sábado, fevereiro 28, 2026

 Sábado, 28.

Estourou a guerra no Médio Oriente às primeiras horas da manhã. Nada que o Irão e os países vizinhos não esperassem. Trump, calculoso, decidiu enfrentar os Xiitas através do seu inimigo figadal: Israel de Netanyahu. Foi este que, escudando-se com guerras sucessivas que lhe permitem escapar ao julgamento dos muitos crimes praticados no posto que ocupa há vários anos, disparou primeiro. O adversário, já preparado, retaliou cargas de mísseis por toda a redondeza onde os EUA têm bases militares: Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein, Jordânia, Iraque, Qatar, além de Israel onde as sirenes não param de se ouvir. Parece estar aberta uma guerra regional de difícil desfecho. Entretanto, o homem que ambiciona o Nobel da Paz, abriu diversas frentes de guerra e incentiva os iranianos a ir para a rua gritar pelo descendente de Xá da Pérsia Reza Pahlavi. Embora não concorde de maneira nenhuma com o regime que governa o país há mais de três décadas, não esqueço que este foi referendado pela população. Os americanos vão enterrar-se uma vez mais na sua ambição e cobiça, porque pode ser que lhes saia o tiro pela culatra e o povo admita para o lugar de Khamenei, outro muito pior de entre diferentes dirigentes. O país é fértil em etnias, facções religiosas e líderes impulsionadores do Islão. 

         - Assim foi, assim será. Acaba de rebentar outra guerra que julgo também teve a mão de Trump: o conflito entre o Afeganistão e o Paquistão. Este atacou os talibans que tomaram o país e o dominam depois vergonhosa deserção de Joe Biden. Aquilo é um verdadeiro campo de concentração, um inferno na terra. 

         - Ontem estive com a Dulce, Virgílio, Alexandre e João na esplanada da Brasileira. Manhã brilhante, cheia de odores primaveris, em conversa amena (salvo quando o João intervinha), o Chiado com pouco rebanho turístico tresmalhado. Sabia que a Dulce é professora e pelas ideologias próximas do João, também delegada sindical. Só não imaginava que era apaixonada por pintura que exerce pelo menos duas horas por dia. Ela parece temer o meu juízo artístico porque aos olhos daquela gente (salvo os do Virgílio) eu não sou bicho que se cheire, de tão crítico sou para eles e não só em pintura como em literatura, ideias gerais, política, etc. Por estranho que pareça, nunca me senti próximo dela talvez por a ver tão chegada ao João e às suas doutrinas marxistas. Todavia, ontem, pedi-lhe para ver os seus trabalhos e experimentei uma súbita simpatia por ela, o seu olhar risonho e terno, sem fugir ao meu parecer prometeu mostrar-me. Daí o grupo foi almoçar ao restaurante austríaco ao fundo da Rua Anchieta. Comoveu-me a insistência dela e dos outros para que os acompanhasse. Não aceitei não só porque iria gramar duas horas de política à moda do João, ainda porque os preços são elevados e aquela gente não almoça, banqueteia-se e ainda porque queria trabalhar no romance no sossego do petit-cafe da Fnac. 


quinta-feira, fevereiro 26, 2026

 Quinta, 26.

Ontem, depois de muitos meses, isolado na Fnac entreguei-me ao romance. As dificuldades visuais pouco ou nada melhoraram, e o esforço que tenho de fazer para ler é enorme e cansa-me. Mesmo assim, ali estive por três horas. Prontamente recompensadas pela viagem de volta, a luz de Lisboa desenhada no horizonte, a impressão de felicidade traduzida na paz e na harmonia do dia. Aqui chegado, foi como um banho de odores e silêncio, que limpou as impurezas das dúvidas e dos falhanços. O interior do salão, descobriu-se-me como nunca antes, tudo nele reflecte equilíbrio, vida transcorrida dos objectos, quadros e livros, nesta desordem serena que apetece sorver como algo palpável que traduz não só a natureza das coisas como a existência a ela associada. 

         - Levo meses de bem dormir. Sempre atribui grande importância ao sono e nesta fase tenho noites que durmo 10 horas. A alimentação e o descanso, são os amigos que nunca largo. Como por necessidade, durmo por prazer. A maioria dos portugueses não seria capaz de se alimentar como eu faço, considerando que isto é passar fome e é na comida que reside a felicidade. Não bebo, não como gorduras, gosto de doces, mas somente uma colher de sobremesa engulo com o café a meio da manhã. Esta pobreza franciscana, dá-me vigor, mantém o meu corpo como sempre foi, ajuda-me mentalmente a passar os momentos carregados de pensamentos aziagos, que descem dos abismos inacessíveis e se estatelam reduzindo-me a um monte de incertezas. 

         - MM, melhor dizendo, Éric, cuja vida de vícios e falta de interesse pelo trabalho tem o seu temperamento estampado em muitas páginas do diário de Green e o ciúme de Robert que o detesta, não por ser o amante do seu amor, mas pelos muitos problemas que causa ao nobilis escritor. São inúmeras as passagens como esta, que se fôssemos a traduzir para a nossa língua chã, diríamos tratar-se de um verdadeiro chulo. “Hier MM a été charmant, puis insupportable. Charmant quando il a besoin de quelque chose (en l´occurrence 5.000 francs pour son médecin) et insuportable quand il a obtenu ce qu´il voulait ai dit devant Pierre (o seu amante na altura) et il était furieux.”   

         - Pela segunda vez num curto espaço de tempo, caí à porta da cozinha. A saliência entre a rua e a entrada, desde tempos recuados, provocou o mesmo desastre a muitos amigos e familiares. Para entrar, desce-se um ligeiro degrau. Tempo magnífico. 


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

 Quarta, 25.

Com a idade estreitam-se não só as paixões como se restringe quase tudo o que nos maça. Ver o estado em que se encontra a quinta desgosta-me e apetecia-me chamar uma dessas empresas que num só dia abatem as árvores, serram os trocos para a lareira, queimam os ramos e arrumam a lenha. Por outro, assim pensando, tenho que tomar uma decisão drástica e cortar o mal pela raiz, isto é, vou ter que cortar pelo meio os cedros que cresceram em trinta anos uns vinte metros e são hoje uma ameaça à casa em caso de repetição do vendaval. Dito isto, ontem, ao fim do dia o Nilton restituiu-me a água de que tanto necessitava. Enfim, uma coisa resolvida por sessenta euros (toma e embrulha). 

         - Outro dia quando entrei na Versalhes, deparei-me com o homem do leme em que eu me recusara votar para as presidenciais e julgava que os portugueses, fartos dos políticos de meia-tigela, iriam entregar-lhe de mão beijada a direcção do país. O almirante estava estrategicamente sentado à escotilha de forma a que quem entrasse ou saísse o visse. Abancava com uma personagem sólida de corpo, olhar matreiro, vestido a rigor (fato completo, gravata, camisa impecável) e ambos cochichavam olhos nos olhos, sem que ao militar escapassem aos olhares que os clientes depositavam (talvez por estranheza) nele. Mantinha o mesmo sorriso enigmático, mas todo ele estava trajado da farpela idêntica à dos políticos que com ele concorreram a Belém. Muito cedo despiu a farda maculada da Marinha e afundou-se ao vestir a albarda, com a sua linguagem, o seu desprezo pela verdade, a sua ganância de poder, a sua incompetência, o espírito de manada, a falta de rigor, o desdém pelo indivíduo e tudo o mais que eles dizem ser a condicionalidade da democracia e não passa de lodaçal sujo da política. Foi esse estreitar de ombros com os demais, que o impediu de ser hoje aclamado Presidente da República.

         - É um insulto à democracia e aos portugueses aquele ar triunfante, acentuado por uma barriga proeminente, um caminhar seguro de quem sabe que não vai para o cadafalso, antes cada vez se encobre sob o guarda-chuva do cargo de primeiro-ministro com os muitos escudos que a função lhe deu e a corrupção solidificou. Falo do ladrão José Sócrates. 

         - A mim sempre me fez muita confusão e sempre me interroguei, que têm de bélico os mísseis nucleares do Irão ou de outros países quando comparados com os dos EUA, Federação Russa, China, Coreia do Norte, França, Inglaterra ou outros. Sobretudo porque se evoca, como no caso do Irão, o seu regime totalitário e repressivo. Bah! Mas afinal não foi o regime democrático americano o primeiro e até hoje o único que utilizou uma tal arma dizimadora da humanidade?! 


terça-feira, fevereiro 24, 2026

 Terça, 24.

Relendo o que para trás ficou, sublinhados e notas de rodapé, dou com este destaque, pág. 925, de Toute Ma Vie: "On n´échappe au cauchemar du temps qu´en vivant dans le présent éternel de Dieu qui dévore passé comme avenir.” Oh, cher Green! 

         - Ontem fui ao oftalmologista buscar os óculos que sofreram a melhoria que ele entendeu fazer. O Carlos que mo apresentou, compareceu na loja e os três fizemos a festa do milagre da boa visão. Outro dia, tocado pelo entusiasmo de ficar a ver como antes, disse ao médico que iria convidar o meu amigo para um almoço. Ele aconselhou-me a fazê-lo depois de ter a certeza que curei os estragos do Gama Pinto. Ri-me, rimo-nos. O facto, mesmo sem saber que tudo iria ficar nos conformes, lá fomos ao Corte Inglês almoçar no toutiço do edifício. Passámos umas horas agradáveis, em conversa amena e divertida, como é nosso hábito sempre que estamos juntos. Separámo-nos pelas cinco da tarde. Regressei ao presbitério de autocarro amarelo que é a cor de todas as minhas fantasias. O mestre Nilton tinha tirado o dia para me devolver a água de que careço há duas semanas. A coisa quase ficou nos conformes, não fora o facto de por aqui ele não ter encontrado o cano galvanizado para unir as duas partes separadas pela tempestade. Talvez hoje tudo fique em ordem. 

         - Por falar na víbora. O Rui, querido amigo com quem viajei pela Turquia, tendo-se separado da mulher, abandonado o banco onde tinha um alto posto bem remunerado, vendido a vivenda da Aroeira, na reviravolta que deu à vida, deixando tudo para trás, para se ir meter em Idanha-a-Nova onde começou por adquirir algumas casas abandonadas para as reconstruir, comprado de seguida uma quinta onde vive com a segunda mulher, contou-me dos enormes estragos que teve com o temporal e da saúde fragilizada que o levou a uma complicada operação à coluna que o deixou de cama dois meses e duas anestesias gerais. Recentemente, sem saber como, numa volta do corpo, caiu e fracturou a omoplata e de novo encontra-se deitado a contar as moscas que sobrevoam o quarto. Tinha muitos amigos e amigas quando ocupava o cargo bancário, mas apenas eu e mais dois se preocuparam em telefonar para saber se tinha tido muitos estragos e como ia a sua saúde. Da primeira mulher já nem o número de telefone possui, a filha vai aparecendo quando pode com a amiga com quem vive; o filho não pára de viajar estando a maior parte do tempo fora do país. Por sorte, a mulher com quem vive, tem sido inexcedível de cuidados e carinho. Haja Deus! 

         - Outro amigo a quem telefonei, o João Biancard. Ele vive numa quinta com vários hectares para os lados de Torres Vedras. Levei duas semanas a encontrá-lo convencido que teria falecido. Em casa não atendia, o portátil tinha-o perdido e foi preciso muita pertinácia da minha parte para o encontrar. Enfim, uma noite, ele respondeu ao telefone e ficámos que tempos a pôr a vida em dia. A quinta foi de tal modo atingida, que ele teve de ir viver para casa do irmão e por fim da irmã de onde me falava. A enorme mansão, tão grande que só a sala de jantar tem uma área duas vezes superior a esta onde vivo, felizmente, não sofreu nenhum abalo. Os problemas são nos acessos, serra acima, todos obstruídos por grandes árvores tombadas. Do alto dos seus 86 anos, João que teve sempre uma vida agitada na política ocupando vários cargos de grande responsabilidade vive de pé, hirto, disponível, com um humor corrosivo contra os falsos grandes deste pobre país de analfabetos e gentinha medíocre. Disse-me que temos de nos encontrar breve, disponibilizando-se a vir a Lisboa ao meu encontro. 

         - Faz hoje quatro anos que o ditador russo invadiu a Ucrânia convencido que aquilo era trabalho para três dias, o máximo uma semana. Glorioso país, glorioso Presidente que tem conseguido fazer face a um tipo corrupto, sem escrúpulos, egocêntrico, assassino, inumano. Ele e o alcoólico Medvedev. Na pág. 273 das suas Memórias, Alexei Navalny, já no primeiro mandato de Trump, explica o envolvimento de Putin na campanha do tresloucado. Através da conversa registada entre o oligarca Deripaska e Prikhodko (na altura vice-primeiro-ministro), referindo as relações entre a Rússia e os Estados Unidos, soube-se que Paul Manafort recebera milhões de dólares das mãos de Deripaska em troca de lhe contar o que ia acontecendo na campanha de Trump.  Hoje sabe-se bem mais, que desde o pai ao filho, a família Trump sempre teve negócios com Putin e daí a simpatia que os une e a pancada idiota de Trump ao querer subjugar Zelensky às exigências de Moscovo. Acrescento que o par de peregrinos, von der Leyen e António Costa, rumaram a Kiev. Olha que dois! 


domingo, fevereiro 22, 2026

 Domingo, 22.

Belo dia de sol e um silêncio levíssimo a estender-se no campo agasalho das desgraças que o atingiram. Nada está solucionado, nada se abandonou à sua sorte. O Johnson esteve aí de manhã a ver e a dar pareceres sobre o muito que há a fazer para que este espaço volte a ter dignidade e beleza. Pela minha parte continuei a poda das hortênsias que terminei ao fim da tarde. Trabalho durantes anos feito pela pobre Piedade que está num estado horrível. A ver vamos se a arte do podador se iguala à dela. 

         - Cheguei à página 1000 do diário de Green. Muito haveria a dizer do que diz o escritor, sobretudo quando os campos entre o diarista, o seu “Robert, mon amour” e MM (Éric) se extremam. E por sobre a sua vida dividida entre o prazer, a escrita, o teatro e a presença de Deus a par do pecado como afastamento divino, Green, o espiritual sofre por não conseguir resistir ao sexo que ele considera (sob a moral da época) um pecado maior. Éric não quer trabalhar, vive sob a protecção do escritor que acaba por alimentar os amantes que o amante não cessa de acumular com as suas necessidades de sexo três vez ao dia. Robert sente ciúme e adverte o seu amor de uma vida, mas Julien diz-lhe que nada poderá dividi-los. A narrativa acaba por ser igualmente o diário deste trio que sendo tão desigual e, do lado do autor de Moira, tão profundamente perturbador quando no final de todos os seus dias está invariavelmente a pedir perdão a Deus para no dia seguinte tudo recomeçar. 


sexta-feira, fevereiro 20, 2026

 Sexta, 20.

Ontem, quando deixei a loja Lentes de Contacto, observado por um dos oftalmologistas associado, exultei de contentamento e segurança de que em breve não terei de trabalhar com apenas um dos olhos. O Dr. Bruno, detectou o erro devido ao facto de no Gama Pinto a coisa ser feita em cadeia de produção e não terem dado o tempo necessário à adaptação da cirurgia da catarata que é de dois meses. Conclusão: os exames posteriores no olho esquerdo deram 0,25 dioptrias quando ele, Dr. Bruno, disse ser de 1,45. A diferença é substancial e é nela que espero voltar a utilizar o olho esquerdo.  

          - Saí levitando, tomado por uma energia imprevista, a manhã linda ajudando, e caminhei por ali avante até à Gulbenkian não distante. Como eram horas de almoço, fui abancar no restaurante do lado chinês para uma refeição à maneira, quero dizer, sem olhar à despesa. Antes, porém, passei de raspão na exposição Xerazade por conhecer a maior parte do que ali estava exposto. Na minha frente tinha o esplendor na natureza toda emoldurada da frescura que pingava de cada ramo, de um verde intenso, como se a Primavera se tivesse adiantado somente para mim que extasiado a admirava sob o manto de paz e sossego que me trouxe a perspectiva de voltar a ver como antes. 

         - No carro, fui ouvindo o debate na Assembleia da República. O secretário-geral do PS falava num português de chinelo impróprio para um senhor doutor...

         - Alinho estas linhas na Fnac depois de ter deixado o João com quem estive esta manhã na Brasileira. Por vezes, um leitor ou amigo, inquieta-se como posso eu continuar a suportar ideias políticas diametralmente opostas às minhas, respondo que estimo a amizade antes das preferências ideológicas dos meus amigos. No caso do João, ele é duplo de Janus o deus da mitologia romana, com duas faces opostas. Ele professa uma coisa e vive outra. Pertence a uma geração que combateu ferozmente a ditadura de Salazar e posteriormente teve apoio e existência em todos aqueles que no seu tempo lutaram a seu lado. Daí não muda, as raízes adquiridas ficaram, a doutrina é imutável e soberana enquanto essência de uma filosofia completamente ultrapassada, mas que ele não tem liberdade para encaixar, prosseguindo um quotidiano quase isolado porque os da sua geração foram juncando o chão de imortais figuras do inconformismo. 


terça-feira, fevereiro 17, 2026

 Terça, 17. 

Há dias li um artigo de João Miguel Tavares que não apreciei mesmo nada, devido ao tom e ao conteúdo. Insurgia-se ele contra o novo reitor da Universidade Nova de Lisboa, Paulo Pereira, que deu um prazo de trinta dias para que todas as faculdades passassem a ter a designação em português. Esta medida, absolutamente de acordo com a lei, indignou o habitual rabinho liberal do articulista, que apresentou como exemplo de projecção internacional, a universidade Nova School of Business and Economics porque assim designada, trouxe alunos de várias partes do mundo e está cotada entre as melhores do universo universitário. Tavares segue o provincianismo que se instalou por todo o lado, o abandalhamento da nossa língua, e a abusiva introdução não da língua de William Shakespeare, mas a de Donald Trump ou se quisermos ser tipicamente portugueses e desenvoltos no inglês clássico, a de António Costa, na nossa. Não tivesse a universidade de carcavelos professores à altura, não seria a presunção em inglês que lhe daria os méritos de que usufrui. 

         - Eu não tenho uma opinião formada sobre José Luís Carneiro. Contudo, julgo que a “geringonça” não lhe teria agradado muito e, portanto, a sua postura em relação ao PCP e Bloco de Esquerda, que responsabilizou pela queda do Governo, em 2021. Daí ter-se batido para a criação de um “centro de político” que pudesse dar estabilidade ao país – projecto que a maioria dos portugueses aprovaria disso estou convencido. Acontece, que sábado passado, fui ao encontro do João à Brasileira e dali, sendo horas de almoço, ele perguntou-me onde ia almoçar. Respondi que passei a seguir a regra do falecido Sr. Castilho, segundo o qual o melhor é comer uma sandes que nos restaurantes sem fiscalização e de onde quase sempre se sai com problemas de estômago e algum hemorroidal. Eu sei que ele adora comer e coisas pesadas embora o negue. Disse-lhe que ia à FNAC mastigar uma sandes e meia de leite – “comer é em casa”. Fomos. Mal nos sentámos, assomou a política e a minha tradicional oposição a tudo o que ele dizia. Todavia, nesse entretanto, aparece um homem dos seus cinquenta anos, que o cumprimenta e se senta na mesa próxima. Não tardou ambos trocarem palavras, sempre em uníssono, sempre atadas num único raciocínio. Falou-se da Intersindical e João criticou a quantidade de sindicatos que a partir dela se formaram. Eu disse ainda bem, porque a Inter está subordinada ao PCP e, por isso, não é independente e os seus associados fartos de saberem isso, separaram-se. A discussão azedou um tanto. A dada altura, o estranho homem, levantou-se e trocou algumas palavras com o João que eu não detive. Quando nos despedimos, diz-me o João que ele é (ou fora) um dos elementos de direcção do sindicato dos trabalhadores. Esta conversa vem a propósito de quê? Ah, do Secretário-geral do PS. Os dois, por diversas vezes, quase o insultaram, dizendo terem pena que António Costa tenha deixado o Governo e lamentaram também o volte face de Pedro Nuno Santos que se afastou igualmente. 

         - Hoje aqui foi um dia em pleno. O meu vizinho veio ajudar com o tractor e ele e o Sr. José Manuel limparam o grosso que caiu para o seu lado. Admiro a valentia desta gente que já não é jovem, mas desafia os jovens com todo o rigor, competência e generosidade. Pelo que vejo e muito há ainda para cortar, tenho lenha para mais três invernos. O trabalho, porém, vai arrastar-se por muito tempo. 


segunda-feira, fevereiro 16, 2026

 Segunda, 16.

A América é uma no cravo, outra na taralhoquice. Em mais uma reunião sobre Segurança e NATO, Marco Rubio, o ministro dos Negócios Estrangeiros americano, disse em Munique que “os Estados Unidos são filhos da Europa”, e “foram feitos para viverem juntos”. Foi o suficiente para que a plateia se levantasse em louvores às palavras daquele que serve apenas Trump (embora me pareça o mais equilibrado do manicómio da Casa Branca). Depois da sua presença de charme, logo zarpou para uma visita à Hungria e outra à Eslováquia, dois países amigalhaços de Putin. A nossa frágil e humilde União Europeia, o que pretende e ambiciona é viver na paz dos anjos, continuar a não fazer peva, distribuir bênçãos à direita e à esquerda, falar, falar, falar até que o sono e as cordas vocais os levem ao sono da História. Depois, sim, podem gozar em pleno as reformas milionárias e o prestígio que eles pensam imortais. 

         - Se assim não fosse, atente-se naquela reunião tão ao gosto do nosso ex-primeiro-ministro, num belo castelo da Flandres, Bélgica, para parlapatar sobre as reformas necessárias à revitalização da economia europeia. Eu, sem querer ser do contra, acabado o curto descanso dos nossos infatigáveis políticos num fantástico castelo do séc. XVI a que Costa chamou “um retiro informal para discutir reformas económicas, competitividade contra EUA/China e inteligência artificial”, não ouvi uma só palavra dos felizardos que, talvez por se tratar de um retiro que por essência interdita o falatório, saíram sorridentes e felizes daquele descanso entre amigos. António Costa sempre gostou do aparato e de fazer política que os subordinados aplicariam. Assim vai o mundo, arrastado por esta sorte de gente que nos coube na rifa do destino. 

         - Entretanto, por entre as reuniões inúteis e viciadas, corridas em pescadinha, o comandante da corrupção em Israel, prossegue a matança em série. Ontem foram mais de uma dúzia de palestinianos mortos. Ao todo, se este número estiver correpto do que duvido, pereceram sob as bombas dos fanáticos judeus, 72 mil palestinianos.  

         - Volodymyr Zelensky passou na reunião da NATO e aliança com os EUA de Munique. O enérgico político, primus inter pares, voltou a apelar aos pobres pequeno-burgueses dirigentes da União Europeia, que o ajudassem na sua luta contra o ditador de Moscovo. Este, exibindo a cara onde se estatelou o ódio e o cinismo, prossegue as ofensivas a centrais eléctricas, num Inverno particularmente duro para além dos ataques a várias zonas da Ucrânia incluindo Kiev.  

         - A propósito do sinistro pequeno homem, “czar de pacotilha” como lhe chamava Navalny, que submete o povo russo e o esmaga com as suas botas stalinianas, foi descoberto a semana passada algo que ninguém duvidava: Putin mandara assassinar na prisão, para lá do Círculo Polar Ártico, a 16 de Fevereiro de 2024, o seu opositor Alexey Anatolievich  Navalny. Os cientistas europeus acusam o carrasco do Kremlin de ter matado o activista com veneno de rã, uma neurotoxina que dá pelo nome de epibatidina, mais forte que a morfina. Aliás o próprio Navalny previu a sua morte às mãos de tirano. Aconselho vivamente aos meus leitores a leitura das suas memórias (Ed. Porto Editora, colecção Ideias de Ler), onde o combatente pelos direitos humanos, diz que até ao momento em que assistiu ao nascimento do primeiro filho não acreditava em Deus; a partir daí, perante a beleza e o mistério daquele instante único, passou a ser crente. Assim se vê a sensibilidade do homem nascido sob um regime ditatorial feroz. E lembrar-me eu, que foi este regime que os comunistas portugueses defenderam. 


 

        - Voltei ao lavadouro tecnológico. 


domingo, fevereiro 15, 2026

 Domingo, 15.

O bom tempo regressou e logo os rostos dos portugueses aspergiram felicidade. Somos irmãos gémeos e não podemos apartar-nos. Eu, como muitos dos meus compatriotas que viveram algum tempo no estrangeiro, sabemos bem como o astro-rei faz parte do nosso ADN. Assim sendo, por Coimbra e concelhos limítrofes, as águas começaram a descer, as populações regressam às suas casas, a vida experimentou um ar de normalidade, embora a desolação continue por todo o lado. 

         - Por aqui, tendo ontem deixado a quinta a cargo do Sr. José Manuel, quando regressei já noite, encontrei uma certa ordem com os troncos das árvores cerrados, alguns detritos queimados e muita lenha que irá engrandecer o próximo Inverno. Pela minha parte, apesar das dores nas costas, no levantar e agachar, comecei a podar as hortênsias. Trabalho demorado pela sua especificidade e cuidado. Por sobre tanta tristeza, as amendoeiras sorriem em flor. 






sexta-feira, fevereiro 13, 2026

 Sexta, 13.

O Palácio Nacional de Mafra, recentemente intervencionado com milhões do PRR, oferece ao visitante a imagem que a foto documenta. A pergunta que devemos fazer é esta: é aceitável que o monumento sofra estes estragos na sequência da intempérie ou a sua protecção foi umas simples cócegas que nos custaram os olhos da cara? Ao que dizem os jornais, a água escorre pelas paredes, o vento abana janelas e portas, o estuque cai das paredes e tectos. Este é mais um retrato de como está a fiscalização pública onde ninguém é responsável por coisa nenhuma e onde os barões bem pagos se coçam para dentro e cúmplices de muita falcatrua cospem para o lado. 

         - E todavia, a ladainha das rádios, das televisões, dos jornais, dos políticos, dos autarcas, de toda esta gentalha que nos tem governado, passado o perigo logo retorna ao mesmo rame-rame, aos sorrisos cínicos, aos negócios públicos e privados, remetendo para os ouvintes e espectadores as fórmulas precisas e eficazes da governação, como se estes fossem alguém com as suas ideias e comentários na conjuntura nacional. Recorde-se os incêndios, as muitas propostas para os evitar, e como o ano passado voltaram em força provando que nada foi deito. 

         - Disse-me esta manhã o João que é uma espécie de guarda nocturno, que choveu toda a noite em Lisboa. Eu não ouvi nada, dormindo como durmo. Quando acordei e desci, o aspeto que a quinta tinha, a chuva a cair abundante, abria o quadro do que fora a noite. Nunca o país que eu me lembre, sofrera tão prolongada e triste situação. Praticamente, com especial cuidado para a zona centro e a minha insigne Coimbra, os desastres são muitos e vão precisar de assaz de tempo para serem corrigidos. Tempo e dinheiro, sofrimento e revolta das populações, dos portugueses em geral que vêem o seu país a ficar para trás e as suas vidas reduzidas à pobreza da época de Salazar. Mas os ricos, nunca foram tantos e tão prósperos; a corrupção nunca esteve tão assanhada; a impunidade nunca bateu os recordes de hoje. Grande democracia que trouxeste mais horror e desigualdades, fazes vergonha e puseste no horizonte de atalaia a ditadura que espreita pacientemente o momento para se reinstalar. 

         - Porque falei no João, vou contar o que me disse o motorista da Carris Metropolitana. Cito antes a parábola do João que sabe do que fala, porque enquanto deputado em várias legislaturas, percorreu o país de Norte a Sul, de Este a Oeste. “Caro Helder: os portugueses são maus e invejosos.” Eu não posso afirmar que actos como este sejam frequentes, embora o funcionário me tivesse dito que eu não imaginava o que se passa nos transportes públicos. E o que ele me narrou (peço ao leitor que tape o nariz) foi que naquele mesmo carro que ele conduzia e eu ia entrar, não havia duas semanas, um/a utente, despejou os intestinos no banco traseiro corrido e com cortinados nas costas. No dia seguinte, os passageiros que entravam, denunciavam um cheiro horrível, mas ninguém identificou logo a origem nem o local. Só mais tarde um dos motoristas mandou retirar a posta, mas os protestos dos viajantes prosseguiram. Até que entrou um casal que se foi sentar nos últimos lugares e deu com os cortinados sujos que o/a selvagem tinha usado como papel higiénico. Que fizeram eles, arrancaram-nos e atiraram-nos auto-ónibus fora. As meninas do BE, estou certo, defenderiam os energúmenos, com a máxima de que eles não eram culpados, mas sim a sociedade que não os soube educar.


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

 Quarta, 11.

Demitiu-se Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna, por se sentir incapaz de fazer face à fúria da intempérie e às desgraças que aconteceram por todo o lado. Todavia, é de todo o direito dizer, que ela foi honesta quando falou que estamos todos a fazer um processo de “aprendizagem colectiva”. Os oportunistas, os que querem o poder e a fama a todo o custo, interpretaram à sua maneira algo que a ministra disse com humildade e sapiência, ante um fenómeno natural nunca visto que nos dá a todos a oportunidade de  aprender. 

A verdade, porém, é esta: são culpados do que está a acontecer os que nos governaram nos últimos vinte anos. O país esteve entregue à dupla PS/PSD   que só avançou quando os portugueses se manifestaram nas ruas exigindo trabalho, competência e espírito criativo aos sucessivos governos. A vidinha ronceira, um toque aqui outro acolá, a propaganda ideológica, a corrupção, o compadrio, a falta de fiscalização, o enriquecimento ilícito, as falcatruas disseminaram-se por todo o lado, o poder era exercido quando a população pressionava, os vencimentos muito acima da maioria da população, caíam redondos e chorudos nas suas contas bancárias, a vida estava para quem lhe saísse a grande lotaria do poder. Fazia-se (faz-se) tudo o que as companhias com poder e dinheiro queriam: edifícios sem controlo técnico, postos de alta-tensão junto a propriedades, a pinheiros e a toda a sorte de árvores, gruas cresciam no meio do casario, estradas eram abertas sem nenhuma fiscalização, etc., etc., etc.  Os ministros formam-se nos gabinetes ministeriais, a rua é para o povão. Nas desgraças os lucros crescem, os arruaceiros enriquecem, os políticos demitem-se, a oposição em bicos de pés aproveita as dores e as tristezas para lamber as lágrimas dos infelizes. 

         - Noto que depois de há dois meses ter sofrido dores insuportáveis nas costas que quase me paralisaram, passei a coxear melhor. Daí que, por exemplo, hoje no metro e no autocarro e noutros dias nos mesmos transportes públicos, gente nova me dá o lugar, quer ajudar-me a entrar aqui e acolá. 


terça-feira, fevereiro 10, 2026

 Terça, 10.

Dizem-nos que as receitas fiscais do Estado cresceram mais do que a economia. A isto chamo eu uma economia parasitária. Vivemos continuamente de esmolas, o dinheiro sai e entra dos cofres estatais, mas este movimento não se chama progresso, desenvolvimento, emprego pleno, projectos para o futuro. 

         - Tive uma grande satisfação em saber que o meu amigo de um longo tempo das nossas vidas, apesar dos seus 87 anos, está vivo e continua a fazer longas metragens como director de luz e fotografia em filmes que ficaram para a história: Acácio de Almeida. Privámos muito, almoçávamos com regularidade, e, embora ele não falasse bastante e fosse extremamente discreto, um sorriso pairando sempre no seu rosto sereno, falava eu pelos dois, horas a fio, num ronrom interminável. A vida separou-nos, penso que ele já não vive em Lisboa, mas guardo recordações felizes de um período solto e vivo irmanados pela arte e a amizade. A entrevista que Acácio deu ao Público na edição de domingo, devolveu-me temas e personagens, luares e situações que eu bem conheço. 

         - O affaire Jeffrey Epstein na sequência de milhões de documentos, conversas, fotografias divulgadas pela justiça americana, não chamusca somente Donald Trump, mas todos os grandes vigaristas e pedófilos do mundo moderno. O socialista francês, presidente do Instituto do Mundo Árabe que eu frequento sempre que estou em Paris, Jack Land, apresentou a demissão quando o seu nome engrossou a lista de inúmeros outros, da monarquia inglesa, a Elon Musk, passando por Bill Clinton, Bill Gates, até David Copperfield como o antigo primeiro-ministro de Israel Ehud Barak. A lista é infinda, tudo boa gente, que soube aproveitar-se da fortuna do criminoso em festas galantes, onde o sexo era servido em doses adolescentes.  Como tudo isto vai terminar? Tendo em conta o criminoso máximo, Donald Trump, findará na gaveta funda da história dos tempos presentes. 

         - É curioso analisar as acções dos governantes e como elas os transformam em pessoas diametralmente opostas àquilo que eram quando chegaram ao poder. Dois exemplos: Pedro Sanchéz e Emmanuel Macron. O primeiro não é estimado pelos seus concidadãos; o segundo idem. Os dois têm em comum uma boa imagem do mundo, com diretivas certas sobre os principais assuntos que atormentam o planeta. No caso de Presidente francês, no tocante a Trump, não desarma. As últimas: a Europa não pode “baixar a guarda” face a Donald Trump, que tem uma estratégia “abertamente anti-europeia” e gera “instabilidade permanente”.

         - Dia de uma tristeza sombria. Não pus o nariz de fora, mergulhado na escrita e na leitura, um fundo de música de Vivaldi para alegrar o ambiente, um olhar perdido no destino que me trouxe até aqui. 


segunda-feira, fevereiro 09, 2026

 Segunda, 9.

Como se esperava António José Seguro foi eleito Presidente de Portugal com folga bastante para calar Ventura e poder exercer o cargo com autoridade democrática que os portugueses lhe outorgaram. Foi uma vitória contra a maluqueira do homem do Chega, contra os senis capitães do PS e contra António Costa que o ultrapassou pela esquerda e deixou o país numa rebaldaria. A abstenção e os votos nulos, são inquietantes porque rondam o desinteresse de metade dos portugueses que deixaram de acreditar na democracia. 

         - Esta manhã, continuando sem água, indaguei do Mr. Johnson se havia por aqui uma loja com máquinas automáticas de lavar roupa. O homem sabe tudo e tudo parece corresponder ao que falta a tanta gente. Assim, esta manhã, pelas oito, vi-me numa cena da Aldeia da Roupa Suja na versão tempos modernos. Quando cheguei, observei um punhado de mulheres à roda de umas seis máquinas de lavar e secar, em discussão amena, as vidinhas expostas ao sabor dos sentimentos. Apenas um homem, um rapaz de uns trinta anos, já com pouco cabelo, pró-gordo, olhar vivo, um leve sorriso tímido, também com o seu saco de roupa em fila para vaga de uma máquina. As mulheres falavam pelos cotovelos. O curioso é que eu não entendia nada do que diziam, embora parecessem estar de acordo umas com as outras enquanto o tambor da máquina rodava a bom ritmo. No ecrã ia correndo o tempo, cerca de 30 minutos para lavar e quinze minutos para secar. Eu coloquei-me atrás dele e dele me servi quando chegou a minha veze para tomar contacto com aquela pedra dura dos tempos presentes. Admiro sempre as novas tecnologias que, com efeito, nos facilitam a vida. Os monstros aceitam tudo: cartão bancário, notas, moedas. Nesse entretanto, fomos trocando conhecimento, eu fui tomar café (sem esquecer o registo do tempo no meu telemóvel), ele ficou de vigia aos sacos de roupa e ao términus da lavagem. Como tinha menos roupa, fiquei na máquina mais pequena e mais rápida, coordenada com o peso da roupa que ia lavar. Foi ele mais tarde que me ajudou passar as peças lavadas para a tombola gigante que as ia secar. E deste modo, sob chuva que não parou um segundo, regressei a casa outro solitário mais glorioso de o ser, quando vem em nossa ajuda estas coisas medonhas, modernas e simpáticas que nos emolduram a existência.

         - “Je m´aperçois qu´à mesure que j´avance et que le passé grandit, grandit aussi l´avenir, qui est l´éternité.” Julien Green, pág. 781. Não posso estar mais de acordo.  


domingo, fevereiro 08, 2026

 Domingo, 8.

Dia passajado de luz. Manhã muito cedo enfiei-me no autocarro (ai, este transporte que tanto me encanta!) e fui votar a Lisboa. Passei antes na Brasileira para um café e logo depois meti-me num táxi para o Liceu Passos Manuel, saí directamente para o Corte Inglês onde almocei tranquilo no último andar. Depois sentei-me no pequeno bistrot do primeiro andar para ler os interessantes artigos de Fr. Bentes Domingues e Tereza de Sousa. À meia-tarde regressei a casa.  

         - Quando cheguei à minha zona de voto, às 11 horas, surpreendi-me por não ver ninguém, literalmente ninguém na rua ou nas imediações do velho convento. Assim que franqueei a entrada, tinha apenas no átrio dois dos funcionários que habitualmente encaminham os mais velhos ou os indecisos para as mesas de voto. Fui por ali adentro até à sala onde costumo exercer o meu direito democrático. Como naquela e nas outras assembleias não havia ninguém, entrei de rompante, depositei a minha escolha e zarpei. Pensei: “que raio de eleições são estas! O dia parece ter acordado brilhante de sol, num convite à responsabilidade de cada um, e pouca ou nenhuma pessoa se vê na rua”. 

         - Este pensamento desceu comigo o Chiado, miraculosamente devolvido aos lisboetas como antigamente antes da invasão selvagem do turismo que tanto jeito deu a António Costa mas que dele sua excelência pouco soube beneficiar.  À minha frente, ia um casal de meia-idade, de mão dada, os dois homens feitos, com pinta de portugueses de província, semeando à sua passagem olhares risonhos, palavras cochichadas, pensamentos livres ou prisioneiros de voos que nem todos conseguem alcançar, mas já depositados na lengalenga da vida em comum, onde faltam diálogos e sobra em abundância a monotonia. 

         - Eu não tenho à mão uma mola para o nariz, porque se a tivesse, registaria a história fedorenta que me contou esta manhã o motorista brasileiro da Carris que me depositou na gare do Oriente. Viver como eu vivo desde que deixei a minha ex-vida de contactos amaneirados, bajulando medíocres em lugares corrompidos, lutando contra mim mesmo por mor de outros que tinha a meu cargo, existir desta forma invisível hoje, traz-me uma força criadora de indizível resumo. Ando de baldão com os demais, sou parte desta imensa massa humana que faz crescer os dias e diminuir as noites, que possui uma liberdade que lhes escapa, é senhor absoluto das horas, do rumo dos sentimentos, da verdade que não está à venda nem do lucro que não se expatria para os cofres-fortes nos alçapões do fim do mundo. Este que hoje sou, igual em tudo a todos os outros, carrega a maior liberdade – a que só existe para testemunhar o que o coração não pode guardar e a justiça não logra dispensar. 


sábado, fevereiro 07, 2026

 Sábado, 7.

Foi-se o Leonardo, veio a Marta. Esta ideia de dar nomes aos mafarricos, seria engraçada não fossem as tragédias que esta humanização da desgraça nos causa. Fui há pouco dar uma volta por estas paragens campestres e verifiquei os muitos estragos que a intempérie fez. Há por aqui, talvez porque as pessoas não saem de casa, uma desolação, uma tristeza infinda, o vento forte a impor-se na paisagem que chora as dores de dias e noites deixadas à mercê da tempestade. O meu vizinho também tem árvores tombadas e um portão no chão. O dia hoje até se portou bem, sobretudo depois do almoço com o sol a chegar e a deter-se por toda a tarde. Só o vento com rajas fortes assusta. Contudo, nada a ver com o que nos cercou a mando do Kristin. A boa nova foi o retorno do Black que durante dois dias julgava ter perdido o meu querido amigo. Está mais magro, mas fartou-se de cantar miadas quando me encontrou. 

         - Faz pena, todavia, ver o abandono a que foram votadas populações inteiras, deixadas para trás, no meio de vilas e aldeias cercadas de água, sem comunicações, sem comer, sem energia, sem uma alma que lhes fosse dizer que não estão sós, volvida mais de uma semana da catástrofe. Marcelo foi correto, tanto pela presença como pelos avisos que mandou ao Governo. Os candidatos a Belém, mais ou menos disfarçados de compaixões, trataram da sua vidinha; como fez Luís Montenegro, com aquele seu ar de nariz empinado, rosto ensimesmado, sorrisinho por vezes sardónico que esconde a incapacidade de abarcar os problemas humanos fora do deve e do haver que lhe é exigido. Aliás, todos os membros do seu Governo, mostraram que não estão preparados para as tarefas que se exige deles. Só a propaganda, mais ou menos velada, aflorou.  

         - Ontem, quando cheguei a casa, num espaço que detesto ver: árvores caídas, poças de água, a rede que o cerca tombada, o portão abalroado, os montes de dejectos para queimar, encontro presa nas barras do portão um saco de plástico. Com dificuldade o desembaraço do ferro e quando o abro, encontro uma folha que prontamente leio – um casal belga que me dizia gostar imenso do charme desta casa e pergunta se estaria interessado em a vender. No topo da folha está uma fotografia de dois jovens com uma rapariga que eles no texto dizem ser sua filha de quatro anos e o sonho de poderem vir a viver em Palmela que dizem adorar.


sexta-feira, fevereiro 06, 2026

 Sexta, 6.

Escrevo estas linhas na Fnac. Estive na Brasileira a levar um pouco de conforto moral ao João que atravessa um período de doença que espero seja passageiro. Manhã serena, matizada por luz baixa e um não sei quê que me devolveu para outros tempos quando o Chiado era local de cultura e resistência. Vim no meu sereno autocarro da Carris, atravessando campos onde era visível o horror que sacudiu o país. Tanta desolação por todo o lado, como se tivéssemos sido atacados por uma guerra - tal a imagem de dor e espanto onde os nossos olhos pousam. 

         ~ Os óculos de António Seguro, se for verdade o que me contou um farmacêutico, custaram 5 mil euros! Eu não dava dez reis de mel coado. Que coisa tão horrível e inestética! Domingo vou votar nele, embora não acredite que possa mudar o clientelismo, a corrupção, a falta de honestidade e incompetência da Administra Pública. 

         - Um exemplo. Anteontem andei a saltar de metro em metro e em todas as estações por onde passei as escadas rolantes e elevadores não funcionavam e assim estão há uma data de meses. Todo o funcionalismo público segue este miserável exemplo. Estão protegidos pela imposição dos sindicatos que seguem a ortodoxia salazarenta. O povo que se resigne, o reinado é deles. Que se lixem as mães de bebés nos braços, os velhos trôpegos, os coxinhos coitadinhos, e toda essa gama de reumáticos pouco habituados ao ginásio em que se transformaram hoje as estações do Metro de Lisboa. 


quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Quinta, 5.

Desta vez sobrou para mim. Acordei pelas cinco e meia da manhã com um barulho estranho de qualquer coisa que se havia soltado debaixo da minha janela. Logo pensei que seria o telhado a desabar. Soube quando me levantei às oito, que havia sido um prato grande alentejano que eu tinha na parede, e tinha deslizado por ela abaixo até se enfiar nas almofadas do canapé sem uma beliscadura. O pior veio depois. Quando quis sair com o carro, tinha o caminho até ao portão todo juncado de braços enormes que se tinham rasgado dos cedros gigantes e dos sobreiros que vão desde a casa ao fundo da quinta. Mais ou menos a meio, um grande buraco de onde tinha saído a raiz imensa de um cedro e com ela o cano que leva a água a casa, rebentado. Mais: três ou quatro barrotes de cimento que sustentam a rede que circunda o terreno, tombaram. A maior parte das árvores, caíram para o terreno do meu vizinho e com ele vou ter de me entender. Por agora, o único que se mostrou disponível foi o meu generoso Sr. José Manuel que vem acudir à tragédia depois do almoço. Tenho para várias centenas de euros. O vento não pára; parece mesmo mais agreste. 

         - Ontem, depois de muitas hesitações, fui a Lisboa. Não quis render-me às indecisões da idade, aos obstáculos da intempérie, ao pavor de uma capital paralisada pela chuva forte e constante. Tinha um programa em mente e fui destemidamente realizá-lo. Viajei no meu querido autocarro com meia dúzia de passageiros, sob vento e chuva, o Tejo de barriga cheia, mas em Alcabideche, corajosos homens apanhavam bivalves, indiferentes ao que se passava em terra. Em pára arranca, chegámos a Oriente. Como tinha em mente ir almoçar ao 1800, o meu saudoso restaurante do Largo do Rato, fui dali no metro ao Saldanha, tomei depois a linha azul, e por volta da uma da tarde estava sentado à mesa. Posteriormente fui ver de um fisioterapeuta ao Centro de Saúde, num táxi para o C.I. e a seguir a umas compras, noutro para o oculista onde tinha à minha espera o acerto da lente esquerda dos últimos óculos. Tomei novo táxi que me levou de regresso à estação de metro S. Sebastião para me enfiar no transporte que me levou ao ponto de chegada para voltar a entrar no autocarro de regresso a casa. As horas deste vai-e-vem pela cidade, foram de guarda-chuva aberto, rajadas por vezes fortes de vento, e a imagem de ruas e avenidas lamentavelmente abandonadas ao temporal. Fica-me do dia um estranho e acolhedor sentimento de intimidade com algo, que embora vindo da espessura do tempo, me paralisou nele como memória perene de um fluxo de luz e quietude. 

         - Não vou poder narrar o que me contou um dos motoristas de táxi que ficará para o texto em livro (se publicação houver), mas direi uma parte da nossa conversa. No percurso entre o Campo Pequeno e o Corte Inglês, o homem, não sei a que propósito, perguntou-me onde eu morava. Quando ouviu falar em Palmela, disse-me que não havia muitos dias que tinha transportado um ilustre senhor (nomeia-o) a uma quinta em Quinta do Anjo. Digo-lhe que conheço a personagem e que ela, inclusivamente, em tempos tentou escapar aos impostos quando da compra de uma herdade aqui perto. A conversa avançado calculo que ali havia algum engano. O motorista, então, conta como encontrou o cliente em Lisboa. “Ele entrou aqui no carro e disse-me que o levasse a Azeitão... – Então não é Quinta do Anjo porque essa povoação é que fica encostada a Palmela, digo-lhe eu. – Sim. Sim, é em Azeitão porque ele a dada altura diz-me que ficava mesmo em frente do (o nome do actor seguido do dichote que não vou dizer). Chegados ao portão, o ilustre socialista e homem milionário de negócios, dá-se conta que não tinha as chaves para entrar na mansão. O condutor oferece-se para saltar o muro e chamar o casal de empregados que o cliente lhe diz viver ali com ele e mais dois cães. Aberto o portão, o motorista tem ainda uma subida para a serra, numa imensa propriedade de muitos hectares, com um palácio imenso lá no cimo. Bref. Aberta a porta da vasta residência (aqui entra a parte interessante do socialista em causa), ele diz-lhe que jante com ele e logo se dirige à cozinha e destapa tachos (um com arroz, outro com carne) de maneira a agradecer a proeza do seu condutor. Este recusa ante a insistência do proprietário. Bah! Socialistas destes, gosto...

         - Já não aprecio tanto aqueloutro, de seu nome Conde Rodrigues, amigalhaço de Sócrates, que recebeu 25 mil euros por mês a troco de aconselhamentos blablá. O homem safou-se porque foi secretário de Estado da Cultura, da Administração Interna e da Justiça. Arre! Que competência! Rico homem, sim senhor! Ah, a sumidade trabalhou também para a empresa de Carlos Santos Silva, arguido na Operação Marquês.   

         - O meu salvador andou aí para cima de uma hora e deixou o caminho limpo. Agora já posso sair sem problemas. Virá cá um dia destes (trabalho não lhe falta nesta altura) para cortar as árvores que tombaram para o lado do meu vizinho. Dou comigo a pensar que o que vou gastar com ele, economizo na compra de lenha para o Inverno que vem. 


terça-feira, fevereiro 03, 2026

 Terça, 3.

A quem tiver acesso ao quarto volume do Diário de Julien Green, Toute Ma Vie (Ed. Bouquins), recomendo a leitura das páginas 720 a 725. São trechos dilacerantes do enorme sofrimento do escritor face ao equilíbrio que ele achava imprescindível para viver segundo os mandamentos de Jesus Cristo por um lado e por outro a obsessão pelo corpo de Eros (Éric) que era para ele o demónio transformado no prazer que ambos usufruíam e sem o qual todo o desequilíbrio se instalava. Penso que este sofrimento foi em grande parte o respaldo da sua educação protestante, de uma mãe austera, de um mundo familiar crente ao ponto de se impregnar dos valores tão caros a São Paulo. A noção do pecado carnal hoje praticamente posta de parte pela Igreja, foi no séc. XIX e início do século passado devido às teorias jansenistas de Port Royal, séc. XVII, cujos ecos chegaram até Pascal e outros mais, o mandamento de todos o mais imposto, combatido, explorado e sofrido. Ao longo dos milhares de páginas deste diário pos-mortem, assistimos à luta hercúlea do autor pelo retorno à inocência, pela desistência do corpo e dos sentidos, por um regresso à pureza como se esta já não estivesse impregnada da sua condição humana e, por com seguinte, sob o descontrolo do indivíduo enquanto obra do Criador. O pecado sexual (digamos assim) é parte intrínseca dos impulsos do corpo, algo que durante muito tempo tem difícil controlo e na juventude toma a forma de crescimento a par de todos os outros desenvolvimentos. É uma manifestação (ouso dizer) de liberdade, de grito, de algo que não se confina à moral como não se restringe aos valores sociais e éticos. É o maravilhoso encontro com o outro, consentido para que os dois dele saiam leves e felizes da morada secreta que os juntou. É a natureza tout court libertada para a realização humana. Respeito os clérigos que fazem votos de castidade, e são capazes de ao longo da vida honrar essa decisão, mas penso que Deus deu essa maravilhosa realização humana e, como alguns sacerdotes dizem, estou a pensar em S. Tomás, o chamado pecado da natureza é de todos o que menos ofende a Deus. 

         - Ouvi há pouco um homem simples dar uma grande lição aos políticos e a todos nós: “A mim a política não me governa, só a cultura e o trabalho.” 


segunda-feira, fevereiro 02, 2026

 Segunda, 2.

As malfeitorias climáticas prosseguem. Continuamos com chuva por vezes forte acompanhada de vento veloz e perigoso. Dizem-nos que os rios vão galgar as margens e invadir vilas e cidades. Todo este cenário catastrófico, rima com aquele outro que nos trouxe o Kristin. Os dois candidatos a Belém cheios de piedade e competência, advogam decisões para outros invernos e desgraças a advir. 

         - O mundo está suspenso do que vai acontecer no Irão onde, diz a imprensa, os senhores todos poderosos, mataram para cima de 30 mil pessoas, a maioria jovens posto que o país é constituído de gente a rondar os trinta anos. Entretanto, Putin não desarma e antes de Trump terminar o mandato, terá por inteiro o território devolvido à Rússia. O ditador é feroz e não olha a meios para atingir os fins. As temperaturas deste Inverno rigoroso não param de subir, tendo atingido quase trinta graus negativos. Os ucranianos, sem energia destruída pelo verdugo, vivem momentos difíceis em tendas onde se aquecem e recarregam energias e telemóveis. Também em Gaza, os méritos de Trump para o Prémio Nobel estão claros nas mortes que não param e foram de mais de trinta almas às mãos dos invasores israelitas. O criminoso e corrupto Netanyahu, mantém-se no poder. Num mundo em transformação acelerada, a nossa estimada União Europeia está ausente. 

         - Green chega a ser compungente não só com Deus como para os seus leitores. Ao longo de páginas e páginas, num murmúrio ou ladainha sem fim, ele desarma a sua alma num clamor de preces e interpretações divinas que tarde ou cedo são abafadas pelos prazeres do corpo incendiado de desejos e frustrações sem fim. É certo que o objecto dos seus desejos se mantém firme em MM (Éric). Pensa ele, talvez, que essa obsessão meramente carnal é melhor que andar de rua em rua à procura do imprevisto. Mas, a pouco e pouco, no seu limitado seio de fragilidades e equilíbrios, cresce o ciúme de Robert (o amor da sua vida), e também a preocupação pelo facto de Éric não ter trabalho, nem gostar de trabalhar. Bref. Ele começou a imitar Julien Green e escreveu um romance que o célebre amante ajudou a publicar. (Abro um parêntese para dizer que li um ou outro livro de Éric Jourdan, mas achei-os sem interesse absolutamente nenhum, pese embora as opiniões do futuro pai adoptivo muito elogiosas. Aquilo é pornografia pura e dura onde a homossexualidade é contada de uma forma nojenta.) MM era viciado em sexo (e em dinheiro) e multiplicava as aventuras diariamente. No ano cinquenta e seis não tinha Éric trinta anos e Julien Green aproximava-se dos sessenta. Essa vida airada, não trouxe ao escritor nenhuma espécie de rivalidade muito menos serenidade por ser meramente carnal. A relação sincera e forte era com o seu amor de toda a vida Robert de Saint-Jean.  

         - Hoje daqui não saio, daqui ninguém me tira. Choveu toda a manhã, mas agora o campo encheu-se de sol fraco, luminoso. As folhas das árvores agitam-se numa dança frenética – é a festa que o vento seu parceiro ao bailar expande. 


domingo, fevereiro 01, 2026

Domingo, 1 de Fevereiro.

Dou comigo a magicar que o problema de Donald Trump é a doideira. O homem é maluco, foi corroído pela ganância, pelo seu excessivo ego. Depois, os que estão à sua volta aproveitam-se, oram em torno da imagem senil que se besunta de poder. Os americanos já se deram conta do desvairado que puseram à frente dos destinos do país, a sua impreparação, mas como a Constituição dos EUA dá ao Presidente todas as decisões possíveis e imaginárias ele, sendo Trump, temo-lo rei do universo, inclusive do subsolo das terras profundas onde os metais precisos o levam ao desvario. 

         - Esperemos ruidosos a observar o que vai rebentar no Irão. Trump ocupou praticamente todo o Golfo Pérsico com a tralha do porta-aviões Abraham Lincoln, robusteceu as bases militares americanas no Médio Oriente, colocou mísseis prontos a actuar, enviou centenas de militares e todo este arsenal bélico para quê? O Irão dos Ayatollahs, sendo o que é há 40 e tal anos, respondeu-lhe que experimentasse atacá-lo. Trump não percebe nada da concepção da morte e da vida para os povos persas e outros que por lá pululam. O sacrifício para esses povos é quase desejado enquanto projecção na outra vida em que acreditam fielmente ao contrário dos cristãos que deixaram de admitir que este mundo é apenas uma passagem. Depois existe o próprio regime, sustentado por uma milícia feroz, que protege até à morte o seu chefe nacional e religioso. Se a este governo centralizador e déspota, se juntar a potência que o país é, o seu material nuclear e devastador, eis o quadro que levará a América a deixar em solo estrangeiro os seus melhores filhos. 

         - Na realidade a fúria do Kristin deixou por todo o lado um rasto de morte e destruição. O centro do país está num montão de destroços e as populações sem água nem electricidade, comida e telecomunicações parecem abandonadas à sua sorte. Toda a gente da política usa a desgraça em seu proveito próprio e o Governo, com Luís Montenegro à frente, parece não ter consciência das responsabilidades que lhe compete assumir. Há tantos departamentos, tantos ministros e ministérios, tanta polícia e soldados, e ninguém possui conhecimentos para repor o mínimo de conforto às populações infelizes. Hoje como ontem, hoje como no passado, não sabemos organizar, prever, pensar o futuro. Somos uns tontos alegres ao sabor da vida. 

         - “L´homme scrute le silence, mais le silence scrute l´homme.” Max Picard anotado por Julien Green (pág. 707).