domingo, março 13, 2016

Domingo, 13.
As homílias dominicais são uma longa palestra para o celebrante difundir a vaidade da sua oratória, que mais não é que um constante exaurir de medos e ameaças de Deus contra os fiéis ali contraídos de temor. Esta tem sido a forma que a Igreja encontrou através dos séculos para atrair os ímpios. Toda a sua doutrina foi montada sobre o pavor, o mistério da morte, aproveitando a ignorância e o obscurantismo típicos do “bom povo português”, de modo a arregimentá-lo em torno de uma confissão que parece vir de um malfeitor vingativo. Eu preferiria que os padres nos ensinassem a rezar, por ser a oração não só a linguagem que Deus prefere, como através dela todos nos reconhecemos irmãos. Qualquer método é adequado, desde que estejamos disponíveis.

         - Comprei no mercado de Pinhal Novo um chapéu de palha.


         - Comecei a lenta correcção do romance Matmatu que tinha concluído há três anos. Ao desenterrar o manuscrito, esbarrei com este subtítulo que não me lembrava de o ter escrito: “O que se apaga, fica.” Depois, pensando melhor, vindo nas reminiscências que a memória é fértil em nos atravancar, julgo que o pedi emprestado a um escritor hoje esquecido, Yves Navarre. Depois, à medida que o dia ia avançando e eu me entretinha com pequenos trabalhos lá fora que quase me paralisaram os rins, surgiu Maurice Blanchot que diz qualquer coisa assim: Quem quiser recordar algo deve confiar no esquecimento, a esse risco que é o esquecimento absoluto e a esse belo azar que acaba por ser a recordação. Bom.

sábado, março 12, 2016

Sábado, 12.
Eu supunha que os barbudos do Daesh eram uma organização mais ou menos anárquica que actuava movida pelo puro ódio e, portanto, sem horizontes de comando à parte uma pequena equipa de dirigentes. Puro engano. Os milhares de fichas trazidas por um renegado das fileiras dos jihadistas, e oferecidas ao Ocidente e aos Estados Unidos, dão conta de um pequeno califado construído à sombra dos milhares de voluntários e entre estes engenheiros mestres na linguagem computorizada. Foram eles que rasgaram as fronteiras e chamaram assassinos, inventaram métodos de recrutamento, consolidaram um exército de terroristas que avançou para colonizar a Europa pelo terror. Ao todo pelo menos 22 mil homens e mulheres dispostos a morrer por uma causa sem consistência, sem teoria política, montada no rancor e desprezo por tudo quanto existiu antes da Hégira e não faz parte do Alcorão que eles executam à sua maneira por métodos fanáticos incompreensíveis nos nossos dias. Esta documentação, entendem as polícias, é reveladora dos métodos e características de trabalho da cúpula extremista, além de permitir saber quem ensandecido pela arrogância e corrupção dos dirigentes europeus, se passou da cabeça e entregou-se para restaurar novas ideologias e filosofias políticas ou simplesmente vingar o monumental embuste que George W. Bush montou para destruir um país e um povo e matar Saddam Hussein deixando o Médio Oriente numa estígia infernal.   


          - Arrebatadora hora de piscina. Comigo apenas um tipo depilado que decerto aspira a ganhar os próximos Jogos Olímpicos. À saída encontrei o tempo imobilizado numa rosa que se abria perfumada sobre o sopé do castelo de Palmela. Lá do alto, avista-se a planície onde tenho morada e na vastidão dos campos sobrevoava uma neblina que era já própria do Verão quando o sol abafa a tarde num baque interrogativo sem resposta. A luz intensamente branca, parecia fugir dos poros da pele, das bermas dos caminhos, dos alpendres das árvores. Todas as cores que a Natureza reserva aos que a contemplam, estavam estampadas na textura do ar, bruxuleantes, suspensas da leveza que nos arrasta para a eternidade. Os meus olhos fizeram-se de muitas cores e não soube qual delas a  Poesia elege quando o coração fenece de exultação.

sexta-feira, março 11, 2016

Sexta, 11.
O Governo socialista que tudo promete e alguma coisa vai dando impulsionado pelo PCP e BE, diz cumprir a Constituição ao oferecer gratuitamente livros aos alunos do Ensino Básico. Pasme-se! Num país que acima de tudo dá dinheiro – e muito – a ganhar às editoras e aos autores dos projectos de ensino, onde os programas de televisão são todos a baixo de cão, o futebol impera como indiscutível base cultural, os manuais escolares mudam todos os anos e às vezes mais do que uma vez ao ano, os políticos falam mal, o jargão inglês colonizou a língua portuguesa, os escritores pagam para serem editados, as ajudas à cultura são quase inexistentes, o nível de instrução é baixíssimo, a educação passou à história, todos nivelados por baixo e sem qualquer interesse ou curiosidade no conhecimento, que outro nome se pode dar a esta benesse socialista senão demagógico. Sim, demagogia pura quando o essencial reside a montante de todo o princípio civilizacional que integra a formação no conjunto e ao longo da vida do ser humano, e comunitariamente integrado no desenvolvimento a todos os níveis. Disseram e impuseram até que só vale a pena estudar, aprender, com um único fim: ganhar dinheiro. “Se não fores doutor, nunca terás uma vida airada, não serás ninguém.” Assim falam os pais aos filhos e deste modo o país está cheios de doutores da mula ruça, doutorados analfabetos, gentinha vulgar, carregando a importância que o dinheiro oferece aos pobres de Cristo.

         - Ora, ora! Quem é o político desta semana a contas com os tribunais, naturalmente um doutor, pois então, que foi acusado de ilegalidades financeiras em contratos no valor de 4,4 milhões de euros, senhor de casas e propriedades, antigo presidente da Câmara de Gaia e homem  forte do PSD, vindo dessa massa anónima de remediados antes do 25 de Abril, hoje abastado senhor do Norte, com lacaios aos seus pés, nova esposa ou esposa nova, que nos jornais e televisões debitava moralidade, honra e saber na gestão da autarquia. Para que o ilustre doutor não morra incógnito que, de resto, não merece aqui deixo o seu nome: Luís Filipe de Menezes Lopes.

         - Helder de Sousa é tempo de ajustares o discurso ao politicamente correcto. Deixa-te de censurar quotidianamente este e aquele, isto e aquilo. Será que não enxergas que o Portugal da democracia é um jardim maravilhoso, cheio de gente culta, trabalhadora, nada oportunista, onde não medram gatunos, mas governantes honestos que põem a nação acima das suas ambições e capelas partidárias, que erradicou a pobreza e a harmonia social expande-se em cintilações de Norte a Sul, com as famílias unidas, os impostos em dia, a Igreja omnipresente, a solidariedade montada para o espectáculo da caridade transmitido à hora em que estão todos à manjedoura da TV, e o Presidente da República com o primeiro-ministro ao seu lado esquerdo como manda o protocolo, os dois mostrando um sorriso alvo, levemente cândido, sem esgares de hipocrisia, antes lavados de profundos sentimentos e promessas invadidas de misericordiosas que disputam os corações dos telespectadores, a janta de pizas e vinho tinto terminada, filhos e netos fingindo dormir amarrados no quarto a consolas de jogos ou à conversa indecente no Facebook, despachadas as telenovelas, os royalty-shows, os concursos, transformados na Cartilha Matinal, a noite longa indeferida das responsabilidades do trabalho do dia seguinte, enfim, um país mudado, de algum modo um paraíso, com bom clima, muita fé em Deus e existência coerente com os Mandamentos por Ele pregados. Como queres tu, homem de Deus, ter leitores, recepções, alguém que aprecie o teu labor, se tu vives como um selvagem, recusando o discurso estruturante que tanto cativa o comum dos teus contemporâneos, dizer-bem-deste-para-seres-deificado-por-ele, de modo a que as portas das capelas literárias se abram para a tua escrita desalmada, o teu intelecto nietzscheano, a tua altivez onde morre desesperada a solidão e o silêncio fica agrilhoado na folha em branco que recusa elogiar a mediocridade e estender a mão ao figurão bajulador e nédio que cresce como cogumelos bravios à sombra dos republicados e democratas, que sofrem horrores por haver tanta miséria no país. Encara-te, homem. Sê como os demais e verás descer do céu em cachão toda a cupidez compaginada  na prática do rapa-tacho que é hoje de todas as profissões a mais rentável e respeitável. 


         - As pessoas que pensam muito na idade morrem cedo.

quinta-feira, março 10, 2016

Quinta, 10.
A impressão com que eu fiquei ao ver o espectáculo da entronização do prof. Marcelo, foi a de uma criança deslumbrada com o sonho sonhado toda a vida, materializado em contentamento e deslumbre no ancião babado.

quarta-feira, março 09, 2016

Quarta, 9.
Na Europa do euro é tudo uma questão de negócio. É o que está a acontecer nesta altura com os migrantes que chegam exangues à Turquia. Os tecnocratas de Bruxelas, pagam para os reter por lá receosos que essa multidão de aflitos se transformem em invasores e destruam os venerandos esquemas de vida europeus. É mais fácil para essa praga de negociadores lavar a consciência com um punhado de notas branqueado num qualquer paraíso fiscal, que enfrentar o problema humano que a todos diz respeito e na origem do qual está a sua devotada e acatada consonância com as barbaridades americanas. Estes esquemas que dão uma imagem lamentável da fraqueza e da falta de horizontes da UE, vão custar muito caro ao equilíbrio e unidade da União. São mais um contributo para a liquidar cedo ou tarde. A impressão que se tem, é que somos governados por fantoches a soldo de fantasmas com um poder enorme para conduzir o destino de milhões de almas ao inferno.

         - As trevas deixaram o Palácio de Belém. Durante dez anos, fomos guiados por uma sombra cadavérica, espécie de múmia de esgares malsãos, discursos enrolados numa língua cuja sintaxe não havíamos nunca escutado e chegava aos nossos ouvidos como pedras arremessadas contra a nossa estupefacção. Como foi possível é o que as gentes atónitas hoje questionam, esquecidas já que foram elas, por falta de informação e grudadas na propaganda que deifica o chico esperto, o oportunista e o vingativo, o colocaram aonde não era suposto algum dia chegar. Não tanto porque as origens humildes o impeçam, mas porque a ausência de grandeza, de espírito livre, a pequenez resguardada numa suposta importância que advém da frustração, da importância que julga possuir, fizeram dele uma figura estranha à democracia e à cultura nas suas formas simples e profundas que estão na origem de toda a filosofia humanista. Qualquer um que venha a seguir é sempre melhor. Pela simples razão –pior não pode ser, não existe.


         - Fernando ao telefone a quem falei do contacto com um editor por ele aconselhado, primeiro por e-mail, depois por telefone. Neste último, o ilustre editor, mandou dizer pelo lacaio que estava em reunião. Lembrei-me logo do espanto dos empresários estrangeiros com quem falava na outra vida que foi a minha: “Em Portugal as pessoas estão sempre em reunião. – Para se darem ares de importância ou como forma de se recusarem a recebê-lo”- informava eu. Fernando Dacosta foi mais conciso: “Não voltes a telefonar-lhe. Tu não precisas de te rebaixar.”