terça-feira, fevereiro 06, 2018

Terça, 6.
Esta amanhã, no Rossio, cruzei-me numa passagem para piões com este quadro: dois rapazes empurravam uma cadeira de rodas onde ia um outro jovem de uns 25 anos. Logo que ficámos lado a lado, o deficiente, num sorriso que eu interpretei como uma saudação entre pares, baixou a cabeça. Aproximei-me e cumprimentei-o. Perguntei de onde vinha. Ele e os amigos, disseram que tinham chegado ontem de Londres. Ele tirou o boné com um movimento incrível e ficou ainda mais novo com os seus caracóis dourados. Desejei-lhes uma boa estada em Lisboa a recebi um largo sorriso que me encheu o coração. Acresce que o viajante em cadeira, só tinha o tronco, faltando-lhe as pernas e os braços, mas o que possuía era de uma beleza cativante e enternecedora.

         - Longa conversa com o Paulo, Carlos e Mário à mesa do Príncipe sobre Isaías. Percebi que dos quatro só eu o havia lido do princípio ao fim. Pus, portanto, ao serviço dos amigos aquilo que sabia ou havia interpretado do Profeta. De todos o profetas do Antigo Testamento, foi ele que nunca deixei de ler. Possuo várias Bíblias, mas a que me oferece maior independência intelectual é a de Frederico Lourenço, traduzida do grego dos Septuaginta. Mais, do meu modesto ponto de vista, dos profetas judaicos que anunciaram a vinda de Jesus entre os séculos VIII e II a.C., Isaías e Jeremias, são os que largaram a ira de Deus ou pelo menos suavizaram-na, oferecendo-nos páginas da Bíblia com textos notáveis e da melhor e mais poética literatura. Ao assunto voltarei.

         - Mário que é advogado, levantou o problema para ele inconcebível (falávamos das vergonhas que abalam o país) que um juiz tenha o arrojo de telefonar a um colega que está a julgar o processo de um seu amigo, seja benevolente na sentença. Eu saltei-lhe em cima e disse que para mim, era mais criminoso um juiz ter a infeliz ideia de vender uma sentença a troco de uns milhares, como parece ter sido o caso do juiz desembargador Rui Rangel. Se isto se confirmar em tribunal, o homem deve pura e simplesmente, além da prisão, ser afastado da Ordem e proibido até ao fim da vida de exercer a profissão.


         - Os tertulianos que chegavam à Brasileira, vinham com o fogo da indignação ao rubro: amantes da TV logo pela manhã, diziam-se revoltados por três canais abrirem os noticiários matinais com o futebol. “É bem feito – disse – quem vos manda remexer na porcaria tão cedo.”

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Segunda, 5.
Depois dos cataclismos provocados pelas inundações com prejuízos medonhos, a Europa vai de novo entrar num período de frio polar. Em Moscovo as temperaturas já desceram a –30 graus centígrados e a neve acumula-se com mais de um metro nas ruas, árvores tombam com o peso dos cubos de gelo.

O jardim de Annie/Robert, em Paris 

         - O mundo assiste, incrédulo, ao retorno à Guerra Fria. Os EUA vão fabricar novas armas nucleares, mais maleáveis, mais pequenas e mais potentes do que aquelas que largaram em Nagasaki. A Rússia já veio dizer que quer enfrentar a tecnologia americana e não vai ficar para trás.

         - Ontem assisti à missa na belíssima capela do Senhor do Bonfim, em Setúbal. Curiosamente, como poucas vezes me acontece, estive presente do princípio ao fim. Eu explico-me. Normalmente, em concertos de música clássica ou nas missas dominicais, não consigo concentrar-me e o meu cérebro voa por mundos que não tocam de forma nenhuma os espirituais. Às vezes chego a modificar certas partes do livro que estou a escrever, outras invento histórias sem nenhum sentido, recordo factos da minha vida presente e passada, numa cavalgada impressionante. Talvez a minha fé não me convença quanto mais a Deus. Estou em comunhão com Ele, mas ausente no mundo extravagante onde o meu cérebro se compraz em percursos que desacreditam aqueles momentos sagrados. Ainda por cima, o sermão do celebrante, fazia referência a S. Paulo que desde que li as suas Cartas na tradução de Frederico Lourenço, dou comigo a desejar relê-lo – o Evangelista 
que tanto me impressionou.

A bela capela em estilo Barroco do Senhor do Bonfim 

         - Saí da missa, atravessei a cidade, e fui sentar-me na longa mesa do Café da Casa àquela hora com dois ou três clientes. Estava ansioso por voltar ao convívio de Flávio, de Rui que tinha deixado na véspera num hotel, em Sevilha. Radiosas duas horas! O sol entrava pelas vidraças do estabelecimento e batia na mesa de madeira antiga, avivando os tons belíssimos do tampo onde havia livros dispersos para leitura dos habitués. Nas paredes há óleos num alinhamento descontinuo, a atmosfera é convidativa ao trabalho, respira-se conforto contido, silêncio, paz. Na Luísa Todi, não passava quase ninguém. Era domingo antes do dia acordar.

         - Escrevo estas linhas em frente à lareira acesa. Aqui dentro há um universo suspenso da respiração do silêncio, do compasso das horas deitadas no tempo pendente do que chega sem levantar a espuma dos dias. Estou estranhamente calmo, repouso até sobre os filamentos dos nervos que são nesta manhã clara uma teia pelúcida formada em torno do espaço confinado ao circulo dos livros. O turbilhão das ideias é um ciclorama que não pára de rodar. Até quando só Deus sabe. Por mim, estou preparado para um pulo ao outro lado onde a eternidade nos aguarda para recomeçarmos ou continuarmos uma outra qualquer forma de vida.


         - A internet é o depósito de todas as frustrações, dores e esperanças abortadas.

domingo, fevereiro 04, 2018

Domingo, 4.

Reflectindo um pouco mais no que ontem escrevi. A questão das crianças maltratadas sexualmente por pedófilos, também tem muito que se lhe diga. A começar pela idade, pelos condicionalismos económico-sociais, pela cultura e pela vida moderna tal como ela se nos apresenta com a parafernália tecnológica que nos põe em contacto com tudo o que recusamos, mas nos é susceptível de atrair, sobretudo na fase de todas as descobertas. Excluo as aberrações daqueles que violentam crianças, as forçam a fazer o que elas ainda não identificam, as traficam para prisioneiras de monstros hediondos, ferindo o que há de mais sagrado na infância – a inocência. Suponho que seja para estes que Celso Leal, magistrado do Ministério Público, pediu a castração química. Com a qual eu não concordo, encostado ao psicólogo Rui Abrunhosa Gonçalves, que diz que “o problema dos agressores (sexuais) não está da cintura para baixo, mas da cintura para cima”. Esta frase, leva-me para aos cristãos ortodoxos. Por lá, os patriarcas e bispos, consideram pecado apenas o que nasce e se desenvolve da cintura para cima. Bom. Dito isto, aos mancebos adoptados por filósofos e artistas gregos, quase sempre passivos, era o melhor que lhes poderia acontecer. Porque tinham nessa adopção não só o amor e a protecção do mais velho sobre o mais novo, como uma vida de descobertas e ampliação da sua identidade. Não havia violência, quase sempre era só uma escolha que logo se transformava numa espécie de amor aconchegante que traduzia a reciprocidade de quem ama e é amado. Na sociedade de hoje, há uma grande fobia contra aqueles que vêem numa ou num adolescente a tradução de uma sensibilidade que se realiza ocupando o espaço da descoberta que o adolescente quer experienciar e o mais velho pode proporcionar. Há um interesse mútuo, uma troca de afectos, um caminho a desbravar juntos. Estes moralistas que campeiam nos ecrãs de televisão, nos jornais e nas comissões disto e daquilo, desconhecem totalmente o mundo de hoje ou promovem-se alardeando conceitos que estão plasmados em todo o lado, e fazem a unanimidade dos que não usam a sua própria cabeça. De contrário, bastava entrar de vez em quando na internet para se aperceberem da realidade nua e crua que, sob a assinatura de um nick, exprime as naturezas reclusas, fechadas sobre si, prontas a soltar o amor que a sociedade decidiu oprimir e as/os faz sofrer. Em O Pesadelo dos Dias Felizes este tema é largamente tratado. O Amor que une o médico Peter de Santa Clara a Matmatu nasce do anonimato insuportável, que esconde a natureza de cada um e o força a viver em tormento a sua singular condição. Que se exprime no interior de cada um e lhe foi ofertada por uma natureza que foge da uniformização dos sentimentos. Jesus amaldiçoa quem o amor penalizar.

sábado, fevereiro 03, 2018

Sábado, 3.
O menino Miguel diz que Mário Centeno foi julgado nas páginas do Correio da Manhã antes de ser acusado pelo Ministério Público, no negócio estapafúrdio dos bilhetes para ver o Benfica do camarote da presidência do clube. O nosso comentador acrescenta que a Operação Lex, com a sua enxurrada de arguidos (são 13!) em processos sinistros que envolvem o futebol, foi posto na praça pública para encobrir ou disfarçar o caso infeliz do Ministro das Finanças. Estou de acordo com ele no tocante à vergonha do que se disse e pretendeu fazer (o Parlamento Europeu, por exemplo) contra Centeno. Acho, contudo, que o político se pôs a jeito. É ridículo que ele tenha ido pedir ao pacóvio dirigente do Benfica, uma entrada para o filho. O futebol dá cabo da dignidade e da honorabilidade de toda a gente, transformando as pessoas em boçais e em alucinadas criaturas.

         - Esta manhã, depois do café no espaço lindíssimo e agradável aberto recentemente na Luísa Todi chamado Café da Casa, fui deambular pela feira dos brocantes. Sentia-me extraordinariamente calmo, sem pressas, disposto a fruir não só do sol quente do inverno, mas de tudo o que viesse no anzol do acaso. Assim, percorri cada bancada, folheando livros, conversando com este e com aquele, entregue à animação do espaço onde se encontra toda a sorte de gente e artigos. Comprei um exemplar aqui (Sonetos de Antero de Quental prefaciados por António Sérgio), outro além (ABC dos Sabores Portugueses e Mais Alguns) escrito pelo meu saudoso colega do jornal que tanto me ensinou, Roby Amorim. O álbum é uma obra de arte, as fotografias de Jean-Marie del Moral são de uma delicadeza interpretativa fabulosa e o texto do jornalista muito bem escrito e saboroso. A foto dele, remeteu-me para o período em que entrei para o jornalismo e o conheci e com ele privei, um tempo definitivamente enterrado, mas com as memórias de fora a correr tentaculares na textura obsidiante dos meus dias.

         - Por todo o lado, fala-se em violência sexual. De repente, toneladas de mulheres acusam este e aquele de as ter violado: no mundo do cinema, da televisão, do desporto, da Igreja, das empresas, etc. A informação encontrou mais um tema excitante para se estender em laudas incandescentes de moralidade e estudo da psicopatologia do voyeurismo, de histórias de alcova onde a humilhação confere o picante que incendeia a libido de multidões de amorfos sexuais. Eu condeno - como os meus leitores tantas vezes constataram ao longo dos anos que leva este Diário - toda e qualquer forma de violência, actividade sexual não consentida por ambas as partes, e, sobretudo, com crianças indefesas. Dito isto, também não entro na histeria actual. Quantas mulheres feitas, rapazes, digamos, machos, se deitaram de cócoras para conseguirem os seus intentos, realizar os seus sonhos patetas? Quantas delas e deles não tiveram até pelo meio uma noite de prazer inusitado? Todos sabemos que certas actividades e meios ligados ao mundo do cinema, da música, da televisão, são uma caixa de surpresas que destrona muitas vezes a rapariga mais casta e o rapaz mais possante. Mas sobre isto, bico calado.


         - Sobra de uma semana atípica como esta que hoje termina, a novela espanhola. O Constitucional recusou o recurso do Governo contra a posse de Puigdemont que continua na Bélgica e se recusa a regressar a Espanha enquanto não tiver garantia de não ir parar à prisão. Mas foi ele que ganhou a eleições, quero dizer, é ele que tem a maioria no Parlamento Catalão. Portanto...

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Sexta, 2 de Fevereiro.

Eu tenho vergonha de ser português, nojo dos nossos governantes, asco a toda esta miserável gente que se aproveita dos cargos para traficar influências, enriquecer, roubar. Que respeito nos pode merecer uma classe política que andou calada durante tantos anos ante a corja de ladrões que nos governou, governando-se. O Papa dizia que a corrupção empobrece os pobres. Luminosas palavras. Porque é para ela que vão os nossos impostos, a tristeza dos hospitais, a falta de cultura das novas gerações, a frivolidade das televisões, o obscurantismo, a arrogância dos patetas do futebol, a impunidade construída nas centrais de advocacia, o lodaçal corporativo que camufla os interesses de uns e outros. É vê-los desfilar nos ecrãs de televisão com aqueles corpos esponjosos, aqueles rostos de assassinos, aquela arrogância de quem se sente protegido e sabe que a imunidade pode ser comprada ao mais alto filão do gangsterismo. Se viver em democracia é este calvário de desilusões e frustrações, que venha o iluminado porque ao menos sabemos ao que vem. Desgraçado país que consente todos estes criminosos sem se revoltar. Até onde suportará ele estes esquemas degradantes?