quarta-feira, novembro 22, 2017

Quarta, 22.
Viagem agradável, dia aberto de sol pela primeira vez desde que vim. Tempo agradável, frio q.b.. Chegámos após seis horas de auto-estrada. Mal pousei os meus haveres, fui num passeio à beira-mar, pelo extenso paredão que cerca Kiberen. Um vento fortíssimo varria o centro, o mar agitado cobriu-me de salpicos. Com dificuldade avançava, umas vezes a favor do vento, outras contra numa luta dantesca, aos ziguezagues. Quando ao fim de uma hora me vi em casa, ao quente, respirei de prazer: a promenade havia sido vivificante.

         - João Corregedor telefonou quando eu ia a caminho da Bretanha a saber quando regresso e a dizer-me que não falte ao nosso almoço de Natal, dia 15 do próximo mês. Simpático amigo de uma fidelidade de antanho. Tenho qualquer a dizer sobre esta constatação, reservá-la-ei para depois.


         - Também estive ao telefone com a Conceição, primeira mulher do António Inverno. Mais de meia hora a falar sobre o marido infeliz, quando eu insistia para que desligasse e remetêssemos a conversa para uma futura visita a Sintra onde vive com o filho e os netos. António, nos derradeiros meses de vida deixou Beja, a mulher com quem vivia e tinha um filho, para vir morrer sob a protecção da Conceição que a ele se dedicou como a um filho pródigo. Onde vão as mulheres buscar a heroicidade, a coragem e o alto serviço caritativo? Mistério.

terça-feira, novembro 21, 2017

Terça, 21.
O bom do Christian veio a Paris para se encontrar comigo. Almoçámos juntos e pusemos a vida em dia sob um ambiente descontraído. De seguida, pelo Quartier Latin, embrenhei-me nas muitas livrarias a medir a temperatura às recentes publicações. Como quase todos os dias, voltei a casa com uns quantos exemplares: Petit lexique de Erick Bonnier, D´autres vies que la mienne de Emmanuel Carrière, La Cour du Régent de Saint Simon. Tempo moche. Deixamos Paris amanhã para Quiberon onde ficaremos até sábado.


         - Ontem várias horas de trabalho no Juiz Apostolatos. Satisfeito? Mais ou menos. Todavia, sem saber bem porquê, para o fim da tarde, instalou-se em mim uma alegria branda, espécie de bem-estar interior que me suspendia das horas, me levitava sobre o meu próprio corpo, aprisionando-me num casulo de luz cristalina.

segunda-feira, novembro 20, 2017

Segunda, 20.
Só não vê quem não quer. O Poder, concentrado na economia e no PIB, nos partidos e na propaganda, não se dá conta do que se passa fora dos seus proveitos imediatos. Assim, num total retrocesso ao passado, diante dos nossos olhos estupefactos, com as câmaras de televisão a filmar, homens africanos foram leiloados como escravos na Líbia. A Líbia que a França e Sarcosy ajudou, os Estados Unidos contribuíram para o derrube de Kadafi, todo o mundo pensando que era a democracia que se instalaria com o seu contributo, é hoje um país à deriva, onde se alojaram os assassinos, a desordem, o salve-quem-puder, onde o povo é tratado abaixo de cão e os grandes senhores da guerra enriquecem.

         - A fadiga da grande idade abate-se sobre a Annie, inexoravelmente. Quando cá estou, ajudo no que posso e quando ela deixa. Hoje fomos ao mercado de rua no centro de Saint-Denis. Annie levou consigo 30 euros, eu esqueci-me da carteira em casa. No final, no parque de estacionamento, nem ela nem eu tínhamos dois euros para pagar a saída do carro. Foi o funcionário que nos deu a importância que fez subir a barreira em direcção a casa. Chegados ao jardim, vimos Robert a quem eu contei a aventura que logo replicou: “Oh, là, là une dame milliardaire s´en un sous pour le parking!”

         - Um dos filhos de Annie, chegou da China onde vive há mais de vinte anos para se livrar dos fantasmas da adolescência. Voltou agora por conveniência, atraído pelos milhares que a mãe deu a cada descendente na sequência do leilão dos carros antigos. Vai ficar toda a semana. Esperemos que a estadia não termine como há nove anos em violência e ingratidão.

         - Estou completamente rendido ao talento de Klaus Mann. Com vinte e três anos escreve uma obra que só os escritores com muito mais idade e acumulação de conhecimentos de toda a ordem fazem. Alexandre, romance centrado naquele que foi o Rei dos Macedónios, é um prodígio de ritmo, pesquisa, imaginação e erudição histórica. Estou a ler ao ralenti o último capítulo. Não me apetece sair da sua escrita iluminada, da sua força imagética, da poesia que perpassa nas quase trezentas páginas do livro.


         - Saiu quinta-feira o 14ª volume do Diário de Gabriel Matzneff com o título La Jeune Moabite. Setecentas páginas que eu peguei e larguei por desajustadas (devido ao peso...) a seguir na mala do viajante.

sábado, novembro 18, 2017

Sábado, 18.

Desafiei o Robert a vir comigo à exposição Chrétiens d´Orient. Demorei-me desta vez a admirar ao pormenor as obras expostas, os livros sagrados, as pinturas bizantinas, os Evangelhos traduzidos e impressos em várias línguas, os ícones sagrados ortodoxos, os capitéis, os mosteiros, todo esse património escrito que chegou até nós praticamente intacto, vindo dos primeiros cristãos, mulheres e homens que acreditaram e pela fé deixaram-nos um testemunho impressionante de obras de arte, de símbolos cristãos, de beleza eterna. Dois mil anos de história, contada em imagens intocáveis, que atravessaram continentes, rasgaram desertos, desceram o Mediterrâneo para levar a Boa Nova, chegaram ao Médio Oriente, ao Iraque, Turquia, Síria, Líbano, Egipto, Roma...  As nossas raízes estão ali intactas e no mistério que se adensa - apesar da nossa querida União Europeia querer separar as águas de sangue dos mártires que nos antecederam -, somos levados pela intocável beleza dos nossos antepassados que primeiro do que nós construíram a vida sob o testemunho de Jesus Cristo. É essa narrativa da crença em Deus, essa vontade de fazer da história comum a essência de união entre os povos da terra, na construção material e imaterial que os arquivos documentam, as línguas concertam, a música edifica, que o entendimento e a salvaguarda da paz pode consistentemente materializar-se. Sem esse passado glorioso e difícil, sem essa história vivida pelos primeiros cristãos do Ocidente e do Oriente, a nossa existência fica sem alicerces, sem apoios consistentes, sem testemunhos que credibilizem os nossos actos. Numa sociedade verbalizada pelos valores efémeros da riqueza, do consumo e da desvalorização moral e cívica, a proposta que nos é oferecida pelo Institut du Monde Arabe traduz-se num alerta oportuno sobretudo quando a guerra e a selvajaria varre os países do Médio Oriente. Que a palavra de Cristo tenha dois mil anos, é por si só um mistério que nenhuma outra civilização pode exibir. O Salvador irmanou-nos numa comunidade eterna sob a mensagem nunca antes pronunciada e muito menos vivida – a do Amor.   
Concílio de Niceia em 325 

Mosteiro Mara Sara, Palestina 

O clã de Azeizat, Jerusalém
O padre, a sua mulher e as suas duas filhas 

sexta-feira, novembro 17, 2017

Sexta, 17.
Depois da visita à espantosa exposição do Institut du Munde Arabe, Chrétiens D´Orient Deux Mille Ans D´Histoire, subi a pé até ao Luxenbourg. Andava à procura da obra de Loti Vers l´Ispahan que acabei por encontrar em S. Michel e simultaneamente fazer tempo para a recepção a que Eliette me convidou no seu apartamento da Rue de Saint- Honoré, a dois passos do Louvre e do Palais Royal onde viveu Colette e Cocteau. Belo e simples espaço, decorado a rigor, onde Françoise me aguardava e Annie e Robert se nos juntaram mais tarde. Champanhe do melhor, entrada de fois gras, de queijo, petit fours deliciosos, discussão à mistura sobre tudo e o mais. A anfitriã tem um romance a sair para Janeiro e mostrou-nos as provas em que trabalha arduamente. De raspão falou-se de mim e do meu destino próximo sob as mesmas preocupações. Que os meus amigos têm acompanhado dando-lhes eu a ler os e-mails diários do “meu” editor. Eliette aconselhou-me a vencer as reticências e a avançar. Mais uma. Deixámos a sua companhia já a noite se havia instalado por toda a cidade. O bairro, pela hora tardia, habitado de gente aisés é muito animado, as ruas estreitas com os seus avançados terraços, bistros, cafés, bares onde a vida ferve nas conversas vadias, na vagabundagem fora de horas, um gosto refinado, um leve perfume da Paris de outros tempos circulando no ar.  


Colette e a sua paixão pelos gatos 


Cocteau e Jean Marais 
         
         - Hoje grande deambulação pedestre pela cidade que começou na Place de la Republique, desci depois a grande Rue Turbigo, Rue Saint Martin, Rue du Louvre, Les Hales, Châtelet, atravessei a ponte Napoleão III para entrar na Rive Gauche onde me atirei li-te-ral-men-te para um canapé do café com o mesmo nome e pedi, exausto, uma cerveja fresca. Foram horas de marcha, intervaladas para o almoço num modesto e bom restaurante a meio da Turbigo, com entrada no Fórum e numa loja suspensa do tempo, a D. Dehillerin, que vende tudo para casa, inclusive a poeira que os anos deixaram em cada peça, e onde os empregados idosos e risonhos nos atendem no passo lento que as suas figuras paternais impõem. Cheguei ao fim do dia arrasado, a perna que os homens acariciam com lentidão e tremores excitantes ajudando a outra que as mulheres devoram com ternura e placidez. As duas, sendo irmãs, dissimulam as dores reinventando o prazer das caminhadas com o júbilo desconcertante do entendimento. Hossana!

         - Um pouco por toda a cidade, manifestações contra o Código de Trabalho. Não só da esquerda de Mélenchon, mas também dos sindicatos. Contudo, com fraca mobilização, dando assim margem a que Chou Chou imponha os seus objectivos.


         - Le Figaro foi o único jornal a dar a notícia da nova versão do Pai Nosso, num artigo extremamente interessante e profundo de Jean-Marie Genois. A alteração não é substancial, mas diz tudo do que pensa a Igreja dos nossos dias e das sucessivas traduções que foram sendo feitas à oração de Jesus Cristo. O que foi modificado foi “não nos deixes cair em tentação” por “não nos deixes entrar em tentação”. Esta nova formulação, parece querer dizer que os fiéis não são mais a partir de agora sujeitos por Deus à tentação, mas enquanto seres livres de escolher o mal. Na liturgia antiga era como se Deus querendo o nosso bem, nos condenasse à tentação do mal. A nova, por assim dizer, dá-nos a liberdade de escolher entre o Bem e o Mal. Para se perceber a actual realidade da Igreja, cito monsenhor Guy de Kerimel, bispo de Grenoble-Vienne: “Dieu ne tente pas, Dieu ne nous retire pas toujours de la tentation ou de l´épreve. Il peut se servir de la tentation pour exercer et fortificier la liberté de l´être-humain.” Complicado? Talvez, mas é assim. Eu, contudo, prefiro o texto canónico grego e gosto particularmente do Pai Nosso ortodoxo e da tradução que Frederico Lourenço dele faz do grego. Parece que a raiz desta interpretação, vem de longe e reside no verbo grego “eispherein” que pode crer dizer “submeter”, “pôr à prova” ,“tentar”. Daqui o meu eterno reconhecimento ao helenista de Coimbra.