde eu estava a estudar e havia alugado um quarto na casa dos pais, ou lá o que eram, do rapaz. Ele não me via, eu olhava-o através de uma máquina colocada na sua habitação para o corredor. Mais tarde, surgiu outro amigo, pelos vinte e poucos, portanto, mais velho que ele que devia andar pelos dezassete. Os dois trocavam beijos, tocavam-se sexualmente, o que veio depois cheio de timidez, empurrava o mais novo recusando tocar-lhe no sexo e assim. Pelo adiantado da noite, um velhote que eu quando aluguei o quarto pensava ser seu avô, entrou na divisão, uma barriga de água imensa, tirou a camisa, deitou as calças abaixo e tentou despertar o que estava definitivamente adormecido. Os três riam como se estivessem numa festa de caloiros e nada do que faziam fosse escabroso. Daí a uns minutos, já o velhote simpático tinha desistido de dar vida ao que estava falecido, entra um homem de uns quarenta anos que se pôs diante da câmara a dançar. Esse não despiu a camisa, mas ergueu-a travando-a no peito com o queixo. O mais novo dos rapazes aproximou-se e empurrou-o para o divã que entrava na objectica da máquina e pegou-lhe numa mão forçando-o a tocar-lhe no seu sexo. O homem riu muito, mas não passou disso. O que lhe interessava era desenhar através das calças a marca do pénis erecto. Quase nesse momento entra uma rapariga que se pôs a observar aquele grupo estranho de pessoas nuas em frente à câmara, mas só se ria sem ousar entrar na cena. Nenhum dos presentes a convidou ou forçou e ela tendo-se demorado um pouco abandonou a instalação. De repente, ouve-se uma gritaria medonha. Eu vou ver o que se passava, deixando o meu posto de observação. Avanço até ao fundo da casa, decorada com folhas de papel em forma de barcos, bichos, cortinados, remoinhos, formando um labirinto incrível de cor e loucura solta. Ao fundo havia um pátio e quando aí chego, uma mulher salta sobre mim para me bater, dizendo que quem apresentou queixa na polícia contra o rapaz atrevido, tinha sido eu. “Aquela é a forma que eles têm de ganhar a vida, gritava. Nem todos têm o teu dinheiro para estudar e alugar um quarto na cidade.” Fico furioso e digo-lhe que não sou nenhum bufo e não tenho nada a ver com a maneira de ganhar a vida dos moços. Estou nisto, entram dois casais que pareciam ciganos e põem-se a dizer que me matam. Fujo por entre as toneladas de papel trabalhado que uma brisa vinda de fora agitava e me impedia de caminhar com a presa que a aflição exigia. Quando estou à beira da saída, sai do quarto o quarentão nu e tenta agarrar-me. Desembaraço-me dele com uma joelhada no sítio que não tinha ainda de todo esmorecido. Estou de súbito na rua e vejo passar um táxi. Arranco nele para a universidade e vou falar com o reitor a quem conto a minha desventura. Ele, compreensivo, diz-me que daí em diante tinha um quarto nos anexos da faculdade. Fico radiante e espero pela noite para ir buscar os meus pertences. Pelas duas da manhã entro directo ao quarto que fora o meu, mas mal entrei surge uma meia-dúzia de homens para me arrearem. Quem vem defender-me é o rapaz que apenas tinha vestido uma T-shirt deixando ao léu aquilo que tanta excitação causava aos seus espectadores. É ele que me arrasta para fora, reúne na pequena mal livros e roupas, e vem trazer-ma à rua onde eu estou paralisado de medo, escutando as ameaças e os impropérios das mulheres e dos homens. À janela, assistindo a tudo com um sorriso simpático, está o outro jovem. Este grita para o amigo: “John, anda pra dentro para não te constipares.” No dia seguinte, fui à Polícia apresentar queixa, sem que antes deixasse claro que não deviam revelar a minha morada. O agente concordou e eu acordei aliviado.

         - Ontem, no restaurante de cima do Corte Inglês, bons momentos divertidos com a Marília e o João. Foi um longo passeio ao passado, trazendo na enxurrada das recordações um tempo perdido lá para trás, na fronteira entre a vida e a morte, entre os fantasmas e as sombras tristes da inconformidade do presente. É por estas e muitas outras que eu não sou dado a pensar no que passou.


         - Em compensação, esta manhã no Café da Casa, demorada e vibrante conversa com o António acerca dos textos bíblicos. António diz-me que prefere a Bíblica hebraica, acha-a mais poética, mais corrente na tradução dos jesuítas. Eu sou pela Septuaginta e Vulgata. Tive pena não ter à mão estas traduções, para comparar textos, expressões e linguagem. Ele não aprecia muito a tradução de Frederico Lourenço, acha-a seca, sem aquela beleza que a Latina oferece. Eu, pelo contrário, prefiro o texto grego vertido para o português por alguém que não é crente nem está ligado a nenhuma religião. Depois, é bom não esquecermos, que o texto grego na sua dureza e rugosidade, era a língua que falavam os soldados e o povo de Alexandre. Antes havia terminado a revisão do treceiro capítulo de O Juiz Apostolatos.